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STEPHEN KING À ESPERA DE UM MILAGRE
STEPHEN KING À ESPERA DE UM MILAGRE

 

STEPHEN KING
À ESPERA DE UM MILAGRE
The Green Mile
Título original: THE GREEN MILE
Foto da capa: (r) ADS Tom Hanks no filme À espera de Um Milagre de Frank Darabont
Copyright (r) 1996 by Stephen King Ilustrações (c) Mark Geyer 1996 Impresso e encadernado para Círculo de Leitores por Tilgráfica, S. A. Lugar do Bairro - Ferreiros, Braga em Maio de 2000 Número de edição: 4837 Depósito legal número 150 036/00 ISBN 972-42-2244-6
INTRODUÇÃO
Eu sofro de ciclos de insónia - um facto que não surpreenderá as pessoas que leram as crónicas das aventuras de Ralph Roberts; em consequência disso, tento ter sempre à mão uma história que possa ler nessas noites em que o sono se recusa a vir ao meu encontro. Enquanto estou deitado na escuridão, conto a mim mesmo essas histórias, escrevendo-as na minha mente, tal como se as estivesse a
passar a papel numa máquina de escrever, ou para o ecrã de um computador através de um processador de texto; acontece com frequência regressar atrás para alterar algumas palavras, acrescentando pensamentos ou eliminando orações, ou até elaborando os diálogos. Todas as noites recomeço este processo desde o início, adiantando sempre um pouco mais antes de sucumbir ao sono. Geralmente, por volta da quinta ou sexta noite, já tenho memorizados alguns trechos completos de prosa. É muito provável que este hábito possa parecer um pouco irracional, mas ó certo é que me acalma o espírito... e, como forma de matar o tempo, podem crer que leva a palma, e com grande vantagem, a contar carneiros.
Em última análise, estas histórias acabam por sofrer um certo desgaste, à semelhança de um livro que se lê repetidamente. ("Deita-o fora e compra um outro novo, Stephen", diria a minha mãe por vezes, lançando um olhar irritado para o livro aos quadradinhos, ou livro de bolso, que tão da minha preferência eram. "Esse já foi lido até ter ficado aos bocados.") Nessas alturas, chega a hora de procurar um outro e, durante os meus ataques de falta de sono, tenho esperanças de que ao fim de pouco tempo me ocorra uma nova história, uma vez que as horas em que não se consegue conciliar o sono são extremamente alongadas.
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Por volta de 1992 ou 1993, eu andava a elaborar uma história de nome "Aquilo Que Nos Desperta o Olhar." O tema era um homem que se encontrava no corredor da morte - um
indivíduo de raça negra e de constituição gigantesca - o qual começou a adquirir o gosto pelos truques de prestidigitação, à medida que a data da sua execução se aproximava. A história seria narrada na primeira pessoa por um velho prisioneiro de confiança, cuja função era percorrer os corredores dos blocos de celas empurrando um carrinho cheio de livros, vendendo também cigarros, novidades e vários outros artigos, tais como tónico para o cabelo e pequenos aviões feitos de papel encerado. No fim da história, exactamente antes da execução, eu queria que o gigantesco recluso, Luke Coffey, se fizesse desaparecer a si próprio.
Era uma boa ideia, não obstante a história não estar a agradar-me. Tentei moldá-la de cem maneiras diversas, pelo menos foi o que me pareceu na altura, embora continuasse a
não resultar como eu pretendia. Dei ao narrador um rato de estimação que costumava acompanhá-lo no carrinho, convencido de que talvez aquilo contribuísse positivamente para o desenrolar do enredo, mas tal não aconteceu. A melhor parte da narrativa era a abertura: "Isto aconteceu em 1932, quando a penitenciária estadual ainda se situava em Evans Notch... bem como, é claro, a cadeira eléctrica - a que os reclusos chamavam "Velha Faísca"." Na minha opinião, aquele trecho possuía o efeito desejado; no entanto, nada do resto resultava como eu queria. Finalmente, acabei por me descartar de Luke Coffey, assim como das suas moedas que desapareciam como que por magia, a favor de uma fábula acerca de um planeta onde as pessoas, por qualquer razão desconhecida, se transformavam em canibais sempre que chovia... Continuo a gostar dessa; portanto, nada de dizer mal, estão a perceber?
Foi então que, mais ou menos um ano e meio depois, me voltou a ocorrer a ideia do corredor da morte, mas desta feita com uma abordagem totalmente diversa: suponha-se, pensei,
que o tipo gigantesco era uma espécie de curandeiro, em vez de ser um aspirante a prestidigitador, um atoleimado que havia sido condenado por assassínios que não só não poderia ter cometido, como também tentara reverter...
Concluí que essa história era boa de mais para ser imaginada antes do adormecer, embora a tivesse iniciado na escuridão, ressuscitando o parágrafo de abertura, citando-o quase
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palavra por palavra, enquanto em pensamento ia estruturando o primeiro capítulo, antes de começar a escrever o texto. O narrador transformou-se num guarda do corredor da morte, em vez de ser um recluso de confiança, enquanto Luke Coffey se tornou John Coffey (no que eu tirava o chapéu a William Faulkner, cuja figura de Cristo é Joe Christmas), enquanto o rato se transformava em... pois bem, Mister Jingles.
Desde o princípio que eu sabia que se tratava de uma boa história, embora fosse um texto tremendamente difícil de escrever. Na altura, havia outros trabalhos na minha vida que me pareciam ser mais fáceis de abordar - a mini-série para a televisão baseada no livro Shining era uma delas - pelo que À espera de Um Milagre - The Green Mile se mantinha numa fase muito pouco consistente. Sentia-me como se estivesse a dar origem a um mundo quase a partir do nada, uma vez que os meus conhecimentos em relação à vida no corredor da morte eram quase nulos, com relação ao período da Grande Depressão no Sul. É claro que o trabalho de pesquisa poderia remediar esse tipo de lacuna; no entanto, eu tinha a impressão de que esse trabalho de pesquisa poderia vir a aniquilar a frágil sensação de espanto que eu descobrira na minha história - uma parte de mim mesmo estava bem ciente, desde o início, que aquilo que eu desejava era o mito e não a realidade. Por conseguinte, segui em frente, compilando palavras na esperança de que me surgisse um elemento renovador, uma qualquer manifestação inspiradora, uma espécie de milagre sob a forma de um mero lugar-comum.
Esse milagre chegou sob a forma de um fax enviado por Ralph Vicinanza, o meu agente literário no estrangeiro, o qual falara com um editor britânico a respeito de publicações em fascículos, que Charles Dickens utilizara havia um século. Ralph indagara - da maneira desinteressada de quem não espera que a sua ideia venha a concretizar-se - quais as probabilidades, caso eu estivesse interessado em tentar essa modalidade de publicação. Ó pá, dei um salto de alegria perante aquela possibilidade. Compreendi de imediato que, se desse o meu acordo a um projecto dessa natureza, seria forçado a terminar À espera de Um Milagre - The Green Mile. Assim, sentindo-me na pele de um soldado romano a lançar fogo a uma ponte sobre o Rubicão, telefonei ao Ralph e pedi-lhe que concretizasse o negócio. Ele assim fez, e o resto já é do vosso conhecimento. John Coffey, Paul Edgecombe, "Brutos Howell,
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Percy Wetmore... estas personagens assenhorearam-se do texto e deram forma à narrativa. Aconteceu tudo de uma maneira absolutamente inesperada.
À espera de Um Milagre - The Green Mile teve junto do público uma aceitação mágica que eu jamais esperara que viesse a ter; na realidade, tinha mesmo a impressão de que
poderia muito bem vir a revelar-se um desastre em termos comerciais. A reacção por parte dos leitores foi extraordinária e, desta feita, até mesmo a maioria dos críticos literários aproveitou a boleia. Estou convencido de que devo muito da aceitação popular que o livro mereceu às inteligentes sugestões que a minha mulher fez, enquanto grande parte do seu sucesso comercial se deve ao trabalho esforçado levado a cabo pelos, funcionários da Dutton Signet em prol deste volume.
Não obstante estes contributos, a experiência em si mesma pertence-me inteiramente. Escrevi como se fosse um tresloucado, tentando acompanhar o ritmo alucinante da progra
mação editorial, ao mesmo tempo que me esforçava por estruturar o livro de forma a que cada fascículo possuísse o seu próprio pequeno clímax, esperando que tudo acabasse por enquadrar-se e sabendo de antemão que seria crucificado se tal não viesse a acontecer. Houve uma ou duas ocasiões em que perguntei a mim próprio se Charles Dickens teria sentido a mesma coisa, esperançado de que as questões levantadas pelo enredo encontrassem as respostas em si mesmas; suponho que ele deve ter passado pela mesma coisa. Felizmente para ele, Deus concedeu ao velho Charles um pouco mais no departamento do talento.
Recordo-me que me ocorreu por uma ou duas vezes que deveria estar a conspurcar o espaço em meu redor com os anacronismos mais ultrajantes, mas veio a verificar-se que estes eram inacreditavelmente escassos. Até mesmo o pequeno segmento de "livro aos quadradinhos picantes" onde surgem Popeye e Olívia Palito veio a provar ser um filão de ouro: na sequência da publicação da Parte Seis, houve alguém que me enviou uma fotocópia desse livro aos quadradinhos, que foi publicado por volta de 1927. Numa sequência memorável, Wimpy está a espancar Olívia enquanto ao mesmo tempo come um hambúrguer.
Por Deus!, não existe nada como a imaginação humana, não é verdade?
No seguimento da publicação triunfante de À espera de
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Um Milagre - The Green Mile, verificou-se um grande número de discussões acerca de como - ou se - deveria ser compilado num só volume completo. A publicação em fascículos era para mim um ponto bastante delicado, o mesmo acontecendo em relação a alguns leitores, uma vez que o preço era demasiado elevado para um livro de bolso; cerca de dezanove dólares pelos seis fascículos (consideravelmente menos se adquirido numa discount bookshop). Por esse motivo, a solução de o conjunto ser comercializado numa caixa nunca me pareceu ser a melhor. Este volume, um livro de capa mole a um preço mais módico, talvez seja a solução ideal. Portanto, aqui está a maior parte do texto tal como foi editado pela primeira vez (alterei o momento em que Percy Wetmore, imobilizado num colete-de-forças, ergue a mão para limpar o suor do rosto).
Num futuro próximo, gostaria de poder revê-lo completamente, transformá-lo no romance que neste formato não consegue ser em toda a acepção da palavra, voltando a publicá-lo. Até que essa ocasião se me depare, esta é a única alternativa. Sinto-me satisfeito por ter havido tantos leitores a quem esta obra agradou. E querem saber uma coisa? Afinal veio a transformar-se numa bela história para ler antes de adormecer.

STEPHEN KING Bangor, Maine 6 de Fevereiro de 1997
PREFÁCIO: UMA CARTA
27 de Outubro de 1995


Caro Leitor Constante,
A vida é um negócio deveras caprichoso. A história que tem início neste pequeno livro existe nos moldes presentes por causa de uma observação ocasional feita por um agente de bens imobiliários que nunca conheci. Isso aconteceu há um ano em Long Island. Ralph Vicinanza, um amigo de há muito e meu associado de negócios (em essência, a sua actividade é comercializar no estrangeiro os direitos relativos a livros e histórias), tinha acabado de alugar uma casa nessa localidade. O agente da imobiliária comentou que a propriedade "parecia ter sido tirada de uma história de Charles Dickens".
Aquela observação continuava gravada nos pensamentos de Ralph quando deu as boas-vindas ao primeiro convidado que recebeu, o editor britânico Malcolm Edwards. Repetiu o comentário a Edwards e ambos encetaram uma conversa trivial acerca de Dickens. Edwards mencionou que este escritor tinha publicado muitos dos seus romances em fascículos, quer inseridos em suplementos de revistas, quer por si próprios sob a forma de pequenos livros populares (publicações de dimensões mais pequenas do que o livro habitual, os quais sempre me mereceram grande apreço pela intimidade e cordialidade que inspiram). Alguns desses romances, acrescentou Edwards, eram escritos e revistos quase na data da publicação; ao que tudo indica, Charles Dickens era um romancista a quem os prazos estipulados não assustavam por aí além.
Os contos de Dickens em fascículos eram imensamente populares; de facto, eram tão populares que um deles desencadeou uma tragédia em Baltimore. Um vasto número de admiradores de Dickens apinhou-se numa doca, bem junto à linha de água; em antecipação à chegada do navio inglês que transportava a bordo o fascículo final de A Loja de Antiguidades. De acordo com o que a história nos diz, vários dos potenciais leitores foram empurrados para a água, tendo-se afogado.
Não me parece que tanto Ralph como Malcolm desejassem que qualquer pessoa se afogasse, mas tal não os impediu de sentirem uma certa curiosidade quanto ao que poderia vir
a acontecer, caso se experimentasse a publicação de obras em fascículos nos nossos dias. Na ocasião, nenhum deles se apercebeu de imediato que isso já fora feito (na realidade, não existe nada de novo sob o Sol), pelo menos em duas circunstâncias. Tom Wolfe publicou a primeira edição do seu romance A Fogueira das vaidades na revista Rolling Stone, e Michael McDowell (The Amulet, Gilded Needles, The Elementals e o argumento cinematográfico Beetlejuice - Os Fantasmas Divertem-se) publicou um romance com o título Blackwater em fascículos de capa mole. Esse romance - uma história de horror sobre uma família do Sul com a desagradável característica familiar de se transformarem em aligatores - não foi o melhor da safra de McDowell, o que em qualquer dos casos não impediu que a Avon Books tivesse obtido um grande êxito.
Mais ainda, os dois homens começaram a especular sobre o que poderia acontecer se um escritor de ficção popular tentasse publicar na nossa época um romance em fascículos, sob
a forma de pequenos livros de bolso - livros de capa mole de dimensões reduzidas ao preço de uma libra ou duas na Grã-Bretanha, ou talvez por quatro dólares nos Estados Unidos (onde a maior parte dos livros de bolso, presentemente, é comercializada ao preço de seis dólares e noventa e nove cêntimos ou sete e noventa e nove). Alguém como Stephen King poderia embarcar numa experiência interessante como essa, disse Malcolm e, a partir daí, a conversa enveredou por tópicos diferentes.
Ralph, até certo ponto, esqueceu-se daquela ideia, embora esta tivesse voltado a ocorrer-lhe no Outono de 1995, aquando do seu regresso da Feira do Livro de Frankfurt, um certame internacional onde todos os dias surgem oportunidades de negócio para agentes literários estrangeiros como Ralph. Juntamente com outros assuntos, a maior parte dos quais me
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receu automaticamente a minha recusa, abordou a ideia da edição desses pequenos fascículos.
r1o entanto, esta última questão não teve uma recusa automática; ao contrário da sugestão de uma entrevista na Playboy japonesa ou uma digressão com todas as despesas pagas pelas repúblicas do Báltico, esta acendeu uma centelha na minha imaginação. Não me tenho na conta de um Dickens da era moderna - se tal pessoa existe, provavelmente ela será John Irving ou Salman Rushdie - contudo, sempre gostei de histórias narradas em episódios. É uma .forma literária com que deparei pela primeira vez no Saturday Evening Post e que me agradou, porque o final de cada episódio tinha o efeito de quase tornar o leitor num participante, em paralelo com o escritor: tinha-se pela frente toda uma semana em que se poderia tentar imaginar o desenrolar da acção. Além disso, uma pessoa lia e experimentava essas histórias com maior intensidade, pelo menos era essa a impressão que eu tinha, porque eram racionadas. Era impossível ler sofregamente, ainda que fosse isso o que se pretendesse (e se o enredo fosse bom, era o que se faria).
No entanto, melhor do que tudo, em minha casa elas eram frequentemente lidas em voz alta - numa determinada noite seria o meu irmão David, no dia seguinte a leitura caberia a mim próprio, a minha mãe lia na terceira noite, após o que a leitura seria retomada pelo meu irmão. Era uma ocasião rara em que podíamos desfrutar em conjunto de uma obra literária, tal como desfrutávamos dos filmes a que assistíamos e dos programas de televisão (Rawhide, Bonanza, Route 6, que costumávamos ver; era um acontecimento que tinha lugar em família. Só anos mais tarde é que vim a descobrir que os romances de Dickens haviam constituído acontecimentos partilhados pelas famílias da sua época, quase da mesma maneira, com a diferença de que essas pessoas agonizavam à beira das lareiras pela sorte de Pip, Oliver e David Copperfield ao longo de vários anos em vez de um par de meses (nem as séries mais alongadas do Post ultrapassavam muito mais do que oito fascículos).
Havia ainda um outro aspecto que me agradava bastante relativamente a esta ideia; um incentivo que eu desconfiava que só os escritores de romances de suspense, ou de histórias fantasmagóricas, é que poderiam apreciar em toda a sua amplitude: numa história publicada em fascículos, o escritor
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consegue ter uma ascendência sobre o leitor que não tem em nenhuma outra forma literária: colocando o assunto de uma forma bastante simples, Leitor Constante, é-lhe impossível folhear umas páginas para a frente, a fim de ver como é que a história acaba. Ainda me recordo de uma ocasião em que entrei na nossa sala de estar, teria eu uns doze anos, e vi a minha mãe sentada na sua cadeira de baloiço preferida, a espreitar as páginas finais de um livro de bolso da Agatha Christie, enquanto o dedo marcava a página onde ela ia, e que seria à volta da número cinquenta. Fiquei estarrecido e disse-lho (não se esqueçam que nessa altura eu tinha doze anos, uma fase da vida em que os rapazes começam a compreender vagamente que sabem tudo), dando-lhe a entender que o facto de se ler o final de um romance de mistério antes de se chegar lá era a mesma coisa que comer o recheio dos bolos com creme e depois deitar fora o resto do bolo. A minha mãe soltou aquela sua maravilhosa gargalhada em que não se detectava o mínimo constrangimento, dizendo-me que talvez fosse assim, mas que, por vezes, não era capaz de resistir a essa tentação. A cedência perante as tentações era um conceito que eu podia compreender facilmente; apesar de só ter doze anos, já o fizera muitas vezes. Ora, aqui está finalmente uma cura divertida para essa tentação. Até o último fascículo chegar às livrarias, ninguém saberá como é que o enredo de À espera de Um Milagre - The Green Mile terminará... e, muito possivelmente, eu também não.
Embora não houvesse maneira de ele o ter sabido antecipadamente, Ralph Vicinanza abordou o assunto de um romance em fascículos numa altura em que, para mim, era o mo
mento perfeito em termos psicológicos. Já há algum tempo que eu andava a acalentar uma ideia para uma história relativa a um assunto que sempre desconfiara que acabaria por abordar: a cadeira eléctrica. A Velha Faísca fascinava-me desde que vira o meu primeiro filme com James Cagney, e as primeiras narrativas que li sobre o corredor da morte (num livro cujo título era Twenty Thousand Years in Sing Sing, escrito por Lewis E. Lawes) excitaram a faceta mais sombria da minha imaginação. Qual seria a sensação, perguntava eu a mim mesmo, de percorrer aqueles últimos quarenta metros até à cadeira eléctrica, sabendo antecipadamente que a morte nos esperava? O que se sentiria ao desempenhar o papel do homem cuja missão era prender o condenado com correias à
cadeira... ou accionar a alavanca do quadro eléctrico? O que é que aquela espécie de tarefa exigiria de um indivíduo? Ainda mais sinistro, o que é que poderia acrescentar a uma pessoa?
De uma maneira que se resumia sempre a algumas tentativas exploratórias, eu tinha experimentado estas noções básicas numa série de trabalhos ao longo dos últimos vinte ou
trinta anos. Já escrevera um romance de êxito cuja acção de° ~inha mais
corria na prisão (Os Condenados de Shawshank),
ou menos chegado à conclusão de que, provavelmente, aquela seria a minha única incursão nesse tema quando esta ideia começou a tomar corpo na minha mente. Havia vários aspectos neste assunto que me agradavam, mas nada mais que a voz essencialmente decente do narrador, honesto, discreto talvez um pouco assombrado, ele é o narrador ao estilo de Stephen King, se é que tal coisa alguma vez existiu. Nesta conformidade, lancei-me ao trabalho, começando e parando. A maior parte do segundo capítulo foi escrito durante uma espera forçada, devido à chuva, no Parque Fenway!
Quando Ralph me telefonou, eu já tinha preenchido um bloco de apontamentos com páginas manuscritas de À espera de Um Milagre - The Green Mile, e compreendi que estivera a estruturar um romance, quando deveria ter gasto o meu tempo a arrumar a minha mesa de trabalho, para poder trabalhar na revisão de um livro que já tinha escrito, Desperation. No ponto em que já me encontrava em relação à Mile, habitualmente só existem duas escolhas: pôr a obra de lado (para muito provavelmente nunca mais lhe pegar) ou remeter tudo o mais para segundo plano e prosseguir, dando forma ao enredo.
Foi então que Ralph sugeriu uma terceira alternativa possível: uma narrativa que poderia ser escrita da mesma maneira que viria a ser lida - em fascículos. Também me agradava o aspecto deveras arriscado que envolvia aquela tarefa: não cumpras os compromissos assumidos, e de repente terás um milhão de leitores que clamarão em simultâneo, e aos uivos, pelo teu sangue. Ninguém tem melhor conhecimento desta particularidade do que eu próprio, a não ser o meu secretário, Juliann Eugley; todas as semanas recebemos dezenas de cartas encolerizadas que exigem o novo livro do ciclo de Dark Tower (paciência, seguidores de Roland; mais ou menos outro ano e a vossa espera chegará ao fim, prometo-vos). Uma dessas cartas vinha acompanhada por uma polaróide que mostrava um ursinho de peluche acorrentado, com uma mensagem
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escrita em letras recortadas de cabeçalhos de jornais, assim como de capas de revistas: PUBLIQUE O PRÓXIMO LIVRO DA DARK TOWER IMEDIATAMENTE OU O URSO MORRE, dizia essa mensagem. Pendurei-a no meu gabinete para recordar a mim mesmo tanto a responsabilidade que assumira, como o facto maravilhoso de ter pessoas que efectivamente se interessavam - um pouco - pelas criaturas que eram fruto da imaginação do escritor.
Seja como for, decidi publicar À espera de Um Milagre - The Green Mile numa série de pequenos fascículos de capa mole, ao estilo do século xix, e só espero que me escre vam e me digam: (a) se gostaram da história e (b) se vos agradou o sistema de publicação, pouco utilizado mas bastante divertido. Não há dúvida que deu energia à passagem a papel da narrativa, embora de momento (um fim de dia chuvoso de Outubro de 1995) ela esteja longe de estar concluída, apesar de já se encontrar na forma de rascunho e o fim do enredo continua um pouco em dúvida. Mas isso faz parte do empolgamento de toda a história. Nesta fase, é como se me encontrasse a conduzir por entre um manto espesso de nevoeiro, com o acelerador a fundo.
Acima de tudo, gostaria de vos dizer que, embora possam obter desta leitura apenas metade do prazer que eu senti ao escrevê-la, não nos teremos saído nada mal. Apreciem esta história... e porque não lê-la em voz alta na companhia de um amigo? Ainda que não haja outro motivo, encurtará o período de espera até que o próximo fascículo seja posto à venda na vossa banca de jornais ou livraria.
Entretanto, espero que vivam com cuidado e que sejam generosos uns para com os outros.
SETPHEN KING
Parte Um

AS DUAS RAPARIGAS MORTAS
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Isto aconteceu em 1932, quando a penitenciária estadual ainda se situava em Cold Mountain... Bem como, é claro, a cadeira eléctrica.
Os reclusos costumavam dizer piadas açerca da cadeira, da forma que as pessoas têm por hábito troçar sempre daquilo que lhes incute medo, sem que consigam afastar-se dessas
mesmas coisas. Chamavam-lhe "Velha Faísca" ou "Grande Fritadeira". Diziam piadas relativas à conta da electricidade, e como o director Moores iria cozinhar o seu peru do jantar do Dia de Acção de Graças desse Outono, uma vez que a mulher, Melinda, se encontrava demasiado doente para poder cozinhar.
No entanto, para os que-eram realmente obrigados a sentar-se nessa cadeira, o humor desaparecia rapidamente da situação. Durante o período de tempo que passei em Cold Mountain, tive oportunidade de assistir a setegta e oito execuções (este é um número em relação ao qual nunca me senti confundido; recordar-me-ei dele até mesmo no meu leito de morte) e tenho a impressão de que; para a maiória desses homens, a verdade do que estava a acontecer-lhes penetrava finalmente nas suas mentes no momento em que sentiam os tornozelos a serem presos ao carvalho sólido das pernas da Velha Faísca. Era nessa altura que se instalava a percepção (que se podia ler nos seus olhos e que se traduzia numa expressão de frio desalento) de que as próprias pernas haviam chegado ao termo da sua carreira. O fluxo sanguíneo continuava a deslizar pelos seus organismos, os músculos continuavam fortes; no entanto, estavam acabados, jamais voltariam a percorrer outro quilómetro pelo campo, tão-pouco voltariam a ter a oportunidade de dançar com uma rapariga
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num baile no celeiro. Os clientes da Velha Faísca tomavam conhecimento das suas mortes dos artelhos para cima. Havia um saco de seda negra que lhes cobria a cabeça, depois de terem concluído os seus derradeiros comentários incoerentes e em grande parte desarticulados. Em princípio, aquilo era em seu beneficio; eu sempre estive convencido de que na realidade se destinava a nós, para nos impedir de presenciar a pavorosa vaga de terror que se espelhava nos seus olhos quando percebiam que estavam prestes a morrer com os joelhos dobrados.
Em Cold Mountain não existia um corredor da morte, apenas o Bloco E, distanciado dos outros quatro e tendo mais ou menos um quarto do seu tamanho, construído em tijolo em
vez de madeira, com um telhado horrível de metal na sua cor natural, que durante o sol do Verão cintilava como se fosse um globo ocular em delírio. No interior, havia seis celas, três de cada lado de um amplo corredor central; cada uma delas tinha quase o dobro do tamanho das celas existentes nos outros quatro blocos. Também eram ocupadas por um único recluso. Umas acomodações fantásticas, levando em consideração que se tratava de uma prisão (especialmente durante a década de 30); todavia, os prisioneiros tê-las-iam trocado de bom grado por qualquer cela nos outros quatro blocos. Acreditem em mim, eles não teriam mostrado a mínima hesitação.
Nunca houve um único período durante todos os anos que ocupei o lugar de superintendente de bloco celular em que essas seis celas estivessem ocupadas ao mesmo tempo - gra
ças a Deus pelos pequenos favores. Quatro era o número máximo, negros e brancos à mistura (em Cold Mountain não se verificava qualquer tipo de segregação racial entre os mortos-vivos); aquele lugar era um pequeno pedaço do inferno. Um destes reclusos era uma mulher, a Beverly McCall. Era tão negra como o ás de espadas e de uma beleza tão grande como o pecado que nunca temos a coragem de cometer. Suportara seis anos de espancamentos por parte do marido, embora não estivesse disposta a aguentar a sua traição por um só dia que fosse. Na noite em que descobriu que ele a enganava, fez uma espera ao infeliz Lester McCall, conhecido pelos amigos (e, presumivelmente, pela sua amante de duração extremamente curta) pelo nome de Cutter, tendo-se colocado ao cimo das escadas que davam acesso ao apartamento por cima da barbearia do marido. Esperou até ele ter o sobretudo meio
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despido e deixou cair as suas entranhas infiéis nos sapatos de duas tonalidades que ele usava. Serviu-se de uma das navalhas do próprio Cutter para o esquartejar. Duas noites antes do seu encontro marcado com a Velha Faísca, chamou-me à sua cela para me dizer que fora visitada em sonhos pelo seu pai espiritual africano. Este dera-lhe instruções para que se libertasse do seu nome de escrava, a fim de morrer com o seu apelido de mulher livre, Matuomi. Foi esse o seu pedido, que a sua sentença de morte fosse lida com o nome de Beverly Matuomi. Imagino que o seu pai espiritual não lhe tenha atribuído um nome próprio, ou pelo menos um que ela pudesse identificar. Eu disse-lhe que sim, que não haveria qualquer problema em satisfazer o seu pedido. Uma das coisas que aqueles anos em que trabalhei como mandão-chefe me ensinaram foi nunca recusar o pedido de um condenado, a menos que a isso fosse absolutamente forçado. No caso de Beverly Matuomi, tal não fez a mínima diferença, fosse de que maneira fosse. O governador do estado telefonou no dia seguinte, por volta das três da tarde, comunicando que a pena havia sido comutada para prisão perpétua, a ser cumprida nas instalações penais para mulheres de Grassy Valley - todas penais e sem pénis, como costumávamos dizer nessa época. Deixem-me que vos confesse que fiquei bastante satisfeito por ver o traseiro arredondado da Bex seguir para a esquerda, em vez de para a direita, quando ela se apresentou junto da minha mesa de trabalho.
Mais ou menos trinta e cinco anos mais tarde - tinham de ser pelo menos três décadas e meia - li esse nome na página do jornal onde eram publicados os anúncios de óbito,
por baixo da fotografia de uma senhora de raça negra, de faces magras e com uma nuvem de cabelo encanecido, que usava uns óculos com armações de osso. Era a Beverly. Tinha passado os últimos dez anos da sua vida em liberdade, de acordo com o que o óbito dizia, e conseguira salvar a biblioteca da pequena cidade de Raines Falls quase sem ajuda. Também ensinara catequese aos domingos, tendo sido muito acarinhada naquela cidade dos confins do mundo. BIBLIOTECÁRIA MORRE DE ATAQUE CARDÍACO, rezava o cabeçalho, e abaixo deste, num tipo mais pequeno, como se tivesse sido um pensamento que ocorrera no último minuto: Cumpriu pena durante mais de vinte anos por homicídio. Só os olhos, grandes e cintilantes por detrás dos óculos com armações de osso, é
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que eram os mesmos. Os olhos de uma mulher que até mesmo aos setenta anos não hesitaria em retirar uma navalha do líquido desinfectante azul, caso a necessidade lhe parecesse premente. Sabemos como são os assassinos, ainda que acabem a sua vida como velhinhas que ocupam a posição de bibliotecárias em pequenas cidades meio adormecidas. Pelo menos temos a obrigação de saber, quando passámos tanto tempo a vigiar homicidas, tal como eu próprio. Só houve uma ocasião em que questionei a natureza das minhas funções. Estou convencido de que foi isso que me levou a escrever esta narrativa.
O amplo corredor no centro do Bloco E tinha o chão revestido a linóleo, da tonalidade de limas velhas; assim, o que nas outras prisões se chamava "Última Milha", na de Cold
Mountain era conhecido por "Milha Verde". Calculo que teria a extensão de sessenta passos de sul a norte, desde um extremo ao outro. Ao fundo situava-se a cela do isolamento. Na extremidade do topo havia uma espécie de entroncamento. Uma viragem à esquerda significava a vida - isto é, no caso de se apelidar de vida aquilo que se passava no pátio, onde o sol incidia, inclemente, enquanto se faziam os exercícios fisicos; grande número dos reclusos vivia ali ao longo de muitos anos, sem que se lhes detectassem quaisquer efeitos secundários aparentes. Ladrões e piromaníacos, criminosos que haviam incorrido em ofensas sexuais, todos eles falavam entre si do que tinham a falar, davam as suas caminhadas e procediam às suas pequenas transacções.
No entanto, uma viragem à direita e tudo era inteiramente diferente. Em primeiro lugar, ia-se ao meu gabinete (onde a alcatifa também era esverdeada, uma coisa que eu pensava
constantemente em alterar, mas que por qualquer razão acabei sempre por nunca fazer), tendo a pessoa em questão de se apresentar em frente da minha secretária, a qual era flanqueada pela bandeira americana à esquerda e pela bandeira do estado à direita. Na parede mais afastada existiam duas portas. Uma dava acesso a uns pequenos lavabos que eram utilizados por mim e pelos guardas prisionais do Bloco E (por vezes, até mesmo o director Moores se servia daquela casa de banho); a outra abria para uma espécie de sala de arrecadação. Era para ali que se acabava por ir, no caso de se ter de percorrer a Milha Verde.
Tratava-se de uma porta pequena - sempre que eu a transpunha era obrigado a baixar a cabeça, e o John Coffey foi forçado a sentar-se para poder transpô-la. Tinha-se acesso
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a um pequeno patamar, descendo-se depois três degraus em cimento até a um chão de madeira. Era uma sala esquálida e sem aquecimento que tinha um telhado de metal, exactamente igual ao do bloco que lhe ficava adjacente. Durante o Inverno, fazia ali frio suficiente para se poder observar a respiração a condensar-se, mas era sufocante ao longo do Verão. Durante a execução do Elmer Manfred - o que estou em crer ocorreu em Julho ou Agosto de 1930 - tivemos nove testemunhas que desfaleceram.
No lado esquerdo da arrecadação - uma vez mais - existia a vida. Ferramentas (todas presas ~em estruturas cobertas por correntes, como se fossem carabinas em vez de pás e picaretas), artigos secos, sacos de sementes que na Primavera eram semeadas nos jardins da penitenciária, caixas de papel higiénico, grades com materiais para a serralharia da pnsão... até mesmo sacos de cal para marcar as linhas do campo de basquetebol e de futebol - os condenados costumavam jogar naquilo que era conhecido por "Pastagem", e as tardes de Outono eram ansiosamente aguardadas em Cold Mountain.
À direita - uma vez mais - a morte. A própria Velha Faísca instalada num estrado de tábuas no canto sudeste da arrecadação, com as suas pernas de carvalho sólido, braços largos também de carvalho que haviam absorvido o suor aterrorizado de muitos homens durante os derradeiros minutos das suas vidas, e o capacete dé metal, o qual habitualmente se encontrava pendurado nas costas da cadeira de uma forma a dar nas vistas, qual capacete de robô num livro de banda desenhada do Buck Rogers. Dele saía um cabo eléctrico, que passava através de um orifício circular recortado num bloco de cimento da parede, que se encontrava por detrás da cadeira. Ao lado havia um balde de zinco galvanizado. Caso se olhasse para o seu interior, ver-se-ia um círculo de esponja cortado exactamente à medida para poder acomodar o capacete de metal. Antes de uma execução, era mergulhado em salmoura, para que a passagem da corrente directa, através do cabo eléctrico e da esponja, se fizesse nas melhores condições e entrasse no cérebro do condenado.
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1932 foi o ano do John Coffey. Os pormenores poderiam ser encontrados nos jornais, onde continuariam para alguém interessado poder consultá-los - alguém que tivesse mais



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energia do que um homem já muito envelhecido que definhava no fim da vida, num lar da Jórgia para a terceira idade. Recordo-me bem de que esse Outono foi de muito calor; extremamente quente. Um mês de Outubro que mais se assemelhara a Agosto, e a mulher do director, Melinda, esteve internada durante algum tempo no hospital de Indianola. Também foi nesse Outono que tive a maior infecção urinária da minha vida; não foi tão grave que me obrigasse a ser também hospitalizado, embora quase suficientemente grave para que eu desejasse a morte de cada vez que tinha de verter águas. Foi o Outono do Delacroix, o pequeno franciú calvo que tinha um rato, aquele que costumava aparecer no Verão e que fazia aquele truque engraçado com o carretel. Mas, acima de tudo, aquele foi o Outono em que o John Coffey deu entrada no Bloco E, tendo sido condenado à morte pelo crime de estupro e assassínio das gémeas Detterick.
Durante cada um dos turnos havia quatro ou cinco guardas no bloco, apesar de muitos deles serem temporários. O Dean Stanton, o Harry Terwilliger e o Brutus Howell (os
homens chamavam-lhe "Brutal", mas isso não passava de uma simples brincadeira, ele não faria mala uma mosca, salvo se a isso fosse forçado, a despeito da sua constituição física) já estão todos mortos, o mesmo acontecendo com o Percy Wetmore, o qual, efectivamente, era brutal.., e estúpido. A presença do Percy no Bloco E não tinha qualquer razão de ser, pois era um local onde um carácter malévolo se mostrava inútil e por vezes perigoso; porém, como ele tinha laços familiares por afinidade com o director, fora autorizado a trabalhar ali.
Foi o Percy Wetmore quem conduziu o Coffey até ao bloco soltando o supostamente tradicional grito de "Homem morto a caminhar! Homem morto a caminhar, a passar por aqui!"
O tempo continuava a estar tão quente quanto as dobradiças das portas do inferno, fosse ele Outubro ou não. A porta que dava acesso ao pátio onde tinham lugar os exercícios físi
cos abriu-se, deixando entrar uma torrente de grande luminosidade, acompanhada do maior homem que alguma vez me foi dado ver, com a excepção de alguns tipos que jogam basquetebol e que se vêem no televisor que temos no "Centro Recreativo" desta casa para cabeçudos atoleimados, onde eu acabei por vir parar. Estava preso com correntes que lhe manietavam os braços junto ao peito do tamanho de um barril de água; tinha grilhetas nos tornozelos, arrastando uma corrente
que as unia e a qual produzia o som de uma cascata de moedas, enquanto era arrastada pelo corredor de linóleo cor de lima que existia entre as celas. O Percy Wetmore mantinha-se num dos lados do homem, e no outro o escanzelado minorca do HaiTy Terwilliger; pareciam crianças a caminhar junto de um urso que acabara de ser capturado. Até o Brutus Howell dava a impressão de ser um garoto junto do Coffey, e não esqueçamos que o Brutal media quase dois metros e era igualmente entroncado, um jogador de futebol norte-americano que jogava ao ataque, o qual ganhara uma bolsa para poder jogar pela Universidade Estadual da Luisiana, até que chumbou e foi obrigado a regressar a casa, de volta aos sulcos da terra.
O John Coffey era um indivíduo de raça negra, tal como o era a maior parte dos homens que passavam algum tempo no Bloco E antes de serem executados ao colo da Velha Faísca, e tinha mais de dois metros. No entanto, não era tão esguio como os tipos do basquetebol que apareciam na televisão - era largo de ombros e possuía um tórax portentoso, vendo-se os músculos fortes por todo o corpo. Tinham-lhe dado o maior par de calças de ganga que havia em armazém, embora a bainha lhe desse pelo meio da barriga das pernas entroncadas e cheias de cicatrizes. A camisa mantinha-se aberta até abaixo do peito, enquanto as mangas acabavam algures nos antebraços. Numa das suas mãos enormes trazia um boné, o que até era melhor; caso estivesse colocado na sua cabeça calva, que mais parecia uma bola de mogno luzidio, ter-se-ia assemelhado ao boné que os macacos dos tocadores de realejo costumavam usar, com a única diferença que seria azul em vez de vermelho. Parecia capaz de rebentar as correntes que o manietavam com tanta facilidade como qualquer pessoa poderia rasgar as fitas de um presente de Natal; todavia, quando se olhava para o seu rosto, sabia-se que não faria nada que se assemelhasse a isso. Não tinha uma expressão lorpa - embora essa fosse a opinião que o Percy havia formado; não foi preciso muito tempo para o Percy ter começado a chamar-lhe mentecapto - mas dava a impressão de que se sentia perdido. Continuava a olhar em seu redor como se tentasse compreender onde é que se encontrava. Talvez mesmo para descobrir quem ele próprio era. O meu primeiro pensamento foi de que ele se parecia com um Sansão negro.:. com a diferença de que seria depois de Dalila lhe ter rapado a


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cabeça com a sua pequena mão infiel, tendo-lhe extorquido todo o gosto pela vida.
- Homem morto a caminhar! - troava a voz do Percy, arrastando o homem de aspecto ursino pela algema que lhe rodeava o pulso, como se acreditasse realmente que tinha po
der para o deslocar, ainda que o Coffey decidisse que não desejava fazer mais qualquer movimento de sua livre vontade. O Harry não fez o mínimo comentário, embora exibisse uma expressão de constrangimento. - Homem morto...
- Já chega dessa conversa - atalhei eu da cela que fora destinada ao Coffey; aguardava sentado em cima da sua tarimba. É claro que eu fora avisado da sua chegada, estava ali
para lhe dar as boas-vindas e me responsabilizar por ele, mas não tinha a mais pequena noção do seu tamanho até o ver. O Percy brindou-me com um olhar que dizia que todos nós sabíamos que eu era um idiota (excepto, como é evidente, o mentecapto gigantesco, o qual só sabia violar e assassinar rapariguinhas), mas não disse nada.
Os três detiveram-se do lado de fora da porta da cela, que se mantinha aberta em cima das calhas por onde corria. Acenei para o Harry que me perguntou:
- Tem a certeza de que quer ficar ali dentro com ele, chefe? - Não haviam sido muitas as vezes em que eu tivera oportunidade de ver o Harry dar mostras de nervosismo; ele
mantivera-se firmemente ao meu lado aquando dos tumultos que tinham ocorrido havia seis ou sete anos, sem nunca ter vacilado, até mesmo quando começaram a circular rumores de que alguns dos amotinados possuíam armas... Todavia, naquele momento, não conseguia ocultar o nervosismo que o invadia.
- Tencionas criar-me problemas, matulão? - perguntei, continuando sentado à beira da tarimba e tentando não deixar transparecer o quanto me sentia um desgraçado: a ïnfecção
urinária que mencionei anteriormente ainda não tinha atingido a gravidade que mais tarde veio a ter, mas deixem que vos diga que não era nenhum piquenique na praia.
O Coffey abanou lentamente a cabeça - uma vez para a esquerda e outra para a direita, parando em seguida ao meio. Logo que os seus olhos me encontraram nunca mais voltaram a largar-me.
O Harry segurava numa pequena prancha de madeira, à qual estavam presos os impressos referentes à admissão do Coffey.
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- Entrega-lhe os papéis - ordenei eu ao Harry. - Coloca-os na mão dele.
O Harry fez como eu o havia instruído. O gigantesco rafeiro aceitou a papelada como se fosse um sonâmbulo.
-- Agora entrega-mos, matulão - acrescentei, e o Coffey obedeceu, com as correntes a chocalharem e a arrastarem. Para transpor a porta da cela, foi obrigado a vergar a cabeça.
Com o olhar percorri-o de alto a baixo, para poder abarcar toda a sua estatura, certificando-me de que não se tratava de uma ilusão de óptica. Era real: um pouco acima de dois metros de altura. O peso que fora indicado rondava os cento e quarenta quilogramas, mas acho que era apenas uma estimativa; deveria pesar uns cento e sessenta quilos. Por baixo do espaço reservado às cicatrizes e demais marcas de identificação, via-se uma palavra em letras de imprensa, na escrita laboriosa do Magnusson, o antigo prisioneiro de confiança que trabalhava nos registos: Numerosas.
Ergui o olhar. O Coffey tinha-se deslocado um pouco para um dos lados, o que me permitia ver o Harry de pé do outro lado do corredor, em frente da cela do Delacroix - este era o nosso único encarcerado no Bloco E, na altura em que o Coffey chegou. O Del era um homem esguio com uma acentuada calvície, exibindo a expressão preocupada de um contabilista que sabia que o desfalque que cometera seria descoberto dentro em pouco. O rato que ele domesticara encontrava-se sobre um dos seus ombros.
O Percy Wetmore mantinha-se encostado à ombreira da cela que acabara de ser atribuída ao John Coffey. Empunhava o bastão de nogueira que retirara de uma espécie de coldre feito de encomenda onde costumava mantê-lo, batendo-o contra a palma da mão como um homem que tem um brinquedo e anseia poder utilizá-lo. De súbito foi-me impossível suportar a sua presença ali. Talvez isso se devesse ao calor tão anormal para aquela época do ano, talvez à infecção urinária que me provocava um ardor nas virilhas, e tornava insuportável a comichão por baixo da roupa interior de flanela, talvez ao facto de eu saber que o estado me havia enviado um homem de raça negra, à beira da idiotice, para que eu o executasse, e que o Percy estava desejoso por poder trabalhá-lo um pouco antes que tal viesse a acontecer. Provavelmente, eram todas estas coisas. Fosse o que fosse, deixei de me preocupar com as . ligações políticas do Percy durante algum tempo.



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-Percy - disse. - Estão a mudar de casa na enferma
ria.
- O Bill Dodge está encarregado dessa tarefa...
- Eu sei - acrescentei. - Mas vai dar-lhe uma ajuda. - Isso não faz parte das minhas funções - retorquiu o Percy, renitente. - Este gigaparvalhado é que faz. - O Percy utilizava este termo para troçar com os grandes; uma combinação de gigante e aparvalhado. Invejava os homens de estatura elevada e entroncados. Não era escanzelado como, por exemplo, o Harry Terwilliger, mas era atarracado. Um tipo que se assemelhava a uma espécie de galo de capoeira, o género que gostava de provocar brigas, muito em especial quando as coisas não poderiam deixar de lhe correr de feição. E vaidoso no que dizia respeito ao cabelo. Mal conseguia manter as mãos afastadas da cabeleira.
- Nesse caso, já fizeste o que tinhas a fazer - acrescentei. - Vai já para a enfermaria.
O beiço inferior esboçou um trejeito de amuo. O Bill Dodge e os seus homens estavam a mudar caixas e pilhas de lençóis, até mesmo as camas; toda a enfermaria iria ser insta
lada num novo edificio situado na ala ocidental da prisão. Trabalho esforçado que implicava carregar coisas pesadas. O Percy Wetmore não queria ter nada a ver com aquele género de tarefas.
- Eles já têm todos os homens de que necessitam - insistiu.
- Nesse caso, vai até lá e faz de chefe - repliquei, erguendo a voz. Reparei que o Harry se retraía, embora eu não tivesse prestado atenção a isso. Se o governador do estado or
denasse ao director Moores que me despedisse por eu ter feito ondas onde não devia, quem é que o Hal Moores colocaria no meu lugar? O Percy? Isso teria muitíssima piada. - Francamente, Percy, não me interessa o que possas fazer, desde que saias daqui durante algum tempo.
Por breves instantes, pensei que ele iria defender a sua posição, provocando problemas a sério, com o Coffey a assistir a tudo aquilo, como se fosse o maior relógio parado do
mundo. O Percy, porém, optou por guardar o seu brinquedo na espécie de coldre feito por encomenda - que dava expressão a toda a sua arrogância - tendo começado a percorrer o corredor num passo pesado. Não me recordo de qual era o guarda que estava de serviço à mesa do corredor nesse fim
de tarde - calculei que seria um dos temporários - mas o certo é que o Percy não deveria ter gostado muito da expressão no seu rosto, pois disse numa voz rosnada quando passou pelo homem:
- Tira esse sorriso estúpido da tua cara de merda ou sou eu quem o fará por ti. - Ouviu-se um entrechocar de chaves, uma momentânea vaga de luminosidade veio do pátio de recreio, e depois o Percy Wetmore desapareceu, pelo menos de momento. O rato do Delacroix correu de um ombro ao outro do pequeno franciú, com as cerdas dos bigodes a fremirem.
- Está sossegado, Mister Jingles -= disse o Delacroix, ao que o rato se deteve no seu ombro esquerdo, como se tivesse compreendido o que lhe fora dito. - Deixa-te estar quieto e sossegado. - No sotaque cajun' do Delacroix, as palavras adquiriam a entoação exótica de um estrangeirismo.
- Vai descansar, Del - disse eu de forma sucinta. - Vai-te deitar. Este assunto também não te diz respeito.
Ele fez como lhe disse. Tinha violado e morto uma rapariga e deixara o corpo atrás do prédio onde ela vivia, depois de o ter regado com querosene e de lhe ter chegado fogo na esperança de conseguir eliminar as provas incriminatórias do seu crime. O fogo acabou por se propagar até ao próprio edifício, envolvendo-o em chamas, e morreram mais seis pessoas, entre as quais duas crianças. Aquele era o único crime que havia cometido, não passando agora de um homem de maneiras brandas com um rosto preocupado, uma coroa calva e uns cabelos compridos que lhe chegavam ao colarinho da camisa. Dentro de pouco tempo, iria sentar-se na Velha Faísca, e esta poria fim aos seus dias... No entanto, o que o levara a cometer aquele crime pavoroso já desaparecera e agora encontrava-se estendido em cima da sua tarimba, permitindo que o seu pequeno companheiro lhe corresse pelas mãos enquanto soltava pequenos guinchos. De certa forma, aquilo era o pior de tudo: a Velha Faísca nunca incinerava o que se encontrava dentro deles, e as drogas com que os injectam hoje em dia não conseguem adormecer isso. Desocupa-se o corpo, a alma salta para dentro de qualquer outra pessoa, deixando-nos a nós a tarefa de matar as cascas secas que, de qualquer forma, não estão realmente vivas.
~ Nome que se dá aos descendentes dos colonizadores franceses do estado da Luisiana. (N. da T.)


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Concentrei a minha atenção no homem gigantesco.
- Se eu deixar que o Harry te liberte dessas correntes, prometes portar-te bem?
Ele acenou afirmativamente. Um gesto que era como o seu abanar de cabeça: para baixo, para cima, de volta ao centro. Os seus olhos estranhos fitavam-me. Neles reflectia-se
uma espécie de paz, mas não o género em que eu tivesse a certeza de poder confiar. Com o dedo dobrado indiquei ao Harry que se aproximasse, o que ele fez, passando a soltar as correntes. Não mostrou o mais pequeno receio, até mesmo quando se ajoelhou entre as pernas do Coffey, grossas como troncos, a fim de abrir as grilhetas que lhe prendiam os artelhos, o que até certo ponto me tranquilizou. Fora a presença do Percy que enervara o Harry, e eu confiava nos instintos deste último. Confiava nos instintos de todos os meus homens no Bloco E, excepto nos do Percy.
Tenho sempre um pequeno discurso para os recém-chegados ao bloco; todavia, senti-me a hesitar perante o Coffey: parecia-me tão anormal, e não apenas no tamanho.
Quando o Harry retrocedeu (o Coffey havia permanecido imobilizado durante toda a cerimónia da abertura das grilhetas e correntes, numa postura tão plácida como a de um per
cherão), soergui o olhar até ao novo homem que ficaria sob a minha responsabilidade, batendo na prancheta com o polegar. - Sabes falar, rapaz?
- Sim senhor, chefe, sei - respondeu ele. A sua voz era grave e tranquila, com uma entoação ribombaste. Trouxe-me à mente o motor de um tractor acabado de ser afinado. Não
falava com a toada arrastada característica das gentes do Sul; no entanto, reparei posteriormente que o seu discurso, de certa forma, era estruturado à maneira de falar do Sul. Como se ele fosse oriundo dessa zona, mas não fosse de lá. Não dava a impressão de ser iletrado, embora não parecesse ter estudos. Na forma de se expressar, assim como em muitas outras coisas, o homem era um mistério. Acima de tudo, eram os seus olhos que me perturbavam - neles reflectia-se uma espécie de ausência beatífica, como se se encontrasse muito distante daquele lugar.
- Chamas-te John Coffey - continuei.
- Sim senhor, chefe, tal como a bebida, com a diferença de que não se escreve da mesma maneira'.
~ Trocadilho intraduzível: Coffey e coffee (café) são homófonas. (N. da T.)
. Isso quer dizer que és capaz de soletrar, não é verdade? Sabes ler e escrever?
. Só o meu nome, chefe - respondeu ele com grande serenidade.
Suspirei e comecei a apresentar-lhe uma versão encurtada do meu discurso habitual. Já tinha chegado à conclusão de que o homem não iria causar quaisquer problemas. Nisso eu estava tão certo quanto errado.
- O meu nomó é Paul Edgecombe - apresentei-me. - Sou o superintendente do Bloco E... o manda-chuva. Se pretenderes alguma coisa de mim, pergunta pelo meu nome. Se eu não estiver aqui, pede para falar com este outro homem, o Harry Terwilliger. Também poderás perguntar por Mister Stanton ou Mister Howell. Compreendes o que estou a dizer? O Coffey fez um gesto afirmativo com a cabèça.
- Quero ainda avisar-te de que não deves esperar obter aquilo que queres, a menos que nós decidamos que tens necessidade disso... Isto não é nenhum hotel. Continuas a perceber o que estou a dizer?
Uma vez mais, ele acenou que sim.
- Este lugar é muito tranquilo, matulão... não é como o resto da prisão. Aqui só estás tu e o Delacroix. Não serás obrigado a trabalhar; passarás a maior parte do teu tempo sentado. O que te dará a oportunidade de poder meditar nas coisas. - Para a maioria deles, aquilo era demasiado tempo, mas não partilhei este pensamento com o Coffey. - Quando tudo está em ordem, por vezes ligamos o rádio. Gostas de ouvir rádio?
Ele acenou que sim, ainda que num trejeito de dúvida, como se não tivesse a certeza daquilo que era um rádio. Mais tarde vim a descobrir que, até certo ponto, isso era verdade: o Coffey reconhecia as coisas quando voltava a vê-las; porém, durante o espaço de tempo em que estas não se encontravam. presentes, esquecia-as. Conhecia as personagens da série Our Gal Sunday, embora a recordação que guardava da acção do último episódio fosse bastante vaga.
- Se te portares como deve ser, comerás sempre a horas e nunca verás o interior da cela do isolamento ao fundo do corredor, nem serás obrigado a usar um desses casacões de lôna que abotoam nas costas. Poderás passar duas horas no pátio todas as tardes das quatro às seis, excepto aos sábados, quando o resto dos prisioneiros realiza os seus jogos de fute
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bol. Se houver alguém que queira visitar-te, poderás receber as tuas visitas nas tardes de domingo. Tens alguém que queira ver-te, Coffey?
- Não tenho ninguém, chefe - retorquiu ele, abanando a cabeça.
- Bem, nesse caso, o teu advogado - adiantei.
- Acho que nunca mais vou vê-lo - proferiu. - Ele foi-me emprestado. Não me parece que seja capaz de descobrir o caminho até aqui, por entre estas montanhas.
Olhei-o atentamente, a fim de descortinar se estaria a tentar brincar comigo, mas não foi essa a impressão com que fiquei. Diga-se de passagem que não tinha esperado nada de
diferente. Os recursos ao tribunal não se destinavam a gente da igualha do John Coffey, pelo menos nesses tempos; eles tinham direito ao seu dia em tribunal, após o que o mundo se esquecia da sua existência, até as pessoas lerem no jornal que um determinado fulano havia consumido, por volta da meia-noite, um pouco de electricidade a mais. Contudo, a realidade era que um homem que tivesse mulher, filhos ou amigos, e que aguardasse ansiosamente a sua visita aos domingos à tarde, era mais fácil de controlar, caso o controlo viesse a ser um problema. Naquele caso não seria essa a questão, o que era uma vantagem. Ele era tão diabolicamente grande...
Agitei-me um pouco em cima da tarimba, tendo chegado à conclusão de que era possível sentir-me um pouco mais confortável nas partes baixas se me levantasse, o que fiz. Nu
ma atitude respeitosa, o Coffey retrocedeu, afastando-se de mim e entrelaçando as mãos à frente do corpo.
- O tempo que tiveres de passar aqui poderá ser fácil ou dificíl, matulão, tudo dependerá de ti. Estou aqui para te dizer que seria preferível que facilitasses as coisas a todos, porque,
no fim, tudo isto irá dar ao mesmo. Tratar-te-emos de forma adequada, de acordo com o que venhas a merecer. Tens algumas dúvidas que queiras esclarecer?
- Depois da hora de dormir costumam deixar alguma luz ligada? - perguntou ele de imediato, como se só tivesse aguardado por uma oportunidade para poder fazer aquela pergunta.
Pestanejei, surpreendido. Todos os prisioneiros recém-chegados ao Bloco E já me haviam feito uma grande quantidade de perguntas estranhas - numa ocasião até me tinham
perguntado qual o tamanho das mamas da minha mulher - mas nunca ninguém tinha abordado aquele assunto.
O Coffey esboçava um sorriso que reflectia um certo mal
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-estar, como se soubesse que íamos pensar que era um imbecil, embora lhe tivesse sido impossível evitar aquela pergunta. - É porque às vezes sinto-me um pouco assustado na escuridão - justificou ele. - Se estiver num lugar estranho. Olhei para ele - para o tamanho gigantesco daquele corpo - e senti-me estranhamente tocado. Não sei se sabem, mas eles conseguem comover-nos; não os víamos no seu pior, a malhar o ferro dos seus horrores, quais demónios numa



forja.
- Sim, isto por aqui é bastante iluminado durante toda a noite - tranquilizei-o eu. - Metade das luzes a todo o comprimento da Milha está sempre ligada, desde as nove horas até às cinco da manhã. - Foi então que me dei conta de que ele não faria a mínima ideia do que eu estava a falar... Não deveria saber distinguir a Milha Verde do lodaçal do Mississipi, por isso indiquei: - No corredor.
Acenou com uma expressão de alívio. Não tenho bem a certeza se ele sabia ó que era um corredor; no entanto, podia ver as lâmpadas de duzentos watts nas suas armações de rede de arame.
Então, fiz algo que nunca fizera antes a nenhum prisioneiro: ofereci-lhe a minha mão. Ainda hoje não compreendo o que me levou àquela atitude. Talvez tenha sido o facto de ele me ter feito a pergunta sobre as luzes. Garanto-vos que o meu gesto fez com que o Harry Terwilliger pestanejasse de perplexidade. O Coffey agarrou-me na mão com uma ternura surpreendente, tendo esta desaparecido quase completamente no interior da sua, e foi tudo. Eu tinha recebido outra mosca na minha teia de aranha mortífera. Estávamos despachados.
Saí da cela. O Harry fez deslizar a porta na calha e fechou à chave as duas fechaduras. Durante um momento ou dois, o Coffey deixou-se ficar no mesmo lugar, como se estivesse indeciso quanto ao que fazer em seguida; depois, optou por se sentar em cima da tarimba, com as enormes mãos entre os joelhos, a cabeça vergada sobre o peito, como um homem que rezasse ou sofresse de um grande desgosto. Pouco depois, começou a dizer qualquer coisa na sua estranha voz, onde se adivinhava um sotaque que era quase do Sul. Ouvi-o com toda a clareza e, embora não estivesse muito a par daquilo que ele fizera - não é necessário que se tenha conhecimento das acções de um homem para poder alimentá-lo e cuidar dele, até chegar a hora em que terá de pagar a sua dívida para com a sociedade - senti-me percorrido por um calafrio.
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- Não fui capaz de evitar, chefe - adiantou ele. - Tentei desfazer o que estava feito, mas já era demasiado tarde.
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- Vais arranjar problemas com o Percy - advertiu-me o Harry quando começámos a percorrer o corredor até ao meu gabinete. O Dean Stanton, uma espécie de meu terceiro adjunto na cadeia de comando (na realidade, não tínhamos esse tipo de hierarquia, uma situação que o Percy Wetmore teria resolvido numa fracção de segundos), encontrava-se sentado por detrás da minha secretária, actualizando os processos, uma tarefa para a qual dava a impressão que eu nunca conseguia arranjar tempo. Quando entrámos, ele mal ergueu os olhos da papelada, limitando-se a dar um pequeno empurrão aos óculos com a ponta do polegar, regressando de imediato aos papéis.
- Tenho tido problemas com esse palerma desde que ele aqui entrou - redargui cautelosamente, afastando as calças da região . das virilhas com uma careta. - Ouviste o que ele
gritou quando trouxe aquele gigante meio tolo cá para baixo? - Era impossível não ter ouvido - respondeu-me o Harry. - Não sei se sabes, mas eu encontrava-me presente. - Eu estava na retrete e ouvi-o na perfeição - interveio o Dean. Chegou uma folha de papel mais para junto de si, ergueu-a contra a luz de forma a que eu pudesse ver bem o círculo de café em cima das palavras dactilografadas e lançou-a para dentro do tabuleiro dos papéis. - "Homem morto a caminhar." Deve ter lido isso numa dessas revistas de que ele tanto gosta.
O que provavelmente fora o caso. O Percy Wetmore era um grande leitor da Argosy e da Stag, assim como da Men 's Adventure. Em cada uma dessas publicações havia sempre
uma história passada na prisão, ou pelo menos era a impressão com que se ficava, e o Percy costumava lê-las com avidez, como um homem que se dedicasse a um trabalho de pesquisa. Parecia que tentava descobrir como é que deveria agir, e julgava que esse tipo de informação estaria contido naquelas revistas. O tipo começara a trabalhar ali depois de termos acabado com o Anthony Ray, o assassino do machado, e ainda não participara verdadeiramente numa execução, embora
já tivesse testemunhado uma delas do compartimento do quadro eléctrico.	- - Ele tem conhecimentos - acrescentou o Harry. Gente influente. Vais ter de justificar porque correste com ele do bloco e de explicar ainda melhor porque é que esperaste que ele fizesse algum trabalho a sério.
- Eu nunca esperei isso - repliquei, e era verdade... embora houvesse albergado algumas esperanças. O Bill Dodge não era dos que deixava um homem ficar ao pé de si sem fazer nada, a olhar para quem trabalhava. - Neste momento estou mais interessado no matulão. Iremos ter alguns problemas com ele?
O Harry sacudiu a cabeça com grande determinação. - Ele esteve calado que nem um rato lá no tribunal do município de Trapingus - adiantou o Dean. Retirou do nariz os pequenos óculos sem aros e começou a limpar as lentes com a ponta do colete. - É claro que ele estava manietado com mais correntes do que aquelas que o Scrooge viu no fantasma do Marley, mas se quisesse poderia ter começado a dar pontapés a tudo o que tinha à sua frente. Não sei se sabes a quem é que me estou a referir, meu amigo.
- Sei muito bem - respondi, embora não soubesse. Mas acontece que detesto que o Dean Stanton me leve a melhor. - O homem é bem grandinho, não é verdade? - continuou Dean.
- De facto, é - concordei. - Monstruosamente grande. - O mais provável é termos de ajustar a Velha Faísca para o programa do Superassado para poder dar cabo do coiro do homem.
- Não te preocupes com a Velha Faísca - redargui distraidamente. - Ela faz com que os grandes se transformem em pequeninos.
O Dean apertou os lados do nariz, nas zonas onde se avistavam um par de manchas avermelhadas provocadas pelos óculos.
- Sim - disse ele com um acenar de cabeça. - Há alguma verdade no que acabaste de dizer.
- Algum de vocês sabe de onde é que ele veio antes de ter aparecido em... Teflon? - perguntei. - Foi em Teflon, não é verdade?
- Sim - anuiu o Dean. - Teflon, no município de Trapingus. Antes de ter aparecido por lá e de ter feito aquilo que

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fez, dá a impressão que ninguém sabe por onde é que andou. Imagino que andasse de um lado para o outro ao acaso. Talvez possas descobrir mais alguma coisa nos jornais da biblioteca da prisão, se estiveres realmente interessado. O mais provável é não os tirarem de lá até à próxima semana. - O Dean exibiu um esgar sorridente. - No entanto, é possível que tenhas de ouvir o teu amiguinho a gemer e a implicar no andar de cima.
- Seja como for, talvez vá dar só uma espreitadela - repliquei, e nessa mesma tarde foi exactamente o que fiz. A biblioteca da penitenciária situava-se nas traseiras do edifício, área que em breve estava destinada a transformar-se na oficina de reparação de automóveis - pelo menos era isso o que havia sido planeado. Na minha opinião, seriam mais uns dinheiros no bolso de alguém, mas o certo é que a Grande Depressão se tinha instalado entre nós, pelo que eu guardava as opiniões para mim próprio - da mesma maneira que deveria ter ficado de boca calada em relação ao Percy, mas acontece que por vezes um homem não é capaz de refrear aquilo que tem a dizer. Na maior parte das vezes, a boca de um homem arranja-lhe mais complicações do que o coiso alguma vez conseguiria causar-lhe. E em qualquer dos casos, o projecto da oficina nunca chegou a concretizar-se: na Primavera seguinte, as instalações da penitenciária mudaram-se para um local noventa e cinco quilómetros mais abaixo, à beira da estrada para Brighton. Calculei que isso se deveria a mais maquinações nos bastidores. Mais uns dinheiros que iriam parar à algibeira de alguém. Todavia, eu não tinha nada a ver com aquele assunto.
A administração ficara instalada num novo edifício, na ala oriental do pátio; a enfermaria também ia ser transferida para outro lugar (para começar, quem fora o grande labrego que ti
vera a ideia de instalar a enfermaria no primeiro piso? Aquilo era mais um dos mistérios da vida); a biblioteca continuava a manter-se parcialmente abastecida - não que alguma vez houvesse contido muito material de leitura - embora não se visse ninguém por ali. O velho edifício era uma espécie de caixa aquecida construída de sarrafos de madeira, encaixada entre os blocos A e B. As casas de banho destes últimos situavam-se nas traseiras da biblioteca, e aí pairava sempre um vago cheiro a urina, o que provavelmente seria a única razão que poderia justificar a mudança de instalações. A biblioteca
tinha o traçado de um "L", não sendo muito maior do que o meu gabinete. Procurei uma das ventoinhas, mas estas já haviam sido todas retiradas. Ali dentro a temperatura deveria rondar os trinta e oito graus; quando me sentei, senti nas virilhas um latejar provocado pelo calor. Como se fosse um dente inflamado. Sei que é uma comparação absurda, levando em consideração a região do corpo a que estou a referir-me, mas era a única coisa que me ocorria para estabelecer uma comparação adequada. Aquela situação agravava-se bastante mais sempre que urinava ou depois de ter urinado, e acabara de fazer isso quando entrei naquele recinto.
Ao fim e ao cabo, havia outro tipo na biblioteca - um antigo prisioneiro de confiança, um homem esquelético, de nome Gbbons, que passava pelas brasas a um canto, tendo sobre as coxas um romance sobre o Oeste selvagem e a aba do chapéu a cobrir-lhe os olhos. O calor parecia não o incomodar, o mesmo acontecendo em relação aos resmungos, sons de passos pesados e o praguejar ocasional que vinham da enfermaria no andar de cima (onde deviam estar pelo menos cinco graus mais quente, e eu esperava que o Percy estivesse a saborear tal facto). Não incomodei o homem, tendo-me dirigido para a secção mais curta do "L,", onde se encontravam os jornais. Ocorreu-me que talvez tivessem levado o mesmo caminho das ventoinhas, apesar do que o Dean dissera. Verifiquei que isso ainda não tinha acontecido. O assunto das gémeas Detterick era bastante fácil de encontrar; fora notícia de primeira página desde que as investigações haviam tido início, em Junho, até ao julgamento em fins de Agosto, entrando por Setembro adentro.
Ao fim de pouco tempo, já eu me tinha esquecido do calor, dos passos que ecoavam vindos do andar de cima e do ressonar asmático do velho Gibbons. O pensamento daquelas duas rapariguinhas de nove anos, muito ao estilo das gémeas Bobbsey' - com os seus macios cabelos louros e sornsos irresistíveis - relacionado com o negrume da figura entroncada do Coffey era desagradável, mas impossível de ignorar. Dado o tamanho do homem, era fácil imaginá-lo a devorá-las, qual gigante de uma fábula. O que ele fizera era ainda pior do
' Expressão utilizada para descrever duas pessoas que estão sempre juntas, e que fisionomicamente são parecidas, o mesmo acontecendo em relação às suas atitudes. (N. da T. )


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que isso, e tivera muita sorte por não ter sido linchado ali mesmo, na margem do rio. Isto é, no caso de se considerar uma sorte o facto de ele estar à espera de percorrer a Milha Verde, para acabar por se sentar no regaço da Velha Faísca.
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O rei algodão fora deposto no Sul setenta anos antes de todas estas coisas terem acontecido, sem possibilidade de jamais voltar a ser rei, mas nesses anos da década de 30 havia
atravessado uma pequena fase de revivalismo. Tinham deixado de existir plantações de algodão, embora houvesse quarenta ou cinquenta quintas prósperas que se dedicavam ao plantio do algodão, na região meridional do estado. Klaus Detterick era o proprietário de uma delas. De acordo com os padrões de sociedade que vigoravam nos anos 50, ele estaria apenas um furo acima do estado de pobreza; não obstante, segundo os valores que vigoravam nos anos 30, Detterick tinha uma vida desafogada, uma vez que costumava pagar em dinheiro a conta da mercearia no final de todos os meses, e poderia olhar bem de frente para o gerente do banco, caso se cruzasse com ele na rua. A casa da quinta era limpa e confortavelmente espaçosa. Para além do algodão, criava também umas quantas galinhas e vacas. Ele e a mulher tinham tido três filhos: Howard que deveria andar por volta dos doze anos e as gémeas, Cora e Kathe.
Numa noite quente de Junho desse ano, as meninas pediram e obtiveram autorização para dormir no alpendre lateral da casa, circundado por rede. Tanto para uma como para a
outra aquilo era um grande acontecimento. A mãe deu-lhes um beijo de boas-noites muito próximo das nove da noite, quando os últimos raios de luz estavam prestes a desaparecer no horizonte. Foi a última vez em que teve oportunidade de ver as filhas, até que estas foram colocadas nos respectivos caixões pelo cangalheiro, que entretanto reparara a maior parte das mutilações infligidas nos seus corpos.
Naquele tempo, as famílias rurais tinham por hábito deitár-se cedo - "assim que começasse a fazer escuro debaixo da mesa", como a minha mãe dizia por vezes - dormindo
um sono profundo. O que foi certamente o caso em relação a Klaus, Marjorie e Howie Detterick na noite em que as gé
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meas foram arrebatadas de sua casa. Sem dúvida que Klaus teria sido despertado por Bowser, o velho cão da família, arraçado de collie, caso este houvesse ladrado, o que não se verificóu. Nem nessa noite nem nunca mais.
às primeiras horas da manhã, Klaus já estava a pé para ordenhar as vacas. O alpendre era num dos lados da casa, afastado da vacaria, não tendo sequer passado pela cabeça de Klaus ir ver como é que estavam as meninas. O facto de Bowser não o ter acompanhado não era motivo para alarme. O cão considerava que as galinhas e as. vacas eram seres desprezíveis, pelo que habitualmente se escondia na sua casota, por detrás do celeiro, quando essas tarefas da quinta eram levadas a cabo, a menos que o chamassem... e só se isso fosse feito com toda a energia.
Mais ou menos cinco minutos depois de o marido ter calçado as botas na barraca que servia de arrecadação e de se ter dirigido num passo determinado para a vacaria, Marjorie desceu até ao andar térreo. Começou a preparar o café e pôs o toucinho defumado a frigir. A combinação daqueles aromas trouxe Howie do seu quarto, situado logo abaixo do beiral, mas continuava a não haver sinais da presença das raparigas que haviam dormido no alpendre. Marjorie disse ao filho que fosse chamá-las, enquanto quebrava os ovos para dentro da gordura do toucinho. Klaus haveria de querer que as filhas fossem buscar os ovos acabados de pôr, assim que houvessem terminado o pequeno-almoço. Só que o pequeno-almoço não teve lugar em casa dos Detterick nessa manhã. Howie regressou do alpendre com as faces lívidas e com os olhos, que até então tinham estado inchados devido à sonolência, completamente arregalados.
- Elas desapareceram - anunciou o rapaz.
Marjorie dirigiu-se para o alpendre, mostrando-se inicialmente mais irritada do que preocupada. Mais tarde disse que tinha suposto, isto é, se é que na altura supusera alguma coisa, que as filhas haviam decidido dar um passeio, a fim de colher flores à primeira luz do alvorecer. Ou isso ou qualquer outro disparate característico das garotas daquela idade. Após um rápido olhar compreendeu logo por que motivo é que o filho ficara tão pálido.
Gritou por Klaus - berrou por ele - e Klaus veio a correr com as botas esbranquiçadas por ter derramado em cima delas metade de um balde cheio de leite. Aquilo com que se



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deparou no alpendre teria transformado em borracha os joelhos de qualquer pai, ainda que este fosse muito corajoso. Os cobertores em que as raparigas se haviam enrolado, quando a noite começara a arrefecer, tinham sido arremessados para um canto. A porta de rede fora arrancada violentamente da dobradiça superior e pendia suspensa da ombreira. Nas tábuas tanto do soalho do alpendre como dos degraus, para lá da porta de rede danificada, viam-se várias manchas de sangue.
Marjorie implorou ao marido que não fosse procurar as filhas sozinho, e que não levasse o filho caso se sentisse forçado a procuaá-las, mas poderia muito bem ter poupado o fôlego.
O homem foi buscar a carabina que se encontrava pendurada no barracão que servia de arrecadação, bem fora do alcance de mãos pequenas, e entregou a Howie a de calibre 22, que tinha andado a guardar para lhe oferecer no seu aniversário, o qual teria lugar em Julho. Em seguida, pai e filho puseram-se a caminho, sem prestar a mais pequena atenção aos gritos e ao choro da mulher, que queria saber o que ambos tencionavam fazer, no caso de depararem com um bando de maltrapilhos vadios, ou com um grupo de negros de maus ligados fugidos da quinta de Laduc. Neste aspecto, quero dizer-vos que me parece que os homens procederam acertadamente. O sangue já perdera a sua fluidez, embora ainda estivesse bastante viscoso, muito próximo da vermelhidão que lhe era característica, em vez de ter adquirido a tonalidade acastanhada que costumava ter quando já se encontrava bem seco. O rapto das garotas não acontecera há muito tempo. Klaus deveria ter raciocinado que ainda seria possível salvar as suas filhas e não tinha a mínima intenção de deixar escapar essa oportunidade.
Nenhum deles conseguiu avistar qualquer rasto das garotas - ambos eram recolectores, não caçadores, homens que costumavam ir para os bosques, atrás de guaxinins e veados
na época própria, não porque o desejassem com muita veemência, mas sim porque se tratava de uma coisa que se esperava deles. O terreno que circundava a casa estava numa confusão de terra espezinhada, cheio de trilhos confusos que não permitiam discernir fosse o que fosse. Deram a volta ao celeiro, tendo visto imediatamente por que motivo Bowser, um animal que mordia mal mas que ladrava bem, não dera o alarme. O seu corpo encontrava-se meio dentro e meio fora da casota, a qual fora construída com os restos das tábuas utilizadas na construção do celeiro (havia uma tabuleta onde esta
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va escrita a palavra Bowser traçada com grande perfeição sobre o arco da entrada na parte da frente - vi uma fotografia publicada num dos jornais), com a cabeça quase todá torcida num ângulo de cento e oitenta graus. Teria sido necessário um homem com uma força extraordinária para poder fazer aquilo a um animal de tão grande porte, dissera o promotor de justiça, ao júri do julgamento de John Coffey... para em seguida fitar alongada e significativamente a figura portentosa do arguido, sentado por detrás da mesa do advogado de defesa, mantendo o olhar baixo e envergando um fato-macaco novinho em folha que o estado lhe havia oferecido e que por si só já era o prenúncio da danação: Além do cão, Klaus e Howie haviam encontrado um bocado de salsicha cozinhada. De acordo com a teoria prevalecente - que não duvido ter tido bases sólidas - Coffey tinha atraído o cão por meio daquele petisco e depois, à medida que Bowser consumia a iguaria, lançara-lhe as mãos à volta do pescoço, que quebrara com um gesto violento dos seus pulsos cheios de força.
Por detrás do celeiro ficava a pastagem norte de Detterick, onde naquele dia nenhuma das vacas iria pastar. O solo encontrava-se todo empapado com o orvalho da madrugada, e era atravessado na diagonal em direcção a noroeste pelas pegadas de um homem, tão nítidas como a luz do dia.
Até mesmo no seu estado de semi-histeria, Klaus Detterick hesitou inicialmente em seguir aquele rastro. Não era com medo do homem ou dos homens que haviam levado as suas filhas; era, isso sim, o receio de seguir o caminho que o raptor tomara até sua casa... de haver possibilidade de se encaminhar exactamente na direcção errada, numa altura em que todos os segundos poderiam ser de grande importância.
Howie resolveu esse dilema ao retirar um bocado de tecido de algodão amarelo de um arbusto situado precisamente no perímetro da área que circundava a casa. Quando se sentou no banco das testemunhas, alguém mostrou a Klaus aquele mesmo bocado de tecido, e ele começou a chorar ao identificá-lo como um pedaço dos calções com que a filha Kathe dormira. Cerca de vinte metros mais à frente desse lugar, pendurado no ramo saliente de um zimbro, fora encontrado um bocado de um tecido de um verde desbotado, que condizia com a camisa de noite que Cora usava quando dera um beijo de boas-noites à mãe e ao pai.
Os Detterick, pai e filho, prosseguiram num passo quase



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de corrida, levando as armas empunhadas à frente, à maneira dos soldados quando atravessam um campo de batalha sob uma barragem de metralha cerrada. Se alguma coisa nesse dia me espanta é o facto de o rapaz, que corria desesperadamente atrás do pai (muitas vezes quase sendo deixado para trás), nunca ter caído, e disparado, inadvertidamente, uma bala contra as costas do pai.
A quinta encontrava-se ligada à rede telefónica local - outro indicador para os vizinhos de que os Detterick eram uma família próspera, pelo menos de uma forma moderada,
numa época considerada economicamente desastrosa - pelo que Marjorie utilizou a central telefónica para ligar ao máximo número possível de vizinhos que estivessem abrangidos pelo mesmo sistema, informando-os da tragédia que se abatera sobre a sua família como um relâmpago que houvesse cruzado um céu desanuviado, sabendo de antemão que cada um dos telefonemas produziria uma reacção em cadeia, como seixos arremessados numa sucessão rápida sobre um charco de águas mansas. Por fim, ergueu o auscultador uma última vez, proferindo as palavras que eram quase uma marca registada nos primórdios da era das redes telefónicas da altura, pelo menos na região sul do mundo rural: "Alô, central, está alguém em linha?"
A central encontrava-se em linha, mas por breves instantes não disse coisa alguma; aquela mulher de mérito estava absolutamente aparvalhada. Por fim, lá conseguiu articular alguma coisa.
- Sim, minha senhora, Mistress Detterick, com certeza que estou em linha. Oh, meu bom e doce Jesus, neste momento estou a rezar para que as suas pequenitas se encontrem bem...
- Sim, estou-lhe muito agradecida - interrompeu Marjorie. - Mas diga ao Senhor que espere o tempo suficiente para que me possa ligar ao xerife em Tefton, de acordo?
O xerife do município de Trapingus era' um velho matreiro com o nariz de quem abusava do uísque, com uma pança que mais parecia uma selha de roupa e cabelos brancos tão esparsos que se assemelhavam a cerdas para limpar cachimbos. Eu conhecia-o bastante bem; o homem fora várias vezes a Cold Mountain visitar aqueles a quem chamava "os seus rapazes", quando estes se preparavam para entrar no grande além. As testemunhas que assistiam às execuções costuma
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vam sentar-se nas mesmas cadeiras desdobráveis em que todos provavelmente já se sentaram numa ou duas ocasiões, durante funerais ou ceias na igreja, ou ainda durante as sessões de bingo nas granjasl (de facto, nesses tempos, tínhamos o costume de pedir emprestadas as que utilizávamos à Granja Ligação Mística Número 44) e, de cada vez que o xerife Homer Cribus se sentava numa delas, eu estava sempre à espera de ouvir aquele estalar seco que anunciaria o colapso. Temia esse dia e ansiava simultaneamente por ele, mas foi um dia que nunca veio. Não muito tempo depóis - não poderia ser mais do que um Verão após as garotas Detterick terem sido sequestradas - ele teve um ataque do coração no seu gabinete, aparentemente enquanto fornicava com uma rapariga de raça negra de dezassete anos, de nome Daphne Shurtleff. Houve muito falatório por causa dessa ocorrência, uma vez que ele tinha por hábito exibir-se sempre de forma proeminente na companhia da mulher e dos seus seis filhos por altura das eleições - esses eram os tempos em que, quando alguém pretendia candidatar-se a fosse o que fosse, costumava dizer-se: "Sê baptista ou desaparece." Mas as pessoas adoram um hipócrita - reconhecem sempre os da sua raça e sabe sempre bem quando alguém é apanhado com as calças na mão e de pau feito e esse alguém não somos nós.
Para além de ser um rematado hipócrita, ele era um incompetente, o tipo de fulano que se deixava fotografar enquanto fazia festas ao gato de alguma senhora, quando fora outra pessoa - o seu ajudante Rob McGee, por exemplo - quem na realidade quase partira uma clavícula ao subir à árvore para onde a bichana trepara e ao trazê-la para baixo.
McGee ouviu o arrazoado de Marjorie durante talvez dois minutos, depois interrompeu-a com quatro ou cinco perguntas - rápidas e incisivas, como se fosse um pugilista com experiência a desferir pequenos golpes sobre as faces do adversário, o género de ataques que são tão pequenos, mas tão violentos, que o sangue começa a jorrar quase antes do impacte. Depois de ter obtido as respostas às suas perguntas, ele acrescentou:
- Vou telefonar ao Bobo Marcham. Ele tem uns cães. A senhora deixe-se ficar sossegadinha onde está, Mistress Detterick. Se o seu homem e o seu rapaz regressarem, diga-lhes
' Associações de lavradores. (N. da T.)








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que se deixem estar também sossegados. Pelo menos, tente que eles façam isso.
Entretanto, o homem e o rapaz de Marjorie haviam continuado a seguir o trilho do sequestrador ao longo de quatro quilómetros e meio para noroeste; todavia, quando a pista
saiu de terreno aberto, entrando no arvoredo cheio de pinhais, acabaram por perdê-la. Ambos eram lavradores e não caçadores, tal como já disse, e nessa altura já se tinham apercebido de que se encontravam na peugada de um animal. Ao longo do caminho haviam encontrado o top que condizia com os calções amarelos de Kathe, assim como um outro pedaço da camisa de dormir de Cora. Ambos os artigos se encontravam empapados de sangue, e naquele momento nem Klaus nem Howie estavam com tanta pressa como no início; nas suas esperanças já devia ter principiado a infiltrar-se uma certeza cheia de frialdade, começando a descer tal como a água fria o faz, afundando-se por ser mais pesada.
Entraram no bosque à procura de vestígios, não encontraram nada, entraram numa segunda área e tiveram um resultado idêntico, e depois numa terceira zona. Desta feita depara
ram com um leque de sangue derramado por cima de um amontoado de agulhas de pinheiro. Seguiram na direcção que lhes parecia indicada durante algum tempo, depois recomeçaram a procurar ao acaso. Nessa altura já eram nove horas da manhã; ambos começaram a ouvir atrás de si os gritos de homens e o latir de cães presos por trelas. Rob McGee conseguira organizar um corpo de guardas civis no mesmo espaço de tempo que teria levado ao xerife Cribus terminar o seu primeiro café adoçado com brande; passados quinze minutos já tinham alcançado Klaus e Howie Detterick, os dois caminhando num passo desesperadamente cambaleante em redor do perímetro do bosque. Pouco depois, os homens puseram-se de novo em movimento, com os cães de Bobo à frente. McGee permitiu que Klaus e Howie os acompanhassem - ainda que lhes tivesse dado ordem contrária, ambos teriam recusado voltar atrás, independentemente do quanto temessem o desfecho daquela perseguição, o que McGee teria compreendido; no entanto, forçou-os a descarregarem as armas. Os outros haviam feito o mesmo, argumentara McGee; assim era mais seguro. O que não lhes disse (no que foi imitado por todos os outros) foi que os Detterick eram os únicos a quem havia sido pedido que retirassem as munições das espingar
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das, entregando-as ao ajudante do xerife. Sem se aperceberem bem da situação e desejando apenas prosseguir até ao fim daquele pesadelo, pai e filho fizeram o que lhes foi dito. Quando Rob McGee conseguiu convencer os Detterick a descarregarem as armas e a entregarem as munições, salvara provavelmente a desgraçada vida de John Coffey.
Não parando de ganir, os cães presos pelas trelas arrastaram os homens durante três quilómetros pelo solo coberto de pinhas, seguindo sempre pelo trilho em direcção a noroeste. Em seguida, detiveram-se na margem do rio Trapingus, cujo leito é largo e de águas lentas naquele ponto, correndo para sudeste através de colinas baixas e arborizadas, onde famílias de nome Cray, Robinette e Duplissey continuavam a manufacturar os seus próprios mandolins e frequentemente cuspiam os seus próprios dentes apodrecidos, enquanto lavravam a terra; eram regiões rurais bem para o interior, onde os homens conseguiam apanhar serpentes aos domingos de manhã e deitar-se à noite em amplexos carnais com as próprias filhas. Eu conhecia as suas famílias; a maior parte deles contribuía de tempos a tempos com uma refeição para a Velha Faísca. No extremo mais afastado do rio, os homens do corpo de voluntários podiam ver aquele sol de Junho reflectido nos carris de aço do ramal ferroviário do Sul. Mais ou menos a quilómetro e meio para a direita, rio abaixo, havia um viaduto que atravessava o caminho em direcção às minas de carvão de West Green.
Foi ali que encontraram um trilho largo com o solo bastante revolvido entre as ervas e os arbustos baixos, um rasto tão ensanguentado que muitos dos homens foram forçados a correr para o arvoredo, aliviando-se dos pequenos-almoços que haviam ingerido. Também encontraram o resto da camisa de noite de Cora, que estava caída naquele caminho coberto de sangue derramado, e Howie, que até então se tinha aguentado de forma admirável, retrocedeu para junto do pai, prestes a desfalecer.
E foi naquele lugar que os cães de Bobo Marcham tiveram o seu primeiro e único desacordo do dia. Ao todo eìam seis animais dois perdigueiros, dois malhados de negro e um par de terriers cruzados de aspecto feroz. Os dois últimos queriam continuar em direcção a noroeste, seguindo pelo Trapingus acima; os demais pretendiam seguir rumo a sudeste. Os seis enredaram-se nas suas próprias trelas e, embora os



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jornais não tivessem feito qualquer menção a esse acontecimento, eu era capaz de imaginar o praguejar horrível que deve ter saído da boca de Bobo, destinado aos animais, enquanto se servia das mãos - certamente a parte mais bem-educada do seu corpo - para desenredar as trelas que os prendiam. Nos meus tempos tive oportunidade de conhecer alguns donos de cães de caça, e diz-me a experiência que, como classe, são todos muito parecidos.
Bobo manteve-os com a trela curta, numa matilha ordeira, depois passou a camisa de dormir de Cora feita em farrapos por baixo do nariz dos animais, como se os estivesse a recordar do motivo que os havia levado àquele lugar, num dia em que a temperatura atingiria certamente os trinta e dois graus por volta do meio-dia, e os insectos, em enxames, já descreviam círculos à volta das cabeças dos membros da milícia. Os ; cães de caça farejaram mais uma vez, decidiram votar todos no mesmo número e lá foram em direcção ao rio, seguindo para jusante a toda a velocidade.
Ainda mal tinham passado dez minutos quando os homens detiveram a sua caminhada, dando-se conta de que ouviam algo mais além dos latidos dos cães. Na realidade, era mais um uivar do que um ladrar ou rosnar, um som que cão algum jamais havia emitido, nem sequer nas vascas da morte. ', Era um som que nenhum dos homens alguma vez ouvira ser articulado fosse pelo que fosse, embora todos eles soubessem, sem qualquer margem para dúvida, que saíra da boca de um homem. Foi o que eles disseram na altura, e eu acreditei piamente. Tenho a impressão de que também o teria reconhecido. Já tive oportunidade de ouvir homens a gritarem daquela mesma maneira, quando iam a caminho da cadeira eléctrica. Não muitos - quase todos os condenados se fecham em si mesmos e vão ora calados ora dizendo piadas, como se fossem ao piquenique da sua turma - mas uns quantos. Geralmente, aqueles que acreditam na existência do inferno, sabendo de antemão que ele os aguarda no final da Milha Verde.
Uma vez mais, Bobo manteve os seus cães com as trelas curtas. Os animais eram valiosos e ele não tinha a mínima intenção de vir a perder qualquer deles por causa do psicopata que uivava e proferia um arrazoado sem nexo mais abaixo na margem do rio. Os homens carregaram as suas carabinas e começaram a fazer pontaria. Aquele uivar provocara-lhes calafrios de gelar as almas, fazendo com que a transpiração lhes
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corresse pelas costas abaixo e se acumulasse nos sovacos, como se fosse água gelada. Quando as pessoas se encontram numa situação apavorante como aquela necessitam de um dirigente, a fim de poder prosseguir; coube ao ajudante de xerife, McGee, chefiá-los. Tomou a dianteira do grupo e começou a caminhar num passo vigoroso (não obstante aquela aparente determinação, aposto que ele naquela altura não se sentiu lá muito vigoroso), até chegar a um maciço de amieiros que saíam do bosque à sua direita, com o resto dos companheiros a seguir a cerca de cinco passos atrás de si, num andar que denotava um certo nervosismo. McGee parou uma só vez, para indicar por gestos ao homem de maior porte entre eles - Sam Hollis - que se mantivesse perto de Klaus Detterick.
Do outro lado dos amieiros havia mais terreno aberto, que se estendia até ao início do bosque à direita, enquanto à esquerda se avistava uma longa encosta suavemente ondulada,
junto à margem do rio. Todos eles pararam onde se encontravam, como se houvessem sido fulminados por um raio. Estou convencido de que estariam dispostos a dar muito do que possuíam para poder apagar o que tinham à frente dos olhos, e que nenhum deles jamais conseguiria esquecer... Era o género de pesadelo que paira para lá dos factores e dos elementos que formam as vidas boas e comuns - as ceias na igreja, os passeios pelas veredas dos campos, o trabalho honesto, beijos de amor trocados na cama. Existe uma caveira em todos os homens, e deixem-me que vos diga que existe uma caveira na vida de todos os homens. Nesse dia, aqueles homens viram-na - viram aquilo que por vezes esboça um esgar sinistro por detrás de um sorriso.
Sentado na margem, envergando um fato-macaco desbotado e manchado de sangue, encontrava-se o homem mais corpulento que muitos deles alguma vez tiveram ocasião de ver - John Coffey. Os seus pés enormes de dedos achatados e largos estavam descalços. À volta da testa usava uma faixa de um vermelho desbotado, da mesma maneira que qualquer mulher do campo usaria um lenço para ir à igreja. Os mosquitos que o rodeavam formavam uma nuvem escura. Aninhado em cada um dos seus braços estava o corpo de uma menina nua. Os cabelos louros das garotas, anelados e de uma tonalidade clara, como se fossem a penugem de algodão do campo, estavam colados às cabeças, empastados de sangue. O homem que as mantinha presas nos braços vociferava
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contra o firmamento, como se fosse um vitelo aluado, com ~ faces de tez castanha erguidas e cheias de lágrimas; as suas feições surgiam contorcidas num esgar monstruoso de desgosto. A sua respiração era entrecortada, fazendo com que a caixa torácica se soerguesse, até se ver a tensão exercida nas fivelas das alças do fato-macaco; o homem sustinha a respira_ ção, soltando-a juntamente com um daqueles uivos alongados que os outros haviam ouvido. Era muito frequente ler-se no jornal que "o assassino não mostrou qualquer remorso"; todavia, esse não era o caso naquela situação. John Coffey sentia-se despedaçado pela acção que cometera... mas haveria de continuar a viver. Para as raparigas isso seria totalmente impossível. Haviam sido esventradas.
Ninguém pareceu lembrar-se do período de tempo que ali permaneceram, observando o homem que continuava a uivar, o qual, por seu turno, fitava um comboio que passava na ou
tra margem do rio de vastas águas calmas e que se dirigia velozmente através dos carris na direcção do viaduto que atravessava o rio. Tinham a sensação de que haviam estado a observar durante uma hora, ou talvez para todo o sempre, embora o comboio desse a impressão de não avançar, parecendo deter-se, bruscamente imobilizado, qual criança com uma birra; tão-pouco o Sol se ocultou por detrás de uma nuvem, permitindo que aquela visão se apagasse dos seus olhos. Encontrava-se ali, perante eles, tão verdadeira como a dentada de um cão. O homem negro embalava-se para a frente e para trás. Kathe e Cora eram embaladas ao mesmo ritmo do seu corpo, como se fossem meras bonecas de trapos nos braços de um gigante. Os músculos manchados de sangue dos gigantescos braços desnudados do homem, flectidos e distendidos, flectidos e distendidos, flectidos e distendidos.
Foi Klaus Detterick quem quebrou aquele silêncio sinistro. Soltando gritos de dor, arremessou-se contra o monstro que violara e assassinara as filhas. Sam Hollis sabia bem co mo cumprir a tarefa que lhe fora reservada, a tentou levá-la a cabo, embora não tivesse sido capaz. Era cerca de quinze centímetros mais alto do que Klaus, e o seu peso excedia o do outro em pelo menos trinta e cinco quilos, mas Klaus dava a impressão de quase ter a força suficiente para se libertar dos seus braços, que o rodeavam. Klaus lançou-se através daquele terreno aberto, desferindo um violento pontapé contra a cabeça do Coffey. A sua bota de lavoura, manchada com o leite







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seco que havia derramado e que já azedara por força do calor, atingiu em cheio a fronte esquerda do Coffey, mas este pareceu não ter sentido o violento impacte. Limitou-se a permanecer sentado, enquanto chorava e se baloiçava, olhando fixamente para a outra margem do rio; imagino que poderia muito bem ter feito parte da imagem de um sermão do dia de Pentecostes, o fiel seguidor da cruz, a olhar contemplativamente para a terra prometida... isto é, não fora a presença dos dois cadáveres.
Foi necessária a força de quatro homens para conseguir arrastar o lavrador histérico para longe de John Coffey, apesar de ele ter conseguido atingir este último não sei bem quantas vezes antes de os esforços dos outros serem bem sucedidos. Nada do que estava a acontecer parecia despertar o mínimo interesse em Coffey, fosse de que maneira fosse; o homem limitava-se a observar ensimesmado a outra margem do rio, dando largas à mágoa que o dominava. Quanto a Detterick, todo o espírito de luta o abandonou quando por fim o afastaram do assassino - como se uma estranha corrente galvanizadora atravessasse o corpo do gigantesco homem negro (eu continuo a ter uma certa propensão para pensar em metáforas ligadas à electricidade; vão ter de me desculpar esta minha faceta peculiar); quando o contacto que Detterick mantivera com essa fonte de energia foi finalmente interrompido, o seu corpo ficou flácido, como um homem que houvesse sido arremessado de um cabo eléctrico descarnado. Ajoelhou-se com as pernas abertas na margem do rio, mantendo as faces ocultas pelas mãos enquanto chorava convulsivamente. Howie juntou-se ao pai e ambos se abraçaram testa contra testa.
Dois dos homens mantinham-nos sob uma vigilância apertada, ao mesmo tempo que o resto do grupo, de carabinas em punho, formava um círculo em redor do homem negro que não parava de se embalar e de gemer. Dava a impressão de ainda não se ter apercebido da presença dos homens. McGee deu alguns passos em frente, apoiando o peso do corpo ora sobre um pé ora sobre o outro durante algum tempo, até que se agachou.
- Mister - disse ele numa voz tranquila que teve o condão de calar Coffey imediatamente. McGee olhou para uns olhos congestionados devido ao choro que parecia não querer interromper-se, como se alguém tivesse deixado uma torneira aberta dentro do homem. Aqueles olhos choravam, no entanto
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pareciam intocados... distantes e serenos. Foram os olhos mais estranhos que tive oportunidade de ver em toda a minha vida. McGee também chegou a uma conclusão bastante aproximada. "Como se fossem os olhos de um animal que nunca tivessem visto um homem", disse ele a um repórter de nome Hammersmith pouco antes do julgamento.
- Mister, está a ouvir-me? - perguntou McGee. Devagar, Coffey acenou afirmativamente. Continuava a rodear com os braços as suas bonecas macabras, as quais mantinham o queixo sobre o peito, de forma a que os rostos não podiam ser vistos com clareza, um dos poucos actos de misericórdia que Deus achou por bem conceder naquele dia fatídico.
- Tem algum nome? - acrescentou McGee.
- John Coffey - respondeu o homem numa voz empastada e embargada pelas lágrimas. - Coffey como a bebida, com a diferença que não se escreve da mesma maneira.
McGee acenou com a cabeça e em seguida apontou com o polegar na direcção do bolso no peito do fato-macaco de Coffey, que exibia uma forma saliente. McGee pensou que
talvez contivesse uma arma - embora um homem do tamanho de Coffey não necessitasse de recorrer a uma arma para provocar danos consideráveis, caso estivesse decidido a isso.
- O que é que tens aí dentro, John Coffey? Talvez uma bola? Uma pistola?
- Não, senhor - respondeu Coffey na sua voz entaramelada e com aqueles seus olhos estranhos, marejados de lágrimas e que reflectiam uma expressão agonizante, embora
bem no fundo se mostrassem aberrantemente serenos, como se o verdadeiro John Coffey se encontrasse algures que não ali, fitando uma outra paisagem qualquer, onde as garotinhas assassinadas não fossem motivo de grande preocupação, olhos que nunca se desprenderam do ajudante de xerife, McGee. - É somente uma pequena merenda que trouxe comigo.
- Oh, com que então temos uma pequena merenda, não é verdade? - replicou McGee, ao que Coffey acenou que sim, dizendo "sim senhor" com os seus olhos arrasados de lágri
mas, enquanto o ranho lhe escorria pelas narinas. - E onde é que um homem da tua igualha foi arranjar uma merenda, John Coffey? - acrescentou McGee, forçando-se a manter a calma, embora já lhe tivesse chegado ao nariz o cheiro a ca
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dáver das duas garotas e pudesse ver as zonas ensanguentadas dos corpos a serem sobrevoadas e saboreadas pelas moscas. Afirmou mais tarde que a região dos cadáveres que mais o impressionara tinha sido os cabelos... e não se tratou apenas de uma declaração destinada aos jornais; era uma história demasiado macabra para ser lida por famílias. Não, eu obtive essa informação através do repórter que relatou o acontecimento, Mr. Hammersmith. Posteriormente falei com ele, porque, tempos mais tarde, o John Coffey transformou-se numa espécie de obsessão para mim. McGee disse a este Hammersmith que os cabelos louros das duas tinham deixado de ser louros. Haviam adquirido uma tonalidade castanho-avermelhada. O sangue escorrera-lhes da cabeça pelas faces abaixo, qual trabalho de cabeleireira mal executado; não era preciso ser-se médico para compreender que os seus frágeis crânios haviam sido esmagados um contra o outro, com a força daqueles braços tão poderosos. Possivelmente, as duas rapariguinhas teriam chorado. Provavelmente, ele teria tentado fazer com que elas se calassem. Com um pouco de sorte, aquilo teria acontecido antes dos estupros.
Ao olhar para tal quadro, qualquer homem teria dificuldade em pensar com clareza, até mesmo um homem tão determinado em levar a bom termo o seu trabalho como o ajudante de xerife, McGee. Um raciocínio pouco claro poderia dar origem a erros, talvez mesmo a mais derramamento de sangue. McGee respirou fundo e acalmou-se. Ou pelo menos tentou.
- Pois bem, senhor, não me lembro bem... Macacos me mordam se me lembro - disse Coffey na sua voz embargada pelas lágrimas. - Mas o certo é que é uma pequena merenda... pouca coisa, parece-me que uma sandes e um pepino doce em picles.
- Sou bem capaz de ver com os meus próprios olhos, se não vires inconveniente - retorquiu McGee. - Agora não te mexas, John Coffey. Não te atrevas, rapaz, porque como podes ver estás soba mira de armas suficientes para fazerem com que desapareças da cintura para cima, caso decidas mexer nem que seja um só dedo.
Coffey continuou a fitar o outro lado do rio, sem fazer qualquer movimento, enquanto McGee, suavemente, levou a mão ao interior da algibeira do peito do fato-macaco, de onde
'retirou qualquer coisa embrulhada em papel de jornal e atada






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com um cordel. McGee desfez o nó e abriu o papel, embora tivesse quase a certeza que encontraria aquilo que Coffey dissera, uma pequena merenda. Era composta por uma sanduíche de toucinho fumado com rodelas de tomate e um doce com gelatina. Também havia picles embrulhados numa página com uma história aos quadradinhos, que John Coffey jamais seria capaz de compreender. Não se viam quaisquer salsichas. Bowser tinha comido todas as salsichas da pequena merenda com que John Coffey viera prevenido.
McGee entregou a comida por cima do ombro a um dos homens que o tinham acompanhado, sem nunca despregar os olhos de Coffey. Agachado como se encontrava, não se pode
ria dar ao luxo de qualquer distracção, nem que fosse por um segundo. A merenda, que entretanto fora de novo embrulhada e atada para maior segurança, acabou por ir parar às mãos de Bobo Marcham, o qual a colocou dentro da mochila onde costumava guardar os petiscos para os seus cães (e não me espantaria muito se também lá guardasse algum isco para a pesca). Durante o julgamento, aquilo não foi apresentado como prova incriminatória - a justiça naquela parte do mundo costumava ser célere, embora não o fosse ao ponto de permitir que uma sanduíche, de toucinho fumado e tomate, estivesse em boas condições até essa data - o que não impediu que fossem apresentadas fotografias da mesma.
- O que é que aconteceu por aqui, John Coffey? - perguntou McGee na sua voz veemente e sussurrante. - Queres contar-me o que é que se passou?
Coffey começou a dizer-lhe, assim como aos outros homens presentes, quase exactamente a mesma coisa que me disse a mim; aquelas palavras também foram as últimas que o
promotor de justiça dirigiu ao júri, durante o julgamento de Coffey.
- Não consegui evitar o mal - afirmou John Coffey, enquanto continuava a manter nos braços os corpos nus das garotas violadas e assassinadas. Uma vez mais, as lágrimas
começaram a jorrar-lhe pelas faces abaixo. - Tentei desfazer o que estava feito, mas já era demasiado tarde - acrescentou ele. - Rapaz, estás preso pelo crime de homicídio - anunciou McGee, após o que escarrou para o rosto de Coffey. O júri retirou-se para deliberar durante quarenta e cinco minutos. Precisamente o espaço de tempo suficiente para comerem a sua própria pequena merenda. Pergunto a mim mesmo como é que puderam ter estômago para comer.
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Acho que vocês sabem que não vim a tomar conhecimento de tudo isto numa tarde quente de Outubro, num espaço que estava prestes a tornar-se a defunta biblioteca da prisão, graças à leitura de uns quantos jornais antigos empilhados sobre um par de caixotes de laranjas Pomona; no entanto, fiquei a saber o suficiente para não conseguir conciliar o sono nessa noite. Quando a minha mulher se levantou da cama às duas da manhã e deu comigo sentado à mesa da cozinha, a beber leitelho e a fumar cigarros Bugler enrolados em mortalhas por mim mesmo, perguntou-me o que é que me preocupava e eu respondi-lhe com uma das poucas mentiras que lhe disse durante o nosso já longo casamento. Disse-lhe que tinha tido outra discussão com o Percy Wetmore. Claro que isso correspondia à verdade, mas não era a razão que me levava a estar acordado àquela hora já avançada. Por via de regra, conseguia deixar sempre a imagem do Percy no escritório.
- Pois bem, esquece essa ovelha ranhosa e vem para a cama - aconselhou ela. - Tenho uma coisa que te ajudará a dormir e podes servir-te dela à tua vontade.
- Isso parece ser boa ideia, mas acho preferível não o fazermos - retorqui. - Tenho um pequeno problema com a minha canalização urinária e não desejo pegar-to.
- Com que então, a canalização? - comentou ela, erguendo o sobrolho. - Calculo que te tenhas metido com a rapariga de esquina menos adequada da última vez que estiveste em Baton Rouge. - Eu nunca tinha ido a Baton Rouge nem nunca tocara sequer numa rapariga da rua, e ambos o sabíamos.
- Não passa de uma vulgar infecção urinária - acrescentei. - A minha mãe costumava dizer que os rapazes costumam apanhar isto quando vertem águas numa altura em que o vento sopra do Norte.
- Atua mãe também costumava fechar-se em casa todo o dia quando entornava sal - comentou a minha mulher. =O doutor Sadler...
- Não, senhora - atalhei erguendo uma mão. - Ele vai querer que eu tome sulfamidas, o que fará com que eu vomite por todos'os cantos do meu gabinete lá para o fim da semana. Temos de dar à infecção o tempo necessário para que passe
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por si própria, mas, entretanto, calculo que o melhor será mantermo-nos afastados das brincadeiras.
Ela beijou-me a testa mesmo acima da sobrancelha esquerda, o que tem o condão de me provocar sempre arrepios... tal como a Janice muito bem sabe.
- Pobre querido. Como se esse horroroso do Percy Wetma re não fosse suficiente. Não te demores em vir para a cama,; Assim fiz, mas não sem que antes tivesse saído para o alpendre das traseiras, a fim de aliviar a bexiga (depois de ter verificado a direcção do vento com um polegar molhado, antes de urinar - aquilo que os nossos pais costumam dizer-nos quando ainda somos pequenos só muito raramente é' ignorado, independentemente do quão disparatado possa parecer). Urinar ao ar livre é uma das alegrias de viver no campo que nunca foi devidamente abordada pelos poetas, embora nessa noite não tenha sido alegria nenhuma para mim; as águas que eu vertia queimavam-me como se fossem um fio de querosene em combustão. No entanto, tive a sensação de, que nessa tarde fora um pouco pior e tive a certeza de que fora pior dois ou três dias antes. Albergava algumas esperanças de que talvez me encontrasse em vias de melhorar. Nunca uma esperança foi tão mal fundamentada. Ninguém me tinha informado de que por vezes um micróbio que se aloja nessa região do nosso organismo, quente e húmida, poderá levar um dia ou dois a descansar antes de investir de novo com toda a virulência. Tivesse eu estado a par desse aspecto e ter-me-ia sentido deveras surpreendido. Mas teria ficado ainda' mais surpreendido se soubesse que dentro de outros quinze ou vinte anos existiriam uns comprimidos que-eliminariam dos nosso organismo, num tempo recorde, essa espécie de infecções... e, embora esse medicamento pudesse incomodar-nos um pouco o estômago, ou soltar os nossos intestinos, era muito raro que nos fizesse vomitar da forma como os comprimidos de sulfamidas do Dr. Sadler faziam. Em 1932, pouco mais se podia fazer para além de aguardar pacientemente e tentar ignorar aquela sensação de que alguém derramara querosene no interior da nossa canalização e lhe chegara um fósforo.
Acabei de urinar e regressei ao quarto, tendo finalmente conseguido adormecer. Sonhei com rapariguinhas de sorrisos tímidos que tinham os cabelos empapados de sangue.
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Na manhã seguinte, deparei com um memorando escrito em papel amarelado em cima da minha secretária, onde me era pedido que passasse pelo gabinete do director logo que tal me fosse possível. Sabia do que tratava aquela mensagem - naquele jogo existiam alguns regulamentos por escrever que nem por isso deixavam de ser muito importantes, e na véspera, durante algum tempo, eu não tinha jogado de acordo com eles, por conseguinte, adiei aquele assunto durante tanto tempo quanto me foi possível. Era como se tivesse de ir ao médico por causa do problema com a minha canalização, supunha eu. Sempre estive convencido de que este negócio do "pôr cobro ao assunto o mais depressa possível" se encontrava sobrevalorizado.
Seja como for, não me apressei em comparecer no gabinete do director Moores; em vez disso, despi o casaco do meu uniforme de lã, pendurei-o nas costas da minha cadeira e liguei a ventoinha que se encontrava a um canto do gabinete - estava outro dia de calor. Em seguida, sentei-me e comecei a ler o relatório elaborado pelo Brutus Howell sobre os acontecimentos da noite anterior. Nele não havia nada que fosse causa para alarme. Depois de se ter deitado, o Delacroix tinha chorado durante algum tempo - o que ele fazia na maior parte das noites, mais por autocomiseração do que por lamentar as pessoas que havia assado em vida, tenho a certeza - e depois retirara Mister Jingles, o rato, da caixa de charutos onde o animal costumava dormir. Isso tinha acalmado Del, que dormira como um bebé durante o resto da noite. O mais certo era Mister Jingles ter passado a noite sobre o estômago dele, com a cauda enroscada por cima das suas manápulas e os olhos sem pestanejarem. Era como se Deus houvesse decidido que o Delacroix tinha necessidade de um anjo-da-guarda, tendo decretado em toda a Sua sabedoria, que só um rato serviria para uma ratazana como o nosso amigo da Luisiana com tendências homicidas. Nem tudo aquilo constava do relatório do Brutal, como é evidente, mas eu próprio tinha feito suficientes turnos de noite para poder preencher as lacunas existentes entre as entrelinhas. Havia um pequeno apontamento que dizia respeito ao Coffey: "Ficou deitado acordado, de uma maneira geral sossegado, é possível que tenha chora
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do um pouco. Tentei encetar uma conversa com ele, mas, de. pois de ter recebido algumas respostas resmungadas, decidi desistir. Talvez o Paul ou o Harry tenham melhor sorte do' que eu."
"Encetar uma conversa" era efectivamente um dos pontos'; mais fulcrais da nossa missão. Nessa altura eu não o sabia, mas olhando para trás, graças à perspectiva vantajosa desta
estranha idade avançada (acho que todas as pessoas de idade devem parecer um tanto estranhas aos olhos das pessoas que' são obrigadas a viver com elas), sei que assim era e conheço o motivo por que na altura não o compreendia - era demasiado grande, uma parte tão fundamental para o nosso trabalho como a respiração para as nossas vidas. Não era importante que os temporários "encetassem uma conversa", embora isso fosse um factor vital tanto para mim como para o Harry, o Brutal e o Dean... razão por que o Percy Wetmore era um' desastre de tal dimensão. Os prisioneiros odiavam-no, os' guardas detestavam-no... presumivelmente, toda a gente sen-~ tia aversão pelo homem, excepção feita aos seus amigos políticos, ao próprio Percy, e talvez (mas apenas talvez) à sua mãe. Ele era como uma dose de arsénico branco que se polvilhasse por cima de um bolo de casamento, e estou convicto', que desde o início ele soube que a sua presença significava desastre. O homem era um acidente à espera de se concretizar. Quanto a nós, teríamos escarnecido da ideia de que agia-mos de forma mais útil não como guardas de homens condenados à morte, mas sim como seus psiquiatras - hoje em' dia, parte de mim continua a sentir vontade de escarnecer' dessa ideia; no entanto, sabíamos bem como é que haveríamos de encetar esse género de conversa... e sem essa conversa os homens que teriam de se apresentar perante a Velha Faísca tinham o péssimo hábito de enlouquecerem.
Tomei um apontamento no fundo do relatório do Brutal, a fim de não me esquecer de ter uma conversa com o John Coffey - pelo menos, tentar - e depois passei para a men
sagem do Curtis Anderson, o assistente principal do director da prisão. Dizia que ele, o Anderson, aguardava uma ordem de DDE relativa ao Edward Delacrois (o Anderson escrevera erradamente o nome do homem, que, na realidade, era Eduard Delacroix) dentro de muito pouco tempo. DDE significava data de execução e, de acordo com aquele apontamento, uma fonte bem informada dissera ao Curtis que o pequeno franciú
faria essa caminhada perto da Noite das Bruxas - vinte e sete de Outubro era o seu melhor palpite; os palpites do Curtis Anderson eram sempre muito bem informados. Todavia, antes dessa data poderíamos contar com a chegada de um novo residente, o qual dava pelo nome de William Wharton. "Ele é aquilo a que se gosta de chamar uma criança problemática", escrevera o Curtis na sua escrita inclinada para a esquerda, que até certo ponto era presumida. "Doido varrido e orgulhoso de o ser. Durante o último ano deambulou por todo o estado, tendo finalmente dado o grande passo. Assassinou três pessoas durante um assalto, sendo uma delas uma grávida, e abateu uma quarta vítima durante a fuga. Um polícia de trânsito. Só não acertou numa freira e num cego." Esbocei um sorriso ao ler aquilo. "O Wharton tem dezanove anos e na parte superior do antebraço tem tatuado Billy the Kid. Posso afiançar que será necessário esbofeteá-lo uma ou duas vezes, mas é preciso ter cuidado quando isso acontecer. Este homem está-se nas tintas para o que lhe possa acontecer." A última observação fora sublinhada com dois traços, depois ele terminara: "Também é possível que venha a manter-se por aqui. Tem tentado recorrer da sentença e para além disso, é menor."
Um miúdo louco, que recorre da sentença, muito capaz de se manter por ali durante algum tempo. Oh, tudo aquilo soava que era uma maravilha. De súbito, tive a impressão de que o dia ficaria mais quente do que anteriormente, e vi que não poderia continuar a adiar a minha visita ao gabinete do director Moores.
Durante o tempo em que exerci a profissão de guarda em Cold Mountain, trabalhei para três directores; o Hal Moores foi o último e o melhor deles todos. Conclusão a que se poderia chegar ao fim de pouco tempo. Era um homem honesto e directo, que nem sequer possuía a esperteza rudimentar do Curtis Anderson, embora estivesse munido da sabedoria política suficiente para lhe permitir manter o emprego durante aquele período difícil... e com integridade suficiente para o impedir de se deixar seduzir por aquele jogo de interesses. Nunca ascenderia a uma posição mais elevada, mas isso parecia não o incomodar por aí além. Nessa altura, deveria andar pelos cinquenta e oito ou cinquenta e nove anos e tinha uma cara tão parecida com o focinho de um cão que o Bobo Marcham se teria sentido completamente à vontade com ele. Possuía cabelos brancos, e as suas mãos estavam sempre a tre
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57mer devido a uma qualquer ameaça de paralisia, embora ele fosse um homem forte. No ano anterior, quando um dos prisioneiros se acercara agressivamente dele no pátio de recreio, empunhando o cabo de madeira de um pé-de-cabra, Moores mantivera-se firme; agarrara vigorosamente no pulso do ru_ fião e torcera-o com tanta força que o estalar dos ossos a que_ brarem-se se assemelhara ao som de galhos secos a arder numa fogueira. O agressor, tendo-se esquecido de todas as suas razões de queixa, vergara-se até ficar ajoelhado no solo enquanto gritava pela mãe.
- Eu não sou ela - dissera Moores na sua maneira culta de falar de homem oriundo do Sul -, mas, se o fosse, levantaria as saias e mijar-te-ia em cima através da região do meu corpo que te viu nascer.
Quando entrei no seu gabinete, ele fez menção de se levantar da cadeira, mas com um gesto indiquei-lhe que permanecesse onde estava. Sentei-me na cadeira em frente dele, do
outro lado da secretária e comecei a perguntar pelo estado de' saúde da mulher... só que nestas paragens as coisas não se' processam exactamente dessa maneira.
- Como é que está a tua bonita rapariga? - perguntei,, como se a Melinda tivesse acabado de completar dezassete primaveras, em vez de sessenta e duas ou sessenta e três.
O meu interesse era bastante genuíno - ela era uma mulher que eu próprio poderia ter amado e com quem podia ter casado se as linhas das nossas vidas se tivessem cruzado - e'
não me incomodava muito desviar-lhe um pouco a atenção do assunto principal que me havia levado ali.
- Ela não tem passado muito bem, Paul - retrucou ele com um profundo suspiro. - Nada bem, mesmo.
- Mais dores de cabeça?
- Esta semana só teve uma, mas foi a pior de todas... Forçou-a a ficar estendida na cama durante a maior parte do dia, anteontem. E agora começou a sentir uma inércia na mão
direita... - Ergueu a sua própria mão direita cuja pele tinha manchas hepáticas acastanhadas. Ambos pudemos observar o tremor no membro enodoado durante breves momentos, após o que baixou a mão. Consegui perceber que ele teria dado tudo para não ser forçado a dizer-me o que estava a dizer, e pela minha parte, eu teria procedido exactamente da mesma maneira para não ser forçado a ouvir. As dores de cabeça dá Melinda tinham começado na Primavera e, durante todo
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aquele Verão, o médico insistira que eram "enxaquecas provocadas pela tensão nervosa", o que poderia muito bem ter como causa a próxima aposentação do Hal. Só que nenhum deles podia esperar que ele se reformasse, e a minha própria mulher tinha-me dito que as enxaquecas não eram um incómodo que costumasse afligir as pessoas de idade, mas sim os mais novos; quando os seus sofredores alcançavam a idade da Melinda Moores, habitualmente sentiam-se melhor e não pior. E agora surgira-lhe aquela fraqueza na mão. Quanto a mim, nenhum daqueles sintomas indicava a existência de tensão nervosa; eram, isso sim, indicadores do raio de um enfarte iminente.
- O doutor Haverstrom quer que ela seja internada no hospital em Indianola - continuou Moores. - Para ser submetida a alguns exames. Está a referir-se é a radiografias à cabeça. Quem sabe o que mais. Ela anda assustada de morte - acrescentou ele, fazendo uma pausa. Verdade seja dita, também eu tenho medo.
- Sim, mas tens de te certificar que ela faz o que o médico the disse - repliquei. - Não deves esperar. Se for alguma coisa que eles possam detectar através das radiografias, é possível que se trate de algo que possam vir a curar.
- Sim - concordou ele e em seguida, apenas por breves instantes, os únicos durante aquela parte da nossa conversa, tanto quanto me é dado recordar, o nosso olhar cruzou-se e manteve-se assim. Verificou-se aquela espécie de compreensão perfeita, nua e crua, entre nós dois, que não carece de quaisquer palavras. Sim, poderia ser um enfarte. Também poderia tratar-se de um cancro a desenvolver-se no seu cérebro, e, caso fosse isso, as hipóteses de os médicos em Indianola poderem fazer alguma coisa eram bastante escassas, se não mesmo nulas. Não se esqueçam de que estávamos em 1932, quando uma doença relativamente simples como uma infecção do tracto urinário ou era tratada com sulfamidas, até uma pessoa estar prestes a morrer de náuseas, ou deixava-se o doente sofrer esperando que o mal acabasse por desaparecer.
- Estou te muito agradecido pelo teu cuidado, Paul. Mas agora falemos sobre o Percy Wetmore.
Gemi e cobri os olhos.
- Esta manhã recebi um telefonema da capital do estado - começou o director da prisão numa voz neutra. - Tratou-se de uma conversa bastante irritada, tal como tenho a
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certeza que serás capaz de imaginar. Paul, o governador está tão casado que quase não está lá, se é que estás a compreemder. E a mulher tem um irmão, que por sua vez tem um filho Esse filho é o Percy Wetmore. Ontem à noite, o Percy telefonou ao paizinho, o qual por seu turno ligou para a tia do Percy. Terei de continuar a explicar-te o resto desta situação: - Não - respondi. - O Percy bufou. Tal como o mari quinhas da turma que conta à professora que viu dois colegas a apalparem-se no bengaleiro.
- Sim - aquiesceu Moores -, a situação é mais ou menos essa.
- Por acaso sabes o que é que aconteceu entre o Percy o Delacroix quando este chegou à prisão? - perguntei.
O Percy e o seu maldito bastão de nogueira de estimação? - Sim, mas...
- E sabes que por vezes ele tem o hábito de o fazer correr pelas barras das celas, sem que haja qualquer justificação: É um homem mau, além de ser estúpido, e não sei durante.
quanto mais tempo conseguirei aguentar a sua presença. Essá é que é a verdade.
Havia cinco anos que nos conhecíamos. Isso poderá ser bastante tempo para dois homens que se dão bem, especialmente quando parte das nossas funções é substituir a vida pe
la morte. O que estou a dizer é que o Moores compreendia i bastante bem o que eu tentava dizer-lhe. Não que eu estivesse pronto para me demitir; isso não aconteceria com a Grande Depressão ao virar da esquina, do lado de fora dos muros da penitenciária, qual criminoso perigoso, um criminoso que não poderia ser encarcerado, tal como acontecia aos homens que se encontravam sob a nossa responsabilidade. Havia homens mais capazes do que eu que eram obrigados a calcorrear as estradas, forçados a valerem-se de tudo o que lhes aparecia pela frente. Eu fora bafejado pela sorte e encontrava-me bem ciente desse facto - com os filhos já crescidos e a hipoteca, da casa (que me parecera ser um bloco de mármore de cem quilos) fora do meu peito havia já dois anos. Contudo, um homem tem de comer, o mesmo acontecendo à sua mulher. Além de que tínhamos o costume de enviar à nossa filha, e ao nosso genro, vinte dólares sempre que podíamos dar-nos a esse luxo (o que por vezes acontecia até mesmo quando não tínhamos meios para isso, sempre que as cartas da Jane deixavam adivinhar uma situação particularmente desesperada).
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O marido era professor do ensino secundário, mas estava desempregado. Em consequência de tudo isto, não se desprezava um emprego certo como o meu... Sobretudo a sangue-frio, para ser mais concreto. Mas acontece que, nesse Outono, eu não sentia o sangue frio. A temperatura no exterior era anormalmente elevada para a estação do ano, para além de que a infecção, que alastrava no interior do meu corpo, fazia subir ainda mais o termóstato. E quando um homem se vê metido numa situação daquelas, ora bem, por vezes acontece que o seu punho age sem que esteja em consonância com o seu raciocínio. E, no caso de se atingir, uma vez que seja, um homem que tem tão bons conhecimentos como o Percy Wetmore, é possível que continuemos a atacá-lo insistentemente, uma vez que não existirá retrocesso possível.
- Vê se consegues aguentar-te - continuou o Moores numa voz tranquila. - Foi para te dizer isto que te chamei ao meu gabinete. Fui informado de boa fonte, de facto pela mesma pessoa que me telefonou esta manhã, que o Percy anda a ver se consegue arranjar um emprego no Briar, e tudo indica que o seu pedido de transferência será aceite.
- O Bnar! - exclamei. Moores estava a referir-se ao Briar Ridge, um dos dois hospitais administrados pelo estado. - O que é que esse rapazelho anda a fazer? Uma digressão pelas instituições estatais?
- Trata-se de um trabalho de carácter administrativo. O salário é melhor e só terá de despachar papéis, em vez de empurrar camas de hospital com o calor que faz. - O Moores brindou-me com um sorriso de esguelha. - Sabes, Paul, o mais certo era já te teres livrado dele se não o tivesses colocado no compartimento do quadro eléctrico com o Van Hay, quando o Chefe foi desta para melhor.
Durante alguns momentos, o que ele acabara de dizer pareceu-me tão peculiar que eu não fazia a mínima ideia de onde.é que pretendia chegar. Talvez eu não desejasse fazer a mais pequena ideia.
- Em que outro lugar é que eu poderia tê-lo posto? perguntei. - Jesus Cristo, ele mal sabe o que é que anda a fazer no bloco! Integrá-lo na equipa que trata das execuções... - Não acabei o meu pensamento. Era impossível. O potencial para a existência de complicações parecia não ter fim.
- Apesar de tudo, seria uma atitude assisada da tua parte colocá-lo na linha da frente da execução do Delacroix. Isto é, no caso de desejares ver-te livre dele.
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Fiquei a olhar para o Moores com o queixo descaído. Finalnente, consegui erguê-lo até à posição onde pertencia, de molde a poder continuar a falar.
- O que é que estás para aí a dizer? Que ele quer ter uma nova experiência de forma a poder cheirar bem os tomates estorricados do fulano?
O Moores encolheu os ombros. Os seus olhos, que tinham mostrado uma expressão tão suave enquanto falara da mulher, exibiam agora uma expressão empedernida.
- Os tomates do Delacroix vão ser electrocutados, quer o Wetmore faça parte da equipa de execução ou não - acrescentou ele. - Certo?
- Sim, mas ele poderá lixar as coisas. De facto, Hal, o mais certo é ele vir a lixar as coisas. E em frente de trinta e tal testemunhas... entre elas, os repórteres que vêm da Luisiana...
- Tu e o Brutus Howell certificar-se-ão de que ele não arranja qualquer complicação - acrescentou o Moores. -ï Mas se ainda assim isso vier a acontecer, ficará registado na~
sua folha de serviço, onde permanecerá até muito depois de os seus conhecimentos a nível governamental terem desaparecido. Estás a compreender-me?
Eu compreendia. Aquele aspecto nauseava-me e assustava-me, mas o certo era que percebia até muito bem.
- É possível que ele queira ficar por aqui até à execução do Coffey, mas se tivermos um pouco de sorte, o Percy satisfará todas as suas necessidades mórbidas com o Delacroix. Assegura-te apenas de que o colocarás na linha da frente dessa execução.
Eu já planeara recambiar, uma vez mais, o Percy para o compartimento do quadro eléctrico, que na altura se situava no túnel, após o que ele seguiria ao lado da maca que levasse
o Delacroix para a ambulância estacionada do outro lado da prisão. No entanto, naquela altura pus todos os planos para trás das costas, sem sequer pensar duas vezes. Indiquei ao Moores o meu acordo com um acenar de cabeça. Tive a percepção de que aquilo se tratava de um risco que eu estava a assumir, mas isso não me incomodou. Se pudesse livrar-me da presença do Percy Wetmore, estaria até disposto a fazer cócegas no nariz do próprio diabo. Ele poderia fazer parte da equipa que trataria da execução, poderia até ser ele a prender o capacete e olhar através da pequena janela de rede para di
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zer ao Van Hay que accionasse a alavanca para a fase dois; por mim, poderia muito bem observar o pequeno franciú a seguir no relampago que ele, Percy Wetmore, faria sair da lâmpada mágica. Enfim, permitir que ele sentisse o seu pequeno empolgamento macabro, se para ele isso se traduzisse no assassínio cometido com o beneplácito do estado. Que fosse trabalhar para o Briar Ridge, onde poderia ter o seu próprio gabinete com uma ventoinha que o arrefecesse. E se o tio por afinidade deixasse de exercer o cargo público para que fora investido durante as próximas eleições, e ele fosse obrigado a descobrir o que era trabalhar a sério neste velho mundo cheio de dificuldades que assava sob o sol escaldante, onde nem todos os tipos de maus (gados eram encarcerados atrás das grades, e onde por vezes levávamos na cabeça, tanto melhor.
- Muito bem - proferi eu por fim, levantando-me da cadeira. - Pô-lo-ei na linha da frente aquando da execução do Delacroix. E entretanto, esforçar-me-ei por manter a paz.
- Óptimo - replicou o Moores, que também se pôs de pé. - A propósito, como é que está o teu problema? - perguntou ele, apontando delicadamente para a região das minhas virilhas.
- Dá-me a impressão de que está um pouco melhor - respondi.
- Pois bem, isso é excelente. - O Moores acompanhou-me até à porta. - E a respeito do Coffey, há alguma coisa de novo? Parece-te que ele venha a provocar algum problema?
- Não - redargui. - Até agora ele tem-se mantido tão calado como um galo morto. É um homem estranho... tem uns olhos esquisitos, mas é calado. Contudo, tencionamos manter-nos atentos ao seu comportamento. Não te preocupes com esse assunto.
- É claro que estás bem a par do que ele fez. - Com certeza - assenti.
O Moores tinha-me acompanhado até ao gabinete que antecedia o seu onde a velha Miss Hannah matraqueava na sua máquina de escrever Underwood, como sempre havia feito desde que a última Idade do Gelo tinha chegado ao fim, ou pelo menos era o que dava a impressão. Sentia-me satisfeito por poder sair dali. Tudo resumido e concluído, senti que me tinha safado com muita facilidade daquela situação delicada. E era bastante agradável saber que, ao fim e ao cabo, existia uma hipótese de conseguir sobreviver ao Percy.
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- Diz à Melinda que lhe envio uma cesta cheia de carinho - disse eu. - E não te prepares para arranjar problemas. O mais provável é chegar-se à conclusão de que tudo não passa de meras enxaquecas.
- Aposto que sim - retrucou o Moores e, sob os olhos adoentados, os seus lábios esboçaram um sorriso. Aquela combinação fisionómica encontrava-se diabolicamente próxima do fantasmagórico.
Quanto a mim, regressei ao Bloco E a fim de dar início a outro dia de trabalho. Havia uma data de papelada que devia' ser lida e redigida. Chão que precisava de ser lavado, refei
ções que teriam de ser servidas, uma escala de trabalho a ser elaborada para a semana seguinte, enfim, uma centena de pormenores que necessitavam da minha atenção. Mas acima de tudo havia espera - na prisão há sempre muito disso. Espera que o Eduard Delacroix começasse a percorrer a Milha; Verde, espera que o William Wharton chegasse com o seu lábio contorcido, fazendo-se acompanhar da tatuagem de Billy the Kid, e, acima de tudo o mais, espera que o Percy Wetmore desaparecesse da minha vida de uma vez por todas.
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O rato do Delacroix era um dos mistérios de Deus. Eu nunca tinha visto uma criatura daquelas no Bloco E antes daquele Verão, e nunca mais voltei a avistar outra depois daque
le Outono, altura em que o Delacroix deixou a nossa companhia, numa noite abafada e de trovoada em Outubro deixou-a de uma forma tão inqualificável, que mal consigo forçar-me a recordar essa ocasião. O Delacroix afirmara que havia domesticado aquele rato, que iniciou a sua vida entre nós com o nome de Steamboat Willy, mas eu estou realmente convencido de que as coisas se processaram na ordem inversa. O Dean Stanton era da mesma opinião, bem como o Brutal. Tanto um como o outro se encontravam presentes na noite em que o rato fez a sua primeira aparição.
- A criatura já está meio domesticada e é duas vezes mais esperta do que esse cajun que pensava ser o seu dono - dissera Brutal então.
O Dean e eu estávamos no meu gabinete, examinando a caixa com os ficheiros do ano transacto, a prepararmo-nos para
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escrever cartas de acompanhamento da situação às testemunhas de cinco execuções, e outras cartas de acompanhamento das de acompanhamento enviadas anteriormente, relativas a outras seis execuções que recuavam até 1929. Basicamente, pretendíamos saber apenas uma coisa: sentiam-se essas pessoas satisfeitas com os nossos serviços? Eu sei que isso pode parecer grotesco, mas de facto tratava-se de um assunto bastante importante. Na sua qualidade de contribuintes, aquelas pessoas eram os nossos clientes, embora tivessem características muito especiais. Um homem ou uma mulher que apareça na prisão à meia-noite para poder assistir à morte de um ser humano tem de ter uma razão premente e muito especial para ali ir, uma necessidade bastante peculiar, e, se a execução é um castigo adequado, nesse caso essa necessidade terá de ser satisfeita. Eles tiveram um pesadelo. A finalidade das execuções é mostrar-lhes que esse pesadelo chegou ao fim. Talvez as coisas funcionem realmente dessa maneira. Por vezes.
- Ei! - chamou o Brutal do lado de fora da porta, onde se encontrava na secretária do guarda de serviço situada ao fundo do corredor. - Ei, vocês dois! Venham até aqui fora!
O Dean e eu trocámos um olhar de alarme, pensando que deveria ter acontecido alguma coisa ao índio de Oklahoma (o nome dele era Arlen Bitterbuck, mas costumávamos chamar-lhe Chefe... ou, no caso do Harry Terwilliger, Chefe Queijo de Cabra, porque era a isso que o Harry afirmava que o Bitterbuck cheirava), ou ao tipo que apelidávamos de Presidente. Mas foi então que o Brutal começou a rir-se; corremos a saber o que estava a passar-se. Os risos no Bloco E eram quase tão profanos como os risos no interior de uma igreja.
O velho Pouca Terra, o prisioneiro de confiança que nesse tempo costumava empurrar o carrinho da comida, encontrava-se presente com o seu arsenal, e o Brutal já se tinha abastecido para a longa noite que teria pela frente - três sanduíches, dois refrigerantes e uns dois bolos. Também uma porção de salada de batata que o Pouca Terra devia ter fanado das cozinhas da prisão, instalações que, supostamente, deveriam estar fora do seu alcance. O Brutal mantinha o livro de registos aberto à sua frente e, caso para grande admiração, ainda não derramara nada em cima das folhas. Como é evidente, tinha acabado de começar o seu turno.
- O que é que se passa? - perguntou Dean. - O que é que foi?



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- Ao fim e ao cabo, o corpo legislativo do estado dev~ ter aberto suficientemente os cordões à bolsa para este ano poder contratar outro guarda - acrescentou o Brutal com uma gargalhada. - Olhem bem para ali.
Apontou e nós avistámos o rato. Também comecei a rir-me, e o Dean juntou-se a nós. Era impossível evitar que nos ríssemos, uma vez que qualquer guarda que estivesse a fazer
os seus quartos de ronda teria tido o mesmo aspecto daquele rato; um guarda peludo e ínfimo que se assegurava de que! ninguém tentava fugir ou suicidar-se. Dava uma pequena corrida ao longo da Milha Verde na nossa direcção, após o que rodava a cabeça de um lado para o outro, como se passasse revista ao interior das celas. Em seguida, encetava outra corrida em frente. O facto de podermos ouvir o ressonar dos doi reclusos que na altura ocupavam aquele bloco, apesar dos gritos e os risos, tornava a situação ainda mais caricata e divertida.
Tratava-se de um rato de pêlo castanho perfeitamente vul gar, excepto quanto à forma como parecia estar a investigar o interior das celas. Chegou mesmo ao ponto de entrar numa o _
duas, esgueirando-se habilmente por entre as barras inferiores, de uma maneira que faria inveja a muitos dos nossos prisioneiros, passados e presentes. Com a excepção de que, como era evidente, seria para fora que os reclusos haveriam sempre de querer fugir.
O rato não entrou em nenhuma das celas que estavam ocupadas, tendo ido apenas às vazias. Finalmente, encontrava-se prestes a chegar ao sítio onde nos encontrávamos. Fi quei sempre à espera que retrocedesse, mas não o fez. Nã mostrava sentir qualquer receio da nossa presença.
- Não é normal que um rato se abeire das pessoas desta forma - comentou o Dean com um certo nervosismo. - Talvez ele esteja raivoso.
- Oh, meu bom Jesus! - retorquiu o Brutal com a boca cheia de pão com carne de conserva. - Temos aqui o grande perito em ratos. O Homem dos Ratos. Estás a vê-lo a espumar aos cantos da boca, Homem dos Ratos?
- Nem sequer sou capaz de ver a boca do bicho - resorquiu o Dean, provocando outra vaga de hilaridade. Eu tam bém não conseguia vislumbrar a boca da criatura, embora dis
tinguisse as duas pequenas contas negras e cintilantes que eram os seus olhos, não me dando a impressão de estarem raivosos ou tresloucados. Pelo contrário, exibiam uma expressão interessada e inteligente. Eu já tivera oportunidade de conduzir homens até à morte - homens que, supostamente, possuíam uma alma imortal - que haviam exibido uma expressão mais estúpida do que a daquele rato.
Recomeçou a percorrer velozmente a Milha Verde até um ponto apenas a cerca de noventa centímetros da mesa do guarda de serviço... a qual não tinha nada de rebuscado, como poderão imaginar, sendo apenas o género de secretária a que os professores costumavam sentar-se na escola secundária. Chegado a esse ponto, a criatura deteve a sua corrida, enrolando a cauda à volta das patas, numa atitude tão composta como a de uma velha senhora a ajeitar as saias.
De repente, passou-me a vontade de rir, sentindo eu, inesperadamente, o meu corpo a ser percorrido até aos ossos por um calafrio gélido. Gostaria de poder dizer que não sabia por que motivo é que tivera aquela sensação - ninguém gosta de dar mostras de algo que nos pode ridicularizar aos olhos dos outros - mas é claro que sabia e, se é que posso dizer a verdade a respeito do resto, creio que também possa dizer a verdade sobre isto. Por breves instantes, imaginei como seria estar na pele daquele rato, deixando de ser um guarda prisional, mas apenas um outro criminoso que se encontrasse ali, na Milha Verde, acusado e condenado, mas ainda capaz de erguer o olhar corajosamente para aquela mesa, que deveria parecer ter uma altura de vários quilómetros (tal como o assento em que se encontra Deus no dia do juízo sem dúvida parecerá um dia a todos nós), fitando também os gigantes de casacos azuis e vozes profundas que se sentavam por detrás dela. Gigantes que disparavam contra os da sua própria espécie, ou que os vergastavam com o cabo de vassouras, ou que lhes montavam armadilhas, armadilhas que partiam o dorso a qualquer um que rastejasse cautelosamente por cima da palavra VENCEDOR a fim de poder mordiscar o queijo sobre o pequeno prato de cobre.
Junto da mesa do guarda de serviço não se via qualquer vassoura, mas havia um balde com uma esfregona, estando esta dentro da parte com orifícios onde era torcida; eu já tinha cumprido a minha quota-parte de lavar o linóleo verde do
corredor e das seis selas pouco antes de me sentar com o Dean na companhia da caixa dos arquivos. Reparei que o Dean tinha intenção de agarrar na esfregona, cumprindo aquela parte da sua tarefa. Toquei-lhe no pulso quando os seus dedos se dirigiram para o cabo fino de madeira.
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- Deixa estar - disse eu.
Ele encolheu os ombros e retirou a mão da esfregona. Sentia que ele tinha tanta vontade de lavar o chão quanto eu próprio tivera.
O Brutal separou um bocado do canto da sua sanduíche de carne em conserva e manteve-o suspenso acima da parte da frente da mesa, delicadamente seguro entre dois dedos;
O rato dava a impressão de erguer o olhar com um interesse ainda mais vivaz, como se soubesse exactamente o que era aquilo. Provavelmente sabia; eu avistava os seus bigodes a fremirem enquanto ele torcia o focinho.
- Ei, Brutal, não! - exclamou o Dean, olhando para mim. - Não o deixes fazer isso, Paul! Se começarmos a dar de comer a tipos desses é o mesmo que estendermos o tapete
de boas-vindas para qualquer coisa que ande sobre quatro patas. - Eu só quero ver o que é que ele faz - disse o Brutal à guisa de justificação. Como se fosse no interesse da ciência. Olhou para mim, eu era o chefe, até mesmo no que dizia respeito aos pequenos desvios da rotina, como aquele. Pensei no assunto e encolhi os ombros, como se não tivesse qualquer importância. Mas a verdade era que eu também sentia curiosidade em ver o que é que o rato faria.
Pois bem, como é evidente, comeu o que lhe deram. Ao fim e ao cabo, não devíamos esquecer-nos de que nos encontrávamos no meio da Grande Depressão. Mas a forma como ele comeu fascinou-nos a todos. Aproximou-se do bocado de sanduíche, começou a farejá-lo descrevendo um círculo em seu redor, sentou-se à sua frente como se fosse um cão a fazer uma habilidade, foi-se a ele, e afastou o pão para poder chegar à carne. Procedia com tanta deliberação e conhecimento como se fosse um homem a atacar um bom rosbife no seu restaurante preferido. Eu nunca tinha visto um animal comer daquela maneira, nem sequer um cão bem ensinado. E durante todo o tempo em que esteve a comer, os seus olhos nunca se desprenderam de nós.
- Das duas uma: ou se trata de um rato muito esperto ou está com uma fome dos diabos - comentou uma nova voz. Era o Bitterbuck. Tinha despertado entretanto e naquele mo
mento encontrava-se junto às barras da sua cela, todo nu à excepção de uns calções largos no traseiro que lhe davam pelo meio da coxa. Entre os nós do indicador e do dedo médio da mão direita tinha um cigarro que enrolara nume mortalha;
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os seus cabelos de um grisalho cor do ferro pendiam-lhe por cima dos ombros, outrora talvez musculosos, mas que agora começavam a ficar flácidos, presos num par de tranças.
- Conheces algum provérbio índio sobre ratos, Chefe? - perguntou o Brutal, observando o rato que continuava a comer. Todos nos sentíamos encantados com a maneira como ele segurava num pedaço de carne de conserva, com as patas dianteiras, voltando-a de vez em quando para a examinar bem, como se admirasse e apreciasse o naco de alimento.
- Não - respondeu o Bitterbuck - Em tempos conheci um bravo que possuía um par de luvas daquilo que clamava ser de pele de rato, mas nunca acreditei nisso. - Em seguida, o homem soltou uma gargalhada, como se tudo aquilo fosse uma piada, e afastou-se das barras de ferro. Ouvimos a tarimba a ranger; voltara a deitar-se.
Para o rato, aquilo pareceu ser o sinal de que estava na hora de se ir embora. Terminou o bocado de carne que segurava nas patas, farejou o que tinha ficado (na sua maior parte o pão amarelado ensopado com mostarda) e olhou para trás, fitando-nos, como se não desejasse esquecer-se dos nossos rostos, caso voltássemos a encontrar-nos. Em seguida, deu meia volta e começou a correr pelo mesmo caminho por onde viera; desta feita, não se deteve para inspeccionar qualquer das celas. A pressa com que ele se deslocava trouxe-me ao pensamento o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, o que me fez sorrir. Não parou junto da porta da cela do isolamento, tendo desaparecido por baixo desta. Aquela sala tinha paredes almofadadas e destinava-se às pessoas cujos cérebros haviam enfraquecido. Era ali que costumávamos guardar os materiais de limpeza, sempre que não necessitávamos de utilizar aquele espaço para a finalidade a que se destinava, assim como alguns livros (na sua maioria da autoria de Clarance Mulford e sobre o velho Oeste, mas havia um - que só era emprestado em ocasiões especiais - que contava uma história profusamente ilustrada, na qual Popeye, Pluto e até mesmo Wimpy, os fanáticos dos hambúrgueres, tiravam à vez fornicar com a Olívia Palito). Também havia vários materiais de desenho incluindo os lápis de cera a que, posteriormente, o Delacroix deu boa utilização. Não que ele já houvesse começado a ser o nosso problema; não se esqueçam de que isto se passou numa data anterior. Na cela do isolamento também havia um colete-de-forças que ninguém queria usar - bran
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co, feito de lona reforçada e pespontada, que tinha todos o botões, fechos e fivelas na parte de trás. Todos nós sabíamoy como manietar uma criança problemática, restringindo-a naquele colete à velocidade de um golpe súbito. Não era muito frequente os reclusos tornarem-se violentos, mas, sempre que tal acontecia, meu amigo, não ficávamos à espera que a situa ção viesse a melhorar por si própria.
O Brutal abriu a gaveta da secretária por cima do espaço para as pernas, de onde retirou o livro volumoso encadernado a pele, em cuja capa estava escrita a palavra VISITANTES a letras folheadas a ouro. Habitualmente, aquele livro permanecia no interior da gaveta de um mês para o outro. Sempre que um prisioneiro recebia visitas - amenos que se tratasse de um advogado ou de um reverendo - costumava dirigir-se à sala adjacente ao refeitório, que era especialmente reservada para esse efeito. Costumávamos chamar-lhe "a Arcada". Não sei bem por que motivo.
- O que raio pensas que estás a fazer? - perguntou Dean Stanton, espreitando por cima das lentes dos óculos en quanto o Brutal abria o livro, folheando, numa atitude de grande formalidade, as páginas referentes aos anos anteriores onde estavam inscritos os nomes dos visitantes dos homens que naquele momento já tinham morrido.
- Estou a obedecer ao Regulamento Número Dezanove --+. replicou o Brutal, chegando à página actual. Agarrou no lápis e lambeu a ponta, um hábito bastante desagradável que el
não conseguia perder, e preparou-se para começar a escrever.' O Regulamento 19 dizia muito simplesmente: "Todas as visitas que venham ao Bloco E têm de mostrar um passe amarelo, emitido pela administração, devendo o seu nome ser registado sem falta nenhuma."
- Passou-se do juízo - comentou o Dean, dirigindo-se a mim.
- O rato não nos mostrou o passe, mas desta vez estou disposto a deixar passar essa lacuna - acrescentou o Brutal.; Deu outra lambidela extra à ponta do lápis para lhe trazer'
sorte, e começou a escrever 9h 49m por baixo da coluna intitulada HORA DE CHEGADA AO BLOCO.
- Com certeza, e porque não? Provavelmente os manda-chuvas fazem excepções em relação aos ratos - adiantei eu. - Claro que fazem - concordou o Brutal.
Virou-se para ver as horas no relógio de parede que se encontrava por detrás da mesa e registou 10h 01m na coluna encimada pelo título HORA DE SAIDA Do BLOCO. O espaço mais alongado entre estas duas colunas tinha por título NOME DO VISITANTE. Depois de ter pensado com uma expressão bastante concentrada durante uns momentos - plausivelmente para avaliar as suas limitadas capacidades de soletrar, uma vez que tenho a certeza de que a ideia já se havia formado na sua cabeça - o Brutus Howell escreveu com todo o cuidado srE~reoar wmr,Y, nome que a maior parte das pessoas dessa época costumava chamar ao Rato Mickey. Isso era por causa daquele primeiro desenho animado falado, onde ele revirava os olhos, batendo com as ancas em todo o lado, enquanto puxava pela corda do apito na cabina do timoneiro do barco a vapor.
- Aqui está - disse o Brutal, fechando o livro com estrondo e voltando a colocá-lo no interior da gaveta -, tudo concluído e encerrado.
Ri-me, mas o Dean, que não conseguia evitar uma expressão de seriedade em relação a tudo, ainda que soubesse que uma determinada coisa era uma Simples brincadeira, franzia o sobrolho irritado enquanto limpava furiosamente as lentes dos óculos.
- Se alguém ler isso acabarás por ter problemas. - Hesitou um pouco, acrescentando: - Se esse alguém for pessoa errada... - Vacilou uma vez mais, olhando em seu redor da forma característica dos curtos de vista, como se esperasse ver que as paredes tinham adquirido orelhas, antes de terminar a sua linha de raciocínio: - Alguém como, por exemplo o Percy "Lambe-me-o-olho-do-cu-e-vai-para-o-paraíso" Wetmore.
- Hum... - resmungou o Brutal. - No dia em que o Percy Wetmore sentar o seu traseiro escanzelado aqui em baixo, a esta mesa será o dia em que me demito.
- Não terás necessidade de chegar a esse ponto - atalhou o Dean. - Antes que isso aconteça, serás despedido por escreveres palermices no livro dos visitantes, no caso de o Percy segredar ao ouvido certo as palavras adequadas. O que ele pode muito bem fazer. Sabes que é assim.
O Brutal mostrou um semblante enfurecido, mas não proferiu qualquer palavra. Mais tarde, nessa mesma noite, cheguei à conclusão de que ele tencionava apagar o que tinha escrito. Caso não o fizesse eu próprio trataria desse assunto.
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Na noite seguinte, depois de ter primeiro levado o Bitter, buck e depois o Presidente até ao Bloco D, onde o nosso grü po tomava duche após os prisioneiros comuns já estare" fechados para a noite, o Brutal perguntou-me se não deveria mos procurar o Steamboatlly na cela do isolamento.
- Acho que sim - respondi. Ainda nos tínhamos divertido à custa do rato na noite anterior; todavia, eu sabia que se o Brutal e eu o descobríssemos na cela do isolamento, muito
em particular se verificássemos que começara a fazer um ninho, esburacando uma das paredes almofadadas, seríamos forçados a matá-lo. Era preferível eliminar o batedor, independentemente do quão divertido ele pudesse ser, do que ser-se obrigado a viver com os colonizadores. E, como calculam,; nenhum de nós sentia grande relutância em levar a cabo um.~ pequena matança de ratos. Ao fim e ao cabo, o estado pagava-nos para matarmos homens que não eram melhores do qu ratazanas.
No entanto, não descobrimos o paradeiro do Steamboa. ~lly - o qual mais tarde viria a ser conhecido pelo nome de Mister Jingles - nessa noite; não se encontrava aninhado em,
nenhuma das paredes acolchoadas, nem atrás de qualquer dos tarecos que levámos para o corredor. De facto, havia uma grande quantidade de tralha, mais do que eu esperara encontrar, uma vez que já há muito tempo não éramos obrigados a usar a cela do isolamento. Essa situação viria a alterar-se com o surgimento do William Wharton, mas, como é evidente, naquela altura não sabíamos que assim seria. Que sorte a nossa!
- Para onde é que ele terá ido? - perguntou o Brutal por fim, limpando o suor que se lhe tinha acumulado na nuca' com um grande lenço azul. - Não existem buracos nem fen
das... como se pode ver, mas... - Apontou para um ralo no chão. Por baixo da grade, através da qual o rato poderia ter escapado, havia uma rede apertada de aço, por onde nem sequer uma mosca conseguiria passar. - Como é que ele teria entrado? E como é que conseguiu sair?
- Não sei - repliquei.
-Ele entrou para aqui, não é verdade? Quer dizer, nós; os três vimos que assim foi.
- Sim, através da fresta inferior da porta. Teve de se espremer um bocado, mas o certo é que conseguiu passar. -Meu Deus! - exclamou o Brutal... As palavras soavam de forma estranha vindas de um homem tão corpulento.
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É uma grande sorte para nós que os prisioneiros não tenham poderes para ficar assim tão pequenos, não achas?
- Podes apostar que sim - redargui, percorrendo com o
olhar as paredes de lona, o que fiz uma última vez à procura de um orifício qualquer ou uma fenda, enfim, qualquer coisa. Não avistei nada do género. - Vamos embora, já vimos tudo.
O Steamboat Willy brindou-nos de novo com a sua presença três noites mais tarde, numa altura em que o Harry Terwilliger se encontrava de serviço na mesa do corredor. O Percy também estava de serviço, e perseguiu o rato que fugia pela Milha Verde, servindo-se da mesma esfregona que o Dean pensara em utilizar. O roedor esquivou-se do Percy com toda a facilidade, escapando-se pela fresta por baixo da porta da cela do isolamento; o animal saiu vencedor sem a mínima dificuldade. Praguejando em altos berros, o Percy abriu a porta fechada à chave, tendo removido de novo do interior toda a cangalhada que lá se encontrava. A sua atitude era simultaneamente divertida e assustadora, de acordo com as palavras do Harry. O Percy jurava que haveria de encontrar o maldito do rato, após o que lhe arrancaria impiedosamente a pequena cabeça, mas, como é óbvio, não teve oportunidade de o fazer. Todo transpirado e desalinhado, com a fralda da camisa da farda fora das calças nas costas, regressou à secretária trinta minutos mais tarde, afastando o cabelo dos olhos e dizendo ao Harry (o qual, durante a maior parte daquele rebuliço, se tinha mantido calmamente sentado a ler) que estava decidido a colocar fita isoladora na parte inferior da porta; isso acabaria por resolver o problema do verme, declarou ele enfaticamente.
- Aquilo que achares melhor, Percy - dissera o Harry, virando uma página do romance de cordel que estava a ler. Calculava que o Percy acabaria por se esquecer de tapar a fresta da porta, no que não se enganou.
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Mais tarde nesse mesmo Inverno, muito depois de se terem passado todas estas coisas, o Brutal veio falar comigo numa bela noite em que só nós dois estávamos presentes, dado que o Bloco E se encontrava temporariamente vazio, pois
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os outros guardas haviam sido destacados para outras fu" ções, com carácter temporário. Entretanto, o Percy já tinh ido para o Briar Ridge.
- Anda cá - disse-me o Brutal com uma voz estranha ~ constrangida que fez com que eu olhasse atentamente à sua volta. Eu acabara de sair de uma noite fria com granizo, e estava a sacudir os ombros do meu sobretudo antes de o pendu rar no bengaleiro.
- Passa-se alguma coisa de anormal? - perguntei, sur preendido.
- Não - respondeu ele -, mas já descobri onde é que o Mister Jingles estava instalado. Quero dizer, quando ele apareceu pela primeira vez, antes de o Delacroix ter começado a tratar dele. Estás interessado em ver?
Claro que estava. Seguiu-o pela Milha Verde até à cela do isolamento. Toda a tralha que costumávamos guardar ali fora arrastada para o corredor; aparentemente, o Brutal tinha
aproveitado a ausência de tráfego de clientes para proceder a algumas arrumações. A porta mantinha-se aberta, o que me permitiu avistar no interior da cela o nosso balde com a esfregona. O chão, revestido com aquele mesmo linóleo de umesverdeado doentio, à semelhança da própria Milha Verde, ainda não secara por completo. No meio da cela fora armada uma escada de mão, aquela que habitualmente era guardada na sala da arrecadação, e que, por acaso, também era a que servia como ponto de paragem dos condenados pelo estado. Da parte de trás do escadote saía uma espécie de prateleira, junto ao topo, o tipo de superfície que um trabalhador utilizaria para colocar a sua caixa de ferramentas, ou onde um" pintor poria as suas latas de tinta. Sobre ela via-se uma lanterna de bolso. O Brutal entregou-ma:
- Sobe até ali. Tu és mais baixo do que eu, por isso vais ter de subir quase até ao cimo, mas eu seguro-te pelas pernas. - Tenho cócegas aí em baixo - disse eu, começando a , subir a escada de mão. - Especialmente na região dos joelhos.
- Eu tenho cuidado com isso.
- Óptimo - repliquei -, porque uma bacia quebrada é um preço demasiado elevado para descobrir as origens de um só rato.
- Hem?
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Não faças caso. - Nessa altura, a minha cabeça já se encontrava ao mesmo nível da lâmpada dentro de uma armadura no centro do tecto e eu sentia que o escadote estremecia
um pouco sob o peso do meu corpo. Vindos do lado de fora, ouvia os gemidos do vento. - Presta atenção e segura-me
bem.
- Tenho-te bem seguro, não te preocupes. - O Brutal mantinha as minhas coxas firmemente agarradas e subi mais um dos degraus; agora, o cimo da minha cabeça encontrava-se a menos de tenta centímetros do tecto, sendo-me possível avistar as teias das aranhas mais empreendedoras nas funções das vigas do tecto. Fiz incidir o feixe de luz em redor, sem descortinar nada que valesse o risco que a minha pessoa corria naquele lugar.
- Não - disse o Brutal. - Estás a olhar para muito longe, Paul. Olha para a tua esquerda, para o ponto onde essas duas vigas se juntam. Estás a vê-las? Uma delas está um bocado descolorida.
- Estou a ver - afirmei.
- Faz incidir a luz sobre a junção.
Fiz como ele me dizia e deparei quase de imediato com o que o Brutal queria que eu visse. As duas vigas haviam sido unidas com cavilhas, meia dúzia delas, tendo desaparecido uma que deixara um orifício circular e escurecido, do tamanho de uma moeda de vinte e cinco cêntimos. Olhei para aquilo e afivelei uma expressão de dúvida, fitando o Brutal por cima do ombro.
- De facto, era um rato pequeno - disse eu -, mas assim tão pequeno? Ó pá, não me parece.
- Mas foi aí que ele se escondeu - afirmou o Brutal, convicto. - Aposto o que quiseres.
- Não estou a ver como é que podes ter assim tanta certeza.
- Inclina-te mais... não te preocupes, estou a segurar-te as pernas, e sopra.
Fiz como ele me dizia, agarrando-me a uma das outras traves com a mão esquerda, sentindo-me um pouco mais equilibrado depois de me ter firmado bem. O vento que continuava a soprar lá fora fez-se ouvir de novo; sentia no rosto o ar a sair daquele orificio. Conseguia cheirar a lufada agreste de uma noite de Inverno na linha limítrofe do Sul... juntamente com algo mais.
O cheiro a hortelã-pimenta.
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Não permitam que aconteça alguma coisa ao Mister Jingles, ouvia eu a voz do Delacroix a dizer-me num timbre que se recusava a manter-se firme. Ouvia aquelas palavras ao
mesmo tempo que sentia o calor do corpo do Mister Jingles, quando o francês mo passou para as mãos, somente um mero rato, sem dúvida que mais esperto do que os da maioria da espécie, mas que não deixava de ser um simples rato, independentemente de tudo o mais. Não deixem que esse tipo malvado faça mal ao meu rato, dissera ele, e eu prometera-lho, tal como acabo sempre por lhes prometer tudo quando o fim se aproxima, na ocasião em que percorrer a Milha Verde{ deixara de ser um mito, ou uma mera probabilidade, passando a ser algo a que eles não podiam fugir. "Ponha esta carta no correio para o meu irmão que já não vejo há vinte anos." Eu prometia. "Diga quinze ave-marias pela minha alma." Eu prometia. "Deixe-me morrer com o meu nome espiritual e certifique-se de que fica escrito na minha lápide." Eu prometia. Era a maneira de fazermos com que eles fossem sem criar grandes complicações, a maneira de os vermos sentados na cadeira situada ao fundo da Milha Verde, mantendo intacta a sua sanidade mental. Era-me impossível cumprir todas aquelas promessas, como é evidente, mas mantive a que tinha feito ao Delacroix. Quanto ao próprio franciú, tinham surgido graves complicações. O sujeito malvado tinha feito mal ao Delacroix, tinha-o magoado e muito. Oh, eu sei bem o que ele fez, sem dúvida, contudo, ninguém merecia aquilo que aconteceu ao Eduard Delacroix quando ele foi enlaçado pelo abraço mortífero da Velha Faísca.
Um cheiro a hortelã-pimenta.
E outra coisa mais. Algo que se encontrava bem no interior do orificio.
Retirei uma caneta do bolso da minha camisa, servindo-me da mão direita e continuando a manter-me bem agarrado à viga com a esquerda; tinha deixado de me preocupar com a
possibilidade de o Brutal, inadvertidamente, me fazer cócegas nos joelhos que tão sensíveis eram. Com uma só mão desenrosquei a tampa da caneta, e com a ponta arrastei qualquer coisa para fora do buraco. Era uma lasca ínfima de madeira que havia sido tingida de um amarelo rutilante; comecei a ouvir a voz do Delacroix uma vez mais, desta feita com tanta clareza que o seu fantasma deve ter pairado naquela cela junto de nós - aquela onde o William Wharton passava tanto do seu tempo.
Eh, vocês aí!, disse a voz desta vez - a voz espantada e risonha de um homem que se esqueceu, pelo menos durante
algum tempo, do lugar onde se encontra e daquilo que o aguarda.
Venham ver o que é que o mister Jingles consegue fazer!
Meu Deus! - sussurrei. Senti-me como se alguém me houvesse cortado a respiração.
- Descobriste outro, não é verdade? - perguntou o Brutal. - Eu descobri três ou quatro - acrescentou ele. Desci pela escada de mão e fiz incidir a luz da lanterna sobre a palma da sua grande mão, que ele mantinha aberta. Sobre ela viam-se espalhadas várias lascas de madeira, como se fossem um jogo de pauzinhos de elfos. Duas delas eram amarelas, iguais à que eu tinha encontrado. Também havia outra verde e uma vermelha. Não haviam sido pintadas, mas sim coloridas, com os lápis de cera Crayola.
- E esta, hem! - exclamei numa voz baixa e estremecida. - Não querem lá ver! São bocados de carretel, não é verdade? Mas porquê? Porquê aqui em cima? - perguntei.
- Quando eu era mais novo, não era tão grande como sou agora - disse o Brutal. - A maior parte do meu crescimento ocorreu entre os quinze e os dezassete anos. Até essa idade, era quase um anão. Quando fui para a escola da primeira vez, senti-me tão pequeno como se fosse... ora bem, tão pequeno como um rato, calculo que se possa estabelecer essa comparação. Sentia-me quase a morrer de medo. Assim, sabes o que é que eu fiz?
Abanei a cabeça. Lá fora, ouviram-se de novo as rajadas de vento. Nos ângulos formados pelos barrotes, as teias de aranha estremeceram, fazendo oscilar os seus delicados fios, como se fossem renda esfarrapada. Eu jamais tinha estado num lugar que me provocasse uma sensação de assombração tão intensa, e foi precisamente nesse momento, enquanto nós dois olhávamos para os restos lascados do carretel que tantas complicações havia causado, que a minha cabeça começou a ter a percepção daquilo que o meu coração compreendera, desde que o John Coffey percorrera a Milha Verde: eu não poderia continuar a exercer aquelas funções durante muito mais tempo. Com ou sem Grande Depressão, não seria capaz de observar muitos mais homens a entrar no meu gabinete, como se este fosse a antecâmara da morte. Até mesmo só mais um poderia vir a ser demasiado.
- Pedi à minha mãe que me desse um dos seus lenços de assoár - continuou o Brutal. - Por conseguinte, quando
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sentia que estava prestes a choramingar, sentindo-me muito pequeno, podia tirá-lo da algibeira e cheirar o seu perfume, o que tinha o efeito de fazer com que eu não me sentisse tão mal.
- Estás a pensar... em quê? Que o rato roeu um bocado desse carretel colorido, com o fim de se recordar do Dela. croix? Que um rato...
O Brutal soergueu o olhar. Por uns momentos fugazes pareceu-me ter visto lágrimas nos seus olhos, mas calculo que me deveria ter enganado quanto a isso.
- Eu não estou a afirmar nada, Paul. Mas o certo é que as encontrei ali em cima e cheirou-me a hortelã-pimenta, tal como a ti... Sabes que isso é verdade. E não sou capaz de
continuar a fazer isto. Recuso-me a continuar a fazer isto. O facto de ser obrigado a ver outro homem sentado naquela cadeira será o suficiente para dar cabo de mim. Na segunda-feira tenciono apresentar um pedido de transferência para o Estabelecimento Correccional Juvenil. Se conseguir ser transferido antes da próxima execução seria óptimo. Se tal não se verificar, demito-me e regresso à lavoura.
- O que é que tu alguma vez amanhaste, para além de pedras?
- Isso não interessa para o caso - respondeu o Brutal: - Eu sei que não - redargui. - Parece-me que vou fazer a mesma coisa que tu.
Olhou-me atentamente, assegurando-se de que eu não es tava a brincar com ele, e acenou com a cabeça como se aquele assunto fosse uma coisa mais que decidida. Uma vez mais
ouviram-se rajadas de vento suficientemente violentas para fazer ranger as traves do tecto; ambos olhámos para as paredes almofadadas, sentindo um certo mal-estar. Parece-me que por momentos conseguimos ouvir o William Wharton - e não o Billy the Kid, esse não, para nós sempre fora o Bill Selvagem desde o primeiro dia em que aparecera no bloco a gritar e a rir-se, dizendo-nos que iríamos sentir-nos diabolicamente satisfeitos quando nos livrássemos dele, mas que nunca conseguiríamos esquecê-lo! Ele tivera toda a razão.
Quanto àquilo em que o Brutal e eu tínhamos concordado naquela noite, na cela do isolamento, as coisas vieram a desenrolar-se dessa forma. Era quase como se houvéssemos
proferido um juramento sagrado sobre aqueles pequenos pedaços de madeira colorida. Nenhum de nós voltou a participar numa execução. O John Coffey foi o último.
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PARTE DOIS
O Rato na milha
1
O lar para a terceira idade onde ponho os últimos pontos nos "is" e cruzo os últimos "tês" chama-se Georgia Pines. Situa-se a menos de cem quilómetros de Atlanta, e a duzentos anos-luz do dia-a-dia da maior parte das pessoas - estou a referir-me às pessoas com menos de oitenta anos de idade. O leitor que está a ler este livro deverá acautelar-se certificando-se duque não existe um lugar destes à sua espera num futuro próximo. Não é que seja um sítio cruel, pelo menos na maioria dos seus aspectos; temos televisão por cabo e a alimentação é boa (embora haja muito poucos alimentos que um homem possa mastigar), mas, de certa forma, tem tanto de antecâmara da morte, sem tirar nem pôr, como acontecia com o Bloco E, em Cold Mountain. ,
Até há aqui um fulano que me traz à recordação a imagem do Percy Wetmore; este conseguiu arranjar o emprego na Milha Verde porque era parente, por afinidade, do governador do estado. Duvido muito que o sujeito que trabalha no lar seja da família de alguém importante, embora isso não o impeça de se comportar como se o fosse. Chama-se Brad Dolan. Passa o tempo a pentear o cabelo, tal como o Percy costumava fazer, e tem sempre alguma coisa para ler dentro do bolso traseiro das calças. No caso do Percy eram revistas, como por exemplo Argosy e Men's Adventure; no que diz respeito ao Brad são estes pequenos livros de bolso com o nome de Piadas Porcas e Anedotas Nojentas. Anda sempre a perguntar às pessoas porque é que o francês atravessou a rua, ou quantos polacos é que são precisos para enroscar uma lâmpada, ou ainda quantos homens é que são necessários para carregar um caixão num funeral em Harlem. À semelhança do Percy, o Brad é um simplório que está convencido de que nada é engra
çado, a menos que possua uma conotação maldosa.
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No outro dia, o Brad disse algo que me surpreendeu pela sua sagacidade, embora ele não me mereça muito crédito por isso; até um relógio cujos ponteiros estejam parados está certo duas vezes por dia, tal como se costuma dizer.
- Tens muita sorte por não teres essa tal doença de Alz-heimer, Paulie - foi o que ele me disse. Detesto que me tratem por esse nome, Paulie; porém, apesar do meu desagrado, ele
continua a fazê-lo; já desisti de lhe pedir que não o fizesse. Existem outras coisas, não são bem provérbios, que se apli cam ao Brad Dolan: "Pode levar-se um cavalo até à água, mas não se pode obrigá-lo a beber", é um desses dizeres "É mais fácil levar um boi ao mourão que um ignorante à razão" era outro. Também se adequa muito à personalidade do Percy, pelo facto de não entrar nada naquela cabeça.
Quando fez o comentário sobre a doença de Alzheimer, andava ele a lavar com uma esfregona o chão do solário, onde eu me encontrava a rever as páginas que escrevera. Já reu
ni bastantes e estou em crer que irão existir muitas mais antes de eu dar a minha escrita por concluída.
- Essa tal... Alzheimer, sabes o que realmente é? - perguntou-me ele.
- Não - respondi -, mas tenho a certeza de que vais esclarecer-me, Brad.
- É a sida das pessoas de idade - disse ele, tendo desatado a rir-se, um riso seco e aos arranques, tal como costumava fazer depois de contar uma das suas piadas idiotas.
Não me ri; as palavras dele tinham-me tocado num nervo qualquer. Não que eu sofra de Alzheimer; embora por aqui, no maravilhoso Georgia Pines, se tenha a oportunidade de ver
muitos casos desses, limito-me a sofrer da falta de memória proverbial que costuma atacar as pessoas de idade avançada. Os problemas que se prendem com esse estado parecem estar mais relacionados com o quando do que com o quê. Ao rever aquilo que escrevi até ao momento ocorre-me que me recordo de tudo o que aconteceu em 1932; é a ordem sequencial dos acontecimentos que por vezes se confunde na minha cabeça. Contudo, se eu tiver cuidado, estou convencido de que sou capaz de remediar essas lacunas. Até certo ponto.
O John Coffey deu entrada no Bloco E e na Milha Verde em Outubro desse mesmo ano, tendo sido condenado pelo assassínio das gémeas Detterick, que na altura tinham apenas no
ve anos de idade. Esse é o meu principal ponto de referência,
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e se o mantiver sempre presente, poderei organizar cronologicamente tudo o mais, sem problemas de maior. O William Wharton, o Bill Selvagem chegou depois do Coffey; o Delacroix tinha chegado anteriormente. O mesmo aconteceu com o rato, aquele a que o Brutus Howell - Brutal para os amigos - chamava Steamboat Willy, enquanto o Delacroix acabou por lhe dar o nome de Mister Jingles.
Fosse qual fosse o nome, o rato chegou primeiro, até mesmo primeiro que o Del - ainda era Verão quando ele fez a sua primeira aparição, numa altura em que tínhamos outros dois encarcerados na Milha Verde: o Chefe, Arlen Bitterbuck e o Presidente, Arthur Flanders.
Aquele rato. O raio do rato. O Delacroix tinha paixão pelo bicho, mas era inegável que o mesmo não se passava com o Percy Wetmore.
O Percy odiara a criatura desde o primeiro momento.
2
Decorridos apenas três dias após o Percy ter corrido com ele da Milha Verde, o rato voltou a aparecer. O Dean Stanton e o Bill Dodge falavam de política... o que nessa época signïficava que o tema da conversa era Roosevelt e Hoover - Herbert, não J. Edgar'. Ambos comiam bolachas de água e sal Ritz de uma caixa que o Dean tinha comprado ao velho Pouca Terra havia mais ou menos uma hora. O Percy encontrava-se à porta do gabinete, enquanto praticava sacar rapidamente do bastão que ele tanto adorava e ouvindo a conversa dos outros. Tinha-o retirado daquela espécie de coldre ridículo feito por medida que arramara não se sabia onde, fazendo-o rodopiar (ou a tentar fazê-lo; na maior parte das suas tentativas tê-lo-ia deixado cair, não fora a correia de couro que o prendia ao pulso) e voltando a metê-lo dentro do coldre. Nessa noite, eu estava de folga, o que não me impediu de receber um relatório completo elaborado pelo Dean no fim do dia seguinte.
O rato apareceu na Milha Verde, tal como anteriormente,
Herbert Clark Hoover,	1874-1964, trigésimo primeiro presidente norte-americano. John Edgar Hoover, 1895-1972, criminologista norte-americano e director do FBI. (N. da T.)
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numa corrida rápida e detendo-se de vez em quando para examinar as celas vazias. E lá ia prosseguindo desta maneira, sem se sentir desencorajado, como se sempre tivesse sabido que aquela seria uma procura longa e estivesse firmemente decidido a não desistir.
Desta feita, o Presidente encontrava-se acordado, junto das grades da porta da sua cela. Aquele tipo era especial: conseguia ter um aspecto garboso até mesmo com as roupas azuis
dos prisioneiros. Bastava olhar para o seu aspecto para ficarmos a saber que não fora feito para a Velha Faísca, e tínhamos razão - menos de uma semana depois de o Percy ter corrido com o rato dali pela segunda vez, a sentença do Presidente foi comutada para prisão perpétua, tendo-se ele reunido à população prisional de delito comum.
- Olhem! - exclamou ele. - Está aqui um rato! Mas que diabo de espelunca é esta? - Perguntou aquilo meio a rir-se, mas o Dean comentou que não deixava de manifestar uma espécie de indignação, como se até uma acusação de homicídio não houvesse sido suficiente para the abalar a postura cheia de nove horas. Ele fora o director regional de uma empresa de imobiliário chamada Mid-South Realty Associates, e julgara-se suficientemente esperto para conseguir sair impune do facto de ter arremessado o pai, já meio senil, pela janela de um terceiro andar e recebido o seguro de vida. Nessa avaliação ele enganara-se, mas talvez por muito pouco.
- Cala a boca, meu mentecapto - invectivou o Percy, numa atitude que nele era quase automática. Estava de olho no rato. Tinha voltado a guardar o bastão no coldre e agarrara numa das suas revistas, mas atirara-a para cima da mesa do guarda de serviço, sacando de novo do bastão. Com gestos distraídos, começou a bater com ele contra o nó dos dedos da mão esquerda.
- Filho da puta! - exclamou o Bill Dodge. - É a primeira vez que vejo um rato por aqui.
- Eh, até que ele é engraçado - atalhou Dean. - Nãa parece ter medo nenhum de nós.
- Como é que sabes isso?
- Há umas noites ele esteve aqui. O Percy também o viu. O Brutal chama-lhe Steamboat Willy.
Ao ouvir aquilo, o Percy exibiu uma expressão desdenhosa, embora, pelo menos de momento, se tivesse abstido de fazer qualquer comentário. Recomeçara a bater mais rapidamente com o bastão nas costas da mão.
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. Vejam isto - acrescentou o Dean. - Da outra vez, ele chegou até à mesa. Quero ver se consegue fazer isso agora. E conseguiu, afastando-se bastante do Presidente quando passou junto dele, como se não lhe agradasse o cheiro do nosso nsonho parricida. Inspeccionou duas das celas desocupadas, chegou mesmo a dar uma corrida até uma das tarimbas que nem sequer tinha colchão, farejou-a e regressou à Milha Verde. O Percy manteve-se no mesmo lugar durante todo aquele tempo, batendo continuamente com o bastão e sem falar, o que nele não era nada vulgar, desejando fazer com que o rato se arrependesse de ter voltado ali. Querendo ensinar-lhe uma lição.
- É uma sorte vocês não terem de o sentar na Velha Faísca - comentou o Bill com ironia, interessado nas andanças do rato contra a sua própria vontade. - Teriam uma grande trabalheira para conseguir prender as correias do capacete.
O Percy continuava sem proferir uma única palavra; contudo, em gestos muito lentos, firmou o bastão entre os dedos, da mesma maneira que um homem agarraria num bom charuto.
O rato deteve-se no mesmo lugar onde o fizera antes, a uma distância de não mais de um metro da mesa do corredor, soerguendo 0 olhar para o Dean, como se fosse um prisioneiro perante a barra de um tribunal. Durante breves instantes fitou o Bill, para logo voltar a concentrar a sua atenção no Dean. O Percy mal dava a impressão de se aperceber daquilo que acontecia em seu redor.
- É um animalzinho cheio de coragem, sou obrigado a admiti-lo - acrescentou o Bill. Ergueu um pouco a voz: - Ei! Ei! Steamboat Willy!
O rato retraiu-se ligeiramente enquanto as orelhas lhe fremiam, mas não fugiu nem sequer mostrou qualquer sinal de que o desejasse fazer.
- Agora, olhem bem para isto - continuou o Dean, recordando-se da forma como o Brutal lhe tinha dado um naco de carne em conserva da sua sanduíche. - Não sei se ele se comportará da mesma maneira, mas...
Quebrou ao meio uma das bolachas de água e sal Ritz, tendo deixado cair um pedaço em frente do rato. Durante um segundo ou dois o animal limitou-se a olhar para o bocado de bolacha de tom alaranjado, com os seus olhos vivazes de
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um negro cintilante, enquanto os bigodes filamentados fremiam ao cheirar o petisco. Chegou-se mais à frente, agarrou-~ com as patas da frente, sentou-se e começou a comer.
- Que eu seja descascado e cozinhado! - exclamou o; Bill, perplexo. - Come com tantas maneiras como uma pessoa durante a ceia da igreja num sábado à noite!
- Para mim parece-se mais com um negro a comer me hncia - comentou o Percy com mordacidade, embora nenhum dos outros guardas lhe tivesse prestado a mínima
atenção. O que também aconteceu com o Chefe e com o; Presidente. O rato terminou o pedaço de bolacha e continuo sentado, dando a impressão de se encontrar equilibrado soba_ a cauda enrolada em espiral, observando os gigantes com uniformes azuis.
- Deixa-me experimentar - disse o Bill. Quebrou outr , bocado de bolacha de água e sal, inclinou-se até à frente da; mesa e deixou-o cair cuidadosamente. O rato cheirou-o mas não lhe tocou.
- Hum! - exclamou o Bill. - Já deve estar de estômago cheio.
- Não me parece - contrapôs o Dean. - Ele sabe que tu és temporário, é só isso.
- Temporário, ai é? Gosto disso! Estou aqui há quase; tanto tempo como o Harry Terwilliger! Talvez até há mais tempo do que ele!
- Acalma-te, meu veterano, acalma-te - aconselhou a Dean com um esgar sorridente. - Mas vê se eu tenho ou não razão. - Lançou outro pedaço de bolacha por cima da secretária. Sem qualquer hesitação, o rato agarrou na bolacha, ten-` do recomeçado a mastigar e continuando a ignorar por completo o contributo alimentar oferecido pelo Bill Dodge' Todavia, antes de ter podido dar uma ou duas trincadelas preliminares, o Percy lançou o bastão contra o animal, arremes- sando-o como se fosse uma lança.
O rato era um alvo pequeno e, por muito que custasse, a verdade tinha de ser dita - foi um lançamento traiçoeiramente certeiro, que poderia ter desfeito a cabeça do Willy, se
os reflexos da criatura não tivessem sido tão apurados como o olfacto de um cão. O rato esquivou-se - sim, tal e qual como um ser humano o teria feito - tendo deixado cair o bocado de bolacha. O pesado bastão de nogueira passou por cima da sua cabeça e espinha, suficientemente perto para os pêlos
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se terem agitado (pelo menos, foi o que o Dean afirmou, pelo que me Imponho a transcrever, embora não tenha a certeza de acreditar realmente nisso), e foi embater no chão de linóleo esverdeado, tendo feito ricochete contra as barras de uma cela vazia, O rato não se deixou ficar por ali, a fim de averiguar se se teria tratado de um simples engano; tendo-lhe ocorrido, aparentemente, um encontro muito importante noutro sítio qualquer, deu meia volta e afastou-se disparado pelo corredor fora, seguindo em direcção à cela do isolamento.
O Percy rugiu de frustração - sabia o quão perto estivera de atingir o animal - e foi em sua perseguição. O Bill Dodge agarrou-o por um braço, muito provavelmente movido por um simples instinto, mas o Percy afastou-se dele com um gesto brusco. Ainda assim, o Dean afirmou que, possivelmente, foi a reacção do Bill que salvou a vida do Steamboat Willy, apesar de ter sido por um triz. O Percy não só pretendia apanhar o rato, como também o queria esborrachar; pôs-se a correr, dando uns saltos enormes e cheios de comicidade, como um veado, pisando o chão com toda a força com os pesados sapatos pretos de trabalho. O rato conseguiu evitar os dois últimos saltos do Percy, correndo em ziguezague a toda a velocidade. Passou pela fresta inferior da porta, com um zurzir final da sua cauda cor-de-rosa, e... até mais ver, forasteiro - desapareceu.
- Foda-se! - vociferou o Percy, batendo violentamente com a palma da mão contra a superficie da porta. Em seguida, começou a procurar no seu molho de chaves aquela que lhe permitiria entrar na cela do isolamento, continuando assim a perseguir o rato.
O Dean foi no seu encalço, caminhando em passos deliberadamente lentos, a fim de adquirir o controlo das suas emoções. Parte do seu ser desejava rir-se do Percy, disse-me ele mais tarde, enquanto outra parte só queria agarrá-lo e sacudi-lo, encostá-lo e imobilizá-lo contra a porta da cela do isolamento, para lhe poder dar uma carga de porrada. Como é evidente, a maior parte daquilo que ele sentia traduzia-se numa grande perplexidade; as nossas funções no Bloco E, em grande parte, eram reduzir qualquer tumulto ao mínimo, e tumulto era praticamente o segundo nome do Percy Wetmore. Trabalhar com ele assemelhava-se muito à tarefa de tentar desactivar bombas com alguém atrás de nós que, de vez em quando, batesse estridentemente com os dois pratos de um címbalo.
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Numa palavra, era uma situação deveras enervante. O Dean disse que conseguiu detectar esse nervosismo nos olhos do Arlen Bitterbuck... até mesmo na expressão do Presidente, embora este cavalheiro, regra geral, se comportasse de uma maneira tão fria como um bloco de gelo. Mas havia algo mais. Em algum recanto da sua mente, o Dean já tinha começado a aceitar o rato como se este fosse - bem, talvez não um amigo, mas sim como parte da vida no bloco. Isso tornava o comportamento do Percy, bem como aquilo que ele tentava fazer, muito pouco correcto. Levando mesmo em consideração que a sua raiva se dirigia contra um rato. O facto de o Percy jamais conseguir vir a compreender o motivo por que a sua acção era recriminável revelava mais que sobejamente que ele não era a pessoa adequada para as funções que desempenhava.
Na altura em que o Dean chegou ao fundo do corredor, já se tinha conseguido dominar, sabendo como é que deveria agir naquela situação. A única coisa que o Percy era incapaz;
de suportar, era fazer figura de idiota, e todos sabíamos isso. - A merda do rato fugiu outra vez - comentou o Dean com um pequeno sorriso, tentando desanuviar o ambiente. O Percy lançou-lhe um olhar de poucos amigos, afastando o cabelo dos sobrolhos.
- Vê lá como é que falas, caixa-de-óculos. Estou chateado. Não tornes as coisas piores do que já estão.
- Com que então, hoje é outra vez dia de mudanças, não' é verdade? - perguntou o Dean sem mostrar uma expressão risonha... embora se risse com os olhos. - Pois bem, desta vez, quando puseres tudo cá fora, importas-te de passar a esfregona pelo chão?
O Percy olhou para a porta. Fitou as suas chaves. Pensou em mais uma incursão, longa, quente e vã por aquela cela de paredes acolchoadas, enquanto todos os outros se mantinham
por perto a observá-lo... No que se incluía o Chefe e o Presidente.
- Raios me partam se eu compreendo o que é que tem tanta piada - disse ele. - Não necessitamos de ratos nas celas... Já temos vermes suficientes por aqui, sem que precisemos de lhes acrescentar a presença de ratos.
- Tens toda a razão, Percy - retorquiu o Dean, erguendo as mãos num gesto de apaziguamento. Por breves instantes, contou-me ele na noite seguinte, acreditou verdadeiramente que o Percy talvez se virasse contra ele.

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Entretanto, o Bill Dodge aproximou-se numa atitude plácida e consegmu acalmar as coisas.
. Parece-me que deixaste cair isto - disse ele, entregando ao Percy o seu bastão. - Uns dois centímetros mais abaixo e terias apanhado o mafarrico em cheio nos lombos.
Ao ouvir aquelas palavras, o tórax de Percy expandiu-se. - Sim, não foi um golpe muito mau - redarguiu ele e, com todo o cuidado, voltou a meter o estala-cabeças dentro do coldre de aspecto tão disparatado. - No liceu, eu costumava jogar ao ataque. Metia muitos golos.
- A sério? Não sabia - retrucou o Bill, e o som respeitoso do seu timbre de voz (embora tivesse piscado o olho ao Dean quando o Percy virou costas) foi o suficiente para desactivar aquela situação acalorada.
- Sim - insistiu o Percy. - Uma vez em Knoxville fiz um golo em cheio. Aqueles rapazes da cidade não sabiam o que é que lhes acontecera. Passei por dois. Podia ter sido um jogo perfeito, se o idiota do árbitro não tivesse estragado tudo.
O Dean poderia ter deixado que a conversa morresse por ali, mas hierarquicamente ele era o superior do Percy e parte das suas funções era instruir; nessa época - antes do Coffey e antes do Delacroix - ele ainda pensava que o Percy poderia ser ensinado. Assim, estendeu a mão e agarrou no pulso do homem mais novo.
- Deves pensar no comportamento que tiveste há pouco - admoestou o Dean. A sua intenção, afirmou ele mais tarde, era mostrar uma expressão séria sem que fosse de reprovação. Pelo menos, que não fosse demasiado reprovadora.
Só que com o Percy aquela abordagem não resultava. Ele nunca chegaria a aprender... mas nós acabaríamos por ser forçados a fazê-lo.
- Ouve bem, caixa-de-óculos, eu sei muito bem o que é que estava a fazer... a tentar apanhar aquele rato! O que é que tu és? Cego ou quê?
- Também me pregaste um grande susto, assim como ao Bill e àqueles - retorquiu o Dean, apontando na direcção do Bitterbuck e do Flanders.
- E então? - perguntou o Percy, provocador, endireitando as costas. - Eles não estão em nenhum infantário, caso ainda não tenhas reparado. Apesar de vocês os tratarem como se estivessem, grande parte do tempo.
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- Pois bem, a mim não me agrada nada sentir-me assustado - adiantou o Bill entre dentes - além de que trabalho aqui, Wetmore, para o caso de ainda não teres reparado. Eu não sou um dos teus mentecaptos.
O Percy lançou-lhe um olhar por entre as pálpebras semicerradas, exibindo uma expressão onde se adivinhava uma certa insegurança.
- E não os assustamos mais do que aquilo que é necessário, porque eles já se encontram sob uma grande tensão - atai lhou o Dean. Continuava a manter um tom de voz baixo. Os homens que estão sob uma grande tensão podem ir-se abaixo. Causar danos a si próprios. Fazer mal aos outros. Por vezes, fazem com que fulanos como nós fiquem metidos em pro blemas.
Ao ouvir aquilo, os lábios do Percy esboçaram um trejeito. "Em problemas" era uma ideia que exercia um certo po der sobre ele. Provocar problemas não fazia mal. Ver-se metido neles é que não era nada bom. - O nosso trabalho é falar e não gritar - continuou Dean: - Um homem que berre com os prisioneiros é um homem que perdeu o controlo sobre as emoções.
O Percy sabia quem é que tinha lavrado aquela escritura:; eu. O chefe. Entre o Percy Wetmore e o Paul Edgecombe nãá existia um grande amor, e não se esqueçam de que ainda estávamos em pleno Verão - muito antes do início das verdadeiras festividades.
- Seria preferível para ti - continuou o Dean num tom conciliatório - começares a encarar este lugar como uma espécie de unidade de cuidados intensivos de um hospital. É melhor não fazer muito barulho...
- Eu penso nisto como se fosse um balde cheio de mija que serve para se afogar ratos - retorquiu o Percy -, e é tudo. Agora, se não te importas, larga-me o pulso.
Soltou-se da mão do Dean, deslizou entre este e o Bill e começou a andar pelo corredor num passo pesado, mantendo a cabeça baixa. Passou um pouco rente de mais às grades da
cela do Presidente - tão rente que o Flanders poderia ter estendido o braço, tê-lo agarrado e ter-lhe dado umas cacetadas na cabeça com o seu tão amado bastão, caso o Flanders fosse homem para isso. É claro que não era, mas talvez o Chefe fosse. O Chefe, se lhe dessem essa oportunidade, teria muito bem sido capaz de dar uma tareia dessas ao Percy, apenas pa
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ra lhe ensinar uma boa lição. Aquilo que o Dean me revelou acerca desse assunto, quando me contou a história na noite seguinte, ficou gravado em mim desde essa altura, uma vez que veio a verificar-se ser uma espécie de profecia.
- O Wetmore não compreende que não tem o mínimo poder sobre eles - dissera o Dean. - Que nada daquilo que faz contribui para piorar as coisas para eles, que eles só podem ser electrocutados uma vez. Até ele meter isso na cabeça, constituirá um perigo não só para si próprio, como para todos os que se encontram aqui em baixo.
Entretanto, o Percy dirigiu-se ao meu gabinete e deixou a porta bater atrás de si.
- Olhem bem para isto! - exclamou o Bill Dodge. - Não é que ele se porta como se tivesse um testículo gravemente infectado?!
- E não sabes da missa nem a metade - retrucou o Dean.
- Pois bem, vejamos as coisas pelo lado mais animador - continuou o Bill. Ele passava a vida a dizer às pessoas que elas deveriam olhar para as coisas pelo lado mais animador; até dava vontade de lhe assentar um murro em cheio no nariz de cada vez que aquelas palavras lhe saíam da boca. - Do mal o menos; o teu rato que faz habilidades conseguiu fugir.
- Sim, mas nunca mais voltaremos a pôr-lhe a vista em cima - retorquiu o Dean. - Estou em crer que o estupor do Percy Wetmore conseguiu assustá-lo de uma vez por todas.
3
Aquela observação era lógica, mas errada. Logo no princípio da noite seguinte, o rato estava de volta, e por acaso isso coincidiu com a primeira noite das duas que o Percy Wetmore tinha de folga antes de passar para o turno da noite.
O Steamboat Willy apareceu por volta das oito horas. Eu encontrava-me presente, o que me permitiu assistir ao seu reaparecimento; o Dean também lá estava, o mesmo acontecendo com o Harry Terwilliger. O Harry encontrava-se sentado à secretár~ia.
Tecnicamente, eu deveria trabalhar durante o dia, mas tinha-me deixado ficar por ali durante uma hora a mais, para poder falar com o Chefe, cuja execução se aproximava.
Exterior-mente, o Bitterbuck apresentava uma atitude de estoi
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cismo, de acordo com a tradição da sua tribo; contudo, eu, adivinhava o medo que crescia dentro de si, como se fosso uma flor envenenada. Por conseguinte, conversámos. Podemos falar com eles durante o dia, embora não fosse tão agradável devido aos gritos e conversas (para não mencionar ocasionais cenas de pugilato) que vinham do pátio, à mistura com o chonque-chonque-chonque da maquinaria da serralharia, o grito ocasional de um dos guardas, ordenando a alguém que largasse uma picareta ou que agarrasse numa determinada enxada, ou então: "Arrasta esse coiro até aqui, Harveyi"' Habitualmente, depois das quatro horas as coisas melhorava um pouco e depois das seis ainda era melhor. Das seis às oit horas era o melhor período do dia. Depois disso, podíamo ver os pensamentos profundos começarem a assenhorarem-se das suas mentes uma vez mais - viam-se nos seus olhos;, quais sombras da tarde - nessa altura era preferível parar,, Eles continuavam a ouvir o que lhes dizíamos, mas as nossas palavras deixavam de fazer qualquer sentido. Depois das oito horas, eles preparavam-se para os quartos de ronda da noite, imaginando qual a sensação de terem o capacete bem preso na cabeça e qual seria o cheiro do ar no interior do saco negro que acabava de ser enfiado por cima das faces transpi-~
radas.
Contudo, eu apanhei o Chefe numa boa altura. Começou a falar-me da sua primeira mulher e de como, em conjunto, os dois tinham construído uma cabana de madeira em Montam. Aqueles haviam sido os dias mais felizes de toda a sua vida, de acordo com o que ele dizia. A água era tão pura e fria que uma pessoa sentia a boca cortada de cada vez que a bebia.
- Eh, Mister Edgecombe - disse ele. - Acha que se , um homem se arrepende sinceramente daquilo que fez de mal ainda pode regressar ao tempo em que ele foi mais feliz, ficando a viver aí para sempre? Parece-lhe que talvez o paraíso seja assim?
- Tenho acreditado nisso - repliquei, sabendo que estava a dizer uma mentira e sem sentir o mínimo remorso por isso. Eu aprendera os assuntos da eternidade em cima do belo
regaço da minha mãe, e acredito naquilo que o Bom Livro diz a respeito dos assassinos: que para eles não existe vida eterna. Na minha opinião, vão direitinhos para o inferno, onde ficarão a arder no meio de um grande tormento, até que Deus, (malmente, faz sinal ao arcanjo Gabriel para que este
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sopre as Trombetas do Juízo Final. Quando isso acontece, eles apagam-se... e sentem-se provavelmente bastante satisfeitos com Isso. No entanto, eu nunca dei a entender ao Bitterbuck a mais ínfima destas crenças, nem tão-pouco a nenhum dos outros. Mas estou convencido que bem no seu coração eles o sabiam. "Onde está Abel, teu irmão? A voz do sangue dele clama da terra até Mim", disse Deus a Caim, mais ou menos nestas palavras, e duvido muito que as palavras tenham sido uma grande surpresa para essa chança problemática em particular; aposto que Ele ouviu o sangue de Abel a gemer-Lhe da terra, com cada passo que dava.
Quando o deixei, o Chefe sorria; talvez estivesse a pensar na sua cabana de madeira em Montam, na companhia da mulher de seios nus, deitada à luz das chamas da fogueira. Dentro em pouco, ele caminharia por entre um fogo mais ardente, disso eu não duvidava.
Percorri o corredor, e o Dean pôs-me a par da desavença que tivera lugar entre ele e o Percy na noite anterior. Estou em crer que ele se deixou ficar por ali só para poder falar comigo, por isso ouvi-o com toda a tenção. Eu tinha por hábito ouvir com muita atenção sempre que o assunto se relacionava com o Percy, dado que estava cem por cento de acordo com o Dean - na minha opinião, o Percy era o género de homem que poderia vir a provocar graves complicações, tanto a todos nós como a si próprio.
Quando o Dean estava prestes a terminar a sua narrativa, o velho Pouca Terra aproximou-se com o seu carrinho vermelho, cheio de pequenas coisas para comer, o qual estava coberto por citações da Bíblia desenhadas à mão ("Pertencem-Me a vingança e as represálias..." Dt. 32:35, "... pedirei contas do vosso sarrGUE a todos os animais..." Gn. 9:5, assim como demais pensamentos alegres, próprios para levantar o moral), e vendeu-nos algumas sanduíches e refrigerantes. O Dean procurava alguns trocadas nas algibeiras, enquanto dizia que nunca mais voltaríamos a ver o Steamboat ~lly por ali, que o estuporado do Percy Wetmore tinha assustado o
animal, obrigando-o a fugir para sempre, quando o velho Pouca Terra perguntou:
_ O que é aquilo ali?
Ambos olhámos e lá estava o rato do momento, em carne e osso, saltitando pelo meio da Milha Verde. Andava um pouco, detinha-se, olhava em volta com os seus olhinhos brilhantes e
recomeçava a sua corrida.
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- Ei, rato! - chamou o Chefe, ao que a criatura parou. olhou para ele com os bigodes a fremir. Deixem-me que vos diga, era exactamente como se a maldita coisa soubesse que o
tinham chamado. - Por acaso, és um desses guias espirituais? - perguntou o Bitterbuck, atirando um pequeno pedaço de queijo, que retirara do seu próprio jantar, na direcção do rato. Foi cair mesmo em frente do animal, mas o Steam_ boat willy mal lançou um olhar ao queijo, tendo retomado o seu caminho e continuado a percorrer a Milha Verde, enquanto ia espreitando para dentro das celas desocupadas.
- Chefe Edgecombe! - chamou o Presidente. - Acha que esse pequeno estupor sabe que o Wetmore não está cá? Por Deus, a mim parece-me que sim!
Eu sentia mais ou menos a mesma coisa... mas não estava disposto a admitir isso em voz alta.
Entretanto, o Harry apareceu no corredor, a coçar as calças da maneira que fazia sempre depois de ter passado alguns minutos refrescantes na retrete, e parou, de olhos esbugalhados. O Pouca Terra também olhava fixamente, com uma careta descaída num trejeito que dava uma aparência desagradável à metade inferior do seu rosto, ~lácido e desdentado.
O rato parou naquele que se estava a tornar o seu lugar habitual, enrolou a cauda à volta das patas e ficou a olhar para nós. Uma vez mais, ocorreram-me as imagens que eu tinha
visto de juízes a julgarem condenados desafortunados... e contudo, alguma vez teria existido um prisioneiro tão pequeno e tão destemido como aquele? Não que ele fosse um encarcerado na verdadeira acepção da palavra, como é evidente;; tinha a liberdade de ir e vir como bem lhe apetecesse. E no entanto, aquela ideia recusava-se a abandonar-me a mente, e ocorreu-me de novo que quase todos nós nos sentiríamos assim tão pequenos, quando chegasse o dia de nos aproximar-~{ mos do assento de onde Deus nos julgava, depois das nossas vidas terem chegado ao fim, mas que só um número muito restrito de pessoas poderia apresentar um ar tão destemido.
- Pois bem, nunca vi uma coisa destas - declarou o velho Pouca Terra. - Ali está ele sentado, tão importante como o Rei da Caca.
- Ainda não viste nada, Pouca Terra - retorquiu o Harry. - Olha para isto. - Levou a mão ao bolso da camisa de onde retirou um biscoito de maçã polvilhado com canela, em
brulhado em papel encerado. Partiu uma extremidade e ati-
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rou-a para o chão. Estava seca e endurecida e eu pensei que faria ricochete, passando pelo rato sem se deter, mas este estendeu uma pata num gesto tão desinteressado, como um homem que se preparasse para apanhar uma mosca que voasse perto dele, dando uma palmada no pedaço de biscoito, que se imobilizou. Todos nos rimos, de admiração e surpresa, numa explosão de gargalhadas que deveria ter tido o efeito de fazer com que o rato fugisse desarvorado, mas este mal piscou um olho. Agarrou no bocado de biscoito seco, deu-lhe umas duas lambidelas e deixou-o cair no chão, olhando para nós como se dissesse: "Nada mau, que mais é que têm?"
O Pouca Terra abriu o seu carrinho, tirou uma sanduíche, desembrulhou-a e cortou um bocado de um enchido.
- Não te incomodes - disse-lhe o Dean.
- O que é que queres dizer com isso? - perguntou o Pouca Terra. - Não há um único rato à face da Terra que desdenhe uma rodela de enchido se conseguir deitar-lhe a pata. Tu estás mas é maluco!
No entanto, eu sabia que o Dean tinha razão; via na expressão do Harry que este também sabia disso. Havia os temporários e os permanentes. Fosse de que maneira fosse, aquele rato parecia dar-se conta da diferença. Era de loucos, mas era a verdade.
O velho Pouca Terra arremessou-lhe a rodela de enchido e, a provar que tínhamos razão, o rato não quis ter nada a ver com aquilo; cheirou uma vez e retrocedeu um passo.
- Que eu seja o filho de uma grandessíssima cadela! - exclamou o velho Pouca Terra, dando a impressão de se sentir ofendido.
- Dá-me isso - disse-lhe eu, estendendo a mão. - O quê... a mesma coisa?
- A mesma sanduíche. Eu pago-ta.
O Pouca Terra entregou-me o que lhe pedi. Ergui a fatia de cima do pão, retirei outra rodela de enchido e deixei-a cair por cima da borda da frente da secretária do guarda de serviço. De imediato, o rato avançou, agarrou na carne com as patas e começou a comer. O enchido desapareceu antes de eu ter tempo de esfregar um olho.
- Que eu seja amaldiçoado! - vociferou o Pouca Terra. - Inferno maldito! Dá-me isso!
Arrancou-me a sanduíche da mão, tirou um bocado bastante maior de carne - desta vez não foi só um bocadinho,
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mas sim um bom naco - e deixou-a cair tão perto do SteQm, boat Willy que o rato esteve prestes a usá-la como chapéu. Uma vez mais, o animal retrocedeu, cheirou a carne (com toda a certeza que nenhum rato é assim tão tarado durante a Grande Depressão - pelo menos, não no nosso estado), e em seguida ergueu o olhar até nós.
- Vá lá, come! - incitou o Pouca Terra, dando a impressão de se sentir mais ofendido do que nunca. - O que é que se passa contigo?
O Dean agarrou na sanduíche e deixou cair um pedaço do enchido - naquela altura, a cena já tinha atingido o carácter de uma estranha comunhão. Sem hesitações, o rato apanhou a
carne e comeu-a imediatamente. Depois de ter terminado"~ voltou-se e começou a percorrer o corredor até à cela do isolamento, parando a meio do caminho para espreitar para dentro de duas das celas desocupadas, e fez uma pequena digressão inquiridora a uma terceira. Uma vez mais, ocorreu-me a possibilidade de o animal andar à procura de alguém; desta feita, afastei o pensamento da minha mente com maior lentidão do que anteriormente.
- Não tenciono falar acerca deste assunto - disse o Harry Adivinhava-se que ele falava meio a sério meio a brincar. Em primeiro lugar, ninguém se interessaria. E em segundo, ain
da que fosse esse o caso, ninguém acreditaria em mim.
- Ele só comeu o que vocês lhe deram - comentou o Pouca Terra. Abanou a cabeça num gesto de quem não conseguia acreditar naquilo, debruçou-se sobre o carrinho e agar
rou no que o rato tinha desdenhado, começando a comer com a sua boca desdentada e a triturar o alimento com as gengivas até ao ponto de submissão. - Vamos lá a saber, porque é que ele terá agido assim?
- Tenho uma ideia melhor - interveio o Harry. - Como é que ele sabia que o Percy está de folga?
- Não sabia - repliquei. - O facto de esse rato ter aparecido hoje à noite não passa de uma mera coincidência. Só que, com o passar dos dias, cada vez se tornava mais dificil acreditar que um simples rato só desse a conhecer a sua presença quando o Percy se encontrava de folga, a trabalhar noutro turno, ou em funções numa outra zona da prisão. Nós - o Harry, o Dean, o Brutal e eu próprio - chegámos à conclusão de que o animal deveria conhecer a voz do Percy ou o seu cheiro. Cautelosamente, evitávamos discutir em de
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masia o próprio rato - o próprio. Decidimos tacitamente que isso poderia contribuir para arruinar uma coisa que era muito espetral... e maravilhosa, em virtude da estranheza e delicadeza que a envolviam. Ao fim e ao cabo, o Willy escolhera_nos de uma maneira que, até mesmo agora, eu nunca consegui compreender. É possível que o Harry tenha tido razão, quando disse que não valeria a pena partilhar aquilo com outras pessoas, não só porque elas não acreditariam, mas também porque não iriam demonstrar o mais pequeno interesse.
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Foi então que chegou a data da execução do Arlen Bitterbuck, o qual, na realidade, não era o chefe da sua tribo mas sim o primeiro dos anciãos na Reserva de Washington, assim como membro do Conselho dos Cherokees. Sob o efeito do álcool ele tinha assassinado um homem - na verdade, ambos tinham estado embriagados. O Chefe esmagara a cabeça do homem com um bloco de cimento. O pomo da discórdia entre os dois fora um par de botas. Portanto, em 17 de Julho daquele Verão chuvoso, o meu conselho de anciãos determinou que a sua vida deveria ser extinta.
As horas de visita, para a maior parte da população prisional de Cold Mountain, eram tão rígidas como vigas de aço, mas essa norma não se aplicava aos nossos rapazes do Bloco E. Assim, no dia 16, o Bitterbuck teve autorização para se dirigir à espaçosa sala adjacente ao refeitório - a Arcada. Estava dividida exactamente a meio por uma rede de arame entrelaçada com arame farpado. Era ali que o Chefe recebia a visita da sua segunda mulher, assim como alguns dos seus filhos que ainda falavam com ele. Chegara o momento do adeus.
Foi o Bill Dodge quem o levou àquela sala, juntamente com dois dos outros temporários. Nós tínhamos trabalho a fazer - uma hora para, pelo menos, dois ensaios. Três, se conseguíssemos.
O Percy não levantou muitos protestos por ter sido destacado para o compartimento do quadro eléctrico com o Jack Van Hay, para a electrocussão de Bitterbuck; ainda estava demasiado verde para perceber se lhe tinha sido dado um bom lugar ou não. Aquilo que ele sabia era que dispunha de uma
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pequena janela rectangular com rede de arame, através da qual poderia ver tudo, e, embora provavelmente ele não se importasse de estar a olhar para as costas da cadeira em vez de para a frente, continuaria a estar suficientemente próximo; para poder avistar as faíscas a saltarem para todos os lados:
Do lado de fora da janela, mesmo junto desta, havia um telefone negro sem manivela nem mostrador de números. Esse telefone só servia para receber chamadas, as quais poderiam ser feitas somente de um lugar: do gabinete do governador. Ao longo dos anos, vi uma série de filmes sobre a vida prisional em que o telefone oficial começa a tocar no momento exacto em que se preparam para accionar a alavanca que; terminará com a vida de um desgraçado qualquer inocente;; contudo, o nosso nunca tocou durante todos os anos em que trabalhei no Bloco E. Nos filmes, a salvação é barata. Assim como a inocência. Pagam-se vinte e cinco cêntimos e obtém-se exactamente aquilo que esse montante pode proporcionar-nos. A vida real custa mais e a maioria das respostas é bem diferente.
Lá em baixo, no túnel, tínhamos um manequim de alfaiate que ocupava o lugar na ambulância, enquanto o velho Pouca? Terra fazia o resto. Ao longo dos anos, não se sabia bem como, o Pouca Terra tinha vindo a ocupar o lugar do tradicional substituto do condenado, um lugar tão respeitado à sua maneira como o do peru que fará as honras da mesa da ceia: de Natal, quer se goste de peru ou não. A maior parte dos outros guardas da prisão gostava dele, o homem falava com um sotaque engraçado, o que os divertia - também era de origem francesa, embora fosse canadiano e não cajun, e possuía uma maneira de falar muito peculiar que era suavizada pelos muitos anos de encarceração no Sul. Até mesmo o Brutal se divertia com o velho Pouca Terra. Mas eu não me incluía nesse número. Estava convencido que ele era, muito à sua maneira, uma versão mais envelhecida e diluída do Percy Wetmore, a espécie de homem que sentia grandes melindres em matar e cozinhar a sua própria carne, mas que, ainda assim, adorava sentir o cheiro do churrasco.
Estávamos todos presentes para o ensaio, tal como estaríamos ali durante o acontecimento principal. O Brutos Hwell tinha sido o "designado", como costumávamos dizer, o"
que significava que lhe caberia a tarefa de colocar o capacete, vigiar a linha telefónica do governador, chamar o médico que
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estaria no seu lugar junto à parede, no caso de os serviços deste virem a ser necessários, e dar a ordem para o desenrolar dos eventos quando chegasse a hora. Se tudo corresse bem, não haveria elogios para ninguém. Caso contrário, o Brutal seria recriminado pelas testemunhas enquanto eu seria responsabilizado pelo director. Nenhum de nós reclamava desta situação; os protestos não nos teriam servido de nada. Muito simplesmente, o mundo continua a girar. Podemos aguentar-nos e girar com ele, ou tentar fazer valer os nossos protestos, sendo imediatamente cuspidos desse .mundo.
O Dean, o Harry Terwilliger e eu encaminhámo-nos para a cela do Chefe, a fim de dar início ao primeiro ensaio; ainda não haviam passado três minutos desde que o Bill e as suas tropas tinham escoltado o Bitterbuck do bloco até à Arcada. A porta da cela encontrava-se aberta e o velho Pouca Terra estava sentado na tarimba do Chefe, com os seus cabelos ralos e encanecidos espetados em todas as direcções.
- O lençol está todo manchado com nódoas de se ter vindo - comentou o Pouca Terra. - Deve estar a tentar livrar-se disso tudo antes de vocês o estorricarem - acrescentou com um riso cacarejado.
- Cala a boca, Pouca Terra - ripostou o Dean. - Vamos lá a fazer isto de uma forma séria.
- De acordo - anuiu o Pouca Terra, compondo imediatamente as suas feições e adquirindo uma expressão de solenidade grandiosa. Todavia, os seus olhos mantinham-se brincalhões. O velho Pouca Terra nunca dava a impressão de estar tão vivo como quando desempenhava o papel do morto.
- Arlen Bitterbuck - comecei a dizer, dando alguns passos em frente -, na minha qualidade de funcionário de justiça e do estado, e por aí adiante... venho munido de uma sentença, e blá-blá... execução essa que terá lugar às vinte e Quatro horas do dia blá-blá... pelo que lhe peço que se levante. O Pouca Terra levantou-se da tarimba.
- Estou a levantar-me, estou a levantar-me, estou a levantar-me - declarou ele repetidamente.
- Dê meia volta - interveio o Dean e, quando o Pouca Terra se virou, começou a examinar o topo da sua cabeça
coberta de caspa. No dia seguinte à noite, a região superior da cabeça do Chefe seria escanhoada, e a verificação do Dean na altura teria a finalidade de ver se ele não precisaria de alguns retoques. Os cabelos mal rapados impediriam uma boa
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condutibilidade de energia, dificultando todo o processo. Tudo aquilo que fazíamos naquele momento pretendia facilitar as coisas.
- Muito bem, Arlen, vamos embora - disse eu ao Pouca Terra, e todos saímos da cela.
- Estou a caminhar pelo corredor, estou a caminhar pelo corredor, estou a caminhar pelo corredor - repetiu o Pouca Terra. Pus-me à sua esquerda, e o Dean à sua direita. O Harry
seguia directamente atrás dele. Chegados ao fim do corredor virámos à direita, afastando-nos da vida como ela era vivida no pátio do recreio, seguindo em direcção à morte como era sofrida na sala da arrecadação. Prosseguimos para o meu gabinete, onde o Pouca Terra caiu de joelhos sem que fosse necessário pedir-lhe que o fizesse. Ele conhecia bem o argu_ mento daquela peça, extremamente bem, provavelmente melhor do que qualquer de nós. Deus era testemunha de que ele vivia naquele lugar há mais tempo do que nós.
- Estou a rezar, estou a rezar, estou a rezar - acrescentou o Pouca Terra, erguendo as mãos enodadas num gesto de oração. Assemelhavam-se àquela famosa gravura que vocês'
provavelmente conhecem, aquela que quer dizer: "O Senhor é . o meu pastor..." e assim por diante.
- Quem é que o Bitterbuck arranjou? - perguntou o Harry. - Não vamos permitir aqui a presença de um curaudefiro cherokee que lhe agarre na picha, pois não?
- Na verdade...
- Continuo a rezar, continuo a rezar, continuo na companhia de Jesus - acrescentou o Pouca Terra, interrompendo-me. - Cala a boca, velho idiota - ripostou o Dean.
- Estou a rezar! - insistiu o Pouca Terra. - Nesse caso, reza para ti próprio.
- O que é que está a atrasar-vos? - gritou a voz do Brutal vinda da sala da arrecadação. Também havia sido esvaziada para nosso uso. Encontrávamo-nos de novo na zona da matança; isso era algo que quase se conseguia cheirar.
- Aguenta os cavalos! - gritou-lhe o Harry. - Que raio, não sejas tão impaciente!
- A rezar - continuou o Pouca Terra, brindando-nos com o seu esgar sorridente, desagradável e encovado. - A rezar para que me seja concedida paciência, porra, apenas um pouco de paciência.
- Na verdade, o Bitterbuck é cristão... de acordo com o
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que ele diz - continuei dirigindo-me aos outros. - Vai sentir-se satisfeito com aquele tipo baptista que aqui esteve por ocasião do Tillman Clark. Acho que o nome dele é Schuster. Eu também gosto dele. É rápido e não faz com que eles fiquem todos enervados. Põe-te de pé, Pouca Terra. Já rezaste que chegue para um dia.
- Estou a andar - disse ele. - Estou a andar outra vez, estou a andar outra vez, sim senhor, a caminhar pela Milha Verde.
Baixo como ele era, ainda assim tinha de se encolher um pouco para conseguir transpor a porta, situada na parede mais afastada do meu gabinete. Nós tivemos de nos baixar ainda mais. Sempre que em presença de um verdadeiro condenado, este momento era deveras vulnerável; quando olhei para a plataforma onde se encontrava a Velha Faísca, tendo avistado o Brutal com a arma empunhada, acenei com uma expressão de satisfação. Estava tudo exactamente como devia estar.
O Pouca Terra começou a descer os degraus e parou. As cadeiras desdobráveis de madeira, cerca de quarenta, já se encontravam a postos nos seus lugares. O Bitterbuck atravessaria aquele espaço até à plataforma, num ângulo que o manteria afastado dos espectadores, havendo mais seis guardas que reforçariam a segurança para o que desse e viesse. O Bill Dodge é que seria o responsável por esses. Nunca uma testemunha fora ameaçada por um prisioneiro, apesar da situação de grande tensão... e era assim que eu tencionava manter as coisas.
- Estão prontos, rapazes? - perguntou o Pouca Terra depois de termos reassumido a nossa formação original, ao fundo dos degraus que saíam do meu gabinete. Acenei num gesto afirmativo e encaminhámo-nos para a plataforma. Acima de tudo, aquilo a que mais nos assemelhávamos, pensava eu muitas vezes era a um corpo de guarda de honra que se tinha esquecido da bandeira.
- O que é que eu devo fazer? - perguntou o Percy por detrás da pequena janela com rede de arame, entre a sala da arrecadação e o compartimento do quadro eléctrico.
- Observa e aprende - respondi-lhe em voz alta.
- E mantém as mãos afastadas da tua salsicha - acrescentou o Harry num resmungo. No entanto, o Pouca Terra ouviu-o e soltou uma risada cacarejada.
Escoltámo-lo até à plataforma, onde o Pouca Terra se
voltou sem que ninguém lhe dissesse para o fazer: o velho veterano em acção.
- A sentar-me - anunciou ele -, a sentar-me, a sentar-me, a ocupar o assento no regaço da Velha Faísca. Ajoelhei-me sobre o joelho direito em frente da sua perna direita, enquanto o Dean se ajoelhou sobre o joelho esquerdo em frente da sua perna esquerda. Era nesta altura que nós próprios estaríamos na posição mais vulnerável, sujeitos a um ataque físico, no caso de o homem condenado se passar dos carretos... o que, de quando em quando, acontecia. Ambos posicionámos o joelho dobrado ligeiramente para dentro, a fim de proteger a região das virilhas. Deixámos descair o queixo para poder salvaguardar a zona da garganta. E, como é evidente, avançámos para prender os tornozelos do condenado, neutralizando desta forma e o mais depressa possível qualquer situação de perigo. O Chefe usaria pantufas quando desse o seu derradeiro passeio, mas a frase "poderia ser muito pior, não serve de grande conforto a um homem com a laringe dilacerada. Ou já agora, a contorcer-se no chão com os tomates inchados do tamanho de um grande boião de vidro Mason, enquanto cerca de quarenta espectadores - muitos deles cavalheiros da imprensa - sentados naquelas cadeiras das granjas, observavam tudo com muita atenção.
Prendemos os artelhos do velho Pouca Terra. A grilheta do lado do Dean era ligeiramente maior, uma vez que era aquela por onde passava a corrente. Quando, no dia seguinte
à noite, o Bitterbuck se sentasse na cadeira, teria a barriga da perna esquerda rapada. Os Índios têm muito poucos pêlos no corpo, mas nós não queríamos correr o mínimo risco.
Enquanto prendíamos os tornozelos do Pouca Terra, o Brutal manietou-lhe o pulso direito. Por seu lado, o Harry' avançou em passadas mansas, prendendo o esquerdo. Depois de terem terminado, este último acenou ao Brutal que se dirigiu a Van Hay em voz alta.
- Prossegue com a fase um!
Ouvi o Percy a perguntar ao Jack Van Hay qual o significado daquilo (era difícil acreditar na escassez de conhecimentos que ele tinha, no pouco que apreendera desde que começara a
trabalhar no Bloco E), ao que se seguiu uma explicação sussurrada do Van Hay. Naquele momento, a expressão Prosseguir com a fase um não teria qualquer significado, mas, quando no dia seguinte a ouvisse da boca do Brutal, o Van Hay
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rodaria o puxador que accionava o gerador da prisão situado atrás do Bloco B. As testemunhas ouviriam o ruído ensurdecido do mecanismo em funcionamento, enquanto as luzes por toda a prisão seriam mais intensas. Nos outros blocos, os prisioneiros observariam as luzes que emitiriam uma luminosidade invulgar, deduzindo que a execução fora concluída, quando de facto aquilo indicava que estava apenas no início.
O Brutal contornou a cadeira de forma a que o Pouca Terra o pudesse ver.
- Arlen Bitterbuck, o senhor foi condenado a morrer na cadeira eléctrica, tendo a sentença sido lavrada por um júri formado pelos seus pares, e imposta por um juiz deste estado. Deus abençoe as pessoas deste estado. Tem alguma coisa a dizer antes de se dar cumprimento à sentença?
- Sim - replicou o Pouca Terra com os olhos cintilantes e lábios unidos que esboçavam um esgar desdentado pleno de felicidade. - Quero um jantar de galinha frita com molho em cima das batatinhas, quero cagar dentro do teu chapéu e tenho de ter a Mae West sentada em cima da minha cara, porque sou um filho da puta cheio de tesão.
O Brutal tentou manter uma expressão empedernida, mas foi-lhe absolutamente impossível. Lançou a cabeça para trás e desatou a rir às gargalhadas. O Dean, que se encontrava na extremidade da plataforma, perdeu toda a compostura como se houvesse sido atingido por um projéctil, com a cabeça baixada entre os joelhos, a uivar como se fosse um coiote e com uma mão a tapar os sobrolhos, dando a impressão de que impedia os miolos de saírem do lugar onde deveriam manter-se. Por seu lado, o Harry batia com a cabeça contra a parede, enquanto proferia ah-ah-ah como se tivesse um naco de comida entalado na garganta. Até mesmo o Jack Van Hay, um homem que não era conhecido pelo seu sentido de humor, não conseguira conter o riso. É claro que a mim também me apeteceu rir, mas a custo consegui refrear essa vontade. Na noite seguinte tudo aquilo seria a sério e, no lugar onde o Pouca Terra estava sentado haveria um homem destinado a morrer.
- Pára com isso, Brutal - disse eu. - Tu também, Dean. Harry. E pouca Terra, o próximo comentário semelhante a esse que saia da tua boca será o último que farás. Ordenarei ao Van Hay que prossiga de facto com a fase dois.
O Pouca Terra mimoseou-me com uma careta risonha, como se me dissesse: "Essa foi muito boa, chefe Edgecombe,
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mesmo muito boa." Quando viu que não obtinha qualquer reacção da minha parte, lançou-me um olhar intrigado por entre as pálpebras semicerradas.
- O que é que se passa consigo? - perguntou ele. - O que disseste não tem graça nenhuma - retorqui.
É isso que se passa comigo e, se não és suficientemente esperto para compreenderes isso, o melhor é manteres a pia fechada. - Só que era engraçado, à sua maneira muito especial, e suponho que fora isso o que realmente me enfurecera.
Olhei à minha volta e vi que o Brutal olhava fixamente para mim, continuando a sorrir um pouco.
- Merda! - exclamei. - Estou a ficar demasiado velho para este trabalho.
- Não - retorquiu o Brutal. - Estás no teu melhor, Paul.
Mas não estava e ele também não, pelo menos no que respeitava aquelas malditas tarefas, e ambos sabíamos que assim era. Fosse como fosse, o importante era que o ataque de riso
tinha passado. O que era bom, visto que a última coisa de que eu precisava era que alguém se recordasse, na noite seguinte, do comentário do chico-esperto do Pouca Terra, o que daria origem a mais risadas. Poder-se-ia dizer que isso seria absolutamente impossível, um guarda que desatasse a rir às gargalhadas na altura em que escoltava um homem condenado, ao passar pela frente das testemunhas enquanto o conduzia à cadeira eléctrica; porém, quando os homens se encontram sujeitos a uma grande tensão psicológica, tudo pode acontecer. Caso se verificasse uma coisa dessas, as pessoas iriam falar do assunto durante pelo menos vinte anos.
- Tencionas ficar calado, Pouca Terra? - perguntei. Sim - respondeu ele; a expressão do seu rosto, que mantinha desviado, reflectia a da criança mais amuada do mundo.
Fiz sinal ao Brutal, indicando-lhe que deveria prosseguir com o ensaio. Ele retirou o saco negro, que se encontrava pendurado no gancho de bronze nas costas da cadeira, e colocou-o na cabeça do Pouca Terra, ajustando-o bem abaixo do queixo, o que abriu o orifício em cima, na parte mais larga. Em seguida, o Brutal inclinou-se para a frente, agarrou na esponja molhada que retirou do balde, fez pressão com um dedo sobre a esponja e lambeu a ponta do dedo. Concluído aquilo, voltou a colocar a esponja dentro do balde. No dia seguinte, não o faria. No dia seguinte, ajeitá-la-ia dentro do capacete que se encontraria pendurado nas costas da cadeira.
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No entanto, naquele dia não procederia assim; não havia necessidade de molhar a cabeça do velho Pouca Terra.
O capacete era de aço e, com aquelas estranhas correias suspensas dos dois lados, tinha a aparência de uma espécie de capacete feito de plasticina. O Brutal colocou-o na cabeça do velho Pouca Terra, ajustando-o por cima do orifício recortado no saco negro.
- Estão a pôr-me o capacete, estão a pôr-me o capacete, estão a pôr-me o capacete - anunciou o Pouca Terra, cuja voz naquele momento soava abafada,. saindo-lhe a custo da garganta. As correias mantinham-lhe os maxilares quase cerrados, e desconfio que o Brutal as havia apertado um tudo-nada em excesso, mais do que aquilo que seria estritamente necessário para um ensaio. Retrocedeu e olhou de frente para as cadeiras desocupadas.
- Arlen Bitterbuck - anunciou ele -, a partir de agora a corrente eléctrica atravessará o seu corpo até que o senhor esteja morto, de acordo com a lei deste estado. Que Deus tenha piedade da sua alma.
O Brutal voltou-se para a pequena janela rectangular de rede de arame.
- Prossigam com a fase dois.
O velho Pouca Terra, talvez numa tentativa de retomar a anterior genialidade de cómico, começou a estrebuchar e a espernear na cadeira, de uma maneira que quase nunca acontecia com os verdadeiros clientes da Velha Faísca.
- Agora estou a estorricar! - gritou ele. - A estorricar! A estoricaarrr! Aaauuuu! Estou cozinhado como um peru! Reparei que o Dean e o Harry não observavam esta cena. Tinham voltado costas à Velha Faísca e fitavam um ponto para além da sala da arrecadação vazia, nomeadamente a porta que dava acesso ao meu gabinete.
- Macacos me mordam! - exclamou o Harry. - Uma das testemunhas chegou com um dia de antecedência. Sentado na ombreira com a cauda cuidadosamente enrolada em redor das patas, observando tudo com os seus olhos negros e brilhantes como contas, encontrava-se o rato.
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A execução correu bem - se existia qualquer coisa naquele processo que pudesse ser considerada "boa" (uma proposição de que eu duvido veementemente) então a execução
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do Arlen Bitterbuck, ancião dos Cherokees de Washita, fora-o. As suas tranças não tinham ficado bem feitas - as mãos haviam-lhe tremido tanto que não conseguira entrançar o cabelo como deve ser - e a filha mais velha, uma mulher de trinta e poucos anos, tivera autorização para as entrançar como devia ser. Ela queria entrelaçá-las com penas nas extremidades, as penas novas de um falcão, o pássaro do pai, mas eu não pude permitir isso. Havia a possibilidade de pegarem fogo, começando a arder. É claro que eu não lhe disse isso, limitei-me a dizer-lhe que era contra os regulamentos. Ela não levantou qualquer objecção, tendo apenas inclinado a cabeça e levado as mãos à fronte, como mostra do seu desgosto e da sua reprovação. A mulher conduziu-se sempre com uma dignidade extraordinária, e, ao manter aquela compostura, prati= camente garantiu que o pai procederia da mesma maneira.
O Chefe deixou a sua cela sem qualquer objecção, sem tentar protelar a situação quando chegou o momento. Por vezes éramos obrigados a soltar os dedos dos homens que se
agarravam às grades da cela - nos meus tempos, cheguei mesmo a quebrar um ou dois; nunca consegui esquecer-me do estalar abafado dos ossos quando isso acontecia; todavia, o Chefe não era um desses, graças a Deus. Caminhou determinantemente pela Milha Verde até ao meu gabinete, onde se deixou cair de joelhos para rezar com o Irmão Schuster, que tinha vindo da Igreja Baptista Luz Celestial no seu velho calhambeque. Schuster leu ao Chefe alguns salmos, e ele começou a chorar quando o reverendo chegou àquele que falava em deitar-se ao lado das águas tranquilas. Não obstante isso, as coisas correram mais ou menos, não tendo havido histeria nem nada do género. Eu tinha a impressão de que ele estaria a pensar em águas tranquilas, tão frias e tão puras que nos davam a sensação de cortar a boca de cada vez que as bebíamos.
Na verdade, eu gosto de os ver chorar um pouco. Quando eles não choram é que eu fico preocupado.
Muitos deles não são capazes de se levantar sem ajuda depois de se terem ajoelhado; todavia o Chefe portou-se bem nesse departamento. De início, vacilou um pouco, como se
não soubesse o que estava a fazer, e o Dean estendeu-lhe uma mão, embora o Bitterbuck já tivesse sido capaz de se recompor sem auxílio, o que nos permitiu dar seguimento à sessão.
Quase todas as cadeiras se encontravam ocupadas por pessoas que falavam entre si numa voz sussurrada, tal como
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se costuma fazer quando se aguarda o início de um casamento ou de um funeral. Essa foi a única ocasião em que o Bitterbuck se deixou ir um pouco abaixo. Não sei se foi por ter estado presente alguém que o tenha perturbado em especial, ou o conjunto de toda aquela assistência, mas o certo é que comecei a ouvir um gemer ensurdecido que começava a sair-lhe da garganta, e, de repente, o braço em que eu segurava adquiriu uma tensão muscular que não tivera antes. Pelo canto do olho, vi que o Harry Terwilliger se aproximava, a fim de cor= tar qualquer tentativa de recuo do Chefe, se de súbito este decidisse dificultar as coisas.
Apertei com mais força a mão que mantinha presa no cotovelo do Bitterbuck, tendo-lhe tocado com um dedo na região interior do braço.
- Calma, Chefe - disse-lhe eu pelo canto da boca sem mexer os lábios. - A única coisa que ficará gravada na memória da maior parte desta gente é a forma como saíres desta vida, portanto, dá-lhes algo de bom... mostra-lhes como é que um washita se comporta.
Ele lançou-me um olhar de revés e acenou com a cabeça. Em seguida, agarrou numa das tranças que a filha havia entrançado e deu-lhe um beijo. Olhei para o Brutal, que se mantinha na posição militar de descanso por detrás de uma cadeira, todo aprumado no seu melhor uniforme azul, com os botões do casaco bem polidos e a brilhar, e o chapéu de pala perfeitamente posicionado na sua cabeça avantajada. Fiz-lhe um ligeiro acenar de cabeça, que ele retribuiu de imediato, avançando para ajudar o Bitterbuck a subir para a plataforma, caso a sua ajuda viesse a ser necessária. Não foi.
Decorreu menos de um minuto desde o momento em que o Bitterbuck se sentou na cadeira, até que o Brutal gritou "Prosseguir com a fase dois!", numa voz suave, falando por cima do ombro. As luzes voltaram a enfraquecer, embora por pouco tempo; nem se teria reparado nisso, caso não se esperasse que tal viesse a acontecer. O que significava que o Van Hay accionara o interruptor, que um engraçadinho qualquer
tinha etiquetado como "o SECADOR DE CABELO DA MABEL. Ouviu-se um zunir abafado vindo do capacete, e o Bitterbuck inclinou-se para a frente com um estremecimento, contra as fivelas e a correia estendida a toda a largura do seu peito. Junto à parede, o médico da prisão observava sem deixar adivinhar qualquer expressão, mantendo os lábios tão cerrados que a
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sua boca se assemelhava a uma linha esbranquiçada. Não houve qualquer estrebuchar nem tão-pouco espernear, tal como o velho Pouca Terra fizera durante o ensaio, só aquele forte estremecimento para a frente, das ancas para cima, como se sob o efeito de um poderoso orgasmo. A camisa azul do Chefe esticou-se toda junto dos botões, criando pequenos vincos que se assemelhavam a sorrisos de carne entre eles.
E foi então que surgiu o cheiro. Em si mesmo não era muito mau, embora se tornasse desagradável devido ao que nele se encontrava implícito. Nunca fui capaz de descer até á
cave da casa da minha neta, quando me levam até lá, embora seja aí que o seu filho, ainda pequeno, tem montada a linha do comboio que muito gostaria de partilhar com o avô. Os comboios não me incomodam, tal como certamente terão adivinhado - é o transformador que não sou capaz de suportar. A maneira como zune e o cheiro que deita depois de ter aquecido. Até mesmo depois de terem passado todos estes anos, aquele cheiro traz-me sempre à memória a imagem de Cold Mountain.
O Van Hay deu-lhe trinta segundos e cortou a corrente. O médico avançou, afastando-se do seu lugar para auscultar o coração com o estetoscópio. Naquele momento não se ouvia
qualquer conversa entre as testemunhas. O médico endireitou-se e olhou através do pequeno rectângulo de malha de rede. - Desorganizado - anunciou ele, fazendo um gesto giratório com um dedo, como se desse à manivela. Tinha ouvido algumas pulsações esporádicas no peito do Bitterbuck, provavelmente tão desprovidas de significado como as convulsões finais de uma galinha a quem tivessem cortado a cabeça, mas era preferível não correr o mínimo risco. Ninguém queria que ele, inesperadamente, se sentasse na maca quando ~ fosse a meio caminho do túnel, começando a gritar que se sentia a arder.
O Van Hay prosseguiu com a fase três e, uma vez mais, i o corpo do Chefe foi percorrido por um estremecimento que o impulsionou para a frente, agitando-se um pouco de um lado
para o outro sob os efeitos da corrente eléctrica. Desta feita, quando o médico o auscultou de novo acenou com a cabeça Estava tudo terminado. Uma vez mais tínhamos alcançado êxito em destruir aquilo que não podíamos criar. Algumas das pessoas entre a assistência recomeçaram a conversar no mesmo tom de voz sussurrada; contudo, a maior parte dos pre

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sentes mantinha-se de cabeça baixa e com os olhos presos no chão, como se estivessem atordoados. Ou mesmo envergonhados.
O Harry e o Dean surgiram com a padiola. Na realidade, era tarefa do Percy colocar-se numa das extremidades, mas ele não sabia disso e ninguém se tinha dado ao trabalho de o informar O Chefe, que continuava a ter a cabeça coberta pelo saco de seda negra, foi colocado sobre a padiola por mim e pelo Brutal, e conduzimo-lo através da porta que dava acesso ao túnel o mais depressa possível, sem que desatássemos a correr. O fumo - demasiado fumo - começara a evolar-se do ori~cio no topo do saco, provocando um fedor insuportável.
- Ó pá! - gritou o Percy numa voz vacilante. - Que cheiro é esse?
- Sai do meu caminho e mantém-te bem afastado - ripostou o Brutal, empurrando-o ao passar por ele para poder chegar à parede, onde estava montado um extintor. Era um dos antigos, que continha um produto químico e que era necessário bombear. Entretanto, o Dean havia retirado a espécie de capuz. Não era tão mau como poderia ter sido; a trança esquerda do Bitterbuck estava a fumegar, como se fosse um amontoado de folhas humedecidas.
- Deixa essa coisa sossegada - disse eu ao Brutal. Não desejava ter de limpar do rosto do velho um monte de substâncias químicas viscosas antes de o colocar na parte de trás da ambulância. Comecei a bater na cabeça do Chefe (durante todo o tempo, o Percy olhava para mim com os olhos esbugalhados) até que o fumo se extinguiu.
Em seguida, conduzimos o corpo pelos doze degraus de madeira que iam dar ao túnel. Aquele lugar era tão frio e húmido como uma masmorra, ouvindo-se o som cavo de água a gotejar. Do tecto estavam suspensas lâmpadas protegidas por quebra-luzes toscos de zinco - estes haviam sido feitos na oficina da prisão - as quais deixavam ver uma conduta de tijolo que passava a cerca de nove metros abaixo da auto-estrada. O tecto molhado tinha uma forma curva. De todas as vezes que eu era obrigado a passar por ali, sentia-me sempre como se fosse uma das personagens de uma das histórias de Edgar Allan Poe. Havia uma maca à nossa espera. Colocámos o corpo do Bitterbuck em cima dela e eu procedia uma última
verificação, certificando-me de que o cabelo deixara de
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arder. Aquela trança ficara bastante estorricada; lamentei ver que a pequena laçada, que fora dada de maneira tão astuta naquela região da cabeça, não passava agora de um amontoado enegrecido.
O Percy esbofeteou uma das faces do homem morto O estrépito provocado pelas pancadas da sua mão sobressaltou-nos a todos. O Percy olhou em redor, fitando-nos a todos
com um sorriso matreiro nos lábios e olhos que cintilavam, Voltou a olhar para o Bitterbuck.
-Adiós, Chefe - disse ele. - Espero que o inferno seja suficientemente quente para ti.
- Não faças isso - atalhou o Brutal numa voz que soava cava e declamatória, no túnel onde a água continuava a gotejar. - Ele já pagou a sua dívida para com a sociedade. Voltou a ter as suas contas em dia. Mantém as mãos afastadas do seu corpo.
- Ei, acaba com isso - retorquiu o Ferey, embora houvesse recuado, mostrando um certo mal-estar quando o Brutal começou a encaminhar-se na sua direcção, com a sombra que se erguia atrás de si como se fosse a sombra de um gorila na história que fala da Rua Morgue. Mas em vez de agarrar no Percy, o Brutal agarrou na maca e começou a empurrar o Arlen Bitterbuck com lentidão, em direcção ao fundo do túnel, onde a sua última boleia o aguardava estacionada na berma macia da auto-estrada. As rodas de borracha dura da maca gemiam sobre as tábuas do soalho; a sua sombra, de contornos pouco nítidos, alongava-se contra a parede de tijolos. O Dean e o Harry agarraram no lençol que estava ao fundo da maca e cobriram o rosto do Chefe, que começara já a adquirir a máscara cerácea e descaracterizada comum às faces mortas, tanto dos inocentes como dos culpados.
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Quando eu tinha dezoito anos, o meu tio Paul - o homem que me dera o nome - morreu de um ataque cardíaco. Os meus pais levaram-me a Chicago para o funeral, aprovei
tando para visitar familiares do lado da família do meu pai, a maioria dos quais eu nunca tinha visto. Ficámos nessa cidade durante quase um mês. Sob certos aspectos, foi uma viagem agradável, uma jornada necessária e empolgante, mas que de
certa forma também se tornou horrível. Bem vêem, eu estava profundamente apaixonado pela jovem mulher que mais tarde haveria de ser a minha noivaa duas semanas depois de ter completado dezanove anos. Uma noite em que as saudades que sentia dela eram como chamas queimando-me descontroladamente o coração e a cabeça (oh sim, de acordo, e também os tomates), escrevi-lhe uma carta que parecia não ter fim - nela esvaziei todo meu coração, sem nunca voltar atrás para rever o que tinha escrito, porque receava que a cobardia me impedisse a mão de continuar. Não parei de escrever, e quando uma voz no interior da minha cabeça bradou que seria uma loucura enviar uma carta daquelas, uma vez que eu estava a pôr a nu o meu coração perante ela, que o poderia agarrar com a sua mão, ignorei-a com a mesma atitude de desinteresse de uma criança pelas consequências dos seus actos. Perguntei-me frequentemente se a Janice teria guardado essa carta, apesar de nunca ter sido capaz de reunir coragem suficiente para lhe fazer essa pergunta. O que eu sei com toda a certeza é que não a encontrei, quando examinei as suas coisas depois do seu funeral, o que, como é claro, por si só não tem qualquer significado. Suponho que nunca lhe cheguei a perguntar, porque receava descobrir que aquela epístola, cheia de ardor, tivera menos significado para ela do que para mim próprio.
Era composta por quatro páginas e eu estava convencido de que jamais voltaria a escrever uma missiva tão alongada como aquela, em toda a minha vida, e agora olhem bem para isto. Toda esta escrita e o fim ainda não se encontra à vista. Se eu soubesse que esta narrativa se alongaria desta forma, possivelmente nunca a teria começado. Nunca me tinha apercebido da quantidade de portas que o acto de escrever abre, como se a antiga caneta de tinta permanente do meu pai não fosse realmente uma caneta mas sim uma estranha variedade de chave-mestra. Muito provavelmente, o rato constitui o melhor exemplo daquilo que estou a tentar ilustrar. Steamboat Willy, Mister Jingles, o rato da Milha. Até ter começado a escrever, nunca tinha compreendido até que ponto é que ele (sim, ele) fora importante. Por exemplo, a forma como parecia procurar o Delacroix antes de este ter chegado à prisão - não me parece que esse aspecto me tenha ocorrido alguma vez, pelo menos de forma consciente, até ter começado a escrever e a relembrar as coisas.
Calculo que aquilo que pretendo dizer é que não me apercebi do quanto teria de recuar no tempo para vos falar do John Coffey, ou durante quanto tempo é que teria de o deixar
na sua cela, um homem tão gigantesco que os seus pés não se limitavam a sair pelo fundo da tarimba; pendiam até ao chão. Não quero que se esqueçam dele, de acordo? Quero que o imaginem ali, erguendo o olhar até ao tecto da sua cela, vertendo as suas lágrimas em silêncio ou colocando os braços . sobre as faces. Quero que o ouçam, os seus suspiros trémulos' como um choro, os seus gemidos ocasionais trespassados de lágrimas. Não eram sons de agonia e de lamento, como os , que por vezes ouvíamos no Bloco E, gritos agudos com lascas de remorso; tal como os seus olhos lacrimosos, distanciavam-se da dor com que estávamos habituados a lidar. De certa forma - eu sei que isto pode parecer um disparate, claro que sei, mas não faz o mínimo sentido escrever uma coisa tão extensa como esta se não pudermos expressar aquilo que temos no nosso coração - de certa forma era como se aquilo que ele sentia fosse pena de todo o mundo, algo demasiado, imenso para poder ser minimamente atenuado. Por vezes, eu sentava-me e conversava com ele, tal como costumava fazer com todos os outros - conversar era a nossa maior tarefa e a mais importante, como estou em crer que já vos disse - ten-; tendo confortá-lo. Não me parece que alguma vez tenha conseguido fazê-lo, e parte do meu coração sentia-se satisfeito por ele sofrer. Sabem, eu sentia que ele merecia sofrer. Por vezes chegava mesmo a pensar em telefonar ao governador (ou dizer ao Percy que lhe telefonasse - que diabo, ele era o raio do tio do Percy e não meu), a fim de lhe pedir que adiasse a execução. Não deveríamos pôr-lhe fim agora, diria eu. ~~, Ele continua a sentir-se demasiado magoado, o seu acto ainda lhe morde em demasia, contorcendo-lhe as entranhas como um aguilhão de ponta aguçada. Peço a Vossa Excelências que lhe conceda outros noventa dias. Deizai que ele inflija.a si próprio aquilo que nós não temos meios de lhe infligir.;
É este John Coffey que eu tenho de manter num recanto da vossa mente, enquanto me ponho em dia até ao ponto onde comecei - este John Coffey deitado em cima da sua ta-
rimba, este John Coffey que tinha medo do escuro, o que talvez se devesse a uma boa razão, porque ao abrigo da escuridão não se encontrariam duas figuras de cabelos anelados e louros - que haviam deixado de ser rapariguinhas para
se transformarem em harpias vingadoras - que estariam à sua espera. Este John Coffey de cujos olhos brotavam constantemente lágrimas, como sangue que nunca cessa de jorrar de uma chaga que jamais sara.
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E assim o Chefe foi electrocutado e o Presidente caminhou - pelo menos, até ao Bloco C, que era o lar da maioria dos cento e cinquenta condenados a prisão perpétua de Cold Mountain. Para o Presidente, a prisão perpétua resumiu-se a doze anos. Ele acabou por morrer afogado na lavandaria da prisão, em 1944. Não na lavandaria da penitenciária de Cold Mountam. Esta encerrou os seus portões em 1933. Não me parece que isso fosse de grande interesse para os encarcerados - paredes são paredes, tal como os reclusos costumam dizer, e a Velha Faísca era tão mortífera na sua pequena câmara de morte de pedra como sempre o fora na sala de arrecadação de Cold Mountain.
Quanto ao Presidente, alguém lhe enfiou a cabeça dentro de uma cuba cheia de fluidos de limpeza a seco, tendo-o mantido naquela posição. Quando os guardas o retiraram, o seu rosto tinha desaparecido quase por completo. Foram forçados a identificá-lo através das impressões digitais. Levando tudo em consideração, ele talvez tivesse ficado a ganhar com a Velha Faísca... mas nesse caso não teria gozado esses doze anos a mais, não é verdade? Todavia, duvido muito que ele tivesse levado isso em grande consideração durante mais ou menos o último minuto da sua vida, quando os seus pulmões tentaram aprender a respirar Hexlite e lixívia.
Nunca chegaram a apanhar quem lhe fez aquilo. Nessa altura já eu me tinha afastado do sistema prisional, mas o Harry Terwilliger escreveu a contar-me. "Ele teve a pena comutada, em grande parte por ser branco", escreveu ele, "mas no fim acabou porter o que merecia. Penso no assunto como se fosse uma execução bastante adiada, cujo prazo finalmente expirou."
Houve um período de tempo tranquilo para nós no Bloco ean depois de o Presidente ter sido transferido. O Harry e o Dean foram temporariamente destacados para outro serviço, pelo que só ficámos durante algum tempo, eu, o Brutal e o


Percy na Milha Verde. Na realidade era só o Brutal e eu, uma vez que o Percy era muito metido consigo mesmo. Deixem-me que vos diga que esse jovem era um autêntico génio em descobrir as coisas que não seria obrigado a fazer. E de vez em quando (mas só quando o Percy não se encontrava presente), os outros tipos costumavam aparecer, para aquilo a que o Harry gostava de chamar "uma bela conversa fiada". Em muitas destas ocasiões, o rato também nos brindava com a sua presença. Nós alimentávamo-lo e ele sentava-se ali a' comer, tão solene como Salomão, olhando-nos com os seus pequenos olhos negros que se assemelhavam a contas cintilantes.
Aquelas foram algumas semanas boas, calmas e sem complicações de maior, não obstante as lamentações mais do que ocasionais do Percy, mas o certo é que todas as coisas boas têm um fim, e numa segunda-feira chuvosa em fins de Julho - já vos disse como o tempo se mantinha abafado e chuvoso nesse Verão? - dei comigo sentado na tarimba de uma cela aberta à espera do Eduard Delacroix.
Surgiu inesperadamente. A porta que dava para o pátio do recreio abriu-se com estrondo, deixando entrar um jorro de luz, acompanhada por um entrechocar confuso de correntes, uma voz balbuciada e assustada que se exprimia em inglês e no francês dos Cajuns (um patoá que os prisioneiros de Cold Mountain costumavam chamar da bayou) e os gritos do Brutal.
- Ei! Pára com isso! Por amor de Deus! Pára com isso, Percy.
Eu tinha estado meio adormecido no que passaria a ser a tarimba de Delacroix, o que não me impediu de me levantar de supetão, com o coração quase a querer saltar para fora do
peito. Era muito raro acontecer um tumulto daquelas dimensões no Bloco E, isto é, até ao aparecimento do Percy; ele trouxe-os consigo, qual cheiro nauseabundo.
- Anda para a frente, meu franciú maricas de merda! - gritava o Percy, ignorando por completo os protestos do Brutal. E ali estava ele a arrastar por um braço um sujeito que
não era muito mais alto do que um pino de bowling. Com a outra mão, o Percy empunhava o bastão. Tinha os lábios arre' ganhados, revelando os dentes num esgar de tensão; as suas faces estavam congestionadas, de um vermelho intenso. E, contudo, a sua aparência não denotava uma grande unta" ção. O Delacroix esforçava-se por acompanhar o seu passo,
mas como estava acorrentado com grilhetas, e independentemente da rapidez com que arrastasse os pés, o Percy continuava a puxá-lo mais depressa. De um salto saí da cela a tempo de o apanhar quando se encontrava prestes a cair; e foi assim que o Del e eu ficámos a conhecer-nos.
O Percy mantinha-se ameaçadoramente junto dele com o bastão empunhado; agarrei-o por um braço. O Brutal aproximou-se de nós a deitar os bofes pela boca, mostrando-se tão chocado e estupefacto com aquela cena como eu próprio.
- Não deixe que ele me bata mais, monsieur - tartamudeou Delacroix. - S'il vous plaït, s'il vous plaït!
- Deixa-me ir a ele, deixa-me ir a ele! - gritou o Percy, lançando-se para a frente. Com o bastão, começou a espancar os ombros do Delacroix. Este ergueu os braços, enquanto berrava desalmadamente, e o bastão zurziu-o de novo contra as mangas da camisa azul da prisão. Nessa noite vi-o sem a camisa e verifiquei que aquele rapaz tinha o corpo cheio de nódoas negras. Ao ver aquilo senti-me encolerizado. Ele era um assassino, não uma pessoa por quem se nutrisse grande amizade, mas aquela não era a maneira como costumávamos proceder no Bloco E. Pelo menos, nunca o fizemos até o Percy ter aparecido.
- Alto aí! - vociferei. - Pára já com isso! Mas o que é que se passa aqui? - Entretanto, tentava colocar-me entre o Percy e o Delacroix, mas os meus esforços não estavam a ter grandes resultados. O Percy continuava a fustigar com o bastão, ora por um dos meus lados, ora pelo outro. Mais cedo ou mais tarde, era inevitável que ele me atingisse a mim, ao que se seguiria uma rixa, ali, no corredor, independentemente de quem eram os seus familiares. Eu seria incapaz de me conter e o mais certo seria o Brutal juntar-se a mim. Sabem, levando em consideração certos aspectos, quem me dera que o tivéssemos feito. Era possível que viessem a ser alteradas muitas das coisas que sucederam mais tarde.
- Maricas de merda! Eu ensino-te a manter as mãos afastadas de mim meu vadio asqueroso!
Palavras que foram seguidas de mais pancadaria por parte do Percy. Naquele momento, o Delacroix já sangrava de uma orelha e não parava de berrar. Desisti de tentar protegê-lo e agarrei-o por um ombro empurrando-o para o interior da cela, onde caiu esparramado em cima da tarimba. O Percy contornou-me tendo-o açoitado uma última vez no traseiro -
poder-se-ia dizer que aquela agressão era para o caminho. Mas o Brutal agarrou-o - estou a referir-me ao Percy - pelos ombros e empurrou-o pelo corredor fora.
Fiz deslizar a porta da cela sobre a calha até se ter fechado. Voltei-me para o Percy, o meu choque e estupefacção misturados com uma fúria enorme. Naquela altura, já havia
vários meses que o Percy trabalhava ali, e era tempo suficiente para que já tivéssemos chegado à conclusão de que o afecto que nutríamos por ele não era muito, mas aquela foi a primeira vez que compreendi até que ponto ele estava descontrolado.
O Percy observava-me sem conseguir ocultar um certo receio - bem fundo do seu coração, o homem era um cobarde, disso eu nunca tivera dúvida - embora confiasse que os seus' conhecimentos iriam protegê-lo. E estava certo. Desconfio que existem pessoas que não conseguem compreender por que razão as coisas se passavam assim, mesmo depois de tudo o que eu já disse; contudo, são pessoas que só conhecem a expressão Grande Depressão dos livros de história. Caso tivessem vivido nessa época, verificariam que essa fase foi muito mais do que um mero termo num livro, e, no caso de ter um emprego certo, meu irmão, qualquer homem estaria disposto a fazer quase tudo para poder manter esse emprego.
Naquela altura, a cor do rosto do Percy tinha começado a esmaecer um pouco, embora as suas faces ainda estivessem bastante coradas; os seus cabelos, luzidios de brilhantina e habitualmente penteados para trás, tinham-lhe descaído para a testa.
- Em nome de Cristo, o que é que foi todo este rebuliço? - perguntei. - Eu nunca... mas, nunca tive um prisioneiro espancado no meu bloco!
- O maricas insignificante tentou agarrar-me pelos tomates quando o tirei da carrinha - explicou o Percy. - Mereceu a tareia que lhe dei e devo acrescentar que voltaria a fazê-lo de novo, nas mesmas circunstâncias.
Olhei para ele, demasiado embasbacado para poder dizer fosse o que fosse. Era incapaz de imaginar o homossexual mais rapace, ao de cima da terra verdejante de Deus, a proceder da
forma como o Percy acabara de descrever. Por via de regra, nem o mais aberrante dos prisioneiros se sentia com disposição para quaisquer actividades sexuais, quando estava prestes a mudar-se para um apartamento de barras de ferro na Milha Verde.
Olhei para o Delacroix todo encolhido na sua tarimba, ainda de braços erguidos para proteger o rosto. Tinha algemas nos pulsos e grilhetas nos tornozelos. Voltei a concentrar a minha atenção no Percy.
- Põe-te a andar daqui para fora - disse-lhe eu. - Mais tarde quero falar contigo.
- Isto vai constar do teu relatório? - perguntou ele num tom de voz truculento. - Porque, se for esse o caso, não sei se sabes que eu também posso apresentar um relatório.
Eu não queria elaborar relatório nenhum; só desejava que ele desaparecesse da minha vista. O que não hesitei em lhe dizer.
- O assunto está encerrado - concluí. Reparei que o Brutal olhava para mim com uma expressão de reprovação, mas ignorei-o. - Põe-te a mexer. Sai daqui para fora. Vai para os serviços administrativos e diz-lhes que tens de ler cartas e ajudar na sala de expedição.
- Com certeza - retorquiu ele; voltara a recuperar a sua compostura, ou melhor, aquela arrogância de tarado que passava por compostura.
Correu os dedos pelo cabelo, afastando-o da testa - mãos pequenas brancas e macias, como as de uma rapariga na adolescência, pensar-se-ia - e aproximou-se da cela. Delacroix avistou-o, tendo-se encolhido ainda mais para trás na tarimba, a tartamudear numa mistura de inglês e francês desaguisado.
- Ainda não acabei o assunto contigo, Pierre - anunciou ele, dando um salto ao sentir uma das enormes mãos do Brutal em cima do ombro.
- Já acabaste, sim - declarou o Brutal. - Agora põe-te a caminho. Toca a andar daqui para fora.
- Não sei se sabes, mas não me assustas - redarguiu o Percy, desafiador. - Nem um bocadinho. - Os seus olhos fitaram-me. - O mesmo se aplica a ti. - Mas isso não era verdade. Esse receio reflectia-se nos seus olhos, com tanta clareza como a luz do dia o que o tornava ainda mais perigoso. Um tipo como o Percy nem sequer sabe o que tenciona fazer de um minuto para o outro, e de segundo para segundo.
O que ele fez de imediato foi afastar-se de nós, começando a percorrer o corredor num passo alongado e arrogante. Acabara de mostrar ao mundo o que acontecia quando um pequeno franciú meio calvo e escanzelado tentava agarrar-lhe
os tomates, por Deus, e preparava-se para abandonar o campo com uma atitude vitoriosa.
Comecei a debitar o discurso de ocasião previamente preparado, mencionando a Delacroix a existência dos programas de rádio Make Believe Ballroom e Our Gal Sunday, e ainda
que o trataríamos como deve ser, caso ele fizesse o mesmo em relação a nós. Aquela pequena homilia não foi exactamente um dos meus maiores triunfos. Ele chorou durante todo o tempo em que apresentei a minha dissertação, sentado, todo encolhido, ao fundo da tarimba, mantendo-se tão afastado de mim quanto possível sem acabar por se sumir no canto. De todas as vezes que eu me deslocava, o Delacroix retraía-se ainda mais; não me parece que ele tenha ouvido uma palavra em seis. O que provavelmente talvez tenha sido preferível. Em qualquer dos casos, tenho a impressão de que aquele pequeno discurso não fazia muito sentido.
Quinze minutos mais tarde, encontrava-me já de regresso à secretária do guarda de serviço, atrás da qual estava sentado um Brutal Howell de aspecto perturbado, enquanto lambia a ponta do lápis que estava preso ao livro das visitas.
- Por amor de Deus! Queres parar com isso antes que te envenenes? - perguntei.
- Jesus Cristo Todo-Poderoso - replicou ele, largando o lápis. - Nunca mais quero assistir a outro rebuliço destes quando um prisioneiro der entrada neste bloco.
- O meu pai costumava dizer que as coisas aconteciam numa sequência de três - repliquei.
-Pois bem, só espero que o teu pai estivesse errado a respeito do assunto - disse ele, mas é claro que o meu pai estava certo. Houvera um distúrbio aquando da chegada do John Coffey, e, na altura em que o Bill Selvagem se juntou a nós, verificou-se um autêntico tumulto - é engraçado, mas de facto as coisas parece que efectivamente surgem em sequências de três. A história da nossa apresentação ao Bill Selvagem, tudo o que rodeou a sua chegada à Milha, altura em que tentou cometer um assassínio, é algo que abordarei dentro em breve.
- Que história é essa de o Delacroix ter tentado agarrar-lhe os tomates? - perguntei.
- O homem tinha grilhetas nos artelhos - começou ° Brutal a explicar com uma expressão escarninha -, e o velho Percy começou a paxá-lo com demasiada força, nada
reais. O Delacroix tropeçou e esteve quase a cair quando saiu da carrinha. Estendeu as mãos para a frente, como qualquer outra pessoa teria feito ao sentir que estava prestes a cair, e uma delas roçou pela parte da frente das calças do Percy. Tudo isso não passou de um simples acidente.
- Achas que o Percy se apercebeu disso? - perguntei. - Ou talvez ele estivesse a servir-se disso como desculpa, porque lhe apetecia malhar um pouco no Delacroix? Para lhe mostrar quem é que manda aqui?
- Sim - confirmou o Brutal com um lento acenar de cabeça. - Acho que provavelmente foi isso que se passou. - Nesse caso, temos de nos manter de olho nele - acrescentei, passando os dedos pelo cabelo. Como se o nosso trabalho já não fosse suficientemente difícil. - Meu Deus, como eu odeio isto. Como eu o odeio a ele.
- Também eu. E queres saber que mais, Paul? Não consigo compreendê-lo. O homem está bem relacionado, sou capaz de compreender isso, mas por que motivo é que se serviria dos seus conhecimentos para arranjar um emprego na merda da Milha Verde? Já agora, em qualquer outra das prisões do estado? Porque não como paquete no senado do estado, ou para o lugar do tipo que trata das marcações de agenda do vice-governador? Com certeza que a sua gente teria podido arranjar-lhe qualquer coisa melhor, se ele lhes tivesse pedido; portanto, porquê aqui?
Sacudi a cabeça. Não sabia. Nessa época havia muita coisa de que eu não tinha conhecimento. Suponho que ainda era muito ingénuo.
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Depois disto, as coisas regressaram ao normal... pelo menos, durante algum tempo. No tribunal do município, o estado preparava-se para levar o John Coffey a julgamento. O xerife do município, Homer Cribus, andava borrado de medo com receio de que se formasse uma turba para linchar o homem, o que o levou a apressar um pouco os trâmites da justiça. Nada disso tinha o mínimo interesse para nós; no Bloco E ninguém prestava muita atenção às notícias. A vida na Milha Verde era, de uma certa forma uma existência passada numa sala à prova de som. De tempos a tempos, ouviam-se alguns ruídos
abafados que, muito provavelmente, seriam explosões no mundo que nos rodeava, mas isso era tudo. Eles não se apressaram em relação ao John Coffey; haviam de querer certificar-se bem de tudo o que se relacionasse com os seus actos,
Houve duas ocasiões em que o Percy decidiu implicar com o Delacroix. Da última vez chamei-o à parte e disse-lhe que fosse ao meu gabinete. Não foi a minha primeira reunião
com o Percy em que abordámos o tema do seu comportamento, tal como não seria a última, mas esta teve origem naquilo que, provavelmente, seria a mais clara compreensão da ma_ neira de ser do homem. Possuía o coração de um rapaz cruel, como alguém que vai ao Jardim Zoológico, não para poder observar os animais, mas sim para atirar-lhes pedras para as jaulas.
- Mantém-te afastado dele, estás a ouvir? - ordenei eu. - Amenos que eu te dê uma ordem específica, quero que te mantenhas afastado dele.
Com os dedos, o Percy penteou o cabelo para trás e acamou-o com as suas pequenas mãos cheias de doçura. O rapaz adorava tocar nos seus próprios cabelos.
- Eu não estava a fazer-lhe nada - redarguiu ele. - Limitei-me a perguntar-lhe qual era a sensação de saber que se tinham queimado uns quantos bebés, mais nada. - O Percy olhou-me com uns olhos arredondados de espanto e cheios de candura.
- Ou paras com isso ou terei de elaborar um relatório quanto a esta situação - ameacei-o.
- Faz todos os relatórios que muito bem te apetecer - replicou o Percy com uma gargalhada. - Em seguida, serei eu quem fará os meus. Tal como te disse que faria quando ele veio para cá. Veremos qual de nós é que se sai melhor.
Inclinei-me para a frente com os dedos entrelaçados em cima da secretária, tendo começado a falar num tom de voz que esperava soasse como a de um amigo que se abria em confidências.
- O Brutus Howell não gosta muito de ti - disse.
E quando o Brutal não gosta de uma pessoa, sabe-se que costuma apresentar os seus próprios relatórios. Ele não é grande coisa com a caneta e parece não ser capaz de parar de lamber a ponta daquele lápis, pelo que tem uma grande propensão para elaborar os seus relatórios com os punhos. Não sei se estás a entender o significado das minhas palavras.
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O sorriso de complacência do Percy esmoreceu. ._ O que é que estás a tentar dizer-me?
- Eu não estou a tentar dizer coisa nenhuma. Acabei de o dizer, e no caso de contares a algum dos teus... amigos... esta conversa, direi que é tudo fruto da tua imaginação. - Olhei para ele de olhos bem abertos onde creio que se reflectia uma grande sinceridade. - Além do mais, estou a tentar ser teu amigo, Percy. Costuma-se dizer que quem te avisa teu amigo é. E para começar, por que motivo é que havias de te meter com o Delacroix? Ele nem sequer merece isso.
Durante algum tempo, aquela táctica resultou. A paz reinava no bloco. Em duas ocasiões consegui mesmo enviar o Percy juntamente com o Dean ou o Harry, quando chegou a vez de o Delacroix tomar um duche. Nessa noite, tínhamos ligado o rádio; o Delacroix já começara a descontrair-se um pouco, tendo entrado na rotina restrita que vigorava no Bloco E, e o sossego instalou-se entre nós.
Então, houve uma noite em que o ouvi rir-se.
O Harry Terwilliger era o guarda de serviço e ao fim de pouco tempo ouvi-o também a rir-se. Levantei-me da cadeira e dirigi-me para a cela do Delacroix, a fim de descobrir que motivo é que ele teria para tanto riso.
- Olhe, capitão - disse ele quando me avistou. - Acabei de domesticar um rato.
Era o Steamboat Wily. O rato encontrava-se dentro da cela do Delacroix. Mais ainda, estava sentado em cima do seu ombro, olhando para nós com toda a serenidade através das barras, com os seus pequenos olhos que se assemelhavam a contas negras cintilantes. Tinha a cauda enrolada à volta das patas, mostrando-se completamente à vontade. Quanto ao Delacroix... Meus amigos, jamais se poderia adivinhar que era o mesmo homem que se sentara todo encolhido e a tremer ao fundo da sua tarimba ainda não havia uma semana. Apresentava o mesmo aspecto da minha filha numa manhã de Natal, quando descia as escadas e deparava com os presentes.
- Veja isto! - disse o Delacroix. O rato encontrava-se sentado no seu ombro direito e ele estendeu o braço esquerdo. O animal trepou até ao topo da sua cabeça, servindo-se do cabelo do homem (que era, pelo menos, suficientemente basto na nuca) para poder trepar. Em seguida, desceu aos saltos pelo outro lado com o Delacroix a tentar conter o riso, uma vez que a cauda lhe fazia cócegas na região lateral do pesco-
ço. O rato percorreu toda a extensão do braço até ao pulso, em seguida virou-se, e, a correr, regressou ao ombro esquerdo do Delacroix, onde, uma vez mais, enrolou a cauda em redor das patas.
- Raios me partam! - exclamou o Harry, estupefacto. - Eu treinei-o para que fizesse isto - afirmou o Delacroix, todo orgulhoso. Pensei: Uma ova é que o fizeste, mas mantive a boca fechada. - O nome dele é Mister Jingles. - Não me parece - retorquiu o Harry afavelmente. _ É Steamboat Willy, como nos desenhos animados. Foi o chefe' Howell, quem lhe pôs o nome.
- E Mister Jingles - insistiu o Delacroix. A respeito de qualquer outro assunto, ele teria dito que a merda cheirava bem, caso quiséssemos que ele o dissesse, mas no que dizia
respeito ao nome do rato, mantinha-se inabalável que nem uma rocha. - Foi ele que o segredou ao meu ouvido. Capitão, pode arranjar-me uma caixa para ele? Pode arranjar-me uma caixa para o meu rato, para ele poder dormir aqui comigo? - A sua voz adquiriu aquela entoação bajuladora que eu já ouvira mil vezes anteriormente. - Posso pô-lo debaixo da minha tarimba e ele nunca incomodará nem um niquinho, nem um só.
- O teu inglês melhora diabolicamente quando queres alguma coisa - repliquei, tentando ganhar tempo.
- Oh, oh - murmurou Harry, dando-me uma pequena cotovelada. - Os problemas estão a chegar.
O Percy, porém, não me parecia constituir qualquer pro-`` blema, pelo menos nessa noite. Não passava os dedos pelos cabelos, nem brincava com o seu querido bastão, chegando
mesmo a ter o botão do colarinho da camisa do uniforme desabotoado. Foi a primeira vez que o vi com aquele aspecto, e fiquei surpreendido ao verificar a diferença que uma pequena alteração como aquela podia fazer. Mas, acima de tudo, o que me espantou mais foi a expressão do seu rosto. Nele reflectia-se uma certa tranquilidade. Não se tratava de serenidade - duvido muito que o Percy Wetmore tivesse um único osso sereno no seu corpo - era, sim, o aspecto de um homem que tem razões para poder esperar que lhe aconteçam as coisas que deseja. Uma transformação bastante acentuada, vinda do jovem que eu ameaçara com os punhos do Brutus Howell apenas há alguns dias.
No entanto, o Delacroix não reparara nessa alteração; re
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traiu-se todo contra a parede da sua cela, recolhendo os joelhos até ao peito. Os seus olhos davam a impressão de se arregalarem até terem ocupàdo metade do seu rosto. O rato correu para a sua careca e ficou aí sentado. Não sei se ele se recordou de que também tinha razões para não confiar no Percy, mas não havia dúvida de que dava a impressão de não se ter esquecido. Provavelmente farejava apenas o medo que emanava do pequeno franciú, reagindo de acordo com essa percepção.
- Ora muito bem - disse o Percy. - Parece que encontraste um amigo, Eddie.
O Delacroix tentou responder - uma espécie de tom de desafio quanto ao que aconteceria ao Percy, caso o Percy fizesse mal ao seu novo camarada, foi o que calculei - mas da sua boca não saiu qualquer palavra. O seu lábio inferior tremeu um pouco, mas foi tudo. No cimo da sua cabeça, o Mister Jingles não tremia. Continuava sentado, perfeitamente imobilizado, com as patas traseiras firmemente agarradas aos cabelos do Delacroix, enquanto as dianteiras se apoiavam no crânio calvo, fitando o Percy como se estivesse a avaliá-lo. Com a mesma atitude que uma pessoa teria ao avaliar um velho inimigo.
- Aquele não é o mesmo rato que eu persegui? - perguntou o Percy, olhando para mim. - Aquele que mora na cela do isolamento?
Acenei que sim. Eu tinha a impressão de que o Percy não tinha visto o recentemente baptizado Mister Jingles desde a última perseguição, e parecia não desejar persegui-lo naquele momento.
- Sim, é o mesmo - confirmei. - Com a diferença de que ali o Delacroix diz que ele se chama Mister Jingles, e não Steamboat Willy. Afirma que o rato lhe segredou o nome ao ouvido.
- A sério? - retorquiu o Percy. - As surpresas nunca cessam, pois não? - Até certo ponto, eu estava à espera que ele sacasse do bastão e que começasse a bater com ele nas barras da cela para mostrar ao Delacroix quem mandava ali; tod
avia, limitou-se a ficar no mesmo lugar, com as mãos nas ilhargas enquanto olhava para o interior da cela.
E, Por qualquer razão que não sou capaz de explicar por palavras, acrescentei:
- Ah o Delacroix acabou de me pedir uma caixa, Percy.
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Está convencido de que o rato dormirá na caixa. Que conseguirá mantê-lo junto de si como um animal de estimação. _ Imprimi à minha voz uma entoação cheia de cepticismo, pressentindo, mais do que vendo, o Harry a olhar para mim, deveras surpreendido. - Qual é a tua opinião?
- Acho que numa noite destas, muito provavelmente, o rato cagar-lhe-á em cima do nariz enquanto ele estiver a dormir, e depois desatará a fugir - respondeu o Percy com uma expressão neutra -, mas calculo que ele será o amigo de atalaia do franciú. Há umas noites vi no carrinho do Pouca Terra uma bela caixa de charutos. No entanto, não sei se ele estará disposto a dá-la a troco de nada; o mais certo é querer cinco cêntimos por ela, talvez mesmo dez.
Naquela altura arrisquei um olhar na direcção do Harry e vi que este estava de boca aberta. Aquela não era exactamente a alteração que o Ebenezer Scrooge sofrera na manhã do
dia de Natal, depois de os fantasmas lhe terem aparecido, mas não se encontrava muito longe disso.
O Percy inclinou-se mais na direcção do Delacroix, colocando o rosto entre as barras da cela. O pequeno cajun encolheu-se ainda mais para trás. Juro por Deus que ele se teria
fundido com aquela parede se tal fosse fisicamente possível. ; - Tens cinco cêntimos ou talvez mesmo dez para pagares essa caixa de charutos, meu grande mentecapto? - perguntou ele.
- Tenho só quatro pence - respondeu o Delacroix. - Estou disposto a dá-los por uma caixa, se for boa, s'il est bon.
- Vou dizer-te o que é que vamos fazer - continuou o Percy. - Se esse velho libertino desdentado te vender a caixa de Coronas por quatro pence, trarei algum algodão da en- ` fermaria para a forrares. Teremos um verdadeiro Hilton para ratos, quando tivermos terminado - O Percy desviou o olhar na minha direcção. - Tenho de elaborar um relatório sobre o quadro eléctrico na execução do Bitterbuck - continuou ele. - Tens alguma caneta no teu gabinete, Paul?
- Na realidade, tenho - repliquei. - E também tenho impressos. Na gaveta de cima do lado esquerdo.
- Pois bem, isso calha que nem ginjas - disse ele, afastando-se num andar folgazão.
O Harry e eu entreolhámo-nos, admirados.
- Achas que ele está doente? - perguntou o Harry.
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Talvez o médico lhe tenha dito que só lhe restavam três meses de vida, não?
Respondi-lhe que não fazia a mais pequena ideia do que estava a suceder com o Percy. O que nessa altura era verdade; aquela situação manteve-se durante algum tempo, mas com o passar das semanas vim a descobrir o que motivara a sua mudança de atitude. E, alguns anos mais tarde, travei uma conversa muito interessante com o Hal Moores, à mesa. Nessa altura já podíamos falar com toda a liberdade, uma vez que ele se tinha aposentado e eu trabalhava no Estabelecimento Correccional Juvenil. Foi durante uma dessas refeições onde se bebe um pouco de mais e se come muito pouco, o que permite que as línguas se soltem. O Hal contou-me que o Percy tinha ido ao seu gabinete para apresentar queixa contra mim e contra a vida na Milha Verde, de uma maneira geral. Isso acontecera logo a seguir à chegada do Delacroix ao bloco, e de o Brutal e eu termos impedido o Percy de espancar o prisioneiro quase até à morte. Aquilo que mais havia afectado o Percy fora o facto de eu lhe ter dito que saísse da minha vista. Não lhe parecia que um homem que tinha laços familiares com o governador devesse ser obrigado a suportar aquele tipo afrontoso de conversa.
Pois bem, o Moores empatara o Percy tanto quanto lhe fora possível, e quando se lhe tornou evidente que este estava na disposição de puxar alguns cordelinhos para que eu fosse oficialmente repreendido, acabando, no mínimo dos mínimos, por ser transferido para outro serviço da penitenciária, ele, o Moores, levara o Percy ao seu gabinete e dissera-lhe que, se deixasse de fazer ondas, ele próprio lhe garantia que seria colocado na linha da frente aquando da execução do Delacroix. o que, na realidade aconteceu. ficou mesmo ao lado da cadeira eléctrica. Como sempre, eu seria o responsável por todo o processo mas as testemunhas não teriam conhecimento desse aspecto; ~da perspectiva destas pareceria que Mr. Percy Wetmore é que era o mestre-de-cerimónias do cotilhão. O Moores não lhe prometera mais do que aquilo que já havíamos discutido, pelo que eu não tencionava apresentar a mínima objecção, embora o Percy não tivesse conhecimento disto. Concordou em desistir das suas ameaças no sentido de que eu fosse transferido o que teve como resultado a melhoria do ambiente no Bloco E. Chegara mesmo ao ponto de concordar com que o Delacroix pudesse ficar com o seu antigo nemesis
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como seu animal de estimação. É espantosa a forma comá alguns homens são capazes de se modificar, depois de se lhes ter proporcionado o incentivo adequado; no caso do Percy, tudo o que o director Moores teve de lhe oferecer foi a oportunidade de tirar a vida a um pequeno franciú calvo.
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O Pouca Terra achou que quatro pence eram uma quantia irrisória por uma bela caixa de charutos Corona, no que provavelmente teria toda a razão - no interior da prisão, as cai xas de charutos eram artigos deveras valiosos. Nelas poderia ser guardado um milhar de pequenos objectos diversos, o seu cheiro era agradável, e havia ainda algo nelas que recordava aos nossos clientes o que era serem homens livres. Imagino que isto acontecesse porque, embora os cigarros fossem permitidos na prisão, o mesmo não acontecia aos charutos.	I
O Dean Stanton, que entretanto já regressara ao bloco, depositou um cêntimo no boião, exemplo que eu próprio segui. Dado que o Pouca Terra continuava a mostrar-se relutante, o Brutal decidiu trabalhá-lo um pouco, começando por lhe dizer que deveria sentir-se envergonhado com o seu comportamento, por ser assim tão sovina, e prometendo-lhe que ele mesmo, Brutus Howell, haveria de entregar, pessoalmente, ao ,`, Pouca Terra a caixa que contivera Coronas logo no dia seguinte áo da execução do Delacroix.
- É possível que pudéssemos discutir se seis cêntimos são ou não suficientes se estivéssemos a falar de vender essa caixa de charutos - acrescentou o Brutal -, mas tens de admitir que é um preço óptimo pelo seu aluguer. O Delacroix vai percorrer a Milha dentro de um mês, no máximo dos máximos, seis semanas. Repara bem, essa caixa estará de volta ao estrado inferior do teu carrinho quase antes mesmo de teres dado pela sua falta.
- Talvez ele apanhe um juiz bonzinho que lhe conceda uma suspensão - retorquiu o Pouca Terra embora ele soubesse que isso não aconteceria e o Brutal ~ soubesse que ele sabia.
O velho Pouca Terra andava a empurrar o raio daquele carrinho cheio de citações da Bíblia por toda a Cold Mountain desde os primeiros dias dos serviços postais da Pony Express, e
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tinha muitas fontes a que recorrer... melhores do que as nossas, pensava eu na altura. Ele sabia bem que o Delacroix não tinha qualquer hipótese de apanhar um juiz de bom coração. Tudo o que lhe restava era o governador, o qual, regra geral, não tinha o hábito de mostrar clemência para com os fulanos que haviam assado meia dúzia de membros do seu círculo eleitoral.
- Mesmo que ele não consiga uma suspensão, o rato há-de cagar-lhe a caixa toda até Outubro, talvez mesmo até ao Dia de Acção de Graças - argumentou o Pouca Terra, mas o Brutal apercebeu-se de que ele começara,a vacilar. - Quem é que vai querer comprar uma caixa de charutos que um rato qualquer usou como retrete?
- Que raio de argumento o teu! - ripostou o Brutal. - Essa é a coisa mais disparatada que alguma vez te ouvi dizer, Pouca Terra. Bate tudo o mais. Em primeiro lugar, o Delacroix haverá de manter a caixa suficientemente limpa, para se poder comer dela... Da maneira como ele adora esse rato, se fosse necessário até a lamberia para que se mantivesse sempre limpa.
- Calma lá com esse tipo de conversa - disse o Pouca Terra, nauseado, franzindo o nariz.
- E em segundo lugar - continuou o Brutal -, a merda dos ratos não é uma coisa por aí além. São apenas umas caganitas duras, parece chumbo de atirar aos pardais. Sacode-se e sai tudo. Não tem nada de especial.
O velho Pouca Terra sabia que não lhe serviria de nada continuar com os protestos; já vivia na penitenciária há tempo suficiente para saber quando é que poderia seguir ao sabor da brisa, e quando é que era preferível vergar-se perante o vendaval. Aquela situação não era propriamente um vendaval, mas nós, os de uniforme azul, gostávamos do rato e agradava-nos o facto de o Delacroix poder ficar com o animal, o que no mínimo tornava aquela situação semelhante a borrasca. Por conseguinte, o Delacroix conseguiu a sua caixa e o Percy cumpriu a sua palavra - dois dias mais tarde, o fundo da caixa estava coberto por uma camada macia de algodão que ele trouxera da enfermaria. Foi o próprio Percy quem o entregou na cela; detectei o medo que se reflectiu nos olhos do Delacroix quando estendeu a mão por entre as barras para o aceitar. Receava que o Percy lhe agarrasse a mão e lhe quebrasse os dedos. Eu também temia um pouco que isso pudesse acontecer, mas tal não se verificou. Aquela ocasião foi o mais próximo que alguma vez estive de gostar do Percy, mas. até mesmo naquelas cir-
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cunstâncias foi difícil ser-se enganado pela expressão de satisfação calculista que os seus olhos não ocultavam. O Delacroix tinha um animal de estimação; o Percy também conseguira um. O Delacroix manteria o seu, acariciando-o e mostrando amor por ele durante tanto tempo quanto lhe fosse possível; por seu lado, o Percy aguardaria pacientemente (com tanta paciência quanta um homem como ele poderia reunir), após o que queimaria o seu animal, ainda vivo.
- O Hilton dos ratos abriu as suas actividades - comentou o Harry, trocista. - A única questão que se põe é esta: será que o sacaninha o utilizará?
Essa pergunta foi logo respondida assim que o Delacroix apanhou o Mister Jingles, baixando-o com suavidade até ao interior da caixa. O rato aninhou-se no algodão branco, como se fosse o cachecol da tia Bea. A caixa passou a ser a sua casa desde então até... bem, a seu tempo regressarei ao final da história do Mister Jingles.
As preocupações do velho Pouca Terra, de que a caixa de charutos ficasse cheia de merda de rato, vieram a provar não ter qualquer fundamento. Eu nunca lá vi uma única caganita, e
o Delacroix também afiançava que isso era verdade... e que nunca encontrara quaisquer dejectos na sua cela. Bastante tempo depois, por volta da altura em que o Brutal me mostrou o orifício na trave, e ambos descobrimos as lascas de madeira colorida, afastei uma cadeira que se encontrava no canto virado a leste da cela do isolamento, tendo deparado com um pequeno amontoado de caganitas de rato nesse lugar. Aquilo provava que o animal tinha ido sempre ao mesmo lugar para tratar daquele assunto, tão afastado de nós quanto podia. E ainda outra coisa: nunca o vi a fazer chichi e, habitualmente, os ratos não conseguem manter a torneira fechada por mais de dois minutos seguidos, muito em especial quando estão a comer. Eu já vos disse, o raio daquela criatura era um dos mistérios de Deus.
Mais ou menos uma semana depois de o Mister Jingles se ter instalado na sua caixa de charutos, o Delacroix chamou-me a mim e ao Brutal para irmos à sua cela ver uma coisa. Ele fa zia aquilo com tanta frequência que chegava a ser incómodo - se Mister Jingles se rebolasse pelo chão e ficasse deitado de costas com as patas para cima, isso era a coisa mais engraçada ao cimo da Terra, pelo menos para aquele meia-teca cajun - todavia, desta feita a habilidade que ele fazia era bastante finteressante.
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Após a sua condenação, o Delacroix havia sido relegado pelo mundo para o esquecimento, mas tinha um familiar - uma velha tia solteirona, creio eu - que costumava escrever-lhe uma vez por semana. Também lhe enviara um saco enorme cheio de rebuçados de hortelã-pimenta. Pareciam-se com umas pílulas gigantescas de uma tonalidade amarelada. O Delacroix não teve autorização para ficar com todo o conteúdo do saco de uma só vez, como é natural - pesava dois quilos e meio e certamente que ele os teria devorado todos, até ter ido parar à enfermaria com dores de barriga.
À semelhança de qualquer dos outros assassinos que tivéramos na Milha, o Delacroix não possuía a noção do que era a moderação. Costumávamos dar-lhe os rebuçados aos seis de cada vez, e só se ele se lembrasse de os pedir.
Quando chegámos à cela, o Mister Jingles encontrava-se em cima da tarimba, sentado ao lado do Delacroix, segurando com as patas um dos rebuçados verde-amarelados enquanto o mordiscava, todo satisfeito da vida. O Delacroix sentia-se simplesmente enlevado ao ver aquilo - era o protótipo do pianista clássico, assistindo à prática das primeiras escalas do seu filho de cinco anos. Mas não me interpretem mal; aquilo era mesmo engraçado, de morrer a rir. O rebuçado tinha metade do tamanho do Mister Jingles, e a sua barriga branca já se mostrava distendida por causa da guloseima.
- Tira-lhe o rebuçado, Eddie - disse o Brutal num misto de riso e de horror. - Deus do céu, ele vai comer até rebentar. Mesmo daqui, sinto o cheiro a hortelã-pimenta. Quantos é que o deixaste comer?
- Este é o segundo - respondeu o Delacroix, olhando com um certo nervosismo para a barriga do Mister Jingles. - Acha realmente que ele... sabe o que quero dizer... pode ficar com as entranhas rebentadas?
- É possível que sim - retorquiu o Brutal.
Para o Delacroix aquela era uma fonte de autoridade suficiente. Estendeu a mão para o rebuçado amarelo-esverdeado de menta, já meio comido. Eu estava à espera que o rato lhe desse uma mordidela mas o Mister Jingles cedeu a guloseima - pelo menos o que restava dela - com tanta humildade quanto era possível. Olhei para o Brutal e este abanou ligeiramente a cabeça; ele também não compreendia aquilo. Em seguida, o Mister Jingles instalou-se na sua caixa, deitando-se de lado numa postura exausta, o que fez com que nós os três
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desatássemos a rir. Depois disso, acostumámo-nos a ver o rato sentado ao lado do Delacroix, segurando um rebuçado que ia mordiscando com tantas maneiras como se fosse uma senhora de idade a tomar o seu chá das cinco; tanto um como o outro se encontravam envoltos no cheiro que mais tarde me chegou às narinas vindo do orifício na trave do tecto - um cheiro meio amargo e meio adocicado característico dos rebuçados de hortelã-pimenta.
Existe ainda outra coisa que devo revelar-vos sobre o Mister Jingles antes de passar ao assunto da chegada do William Wharton, quando um autêntico ciclone se abateu real
mente sobre o Bloco E. Mais ou menos uma semana depois do incidente dos rebuçados de menta - mais ou menos na altura em que ficámos convencidos de que Delacroix haveria de alimentar o seu animal de estimação até que este rebentasse - o pequeno franciú chamou-me à sua cela. Naquele momento, encontrava-me sozinho, pois o Brutal fora ao comissariado tratar de um assunto qualquer, e, de acordo com os regulamentos, eu não devia aproximar-me de um prisioneiro em tais circunstâncias. Contudo, uma vez que, num dos meus dias bons, eu teria podido alvejar o Delacroix com uma só mão à distância de vinte metros, decidi não cumprir o regulamento, indo ver o que é que ele queria.
- Veja isto, chefe Edgecombe - disse ele. - Vai ver o que é que o Mister Jingles consegue fazer. - Levou a mão atrás da caixa de charutos de onde retirou um pequeno carretel de madeira.
- Onde é que arranjaste isso? - perguntei-lhe, embora calculasse que já sabia a resposta. Só havia uma pessoa que lhe poderia ter dado aquilo.
- Foi o velho Pouca Terra - respondeu o Delacroix. - Observe bem isto.
Eu já tinha começado a olhar, observando Mister Jingles na sua caixa, o qual se pusera de pé com as patas dianteiras firmadas no bordo, mantendo os olhinhos negros fixos no carretel que Delacroix segurava entre o polegar e o indicador da mão direita. Senti a espinha percorrida por um pequeno arrepio estranho. Nunca tinha visto um simples rato tentar fazer qualquer coisa com tanta argúcia - com tanta inteligência. Na realidade, não estou em crer que o Mister Jingles fosse um visitante sobrenatural e, se por acaso vos dei essa impressão, lamento muito; no entanto, nunca duvidei de que a criatura fosse um génio entre os da sua espécie.
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O Delacroix inclinou-se para a frente, fazendo rolar o carretel que não tinha linhas pelo chão da sua cela. Deslizou facilmente, como se tivesse um par de rodas ligadas por um eixo, Veloz que nem um relâmpago, o rato saiu da sua caixa e correu atrás do carretel, tal como um cão que fosse no encalço de um pau. Dei largas à perplexidade que sentia, e o Delacroix esboçou uma careta risonha.
O carretel bateu contra a parede e ressaltou. Mister Jingles contornou-o, empurrando-o de volta à tarimba, alternando de um extremo ao outro do carretel, sempre que este parecia querer desviar-se da rota certa. Empurrou-o até ter chegado junto de um dos pés do Delacroix. Olhou para ele por breves momentos, como que a certificar-se de que o Delacroix não tinha mais tarefas imediatas que ele tivesse de levar a cabo (talvez uns quantos problemas aritméticos ou a análise de um texto em latim). Aparentemente satisfeito, o Mister Jingles regressou à sua caixa de charutos, voltando a instalar-se no seu interior.
- Foste tu que lhe ensinaste essa habilidade - disse eu. - Sim senhor, chefe Edgecombe - admitiu o Delacroix, esboçando,um sorriso abstracto. - De todas as vezes, ele foi buscá-lo. É esperto que nem um raio, não acha?
- E o carretel? - perguntei. - Como é que soubeste que tinhas de o arranjar para ele, Eddie?
- Ele segredou-me ao ouvido que o desejava - respondeu o Delacroix com uma grande serenidade. - Da mesma maneira que sussurra o seu nome.
O Delacroix mostrou a todos os outros tipos as habilidades do seu rato... isto é, a todos com a excepção do Percy. Para o Delacroix não fazia a mínima diferença que tivesse sido este a sugerir a caixa de charutos e a arranjar o algodão para cobrir o fundo. O Delacroix assemelhava-se a alguns cães: dê-se-lhes um único pontapé e eles jamais voltarão a confiar no agressor, independentemente do quanto nos possamos mostrar agradáveis para com eles.
Neste momento, parece que ainda estou a ouvir a voz do Delacroix a gritar: Ei, vocês! Venham ver as habilidades que o Mister Jingles consegue fazer! E todos eles, com os seus uniformes azuis, iam em grupo até lá abaixo - o Brutal, o Harry, o Dean e até mesmo o Bill Dodge. Também eles tinham mostrado o espanto adequado às circunstâncias, à semelhança do que eu próprio fizera.
Três ou quatro dias depois de o Mister Jingles ter começado a mostrar aquela habilidade com o carretel, o Harry Terwilliger passou revista aos materiais de arte que guardávamos
na cela do isolamento, e encontrou os lápis de cera Crayola que entregou ao Delacroix com um sorriso que era quase de constrangimento.
- Pensei que talvez gostasses de pintar esse carretel de diversas cores - justificara ele. - Assim, o teu pequeno amigo poderia transformar-se numa espécie de rato do circo, ou algo parecido.
- Um rato do circo! - exclamara o Delacroix, mostrando uma expressão de completa felicidade, mesmo de êxtase. Suponho que se sentisse inteiramente feliz pela primeira vez em toda a sua desgraçada vida. - Mas é isso exactamente o que ele é! Um rato de circo! Quando eu sair daqui, ele vai fazer com que eu fique rico, num circo! ~o ver se ele não vai fazer isso.
Sem dúvida que o Percy Wetmore teria chamado a atenção do Delacroix para o facto de que, quando chegasse a altura de este deixar Cold Mountain, seria levado numa ambulân cia que não precisava de ter as luzes nem a sirena ligadas, mas o Harry tinha demasiado bom senso para isso. Limitou-se a dizer ao Delacroix que colorisse o carretel tanto e tão depressa quanto lhe fosse possível, uma vez que teria de repor os lápis de cera no seu lugar logo depois do jantar.
Não há dúvida de que o Del conseguiu colori-lo. Quando terminou a sua tarefa, uma das extremidades do carretel estava pintada de amarelo e a outra de verde, enquanto a extensão no meio era de um vermelho de carro de bombeiros. Habituámo-nos a ouvir o Delacroix a dizer triunfalmente: Maintenant, m'sieurs et mesdames! Le cirque présentement le mous'amusant et amazeant!' Não era isto precisamente, mas chega para dar uma ideia do francês atabalhoado do Delacroix. Em seguida começava a emitir um som que vinha bem do fundo da sua garganta - acho que supostamente representaria o rufar de um tambor - e lançava o carretel. Como um relâmpago, o Mister Jingles ia atrás dele, quer trazendo-o de volta, empurrando-o com o focinho, quer servindo-se das patas. A segunda modalidade, penso eu, era de facto algo que
~ Num francês não muito correcto: "E agora, senhores e senhoras, o circo apresenta o rato divertido e espantoso." (N. da T.)
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qualquer pessoa teria pago para ver num circo. O Delacroix e o seu rato, este e o seu carretel garridamente colorido, eram o nosso divertimento principal, na época em que o John Coffey passou a estar sob a nossa tutela e aos nossos cuidados; foi assim que as coisas permaneceram por algum tempo. Pouco depois, a minha infecção urinária, que se tinha mantido dormente durante algum tempo, voltou a atormentar-me, e foi também nessa altura que o William Wharton chegou, dando origem a uma situação absolutamente caótica.
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Na sua maior parte, as datas desapareceram da minha memória. Calculo que poderia ter pedido à minha neta, a Danielle, que verificasse algumas delas através dos arquivos dos jornais, mas qual seria o objectivo de uma coisa dessas? As datas mais importantes, como por exemplo o dia em que descemos até à cela do Delacroix e deparámos com o rato sentado em cima do seu ombro, ou o dia em que o William Wharton chegou ao bloco, não tendo morto o Dean Stanton por um triz, não teriam sido mencionadas na imprensa escrita. Talvez seja preferível continuar nos mesmos moldes que tenho seguido até aqui; ao fim e ao cabo, calculo que as datas não tenham grande importância, desde que uma pessoa seja capaz de se recordar dos acontecimentos que presenciou na sequência adequada.
Sei que nessa altura as coisas ficaram um tudo-nada apertadas. Quando os papéis relativos à data da execução do Delacroix foram finalmente enviados do gabinete do Curtis Anderson, senti-me perplexo ao verificar que o encontro do nosso amigo cajun com a Velha Faísca fora antecipado, em relação à data com que tínhamos contado, uma coisa rara até mesmo nesses dias em que não era preciso revolver metade dos céus e toda a Terra para executar um homem. Foi uma questão de dois dias, penso eu, de 25 a 27 de Outubro. Não me obriguem a dizer-vos com exactidão, mas sei que não ando muito longe dessa data. Recordo-me de ter pensado que o Pouca Terra poderia reaver a sua caixa de Coronas mais cedo do que esperara.
Entretanto, o Wharton chegou ao nosso bloco mais tarde do que estava previsto. Por um motivo: o seu julgamento du
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rara mais tempo do que aquilo que as fontes, habitualmente de toda a confiança, do Anderson pensaram que duraria (quando o assunto dizia respeito ao Bill Selvagem, nada era de confiança, haveríamos nós de descobrir ao fim de pouco tempo, incluindo os nossos métodos de controlo de prisioneiros, supostamente infalíveis). Então, e depois de se ter chegado à conclusão de que ele era culpado - pelo menos essa parte esteve de acordo com o argumento - foi levado para o Hospital Geral de Indianola a fim de ser submetido a alguns exames. Parece que fora acometido por um certo número de convulsões durante o julgamento; por duas ocasiões estas tinham sido suficientemente graves para o terem deitado por terra, onde ficou a estrebuchar e a bater com os pés contra o soalho. O defensor oficioso do Wharton afirmou que ele sofria de "ataques de epilepsia", tendo cometido os seus crimes quando se encontrava desarranjado do juízo; por seu lado, aacusação clamou que os seus ataques eram o estratagema de , um cobarde desesperado, que tentava salvar a própria vida. Depois de ter observado em primeira mão os tão famosos ; "ataques de epilepsia", o júri concluiu que estes não passavam de uma encenação. O juiz corroborou aquela opinião, mas ordenou que fossem levados a cabo uma série de exames clínicos depois de o júri ter apresentado o seu veredicto. Deus saberá por que motivo; talvez ele sentisse apenas curiosidade.
O facto de o Wharton não ter fugido do hospital constitui , um verdadeiro mistério (e a ironia de a mulher do director Moores, Melinda, se encontrar internada no mesmo hospital ~, nessa altura não escapou à atenção de nenhum de nós), mas o certo é que não o fez. Suponho que o tenham mantido sempre rodeado de guardas e que ele ainda albergasse a esperança de vir a ser considerado inimputável por causa da epilepsia, se é que tal é possível.
Isso, porém, não veio a verificar-se. Por seu lado, os médicos não detectaram nada de anormal no seu cérebro - pelo menos de natureza fisiológica - e o Billy "the Kid" Whar"
ton foi finalmente despachado para Cold Mountain. Isso deverá ter acontecido por volta do dia 16 ou 18; as minhas recordações dizem-me que o Wharton chegou mais ou menos duas semanas depois de John Coffey e uma semana ou dea dias antes de o Delacroix ter percorrido a Milha Verde.
O dia em que o nosso novo psicopata se nos reuniu foí para mim um dia recheado de acontecimentos. Acordei
às quatro horas da manhã, sentindo as partes baixas a latejarem, e o pénis entupido e inchado. Antes mesmo de ter posto os pés no chão, compreendi que a infecção urinária não estava a melhorar como eu esperara. Tinha atravessado uma breve fase de melhoras, nada mais, e ela entretanto chegara ao fim.
Fui à latrina no exterior fazer o que tinha a fazer - isto aconteceu três anos antes de termos instalado a nossa primeira retrete com descarga de água - e ainda mal chegara à pilha de madeira à esquina da casa quando percebi que não conseguiria conter-me por mais tempo. Baixei as calças do pijama precisamente na altura em que a urina começou a verter; esse fluxo foi acompanhado pelas dores mais excruciantes que sofri em toda a minha vida. Em 1956, tive uma pedra na vesícula; sei que as pessoas costumam dizer que essa dor é a pior de todas, mas o certo é que essa pedra da vesícula foi para mim como uma ligeira indisposição provocada por acidez no estômago, em comparação com o que sofri nessa altura.
Os meus joelhos deram de si e caí pesadamente sobre eles, tendo rasgado o traseiro das calças do pijama ao abrir as pernas a fim de evitar perder o equilíbrio e cair de cara em cima da poça do meu próprio mijo. Ainda assim, poderia ter acabado por cair se não me tivesse agarrado com a mão esquerda a um tronco de lenha. No entanto, tudo aquilo poderia estar a acontecer na Austrália ou até mesmo em outro planeta. Tudo o que me preenchia a mente eram as dores atrozes que pareciam querer consumir-me como o fogo. Sentia o baixo-ventre a arder, enquanto o meu pénis - um órgão de que eu me havia esquecido quase por completo, exceptuando as alturas em que me proporcionava o mais intenso prazer físico que um homem poderá sentir - me dava naquele momento a impressão de estar a derreter-se. Se baixasse o olhar, esperava ver sangue a jorrar da sua extremidade; contudo, o que vi pareceu-me ser um fluxo normal de urina.
Agarrei-me à pilha de lenha com uma mão enquanto mantinha a outra sobre a boca, concentrando-me em mantê-la cerrada. Não queria assustar a minha mulher, despertando-a com um grito inesperado. Pareceu-me que haveria de mijar para sempre, mas finalmente o fluxo de urina cessou. Nessa altura, as dores já se haviam albergado bem no fundo do meu estômago, assim como nos testículos, dando a sensação de que mordiam como dentes ferrugentos. Durante bastante tempo - é possível que se tenha alongado por um minuto - senti-me fi-
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sicamente incapaz de endireitar o corpo. Por fim, as dores começaram a abrandar e foi com esforço que consegui pôr-me na posição erecta. Olhei para a minha urina, que já tinha em_ papado o solo, perguntando a mim mesmo se algum Deus de perfeito juízo poderia dar origem a um mundo onde uma quantidade tão insignificante de urina pudesse jorrar a extensão de dores tão excruciantes.
Pensei que iria dar parte de doente e que, apesar da relutância que sentia, teria de consultar o Dr. Sadler. Não desejava sofrer os efeitos nauseantes das cápsulas de sulfamidas dele, mas qualquer coisa seria preferível a ter de me ajoelhar junto da pilha de lenha envidando todos os esforços para não gritar, enquanto a minha picha me informava que havia sido regada com querosene e posta a arder.
Pouco depois, enquanto tomava algumas aspirinas na cozinha, ouvindo a Jan ressonar suavemente no nosso quarto, ocorreu-me que aquele era o dia em que o William Wharton deveria chegar ao bloco e que o Brutal não estaria presente, uma vez que a escala de serviço o destacara para outra zona da prisão, a fim de ajudar a mudar o que restava da biblioteca `
e da enfermaria para o novo edificio. Havia uma coisa acerca da qual eu não me sentia bem, apesar das dores que me atormentavam: deixar o Wharton apenas a cargo do Harry e do Dean. Ambos eram eficientes, mas o relatório enviado pelo Curtis Anderson indicava que o William Wharton era verdadeiramente uma má rês. Ele escrevera: Este homem está-se nas tintas para o que lhe possa acontecer, frase que havia sublinhado para lhe dar mais ênfase.
Ao fim de algum tempo, as dores tinham abrandado um pouco, o que me permitiu pensar com mais coerência. Parecia-me que a melhor ideia seria sair mais cedo para a prisão. Poderia chegar às seis, que era a hora a que o director Moores costumava chegar. Ele poderia voltar a destacar o Brutos Howell para o Bloco E durante o tempo suficiente para dar entrada ao Wharton, o que me permitiria efectuar a consulta ao Dr. Sadler que eu tinha vindo a adiar indefinidamente. Na realidade, Cold Mountain ficava-me em caminho.
Por duas vezes, durante o percurso de trinta e dois quilómetros até à penitenciária, senti-me assolado por uma enorme vontade de urinar. Nas duas ocasiões pude encostar à berma,
tratando desse problema, sem grande embaraço para mim próprio (por uma razão, o movimento de tráfego nas estradas
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regionais àquela hora da manhã era quase inexistente). Nenhuma destas duas ejaculações urinárias foi tão dolorosa como a que me tinha feito ir abaixo dos joelhos a caminho da latrina em minha casa, mas em ambas as ocasiões fui forçado a agarrar-me ao fecho da porta do lado do passageiro do meu pequeno Ford descapotável sentindo o suor a escorrer-me pelas faces ardentes abaixo. Não havia dúvida de que eu estava doente, muito doente.
No entanto, lá consegui chegar ao fim da viagem; tendo transposto o portão virado a sul, estacionei no meu lugar habitual e fui imediatamente falar com o director da prisão. Nessa altura já eram quase seis horas. O gabinete de Miss Hannah encontrava-se vazio - ela não chegaria antes das sete, que era a hora das pessoas civilizadas chegarem - contudo, a luz do gabinete de Moores já se encontrava ligada; via-a através do vidro fosco e com nervuras. Bati num gesto mecânico, abrindo logo a porta. O Moores soergueu o olhar, surpreendido por ver alguém àquela hora matutina, e eu teria dado qualquer coisa para não o ter visto naquelas condições, com a expressão de quem havia sido apanhado de surpresa. O seu cabelo branco, habitualmente tão bem penteado, estava naquela altura todo espetado e emaranhado; quando entrei no seu gabinete, tinha os dedos nos cabelos, arrepelando-os e puxando-os. Os seus olhos estavam extremamente congestionados, com a pele abaixo deles tumefacta e balofa. Os seus tremores eram os piores que eu lhe tinha visto; o aspecto era o de um homem que acabara de entrar no gabinete, depois de uma longa caminhada numa noite terrivelmente fria.
- Hal, desculpa, volto mais tarde... - comecei a dizer. - Não - replicou ele. - Por favor, Paul. Entra. Entra e fecha a porta. Se alguma vez precisei da companhia de alguém em toda a minha vida, é precisamente neste momento. Entra e fecha a porta.
Fiz como ele me dizia, esquecendo-me das minhas próprias dores pela primeira vez desde que acordara nessa manhã.
- É um tumor no cérebro - acrescentou Moores. - Descobriram-no nas radiografias. Na realidade, pareciam estar muito satisfeitos com as suas radiografias. Um deles até disse que eram as melhores radiografias que alguém alguma vez tinha tirado, pelo menos até agora; acrescentaram ainda que vão publicá-la numa grande publicação médica da Nova
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Inglaterra. Disseram que era do tamanho de um limão e que se encontra bem entranhado no cérebro, num sítio onde não poderiam operar. Disseram também que ela estará morta por altura do Natal. Eu ainda não lhe disse nada. Por muito que pense, não sei como é que hei-de dar-lhe uma notícia destas.
Foi então que começou a chorar, um choro intenso e convulsivo que me provocou uma amálgama de pena e uma espécie de horror - quando um homem tão reservado como o Hal Moores acaba por perder o controlo das suas emoções, isso assusta. Fiquei imobilizado por uns momentos, até que me aproximei dele e coloquei o meu braço em redor dos seus ombros. Moores abraçou-me com ambos os braços; parecia um homem prestes a afogar-se e começou a soluçar contra o meu estômago; todas as reservas o tinham abandonado. Mais tarde, depois de ter conseguido recuperar a compostura, pediu-me desculpa. Fê-lo sem que o seu olhar tivesse ido ao encontro do meu, tal como qualquer homem faria ao aperceber-se de que procedera de forma confrangedora, tão confrangedora que nunca poderia esquecer-se daquela situação. Um homem é muito capaz de vir a odiar o sujeito que o viu em circunstâncias como aquelas. Mas eu estava convencido de que o director Moores era uma pessoa que poderia ultrapassar isso; nunca me passou pela cabeça tratar do assunto que ali me havia levado originalmente, uma vez que, quando saí do gabinete do Moores, encaminhei-me para o Bloco E; em vez de regressar ao meu automóvel. Nessa altura, a aspirina já começara a produzir o seu efeito, pelo que as dores que eu sentia na região central do meu corpo se tinham reduzido a um fraco latejar. Concluí que havia de conseguir chegar ao fim do dia, instalar o Wharton na sua cela, voltar a falar com o Hal Moores ainda nessa mesma tarde e dar parte de doente só no dia seguinte. O pior já passara, pensei, sem fazer a mais pequena ideia de que o pior de todas as desventuras desse dia ainda nem sequer tinha começado.
- Calculámos que ele ainda se encontrava sob o efeito dos tranquilizantes das análises - disse o Dean no fim desse mesmo dia.
A sua voz soava baixa e rouca, assemelhando-se mais a
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um ladrar; no seu pescoço tinham começado a aparecer umas equimoses de púrpura-enegrecida. Eu compreendia que lhe devia custar bastante falar, e pensei em dizer-lhe que deixasse o assunto de lado, mas acontece que por vezes é mais difícil não abordar as questões. Cheguei à conclusão que aquela era uma dessas ocasiões, pelo que decidi manter a minha própria boca fechada.
- Todos pensámos que ele estava drogado, não é verdade? - insistiu o Dean.
O Harry Terwilliger acenou afirmativamente. Até mesmo o Percy, sentado um pouco afastado de nós, formando o seu pequeno grupo amuado de uma só pessoa, também corroborou aquela versão com um gesto de cabeça.
O Brutal fitou-me, e por breves instantes os nossos olhares cruzaram-se. Tínhamos o mesmo pensamento, que as coisas aconteciam assim. Os dias decorriam dentro de toda a normalidade, mas cometia-se um só erro e pumba!, o firmamento abatia-se inexoravelmente sobre nós. Tinham calculado que o homem se encontrava sob o efeito de sedativos, o que era uma suposição bastante razoável, embora ninguém houvesse inquirido se ele estava efectivamente drogado ou não. Pensei ter detectado algo mais no olhar do Brutal: o Harry e o Dean aprenderiam com o seu erro. Muito em especial o Dean, o qual poderia, facilmente, ter sido entregue já morto à família. Mas não o Percy. Talvez isso fosse impossível com o Percy. Tudo o que este podia fazer era manter-se sentado a um canto, amuado por estar outra vez atolado na merda.
Ao todo eram sete, os que foram a Indianola para assumir a tutela de Bill "Selvagem" Wharton: o Harry, o Dean, o Percy, mais outros dois guardas que seguiam atrás (já me esqueci dos seus nomes, apesar de ter a certeza de que em tempos os conheci) e mais dois que seguiam à frente. Iam naquilo a que costumávamos chamar a diligência - uma pequena camioneta Ford com painéis de madeira que fora reforçada com placas de aço, e equipada com o que devia ser vidro à prova de bala. Aquele veículo assemelhava-se a uma mistura de carrinha de distribuição de leite e carro blindado.
~ Harry Terwilliger, tecnicamente, era a pessoa responsável por aquela expedição. Entregou toda a papelada ao xerife do município (não era o Homer Cribus, mas sim outro labrego eleito nos mesmos moldes imagino eu), o qual por seu turno entregou Mr. William Wharton, o arruaceiro extraordi-
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naire, tal como diria o Delacroix. Antecipadamente, havia sido enviado um uniforme prisional de Cold Mountain, embora o xerife e os seus homens não se tivessem dado ao incómodo de dizerem ao Wharton que o usasse; deixaram essa tarefa para os nossos rapazes. O Wharton estava vestido com umas roupas de algodão do hospital e calçava umas pantufas baratas de feltro quando o viram pela primeira vez no segundo pi_ so do hospital; era um indivíduo escanzelado com um rosto de feições afiladas e faces cheias de borbulhas, possuidor de uma longa cabeleira loura e emaranhada. O seu traseiro também era estreito e estava coberto de borbulhas, podendo ser visto através da abertura daquela espécie de bata. Aquela fora a zona da sua anatomia que o Harry e os demais viram, uma vez que o Wharton se encontrava junto de uma janela, a observar o parque de estacionamento, quando eles entraram na enfermaria. O homem não se voltou, ficou no mesmo lugar a segurar os cortinados com uma das mãos, silencioso como um boneco, enquanto o Harry implicava com o xerife do município por este ser demasiado preguiçoso para obrigar o Wharton a vestir o uniforme da prisão, e o xenfe começava a dissertar - tal como todos os funcionários do município que eu tive oportunidade de conhecer - sobre aquilo que fazia parte das suas funções e aquilo que não fazia.
Quando o Harry se cansou desse aspecto da conversa (duvido que isso tenha levado muito tempo), ordenou ao Wharton que se virasse. O que este fez. O homem tinha o mesmo as
pecto, disse-nos o Dean mais tarde na sua voz rouca e meio sufocada, dos milhares de labregos arruaceiros que haviam passado por Cold Mountain enquanto lá trabalhámos. Caso se observasse bem essa aparência, tudo nele se resumiria ao aspecto de um mentecapto de maus flgados. Por vezes também se vislumbrava neste tipo de fulanos uma certa cobardia quando se viam encostados à parede, mas, na maior parte das vezes, não passavam de arruaceiros maldosos. Há gente que vê nobreza em indivíduos da laia do Billy Wharton; todavia, eu não me insiro nesse grupo. Caso se veja encurralada, qualquer ratazana também nos dará luta. O rosto daquele homem parecia não ter mais personalidade do que o seu traseiro cheio de acne, de acordo com o que o Dean nos disse. O seu maxilar inferior não era firme e o olhar mantinha-se distante, os ombros descaídos, as mãos pendendo, flácidas, junto dos flancos. Tinha o aspecto de estar drogado com morfina, e parecia tão apático como todos os drogados que conhecíamos.
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Perante isto, o Percy fez um dos seus acenos de cabeça carrancudos.
- Veste isto - ordenou Harry, indicando o uniforme prisional aos pés da cama. Já fora retirado do interior do saco de papel castanho em que viera, mas ninguém lhe tocara mais;
continuava dobrado tal como chegara da lavandaria da prisão, juntamente com um par de cuecas de algodão branco que saíam de uma das mangas da camisa, enquanto a espreitar do punho da outra se via um par de meias também brancas.
O Wharton deu a impressão de querer obedecer ao que lhe fora dito, embora não tivesse conseguido fazer grandes progressos sem auxílio. Lá conseguiu vestir as cuecas, mas, quando chegou a vez das calças teimou, insistentemente, em enfiar as duas pernas pelo mesmo buraco. Por fim, o Dean resolveu dar-lhe uma ajuda, fazendo com que os pés do homem entrassem nos sítios adequados para o efeito, e puxou-lhe as calças para cima, apertando-lhe a braguilha e abotoando-lhe o botão do cós. O Wharton limitou-se a ficar especado, sem sequer tentar fazer qualquer gesto para se vestir, ao ver que o Dean tratava daquela tarefa por si. Olhava absortamente para o outro lado da enfermaria, com as mãos inertes, sem que houvesse ocorrido a nenhum dos guardas que ele estaria a maquinar alguma. Não com a esperança de fugir (pelo menos estou convencido de que não era esse o caso), mas somente com a esperança de provocar o maior número de complicações possível quando a ocasião lhe parecesse ser a mais propícia.
Os papéis foram assinados. O William Wharton, que se havia transformado em propriedade do município aquando da sua prisão, passara agora a ser propriedade do estado. Foi conduzido pelas escadas das traseiras, atravessando a cozinha do hospital, rodeado de uniformes azuis. Caminhava com a cabeça baixa e as suas mãos de dedos afuselados oscilavam flacidamente. Da primeira vez que o seu boné caiu, o Dean apanhou-o e voltou a colocar-lho na cabeça. Da segunda vez, colocou-lho simplesmente na algibeira de trás das calças.
O Wharton teve outra oportunidade de criar problemas na Parte traseira da diligência, na altura em que lhe colocavam as grilhetas, embora não o tivesse feito. Se por acaso possuísse a faculdade de pensar (até mesmo agora, não estou certo se seria capaz e, em caso afirmativo, até que ponto), teria concluído que o espaço era bastante confinado e o número de po-
lícias demasiado elevado para conseguir provocar qualquer estardalhaço minimamente satisfatório. E assim se colocaram , as correntes, um conjunto de grilhetas à volta dos tornozelos e um outro - que veio a verificar-se ser demasiado longo - entre os pulsos.
A viagem até Cold Mountain levou uma hora. Durante todo o percurso, o Wharton manteve-se sentado no banco lateral esquerdo, junto da cabina, com a cabeça baixa e as mãos
pendentes entre os joelhos. De vez em quando, trauteava um pouco, disse o Harry, e o Percy condescendeu em acrescentar que o mentecapto deixava que o cuspo lhe escorresse pela frouxa queixada inferior, uma gota de cada vez, até começar a formar uma pequena poça aos pés. Como se fosse um cão num dia de Verão, a escorrer saliva da ponta da língua.
Entraram pelo portão virado a sul assim que chegaram à penitenciária; calculo que tenham passado pelo meu carro. O guarda, que se encontrava de serviço na passagem a sul, fez correr os portões enormes entre o parque de estacionamento e o pátio de recreio, tendo permitido o acesso da diligência. Naquela altura do dia, o pátio tinha pouco movimento, não havendo muitos homens no oxterior, e os que ali se encontravam tratavam do jardim. Deve ter sido na hora de descanso. Conduziram directamente para o Bloco E, onde se detiveram. O motorista abriu a porta do seu lado, dizendo-lhes que ia levar a diligência para a oficina, a fim de mudar o óleo, acrescentando que tinha sido um prazer trabalhar com eles. Os guardas suplementares seguiram no veículo, indo dois deles na parte de trás a comer maçãs; naquela altura, as portas estavam abertas sobre as calhas.
Assim, só ficaram o Dean, o Harry e o Percy com o prisioneiro acorrentado. Deveria ter sido o suficiente, teria sido o suficiente, se eles não houvessem sido ludibriados pela ati
tude atoleimada do campónio que continuava de cabeça baixa enquanto avançava no piso de terra batida, com os artelhos e pulsos acorrentados. Fizeram-no caminhar os mais ou menos doze passos até à porta que dava acesso ao Bloco E, mantendo a formação habitual de quando escoltávamos qualquer prisioneiro através da Milha Verde. O Harry seguia à esquerda do Wharton, o Dean à direita e o Percy fechava o cortejo, de bastão na mão. Ninguém me disse isso, mas eu tenho a certeza que ele o desembainhara; o Percy tinha paixão por aquele bastão de nogueira. Quanto a mim, eu estava sentado naquilo
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que passaria a ser a casa do Wharton, até chegar o momento de ele se apresentar na chapa dos grelhados - a primeira cela à direita, quando nos dirigíamos através do corredor para a cela do isolamento. Segurava nas mãos a prancha de madeira com a documentação e pensava no meu pequeno discurso, ansiando por poder pôr-me dali para fora. As dores que sentia nas virilhas tinham recomeçado a intensificar-se, e tudo o que eu mais desejava era poder ir para o meu gabinete, onde aguardaria que passassem.
O Dean avançou para abrir a porta .que estava fechada à chave. Seleccionou a chave do molho que tinha preso ao cinto e inseriu-a na ranhura da fechadura. Na altura em que o
Dean fez girar a chave e puxou a maçaneta, o Wharton regressou ao mundo dos vivos. Soltou um grito, um berro desarticulado - uma espécie de grito dos rebeldes - que imobilizou temporariamente o Harry, e arrumou o Percy Wetmore durante todo aquele confronto. Ouvi aquele berro através da porta parcialmente aberta, não o tendo associado a nada de humano, pelo menos de princípio; pensei que um cão qualquer conseguira entrar no pátio, e alguém o magoara, que talvez algum prisioneiro de maus fígados o tivesse atingido com uma enxada.
O Wharton ergueu os braços e deixou cair a corrente que unia as grilhetas que lhe envolviam os pulsos por cima da cabeça do Dean, começando a asfixiá-lo. O Dean soltou um gri
to estrangulado, cambaleando para a frente sob a fria luz eléctrica do nosso pequeno mundo. O Wharton sentiu-se feliz por poder acompanhar os seus movimentos, tendo mesmo chegado a dar-lhe um empurrão, enquanto durante todo esse tempo gritava e falava sem nexo, soltando gargalhadas. Tinha os braços dobrados, os punhos cerrados e erguidos até às orelhas do Dean, e puxava a corrente, mantendo-a tão esticada quanto possível, zurzindo-a para a frente e para trás.
O Harry atirou-se às costas do Wharton, agarrando com uma mão num punhado de cabelos louros e sebosos do nosso novo rapaz, e com a outra batendo com toda a força numa das faces do Wharton. Tinha o seu próprio bastão e uma pistola à ilharga, mas no meio de toda aquela confusão não lhe ocorreu sacar de qualquer destas armas. Podem crer que já passáramos por problemas com outros prisioneiros, mas nunca tínhamos deparado com um que nos houvesse apanhado tão de surpresa como o Wharton. A manha do homem ultrapassava
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toda a nossa experiência. Eu nunca tinha visto nada assim e nunca mais voltaria a ver.
E ele era bastante forte. Toda a inércia tinha desaparecido. Mais tarde, o Harry disse que tivera a sensação de saltar para um amontoado de molas de aço que haviam adquirido vida. O Wharton, que naquela altura já tinha entrado no bloco e estava próximo da mesa do guarda de serviço, rodopiou para a esquerda, e arremessou o Harry. Este embateu contra a secretária, indo estatelar-se no chão.
- Ennaaa, rapazes! - exclamou o Wharton com uma gargalhada. - Isto é que é uma festa de arromba, não acham? É ou não é?
Continuando a gritar e a rir-se, o Wharton regressou para junto do Dean, a fim de continuar a asfixiá-lo com a corrente que lhe prendia os punhos. E porque não? O Wharton sabia aquilo que todos nós sabíamos: só o poderiam fritar uma vez.
- Bate-lhe, Percy, bate-lhe! - gritava o Harry, esforçando-se por conseguir pôr-se de pé. Mas o Percy continuou imóvel, empunhando o seu bastão de nogueira, com os olhos tão arregalados como pratos de sopa. Qualquer pessoa teria dito que ali estava a oportunidade por que ele tanto ansiara, a hipótese de dar uma boa utilização ao seu estala-cabeças; no entanto, o homem sentia-se demasiado confuso e amedrontado para poder agir. O prisioneiro não era nenhum pequeno franciú aterrorizado, nem tão-pouco um gigante negro, o qual mal sabia que se encontrava no interior do seu próprio corpo; era um demónio enraivecido.
Saí da cela do Wharton deixando cair a prancheta com a papelada e sacando da minha calibre trinta e oito. Pela segunda vez naquele dia, esqueci-me por completo da infecção que
tanto ardor me provocava na região central do corpo. Não duvidei da história que os outros me contaram quanto à expressão vazia do rosto do Wharton, assim como dos seus olhos entorpecidos; contudo, esse não era o Wharton que eu tinha à minha frente. Aquilo que vi foi o rosto de um autêntico animal - não uma criatura inteligente, mas sim repleta de manha... de maldade... e de satisfação. Sim. Ele estava a pôr em prática aquilo que tencionara fazer. O local e as circunstâncias não tinham qualquer importância. A outra coisa que vi foram as faces inchadas e avermelhadas do Dean Stanton. Ele estava
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a morrer em frente dos meus olhos. O Wharton avistou a arma e posicionou o Dean na sua direcção, de forma a que, quase de certeza, eu seria forçado a alvejar um quando alvejasse o outro. Por cima do ombro do Dean, avistei um olho azul flamejante que me desafiava a disparar.

Parte Três



AS MÃOS DO COFFEY

Revendo tudo aquilo que escrevi até agora, verifico que classifiquei Georgia Pines, onde vivo presentemente, como um lar para a terceira idade. Os fulanos que dirigem este estabelecimento não se sentiriam muito satisfeitos com essa descrição! De acordo com as brochuras que têm no vestíbulo e que enviam aos clientes em perspectiva, trata-se de "um complexo de primeira categoria destinado às pessoas de idade". Até tem um Centro Recreativo - de acordo com o que a brochura afirma. As pessoas que são forçadas a viver aqui (a brochura não lhes chama "internos", embora eu por vezes o faça) limitam-se a chamar-lhe "sala da televisão".
As pessoas consideram-me um tudo-nada distanciado, porque durante o dia não vou à sala da televisão, mas isso deve-se ao facto de não conseguir suportar os programas, e não as pessoas. Oprah, Ricki Lake, Carnie Wilson, Rolanda - o mundo está a desmoronar-se em redor dos nossos ouvidos, e tudo o que interessa a estes apresentadores é falar acerca de foder mulheres de saias curtas, e de homens que têm sempre as camisas abertas. Pois bem, que raio - não julgues, não vás tu próprio ser julgado, diz a Bíblia, por isso estou disposto a descer do meu estrado de orador improvisado. O que acontece é que se eu quisesse passar o meu tempo na companhia de gentalha que vive em caravanas, ter-me-ia mudado para o Parque de Caravanas Rodas Felizes, a cerca de três quilómetros mais abaixo, para onde os carros-patrulha da polícia parecem estar sempre a acorrer nas noites de sexta-feira e sábado com as sirenas a soar estridentemente e as luzes azuis a funcionarem, intermitentes. A minha amiga especial, a Elaine Connelly, pensa da mesma maneira. A Elaine já tem oitenta anos é alta e magra, ainda tem a postura direita e o
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olhar límpido, muito inteligente e refinada. Caminha com muita lentidão porque qualquer coisa não está bem com a sua bacia, e eu sei que a artrite que lhe afecta as mãos lhe provoca um grande sofrimento, mas possui um lindo pescoço comprido - quase um colo de cisne - e belos cabelos compridos, que lhe caem até aos ombros sempre que ela os solta.
Porém, o melhor de tudo é que ela não me considera um fulano peculiar nem reservado. Passamos muito tempo juntos, a Elaine e eu. Se eu não tivesse alcançado uma idade tão gro tesca, suponho que me referiria a ela como a minha namorada. Ainda assim, o facto de ter uma amiga que considero muito especial - somente isso - não é assim tão mau, e, sob certos aspectos, chega até a ser preferível. Uma grande quantidade dos problemas e dores do coração que existem entre namorados deixaram muito pura e simplesmente de existir dentro de nós. E, embora eu saiba que ninguém, digamos, abaixo dos cinquenta, acreditaria nisto, por vezes as braseiras são melhores do que as fogueiras. É estranho mas é verdade.
Por conseguinte, não vejo televisão durante o dia. Por vezes dou passeios; noutras ocasiões dedico-me à leitura; mas na maior parte do tempo, durante mais ou menos o último mês, escrevo estas memórias instalado entre as plantas do solário. Estou convencido de que existe mais oxigénio nesse recinto, o que ajuda a memória que já está enfraquecida. Sem dúvida que esta actividade ganha aos pontos qualquer programa bombástico de televisão, essa posso eu garantir-vos.
No entanto, sempre que não consigo conciliar o sono, às vezes desço sorrateirámente até ao andar de baixo e ligo o televisor. Em Georgia Pines dispomos dos serviços básicos da televisão por cabo, o que significa que temos acesso ao canal de filmes americanos. Esse é o canal em que (para o caso de o leitor não desfrutar dos serviços básicos da televisão por cabo) a maior parte dos filmes é a preto e branco, e onde nenhuma das mulheres despe as suas roupas. Para um peido velho como eu, esse é um aspecto tranquilizador. Houve um bom número de noites em que me deixei adormecer em cima do sofá de um verde horroroso, colocado em frente do televisor, enquanto Francis, a Múla Que Fala, tira uma vez mais do lume a frigideira do Donald O'Connor, ou o John Wayne corre com a escumalha, expulsando-a de Dodge, ou o Jimmy Cagney apelida alguém de ratazana asquerosa e saca de uma arma. Vi alguns na companhia da minha mulher, a Janice (a
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qual não era só a minha namorada, mas também a minha melhor amiga), e eles acalmam-me. O vestuário que as personagens usam, a maneira como andam e falam, até mesmo a música da banda sonora - todas essas coisas contribuem para me acalmar. Suponho que me tragam à recordação os tempos em que eu era um homem que caminhava sobre a pele do mundo, em vez de ser uma relíquia comida pelas traças que vai fenecendo num lar para a terceira idade, onde muitos dos residentes usam fraldas e cuecas de plástico.
No entanto, não havia nada de tranquilizante naquilo que tive oportunidade de ver esta manhã. Absolutamente nada. Em algumas ocasiões, a Elaine junta-se a mim para as tão famosas Sessões dos Pássaros Madrugadores, as quais têm início às quatro da manhã - ela não se abre muito sobre o assunto, mas eu sei que nessas alturas a artrite a faz sofrer atrozmente, e que as drogas que eles lhe dão já não surtem grande efeito.
Esta madrugada, quando ela desceu num passo deslizante, qual fantasma, envergando o seu roupão de turco branco, encontrou-me sentado no sofá cheio de altos e baixos, debruçado sobre as canelas escanzeladas que costumavam ser as minhas pernas, agarrado aos joelhos, a fim de tentar pôr cobro aos tremores que me percorriam o corpo, como se fossem um vento cortante. Sentia-me enregelado, à excepção da região das virilhas que me dava a sensação de arder como se fosse o fantasma da infecção urinária que tanto havia atormentado a minha vida no Outono de 1932 - o Outono do John Coffey, do Percy Wetmore e do Mister Jingles, o rato amestrado. O Outono que também fora o do William Wharton.
- Paul! - gritou a Elaine, dirigindo-se a mim num passo apressado... tão apressado quanto os pregos enferrujados e a placa de massa de vidro na sua bacia lhe permitia. - Paul, o que é que se passa contigo?
- Não tarda nada, estarei bem - respondi-lhe, apesar de as minhas palavras não soarem muito convincentes... Saíram-me da boca de forma pouco articulada, através de uns dentes que queriam bater uns nos outros. - Dá-me apenas um minuto ou dois e ficarei são que nem um pêro.
A Elaine sentou-se junto de mim, colocando um braço em redor dos meus ombros.
- Tenho a certeza que sim - disse ela. - Mas o que é que te aconteceu? Por amor de Deus, Paul, parece que viste um fantasma.

E vi, disse para comigo, sem me ter apercebido de que havia proferido aquelas palavras em voz alta, até que avistei os seus olhos arregalados.
- Não foi verdadeiramente isso - acrescentei, dando-lhe uma pancadinha na mão (suavemente - tão suavemente!). - Mas durante um minuto, Elaine... Meu Deus!
- Recordaste-te dos tempos em que eras um guarda da prisão? - perguntou ela. - Da época sobre que tens vindo a escrever quando estás no solário?
Acenei-lhe afirmativamente.
- Eu costumava trabalhar na nossa versão do Corredor da Morte... - afirmei.
- Eu sei...
- Com a diferença que lhe chamávamos a Milha Verde. Por causa do linóleo que cobria o chão. No Outono de trinta e dois, recebemos um fulano... um selvagem... chamado William Wharton. Ele gostava de se considerar uma espécie de Billy the Kid, e chegou ao ponto de ter uma tatuagem no braço com esse nome. Não passava de um rapazote, mas era bastante perigoso. Ainda me recordo daquilo que o Curtis Anderson, que nessa época era o assistente do director, escreveu sobre ele. "Um doido varrido e orgulhoso de o ser. O Wharton tem dezanove anos de idade e, muito simplesmente está-se nas tintas para o que lhe possa acontecer." Ele sublinhou esta frase.
O braço que até então rodeara os meus ombros esfregava-me naquele momento as costas. Começara a acalmar-me. Naquela altura, senti amor pela Elaine Connelly, e tinha podido cobrir-lhe as faces de beijos, tal como lhe disse. Talvez o devesse ter feito. É horrível estar-se sozinho e atemorizado em qualquer idade, mas estou convencido de que é muito pior quando se é velho. No entanto, eu tinha outra coisa no pensamento, aquele peso de algo antigo por concluir.
- Seja como for - continuei -,tens razão... Tenho andado a escrevinhar sobre a chegada do Wharton ao bloco e como ele quase matou o Dean Stanton, um dos tipos com quem eu trabalhava nesses tempos.
- Como é que ele foi capaz de fazer uma coisa dessas? perguntou a Elaine.
- Por maldade e também por falta de cuidado - respondi sombriamente. - O Wharton forneceu a maldade e os guardas que o acompanhavam a falta de cuidado. O grande
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erro foi a corrente que prendia os pulsos do Wharton... Era um tudo-nada demasiado comprida. Quando o Dean abriu a porta que dava acesso ao Bloco E, o Wharton encontrava-se atrás dele, com um guarda de cada lado, mas o Anderson tivera razão... muito simplesmente, o Billy Selvagem não se preocupava com essas coisas. Deixou cair a corrente que lhe prendia os pulsos por cima da cabeça do Dean e começou a asfixiá-lo com ela.
A Elaine estremeceu.
- Então, pus-me a matutar em tudo aquilo e não fui capaz de adormecer, e foi por isso que vim até cá abaixo. Liguei para o canal dos filmes, pensando que tu talvez viesses até cá abaixo, e assim poderíamos ter um pequeno encontro...
A Elaine riu-se, beijando-me a testa mesmo acima do sobrolho. Sempre que a Janice me beijava na fronte, eu era percorrido por um arrepio, e senti a mesma coisa quando a Elai ne o fez naquela madrugada. Calculo que algumas coisas nunca se alterem.
- ... e no ecrã surgiu este filme antigo a preto e branco sobre os bandidos dos anos quarenta. Chama-se O Denunciante.
Senti-me prestes a recomeçar a tremer, o que me levou a empregár todos os esforços para o evitar.
- E com o Richard Widmark - acrescentei. - Parece-me que foi o seu grande primeiro papel. Nunca cheguei a vê-lo com a Janice... Normalmente, prescindíamos dos filmes de polícias e ladrões, mas ainda me recordo de ter lido algures que o Widmark desempenhou um papel extraordinário, interpretando a figura do malfeitor. Sem dúvida que sim. No filme está muito pálido... dá a impressão de não andar mas sim de deslizar pela cena... está sempre a chamar "borra-botas" às pessoas... a falar sempre dos bufos... do quanto odeia os bufos...
A despeito de todos os meus esforços, começava a tremer de novo. Não conseguia evitá-lo.
- Cabelos louros - acrescentei num sussurro. - Cabelos louros escorridos. Fiquei a ver até à parte onde ele empurra uma velhota, que está sentada numa cadeira de rodas, pelas escadas abaixo mas depois desliguei o televisor.
- Ele fez-te lembrar o Wharton?
~- Ele era o Wharton, até ao mais ínfimo pormenor. ~- Paul... - começou a Elaine a dizer, interrompendo-se.
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Olhou para o ecrã em branco do televisor (onde continuava a poder ver-se o número dez no canto superior, correspondente ao canal dos filmes), e voltou a concentrar a sua atenção em mim.
- O quê? - perguntei. - O que é que ias a dizer, Elaine? - Pensei: Ela vai dizer-me que deveria deixar de escrever sobre este assunto. Que o melhor seria rasgar as páginas que já escrevi até agora, desistindo de tudo isso.
- Não permitas que isso te impeça de continuar - foi o que ela me disse. - Fiquei a olhar de boca aberta para a Elaine. - Fecha a boca, Paul... não vá entrar alguma mosca. Desculpa. É que... bem...
- Tu pensaste que eu me preparava para te dizer o oposto, não é verdade?
- Sim, de facto foi isso que pensei.
Suavemente, agarrou-me nas mãos (suavemente, tão suavemente - com os seus longos e maravilhosos dedos enclavinhados, formando um amontoado de nós retorcidos) e incli
nou-se para a frente, olhando fixamente para os meus olhos azuis com os seus cor de avelã, com o esquerdo ligeiramente nublado devido à aglutinação de uma catarata.
- É possível que eu já seja demasiado velha e frágil para continuar a viver - acrescentou a Elaine -, mas não sou velha de mais para ainda ter a faculdade de pensar. Na nossa idade, que significado é que têm umas quantas noites sem dormir? E já agora, o que é que há de mais no facto de vermos um velho fantasma na televisão? Vais dizer-me que foi o único que já viste?
Pensei no director da cadeia, o Moores, no Harry Terwilliger, no Brutus Howell; ocorreu-me a imagem da minha mãe, assim como a da Jan, a minha mulher, que morrera em Alabama. Sem dúvida que eu tinha bastantes conhecimentos em matéria de fantasmas.
- Não - concordei. - Não foi o primeiro fantasma que vi. Mas, Elaine... foi um choque. Porque era ele, sem tirar nem pôr.
Ela beijou-me de novo e levantou-se, retraindo-se ao deslocar-se, fazendo pressão com a palma da mão sobre as ancas, como se receasse que a bacia rebentasse através da pele, caso não tivesse cuidado.
- Parece-me que mudei de ideias quanto à televisão acrescentou ela. - Tenho um comprimido guardado para um
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dia... ou uma noite em que mais necessitasse dele. Acho que vou tomá-lo e depois volto para a cama. Talvez devesses seguir o meu exemplo.
- Sim - concordei. - Suponho que seja o que deveria fazer. - Durante um momento de loucura, pensei em sugerir que fôssemos juntos para a mesma cama, mas então detectei o sofrimento surdo que se reflectia nos olhos da Elaine, e reconsiderei a minha ideia. Porque é possível que ela tivesse anuído, apenas para me fazer a vontade. O que não me parecia ser muito aconselhável.
Deixámos a sala de televisão (não estou disposto a dignificá-la com o outro nome, nem sequer por uma questão de ironia) lado a lado, eu a atrasar o meu passo pelo dela, que era lento e dolorosamente cauteloso. No interior do edifício reinava o silêncio, com a excepção dos gemidos de alguém, apanhado .por um mau sonho, por detrás de uma qualquer porta cerrada.
- Achas que conseguirás adormecer? - perguntou a Elaine.
- Sim, parece-me que sim - respondi, embora soubesse de antemão que isso seria impossível; fiquei deitado na cama até ao nascer do Sol, a pensar no filme O Denunciante. Em pensamento via o Rìchard Widmark a rir-se de forma demente enquanto amarrava a senhora de idade à sua cadeira de rodas e a empurrava pelas escadas abaixo.
- É isto o que costumamos fazer aos bufos - dizia-lhe ele... E então o seu rosto adquiria a expressão fisionómica do William Wharton, a que ele mostrara no dia em que tinha chegado ao Bloco E e à Milha Verde, o Wharton a rir-se à socapa tal como o Widmark, o Wharton a gritar: Isto é que é uma festa de arromba, não acham? É ou não é? Não me dei ao ïncómodo de descer para o pequeno-almoço, depois daquela noite; limitei-me a ir para o solário, onde retomei a minha escrita.
Fantasmas? Com certeza.
Eu sei tudo o que há a saber sobre fantasmas.
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- Ennaaa, rapazes! - exclamou o Wharton, rindo-se. Isto é que é uma festa de arromba, não acham? É ou não é? Continuando a gritar e a rir-se, o Wharton regressou para
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junto do Dean, a fim de continuar a asfixiá-lo com a corrente que lhe prendia os pulsos. E porque não? O Wharton sabia aquilo que o Dean, o Harry e o meu amigo Brutus Howell sabiam - que eles só poderiam fritar um homem uma vez.
- Bate-lhe! - gritava o Harry Terwilliger. Continuava agarrado ao Wharton, tentando pôr cobro àquela situação antes que se adiantasse mais, mas o Wharton conseguira libertar-se dele, pelo que naquele momento o Harry tentava levantar-se do chão. - Percy, bate-lhe!
Todavia, o Percy continuava imóvel, com o bastão de nogueira numa das mãos e os olhos tão arregalados que nem pratos de sopa. Ele adorava o raio daquele bastão, e qualquer pessoa teria dito que aquela era a sua grande oportunidade de o utilizar, a oportunidade por que ele ansiara desde o primeiro dia que chegara a Cold Mountain... mas agora que esta surgira, ele sentia-se demasiado atemorizado para a aproveitar. O prisioneiro não era nenhum pequeno franciú aterrorizado, como o Delacroix, nem o gigantesco negro que mal sabia que se encontrava no interior do seu corpo, como o John Coffey; era um demómio enraivecido.
Saí da cela do Wharton, deixando cair a prancheta com a papelada e sacando da minha calibre trinta e oito. Pela segunda vez naquele dia, esqueci-me por completo da infecção uri
nária que tanto ardor me provocava na região central do corpo. Não duvidei da história que os outros me contaram, quanto à expressão vazia do rosto do Wharton, assim como os seus olhos entorpecidos; contudo, esse não era o Wharton que eu tinha à minha frente. Aquilo que vi foi o rosto de um autêntico animal - não uma criatura inteligente, mas sim repleto de manha... de maldade... e de satisfação. Sim. Ele estava a pôr em prática aquilo que tencionara fazer. O local e as circunstâncias não tinham qualquer importância. A outra coisa que vi foram as faces inchadas e avermelhadas do Dean Stanton. Ele estava a morrer em frente dos meus olhos. O Wharton avistou a arma e posicionou o Dean na sua direcção, de forma a que, quase de certeza, eu seria forçado a alvejar um quando alvejasse o outro. Por cima do ombro do Dean, avistei um olho azul flamejante que me desafiava a disparar. O outro olho do Wharton encontrava-se oculto pelos cabelos do Dean. Por detrás deles avistei o Percy imobilizado numa atitude irresoluta, com o seu bastão meio empunhado ao alto. E foi então que, enchendo a ombreira da porta aberta
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que dava para o pátio da prisão, surgiu um milagre em carne e osso: o Brutus Howell. Já tinham acabado de mudar o que restava do equipamento da enfermaria, pelo que ele tinha ido até ao bloco "para perguntar quem é que queria café.
Ele agiu sem um único momento de hesitação - empurrou o Percy para o lado contra uma parede, com uma força capaz de abalar tudo e todos, sacou do seu próprio bastão e
bateu na região posterior da cabeça do Wharton, utilizando toda a força do seu musculado braço direito. Ouviu-se o som ensurdecido de uma pancada - um ruído que era quase cavo, como se não existisse qualquer espécie de cérebro por baixo do crânio do Wharton - o que fez com que finalmente a corrente se soltasse em redor do pescoço do Dean. O Wharton foi-se abaixo como se fosse uma saca de farinha, o que permitiu ao Dean arrastar-se para longe daquela besta, a respirar com dificuldade e com a mão na garganta; os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas.
Ajoelhei-me junto dele e ele abanou a cabeça com violên
cia.
- Eu estou bem... - proferiu numa voz enrouquecida. - Tomem conta... dele! - Fez um gesto na direcção do Wharton. - Fechem-no! Na cela!
Não me pareceu que ele precisasse de uma cela, depois da forma selvática como o Brutal o tinha atingido; imaginei que aquilo de que ele necessitaria era de um caixão. No entanto, a sorte não nos bafejou. O Wharton tinha perdido os sentidos, mas encontrava-se muito longe de estar morto. Ficara esparramado de lado, com um braço estendido e as pontas dos dedos a tocarem no linóleo da Milha Verde, os olhos fechados e a respiração lenta mas regular. No seu rosto via-se mesmo um sorriso beatífico, como se houvesse adormecido a ouvir a sua canção de embalar preferida. Do cabelo escorria um pequeno fio de sangue intensamente vermelho, manchando o colarinho da nova camisa do uniforme prisional. E era tudo.
- Percy! - chamei. - Dá-me uma ajuda!
Contudo, o interpelado não se mexeu, continuando encostado à parede, olhando fixamente para o vazio com olhos atordoados. Não me parece que ele soubesse com exactidão onde é que se encontrava.
- Percy, raios te partam, agarra nele!
Só então é que ele começou a mexer-se e o Harry foi em seu auxílio. Nós os três arrastámos o inconsciente Wharton
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para a sua cela, enquanto o Brutal auxiliava o Dean a pôr-se de pé, suportando-o com toda a suavidade, como qualquer mãe teria feito a um filho; o Dean dobrava-se sobre si mesmo, tossindo para conseguir encher os pulmões de oxigénio.
A nossa nova criança problemática não recobrou os sentidos durante quase três horas, mas, quando tal aconteceu, não parecia ter sido afectado pela violenta pancada que o Brutal lhe desferira. Voltou a si da mesma maneira como se movimentara - com rapidez. Num dado momento, estava estendido em cima da tarimba, absolutamente morto para o mundo. No segundo imediato, encontrava-se levantado junto das grades da cela - silencioso que nem um rato - olhando-me com fixidez quando eu me encontrava sentado à mesa do guarda de serviço, elaborando um relatório acerca da ocorrência. Quando finalmente pressentia presença de alguém que me fitava, soergui o olhar e ali estava ele exibindo um esgar que revelava um conjunto de dentes deteriorados e enegrecidos, entre os quais já se viam vários espaços. Senti um sobressalto ao avistá-lo ali, naquela postura. Tentei ocultar a minha reacção, mas tenho a impressão de que não lhe passou despercebida.
- Ei, lacaio - disse ele. - Da próxima vez calhar-te-à a ti. E nessa altura não vou falhar.
- Olá, Wharton - repliquei num tom tão calmo quanto me era possível. - Em vista das circunstâncias, calculo que possamos dispensar o discurso e o comité de boas-vindas, não te parece?
O seu esgar vacilou um tudo-nada. Aquela não era a resposta que ele tinha esperado e, muito provavelmente, não era a que eu teria dado noutras circunstâncias. Mas algo tinha acontecido enquanto o Wharton se mantivera inconsciente. Suponho que tenha sido uma das principais coisas que tenho tentado descrever-vos ao longo destas páginas. Agora vamos a ver se vocês acreditam.
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À excepção de ter gritado numa ocasião ao Delacroix, o Percy manteve a boca fechada depois de todo aquele rebuliço ter chegado ao fim. Isso era, possivelmente, resultado do choque e não de uma tentativa destinada a mostrar um certo
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tacto - o Percy sabia tanto de tacto como eu das tribos mais primitivas de África - mas essa atitude veio muito a calhar, fosse por que motivo fosse. Se tivesse começado a lamentar-se quanto à forma como o Brutal o havia arremessado contra a parede, ou caso se interrogasse sobre a razão por que ninguém lhe dissera que por vezes homens tão maus como o Billy Selvagem acabavam por ir parar ao Bloco E, tenho a impressão que teríamos optado por matá-lo. Isso ter-nos-ia permitido percorrer a Milha Verde em moldes totalmente diversos. O que não deixa de ser uma ideia engraçada, se pensarmos bem. Desperdicei a minha grande oportunidade de agir como o James Cagney em Fúria Sanguinária.
Enfim, quando tivemos a certeza de que o Dean continuaria a respirar, e que não se encontrava prestes a perder os sentidos ali mesmo, o Harry e o Brutal levaram-no para a enfermaria. O Delacroix, que se mantivera num silêncio absoluto durante toda aquela confusão (já tinha estado na prisão muitas vezes, pelo que sabia quando era prudente manter a boca fechada e quando era relativamente seguro abri-la de novo), começou a gritar, fazendo um grande alarido no corredor, enquanto o Harry e o Brutal levavam o Dean para fora. O Delacroix queria saber o que tinha acontecido. Pelo seu tom de voz, até se poderia pensar que os seus direitos constitucionais haviam sido violados.
- Cala a boca, larilas! - berrou-lhe o Percy, tão furioso que as veias em ambos os lados do pescoço ficaram salientes. Coloquei uma mão sobre o seu braço, sentindo-o a tremer por
baixo da camisa. Parte daquela atitude devia-se ao medo residual, como é evidente (de vez em quando, eu era forçado a recordar a mim mesmo que parte do problema do Percy era o facto de ele ter apenas vinte e um anos, não sendo muito mais velho que o Wharton), mas estou convencido de que, em grande medida, aquilo era resultado da raiva. Ele odiava o Delacroix, não sei bem por que motivo, mas o certo é que era assim.
- Vai ver se o director Moores ainda cá está - disse eu ao Percy. - Se estiver, apresenta-lhe um relatório verbal, bem completo, daquilo que sucedeu aqui. Diz-lhe que amanhã lhe entregarei um relatório escrito, se conseguir elaborá-lo.
Percy inchou visivelmente por causa da responsabilidade de que eu estava a incumbi-lo; durante um ou dois momentos horríveis, pensei que ele ia fazer-me continência.
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- Sim, senhor. Assim farei.
- Começa por dizer-lhe que a situação no Bloco E já está normalizada. Isto não se trata de uma história, e o director não apreciará o facto de a arrastares, para criares mais expectativa.
- Não farei isso - replicou o Percy. - Muito bem. Vai-te embora.
Encaminhou-se para a porta, mas pouco depois deteve-se, voltando atrás. A única coisa que podíamos esperar era que ele fizesse o oposto daquilo que queríamos. Eu desejava desesperadamente que ele saísse dali, sentia as virilhas em fogo, e agora tudo indicava que ele não estava disposto a ir-se embora.
- Estás bem, Paul? - perguntou ele. - Talvez estejas a ficar com febre. Estás a chocar alguma gripe? Digo isto porque tens as faces cobertas de suor.
- Talvez esteja a chocar alguma, mas de uma maneira geral sinto-me bem - afirmei. - Despacha-te, Percy, vai informar o director.
Ele anuiu com um acenar de cabeça e afastou-se - graças a Deus pelos pequenos favores. Assim que a porta se fechou, dirigi-me rapidamente para o meu gabinete. Deixar a
mesa do guarda de serviço desocupada era contra os regulamentos mas naquela altura esse aspecto não me interessava rigorosamente nada. Sentia-me bastante mal - tão mal como me sentira nessa manhã.
Consegui entrar no pequeno cubículo que servia de lavabo por detrás da mesa, e tirei o coiso para fora das calças antes que a urina começasse a jorrar, mas esteve mesmo por um
triz. Fui obrigado a tapar a boca com uma mão para abafar um grito quando o mijo começou a jorrar, e com a outra agarrei-me ao bordo do lavatório, sem ver o que fazia. Não era como em minha casa, onde podia cair de joelhos e mijar até formar uma poça junto à pilha de lenha; se eu me pusesse de joelhos ali, a urina derramar-se-ia pelo chão todo.
Com grandes dificuldades lá consegui manter-me de pé sem gritar, embora tanto uma coisa como a outra tivessem estado por pouco. Parecia que a minha urina estava cheia de ínfimos estilhaços de vidro. O cheiro que se evolava da retrete era desagradável e pestilento, e vi uma substância esbranquiçada - calculo que se tratasse de pus - a flutuar à superfície da água.
Retirei a toalha do toalheiro e limpei o rosto com ela. Suava profusamente; a transpiração jorrava dos poros. Olhei para o espelho de metal e avistei as faces congestionadas de
um homem cheio de febre, o qual retribuía o meu olhar. Trinta e oito e meio? Trinta e nove? Talvez fosse preferível não saber. Voltei a colocar a toalha no seu lugar, accionei a descarga de água e, num passo lento, atravessei o meu gabinete, dirigindo-me para a porta do bloco. Receava que o Bill Dodge, ou qualquer outra pessoa, pudesse ter aparecido, deparando com três prisioneiros desacompanhádos, mas aquele espaço encontrava-se vazio. O Wharton continuava inconsciente deitado em cima da sua tarimba, enquanto o Delacroix se remetera ao mutismo e o John Coffey nem sequer chegara a emitir um único ruído, apercebi-me eu inesperadamente. Nem um pio. O que era preocupante.
Comecei a percorrer a Milha, lançando um olhar para o interior da cela do Coffey, um pouco à espera de verificar que ele se tinha suicidado através de um dos dois meios mais comuns no Corredor da Morte - enforcar-se com as próprias calças ou dilacerar com os dentes os próprios pulsos. Veio a verificar-se que não sucedera nem uma coisa nem a outra. O Coffey limitara-se a continuar sentado na tarimba, com as mãos pousadas sobre as coxas; o homem mais corpulento que eu alguma vez vira em toda a minha vida, olhava para mim com os seus estranhos olhos lacrimosos.
- Capitão? - chamou ele.
4	--- O que é que se passa, matulão? - perguntei. Preciso de falar consigo.
.- Por a
caso não estarás tu a olhar para mim neste mesmo momento, John Coffey?
Não replicou àquela pergunta, continuando a examinar-me com o seu olhar estranho e humedecido.
- Num segundo, matulão - retorqui com um suspiro. Fixei a minha atenção no Delacroix, o qual se colocara junto das barras da sua cela. O Mister Jingles, o seu rato de estimação (o Delacroix não tinha o mínimo pejo em dizer-nos que havia ensinado o Mister Jingles a fazer habilidades, todavia, todos os que trabalhavam na Milha Verde achavam que o rato se amestrara a si mesmo), saltava desassossegadamente para lá e para cá, de uma das mãos estendidas do Del para a outra, qual acrobata a dar saltos de plataformas acima do centro da arena. Os seus olhos estavam muito arredondados, e ti
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nha as orelhas encostadas ao crânio acastanhado de linhas esguias. Não me restava a mais pequena dúvida de que o rato reagia em função do nervosismo que o Delacroix sentia. Enquanto eu o observava, ele começou a correr pelas calças do Delacroix, atravessando o chão da cela até ao carretel de cores garridas que se encontrava encostado a uma parede. Empurrou o carretel até próximo dos pés do Delacroix, fitando-o ansiosamente, sem que o pequeno cajun tivesse prestado atenção ao amigo, pelo menos naquela altura.
- O que é que aconteceu, chefe? - perguntou ele. - Quem é que se magoou?
- Está tudo em ordem - respondi. - O nosso novo rapaz entrou com atitude de leão, mas agora está inconsciente e sossegado que nem um cordeirinho. Tudo está bem quando acaba bem.
- Ainda não acabou - retorquiu o Delacroix, erguendo o olhar por cima da Milha, na direcção da cela onde o Wharton continuava prostrado. - L'homme mauvais, c'est vrai!~
- Pois bem - disse-lhe eu. - Não deixes que isso te deprima, Del. Ninguém te vai obrigar a saltar à corda com ele no pátio.
Vindo de trás, ouvi o som ranger de uma tarimba quando o Coffey se levantou.
- Chefe Edgecombe! - chamou ele de novo. Desta feita, a entoação da sua voz denotava urgência. - Preciso de falar consigo!
Voltei-me para ele, pensado: "Muito bem, não existe qualquer problema, falar faz parte das minhas funções." Durante todo este tempo, envidava esforços para não tremer, uma vez que a febre me provocava arrepios de frio, como por vezes acontece. Excepto na região das virilhas, que continuava a dar-me a sensação de ter sido golpeada, cheia com carvões em brasa e depois cosida.
- Nesse caso, diz o que tens a dizer, John Coffey - repliquei, tentando imprimir à voz um timbre ligeiro e calmo. Pela primeira vez desde que chegara ao Bloco E, o Coffey tinha o aspecto de quem se encontrava realmente ali, entre nós, de corpo e alma. O quase ininterrupto fio de lágrimas que lhe saía pelo canto dos olhos havia cessado, pelo menos de momento; eu apercebia-me de que ele via realmente aquilo para
~ Em francês no original: "O homem é mau, é verdade." (N. da T.)


que olhava, Paul Edgecombe, o manda-chuva dos guardas do Bloco E, e não qualquer lugar para onde desejasse poder regressar, desfazendo a acção pavorosa que cometera.
- Não - disse ele. - Tem de vir aqui dentro.
- Ora vamos lá a ver, tu bem sabes que eu não posso fazer isso - redargui, continuando a manter um tom aligeirado -, pelo menos, neste preciso momento. Por agora encon
tro-me sozinho aqui e tu pesas, no mínimo, cerca de uma tonelada e meia a mais do que eu. Esta tarde já tivemos rebuliço de sobra. Por conseguinte, vamos ter de travar a nossa conversa através das grades, isto é, se" tu não vires inconveniente nisso...
- Por favor! - O Coffey apertava as barras com tanta força que os nós dos dedos tinham empalidecido e as unhas estavam brancas. O seu rosto era a expressão do desânimo,
vendo-se nos seus olhos uma necessidade premente que eu não conseguia compreender. Recordo-me de na altura ter pensado que talvez tivesse podido compreender se não me sentisse tão adoentado; isso poderia ter-me proporcionado um meio de o ajudar através do resto dessa situação. Quando se sabe do que um homem necessita, conhece-se o homem.
- Por favor, chefe Edgecombe! Tem de entrar na cela! Mas isto é a coisa mais disparatada que já ouvi, pensei, apercebendo-me de algo ainda mais insensato: eu estava disposto a aceder ao seu pedido. Tinha o molho de chaves fora do cinto, procurando entre elas as que abriam a cela do John Coffey. Ele teria podido agarrar em mim e ter-me quebrado em cima dos seus joelhos, como se eu fosse um mero galho, num dia em que eu me sentisse em boas condições de saúde e, decididamente, aquele não era um desses dias. Fosse como fosse, encontrava-me prestes a fazê-lo. Sozinho e tendo decorrido menos de meia hora depois da demonstração gráfica de até onde é que a estupidez e a falta de cuidado nos podem levar, quando se lida com assassinos condenados à morte, eu estava disposto a abrir a porta da cela daquele gigante negro, entrar e sentar-me junto dele. Se esse meu acto viesse a ser descoberto, poderia muito bem vir a perder o emprego, mesmo que ele não se comportasse de uma maneira tresloucada, mas, apesar de tudo, eu não ia hesitar.
"Pára", disse eu a mim mesmo, "pára neste mesmo momento, Paul." Contudo, não o fiz. Inseri uma das chaves na ranhura da fechadura de cima e outra na de baixo e fiz deslizar a porta sobre a calha.
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- Sabe, chefe, isso talvez não seja uma ideia muito boa - disse o Delacroix numa voz tão enervada e efeminada que provavelmente, e noutras circunstâncias, me teria feito rir.
- Preocupa-te com os teus assuntos que eu preocupo-me com os meus - respondi-lhe sem olhar em redor. Mantinha os olhos fixos na figura do John Coffey, de uma forma tão in
tensa que se poderia dizer que estavam pregados no homem. Era como se eu houvesse sido hipnotizado. A minha voz soava aos meus próprios ouvidos como algo que tivesse vindo a ecoar através de um longo vale. Que diabo, talvez eu estivesse sob o efeito de hipnose. - Deita-te e descansa um pouco.
- Céus, este lugar é de loucos - comentou o Delacroix numa voz tremida. - Mister Jingles, quem me dera que eles me fritassem para acabar de uma vez por todas com este assunto!
Entrei na cela do Coffey. Quando comecei a avançar, ele afastou-se. Quando já se encontrava de costas contra a sua tarimba - tocando-lhe com a barriga das pernas, isto dá-vos a
medida da altura do homem - sentou-se em cima do colchão. Os seus olhos não se desprendiam de mim; indicou-me o lugar na tarimba junto de si. Sentei-me onde ele me indicara, e o Coffey colocou o seu braço em redor dos meus ombros, como se nos encontrássemos no cinema e eu fosse a sua namorada.
- O que é que pretendes, John Coffey? - perguntei, continuando a fitar-lhe os olhos... Aqueles olhos tão serenos e tão entristecidos.
- Só quero conseguir evitar o mal - replicou ele. Suspirou como um homem que se vê perante uma tarefa que não lhe apetece muito levar a cabo; em seguida, baixou a mão até à minha região entre pernas, sobre o osso que fica mais ou menos trinta centímetros abaixo do umbigo.
- Eh! - gritei. - Tira já o raio da tua mão...
Nessa altura senti um impacte violento a atravessar-me o corpo, um golpe enorme sem dor que não consegui identificar. Fui sacudido por um solavanco em cima da tarimba que fez com que as minhas costas se curvassem; aquilo trouxe-me à mente a imagem do velho Pouca Terra a gritar que estava a ser frito, estava a ser frito, era um peru cozinhado. Não senti calor nem a passagem de corrente eléctrica, mas por breves instantes fiquei com a impressão de que as cores tinham saltado para fora de tudo, como se o mundo, de uma maneira
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qualquer, houvesse sido espremido. Conseguia distinguir todos os poros na pele do rosto do John Coffey, assim como todos os vasos sanguíneos que lhe atravessavam os olhos de expressão assombrada; via ainda um pequeno arranhão no seu queixo que já começara a sarar. Compreendi que os meus dedos eram ganchos, enclavinhando-se no vácuo, e que os meus pés batiam contra o chão da cela do John Coffey.
Em seguida, terminou tudo. O mesmo aconteceu à minha infecção urinária. Tanto o ardor como aquele latejar atroz, que tantas dores me causavam, tinham desaparecido das mi nhas virilhas, tal como a febre que me afligira a cabeça. Continuava a sentir a transpiração que aquilo fizera aflorar à minha pele, conseguindo cheirar o mal que me atormentara, mas que sem dúvida alguma desaparecera.
- O que é que se passa? - perguntou o Delacroix numa voz esganiçada. Eu tinha a impressão de que a sua voz vinha de muito longe, mas quando o John Coffey se inclinou para a frente, interrompendo o contacto visual que mantivera comigo até então, de súbito, a voz do pequeno cajun tornou-se clara. Era como se alguém houvesse retirado bolas de algodão, ou um par de tampões, das minhas orelhas. - O que é que ele lhe está a fazer, chefe?
Não lhe dei resposta. O Coffey continuava debruçado para a frente, com o rosto contorcido e a garganta que parecia querer rebentar. Os olhos estavam esbugalhados. Tinha a aparência de um homem com um osso de galinha atravessado na garganta.
- John! - gritei. Comecei a dar-lhe palmadas nas costas; não me ocorreu outra coisa para fazer. - John, o que é que aconteceu contigo?
Ele estremeceu por baixo da minha mão e emitiu um som engasgado, que deixava adivinhar ânsias de vómito. A sua boca abriu-se, da mesma forma que os cavalos, por vezes, abrem as suas, a fim de permitir a entrada do freio - relutantemente e com os lábios arreganhados para trás, revelando os dentes, numa espécie de esgar desesperado. Pouco depois, os seus dentes também se entreabriram e ele soltou uma nuvem de insectos negros pequeníssimos, os quais se assemelhavam a mosquitos ou a moscas. Esvoaçavam furiosamente entre os seus joelhos, mas logo depois ficaram brancos e desapareceram.
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De repente, senti que todas as forças abandonavam a parte do meio do meu corpo. Era como se os músculos naquela região se tivessem transformado em água. Deixei-me descair contra a superfície da parede de pedra da cela do Coffey. Recordo-me de ter pensado no nome do Salvador - Cristo Cristo, Cristo, repetindo-o vezes sem conta - e também me lembro de que me ocorreu que a febre me fizera entrar em delírio. E foi tudo.
Nessa altura, dei-me conta de que o Delacroix gritava por ajuda; anunciava ao mundo que o John Coffey estava a matar-me, com toda a força dos seus pulmões. O Coffey encontrava-se debruçado sobre mim, sem dúvida, mas apenas para se certificar de que eu estava bem.
- Cala a boca, Del - ripostei, levantando-me da tarimba. Fiquei à espera que as dores me dilacerassem as entranhas, mas tal não aconteceu. Sentia-me muito melhor. De verdade. Embora tivesse uma ligeira tontura, esta desapareceu antes mesmo de eu ter estendido a mão para me agarrar às barras da porta da cela do Coffey, a fim de me equilibrar. - Estou muitíssimo bem.
- Saia já daí - disse o Delacroix numa voz que parecia a de uma velhota nervosa a dizer a uma criança que descesse de uma macieira. - Não deveria ter entrado na cela sem haver mais um guarda no bloco.
Olhei para o John Coffey, que continuava sentado na tarimba, tendo colocado as suas mãos enormes sobre os joelhos grossos que nem troncos. O John Coffey retribuiu-me o olhar.
Foi obrigado a inclinar a cabeça um pouco para cima, mas não muito.
- O que é que tu fizeste, matulão? - perguntei em voz baixa. - O que é que me fizeste?
- Consegui evitar o mal - respondeu ele. - Consegui evitar o mal, não é verdade?
- Sim, suponho que sim, mas como? Como é que conseguiste evitar o mal?
Abanou a cabeça - para a direita, esquerda e de volta ao centro, onde se imobilizou. Não sabia como é que tinha evitado o mal (como é que havia curado o mal); o seu rosto plácido sugeria que se estava nas tintas - tal como eu me estaria nas tintas acerca da mecânica de uma corrida se fosse à frente durante os últimos cinquenta metros dos três quilómetros da corrida do 4 de Julho. Ainda pensei em lhe perguntar como é
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que tinha descoberto que eu estava doente, só que eu sabia antecipadamente que teria como resposta outro sacudir de cabeça. Li algures uma frase de que nunca me esqueci, qualquer coisa sobre "um enigma envolto num mistério". Era isso mesmo o que o John Coffey era, e suponho que ele só conseguia dormir à noite porque não se interessava por nada. O Percy costumava apelidá-lo de mentecapto, o que era um termo cruel, mas que não se encontrava muito longe da verdade. O nosso matulão conhecia o seu nome, sabendo que não se escrevia da mesma forma que a bebida, e isso era mais ou menos tudo o que lhe interessava saber.
Como que a dar mais ênfase a essa realidade, abanou de novo a cabeça daquela maneira tão deliberada e estendeu-se em cima da tarimba com as mãos entrelaçadas por baixo da
bochecha esquerda, como se esta fosse uma almofada, mantendo o rosto virado para a parede. As suas pernas estavam suspensas do fundo do colchão, desde as canelas até aos pés, mas isso nunca pareceu incomodá-lo. A parte de trás da camisa estava arrepanhada para cima, o que me permitia avistar as cicatrizes que se entrecruzavam na sua pele.
Abandonei a cela, fechei-a à chave e olhei para o Delacroix, que se encontrava agarrado às grades, olhando-me com uma expressão de ansiedade. Talvez até mesmo com um certo
receio. O Mister Jingles estava empoleirado em cima do ombro, com os seus bigodes finos que fremiam como se fossem filamentos.
- O que é que aquele escarumba lhe fez? - perguntou o Delacroix. - Foi bruxedo? - Falava com aquele sotaque cajun que lhe era peculiar.
- Não sei de que é que estás para aí a falar, Del.
- O diabo é que não sabe! Olhe bem para si! Todo mudado! Chefe, até está a andar de uma maneira diferente! De facto, é provável que eu caminhasse de maneira diferente. Tinha uma sensação maravilhosa de calma nas minhas virilhas, um sentimento de paz tão extraordinário que quase se lhe poderia chamar êxtase - alguém que tenha sentido dores atrozes, e que depois recuperou, sabe perfeitamente o que quero dizer.
- Está tudo bem, Del - insisti. - O John Coffey teve um pesadelo e nada mais.
- Ele é um homem de bruxarias! - afirmou o Delacroix com toda a veemência. Acima do seu lábio superior haviam
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-se agrupado várias gotículas de suor. Não conseguira ver muita coisa, somente o suficiente para o assustar de morte. - Ele é um homem de vodu! - acrescentou.
- O que é que te leva a dizer isso?
O Delacroix estendeu a mão e agarrou no rato. Com a palma da mão em forma de concha levou-o à face. Da algibeira retirou um fragmento de qualquer coisa amarelada -
um daqueles rebuçados de hortelã-pimenta. Estendeu-o para o rato, mas este inicialmente ignorou a guloseima, preferindo esticar o pescoço na direcção do homem, cheirando o seu bafo da mesma maneira que uma pessoa poderia cheirar um ramo de flores. Os seus pequenos olhos, semelhantes a contas negras e brilhantes, cerraram-se quase por completo, numa expressão que se igualava a um sentimento de êxtase. O Delacroix beijou-lhe o focinho, o que o rato permitiu. Em seguida agarrou no bocado de rebuçado, começando a mordiscá-lo. O Delacroix ficou a observar o bicho durante mais algum tempo, após o que olhou para mim. De chofre, percebi tudo. - O rato contou-te - disse eu. - Estou certo?
- Oui.
- Tal como te segredou o seu nome - acrescentei. - Oui - murmurou-me ao ouvido.
- Deita-te, Del - continuei. - Descansa um pouco. Todos esses segredos devem cansar-te muito.
O Delacroix acrescentou mais qualquer coisa - acusou-me de não acreditar no que ele me dizia, suponho eu. Uma vez mais, tive a impressão de que a sua voz vinha de muito longe. E quando regressei à mesa do guarda de serviço, mal tinha a sensação de estar a caminhar - era mais como se flutuasse, ou talvez mesmo nem sequer me deslocasse, com as celas a passarem por mim em ambos os lados, adereços de filmes e rodas escondidas.
Comecei a sentar-me de maneira normal, mas a meio dos meus movimentos, senti os joelhos a desfalecerem e deixei-me cair em cima da almofada azul que o Harry trouxera de
casa no ano anterior, instalando-me sobre o assento da cadeira. Imagino que se a cadeira não tivesse estado ali, teria caído redondamente no chão.
Deixei-me ficar sentado, sentindo aquele nada nas partes íntimas, onde ainda não havia dez minutos tinha lavrado o incêndio de uma floresta. Eu consegui evitar o mal, não é verdade?, dissera o John Coffey, e isso era verdade no que dizia

respeito ao meu corpo. No entanto, em relação à minha paz de espírito o assunto era outro. Isso ele não havia evitado nem um pouquinho.
O meu olhar pousou no amontoado de impressos debaixo do cinzeiro de zinco que tínhamos num dos cantos da mesa. Escritas em maiúsculas ao cimo estavam as palavras RELA
TÓRIO DO BLOCO, e abaixo, mais ou menos a meio da folha, havia um espaço em branco com o cabeçalho Relatório de Todas as Ocorrências Anormais. No relatório que elaboraria naquela noite, servir-me-ia desse mesmo espaço para descrever a chegada do William Wharton ao bloco, cheia de cor e de acção. Mas suponhamos que eu também relatava o que me acontecera na cela do John Coffey? Observei-me a mim próprio a agarrar no lápis - aquele cuja ponta o Brutal lambia constantemente - afim de escrever uma única palavra em letras maiúsculas: MILAGRE.
Certamente que isso teria imensa graça, mas em vez de sorrir, fiquei de repente com a certeza de que iria chorar. Cobri o rosto com as mãos, com as palmas contra a boca para
poder abafar os soluços - não queria assustar o Del outra vez, exactamente na altura em que ele começara a acalmar-se - mas os soluços de choro não me saíram da garganta. Também não me assomaram lágrimas aos olhos. Ao fim de alguns momentos, baixei as mãos, pousando-as sobre o tampo da mesa, onde as entrelacei. Não sabia o que é que estava a sentir; o único pensamento claro que tinha na cabeça era o desejo de que ninguém aparecesse no bloco até eu ter recuperado um pouco o domínio sobre mim próprio. Receava aquilo que eles pudessem ler na minha expressão.
Agarrei num dos impressos intitulados "Relatório do Bloco". Tencionava aguardar até me ter acalmado um pouco mais para começar a descrever como é que a minha última
criança problemática estivera quase a estrangular o Dean Stanton, mas entretanto poderia iniciar o preenchimento do resto de toda aquela treta. Pensei que a minha letra talvez ficasse esquisita - tremida - mas verifiquei que me saía quase como de costume.
Cerca de cinco minutos depois de ter começado, pousei o lápis e dirigi-me para os lavabos adjacentes ao meu gabinete, a fim de urinar. Não tinha muita necessidade de ir, todavia,
consegui reunir o suficiente para pôr à prova o meu novo estado. Enquanto ali fiquei, à espera que o líquido começasse a
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jorrar, tive a certeza de que iria doer-me tanto como nessa manhã, como se estivessem a passar pequenos estilhaços de vidro moído; ao fim e ao cabo, o que ele me tinha feito não seria mais do que o efeito de uma espécie de transe hipnótico, e que até certo ponto poderia ser um alívio, apesar das dores.
Só que não senti quaisquer dores, e o fluxo que saiu para a retrete era límpido, sem o mínimo vestígio de pus. Abotoei a braguilha, puxei a corrente do autoclismo e regressei à mesa do guarda de serviço, sentando-me uma vez mais.
Eu sabia o que tinha acontecido; suponho que o sabia mesmo quando tentava dizer a mim mesmo que fora hipnotizado. Eu experimentara uma cura milagrosa, uma autêntica "Jesus Seja Louvado, o Senhor É Todo-Poderoso". Como em rapaz estava acostumado a ir às igrejas baptistas ou pentecostalistas que num dado mês a minha mãe e as irmãs agraciavam com a sua presença, tinha ouvido o suficiente sobre as histórias miraculosas de "Jesus Seja Louvado, o Senhor É Todo-Poderoso". Não acreditava em todas elas, mas havia bastantes pessoas em que eu acreditava. Uma destas era um homem de nome Roy Delfines, que vivia com a sua família cerca de três quilómetros mais abaixo, na mesma rua que nós, quando eu tinha mais ou menos seis anos. Delfines tinha decepado acidentalmente com um machado o dedo mindinho do filho, quando o garoto, num gesto inesperado, deslocara a mão sobre o tronco que segurava sobre o cepo das traseiras, onde era costume o pai rachar a lenha. O Roy Delfines dissera que tinha, praticamente, desgastado a carpete com os seus joelhos durante esse Outono e Inverno; na Primavera, o dedo do rapaz tinha voltado a crescer. Até mesmo a unha tinha crescido de novo. Eu acreditei no Roy Delfines quando ele .apresentou o seu testemunho na reunião de júbilo, de quinta-feira à noite. Nas suas palavras adivinhava-se uma honestidade tão franca e tão pouco complicada quando ele falou ali à frente dos outros, com as mãos enfiadas nos bolsos do fato-macaco, que era impossível não se acreditar no que ele dizia.
- O rapaz sentia algumas comichões quando o dedo começou a crescer, e ficava acordado à noite - disse Roy Delfines -, mas ele sabia que aquelas comichões eram do Senhor, e ue não devia fazer nada. - Jesus Seja Louvado, o Senhor ~ Todo-Poderoso.
A história do Roy Delfines era apenas uma de entre muitas; eu cresci numa tradição de milagres e de curas. Cresci
também na crença das bruxarias: água mágica para as verrugas, musgo colocado debaixo da almofada para aliviar os desgostos de amor, e, é claro, aquilo a que costumávamos chamar haints - mas eu não estava em crer que o John Coffey fosse um homem de bruxarias. Eu tinha-o olhado bem no fundo dos olhos. Porém, mais importante do que isso, tinha sentido o toque da sua mão. Ter sido tocado por ele foi como se tivesse sido tocado por um médico estranho e maravilhoso. Eu consegui evitar o mal, não é verdade?
Aquilo continuava a ressoar na minha cabeça, como o trecho de uma canção que não conseguimos afastar do pensamento, ou palavras que se proferissem para lançar um encantamento.
Eu consegui evitar o mal, não é verdade?
Só que ele não o tinha feito. Deus tinha. A utilização que o John Coffey fazia da palavra "eu" poderia ser levada à conta da ignorância, e não à do orgulho, mas eu sabia - pelo
menos acreditava - no que tinha aprendido sobre as curas nessas igrejas de Jesus Seja Louvado, o Senhor É Todo-Poderoso, amens proferidos no meio de igrejas em pinhais, que tanto a minha mãe de vinte e dois anos como as minhas tias muito amavam: esse género de curas nunca tem nada a ver com o que é curado, nem com o que cura, mas sim com a vontade de Deus. Que alguém rejubile perante os doentes que são curados é normal, mas a pessoa que foi curada passa a ter a obrigação de perguntar porquê - de meditar na vontade de Deus, assim como em todas as coisas que Deus teve de fazer para cumprir a Sua vontade.
O que é que Deus queria de mim, em relação a este caso? O que é que Ele desejava com tanta intensidade para colocar o poder da cura nas mãos de um assassino de crianças? Estar
no bloco em vez de em casa, doente que nem um cão, a tremer na cama com o fedor das sulfamidas a ser expelido pelos poros? Talvez; é possível que o destino me tenha colocado ali, em vez de ter ficado em casa, para o caso de o Bill "Selvagem" Wharton decidir desencadear outra fúria, ou ainda para me assegurar de que o Percy Wetmore não enveredava por outra situação perigosa e potencialmente destrutiva. Nesse caso, muito bem. Pois que o fosse. Eu manter-me-ia de olhos bem abertos... e de boca bem fechada, muito em especial quanto às curas milagrosas.
Ninguém sentiria curiosidade, por eu estar com melhor
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aspecto; eu dissera a toda a gente que já me sentia melhor, e até esse dia acreditara sinceramente que era esse o caso. Dissera mesmo ao director Moores que já estava a caminho da cura. Apesar de o Delacroix ter visto qualquer coisa, eu estava certo de que ele também ficaria calado (provavelmente com receio de que o John Coffey lançasse um encantamento sobre ele próprio, caso falasse do assunto). Quanto ao próprio Coffey, muito possivelmente já se havia esquecido de tudo. Ao fim e ao cabo, ele não passava de um mero veículo de transmissão, além de que não existia em todo o mundo um único cano de esgoto que se recordasse da água que tinha corrido pelo seu interior, depois de a chuva ter amainado. Nesta conformidade, resolvi manter a minha boca completamente selada quanto àquele assunto, sem fazer ideia de que em breve estava a contar a história e de a quem a contaria.
O certo é que sentia curiosidade quanto ao nosso matulão, não servindo de nada querer negar esse facto. Depois do que me tinha acontecido ali, na cela, sentia-me mais curioso do que nunca.
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Antes de me ir embora nessa noite, combinei com o Brutal para que me substituísse no dia a seguir, no caso de eu chegar um pouco mais tarde. Quando me levantei na manhã
seguinte, pus-me a caminho de Tefton, localidade situada no município de Trapingus.
- Não sei se gosto que te preocupes tanto com esse fulano, o Coffey - dissera a minha mulher, entregando-me a merenda que preparara; a Janice nunca confiou nessas bancas
de hambúrgueres que existem à beira da estrada; costumava dizer que em cada uma delas havia uma dor de barriga à espera., - Isso não parece nada teu, Paul.
- Eu não estou preocupado com ele - retorqui. - Estou apenas curioso e nada mais.
- A minha experiência diz-me que uma coisa leva à outra - retorquiu a Janice num tom acerbado, e deu-me um beijo na boca, vindo bem do fundo do coração. - Pelo menos estás com melhor aspecto, tenho de admitir isso. Durante algum tempo conseguiste pôr-me nervosa. A canalização está toda curada?
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- Completamente curada - confirmei e lá me pus a caminho, entoando canções como por exemplo, Come, Josephine, in My Flying Machine e We're in the Money, a fim de fazer companhia a mim próprio.
Em primeiro lugar, dirigi-me para os escritórios do Intelligencer de Tefton, onde fui informado de que o Burt Hammersmith, o sujeito com quem eu queria falar, devia estar no tribunal. De facto assim fora, de acordo com o que me disseram no tribunal, mas ele saíra depois de ter rebentado um cano da água a meio do julgamento de um caso de estupro (nas páginas do Intelligencer o caso seria referido como "ataque a uma mulher", que era a forma de descrever esse género de ocorrência nesses tempos, antes do aparecimento em cena de Ricki Lake e Carnie Wilson). Calcularam que o mais certo seria ele ter ido para casa. Numa estrada de terra batida tão estreita e cheia de sulcos que nem sequer me atrevia a percorrê-la com o meu Ford, deram-me algumas indicações que segui até ter encontrado o homem que procurava. Fora o Hammersmith quem escrevera a maior parte dos artigos relativos ao julgamento do Coffey, e através dele eu tomara conhecimento da maior parte dos pormenores que haviam envolvido a breve caçada ao homem que culminara na detenção do Coffey. Como é evidente, estou a referir-me aos aspectos que a redacção do Intelligencer considerou serem demasiado macabros para publicação.
Mrs. Hammersmith era uma mulher ainda bastante jovem, senhora de um rosto bonito, mas que acusava cansaço, e tinha as mãos vermelhas por causa da lixívia. Não me perguntou o que é que me levara ali, limitando-se a conduzir-me através de uma pequena casa cheia da fragrância de biscoitos a cozerem no forno até um alpendre nas traseiras, onde o marido se sentava com uma garrafa de refrigerante na mão, tendo em cima das coxas uma edição da revista Liberty por abrir. O pequeno jardim das traseiras era em declive; na base deste encontravam-se dois garotos que discutiam e riam por causa de um baloiço. Do alpendre era impossível dizer qual era o seu sexo, mas fiquei com a impressão de que eram um rapaz e uma rapariga. É possível que fossem gémeos, o que colocava o pai numa perspectiva bastante interessante á luz do papel periférico que desempenhara no julgamento do Coffey. Mais próximo, como se fosse uma ilha no meio de uma zona coberta de cagalhões onde não havia nada plantado, encontrava
-se uma casota de cão. Não se via o mais pequeno sinal do Fido; era outro dia anormalmente quente, e calculei que deveria estar dentro da sua casota, a passar pelas brasas.
- Burt, tens visitas - anunciou Mrs. Hammersmith. - Está bem - replicou ele. Olhou para mim, olhou para a mulher, depois olhou para os filhos, onde era óbvio que o seu coração se encontrava.
Era um homem magro - quase doentiamente magro, como se só há muito pouco tempo é que houvesse começado a recuperar de uma doença grave - e nas fontes o cabelo já começava a deixar ver umas entradas. A medo, a mulher tocou-lhe num dos ombros com as mãos avermelhadas e inchadas da lavagem da roupa. O marido não a olhou nem fez qualquer menção de lhe desejar tocar; momentos depois, ela retirou a mão. Foi então que me ocorreu, de uma maneira imprecisa, que eles mais pareciam irmã e irmão, em vez de marido e mulher - ele tinha a inteligência, enquanto ela possuía a beleza, mas nem um nem outro conseguira escapar a algumas parecenças que se adivinhavam mais do que se viam, a uma hereditariedade a que nunca se podia escapar. Mais tarde, já a caminho de casa, compreendi que eles não tinham nenhuma semelhança entre si; aquilo que dava essa impressão era o rescaldo de uma tensão latente e um desgosto que teimosamente se recusava a desaparecer. É bastante estranha a forma como o sofrimento marca as nossas feições, emprestando-nos as parecenças existentes entre familiares.
- Apetece-lhe uma bebida fresca, Mister?... - perguntou ela pouco depois.
- O nome é Edgecombe - apresentei-me. - Paul Edgecombe. Muito agradecido. Uma bebida refrescante seria uma maravilha, minha senhora.
Ela regressou ao interior de casa. Estendi a mão a Hammersmith, que a apertou num gesto breve. O seu apertar de mão era flácido e frio. Nunca afastou o olhar dos garotos que brincavam ao fundo do jardim.
- Mister Hammersmith, eu sou o superintendente do Bloco E da Prisão Estadual de Cold Mountain. E...
- Eu sei o que é - atalhou ele, fitando-me com um pouco mais de interesse. - Com que então, o manda-chuva dos guardas prisionais da Milha Verde encontra-se no jardim da minha casa, tão grande como a própria vida. O que é que o fez percorrer oitenta quilómetros para conversar com o único repórter a tempo inteiro do pasquim local?
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- O John Coffey - respondi.
Estou convencido de que eu esperava que ele reagisse de uma maneira mais intensa (as crianças, que poderiam ter sido gémeos, gravadas no fundo da minha mente... e talvez também a casota do cão; os Detterick tinham tido um cão), contudo, o Hammersmith limitou-se a soerguer o sobrolho, bebendo um gole da sua bebida.
- Neste momento, o Coffey é um problema seu, não é verdade? - perguntou o Hammersmith.
- Ele não constitui um grande problema - repliquei. - Não gosta do escuro e passa muito tempo a chorar, mas na nossa linha de trabalho nenhum destes aspectos constitui um problema por aí além. Costumamos ver muito pior.
- Com que então chora muito? - comentou o Hammersmith. - Pois bem, eu diria que ele tem muitas razões para chorar. Tendo em consideração o que fez. O que é que deseja saber?
- Tudo o que me possa dizer. Eu já li os artigos que escreveu para o jornal; portanto, aquilo que me interessa é qualquer coisa que não tenha sido publicada na altura.
Lançou-me um olhar agreste e cheio de secura.
- Tal como por exemplo qual era o aspecto das garotinhas? O que é que ele lhes fez exactamente? É esse o género de pormenores que lhe interessam, Mister Edgecombe?
- Não - respondi, mantendo uma voz calma. - Não é nas gémeas Detterick que eu estou interessado, meu caro senhor. As pobrezinhas já morreram. Mas o Coffey não... pelo menos, ainda não, e sinto-me curioso a respeito dele.
- Muito bem - acedeu o Hammersmith. - Puxe uma cadeira e sente-se, Mister Edgecombe. Desculpar-me-á se lhe dei a impressão de ser um pouco acerbo, mas na minha profissão deparo com muitos abutres. Que diabo, eu próprio já fui acusado muitas vezes de ser um deles. Só queria certificar-me da espécie de pessoa que o senhor é.
- E conseguiu certificar-se? - perguntei.
- Calculo que sim - retorquiu ele num timbre de voz quase de indiferença.
A história que ele me contou assemelha-se bastante ao que eu descrevi anteriormente nesta narrativa - amaneira como Mrs. Detterick deparou com o alpendre vazio e com a
porta de rede solta da dobradiça superior, os cobertores amontoados a um canto e o sangue nos degraus, a forma co
mo o marido e o filho tinham ido em perseguição do raptor das garotas; como o corpo dos guardas civis os tinham alcançado em primeiro lugar e encontrado o John Coffey não muito depois. A forma como o Coffey estivera sentado na margem do rio a lamentar-se e a chorar, com os corpos envolvidos pelos seus braços maciços, como se as garotas fossem grandes bonecas de trapos. O repórter, magro que nem um espeto, com a camisa branca aberta no colarinho e calças cinzentas, expressava-se numa voz baixa desprovida de qualquer emoção... embora os seus olhos jamais se houvessem despregado dos seus próprios dois filhos, enquanto estes riam e implicavam um com o outro, sentando-se um de cada vez no baloiço colocado à sombra, ao fundo do declive do jardim. A certa altura a meio da história, Mrs. Hammersmith regressou com uma garrafa que continha uma bebida caseira não alcoólica feita de raízes, forte e deliciosa. Deixou-se ficar junto de nós por algum tempo, ouvindo a narrativa que interrompeu durante o tempo necessário para chamar as crianças, dizendo-lhes que tinha os biscoitos prestes a saírem do forno.
- Vamos já, mamã! - gritou a garotinha; a mãe voltou a entrar em casa.
- Portanto, o que é que o leva a querer saber mais? - perguntou o Hammersmith depois de ter concluído a sua narrativa. - Nunca fui visitado por um guarda prisional, é a primeira vez que isso acontece.
-Eu já lhe disse...
- Sim, a curiosidade. Eu sei que as pessoas se sentem curiosas, chego mesmo a dar graças a Deus por isso, pois se assim não fosse ficaria sem emprego e talvez me visse obri gado a trabalhar para ganhar a vida. Mas oitenta quilómetros é um percurso bastante grande apenas para satisfazer uma simples curiosidade, especialmente quando os últimos trinta e dois são por estradas más. Por conseguinte, porque é que não me diz a verdade, Edgecombe? Já satisfiz a sua curiosidade, agora é a sua vez de satisfazer a minha.
Pois bem, poderia eu dizer, eu tinha uma infecção urinária e o John Coffey pôs as suas mãos no meu corpo e curou-a. O homem que violou e assassinou essas duas garotinhas fez isso mesmo. Assim, comecei a questionar-me a seu respeito, é claro... qualquer outra pessoa também o faria. Cheguei mesmo a perguntar a mim mesmo se o Homer Cribus e o seu assistente Rob McGee não teriam prendido o homem errado.
Apesar de todas as provas incriminatórias que existiam contra ele, interroguei-me a esse respeito. Porque quando um homem tem nas suas mãos poderes como esse, regra geral não o consideramos capaz de violar e assassinar crianças. Não, talvez isso não fosse o mais adequado.
- Há duas coisas que me intrigam - continuei. - A primeira é saber se ele já tinha feito uma coisa semelhante anteriormente.
O Hammersmith voltou-se para mim; subitamente, os seus olhos reflectiam argúcia aliada a um brilho de interesse, e apercebi-me de que era um fulano inteligente. Talvez fosse mesmo brilhante.
- Porquê? - perguntou. - O que é que você sabe, Edgecombe? O que é que ele lhe disse?
- Nada. Mas um tipo que faz este género de coisa uma vez, normalmente já a fez noutra ocasião. Adquirem o gosto por isso.
- Sim - concordou ele. - De facto. Lá isso adquirem. - E ocorreu-me que seria bastante fácil investigar o seu passado e saber se é ou não verdade. Um homem do tamanho dele e ainda por cima negro, não deve ser muito difícil de localizar.
- Isso é o que o senhor pensa, mas chegaria à conclusão de que está redondamente enganado - retorquiu ele. - Pelo menos no caso do Coffey. Eu sei o que estou a dizer.
- Já tentou?
- Já e não cheguei a conclusão nenhuma. Dois homens que trabalham no caminho-de-ferro pensaram tê-lo avistado nos estaleiros de Knoxville, dois dias antes de as garotas Detterick terem sido mortas. O que não constituiu grande surpresa; ele encontrava-se do outro lado do rio em relação à linha do caminho-de-ferro da Great Southern quando eles o apanharam e, provavelmente, foi dessa maneira que aqui chegou vindo do Tennessee. Recebi uma carta de um homem que me disse que tinha contratado um negro, corpulento e calvo, para carregar e descarregar caixotes, no início da Primavera desse ano, no Kentucky. Enviei-lhe uma fotografia do Coffey e ele confirmou que se tratava do mesmo homem. Mas para além disso... - O Hammersmith encolheu os ombros e abanou a cabeça.
- Não acha que isso é um pouco estranho? - perguntei. - Parece-me que é até muitíssimo estranho, Mister Edge
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combe. É como se ele tivesse caído do céu. E ele próprio não serve de grande ajuda; não é capaz de se recordar esta semana daquilo que aconteceu na anterior.
- Não, de facto, não é - concordei. - Como é que o senhor explica isso?
- Estamos no meio da Grande Depressão - respondeu ele -, é assim que eu explico a situação. Por todas as estradas só se vê gente. Os de Oklahoma querem ir para a Califór nia apanhar pêssegos, enquanto os brancos pobres vindos dos confins pretendem ir para Detroit trabalhar nas fábricas de automóveis; por seu lado, os negros do Mississipi desejam ir para a Nova Inglaterra trabalhar nas fábricas de calçado ou na indústria têxtil. Todos, quer sejam brancos ou negros, estão convencidos de que, a sua situação económica melhorará noutro lugar qualquer. E o raio da maneira de viver dos Americanos. Até mesmo um gigante como o Coffey não desperta as atenções onde quer que vá... isto é, até decidir matar duas rapariguinhas. Duas rapariguinhas brancas.
- Acredita realmente nisso? - perguntei.
- Por vezes acredito - respondeu o Hammersmith, lançando-me um olhar brando com o seu rosto demasiado magro. Entretanto, a mulher assomara à janela da cozinha, qual maquinista na dianteira de uma automotora.
- Meninos! Os biscoitos estão prontos! - Voltou-se para mim. - Apetece-lhe um biscoito de aveia com passas, Mister Edgecombe?
- Tenho a certeza de que estão deliciosos, minha senhora, mas desta vez declino a oferta.
- Está bem - redarguiu ela, regressando à cozinha. - Já reparou nas cicatrizes que ele tem no corpo? - perguntou o Hammersmith abruptamente. Continuava a observar os filhos, os quais não conseguiam afastar-se dos prazeres do baloiço, nem sequer perante a perspectiva de poderem comer biscoitos de aveia com passas.
- Sim - respondi, sentindo-me surpreendido por ele as ter visto.
O Hammersmith reparou na minha reacção e riu-se.
- A grande vitória do advogado de defesa foi fazer com que o Coffey despisse a camisa para mostrar essas mesmas cicatrizes ao júri. O advogado da acusação, o George Peterson, protestou que se fartou, mas o juiz permitiu que ele as mostrasse. O velho George poderia ter poupado o seu fôle
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go... Os jurados por estas bandas não se deixam convencer por toda essa psicologia da treta de que as pessoas que foram maltratadas não são capazes de conter os seus impulsos malévolos. Acreditam que as pessoas podem evitar essas acções. É um ponto de vista por que eu nutro bastante simpatia... mas o certo é que essas cicatrizes eram bastante chocantes. Reparou em alguma coisa de especial nelas, Edgecombe?
Tivera oportunidade de ver o homem nu no chuveiro... e claro que reparara; compreendia perfeitamente de que é que o Hammersmith estava a falar.
- São todas entrecruzadas, chegam mesmo a assemelhar.Se quase a uma treliça.
- Sabe o que é que isso significa?
- Que alguém o zurziu com toda a violência quando ainda era criança, como se quisesse matá-lo - respondi. - Antes de ter crescido tudo o que tinha a crescer.
- Mas a realidade é que ele não morreu, não é verdade, Edgecombe? Poderiam ter poupado o chicote, limitando-se a afogá-lo no rio, como se fosse um gatinho abandonado, não lhe parece?
Suponho que teria sido de boa política eu ter concordado, pondo-me a andar dali para fora, mas senti-me incapaz de o fazer. Eu tinha-o visto. E também o tinha sentido. Sentira o toque das suas mãos.
- Ele é... estranho - acrescentei. - Mas o certo é que parece não existir uma violência verdadeira no seu íntimo. Estou a par das circunstâncias em que ele foi encontrado, e é bastante difícil equacionar isso com o que vejo nele, dia após dia, lá na prisão. Sei como são os homens violentos, Mister Hammersmith. - Naquele momento, como é evidente, era no Wharton que eu pensava, no Wharton a tentar estrangular o Dean Stanton com a corrente que lhe prendia os pulsos, gritando: Ennaaa, rapazes! Isto é que é uma festa de arromba, não acham?
Naquele momento, o Hammersmith olhava para mim com toda a sua atenção, esboçando um pequeno sorriso de incredulidade que, devo confessar, não me agradou muito.
- O senhor não veio até minha casa para saber se ele teria ou não morto qualquer outra garotinha algures - observou ele. - Veio cá para averiguar se eu acho que ele possa
tê-lo feito. É isso, não é verdade? Confesse-se, Edgecombe. Bebi o que restava da minha bebida e coloquei a garrafa sobre uma mesinha.
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- Pois bem. Acha que sim? - perguntei.
- Meninos! - gritou ele, chamando os filhos, e inclinando-se um pouco para a frente. - Venham já para aqui e vão comer os vossos biscoitos! - Em seguida, voltou a recostar-se para trás na cadeira, olhando para mim. Aquele pequeno sorriso, aquele que não me agradava muito, voltou a reaparecer nos seus lábios. - Vou dizer-lhe uma coisa - continuou ele. - Também vai querer ouvir com bastante atenção, porque isto poderá ser a tal coisa que precisa de saber.
- Estou a ouvir - redargui.
- Nós tínhamos um cão a que chamávamos Sir Galahad - disse ele, indicando a casota do cão com o polegar apontado. - Era um bom cão. De nenhuma raça em especial, mas meigo. Calmo. Sempre pronto a lamber-nos a mão ou a ir buscar um pau que tivéssemos arremessado. Há uma data de cães rafeiros como ele, não lhe parece?
Encolhi os ombros e assenti.
- Sob muitos aspectos, um bom cão rafeiro assemelha-se muito ao seu negro - continuou o Hammersmith. - Ficamos a conhecê-lo e com muita frequência começamos a dedicar-lhe afecto. Não serve qualquer objectivo em particular, mas ainda assim continuamos a mantê-lo connosco, porque pensamos que ele gosta de nós. Quando se tem sorte, Mister Edgecombe, nunca se chega a verificar qué isso não corresponde à verdade. A Cynthia e eu não tivemos essa sorte. - Suspirou... um som alongado e de uma certa forma fantasmagórico, como o vento a dispersar folhas mortas caídas no chão. Uma vez mais, apontou na direcção da casota do cão, o que me fez perguntar a mim mesmo como é que eu não tinha ainda reparado no estado geral de abandono a que fora votada, ou no facto de muitos dos excrementos terem adquirido na superfície uma camada esbranquiçada e esboroável. - Eu costumava limpar as porcarias que ele fazia - continuou o Hammersmith -, e mantinha sempre o tecto da casota em boas condições, para que não entrasse chuva no interior. Nesse aspecto, o Sir Galahad também era como o seu negro do Sul, que não é capaz de fazer essas coisas para seu benefício. Agora nem lhe toco, desde o acidente que não me aproximo da casota... se é que se lhe pode chamar um acidente. Fui até ali com a minha carabina e disparei sobre ele, mas desde então mantenho-me afastado. Não consigo aproximar-me. Suponho que acabarei por o fazer, com o tempo. Limparei as porcarias e destruirei a casota.



Naquele momento, as crianças dirigiam-se para casa e, de repente, eu não quis que elas avançassem; de súbito, aquela era a última coisa à face da Terra que eu desejava que aconte cesse. A garotinha não apresentava nada de anormal, mas o rapazinho...
Subiram os degraus com estrépito, olharam para mim e começaram a rir-se à socapa, dirigindo-se para a porta da cozinha...
- Caleb - chamou o Hammersmith. - Vem até aqui. Só por um minuto...
A garotinha - de certeza que era gémea do garoto, ambos tinham de ser da mesma idade - continuou em direcção à cozinha. O rapazito aproximou-se do pai, mantendo o olhar preso nos pés. Tinha consciência de que era feio. Teria apenas uns quatro anos, calculei eu, mas com aquela idade já tinha a percepção du que era feio. O pai colocou dois dedos por baixo do queixo do filho, tentando obrigá-lo a erguer o rosto. De início, o garoto opôs resistência, até o pai ter recomeçado a falar.
- Por favor, meu filho - proferiu ele num tom de tanta doçura, amor e tranquilidade, que o garoto fez como lhe era pedido.
Da linha do couro cabeludo, atravessando-lhe a testa, saía uma cicatriz enorme e circular, que percorria um olho sem vista, indiferente e retorcido, e se estendia até um dos cantos da boca, que apresentava um aspecto desfigurado, semelhante ao esgar cheio de cinismo de um batoteiro, ou talvez de um homem libertino. Uma das faces era macia e bonita; a outra estava toda arrepanhada como o cepo irregular de uma árvore. Calculo que naquela superfície tivesse existido um buraco, mas, pelo menos isso havia sarado.
- Ele só vê de uma vista - informou o Hammersmith, acariciando a face deformada do filho num gesto cheio de amor. - Suponho que ele teve sorte por não ter cegado dos dois olhos. Costumamos ajoelharmo-nos e dar graças a Deus por essa benesse. Não é verdade, Caleb?
- Sim, senhor - respondeu o garoto com timidez... o garoto que seria espancado sem qualquer piedade no recreio da escola pelos colegas arruaceiros que fariam troça de si, a
troco de uns miseráveis anos de uma educação escolar de má qualidade; o garoto que nunca iriam chamar para tomar parte nas suas brincadeiras, e que, provavelmente, jamais haveria
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de ter oportunidade de dormir com uma mulher cujos serviços não houvesse pago antecipadamente, quando chegasse àquela idade adulta em que isso passaria a ser uma necessidade; o garoto que iria estar sempre à margem do círculo iluminado e acolhedor formado pelos seus pares, o garoto que iria olhar-se ao espelho durante os próximos cinquenta, sessenta ou setenta anos, pensando sempre: "Feio, feio, feio!"
- Vai à cozinha buscar os teus biscoitos - disse-lhe o pai, beijando a boca de esguelha do filho.
- Sim, senhor - aquiesceu Caleb, correndo para dentro de casa.
O Hammersmith retirou um lenço do bolso de trás das calças, e limpou os olhos: naquele momento estavam secos, mas imagino que se tenha habituado a tê-los sempre humedecidos.
- O cão já estava cá em casa quando eles nasceram - continuou ele. - Levei-o até casa para os farejar quando a Cynthia regressou com eles da maternidade; o Sir Galahad lambeu-lhes as mãos. As mãos pequenas dos meus filhos. - O Hammersmith acenou com a cabeça como se estivesse a confirmar aquele facto perante si mesmo. - Costumava brincar com eles; lambia o rosto da Arlen até ela não poder conter o riso. O Caleb costumava puxar-lhe as orelhas e, quando começou a dar os primeiros passos, às vezes circundava o jardim agarrado à cauda de Sir Galahad. O cão nem sequer lhe dirigia um rosnar. A nenhuma das crianças.
Naquele momento as lágrimas já lhe tinham assomado aos olhos; limpou-as num gesto automático, tal como um homem costuma fazer depois de ter adquirido muita prática.
- Não havia qualquer razão para isso - prosseguiu ele. - O Caleb não lhe fazia mal, não gritava com o animal, nada de nada. Eu sei. Estava sempre presente. Se não estivesse, quase de certeza que o meu filho teria morrido. O que aconteceu, Mister Edgecombe, resume-se a nada. O garoto limitou-se a colocar a sua face directamente em frente do focinho do cão, e ocorreu à mente do Sir Galahad... ou ao que quer que seja que um cão tem por mente... atirar-se a ele para lhe morder. Com a intenção de matar, se a oportunidade lhe surgisse. A criança encontrava-se mesmo à sua frente e o cão não hesitou em morder. E foi isso mesmo que aconteceu com o Coffey. Ele estava lá, viu as garotas no alpendre, apossou-se delas, violou-as e depois assassinou-as. O senhor diz que deve
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haver qualquer indício de que ele tenha cometido anteriormente algo semelhante, e eu compreendo o que quer dizer, mas acontece que talvez ele não tenha feito nada disso antes. O meu cão nunca tinha abocanhado ninguém; isso só aconteceu dessa vez. Talvez, caso o Coffey fosse libertado, nunca mais voltasse a cometer um acto desses. É possível que o meu cão jamais voltasse a morder em alguém. No entanto, eu não me preocupei com essa probabilidade, bem vê. Fui buscar a minha carabina, agarrei-o pela coleira e alvejei-o em cheio no focinho.	.
O Hammersmith respirava a custo.
- Sou uma pessoa tão esclarecida como qualquer outra, Mister Edgecombe. Frequentei a Universidade em Bowling Green, formei-me em História e Jornalismo, e também estudei Filosofia. Gosto de me considerar um homem esclarecido. Não me parece que a gente do Norte fosse dessa opinião, mas agrada-me pensar que sou um homem esclarecido. Por nada deste mundo estaria disposto a fazer reviver a escravatura. Na minha opinião, devemos ser humanos e generosos e envidar todos os esforços para resolver os problemas de natureza racial. Todavia, não podemos esquecer-nos de que o seu negro voltará a morder se a oportunidade lhe voltar a aparecer, tal como um cão rafeiro abocanhará se a hipótese lhe surgir e caso se lhe meta isso na cabeça. O senhor quer saber se ele cometeu esse acto, o seu Coffey lacrimoso, com o corpo coberto de cicatrizes, não é verdade?
Acenei afirmativamente.
- Oh, sim - prosseguiu o Hammersmith. - Fê-lo, sim. Que não lhe reste a mais pequena dúvida e tome a precaução de não se pôr de costas para ele. É possível que não lhe acon teça nada uma vez, ou cem vezes... até mesmo um milhar de vezes... mas no fim... - Ergueu uma mão em frente dos meus olhos e fez estalar os dedos rapidamente, transformando a mão numa boca que morde. - Está a compreender o que lhe digo?
Acenei que sim uma vez mais.
- Ele violou as garotas, em seguida matou-as e depois lamentou o seu acto... mas, apesar disso, essas duas meninas não deixaram de ter sido violadas, essas duas meninas continuaram mortas. Mas vai tratar-lhe da saúde, não é verdade, Edgecombe? Daqui a algumas semanas, certificar-se-á de que ele jamais volta a ter a oportunidade de cometer um acto des
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ses. - Com aquelas palavras, o Hammersmith ergueu-se da cadeira e dirigiu-se para o alpendre, lançando um olhar vago na direcção da casota do cão, erguida no meio daquele bocado de terreno mal cuidado, no centro daqueles excrementos já antigos. - Talvez possa desculpar - continuou ele -, mas, uma vez que não tenho de passar a tarde no tribunal, pensei em aproveitar a aportunidade para estar um pouco com a família. Os filhos só são crianças uma vez.
- Não se prenda por mim - disse eu. Sentia os lábios dormentes, como se não me pertencessem. - Permita-me que lhe agradeça o tempo que me dispensou.
- Não tem importância - retorquiu ele.
Conduzi directamente da casa do Hammersmith para a penitenciária. Foi um percurso bastante longo, e desta feita não consegui encurtá-lo entoando canções. Tinha a impressão de que todas as canções me haviam abandonado, pelo menos durante algum tempo. Continuava a ter gravada na mente a imagem daquele garotinho com a face desfigurada. Assim como a mão do Hammersmith, com os dedos a deslocarem-se para cima e para baixo contra o polegar, simulando algo que abocanhava.
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O Bill "Selvagem" Wharton efectuou a sua primeira jornada até à cela do isolamento logo no dia seguinte. Passou a manhã e a tarde sossegado e manso que nem um cordeirinho, um estado de espírito que, viemos a descobrir ao fim de pouco tempo, não era nada normal na sua maneira de ser e que só significava a aproximação de complicações. Então, por volta das sete e meia desse fim de tarde, o Harry sentiu algo morno a molhar-lhe a bainha das calças do uniforme que vestira limpas nesse mesmo dia. Era mijo. O William Wharton estava de pé junto das barras da cela, mostrando os seus dentes enegrecidos num esgar desmesuradamente arreganhado, e mijava na direcção dos sapatos e das calças do Harry Terwilliger.
- O porco do filho da puta deve ter andado a conter o mijo durante todo o dia - disse o Harry mais tarde, ultrajado e enfurecido.
Pois bem,
foi assim que as coisas aconteceram. Tinha
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chegado a altura de mostrar ao William Wharton quem é que era o dono da festa do Bloco E. O Harry chamou-nos, ao Brutal e a mim; eu alertei o Dean e o Percy, que também estavam de serviço. Como estão recordados, naquela altura tínhamos três encarcerados e procedíamos àquilo a que chamávamos uma vigilância apertada, com o meu grupo a entrar ao serviço às sete da tarde e a sair às três da manhã - período da noite em que era mais provável ocorrerem complicações - e dois outros turnos cobriam o resto do dia. Estes dois últimos grupos eram constituídos maioritariamente por temporários, e o Bill Dodge era, por via de regra, o responsável por eles. Levando tudo em consideração, até que não era uma maneira ineficaz de gerir a situação, e eu achava que, assim que conseguisse transferir o Percy para o turno do dia, a vida melhoraria bastante. Contudo, nunca cheguei a ter oportunidade de concretizar esse plano. Por vezes, pergunto a mim mesmo se a situação se teria alterado, tivesse eu conseguido levar essa ideia a bom termo.
Seja como for, na arrecadação existia um ramal da canalização da água, numa das paredes afastada da Velha Faísca. O Dean e o Percy ligaram-lhe uma mangueira de lona. Ficavam junto da válvula para poderem abrir, caso tal fosse necessário.
O Brutal e eu dirigimo-nos num passo apressado para a cela do Wharton, onde este continuava de pé com o mesmo esgar e com a ferramenta pendurada fora da braguilha. Eu já tinha retirado o colete-de-forças da cela do isolamento e pusera-o em cima de uma prateleira no meu gabinete na noite anterior antes de ir para casa, pensando que o mais certo seria virmos a precisar dele para a nossa nova criança problemática. Naquele momento, já o tinha na mão, com o dedo indicador debaixo de uma das correias de lona. O Harry vinha atrás de nós, arrastando a mangueira, que atravessava o meu gabinete, descia pelos degraus da sala da arrecadação e ia até à válvula que deveria ser accionada pelo Percy logo que possível.
- Ei, gostaram da minha brincadeira? - perguntou o Bill Selvagem. Ria-se como uma criança num parque de diversões, as suas gargalhadas eram tantas que quase o impediam de falar, e pelas faces começaram a escorrer-lhe lágrimas gordas. - Vocês vieram todos tão depressa que devem ter gostado. Agora estou a preparar alguns cagalhões para acompanhar
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o mijo. Uns que sejam bem bons, macios. Amanhã já poderei oferecê-los a todos...
Entretanto, ele viu que eu abria a porta da cela; os seus olhos estreitaram-se. Viu que o Brutal empunhava o revólver numa das mãos e o bastão na outra; os seus olhos semicerraram-se ainda mais.
- Vocês podem entrar aqui trazidos pelas vossas pernas, mas sairão deitados de costas. É o Billy the Kid quem vos garante isso - disse-nos ele todo cheio de fanfarronice. O seu olhar desviou-se para mim. - E se estão a pensar que vão conseguir vestir-me esse casaco de malucos, preparem-se para uma grande surpresa, meus velhos.
- Não és tu quem dá as ordens por aqui - repliquei. - Já devias ter compreendido isso, mas calculo que sejas demasiado idiota para conseguir aprender alguma coisa.
Acabei de abrir a porta da cela, tendo-a feito correr sobre a calha. O Wharton recuou até junto da tarimba, continuando a manter a picha pendurada de fora da braguilha, embora ti vesse as mãos estendidas na minha direcção, com as palmas para cima, indicando-me com os dedos que me aproximasse. - Chega-te cá, meu grandessíssimo filho da puta. - insultou-me ele. - Podes ter a certeza que alguém vai aprender alguma coisa, mas aqui o rapaz é que está preparado para ser o professor. - Desviou o olhar para o Brutal, tendo-o mimoseado com o seu esgar de dentes enegrecidos. - Aproxima-te, matulão, tu vais ser o primeiro a levá-las. Desta vez não podes apanhar-me de surpresa pelas costas. Baixa a arma... em qualquer dos casos, não vais atrever-te a dispará-la, não tens coragem, vamos lá, de homem para homem. Vamos ver quem é que leva a melhor...
O Brutal entrou na cela, mas não se dirigiu ao Wharton. Depois de ter transposto a porta, deslocou-se para a esquerda. Os olhos que o Wharton mantivera semicerrados até então começaram a arregalar-se ao ver a mangueira apontada ao seu peito.
- Não, vocês não vão fazer isso - atalhou ele. - Oh, não, vocês...
-Dean! - gritei. - Abre a válvulal Abre-a toda!
O Wharton deu um salto em frente, e o Brutal acertou-lhe em cheio na testa - a espécie de golpe com que certamente o Percy passava a vida a sonhar - assentando o bastão com toda a força acima do sobrolho do Wharton. Este, que dava a
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impressão de estar convencido de que nunca nos víramos em situações daquelas antes de ele ter aparecido no bloco, caiu logo de joelhos, com os olhos abertos mas sem ver nada. Em seguida, a água começou a jorrar da mangueira, fazendo com que o Harry cambaleasse para trás devido ao impacte do jorro, mas ele equilibrou-se logo, mantendo o bocal nas mãos apontado como se fosse uma arma. O forte esguicho de água apanhou o Bill "Selvagem" Wharton em cheio no peito, fazendo-o rodopiar descontroladamente e arremessando-o para debaixo da tarimba. Na sua cela, mais abaixo no corredor, o Delacroix saltava ora em cima de um pé ora em cima do outro, cacarejando numa voz esganiçada e praguejando contra o John Coffey, exigindo que este lhe dissesse o que é que estava a passar-se, enquanto este, por seu lado, choramingava; no meio de toda aquela algaraviada, o Delacroix perguntava ainda como é que o grand foul do novo rapaz gostava daquele tratamento de água, estilo tortura chinesa. O John não lhe respondeu, limitando-se a ficar em silêncio com as suas calças demasiado curtas e as pantufas da prisão. Só lhe lancei um rápido olhar, mas este foi o suficiente para ver nele a mesma velha expressão, a qual reflectia uma mistura de tristeza e serenidade. Ficava-se com a sensação de que ele já tinha assistido a situações daquelas, não apenas uma ou duas vezes, mas sim num milhar de ocasiões diversas.
- Fecha a água! - gritou o Brutal por cima do ombro antes de avançar a correr pela cela adentro. Agarrou firmemente no semiconsciente Wharton por baixo dos sovacos, co
meçando a arrastá-lo de debaixo da tarimba. O Wharton tossia, emitindo sons gorgolejados. O sangue escorria-lhe para os olhos esbugalhados, vindo da região acima das sobrancelhas, onde o bastão do Brutal lhe abrira um rasgo na pele.
Para o Brutal Howell e para mim, a rotina do colete-de-forças já se tinha transformado numa ciência cheia de precisão; ambos praticáramos o processo, como se fôssemos um
par de dançarinos de sapateado a executar um novo número. De vez em quando, essa prática pagava os seus dividendos. Como por exemplo, naquela circunstância. O Brutal ajudou o Wharton a levantar-se do chão, estendendo os braços para mim, da mesma maneira que uma criança seguraria num boneco desconjuntado. A percepção do que tinha acontecido só
em francês no original: "grande louco". (N. da T.)
naquele momento começava a espelhar-se no olhar do Wharton, ciente de que, se não começasse a debater-se de imediato, pouco depois seria tarde de mais, mas a ligação entre o seu cérebro e os músculos continuava sem funcionar e, antes que ele conseguisse voltar a activá-la, enfiei-lhe nos braços as mangas do colete-de-forças, enquanto o Brutal prendia as fivelas nas costas. Entretanto, agarrei nas correias dos punhos, puxei os braços do Wharton de forma a rodearem-lhe os flancos e uni-lhe os pulsos com outra correia de lona. O resultado final foi ele parecer que estava a abraçar-se.
- Raios te partam, meu grandessíssimo atrasado mental... Como é que eles se estão a sair com ele? - perguntava o Delacroix em altos berros. Também ouvi os guinchos do Mister Jingles, como se o rato também desejasse inteirar-se da situação.
Entretanto, apareceu o Percy com a camisa toda molhada e com a fralda de fora, devido ao esforço com a válvula da água; era tanta a excitação que ele sentia que tinha o rosto iluminado. O Dean surgiu logo atrás dele, trazendo à volta da garganta um colar formado por hematomas de tom púrpura, e com uma expressão muito menos excitada do que a do colega.
- Agora toca a andar, Bill Selvagem - disse eu, puxando pelo Wharton, para que ele se levantasse do chão. - Seu pacóvio.
- Não me chames isso! - vociferou ele, gritando esganiçadamente, e parece-me que, pela primeira vez, tivemos ocasião de detectar emoções verdadeiras, e não apenas aspectos camuflados de um animal esperto. - O Bill "Selvagem" Hickokl não era nenhum montanhês! Também nunca lutou contra nenhum urso com uma faca Bowie!2 Não passava de um outro tarado do mato que obedecia à lei! Um idiota de um filho da puta que se sentou de costas para a porta e foi morto por um bêbedo!
- Ora não querem lá ver isto, uma lição de história! - exclamou o Brutal, empurrando o Wharton para fora da cela. - Um tipo nunca sabe o que lhe vai acontecer quando inicia o seu dia de trabalho por aqui, só sabe que até pode ser uma
' James Butler Hickok "Bill Wild", 1837-1876. (N. da T.)
z Faca de grandes dimensões com lâmina de um só gume, que deve o seu nome a James Bowie, e foi concebida por ele próprio ou pelo irmão Rezin P. Bowie. (N. da T.)
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coisa agradável. Mas com tanta gente simpática como tu por estas bandas, calculo que isso tenha uma certa razão de ser, não concordas? E sabes que mais? Daqui a pouco tempo, serás tu quem terá passado à história, Bill Selvagem. Entretanto, toca a andar pelo corredor. Temos uma sala à tua espera. É um lugar onde podes arrefecer as ideias.
O Wharton soltou um berro enfurecido e desarticulado, investindo contra o Brutal, apesar de se encontrar manietado pelo colete-de-forças, com os braços em redor do torso e pre
sos nas costas. O Percy fez menção de sacar do seu bastão - a Solução Wetmore para todos os problemas da vida - mas o Dean deteve-o, colocando-lhe uma mão no pulso. O Percy lançou-lhe um olhar intrigado e um tanto indignado, como que a dizer-lhe que, depois de tudo o que o Wharton lhe tinha feito, o Dean deveria ser a última pessoa à face da Terra a desejar impedi-lo de prosseguir.
O Brutal empurrou o Wharton para trás. Agarrei-o e empurrei-o na direcção do Harry. Por seu lado, este impeliu-o através da Milha Verde, passando pelo jubilante Delacroix e
pelo impassível Coffey. O Wharton prosseguiu a correr para não cair de rosto em cheio no chão; durante todo o percurso não deixou de soltar imprecações. Cuspia-as da mesma forma que o maçarico de um soldador cospe fogo. Atirámo-lo para dentro da última cela do lado direito, enquanto o Dean, o Harry e o Percy (que para variar não reclamava pelo facto de o fazerem trabalhar em excesso) retiravam toda a tralha que se encontrava no interior da cela do isolamento. Enquanto eles tratavam daquela tarefa, tive uma pequena conversa com o Wharton.
- Estás convencido de que és um tipo duro - comecei a dizer -, e talvez sejas, meu menino, mas aqui a dureza não tem o mínimo significado. Os teus dias de arruaceiro chegaram ao fim. Se nos facilitares as coisas, nós também facilitaremos a tua vida aqui. Caso decidas dificultar a situação, acabarás por morrer à mesma, com a diferença de que te aguçaremos como a ponta de um lápis antes de marchares para o além.
- Vais sentir-te muito feliz quando me vires pelas costas - replicou o Wharton numa voz enrouquecida. Não parava de se debater dentro do colete-de-forças, embora soubesse
que não lucraria nada com os seus esforços; as suas bochechas estavam tão vermelhas como um tomate maduro. -
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Mas até eu desaparecer, hei-de transformar a vossa vida num verdadeiro inferno. - Arreganhou-me os dentes como se fosse um gorila enfurecido.
- Se é isso o que desejas, transformar a nossa vida num inferno, podes desistir já, uma vez que conseguiste alcançar o teu objectivo - interveio o Brutal. - Mas quanto ao tempo que hás-de passar na Milha, Wharton, não nos incomoda minimamente que o passes todo fechado na sala com as paredes almofadadas. Também poderás usar esse casaco para tarados até os teus braços gangrenarem devido à falta de circulação sanguínea, acabando por te cair do corpo. - Fez uma pausa. - Não sei se sabes, mas não costuma vir muita gente até aqui abaixo. E se pensas que alguém se importa com o que possa acontecer-te, seja lá o que for, acho que é melhor reconsiderares. Para o mundo, tu já és um criminoso morto.
O Wharton examinava o Brutal com toda a atenção, tendo começado a desaparecer-lhe do rosto a fúria que sentira. - Deixem-me sair disto - pediu ele num tom de voz apaziguador... Um tom demasiado racional e sensato para ser verdadeiro. - Eu porto-me bem. Prometo que sim.
O Harry surgiu à entrada da cela. A extremidade do corredor assemelhava-se muito a uma venda ao ar livre, mas depois de metermos mãos à obra iríamos pôr tudo aquilo em or dem num ápice. Não seria a primeira vez que teríamos de dar conta daquela tarefa, já conhecíamos a rotina.
- Está tudo a postos - anunciou o Harry.
O Brutal agarrou na saliência da lona, por baixo da qual se encontrava o cotovelo direito do Wharton, e puxou-o para que se pusesse de pé.
- Vamos lá, Billy Selvagem. Olha para o lado positivo da situação. Vais ter pelo menos vinte e quatro horas para recordar a ti mesmo que nunca deverás sentar-te de costas para a porta, nem agarrar-te demasiado aos trunfos.
- Deixem-me sair disto - repetiu o Wharton. Olhou para o Brutal, para o Harry e por último para mim, com o tom avermelhado a voltar a apossar-se do seu rosto: - Eu porto-me bem... Garanto-vos que aprendi a lição. Eu... eu... aaaaahhhhhhh!...
De repente, sucumbiu; metade do corpo caiu dentro da cela e a outra metade estatelou-se sobre a Milha Verde, dando pontapés e contorcendo-se todo.
- Jesus Cristo! Ele está a ter uma convulsão - sussurrou o Percy.
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- Com certeza, e a minha irmã é a prostituta da Babilónia - retorquiu o Brutal. - Ela costuma executar a dança do ventre para o Moisés aos sábados à noite, com um véu
branco muito comprido. - Baixou-se e passou uma mão por baixo de um dos sovacos do Wharton. Agarrei-o pelo outro. O homem debatia-se entre nós como se fosse um peixe que tivesse acabado de morder o anzol. Transportar o seu corpo que não parava de se agitar, ouvi-lo resmungar por uma das aberturas e a peidar-se pela outra, foi uma das minhas experiências de vida menos agradáveis. -
Ergui o olhar e por breves segundos ele cruzou-se com o do John Coffey. Os olhos dele estavam raiados de sangue e tinha as faces humedecidas. Uma vez mais, o homem havia
estado a chorar. Ocorreu-me a imagem do Hammersmith a fazer com a mão o gesto de abocanhar, e senti o corpo percorrido por um pequeno arrepio. Voltei a dedicar toda a minha atenção ao Wharton.
Atirámos com ele para dentro da cela do isolamento, como se fosse uma saca de batatas, e vimo-lo no chão a escoicear dentro do colete-de-forças, junto do ralo onde em tempos
havíamos procurado o rato que começara a sua existência no Bloco E sob o nome de Steamboat Willy.
- Não me incomodo muito se ele engolir a língua ou qualquer outra coisa e morra - disse o Dean na sua voz áspera e enrouquecida -, mas, rapazes, pensem na papelada a que isso dará origem! Nunca mais tinha fim.
- Não te incomodes com a papelada, pensa mas é no inquérito - atalhou o Harry com uma expressão desalentada. - Acabaríamos por perder a porra dos nossos empregos.
O nosso destino seria apanhar ervilhas no Mississípi. Sabem o que é o Mississípi, não sabem? É a palavra índia para olho do cu.
- Ele não vai morrer nem vai engolir a língua - atalhou o Brutal. - Amanhã, quando abrirmos esta porta, vão ver que estará bem de saúde. Acreditem no que vos digo.
E de facto foi assim que as coisas se passaram. O homem que conduzimos de regresso à sua cela na noite seguinte ia calado e pálido, dando a impressão de ter sido disciplinado.
Caminhava de cabeça baixa, não tendo feito menção de atacar alguém quando o retirámos do colete-de-forças, limitando-se a fitar-me com uma expressão absorta quando eu lhe disse que aquele processo se repetiria da próxima vez, pelo que ele
só tinha de se interrogar sobre quanto mais tempo desejava passar a mijar nas próprias calças e a ingerir comida em papas que lhe eram dadas à colher.
- Eu porto-me bem, chefe. Já aprendi a lição - murmurou ele numa voz humilde e a medo quando o colocámos de novo na sua cela. O Brutal olhou para mim e piscou-me o olho.
Mais tarde, no dia seguinte, o William Wharton, que para si próprio era Billy the Kid e nunca aquele tarado do mato, o Hickok, homem cumpridor da lei, o Bill Selvagem, comprou
um bolo ao velho Pouca Terra. O Wharton havia sido expressamente proibido de efectuar esse tipo de transacção comercial, mas o turno da tarde era composto apenas por temporários, tal como parece que já vos disse, pelo que o negócio se verificou. Sem dúvida que o próprio Pouca Terra deveria ter estado alertado em relação a tal facto, mas para ele o carrinho onde transportava a comida era sempre uma fonte de lucro.
Nessa mesma noite, quando o Brutal efectuou a ronda, o Wharton estava de pé junto das barras da cela. Aguardou que o Brutal erguesse o olhar para si, depois bateu fortemente
com a palma das mãos nas bochechas que estavam inchadas, fazendo jorrar da boca um jacto espesso e espantosamente comprido de massa de chocolate, que foi acertar em cheio no rosto do Brutal. Tinha enfiado o bolo inteiro na boca, mantivera-o lá até se ter liquefeito e cuspira-o como se fosse um naco de tabaco mascado.
Em seguida, o Wharton deixou-se cair em cima da tarimba, com o queixo sujo de chocolate, esperneando e gritando por entre sonoras gargalhadas, enquanto apontava para o Brutal, cujo rosto estava todo sujo de chocolate.
- Tal e qual um escarumba, sim senhor, patrão, sim senhor, como é que vossemecê tem passado? - O Wharton agarrava-se à barriga, soltando uivos. - Se ao menos tivesse sido caca! Quem me dera que tivesse sido! Se eu tivesse tido alguma à mão...
- Tu é que és uma caca - vociferou o Brutal -, e espero bem que tenhas feito as malas, porque vais regressar à tua retrete preferida.
Uma vez mais, o Wharton foi manietado no colete-de-forças e voltámos a atirar com ele para dentro da sala de paredes almofadadas. Desta feita, ficou nessa cela durante dois
dias. Às vezes chegavam-nos aos ouvidos os seus rugidos en
furecidos, outras vezes ouvíamo-lo a prometer que se portaria bem, que passaria a ter juízo e a ser bonzinho e às vezes gritava que precisava de um médico, que estava à beira da morte. No entanto, esteve calado durante a maior parte do tempo. E, quando voltámos a retirá-lo da cela do isolamento, também se remeteu ao mutismo, regressando à sua cela com a cabeça baixa e olhos inexpressivos, sem dar qualquer réplica quando o Harry lhe dirigiu a palavra.
- Recorda-te que isto só depende de ti. - Com certeza que se comportaria como devia ser durante algum tempo, mas depois tentaria outra coisa qualquer. Ele não podia fazer nada que não houvesse sido tentado em ocasiões anteriores (bem, talvez com a excepção da habilidade com o bolo de chocolate; até o Brutal foi forçado a admitir que tinha sido bastante original); no entanto, a persistência que ele mostrava era, por si só, assustadora. Eu tinha receio que, mais cedo ou mais tarde, isso chamasse a atenção de alguém, dando origem a um verdadeiro inferno. E aquela situação poderia vir a arrastar-se por mais algum tempo, uma vez que o Wharton tinha um advogado algures que não parava de arengar perante quem o gmsesse ourar o quanto seria errado executar aquele fulano na flor da idade... e que, incidentalmente, era tão branco como os melhores. Não fazia qualquer sentido protestar contra aquilo, porque manter o Wharton afastado da cadeira eléctrica era a função do seu advogado. Porém, mantê-lo seguramente imobilizado era tarefa que nos cumpria. E, no fim, quase de certeza a Velha Faísca o reclamaria para si, com advogado ou sem advogado.
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Foi nessa semana que a Melinda Moores, a mulher do director da prisão, regressou a casa vinda de Indíanola. Os médicos já não podiam fazer nada por ela; haviam conseguido as suas muito interessantes radiografias com o tumor que ela tinha na cabeça; possuíam documentos sobre a fraqueza que a doente sentia na mão e as dores paralisantes que a atormentavam quase constantemente naquela fase; e tinham-na despachado. Entregaram ao marido uma grande quantidade de comprimidos de morfina e mandaram a Melinda para casa, a fim de morrer. O Hal Moores acumulara alguns dias de licença por doença - embora não fossem muitos; nessa época, não tinham por hábito conceder-nos muita coisa, mas ele ti
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rou partido daquilo que era o seu direito, de forma a poder ajudá-la a fazer o que tinha a fazer.
Mais ou menos três dias depois de ela ter regressado a casa, a minha mulher e eu fomos visitá-la. Telefonei antes de irmos e o Hal disse que não havia inconveniente, uma vez que
a Melinda estava a ter um bom dia, pelo que gostaria muito de nos ver.
- Detesto fazer este género de visitas - disse eu à Janice, enquanto seguíamos no carro para a casa onde os Moores haviam vivido durante a maior parte do seu casamento.
- Tal como toda a gente, meu querido - retorquiu ela, acariciando-me a mão. - Havemos de conseguir ultrapassar a dificuldade da mesma forma que ela.
- Espero que sim.
Quando chegámos, a Melinda encontrava-se sentada na sala de estar, sob um sol de Outubro anormalmente quente e luminoso; o meu primeiro pensamento, provocado pelo cho
que do que vi, foi que ela tinha perdido quarenta quilos. Claro que não era esse o caso - se ela tivesse perdido tanto peso, não poderia com certeza estar ali - mas foi essa a reacção inicial do meu cérebro face àquilo que os meus olhos lhe transmitiram. As suas faces haviam praticamente desaparecido, deixando adivinhar o contorno dos malares que se encontravam debaixo delas, e a sua tez estava tão esbranquiçada como pergaminho ressequido. Tinha olheiras muito escuras. Foi a primeira vez que dei com ela na cadeira de baloiço sem ter o regaço cheio de roupa para coser, ou de retalhos para fazer uma manta. Estava ali sentada sem fazer nada. Como uma pessoa que aguardasse na sala de espera de um apeadeiro.
- Melinda - saudou a minha mulher numa voz calorosa. Tenho a impressão de que se encontrava tão chocada quanto eu próprio, talvez mesmo mais ainda, mas conseguia
ocultá-lo na perfeição, como só algumas mulheres são capazes de o fazer. Aproximou-se da Melinda, ajoelhou-se sobre um joelho ao lado da cadeira de baloiço e agarrou-lhe uma das mãos. Durante aquele interior, o meu olhar dirigiu-se, por acaso, para o tapete azul que se encontrava em frente da lareira. Ocorreu-me que deveria ter a tonalidade das limas velhas, uma vez que, presentemente, aquela sala era apenas uma outra versão da Milha Verde. - Trouxe-te um pouco de chá - disse a Jan -, daquele que eu costumo tomar. É um chá muito calmante que nos ajuda a adormecer. Deixei-o na cozinha.
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- Obrigada, minha querida - retorquiu a Melinda. A sua voz tinha uma entoação envelhecida e era áspera.
- Como é que te sentes? - perguntou a minha mulher. - Um pouco melhor - respondeu a Melinda na sua voz áspera e rouca. - Não se pode dizer que me apeteça ir a um baile, mas pelo menos hoje não sinto dores. Os médicos deram-me uns comprimidos para as dores de cabeça. Às vezes até conseguem fazer efeito.
- Isso é bom, não é verdade?
- Mas não tenho muita força.. Aconteceu qualquer coisa... à minha mão. - Ergueu-a, fitando-a como se nunca a houvesse visto, e voltou a pousá-la no regaço. - Aconteceu qualquer coisa... no corpo todo. - Começou a chorar num pranto silencioso, de uma maneira que me fez recordar a imagem de John Coffey. Aquilo que ele tinha dito começou a soar de novo na minha cabeça: Eu consegui evitar o mal, não é verdade? Eu consegui evitar o mal, não é verdade?, como se fosse uma ladainha que não conseguimos esquecer.
Nessa altura, o Hal entrou na sala. Agarrou-me e podem acreditar quando vos digo que me senti deveras satisfeito por ele me ter agarrado. Fomos os dois para a cozinha, e ele serviu-me um trago de uísque branco, uma bebida forte que devia ter acabado de vir do alambique ilegal de um camponês qualquer. Brindámos em silêncio, e bebemos. A bebida deslizou-me pela garganta que nem querosene, mas o impacte na barriga foi paradisíaco. Mesmo assim, quando o Moores aproximou de mim a vasilha de barro, perguntando-me sem palavras se queria mais, abanei a cabeça, afastando-a com um gesto da mão. Bill "Selvagem" Wharton encontrava-se fora do colete-de-forças, pelo menos de momento - e não seria nada seguro aproximar-me do homem com a cabeça toldada pela bebida. Nem mesmo com as barras a separar-nos.
- Não sei durante quanto mais tempo serei capaz de suportar esta situação, Paul - confessou ele numa voz segredada. - Todas as manhãs vem uma rapariga para me ajudar a tratar dela, mas os médicos dizem que talvez ela venha a sofrer de incontinência, e... e... - Deteve-se cóm a voz embargada, esforçando-se para não desatar a chorar de novo à minha frente.
- Só podes fazer aquilo que estiver ao teu alcance - disse eu. Estendi a mão através do tampo da mesa e agarrei na dele, uma mão trémula e com manchas de origem hepática. - Faz o que puderes dia após dia e deixa o resto por conta de Deus. Não podes fazer mais nada, pois não?
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- Calculo que não. Mas mesmo assim é muito difícil, Paul. Rezo para que nunca venhas a descobrir até que ponto é dificil. - Fez um esforço para se recompor um pouco. -
Agora põe-me a par das novidades. Como é que estás a aguentar-te com o William Wharton? E como é que estão a correr as coisas em relação ao Percy Wetmore?
Durante algum tempo discutimos assuntos profissionais. Pouco depois, a visita chegou ao fim. Ao longo de todo o caminho até casa, com a minha mulher em silêncio a maior par
te do tempo - pensativa e de olhos humedecidos - sentada ao meu lado, as palavras do Coffey assomaram-me ao pensamento, como se fossem o Mister Jingles a correr pela cela do Delacroix: Eu consegui evitar o mal, não é verdade?
- É terrível - disse a minha mulher, desalentada, a certa altura. - E ninguém pode fazer nada para a ajudar. Acenei num gesto de concordância, enquanto pensava: Eu consegui evitar o mal, não é verdade? Mas aquela ideia era uma loucura, pelo que envidei todos os esforços para a expulsar da minha mente.
Quando nos aproximámos da entrada da nossa casa, ela falou finalmente pela segunda vez desde que tínhamos saído da casa dos Moores - não sobre a sua velha amiga Melinda,
mas sim sobre a minha infecção urinária. Queria saber se já tinha desaparecido de todo. Afirmei-lhe que sim.
-Nesse caso, óptimo - retorquiu ela, beijando-me acima do sobrolho, nessa região do meu corpo que me fazia ser percorrido por um calafrio de prazer. - Talvez devêssemos,
compreendes, fazer uma pequena coisa. Isto é, se tiveres tempo e vontade.
Possuindo bastante da última e apenas o suficiente do primeiro, agarrei-a pela mão, conduzi-a para o quarto das traseiras e comecei a despi-la enquanto ela acariciava aquela parte
de mim que pulsava e ficava tumefacta, mas que me deixara de doer por completo. Enquanto eu penetrava na doçura de Janice, deslizando no seu interior daquela maneira lenta que tanto lhe agradava - que agradava a ambos - pensei no John Coffey a dizer que tinha conseguido evitar o mal, que tinha conseguido evitar o mal, não era verdade? Como se fosse o trecho de uma canção que se recusa a abandonar a nossa mente até muito bem lhe apetecer.
Mais tarde, quando já seguia a caminho da prisão, come-
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a pensar que dentro de pouco tempo teríamos de começar afiar a execução do Delacroix. E logo me lembrei que o ocuparia o lugar na linha da frente, o que me provocou
um estremecimento de temor. Disse a mim mesmo que deveeguimento ao planeado, só mais uma execução e pro
ce ae Perc urn es ria dai ._
vavelmente ficávamos livres do Percy Wetmore de uma vez por todas... Ainda assim, continuei a sentir um estremecimento, como se a infecção que tanto me atormentara não houvesse desaparecido de todo, apenas mudado de localização, deixando de me queimar as virilhas para me enregelar a coluna vertebral.
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- Toca a andar - disse o Brutal ao Delacroix no dia seguinte, ao fim da tarde. - Vamos dar um pequeno passeio. Tu, eu e o Mister Jingles.
O Delacroix olhou para ele, com desconfiança, e levou a mão à caixa de charutos para agarrar no rato. Colocou-o na palma da mão em forma de concha, fitando o Brutal através de olhos semicerrados.
- De que é que estás a falar? - perguntou ele.
- Esta é uma grande noite para ti. e para o Mister Jingles - disse o Dean que entretanto se tinha aproximado do Brutal com o Harry. A corrente de nódoas negras em redor do pescoço do Dean tinha adquirido um desagradável tom amarelo, desagradável, sim, mas pelo menos ele já conseguia falar de novo sem parecer um cão a ladrar a um gato. Olhou para o Brutal. - Achas que devíamos colocar-lhe as grilhetas, Brute?
- Não - respondeu o interpelado por fim, depois de ter avaliado a pergunta. - Ele vai portar-se bem, não é verdade, Del? Tu e o rato. Ao fim e ao cabo, esta noite poderás exibir-te a alguns manda-chuvas importantes.
O Percy e eu estávamos junto da mesa do guarda de serviço, observando tudo aquilo, o Percy de braços cruzados, exibindo nos lábios um pequeno sorriso escarninho. Ao fim de algum tempo, tirou de uma algibeira o seu pente de osso, e começou a pentear-se. O John Coffey também observava tudo aquilo em silêncio, junto das barras da sua cela. O Wharton encontrava-se deitado sobre a tarimba, olhando fixamente pa
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ra o tecto, ignorando todo aquele espectáculo. Continuava a "ser bonzinho", embora o que ele classificava de bom fosse aquilo a que os médicos se referiam no Briar Ridge como o estado catatónico. Também se encontrava presente um outra pessoa. Estava escondido dos outros no interior do meu gabinete; contudo, a sua sombra emagrecida projectava-se através da abertura da porta, reflectindo-se na Milha Verde.
- O que vem a ser isto, meu grand fou? - perguntou o Del, quezilento, recolhendo os pés para cima da tarimba, enquanto o Brutal abria a porta da sua cela, fazendo-a deslizar
sobre a calha. Os olhos do Delacroix iam de uns aos outros, percorrendo os três guardas.
- Pois bem, eu digo-te - começou o Brutal a responder. - Mister Moores vai estar ausente durante algum tempo... A mulher está um pouco em baixo, tal como possivel
mente já ouviste dizer. Por conseguinte, Mister Anderson é quem manda agora. Mister Curtis Anderson.
- Sim? E o que é que isso tem a ver comigo?
- Bem - continuou o Harry -, o chefe Anderson ouviu falar do teu rato, Del, pelo que quer vê-lo a fazer as suas habilidades. Ele e mais seis fulanos estão na administração, à
espera que apareças. E não estou a referir-me a uns simples guardas de uniforme azul. Estes são uns pássaros graúdos, tal como o Brute já te disse. Estou em crer que um deles é um político que fez a viagem toda desde a capital do estado.
O Delacroix inchou visivelmente ao ouvir aquilo, não tendo eu detectado o mínimo vestígio de desconfiança na expressão do seu rosto. É claro que eles desejavam ver o Mister Jingles; quem é que não desejaria?
Começou a mexer-se com toda a azáfama; primeiro procurou debaixo da tarimba e depois por baixo da almofada. Por fim, acabou por encontrar um daqueles grandes rebuçados de hortelã-pimenta de cor amarelada, assim como o carretel colorido com cores garridas. Olhou para o Brutal com uma expressão interrogadora, e este acenou afirmativamente.
- Sim. É a habilidade com o carretel que eles estão realmente desejosos de ver, calculo eu, embora a forma como ele come o raio desses rebuçados de menta também seja muito
engraçada. E não te esqueças da caixa de charutos. Vais querer levá-lo dentro dela, nao é?
O Delacroix agarrou na caixa e colocou os adereços do Mister Jingles no seu interior, mas, quanto ao rato, colocou-o
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em cima do ombro da sua camisa. Em seguida, encaminhou-se para fora da cela, com o peito todo inchado a indicar o caminho, olhando para o Dean e para o Harry.
- Vêm, rapazes?
- Não - respondeu o Dean. - Temos outro peixe para fritar. Mas tu, Del, vai e deixa-os de boca aberta... Mostra-lhes o que é que acontece quando um rapaz da Luisiana põe mãos à obra e começa realmente a trabalhar.
- Pode crer - respondeu ele. Pelo seu rosto espelhou-se um sorriso enorme, tão repentino e tão simples em toda a sua felicidade que senti um pequeno aperto no coração por causa dele, apesar do terrível crime que tinha cometido. Mas que mundo este em que vivemos... mas que mundo este!
O Delacroix voltou-se para o John Coffey, com quem encetara uma amizade um tanto recalcitrante, não muito diferente da centena de outros relacionamentos que eu tivera ocasião de testemunhar naquela casa da morte.
- Deixa-os de boca aberta, Del - disse o Coffey numa voz cheia de solenidade. - Mostra-lhes todas as habilidades dele.
O Delacroix acenou que sim, levando a mão ao ombro. O Mister Jingles passou para ela como se fosse uma plataforma, e o Delacroix estendeu a mão na direcção da cela do Coffey. Este estendeu um gigantesco dedo indicador, e raios me partam se aquele rato não esticou o pescoço, lambendo a extremidade, tal como um cão o faria.
- Vamos lá, Del, pára de molengar - urgiu o Brutal. - Estes sujeitos estão a atrasar um jantar quente que os aguarda em suas casas para poder assistir às habilidades do teu rato. - Aquilo não era verdade, claro... O Anderson estava ali até às oito horas todas as noites e os guardas que ali se tinham dirigido para observar o "espectáculo" do Delacroix seriam forçados a ficar até às onze ou à meia-noite, dependendo da hora a que os seus turnos chegavam ao fim. O político que viera da capital do estado era apenas um funcionário da manutenção com uma gravata emprestada. Porém, o Delacroix não tinha maneira de saber tudo isto.
- Estou pronto - anunciou ele, exprimindo-se com a simplicidade de uma grande vedeta que conseguira não perder o contacto com o comum dos mortais. - Vamos lá. - E enquanto o Brutal o conduzia através da Milha Verde, com o Mister Jingles empoleirado em cima do ombro do Dela
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croix, este começou uma vez mais, a anunciar: - Messieurs et mesdames! Bienvenue au cirque de mousie! t - Contudo, embora tão profundamente mergulhado no seu mundo de fantasia, fitou o Percy com um olhar de desconfiança e um esgar.
O Harry e o Dean detiveram-se em frente da cela vazia oposta à do Wharton (aquela ilustre figura ainda nem sequer se mexera). Ficaram a observar o Brutal, enquanto ele abria a
fechadura da porta que dava para o pátio de recreio, onde era aguardado por outros dois guardas, a fim de conduzir o Delacroix ao seu magnificente espectáculo, a que assistiriam os mais elevados zés-ninguéns da penitenciária de Cold Mountain. Esperámos até que a porta voltou a ser fechada à chave, e olhei nà direcção do meu gabinete. Aquela sombra continuava junto à porta, escanzelada e faminta; senti-me bastante satisfeito pelo facto de o Delacroix ter ficado tão excitado que nem sequer reparara nela.
- Sai cá para fora - disse eu. - E vamos lá a despachar este assunto, rapazes. Quero fazer dois ensaios e não dispomos de muito tempo.
O velho Pouca Terra, mostrando uns olhos tão cintilantes e com uma postura tão importante como sempre, saiu do gabinete, encaminhando-se para a cela do Delacroix, entrando pela porta aberta num passo descontraído.
- Estou a sentar-me - anunciou ele. - Estou a sentar-me, estou a sentar-me, estou a sentar-me.
"Este é que é o verdadeiro circo", pensei eu para comigo, cerrando os olhos por breves segundos. "O verdadeiro circo encontra-se precisamente aqui, e nós não passamos de um
grupo de ratos amestrados." Em seguida, afastei aquele pensamento da minha mente, dando início àquele ensaio macabro.
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O primeiro ensaio correu bem, o mesmo acontecendo com o segundo. O Percy saiu-se bastante melhor do que eu alguma vez poderia ter esperado nos meus sonhos mais fantasiosos.
No entanto, aquilo não significava que as coisas iriam correr
' Em francês no original: "Senhores e senhoras, bem-vindos ao circo do ratinho." (N. da T.)

bem quando chegasse o momento da verdadeira execução, em que o cajun percorreria a Milha, mas o ensaio fora um grande passo na direcção certa. Ocorreu-me que os ensaios tinham corrido pelo melhor, porque finalmente o Percy estava a fazer algo que deveras lhe agradava. Fui invadido por um certo desprezo perante aquele facto, mas afastei-o. O que é que isso interessava? Ele haveria de colocar o capacete na cabeça do Delacroix mas em seguida iriam ambos desaparecer. Se isso não era um fim feliz, o que é que seria? E, tal como o Moores havia acentuado, os tomates do Delacroix iam ficar estorricados, independentemente de quem interviesse directamente na sua electrocussão.
Apesar de todos esses considerandos, o Percy tinha-se mostrado à altura da sua nova tarefa, e apercebera-se disso. Tal como nós. No que me dizia respeito, sentia-me demasiado aliviado para nutrir grande aversão por ele, pelo menos de momento. Tudo parecia indicar que as coisas iriam correr da melhor maneira possível. O meu alívio foi ainda maior ao descobrir que o Percy prestara realmente atenção quando lhe sugerimos algumas alterações para melhorar ainda mais a sua actuação, ou pelo menos reduzir a probabilidade de algo correr mal. Se querem saber a verdade, sentimos-nos verdadeiramente entusiasmados com o assunto - até mesmo o Dean, que, regra geral, se mantinha bastante afastado do Percy... tanto em termos psicológicos como fisicos. Nada do que estava a suceder poderia ser classificado de surpreendente, suponho eu - para a maioria dos homens, nada é mais lisonjeiro do que haver uma pessoa jovem que preste realmente atenção aos seus conselhos, e nesse aspecto nós não diferíamos muito dos demais. Como resultado, nenhum de nós reparou que o Bill "Selvagem" Wharton já não fitava o tecto. Eu também não, mas o certo é que ele deixara de o fazer. Observava-nos enquanto estávamos junto da mesa do guarda de serviço, e, entre alguma conversa fiada, dávamos conselhos ao Percy. Dávamos conselhos! E ele a fingir que os ouvia! Até dá vontade de rir, tendo em conta a forma como as coisas vieram a desenrolar-se posteriormente!
O som de uma chave a ser inserida na fechadura da porta que dava para o pátio de recreio pôs cobro à nossa pequena crítica pós-ensaio. O Dean lançou ao Percy um olhar de advertência.
- Nem uma palavra nem uma expressão que lhe permita
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adivinhar - acautelou ele. - Não queremos que saiba aquilo que estivemos a fazer. Isso não é bom para os condenados. Transtorna-os.
O Percy aquiesceu com um acenar de cabeça, passando um dedo pelos lábios num gesto que significava que não iria abrir o bico e que deveria ter sido divertido mas não foi.
A porta que dava para o pátio abriu-se, e o Delacroix entrou, escoltado pelo Brutal, o qual transportava a caixa de charutos com o carretel às cores, da mesma maneira que o assistente de um ilusionista de feira poderia transportar para fora do palco os adereços do seu patrão, no fim de um espectáculo. O Mister Jingles vinha empoleirado no ombro do Delacroix. E quanto ao próprio Delacroix? Vou dizer-vos uma coisa: a Lillie Langtryl não devia ter exibido uma expressão mais radiante depois de ter actuado na Casa Branca.
- Eles adoraram o Mister Jingles! - declarou o Delacroix. - Riram-se, gritaram e bateram palmas!
- Que maravilha - comentou o Percy. Exprimia-se com uma entoação indulgente e paternalista, nada característica do Percy de antigamente. - E agora volta para a tua cela, velho veterano.
O Delacroix brindou-o com um olhar de desconfiança cómica, e o velho Percy surgiu de rompante. Mostrou os dentes num arreganho a fingir, como se se preparasse para agarrar o
Delacroix. Era uma brincadeira, como é óbvio. O Percy estava bem-disposto e o seu estado de espírito não o impelia a mostrar-se agressivo, mas o Delacroix não tinha percepção disso. Num gesto brusco, afastou-se com uma expressão de medo e espanto e tropeçou num dos pés enormes do Brutal. Caiu desamparado com toda a violência, batendo com a parte de trás da cabeça no linóleo. O Mister Jingles conseguiu saltar do ombro a tempo de evitar ser esmagado, desatando a correr aos guinchos pela Milha Verde até à cela do Delacroix.
Este conseguiu pôr-se de pé e lançou ao Percy, que entretanto se ria à socapa, um único olhar pleno de ódio, e seguiu no encalço do seu animal de estimação num passo apressado,
chamando-o enquanto ia esfregando a nuca. O Brutal (que desconhecia que o Percy, para variar, tinha mostrado sinais entusiasmantes de competência profissional) fitou o Percy
~ Emily Charlotte Le Breton, O Lirio de Jersey, 1852-1929, actriz inglesa. (N. da T.)
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com desprezo sem proferir uma única palavra, e foi logo atrás do Del com o molho de chaves que tinha na mão a chocalhar. Creio que aquilo que aconteceu em seguida foi porque o Percy se sentiu na obrigação de apresentar as suas desculpas - eu sei que é extremamente difícil acreditar numa coisa destas, mas nesse dia ele encontrava-se invulgarmente de bom humor. Caso isto seja verdade, só vem provar um velho adágio cheio de cinismo que em tempos ouvi, qualquer coisa que tinha a ver com o facto de as boas acções não passarem sem ser punidas. Recordam-se de eu vos ter contado como ele, depois de ter ido em perseguição do rato até à cela do isolamento e antes de o Delacroix ter sido colocado sob a nossa tutela, se tinha aproximado um tudo-nada de mais da cela do Presidente? Isso era perigoso, razão por que a Milha Verde era tão larga - quando se caminhava exactamente pelo meio, não se podia ser tocado por quem se encontrava no interior das celas. O Presidente não fizera nada ao Percy, mas recordo-me de nessa ocasião ter pensado que o Arlen Bitterbuck poderia ter feito qualquer coisa, uma vez que fora dele que o Percy se aproximara tanto. Apenas para lhe ensinar uma lição.
Pois bem, tanto o Presidente como o Chefe já tinham desaparecido, mas o Bill "Selvagem" Wharton preenchera o lugar que eles haviam deixado. Ele era muito mais malcomportado do que o Presidente ou o Chefe alguma vez tinham sonhado vir a ser, e estivera a observar a nossa pequena encenação, com a esperança de que surgisse a oportunidade de ele próprio poder entrar em palco. Naquele momento, essa hipótese foi-lhe oferecida de mão beijada, por obséquio do Percy Wetmore.
- Ei, Del! - chamou o Percy meio a rir, indo atrás do Brutal e do Delacroix, aproximando-se de mais do lado da Milha Verde onde estava situada a cela do Wharton, sem se aperceber de que o fazia. - Ei, tu, meu cabeça de merda, eu não quis fazer-te mal! Estás bem...
O Wharton levantou-se da tarimba e aproximou-se das grades da cela com a celeridade de um relâmpago - durante o tempo em que exerci o cargo de guarda prisional, nunca vi ninguém movimentar-se com tanta rapidez, nem sequer os jovens atléticos com quem o Brutal e eu posteriormente viemos a trabalhar no Estabelecimento Correccional Juvenil. Num gesto lesto, estendeu os braços por entre as barras e agarrou o
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Percy, primeiro pelos ombros da camisa e depois pela garganta. Conseguiu arrastá-lo contra a porta da sua cela. O Percy soltava guinchos que se assemelhavam ao grunhir de um porco num matadouro; li nos seus olhos que ele pensava estar prestes a morrer.
- Mas que querido - murmurou o Wharton. Uma das suas mãos abandonou a garganta do Percy para lhe despentear os cabelos. - Macios! - acrescentou com uma pequena
risada. - Como os de uma rapariga. Antes queria foder-te o olho do cu do que a rata da tua irmã. - Depois, foi ao ponto de beijar a orelha do Percy.
Estou em crer que este último - que espancara o Delacroix no bloco por este, acidentalmente, ter roçado a mão pelas suas virilhas, recordam-se desse incidente? - teve a percepção exacta daquilo que estava a acontecer. Duvido muito que o desejasse saber, mas estou convencido que sabia. Toda a cor havia abandonado as suas faces e as imperfeições sobressaíam como marcas de nascença. Tinha os olhos esbugalhados e humedecidos. De um dos cantos da sua boca trémula escorria um fio de saliva. Tudo aquilo se desenrolou com muita celeridade - eu diria que começou e terminou em menos de dez segundos.
O Harry e eu avançámos com os bastões empunhados. O Dean sacou da arma. Todavia, antes que as coisas pudessem avançar um centímetro que fosse, o Wharton largou o
Percy e recuou para dentro da cela, erguendo as mãos até aos ombros e exibindo o seu medonho esgar.
- Eu larguei-o. Estava só a brincar e depois larguei-o - disse ele. - Nem sequer fiz mala um único cabelo desse rapaz tão bonito. Portanto, não venham com ideias de me enfiarem outra vez dentro daquela maldita cela de paredes almofadadas.
O Percy Wetmore atravessou que nem uma flecha a Milha Verde, encolhendo-se contra a porta de uma cela vazia no lado oposto; a sua respiração era tão rápida e elevada que quase
parecia um choro convulsivo. Finalmente aprendera que devia manter-se sempre no centro da Milha Verde, afastado das mãos que agarravam com violência, dos dentes que abocanhavam e das ganas que dilaceravam. Creio que aquela lição iria ficar gravada na sua mente durante muito mais tempo do que todos os conselhos que lhe déramos depois dos ensaios. Havia no seu rosto uma expressão de profundo tenor e os seus preciosos cabelos estavam todos desgrenhados, todos espetados, pela
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primeira vez desde que eu o conhecia. O Percy parecia alguém que acabara de escapar a um crime de estupro. Fez-se um silêncio tão grande que o tempo pareceu imobilizar-se no espaço, um silêncio tão pesado que o único som que se ouvia era o silvo soluçante da respiração do Percy. Foi quebrado por um riso cacarejado tão repentino e tresloucado que chegava a ser chocante. O Wharton, foi o meu primeiro pensamento, mas não era ele. Era o Delacroix, que estava junto da porta aberta da sua cela, apontando para o Percy. Entretanto, o rato regressara ao seu ombro; o Delacroix parecia um bruxo pequeno mas malévolo, com o seu diabrete e tudo.
- Olhem para ele! Até mijou nas calças! - ululava o Delacroix. - Vejam bem o que o homem grande fez! Costuma rebentar os outros com o seu bastão, mais oui um mauvais homee, mas, quando alguém lhe toca, ele verte águas para as calças como se fosse um bebé!
Continuava a rir-se e a apontar, dando largas ao medo e ao ódio que nutria pelo Percy - naquele riso escarninho. O Percy olhava-o com fixidez, parecendo incapaz de se mexer ou de falar. O Wharton regressou para junto das barras da sua cela, baixando o olhar até à mancha escurecida na frente das calças do Percy - era pequena mas estava lá, e não deixava margem para dúvidas quanto à sua natureza - e fez uma careta risonha.
- Alguém devia comprar uma fraldinha a este rapaz tão duro - disse ele com sarcasmo, regressando à sua tarimba e continuando a rir-se.
O Brutal dirigiu-se para a cela do Delacroix, embora o cajun já tivesse entrado e se tivesse atirado para cima do colchão antes da chegada do Brutal.
Estendi a mão e agarrei no Percy pelo ombro.
- Percy... - comecei, mas não fui mais longe. Ele readquiriu vida, sacudindo a minha mão. Olhou para a parte dianteira das calças, viu a mancha que se espalhara e corou, ficando com as faces de um vermelho-escuro. Voltou a soerguer o olhar para mim, depois para o Harry e o Dean. Recordo-me de me ter sentido satisfeito pelo facto de o velho Pouca Terra já ter saído do bloco. Se ainda ali estivesse, aquela história teria circulado por toda a prisão num só dia. E, devido ao apelido do Percy - naquele contexto, era de facto um infortúnio -
Em inglês, wet: "molhado", more: "mais". (N. da T)
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era uma história que haveria de ser contada com grande gáudio durante muitos anos.
- Se falarem disto a alguém, daqui a uma semana estão na bicha para a sopa dos pobres - declarou ele num sussurro enfurecido. Noutras circunstâncias, aquela observação teria
feito com que eu desejasse ir-lhe às fuças, mas, dada a situação, a única coisa que senti foi pena do homem. Acho que ele detectou esse sentimento de piedade, o que fez com que o seu mal-estar se agravasse - como se tivesse uma ferida aberta que estivesse a ser limpa com urtigas.
- Aquilo que se passa no bloco não sai daqui - redarguiu o Dean numa voz plácida. - Não precisas de te preocupar com isso.
O Percy olhou por cima do ombro na direcção da cela do Delacroix. Naquele momento, o Brutal fechava a porta à chave; vindo do interior, de forma a não deixar dúvidas, ouvia-se
o riso casquinado do Delacroix. A expressão do Percy era tão sombria como uma noite de trovoada. Ainda me apeteceu dizer-lhe que na vida costuma colher-se aquilo que se semeou, mas concluí que aquela talvez não fosse a melhor ocasião para uma lição extraída da Bíblia.
- Quanto a ele... - começou o Percy, mas não terminou a frase. Em vez disso, baixou a cabeça e dirigiu-se para a arrecadação à procura de um par de calças secas.
- Ele é tão bonitinho - insistiu o Wharton numa voz sonhadora. O Harry mandou-o calar antes que fosse para a cela do isolamento apenas por uma questão de princípio.
O Wharton cruzou os braços sobre o peito, fechou os olhos e pareceu ter intenções de dormir.
9
Na noite anterior à da execução do Delacroix, o tempo estava mais quente e abafado do que nunca - a temperatura era de vinte e oito graus, de acordo com o termómetro no exterior da administração quando o consultei às seis da tarde. Vinte e oito graus em finais de Outubro, com a trovoada a soar a oeste tal como era hábito em Julho. Nessa tarde, encontrara na cidade um membro da minha congregação, e ele perguntara-me, com uma seriedade aparente, se eu pensava que aquele tempo tão anormal para a altura do ano em que
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estávamos seria o anúncio do dia do Juízo Final. Eu respondi-lhe que tinha a certeza que não, mas ocorreu-me que, sem dúvida, aquele seria o dia do Juízo Final para o Eduard Delacroix. E assim foi.
O Bill Dodge encontrava-se junto à porta que dava para o pátio de recreio a beber café e a fumar.
- Ora vejam quem acaba de chegar - comentou ele, dirigindo-se a mim depois de ter olhado à sua volta. - O Paul Edgecombe, tão grande como a vida e duas vezes mais feio. - Como é que te correu o dia, Billy?
-Nada de especial. - E o Delacroix?
e	- Está óptimo. Dá a impressão de perceber que é para amanhã, mas ao mesmo tempo parece que não percebe. Sabes como fica a maior parte deles quando finalmente o seu fim se aproxima.
Fiz um acenar de cabeça afirmativo. - E o Wharton?
- Mas que comediante - retrucou Bill com uma gargalhada. - Faz com que o Jack Benny pareça um quacre. Disse ao Rolfe Wettermark que tinha comido doce de morango da rata da mulher dele.
- E o que é que o Rolfe respondeu? - perguntei.
- Que nem sequer era casado. E que ele devia era estar a pensar na mãe dele.
Ri-me a bandeiras despregadas. Aquilo realmente tinha graça, embora de uma maneira um bocado ordinária. E era bom poder rir-me à vontade sem ter a sensação de que alguém estava a chegar fósforos em chama às minhas partes baixas. O Bill fèz coro comigo, e depois despejou o resto do café no chão do pátio, que na altura não tinha ninguém, excepto alguns prisioneiros de confiança que por ali arrastavam os pés, a maioria deles vivendo na prisão há mais de um milhar de anos, ou coisa no género.
Os trovões faziam-se ouvir à distância, e uns quantos relâmpagos dispersos atravessaram o céu pardacento acima de nós. O Bill ergueu o olhar pouco à vontade e com o riso a morrer-lhe nos lábios.
- No entanto, deixa-me que te diga uma coisa - acrescentou. - Este tempo não me agrada muito. Dá a sensação de que está prestes a acontecer alguma coisa. Alguma coisa má.
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Ele tinha toda a razão. A coisa má aconteceu precisamente por volta das dez e um quarto dessa mesma noite. Foi a essa hora que o Percy matou o Mister Jingles.
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De início tudo indicava que aquela noite seria bastante boa, apesar do calor abafado - o John Coffey estava como sempre, calado, o Bill Selvagem preparava-se para entrar na
pele do Bill Moderado, e o Delacroix mostrava um moral elevado para um homem que tinha um encontro marcado com a Velha Faísca dali a pouco mais de vinte e quatro horas.
Ele compreendia aquilo que o aguardava, pelo menos dentro dos parâmetros mais básicos; já tinha encomendado chili para a última refeição e dera-me instruções especiais a serem transmitidas ao pessoal da cozinha.
- Diga-lhes para carregarem no picante - pediu ele. - Diga-lhes que quero daquele que salta na garganta e pergunta como é que temos passado... daquele verde, não do fraco. Essa coisa apodera-se de mim como um filho da puta, no dia seguinte não sou capaz de sair da retrete, mas não me parece que desta vez vá ter problemas com isso, nest-ce pas?
A maioria dos condenados preocupa-se com a imortalidade das suas almas com uma espécie de ferocidade, mas o Delacroix ignorou as minhas questões quanto àquilo que desejava para conforto espiritual nas últimas horas de vida. Se "aquele tipo", o Schuster, tinha sido suficientemente bom para o "Grande Chefe" Bitterbuck, concluiu o Del, então também seria suficientemente bom para si. Não, aquilo que para ele era realmente importante - tenho a certeza que já adivinharam a que é que estou a referir-me - era o que viria a acontecer ao Mister Jingles depois de ele, Delacroix, ter ido para o outro mundo. Eu estava acostumado a passar longas horas junto dos condenados, na noite anterior à sua última caminhada; contudo, era a primeira vez que passava essas longas horas a ponderar no destino a dar a um rato.
O Del avaliou possibilidade após possibilidade, considerando pacientemente cada hipótese na sua mente um tanto obtusa. E enquanto ia pensando em voz alta, desejando assegu
rar-se de que não faltaria nada ao seu animal de estimação, como se este fosse uma criança que acabaria por ter de ir para a universidade, atirava o carretel colorido contra uma parede. De cada vez que o fazia, o Mister Jingles corria atrás do objecto, parava-o e em seguida fazia-o rolar até aos pés do Delacroix. Ao fim de algum tempo, aquilo começou a bulir-me com os nervos - primeiro foi o ruído que o carretel fazia quando batia contra a parede de pedra, depois era o barulho quase imperceptível das patas do Mister Jingles a correr. Embora aquela habilidade fosse muito engraçada, ao fim de mais ou menos noventa minutos começava a perder interesse. E o rato parecia nunca se sentir cansado. De vez em quando fazia uma pausa para se refrescar com um pouco de água do pires de café que o Delacroix tinha apenas com essa finalidade, ou para tasquinhar uma migalha do rebuçado amarelado de hortelã-pimenta, e regressava de imediato à sua habilidade. Por várias vezes estive para dizer ao Delacroix que parasse um pouco com aquilo, mas em cada uma dessas ocasiões recordei a mim mesmo que ele só dispunha daquela noite e do dia seguinte para poder fazer o truque do carretel com o Mister Jingles.
No entanto, já próximo do fim começou a ser-me francamente difícil manter esse pensamento em mente - sabem como é, quando um barulho se repete indefinida e monocordicamente. Ao fim de algum tempo ficamos com os nervos à flor da pele. Apesar de todas as considerações, comecei a dizer de minha justiça, mas então houve algo que me fez olhar por cima do ombro para fora da cela. O John Coffey encontrava-se de pé junto das barras da porta da sua cela, do outro lado do corredor, abanando a cabeça na minha direcção: para a direita, para a esquerda e de volta ao centro. Como se tivesse lido os meus pensamentos, dizendo-me que deveria reconsiderar o que estava prestes a dizer.
Assegurar-me-ia de que o Mister Jingles era entregue à tia solteirona do Delacroix, disse eu, a mesma que lhe havia enviado o saco grande cheio de rebuçados. O carretel colorido também seguiria com o rato, até mesmo a sua "casa" - entretanto, tínhamos feito uma colecta, acabando de vez com a reivindicação do Pouca Terra sobre a caixa de Coronas. Não, dissera o Delacroix depois de ter meditado um pouco (nesse interior, tivera tempo para lançar o carretel contra a parede, pelo menos cinco vezes, com o Mister Jingles a empurrá-lo com o focinho ou a fazê-lo rodar com as patas, para junto dele), isso não resultaria. A tia Hermione já era demasiado velha, nunca conseguiria compreender os modos atrevidos do
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Mister Jingles, e o que seria dele se lhe sobrevivesse? Não, não, a tia Hermione estava absolutamente fora de questão. E se um de nós ficasse com o rato?, perguntei. Um dos guardas prisionais? Poderíamos mantê-lo mesmo ali, no Bloco E. Não, recusou o Delacroix, agradecendo-me o pensamento generoso, certainement, mas o Mister Jingles era um rato que ansiava pela liberdade. Ele, Eduard Delacroix, sabia isso, porque o Mister Jingles - com certeza que já tinham adivinhado - lhe segredara essa informação ao ouvido.
- Muito bem - continuei -, nesse caso, um de nós levá-lo-á para casa, Del. Talvez o Dean. Ele tem um filho ainda pequeno que adoraria ter um rato de estimação.
Perante aquela sugestão, o Delacroix chegou ao ponto de empalidecer. Um garoto a tomar conta de um roedor de génio como o Mister Jingles? Como é que, em nome de le bon
Dieu, se poderia esperar que um rapazinho tivesse capacidade para o manter amestrado e lhe ensinar novas habilidades? E suponhamos que o garoto perdia o interesse e se esquecia de lhe dar de comer durante dois ou três dias consecutivos? O Delacroix, que tinha assado seis seres humanos em vida, tentando encobrir as provas incriminatórias do seu primeiro crime, estremeceu, mostrando a delicada repulsa de um ardente antivivisseccionista.
Está bem, eu próprio o levarei para casa, disse-lhe eu (estão lembrados? Devemos prometer-lhes seja o que for; durante as suas últimas quarenta e oito horas, há que prometer-lhes
tudo e mais alguma coisa). O que é que ele achava dessa sugestão?
- Não senhor, chefe Edgecombe - retorquiu o Del num tom de voz onde se adivinhava um pedido de desculpas. Voltou a arremessar com o carretel contra a parede. Este fez rico
chete e rodopiou; em seguida, o Mister Jingles atirou-se ao carretel que nem gato a bofe, empurrando-o com o focinho de regresso ao Delacroix.
- Agradeço a sua generosidade... merci beaucoup, mas o senhor vive no bosque e o Mister Jingles teria medo de viver dans la forêt. Eu sei, porque...
- Parece-me que sou capaz de adivinhar como é que soubeste, Del - retorqui.
O Delacroix acenou com a cabeça, exibindo um sorriso rasgado antes de retomar a palavra.
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- Mas nós vamos arranjar maneira de resolver o problema, Pode crer! - Uma vez mais, lançou o carretel contra a parede. O Mister Jingles lá foi a correr atrás dele. Tentei não me retrair.
No fim, foi o Brutal quem salvou o dia. Estivera sentado na mesa do guarda de serviço a ver o Dean e o Harry jogarem às cartas. O Percy também se encontrava presente, e o Brutal, ao fim de várias tentativas, cansou-se de tentar meter conversa com ele, uma vez que as únicas respostas que obtinha eram resmungos amuados. O Brutal veio até junto de mim e ficou do lado de fora da cela do Delacroix a ouvir a nossa conversa de braços cruzados.
- E que tal a Vila dos Ratos? - perguntou o Brutal, interrompendo o silêncio que se seguira à refeição do Delacroix da minha velha casa, que tão sinistra era no meio do arvoredo. Lançou aquela sugestão num tom de voz muito casual, como se fosse uma ideia que lhe ocorresse naquele momento.
- A Vila dos Ratos? - perguntou o Delacroix, lançando ao Brutal um olhar de interesse e pérplexidade. - Mas que Vila dos Ratos é essa?
- Uma atracção turística que há na Florida - respondeu ele. - Parece-me que em Tallahassee. Não é verdade, Paul? Em Tallahassee?
- Sim - concordei sem hesitação, pensando que Deus deveria abençoar o Brutus Howell. - Tallahassee. $ só um bocado mais abaixo na estrada, logo ao pé da universidade dos cães. - Ao ouvir aquilo, a boca do Brutal desenhou um trejeito de riso, o que me levou a pensar que desataria a rir, borrando a pintura toda, mas lá conseguiu dominar-se, acenando com a cabeça. Calculei que mais tarde iria fartar-me de ouvir falar da universidade dos cães.
Desta vez, o Del não lançou o carretel, embora o Mister Jingles se encontrasse em cima da sua pantufa, com as patas dianteiras erguidas, indicando que esperava avidamente pela oportunidade de poder começar a correr atrás do carretel. O olhar do cajun pousou no Brutal e depois em mim, voltando a concentrar-se no Brutal.
- O que é que eles fazem na Vila dos Ratos? - perguntou ele.
- Achas que acolheriam o Mister Jingles? - perguntou-me o Brutal, ignorando a pergunta do Del, mas ao mesmo tempo incentivando-o a continuar. - Achas que ele tem o que é preciso, Paul?

Tentei dar a impressão de que meditava no assunto.
- Sabes - comecei a dizer -, quanto mais penso nisso, mais chego à conclusão de que se trata de uma ideia brilhante. - Pelo canto do olho vi o Percy a meio da Milha Verde
(ao passar pela cela do Wharton fez um grande desvio). Encostou um ombro às barras de uma cela vazia, prestando atenção à nossa conversa com um sorriso de desprezo nos lábios.
- O que é essa coisa da Vila dos Ratos? - continuou o Delacroix, ansioso por saber mais pormenores.
-É uma atracção turística, como já te disse - respondeu o Brutal. - Existem lá, oh, não sei bem, talvez uns cem ratos. Não te parece, Paul?
- Creio que já devem ser uns cento e cinquenta - reforcei eu. - Tem sido um grande sucesso. Tanto quanto sei, estão a pensar em abrir um na Califórnia e chamar-lhe Vila dos
Ratos do Oeste; por aqui vês como o negócio tem vindo a prosperar. Os ratos amestrados estão na moda para a gente inteligente, calculo... embora eu não consiga compreender muito bem todo esse entusiasmo.
O Del estava sentado com o carretel colorido na mão, olhando para nós, tendo-se esquecido momentaneamente da sua própria situação.
- Eles só aceitam os ratos mais espertos - acrescentou o Brutal num tom de advertência -, os que sabem fazer habilidades. E não podem ser ratos brancos, porque esses vendem-se nas lojas.
- Sim, vendem-se nas lojas, aposto que sim! - atalhou o Delacroix com toda a veemência. - Odeio esses ratos das lojas!
- E há lá uma... - continuou o Brutal com o olhar fixo à distância, como se imaginasse a cena. - Existe uma tenda onde entramos..:
- Sim, sim, como se fosse num circo! É preciso pagar para entrar?
- Estás a gozar comigo? É claro que é preciso pagar para entrar. Dez centavos por pessoa, dois centavos para as crianças. E há uma espécie de cidade feita de caixas de ba
quelite e rolos de papel higiénico, com janelas feitas de vidro de folha de mica para podermos ver os ratos no interior... - Sim! Sim!... - Naquele momento, o Delacroix tinha entrado em êxtase. Em seguida, voltou-se para mim. - Que vidro é esse?
- É como as portas dos fornos que deixam ver para dentro - expliquei.
-. Ah, estou a ver! Essa merda! - Fez um gesto com a mão ao Brutal, querendo que ele prosseguisse, enquanto os olhinhos de contas negras do Mister Jingles quase descreviam uma volta completa dentro das órbitas, tentando não perder de vista aquele carretel. Era uma cena deveras engraçada. Entretanto, o Percy aproximou-se um pouco mais, como se quisesse observar melhor; vi que o John Coffey lhe franzia o sobrolho, mas eu estava demasiado embrenhado na fantasia do Brutal para prestar mais atenção ao que se passava. Aquela situação conferia ao facto de dizer aos condenados tudo o que queriam ouvir uma dimensão inteiramente nova, e todo eu era admiração, acreditem.
- Pois bem - continuou o Brutal -, temos a cidade dos ratos, mas aquilo de que os miúdos gostam verdadeiramente é o Circo da Vila dos Ratos, onde há ratos que andam de baloiço, outros que rolam em cima de pequenos barris, outros que empilham moedas...
- Sim, é isso mesmo! Esse é que é o lugar para o Mister Jingles! - retorquiu o Delacroix, todo excitado. Os seus olhos cintilavam e as suas faces tinham ficado muito ruborizadas. Achei que o Brutus Howell era uma espécie de santo. - Sempre vais acabar por ir parar a um circo de ratos, Mister Jingles! Vais passar a viver numa cidade de ratos na Florida! Com todas as janelas de vidro de folha de mica! Hurra!!!
Arremessou o carretel com mais força do que o habitual. Atingiu a parede na zona inferior, fez ricochete de uma forma estranha e foi projectado por entre as barras da porta da cela do Delacroix, indo parar à Milha. O Mister Jingles não hesitou em ir a correr atrás do carretel, e o Percy viu ali a sua grande oportunidade.
- Não, grande idiota! - berrou o Brutal, mas o Percy não lhe prestou a mínima atenção. Assim que o Mister Jingles chegou junto do carretel, demasiado concentrado no ob
jecto para se aperceber de que o seu velho inimigo se encontrava por perto, o Percy colocou-lhe em cima a sola dura do seu pesado sapato preto de trabalho. Ouviu-se um estalar bastante audível quando a espinha do Mister Jingles se partiu, tendo começado a jorrar-lhe logo sangue da boca. Os seus pequenos olhos negros imobilizaram-se esbugalhados nas órbitas; neles li uma expressão de agonia e de surpresa que era demasiado humana.
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O Delacroix gritou de dor e de horror-. Lançou-se contra a porta da cela, enfiando os braços por entre as barras de ferro, esticando-se tanto quanto possível e gritando vezes sem conta o nome do rato.
O Percy voltou-se para ele com um sorriso nos lábios. - Já está - disse ele, dirigindo-se a nós três. - Sabia que acabaria por apanhá-lo. Na verdade, era uma questão de tempo. - Virou costas e começou a andar pela Milha Verde sem pressa, deixando o Mister Jingles estendido em cima do linóleo, no meio de uma poça do seu próprio sangue.
Parte Quatro



A MÁ MORTE DO EDUARD DELACROIX


Pondo de parte toda esta outra escrita, tenho vindo a manter um pequeno diário desde que fixei residência em Georgia Pines - nada de muito importante, só uns dois parágrafos por dia, em grande parte acerca das condições do tempo - e ontem ao fim do dia passei-lhe uma vista de olhos. O meu objectivo era saber há quanto tempo é que os meus netos, Christopher e Danielle, me tinham forçado a vir para este lar.
- É para o seu próprio bem, avô - haviam eles dito na altura. É claro que disseram. Não é isso o que a maior parte das pessoas costuma dizer, quando finalmente conseguem ver-se livres de um problema que anda e fala?
Passaram pouco mais de dois anos. Mas o mais estranho é que não sei se realmente parece que já passaram dois anos, mais tempo, ou menos. Tenho a sensação de que o meu sentido da passagem do tempo está a liquefazer-se, tal como o boneco de neve de uma criança que se derrete com o degelo de Janeiro. É como se o tempo, como sempre foi, tenha deixado de existir. Aqui existe apenas o Tempo de Georgia Pines, que é o mesmo que dizer, o Tempo do Homem Velho, o Tempo da Senhora de Idade e o Tempo de Mijar na Cama. O resto... desapareceu por completo.
Este é um lugar perigoso. Ao princípio não nos apercebemos disso, pensamos que é apenas um lugar enfadonho que se deve temer tanto como um jardim-infantil durante a hora da sesta; contudo, é perigoso, sem dúvida. Já tive ocasião de ver muita gente entrar num estado de senilidade desde que aqui cheguei e às vezes isso não se processa com suavidade - às vezes afundam-se à velocidade de um submarino a mergulhar no menor espaço de tempo possível. Essas pessoas dão entrada aqui em condições de saúde bastante razoáveis -
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com o olhar um pouco opaco, grudadas à bengala, talvez um pouco soltos dos intestinos, mas, fora isso, bem - e depois passa-se qualquer coisa com elas. Um mês mais tarde só conseguem estar sentados na sala da televisão, a olhar fixamente para o ecrã com uma expressão abstracta, o queixo descaído e um copo de sumo de laranja esquecido na mão, e que entretanto se inclinou e começou a gotejar. Um mês depois, é necessário dizer-lhes os nomes dos filhos quando estes vêm visitá-los. E um mês depois é o raio dos seus próprios nomes que é preciso recordar-lhes. De facto, há qualquer coisa que lhes acontece: é o Tempo em Georgia Pines o que lhes acontece. A passagem do tempo por aqui assemelha-se a um ácido fraco que primeiro apaga a memória, e que em seguida elimina o gosto pela vida.
É necessário lutar contra esse estado mórbido. É o que eu digo constantemente à Elaine Connelly, a minha amiga muito especial. No que me diz respeito, a situação melhorou desde que comecei a escrever sobre o que me aconteceu em 1932, o ano em que o John Coffey chegou à Milha Verde. Algumas destas recordações são horrorosas, mas o certo é que as sinto a aguçar-me a memória e o meu estado de alerta, da mesma forma que o gume de uma faca afia a ponta de um lápis, e só por isso compensam o sofrimento que causam. No entanto, a escrita e a memória por si só não são o suficiente. Também tenho um corpo, independentemente do quanto hoje em dia ele possa ser grotesco e estar deteriorado, e eu exercito-o tanto quanto possível. De início foi difícil - os velhos jarretas como eu não são muito dados ao exercício físico, quando este é feito sem um incentivo - mas agora é-me mais fácil, uma vez que passou a existir uma finalidade nos meus passeios.
Costumo sair antes do pequeno-almoço - na maior parte dos dias, assim que a manhã começa a despontar - para dar o meu primeiro passeio. Esta manhã estava a chover e o tempo húmido provoca-me dores nas articulações, mas vesti um impermeável que estava pendurado no bengaleiro à porta da cozinha, e mesmo com o tempo chuvoso saí. Quando um homem tem uma tarefa a cumprir, esta tem de ser levada a cabo, e se isso lhe causar dores, pois bem, tanto pior. Além do mais, há que levar em consideração todas as compensações. A principal é conseguirmos manter esse sentido do Tempo Verdadeiro, ao contrário do Tempo em Georgia Pines. E além disso, a chuva agrada-me, com dores ou sem dores. Especial
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mente, às primeiras horas da manhã, quando o dia ainda é jovem, e nos dá a impressão de estar repleto de possibilidades, até mesmo para um velhote desgastado como eu.
Atravessei a cozinha, detendo-me para implorar a um dos cozinheiros, de olhos ainda meio adormecidos, que me desse duas torradas, e saí. Percorri o campo de jogos e parte do pequeno campo de golfe coberto de ervas. Por detrás dessa área existe um arvoredo de pequenas dimensões, com uma vereda estreita e sinuosa, assim como dois barracões que já não são utilizados, e que se vão deteriorando com a passagem do tempo. Num passo lento, percorri este caminho, escutando o gotejar da chuva, suave e envolto em mistério, a tombar sobre os pinheiros, enquanto ia trincando as torradas com os poucos dentes que me restam. Sentia dores nas pernas, mas estas não eram muito intensas e conseguiam suportar-se. De uma maneira geral, sentia-me bastante bem. Inspirei o ar húmido e pardacento tão profundamente quanto me foi possível, os meus pulmões engolindo-o como se fosse comida.
Quando cheguei ao segundo dos velhos barracões que mencionei, entrei durante algum tempo e tratei do que tinha a tratar ali.
Vinte minutos mais tarde, quando voltei à vereda por onde tinha ido, comecei a sentir o bichinho da fome a agitar-se no meu estômago; pensei que já me apetecia alguma coisa um pouco mais substancial do que as torradas. Talvez uma tigela de papas de aveia, ou mesmo um ovo mexido com uma salsicha ao lado. Gosto de salsichas, sempre gostei, mas hoje em dia, se por acaso como mais do que uma, tenho propensão a ficar com diarreia. No entanto, só uma não deveria causar-me transtorno. Em seguida, com a barriga cheia e com o ar húmido ainda a espevitar-me o cérebro (ou assim o esperava), tencionava ir para o solário começar a escrever sobre a execução do Eduard Delacroix. Fá-lo-ia o mais depressa possível, para não perder a coragem.
Quando voltei a atravessar o campo de jogos, em direcção à porta da cozinha, era o Mister Jingles que me preenchia os pensamentos - a maneira como o Percy Wetmore o tinha es magado com o sapato, partindo-lhe a espinha, e de como o Delacroix havia desatado a gritar ao dar-se conta daquilo que o seu inimigo fizera - e só dei pela presença do Brad Dolan, que estava meio oculto pelos contentores do lixo, quando ele subitamente me agarrou pelo pulso.
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- Com que então saíste para dar um pequeno passeio, não é verdade, Paulie? - perguntou ele.
Dei um safanão, soltando o pulso, sobressaltado - qualquer pessoa apanhada de surpresa faria a mesma coisa - mas não só. Recordam-se de que eu estivera a pensar no Percy
Wetmore, e de cada vez que vejo o Brad lembro-me logo do Percy. Isso deve-se em parte ao facto de o Brad andar sempre com um livro de bolso enfiado na algibeira (no caso do Percy era sempre uma revista de aventuras; com o Brad são livros de anedotas que só têm graça no caso de se ser estúpido, ou ter mau coração), e à maneira como ele se comporta, como se fosse o maior, mas principalmente por ele ser matreiro e ter prazer em fazer mal aos outros. Reparei que acabara de pegar ao trabalho - nem sequer ainda tivera tempo de vestir o uniforme branco de servente do lar. Trazia um par de calças de ganga e uma camisa grosseira. Numa das mãos tinha o que restava de um bolo que roubara da cozinha. Estivera debaixo do beiral a comê-lo, para se proteger da chuva. E para poder observar a minha chegada, nesta altura estou bem certo disso. Também estou certo de outra coisa: preciso de ter cuidado com o Brad Dolan. Ele não gosta muito de mim. Não sei por que razão, mas também nunca cheguei a saber porque é que o Percy Wetmore sempre antipatizara com o Delacroix. Na realidade, antipatia é uma palavra demasiado fraca. O Percy odiara o Del com todas as veias da sua alma desde o primeiro instante em que o pequeno franciú surgira na Milha Verde.
- O que é que se passa com esse impermeável que trazes vestido, Paulie? - perguntou ele, sacudindo a gola. - Não é teu. - Tirei-o do corredor, junto à porta da cozinha - repliquei. Detesto que ele me chame Paulie e estou convencido de que ele está bem ciente disso, mas raios me partissem se eu lhe daria a satisfação de aludir ao assunto. - Há imensos impermeáveis pendurados no bengaleiro. Seja como for, não estou a danificá-lo, não te parece? E é exactamente para a chuva que eles se destinam.
- Mas não foram feitos para ti, Paulie - retorquiu ele com um pequeno sorriso de desdém. - Aí é que está o busílis. Esses impermeáveis são para os empregados e não para os residentes.
- Continuo sem compreender que mal é que posso ter feito.
Ele lançou-me um sorriso por entre os lábios cerrados.
- Isto não tem nada a ver com mal, mas sim com os regulamentos. O que seria a vida sem regulamentos? Paulie, Paulie, Paulie. - Abanou a cabeça, como se só o facto de ser forçado a olhar para mim fizesse com que lamentasse estar vivo. - Provavelmente, estás convencido de que um peido velho como tu não tem de se preocupar mais com os regulamentos, mas isso não é verdade. Paulie.
A sorrir para mim. Antipatizando comigo. Talvez chegasse ao ponto de me odiar. E porquê? Não sei. Por vezes não há qualquer motivo. Esse é que é o aspecto assustador da questão.
- Bom, lamento muito se desobedeci aos regulamentos - continuei. A minha voz saiu choramingada e um pouco esganiçada; detestei-me por ter falado daquela maneira, mas já sou velho e as pessoas de idade choramingam com facilidade. As pessoas velhas assustam-se com facilidade.
- As tuas desculpas são aceites - disse o Brad com um acenar de cabeça. - Agora vai pendurar isso. Em qualquer dos casos, não tens nada que andar a passear à chuva. Muito em especial, naquele arvoredo. E se escorregasses e caísses, fracturando o raio da bacia? Hem? Quem é que pensas que seria obrigado a arrastar a tua velha carcaça pela colina acima?
-Não sei - respondi-lhe. O meu único desejo era afastar-me dele. Quanto mais o ouvia falar, mais o achava parecido com o Percy. O William Wharton, o tresloucado que estivera na Milha Verde durante o Outono de 32 numa ocasião agarrou no Percy e assustou-o tanto que ele mijou nas calças. Se falarem disto a alguém, dissera-nos o Percy depois do ocorrido, daqui a uma semana estão na bicha para a sopa dos pobres. Agora, depois de decorridos todos esses anos, eu quase conseguia ouvir o Brad Dolan a articular aquelas mesmas palavras, exactamente no mesmo timbre de voz. $ como se, ao escrever sobre esses tempos passados, eu tivesse aberto uma porta medonha que ligava o passado ao presente - o Percy Wetmore ao Brad Dolan, a Janice Edgecombe à Elaine Connelly, a penitenciária de Cold Mountain ao lar da terceira idade de Georgia Pines. Se este pensamento não me mantiver acordado à noite, estou em crer que nada o conseguirá.
Fiz menção de entrar pela porta da cozinha, e o Brad voltou a agarrar-me pelo pulso. Não sei quanto à primeira vez, mas desta feita ele fê-lo de propósito, apertando-me o pulso até me magoar. Os seus olhos percorriam tudo em seu redor, certificando-se que não havia ninguém por ali com aquele
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tempo húmido do início da manhã, ninguém que pudesse testemunhar que ele estava a abusar de uma das pessoas de idade das quais deveria cuidar.
- O que é que fazes quando vais por aquele caminho? - perguntou ele. - Eu sei que não vais por ali para bateres uma punheta, esses dias há muito que ficaram para trás. Portanto, o que é que vais fazer?
- Nada - respondi, dizendo a mim mesmo que me acalmasse, para não lhe dar a mostrar o quanto estava a magoar-me; era preciso manter a calma, ter em mente que ele só
mencionara a vereda e não dissera nada sobre o barracão. - Vou só passear. Pôr as ideias em ordem.
- É tarde de mais para isso, Faulie, a tua mente nunca voltará a pensar com clareza. - Uma vez mais, apertou o meu pulso de homem fragilizado pela idade, fazendo pressão
sobre os ossos quebradiços, sempre a olhar de um lado para o outro para se assegurar de que ninguém presenciava aquela cena. O Brad não receava infringir os regulamentos; o seu único receio era ser apanhado a fazê-lo. Até nisso ele agia como a Percy Wetmore, o qual nunca permitia que ninguém se esquecesse que ele era sobrinho do governador do estado. - Tão velho como és, é um autêntico milagre que sejas capaz de te recordar de quem és. És demasiado velho. Até mesmo para um museu como este. Causas-me arrepios na espinha, Paulie.
- Larga-me - ripostei, tentando falar numa voz que não fosse choramingada. O que não se devia apenas ao meu orgulho. Pensei que se ele o detectasse poderia ficar todo inflamado, da mesma forma que o cheiro do suor pode, por vezes, inflamar um cão de maus flgados - um cão que, noutras circunstâncias, se limitaria a rosnar - levando-o a morder. Aquilo trouxe-me à recordação a imagem do repórter que fizera a cobertura do julgamento do John Coffey. O repórter era um homem horroroso de nome Hammersmith, e a coisa mais horrível acerca dele é que nunca se apercebera de como era horroroso.
Em vez de me soltar, o Dolan voltou a apertar-me o pulso. Comecei a gemer. Não queria fazer tal coisa, mas foi mais forte do que eu. As dores percorreram-me o corpo até aos tornozelos.
- O que é que costumas fazer ali em baixo, Paulie? Diz-me. - Nada! - respondi. Não chorava, ainda não, mas re
ceava que isso viesse a acontecer dentro em pouco, caso ele continuasse a magoar-me daquela maneira. - Nada, limito-me a passear, eu gosto de passear, larga-me o pulso!
Ele acedeu, mas somente pelo tempo suficiente para poder agarrar-me pela outra mão. Essa estava fechada num punho. - Abre-a - disse ele. - Deixa o papá ver o que é que tens aí.
Obedeci-lhe, o que lhe provocou um resmungo de nojo. Eram só os restos da minha segunda torrada. Quando ele começara a apertar-me o pulso esquerdo,. eu cerrara-a na outra mão e, como estava barrada de manteiga - que é como quem diz... com um sucedâneo, como é evidente, eles ali não tinham manteiga da verdadeira -lambuzara-me os dedos.
- Vai para dentro e lava a porcaria das mãos - ripostou ele, retrocedendo e dando outra dentada no seu bolo. - Jesus Cristo!
Subi os degraus. Sentia as pernas a tremer, e o meu coração pulsava como um motor que tivesse válvulas que não vedassem e pistões velhos. Enquanto rodava a maçaneta que abriria a porta da cozinha - eme proporcionaria segurança - o Dolan continuou a falar.
- Se contares a alguém que eu te torci esse pulso velho, Paulie, eu digo-lhes que andas a ver coisas. O início da demência provocada pela senilidade, muito plausivelmente. E sabes que eles acreditarão em mim. Se por acaso houver nódoas negras, pensarão que foste tu que as fizeste a ti próprio.
Sim. Aquilo era verdade. E, uma vez mais, poderia muito bem ter sido o Percy Wetmore a proferir aquelas palavras, um Percy que conseguira manter-se jovem e malévolo, enquanto eu tinha envelhecido, ficando com um corpo frágil.
- Não tenciono dizer nada seja a quem for - repliquei entre dentes. - Não tenho nada a dizer.
- É isso mesmo, minha velha doçura. - A sua voz era suave e mordaz, a voz de um mentecapto (para utilizar o termo do Percy) que estava convencido que se manteria jovem para sempre. - E podes crer que vou descobrir o que é que andas a tramar. Não hei-de descansar até saber. Estás a ouvir o que te digo?
Estava e muito bem, mas não lhe daria a satisfação de lho dizer. Entrei, atravessando a cozinha (chegava-me às narinas o aroma dos ovos e das salsichas, mas eu entretanto tinha
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perdido o apetite), e pendurei o impermeável no cabide. Em seguida, subi as escadas até ao meu quarto - descansando em cada degrau e dando tempo ao meu coração para que se acalmasse - afim de ir buscar o meu material de escrita.
Desci até ao solário; preparava-me para me sentar à pequena mesa junto das janelas, quando a minha amiga Elaine enfiou a cabeça pela porta entreaberta. Tinha um aspecto fati
gado e, pensei, pouco saudável. Penteara os cabelos mas continuava com o roupão vestido. Nós, as velhas doçuras, não costumamos estar com muitas cerimónias, quanto ao traje que envergamos; na maior parte dos casos, não podemos dar-nos a esse luxo.
- Não quero incomodar - disse ela -, estou a ver que estás a preparar-te para começar a escrever...
- Não digas disparates - repliquei. - Tenho tempo de sobra. Entra.
O que a Elaine fez, mas continuando junto à porta.
- E que não consegui dormir... outra vez. E por acaso olhei pela janela ainda não há muito tempo... e...
- E viste o Dolan e eu próprio embrenhados numa pequena conversa deveras agradável - continuei. Esperava que ela se houvesse limitado a observar; que a janela dela se ti
vesse mantido fechada, impedindo-a de me ouvir a choramingar, pedindo ao homem que me largasse.
- Não me parece que tenha sido agradável nem tão-pouco amigável - acrescentou ela. - Paul, esse Dolan tem andado por aí a fazer perguntas a teu respeito. Fez-me pergun
tas sobre ti, na semana passada. Na altura não pensei muito no assunto, pois acho que ele é muito bisbilhoteiro em relação às outras pessoas, mas agora estou com algumas dúvidas.
- Fez perguntas sobre mim? - Só esperava que a minha voz não desse a entender o mal-estar que me invadira. - A perguntar o quê?
- Para começar, queria saber onde é que vais quando dás os teus passeios. E também por que razão vais passear. Tentei rir-me sem grande êxito.
- Aí está um homem que não acredita nos beneficios do exercício físico.
- Ele pensa que tu tens um segredo. - A Elaine fez uma pausa. - E eu também.
Abri a boca - não sei bem para dizer o quê - mas a Elaine ergueu uma das suas mãos enodadas, mas tão estra
nhamente bonitas, antes de eu ter oportunidade de proferir uma única palavra.
- Se for esse o caso, não pretendo saber o que é, Paul. Os teus assuntos só a ti dizem respeito. Foi assim que fui educada, embora isso não aconteça com toda a gente. Tem cuidado. Era só o que queria dizer-te. E agora vou deixar-te sozinho com a tua escrita.
A Elaine voltou-se, fazendo menção de se ir embora; antes que pudesse transpor a porta, chamei-a. Virou-se para mim com uns olhos inquiridores.
- Quando eu terminar o que tenho andado a escrever... - comecei a dizer, abanando ligeiramente a cabeça. Aquilo era incorrecto. - Se eu conseguir acabar o que tenho andado a escrever, estarias disposta a lê-lo?
Pareceu ter ficado a pensar no assunto; ao fim de algum tempo, brindou-me com aquela espécie de sorriso por que um homem se poderia apaixonar facilmente, até mesmo um homem envelhecido como eu próprio.
- Para mim, isso seria uma honra - respondeu a Elaine por fim.
- É preferível leres antes de começares a falar em honras - retorqui, pensando na morte de Delacroix.
- Seja como for, gostaria de ler os teus escritos - continuou ela. - Cada palavra. Prometo. Mas primeiro tens de acabar de escrever.
Com aquelas palavras, deixou-me sozinho, mas ainda decorreu muito tempo até que começasse a escrever qualquer coisa. Fiquei sentado a olhar pela janela durante quase uma hora, batendo com a caneta contra a mesa, observando o dia pardacento a iluminar-se um pouco por breves instantes, a pensar no Brad Dolan, o qual me chama Paulie e nunca se cansa das piadas sobre os chinocas, os saloios e os negros, a pensar no que a Elaine Connelly tinha acabado de me dizer. Ele pensa que tu tens um segredo. E eu também.
Talvez eu tivesse. É possível que sim. E, como é evidente, o Brad Dolan queria conhecê-lo. Não porque pensasse que era importante (e calculo que não fosse, excepto para mim), mas só porque pensava que os velhos como eu não deviam ocultar segredos. Tão-pouco devem tirar os impermeáveis dos bengaleiros junto da porta da cozinha. Ou ficar com a ideia de que os da nossa igualha continuam a ser seres humanos. E por que razão não deveria ser-nos permitido tal ideia? Ele
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não sabe. E também nesse aspecto é muito parecido com o Percy.
Por conseguinte, os meus pensamentos, como as águas que dobram o cotovelo de um rio, regressaram finalmente ao ponto onde haviam estado na altura em que o Brad Dolan es tendera a mão, perto da cozinha, para me agarrar o pulso: ao Percy, ao Percy Wetmore, o homem de espírito maldoso, e à forma como ele exercera a sua vingança sobre alguém que ousara rir-se de si. O Delacroix estava a lançar o carretel de cores garridas - aquele que o Mister Jingles ia buscar a correr - quando este fez ricochete na parede da cela, e saltou para o corredor. Não foi necessário mais nada; o Percy viu ali a sua grande oportunidade.
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- Não, grande idiota! - berrou o Brutal, mas o Percy não lhe prestou a mínima atenção. Assim que o Mister Jingles chegou junto do carretel, demasiado concentrado no ob jecto para se aperceber de que o seu velho inimigo se encontrava por perto, o Percy colocou-lhe em cima a sola do seu pesado sapato preto de trabalho. Ouviu-se um estalar bastante audível quando a espinha do Mister Jingles se partiu, tendo começado a jorrar-lhe logo sangue da boca. Os seus pequenos olhos negros imobilizaram-se esbugalhados nas órbitas; neles li uma expressão de agonia e de surpresa que era demasiado humana.
O Delacroix gritou de dor e de horror. Lançou-se contra a porta da cela, enfiando os braços por entre as barras de ferro, esticando-se tanto quanto possível e gritando vezes sem conta o nome do rato.
O Percy voltou-se para ele com um sorriso nos lábios. Também se virou para o Brutal e para mim.
- Já está - disse ele. - Sabia que acabaria por apanhá-lo. Na verdade, era uma questão de tempo. - Virou costas e começou a andar pela Milha Verde, sem pressa, deixando o
Mister Jingles estendido em cima do linóleo, o sangue vermelho a derramar-se por cima do verde.
O Dean levantou-se da mesa do guarda de serviço, batendo com o joelho num dos cantos, fazendo tombar o baralho de cartas com que tinha estado a jogar, que se espalharam em
todas as direcções. Nem o Dean nem o Harry, que estavam quase a terminar o seu turno, prestaram a mínima atenção às
cartas.
- O que é que fizeste desta vez? - gritou o Dean ao Percy. - Que porra é que fizeste desta vez, meu estupor? O Percy não lhe deu resposta, passando junto da secretária a acamar o cabelo com os dedos. Atravessou o meu gabinete em direcção à sala da arrecadação.
Foi o William Wharton quem respondeu no seu lugar. - Chefe Dean? Parece-me que o que ele fez foi ensinar a um certo franciú que este não é muito esperto quando se ri dele - disse o Wharton, desatando a rir-se. Foi uma boa gargalhada, um riso do campo, jovial e profundo. Conheci pessoas ao longo desse período da minha vida (na sua maioria, pessoas deveras assustadoras), que só pareciam normais quando se riam. O Bill Selvagem era uma delas.
Uma vez mais, cheio de perplexidade, baixei o olhar até ao rato. Continuava ainda a respirar; viam-se pequenas gotículas de sangue entre os filamentos dos seus bigodes, e os olhos, que até então tinham estado brilhantes que nem pequenas contas negras, começavam a ficar toldados. O Brutal apanhou do chão o carretel colorido, olhou para o objecto e depois fitou-me. Mostrava-se tão aparvalhado quanto eu próprio. Atrás de nós, o Delacroix não parava de gritar, dando largas a todo o desgosto e horror que sentia. Não se tratava apenas do rato, como é óbvio. O Percy havia destruído o mecanismo de defesa do Delacroix, e todo aquele horror brotava do seu interior. Mas o Mister Jingles era o centro de todos esses sentimentos reprimidos; era horrível ouvi-lo.
- Oh, não - gritava ele repetidamente por entre os berros e as súplicas balbuciadas e as orações em cajun. - Oh, não, oh, não, pobre Mister Jingles, pobre velho Mister Jingles, oh, não.
- Dê-mo a mim.
Intrigado com aquela voz profunda e retumbante, ergui o olhar, sem que inicialmente soubesse a quem pertencia. Deparei com John Coffey. À semelhança do Delacroix, também enfiara os braços por entre as barras da porta da cela, mas ao contrário do Del, ele não os abanava. Limitava-se a mantê-los estendidos tão longe quanto podia, com as mãos abertas. Era uma postura quase de urgência. O seu timbre de voz possuía as mesmas características, motivo por que, suponho eu, de
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princípio não a reconheci como pertença sua. Dava a impressão de ser um homem diferente em relação àquela alma lacrimosa e perdida que ocupara a sua cela durante as últimas semanas.
- Entregue-mo, Mister Edgecombe! Enquanto ainda se vai a tempo!
Foi então que me lembrei do que ele fizera por mim, e compreendi. Supus que mal não faria, embora estivesse convencido de que também não iria servir de muito. Quando apanhei o rato do linóleo, retraí-me ao tocar-lhe no corpo - havia tantos ossos quebrados e espetados em vários pontos dos quartos traseiros e dianteiros do Mister Jingles, que a sensação era a de agarrar numa almofada de alfinetes coberta de pêlos. Aquilo não era nenhuma infecção urinária. Ainda assim...
- O que é que estás a fazer? - perguntou-me o Brutal quando coloquei o Mister Jingles na palma da gigantesca mão direita do John Coffey. - O que raio?...
O Coffey recolheu o rato através das barras. O animal mantinha-se inanimado na sua mão, com a cauda pendurada por cima do arco formado pelo polegar e dedo indicador, a
agitar-se fracamente no ar. Em seguida, o Coffey cobriu a sua mão direita com a esquerda, criando uma espécie de concha, no interior da qual o rato se encontrava deitado. Tínhamos deixado de poder ver o Mister Jingles, víamos apenas a sua cauda, suspensa e contorcendo-se fracamente na ponta, qual pêndulo prestes a imobilizar-se. O Coffey ergueu as mãos até ao rosto e, ao fazê-lo, abriu os dedos da direita, criando espaços como os existentes entre as barras da prisão. Naquele momento, a cauda do rato continuava pendurada do lado das mãos virado para nós.
O Brutal aproximou-se de mim, continuando a segurar o carretel colorido.
- O que é que ele pensa que está a fazer? - Chüuuu - fiz-lhe eu.
Entretanto, o Delacroix parara de gritar.
- Por favor, John - sussurrou ele. - Oh, John ajuda-o, por favor ajuda-o, oh, s'il vous plaït.
O Dean e o Harry tinham-se juntado a nós; este último trazia numa das mãos o nosso velho baralho de cartas.
- O que é que se passa? - perguntou o Dean; como resposta, limitei-me a abanar a cabeça. Uma vez mais, estava a sentir-me hipnotizado, raios me partam se não estava.
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O Coffey colocou a boca junto de dois dos seus dedos, inspirando profundamente. Por um momento, tudo se manteve em suspenso. Pouco depois, ergueu a cabeça, afastando-a das mãos, o que me permitiu ver a expressão de um homem que aparentava estar gravemente doente, ou sob um sofrimento terrível. Os seus olhos ardentes exibiam uma expressão alerta; os seus dentes superiores mordiam com força o lábio inferior; as suas faces negras tinham adquirido uma tonalidade desagradável, que mais se assemelhava a uma pasta de cinzas misturadas com lama. Emitiu um som estrangulado bem do fundo da garganta.
- Adorado Jesus, Senhor e Salvador - murmurou o Brutal. Os seus olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas. - O que é que?... - A voz do Harry mais parecia um ladrar. - O quê?
- A cauda! Não estás a ver? A cauda!
A cauda do Mister Jingles deixara de se assemelhar a um pêndulo prestes a imobilizar-se, e zurzia vigorosamente de um lado para o outro, como a cauda de um gato pronto a caçar pássaros. E então, do interior das mãos em concha do Coffey, ouviu-se um guinchar perfeitamente familiar.
O Coffey soltou uma vez mais aquele som estrangulado de quem estava amordaçado, e rodou a cabeça para o lado, como um homem que houvesse puxado um jacto de escarros e pretendesse lançá-lo da boca para fora. Em vez disso, expeliu uma nuvem de insectos negros da boca e do nariz. - pelo menos, eu penso que fossem insectos, tal como os outros, mas até hoje não estou absolutamente certo disso. - Começaram a zunir à sua volta, formando uma nuvem escura que temporariamente obscureceu as suas feições.
- Credo, o que é aquilo?! - perguntou o Dean numa voz esganiçada e receosa.
- Não há problema - ouvi-me eu a dizer. - Não entres em pânico, está tudo bem, dentro de alguns segundos desaparecerão.
Tal como na ocasião em que o Coffey tinha curado a minha infecção urinária, os "bichinhos" ficaram brancos e desapareceram.
- Mas que merda é esta?! - sussurou o Harry atónito. - Paul? - chamou o Brutal numa voz pouco firme. - Paul?
O Coffey voltara a apresentar um bom aspecto - eómo
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um fulano que tivesse conseguido cuspir um bocado de carne que estivera quase a sufocá-lo. Dobrou-se para baixo, colocou junto do chão as mãos que continuavam a formar uma concha, espreitou por entre os dedos e abriu-as. O Mister Jingles, são que nem um pêro - sem o mínimo defeito na espinha nem tão-pouco um único alto nos quartos - começou a correr. Deteve-se por breves instantes junto da porta da cela do Coffey, e em seguida atravessou a Milha Verde até à cela do Delacroix. Quando o rato ia a correr, reparei que ainda tinha algumas gotículas de sangue agarradas aos bigodes.
O Delacroix pegou no animal, rindo e chorando ao mesmo tempo, cobrindo o rato com beijos repenicados sem quaisquer mostras de embaraço. O DDean, o Harry e o Brutal obsevavam em silêncio, perplexos. Então, o Brutal avançou e entregou ao Delacroix o carretel colorido através das barras da cela. De princípio, este não reparou; estava demasiado enlevado com o Mister Jingles. Era como um pai cujo filho tivesse acabado de ser salvo de um afogamento. O Brutal bateu-lhe com o carretel no ombro. O Delacroix olhou, viu o que era, aceitou o carretel e voltou a dedicar toda a sua atenção ao Mister Jingles, acariciando-lhe o pêlo e devorando-o com os olhos, sentindo necessidade de renovar constantemente a sua percepção de que sim, o rato estava bem de saúde, o rato continuava inteiro e em excelente forma.
- Lança-o - disse o Brutal. - Quero ver como é que ele corre.
- Ele está bem, chefe Howell, ele está bem, louvado seja Deus...
- Lança o carretel - repetiu o Brutal, insistente. - Faz o que te digo, Del.
O Delacroix dobrou-se, um pouco relutante, pois não desejava que o Mister Jingles voltasse a sair-lhe das mãos, pelo menos de momento. Mas então, com toda a suavidade, arremessou o carretel. Este rolou pelo chão da cela, passando pela caixa de charutos Corona, até chegar à parede. O Mister Jingles foi atrás do objecto, embora o não fizesse com a celeridade que demonstrara anteriormente. Dava a impressão de coxear, ainda que ligeiramente, da pata traseira esquerda, pormenor que me despertou mais a atenção do que tudo o resto - era, suponho, o que tornava tudo aquilo tão real. Aquele pequeno coxear.
No entanto, o rato chegou junto do carretel, agarrou-o

sem problemas e, com o focinho, empurrou-o para junto do Delacroix com o mesmo entusiasmo de sempre. Voltei-me para o John Coffey, que estava junto da porta da cela com um sorriso nos lábios. Era um sorriso cansado e não aquele que eu classificaria de realmente feliz; todavia, o sentido de urgência que eu lhe vira na fisionomia quando me implorara que lhe entregasse o rato tinha desaparecido, assim como a expressão de dor e de medo. Uma vez mais, era o nosso John Coffey, com o rosto de quem não se encontrava ali de corpo e alma e os estranhos olhos que pareciam fitar à distância.
- Conseguiste evitar o mal - disse eu. - Não foi, matulão?
- Foi isso mesmo - anuiu o Coffey. O sorriso alargou-se um pouco e, durante um momento ou dois, espelhou felicidade. - Eu consegui evitar o mal. Eu consegui evitar o mal, consegui evitar o mal no rato do Del. Eu ajudei... - A sua voz enfraqueceu incapaz de se recordar do nome.
- O Mister Jingles - adiantou o Dean. Observava o John com uns olhos intrigados e cautelosos, como se esperasse que ele ficasse envolto em chamas a qualquer instante, ou que talvez começasse a flutuar pela cela.
- É isso mesmo - disse o Coffey -, o Mister Jingles. Ele é um rato do circo. Vai viver numa casa com vidros de folha de mica.
- Podes apostar o que quiseres - retorquiu o Harry, juntando-se a nós na observação a que submetíamos o John Coffey. Por detrás de nós, o Delacroix deitara-se em cima da sua tarimba com o Mister Jingles em cima do peito. Entoava-lhe uma canção, uma qualquer melodia em francês que parecia ser uma canção de embalar.
Com o olhar, o Coffey percorreu a Milha Verde, detendo-se na mesa do guarda de serviço; fitou a porta que dava para o meu gabinete, concentrando-se na sala da arrecadação para lá deste.
- O chefe Percy é mau - disse ele. - O chefe Percy é mau. Pisou o rato do Del. Pisou o Mister Jingles.
E então, antes de lhe podermos dizer fosse o que fosse - isto é, se tivéssemos sido capazes de pensar em alguma coisa para lhe dizer - o John Coffey regressou à sua tarimba, deitou-se e voltou o rosto para a parede.
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O Percy encontrava-se de costas para nós quando o Brutal e eu entrámos na arrecadação, cerca de vinte minutos mais tarde. Descobrira uma lata de pomada para polir mobília nu ma prateleira por cima do cesto da roupa onde costumávamos colocar os nossos uniformes (e por vezes, também as roupas à paisana; a lavandaria da prisão não se interessava pelo que lavava) e começara a puxar lustro à madeira de carvalho dos pés e dos braços da cadeira eléctrica. Isto, provavelmente, poderá parecer-vos aberrante, -talvez até mesmo macabro, mas, na minha opinião e na do Brutal, aquilo parecia ser a coisa mais normal que o Percy fazia em toda aquela noite. No dia seguinte, a Velha Faísca tinha encontro marcado com o seu público, e o Percy, finalmente, poderia dar a impressão de ser o responsável.
- Percy - chamei numa voz calma.
Voltou-se; a pequena canção que tinha estado a trautear morreu-lhe na garganta; olhou para nós. Não deparei com o receio de que estivera à espera, pelo menos de início. Apercebi-me de que o Percy parecia ter envelhecido. O John Coffey tinha razão. De facto, ele tinha um aspecto maligno. A maldade é como uma droga - ninguém à face da Terra se encontra mais qualificado do que eu para poder dizer isso - e ocorreu-me que, depois de ter experimentado, o Percy ficara viciado naquilo. Sentia prazer no que fizera ao rato do Delacroix. E sentia ainda mais prazer nos gritos de desgosto que o Delacroix soltara.
- Não comeces a implicar comigo - proferiu ele num tom de voz quase agradável. - Quer dizer, que diabo, não passava de um rato. Para começar, o seu lugar nunca foi aqui, como vocês muito bem sabem.
- O rato está de boa saúde - retorqui. Sentia o coração a bater-me aceleradamente dentro do peito, mas obriguei-me a falar numa voz calma, quase desinteressada. - Está ópti mo. Anda outra vez a correr e a guinchar atrás do carretel. Tu não és melhor a matar ratos do que a fazer a maior parte das outras coisas que fazes por aqui.
O Percy olhava fixamente para mim, espantado e sem querer acreditar no que eu lhe dizia.
- Estás à espera que eu acredite numa coisa dessas.

O raio do animal ficou esborrachado! Eu ouvi o barulho que fez! Portanto, não podes...
- Cala a boca - atalhei.
Olhou para mim de olhos esbugalhados. - O quê? O que é que acabaste de dizer?
Dei um passo, aproximando-me mais dele. Sentia uma veia a latejar a meio da testa. Não era capaz de me recordar de qual fora a última vez em que me encolerizara.
- Não estás satisfeito por o Mister Jingles se encontrar bem de saúde? Depois de todas as conversas que tivemos sobre a nossa função de manter os prisioneiros calmos, em especial quando se encontram próximos do seu fim, pensei que ficarias contente. Aliviado. Porque o Del amanhã terá de fazer a caminhada final e tudo o mais.
O olhar do Percy desviou-se de mim para o Brutal; a sua calma estudada dissolveu-se na incerteza.
- Que raio de brincadeira é que pensam que estão a fazer? - perguntou ele.
- Nada disto é brincadeira, meu amigo - replicou o Brutal. - O facto de pensares que é... pois bem, é apenas uma das razões por que não podemos confiar em ti. Queres saber qual é a verdade? Acho que inspiras piedade.
- Aconselho-te a teres atenção ao que dizes - redarguiu o Percy. Naquele momento, transparecia na sua voz uma certa agressividade. Ao fim e ao cabo, o medo apoderava-se dele a pouco e pouco... medo daquilo que talvez pretendêssemos dele, medo do que lhe pudéssemos vir a fazer. Senti-me satisfeito ao detectar aquele medo. Assim era mais fácil lidar com ele. - Eu tenho conhecimentos. Gente importante.
- Assim o dizes, mas és um grande sonhador - acrescentou o Brutal. Dava a impressão de estar prestes a rebentar em gargalhadas.
O Percy deixou cair o pano do pó em cima do assento da cadeira com as braçadeiras nos braços e nas pernas.
- Eu matei aquele rato - continuou ele numa voz pouco firme.
- Vai ver com os teus próprios olhos - aconselhei. - Estamos num país livre.
- É o que vou fazer - disse ele. - Vou, sim.
Passou por nós num passo brusco, lábios firmemente cerrados, e com as suas pequenas mãos (o Wharton tinha razão; elas eram bonitas) a remexer no pente. Subiu os degraus e
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baixou a cabeça para poder passar por baixo da ombreira da porta que dava para o meu gabinete. O Brutal e eu deixámo-nos ficar junto da Velha Faísca, à espera que ele regressasse, e sem trocarmos qualquer palavra. Não sei quanto ao Brutal, mas por mim não conseguia pensar numa única coisa para dizer. Nem sequer sabia o que pensar acerca do que acabáramos de testemunhar.
Decorreram três minutos. O Brutal agarrou no pano do pó que o Percy utilizara e começou a puxar lustro às travessas espessas das costas da cadeira eléctrica. Teve tempo de acabar uma e começar outra antes de o Percy ter regressado. Este ao descer os degraus do meu gabinete até à arrecadação, tropeçou e quase caiu por eles abaixo; quando se aproximou de nós, vinha num passo cambaleante. A sua expressão era de descrença e choque.
- Vocês trocaram de rato - afirmou ele com uma voz esganiçada e acusadora. - Não sei como, mas vocês substituíram o rato, grandes estupores. Estão a brincar comigo, mas garanto que irão arrepender-se, caso não ponham fim à brincadeira! Ainda hei-de vê-los no raio das filas da sopa dos pobres se não pararem com isso! Quem é que julgam que são?
Interrompeu-se, arquejando e com falta de ar; tinha as mãos enclavinhadas.
- Eu digo-te quem é que somos - repliquei. - Somos as pessoas com quem trabalhas, Percy... mas não durante muito mais tempo. - Estendi os braços e assentei firmemen te as minhas mãos sobre os seus ombros. Não com muita força, mas ainda assim com firmeza. Sim, de facto foi isso. - Tira as... - começou o Percy a dizer, erguendo as mãos até às minhas.
O Brutal agarrou-lhe na mão direita - envolvendo por completo aquela mão pequena, macia e branca, que desapareceu no interior do punho bronzeado do Brutal.
- Cala o buraco dos bolos, filho. Se sabes o que é bom para ti, aproveita esta última oportunidade para limpar a cera que te tapa os ouvidos.
Fi-lo dar meia volta, icei-o para cima do estrado e obriguei-o a retroceder até que a parte de trás dos seus joelhos bateu contra o assento da cadeira eléctrica, forçando-o a sen tar-se. Toda a sua calma se esfumara, assim como a maldade e a arrogância. Aquelas facetas do seu carácter eram verdadeiras, mas é preciso não esquecermos que o Percy ainda era
muito jovem. Naquela idade, elas não passavam de uma camada fina de verniz, como se fossem um tom desagradável de tinta de esmalte. Continuava a ser possível descascar a camada. Calculei que naquele momento o Percy estivesse pronto para ouvir o que tínhamos a dizer.
- Quero a tua palavra - disse eu.
- A minha palavra sobre o quê? - Os seus lábios continuavam a querer exibir um esgar escarninho, mas os olhos mostravam-se aterrorizados. A energia que vinha do quadro eléctrico estava desligada, mas o assento.de madeira da Velha Faísca possuía um poder muito próprio, e, naquele momento, imaginei que o Percy estaria a senti-lo.
- Atua palavra de que se amanhã à noite te deixarmos trabalhar na linha da frente irás de facto para o Briar Ridge, deixando-nos em paz de uma vez para sempre - declarou o Brutal, expressando-se com uma veemência que eu nunca lhe tinha ouvido. - Que pedirás transferência logo no dia seguinte.
- E se eu não quiser? E se eu decidir telefonar a umas determinadas pessoas, informando-as de que vocês me ameaçam e não param de me assediar? Que se comportam como arruaceiros para comigo?
- É possível que corram com os nossos traseiros daqui para fora se os teus conhecimentos forem tão bons como pareces acreditar que são - retorqui -, mas juro-te que antes disso trataremos de garantir que também deixarás derramado no chão o teu quinhão justo de sangue, Percy.
- Por causa desse rato? Pensam que alguém vai interessar-se por eu ter pisado o rato de estimação de um assassino condenado à morte? Fora das paredes deste asilo de doidos?
- Não. Mas há três homens que te viram de braços cruzados enquanto o Bill "Selvagem" Wharton tentava estrangular o Dean Stanton com a corrente que lhe prendia os pulsos. As pessoas interessar-se-ão por isso, Percy, garanto-te que sim. Se tiver conhecimento dessa situação, até o manda-chuva do teu tio governador se interessará.
A testa e as bochechas do Percy enrubesceram com manchas avermelhadas.
- E pensas que alguém acreditaria em ti? - perguntou ele; contudo, a sua voz tinha perdido muita da força que a ira lhe emprestara. Era evidente que o Percy pensava que alguém iria acreditar em nós. E não gostava de se ver metido em pro
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blemas. Infringir os regulamentos não era uma coisa por aí além. Mas ser apanhado a infringi-los já não era nada bom. - Quero acrescentar que tenho algumas fotografias do pescoço do Dean tiradas antes de os hematomas terem começado a desaparecer - continuou o Brutal. Eu não fazia a mais pequena ideia se aquilo corresponderia ou não à verdade, mas o que é certo é que soava bem. - Sabes o que é que essas fotografias dizem? Que o Wharton teve uma esplêndida oportunidade antes de alguém o ter impedido de continuar, embora tu te encontrasses mesmo junto dele, e ainda por cima numa posição em que ele não poderia ter dado pela tua presença. Ver-te-ias obrigado a dar resposta a umas quantas perguntas bem difíceis, não te parece? E uma coisa dessa natureza pode bem acompanhar um homem durante bastante tempo. O mais certo seria acompanhá-lo até muito depois de os seus familiares terem deixado de exercer funções na capital do estado e regressado a suas casas, onde passarão o tempo a beber uísque com folhas de hortelã-pimenta, sentados no alpendre da frente. A folha de serviço de um homem pode transformar-se numa coisa deveras interessante, e há muita gente que tem a oportunidade de a examinar ao longo de uma vida.
Os olhos do Percy percorriam cada um de nós, reflectindo desconfiança. A sua mão esquerda ergueu-se até aos cabelos, que alisou. Não disse nada, mas pensei que quase o tínhamos na mão.
- Vamos lá a pôr fim a isto - disse eu. - Não te apetece estar aqui mais do que nós te queremos aqui, não será verdade?
- Eu detesto trabalhar aqui! - explodiu ele. - Odeio a forma como sou tratado, o facto de nunca me teres dado qualquer oportunidade!
A última observação encontrava-se longe da verdade, mas considerei que a ocasião não era propícia a discutir o assunto. - Mas também não gosto que me dêem ordens a torto e a direito. O meu pai ensinou-me que assim que começamos a percorrer esse caminho, o mais certo é acabarmos por pernitir que as pessoas façam gato-sapato de nós durante toda a vida. - Os seus olhos, que não eram tão bonitos como as mãos, chisparam. - Muito em particular, não me agrada receber ordens de gorilas gigantescos como este tipo. - Lançou um olhar ao meu velho amigo e resmungou: - Brutal... Pelo menos deram-te a alcunha adequada.
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Tens de compreender uma coisa, Percy - atalhei. - Quando se observam as coisas da nossa perspectiva, vemos que és tu quem tem andado a fazer gato-sapato de nós. Dizemos-te vezes sem conta como é que costumamos fazer as coisas e tu continuas a fazê-las como bem te apetece, escudando-te atrás dos teus conhecimentos na política sempre que as coisas dão para o torto. O facto de teres espezinhado o rato do Delacroix... - O Brutal olhou para mim, chamando-me a atenção, pelo que arrepiei rapidamente caminho. - De teres tentado pisar o rato do Delacroix... ilustra bem o nosso ponto de vista. Forças as coisas, forças e voltas a forçar; estamos apenas a pagar-te na mesma moeda e mais nada. Mas ouve bem, se andares acertadamente, acabarás por sair de tudo isto muito bem visto... como um jovem em franca ascenção, a cheirar a rosas. Ninguém precisa de vir a ter conhecimento desta nossa pequena conversa. Portanto, o que é que tens a dizer? Comporta-te como um adulto. Promete-nos que depois do Del te irás embora.
O Percy ficou a pensar no assunto. Após alguns momentos, surgiu-lhe no olhar uma determinada expressão, o género daquelas com que um fulano fica depois de ter tido uma boa ideia. Isso não me agradou muito, uma vez que qualquer ideia que pudesse parecer boa ao Percy não seria certamente boa para nós.
- Se não por mais nada - interveio o Brutal -, pensa pelo menos no quanto seria agradável ficares bem longe do saco de pus do Wharton.
O Percy assentiu com a cabeça; deixei-o levantar-se da cadeira. Endireitou a camisa do uniforme, meteu a fralda para dentro das calças e com o pente deu uma penteadela nos cabelos. Em seguida, olhou para nós.
- Muito bem, de acordo. Amanhã à noite estarei na linha da frente para o Del; peço a transferência para o Briar Ridge logo no dia seguinte. E a partir daí ficamos quites. Está bem assim?
- Suficientemente bem - respondi. Ele continuava a manter aquela expressão nos olhos; naquela altura, porém, eu sentia-me demasiado aliviado para me interessar por aquele Pormenor.
- Damos um aperto de mão para selar o assunto? - pergumtou o Percy, estendendo a mão.
Assim fiz. O Brutal também lhe apertou a mão. Conseguira enganar-nos uma vez mais.
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O dia seguinte provou ser o mais abafado e o último do nosso estranho Outubro, que tão quente se mantivera até então. A oeste ouvia-se o ribombar da trovoada que me acompanhou até ao trabalho, e as nuvens enegrecidas haviam começado aí a formar um manto. À medida que a noite desciasobre nós, mais elas se aproximavam; por entre aquele manto nebuloso, avistávamos as forquilhas azuis e brancas dos relâmpagos que as aguilhoavam. Por volta das dez da noite, o município de Trapingus foi atingido por um tornado - provocou a morte a dez pessoas e arrancou os telhados das cavalariças municipais de Tefton - acompanhado de trovoadas de grande intensidade e vendavais, que se abateram sobre Cold Mountain. Mais tarde ocorreu-me que eram os próprios céus que protestavam pela má morte do Eduard Delacroix.
Ao princípio correu tudo melhor. O Del passara uma noite tranquila na sua cela, ocasionalmente a brincar com o Mister Jingles, mas a maior parte do tempo passou-o deitado na tarimba a acariciá-lo. O Wharton tentou arranjar problemas por duas vezes - da primeira, disse ao Del aos berros que iriam comer hambúrgueres de rato depois de o velho Pierre Felizardo já se encontrar a dançar no inferno - mas o pequeno cajun não lhe deu réplica, e o Wharton, aparentemente convencido de que aquela tinha sido a sua melhor tentativa, desistiu.
Às dez e um quarto, o Irmão Schuster apareceu, tendo-nos deliciado ao dizer que rezaria o padre-nosso juntamente com o Del em francês cajun. Aquilo parecia ser um bom
presságio. É claro que estávamos redondamente enganados. Por volta das onze, as testemunhas começaram a chegar. Na sua maioria falavam em voz baixa, comentando as condições climatéricas que se avizinhavam e aventando a probabilidade de um corte de energia, que adiaria a electrocussão. Nenhuma dessas pessoas parecia ter conhecimento de que a Velha Faísca era alimentada por um gerador e, a menos que esse mecanismo fosse directamente atingido por um raio, o espectáculo haveria de prosseguir. Nessa noite, o Harry fora destacado para o compartimento do quadro eléctrico; portan
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to, era ele, juntamente com o Bill Dodge e o Percy Wetmore, que desempenhavam a tarefa de arrumadores, conduzindo as pessoas aos seus assentos e perguntando a cada uma delas se desejava um copo de água. Encontravam-se presentes duas mulheres: a irmã da rapariga que o Del violara e assassinara e a mãe de uma das vítimas que tinha sido imolada pelo fogo. A última senhora era corpulenta e tinha as faces pálidas, embora se mostrasse determinada. Confidenciou ao Harry Terwilliger que esperava que o homem que tinha vindo ver morrer estivesse com medo, sabendo antecipadamente que as chamas da fornalha o aguardavam. Em seguida, foi acometida por uma crise de choro e ocultou o rosto num lenço de renda que tinha quase o tamanho de uma fronha.
A trovoada, que mal era abafada pelo telhado de zinco, fazia ouvir os seus estrépitos alto e bom som. As pessoas erguiam o olhar até ao tecto, demonstrando um certo mal-estar. Os homens, que davam a impressão de não se sentir à vontade com as suas gravatas àquela hora tardia, limpavam o suor das faces coradas. Na sala da arrecadação estava um calor insuportável. E, como é claro, eles olhavam constantemente para a Velha Faísca. É possível que no início da semana tivessem dito algumas piadas quanto àquela tarefa, mas, mais ou menos por volta das onze e meia dessa noite, as piadas já haviam desaparecido. Comecei tudo isto contando-vos que o bom humor abandonava rapidamente as pessoas que eram obrigadas a sentar-se naquela cadeira de carvalho, mas os encarcerados condenados não eram os únicos a perder o sorriso quando a hora se aproximava inexoravelmente. Aquilo era chocante, um objecto atarracado sobre o estrado, com as braçadeiras das pernas parecidas com as coisas que os doentes de poliomielite eram forçados a usar. Não se ouviam muitas conversas e quando os trovões ribombaram de novo, tão presentes e pessoais como uma árvore fendida, a irmã da vítima do Delacroix soltou um pequeno grito. A última pessoa a sentar-se na secção reservada às testemunhas foi o Curtis Anderson, o substituto do director Moores.
Às onze e meia, dirigi-me à cela do Delacroix, acompanhado pelo Brutal e pelo Dean, ligeiramente atrás de mim. O Del estava sentado na tarimba, com o Mister Jingles no regaço. O rato tinha a cabeça esticada para a frente, na direcção do homem condenado à morte. O Del acariciava o topo da cabeça do animal entre as orelhas. Pelas faces do Del corriam
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lágrimas grandes choradas em silêncio, e eram elas que o Mister Jingles dava a impressão de estar a observar. Ao ouvir o som dos nossos passos, o Del ergueu o olhar. Estava muito pálido. Atrás de mim pressentia presença do John Coffey junto à porta da sua cela, observando tudo aquilo.
O Del retraiu-se ao ouvir as minhas chaves a entrar nas' fechaduras, embora se houvesse mantido calmo, continuando a acariciar a cabeça do rato enquanto eu fazia girar as chaves e corria a porta sobre a calha.
- Olá, chefe Edgecombe - saudou ele. - Olá, rapazes. Diz olá, Mister Jingles. - Mas o animal limitava-se a olhar enlevado para as faces do pequeno homem calvo, como se perguntasse a si mesmo qual a origem daquelas lágrimas. O carretel colorido fora cuidadosamente arrumado no interior da caixa de charutos Corona... arrumado pela última vez, pensei eu, sentindo um aperto no coração.
- Eduard Delacroix, na minha qualidade de funcionário autorizado pelo tribunal...
- Chefe Edgecombe?
Ainda pensei em dar seguimento ao resto do discurso da praxe, mas reconsiderei.
- O que se passa, Del?
- Aqui tem - disse ele, estendendo o rato na minha direcção. - Não deixe que aconteça alguma coisa de mal ao Mister Jingles.
- Del, não me parece que ele queira vir para mim. Ele não está...
- Mais oui, ele disse-me que queria. Ele diz que sabe tudo a seu respeito, chefe Edgecombe, e que o senhor vai levá-lo para esse lugar na Florida onde os ratinhos mostram as suas habilidades. Ele disse-me que confia em si. - Estendeu ainda mais o braço e raios me partam se o rato não saiu da palma da mão do Delacroix e passou para o meu ombro. Era tão leve que eu mal conseguia sentir o seu peso através do tecido do casaco do uniforme, mas dei-me conta da sua presença como se fosse uma pequena chama. - E chefe, não deixe que aquele homem mau faça mal ao meu rato.
- Não, Del. Não deixarei. - A questão que se me colocava era o que fazer com o rato naquele preciso momento. Não me parece que pudesse fazer marchar o Delacroix em frente das testemunhas, com um rato empoleirado no meu ombro.
_ Eu fico com ele, chefe - troou uma voz atrás de mim. Era a voz do John Coffey e, tendo surgido nessa altura, provocou-me uma sensação fantasmagórica, como se tivesse adivinhado os meus pensamentos. - Só por agora. Se o Del não se importar.
Com uma expressão de alívio, o Delacroix acenou afirmativamente.
- Sim, fica com ele, John, até que este disparate esteja terminado... bien! E depois... - O seu olhar centrou-se no Brutal e depois em mim. - O senhor vai levá-lo para a Florida. Para esse lugar, a Vila dos Ratos.
- Sim, o mais provável é o Paul e eu irmos juntos - replicou o Brutal, observando com um olhar perturbado e inquieto o Mister Jingles abandonar o meu ombro, indo para a enorme palma da mão que o Coffey estendera. O rato fez isso sem hesitar ou tentar fugir; na realidade, saltou com tanta prontidão para o braço do Coffey como havia passado para cima do meu ombro. - Tiramos alguns dias de férias. Não é verdade, Paul? - acrescentou o Brutal.
Acenei que sim. O Delacroix também manifestou a sua concordância, com os olhos cintilantes e o esboço de um sorriso nos lábios.
- Cada pessoa vai pagar dez cêntimos para poder vê-lo. Dois cêntimos para os miúdos. Não é verdade, chefe Howell? - É isso mesmo, Del.
- O senhor é um homem bom, Howell - continuou o Delacroix. - O senhor também, chefe Edgecombe. Às vezes grita comigo, oui, mas só quando é necessário fazê-lo. Todos vocês são bons, tirando esse Percy. Quem me dera poder ter-vos conhecido noutro lugar qualquer. Mauvais temps, mauvaise chance.
- Preciso de dizer uma coisa, Del - proferi eu. - São apenas as palavras que tenho de dizer a toda a gente antes de começarmos a andar. Nada de especial, mas faz parte do meu trabalho. De acordo?
- Oui, monsieur - anuiu ele, olhando para o Mister Jingles, pela derradeira vez, empoleirado no ombro largo do John Coffey. - Au revoir, mon ami. Até à vista, meu amigo - acrescentou ele, começando a chorar com mais intensidade. -Je t'aime, mon petit. - Soprou um beijo na direcção do rato. Deveria ter sido engraçado, aquele beijo soprado, ou talvez simplesmente grotesco, mas não era. Por uns breves
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momentos, o meu olhar cruzou-se com o do Dean, mas fui forçado a afastá-lo. O Dean pôs-se a olhar pelo corredor na direcção da sala do isolamento, esboçando um sorriso estranho. Estou em crer que ele se encontrava à beira das lágr¡_ mas. Quanto a mim, disse o que tinha a dizer, recomeçando na parte em que me referia a ser um funcionário judicial e, quando terminei, o Delacroix saiu da sua cela pela última vez.
- Espera uns segundos, homem - pediu o Brutal, inspeccionando a coroa do cabelo do Del onde o capacete teria' de assentar. Acenou-me, indicando-me que estava tudo em
ordem e deu uma palmada no ombro do Delacroix. - Tudo a postos, estamos prontos para seguir. A caminho.
E foi assim que o Eduard Delacroix iniciou a sua última caminhada pela Milha Verde. Nas suas faces misturavam-se as gotas de suor e as lágrimas, enquanto no firmamento aci
ma de nós rolavam os trovões em sucessão. O Brutal caminhava à esquerda do condenado, eu à direita e o Dean à retaguarda.
O Schuster aguardava no meu gabinete, com os guardas Ringgold e Battle, que se mantinham de vigilância, colocados no canto. O Schuster olhou para o Del, sorriu e começou a falar com ele no francês cajun. A mim, aquilo pareceu ser empolado, mas o certo é que resultou às mil maravilhas. O Delacroix retribuiu o sorriso e aproximou-se do Schuster, colocou-lhe os braços à volta do torso e abraçou-o. O Ringgold e o Battle adquiriram uma postura tensa, mas eu fiz-lhes um gesto com as mãos, ao mesmo tempo que abanava a cabeça.
O Schuster ouviu atentamente a torrente de palavras embargadas pelas lágrimas que o Del proferia no seu francês atabalhoado, acenando com a cabeça como se o compreen
desse na perfeição, enquanto lhe dava umas pancadinhas calorosas nas costas. Olhou para mim por cima do ombro do pequeno homem, antes de começar a falar.
- Eu mal consigo compreender um quarto do que ele está a dizer-me.
- Acho que isso não interessa - resmungou o Brutal. - Também eu não, meu filho - retorquiu o Schuster com uma careta risonha. Ele era o melhor deles todos e agora apercebo-me de que não faço a mínima ideia do que foi feito dele. Só espero que tenha mantido a sua fé, independentemente de tudo o mais que o possa ter abandonado.
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Incitou o Del para que se ajoelhasse e uniu as mãos. O Delacroix seguiu-lhe o exemplo.
-1Vot' Père, qui ëtes aux cieux - começou o Schuster a rezar e o Delacroix juntou a sua voz à dele. Ambos proferiram o padre-nosso naquele francês cajun, até chegarem a "mais dehverez-vous du mal, ainsi soit-il". Nessa altura, as lágrimas do Del já haviam cessado e ele mostrava uma aparência calma. Seguiram-se alguns versículos da Bíblia (em inglês), sem que tivesse sido neglicenciado o velho arrimo acerca das águas mansas. Depois de concluída aquela parte, o Schuster começou a erguer-se, mas ~ o Del agarrou-o pela manga da camisa, dizendo-lhe algo no seu francês. O Schuster ouviu-o com toda a atenção, franzindo o cenho. Respondeu-lhe. O Del acrescentou mais qualquer coisa e ergueu o olhar até ao seu rosto, aguardando com uma expressão esperançosa.
- Ele tem algo mais a dizer, Mister Edgecombe - anunciou o Schuster, dirigindo-se a mim. - Uma oração em que eu não posso ajudá-lo, devido à minha fé. Vê algum inconveniente nisso?
Olhei para o relógio na parede e vi que faltavam dezassete minutos para a meia-noite.
- De acordo - acedi -, mas terá de ser rápido. Como sabe, temos um horário a cumprir.
- Sim, eu sei - retorquiu o Schuster. Voltou-se para o Delacroix e com um acenar de cabeça, indicou-lhe que prosseguisse.
O Del cerrou os olhos como se preparado para começar a rezar, mas durante um momento não disse nada. Enrugou a testa, e eu tive a impressão que ele procurava algo bem no fundo da sua mente, como um homem poderia procurar no seu pequeno sótão um objecto que não houvesse sido usado (ou sido necessário) durante muito, muito tempo. Uma vez mais, olhei para o relógio e estive prestes a falar - e tê-lo-ia feito se o Brutal não me tivesse tocado na manga da camisa, abanando a cabeça.
Então, o Delacroix começou a falar suave mas rapidamente naquele seu dialecto cajun, numa toada tão arredondada e sensual como os seios de uma mulher jovem.
- Marie! Je vous salue, Marie, oui, pleine de grâce; le Seigneur est avec vous; vous ëtes bénie entre toutes les femmes, et mon cher Jésus, le fruit de vos entrailles, est béni.
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Delacroix recomeçara a chorar, mas não parecia que se ti vesse dado conta disso. - Sainte Marfe, Ô ma mère, Mèrt de Dieu, priez pour moi, priez pour nous, pauv' pécheurs, á maint'ant et à l'heure... 1'heure de nôtre mort. L'heure de mon mort. - Respirou fundo, um som estremecido. - Ainsi' soit-il.
Quando o Delacroix se pôs de pé, através da janela entrou o breve clarão azul-esbranquiçado de um relâmpago. Todos, os presentes se retraíram sobressaltados, com excepção do'
próprio Del; ele parecia continuar embrenhado na antiga oração. Estendeu uma mão sem ver para onde a dirigia. O Brutal agarrou-a e deu-lhe um breve aperto. O Delacroix olhou para ele, esboçando um pequeno sorriso.
- Nous voyons... - começou ele a dizer, mas deteve-se. Com um esforço consciente, começou a falar em inglês. - Agora já podemos ir, chefe Howell, chefe Edgecombe. - Estou de bem com Deus.
- Isso é óptimo - declarei eu, perguntando a mim mesmo até que ponto o Del se sentiria bem com Deus dali a vinte minutos, quando se encontrasse no outro extremo da corrente
eléctrica. Eu só esperava que a sua última oração tivesse sido ouvida, e que a Mãe Maria rezasse por ele com toda a sua alma e coração, porque o Eduard Delacroix, assassino e violador, carecia naquele momento de todas as orações a que pudesse deitar mão. Lá fora, os trovões fizeram-se ouvir uma vez mais, atravessando os céus. - Vamos lá, Del. Já não falta muito.
- De acordo, chefe, vamos lá. Porque eu já não tenho medo. - Foi o que ele afirmou, mas eu vi nos seus olhos que... com padre-nosso ou sem padre-nosso, ave-maria ou
não ave-maria, ele estava a mentir. Quando chega a altura de percorrerem a última parte do tapete verde e de se dobrarem para poder transpor a entrada baixa, quase todos eles se mostravam atemorizados.
- Quando chegares ao fim pára, Del - disse-lhe eu em voz baixa enquanto ele transpunha a ombreira, mas era uma advertência que eu não necessitava de ter feito. Ele deteve-se ao fundo dos degraus, sem qualquer hesitação, completamente imóvel ao ver o Percy Wetmore ali no estrado com o balde da esponja junto de um dos pés e o telefone, que se encontrava directamente ligado ao governador, mal se vendo por detrás da sua anca direita.
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- Non - proferiu Del numa voz baixa e horrorizada. - Non, non, ele, não!
- Segue em frente - disse o Brutal. - Mantém os olhos em mim e no Paul. Esquece que ele está ali.
- Mas...
As pessoas tinham-se virado, olhando para nós, mas, ao deslocar-me um pouco, ainda pude agarrar no Delacroix pelo cotovelo esquerdo, sem ser visto pela assistência.
- Acalma-te - incitei eu num tom de voz que só o Delacroix, e talvez o Brutal, conseguiam ouvir. - A única coisa de que estas pessoas se recordarão é da maneira como te portas; portanto, proporciona-lhes algo de bom que lhes fique gravado na memória.
Entretanto, ouviu-se o ribombar do trovão mais forte que se fizera ouvir até então; a intensidade foi tal que o telhado de zinco da arrecadação vibrou. O Percy deu um salto como se alguém se tivesse aproximado por trás sem ele se aperceber e o Del soltou uma pequena gargalhada escarninha.
- Se os trovões forem muito mais fortes do que este, ele vai mijar de novo nas calças - disse, endireitando os ombros... não que tivesse muito para endireitar. - Vamos lá. Acabamos com isto de uma vez.
Encaminhámo-nos para a plataforma. Com um olhar nervoso, o Delacroix percorreu as testemunhas - desta feita, encontravam-se presentes vinte e cinco - quando passámos por elas. O Brutal, eu e o Dean tínhamos os olhos fixos na cadeira. Parecia-me que estava tudo em ordem. Ergui um polegar e um sobrolho interrogador na direcção do Percy, que me brindou com um esgar, como se dissesse: O que é que queres saber, se está tudo em ordem? É claro que está!
Eu só esperava que ele não estivesse enganado. Automaticamente, o Brutal e eu agarrámos no Delacroix pelos cotovelos, enquanto ele subia para o estrado. Este fica acima do solo apenas uns escassos vinte centímetros, mas vocês ficariam surpreendidos se soubessem quantos deles, mesmo os tipos mais endurecidos, necessitam de ajuda para subir esse último degrau das suas vidas.
No entanto, o Del portou-se bem. Durante um momento Permaneceu em frente da cadeira eléctrica (firmemente resolvido a não olhar para o Percy) e falou para ela, quer acreditem quer não, como se estivesse a apresentar-se.
- C'est moi - disse o Delacroix. O Percy estendeu-lhe a
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mão, mas ele voltou-se sozinho e sentou-se. Ajoelhei-me junto do que naquele momento era o seu lado esquerdo e o Brutal no lado direito. Protegi as virilhas e a garganta da maneira que já descrevi, e, em seguida, posicionei a braçadeira de forma a que a parte que se abria cincundasse a carne emagrecida; e branca, exactamente acima do tornozelo do cajun. A trovoada ribombou de novo, sobressaltando-me. Senti o suor a escorrer-me para os olhos, que começaram a arder. Por qualquer razão que desconheço, pensava continuamente na Vila dos' Ratos. A Vila dos Ratos e o bilhete de ingresso que custava dez cêntimos. Dois cêntimos para as crianças, que poderiam ver o Mister Jingles através das janelas de folha de mica.
A braçadeira era volumosa e não queria fechar-se. Ouvia o Del a respirar em grandes arrancos secos, enchendo os pulmões de ar, pulmões que ficariam reduzidos a sacos carboni zados em menos de quatro minutos, esforçando-se por poder acompanhar o seu coração desenfreado que pulsava ao ritmo do medo. O facto de ter morto meia dúzia de pessoas dava naquela altura a impressão de ser a coisa menos importante acerca da sua pessoa. Não estou a tentar estabelecer agora aquilo que é correcto e o que não é; limito-me a descrever a situação como ela se me apresentava.
- O que se passa, Paul? - perguntou-me o Dean num sussurro ajoelhado junto de mim.
- Não sou capaz... - comecei a dizer, mas nessa altura a braçadeira fechou-se com um estalar bem audível. Também deve ter arrepanhado a pele do Delacroix, porque ele se re
traiu, emitindo um pequeno som sibilado. - Desculpa - disse eu.
- Não tem importância, chefe - retorquiu Del. - Só vai doer por um minuto.
A braçadeira do lado do Brutal, a que tinha o eléctrodo acoplado e que levava sempre mais tempo a fechar, também se fechou. Pusemo-nos de pé, os três, quase exactamente ao mesmo tempo. O Dean agarrou na braçadeira do pulso do lado esquerdo do Del, e o Percy na do lado direito. Eu encontrava-me preparado para avançar, no caso de o Percy vir a necessitar de auxílio, mas ele saiu-se melhor com a braçadeira do pulso do que eu com a do tornozelo. Naquele momento, reparei que o Del tremia todo, como se o seu corpo tivesse começado a ser percorrido por uma corrente de fraca intensi
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dade. Também me chegava às narinas o cheiro da sua transpiração~ Era forte e acre, trazendo-me à recordação um cheiro fraco a picles.
O Dean acenou com a cabeça na direcção do Percy. Este voltou-se, começando a falar por cima do ombro. Eu conseguia avistar uma zona abaixo do seu queixo, onde ele se tinha cortado nessa manhã ao fazer a barba.
- Prosseguir com a fase um! - disse ele em voz baixa, embora firme.
Ouviu-se um zunido, do género .do que o motor de um velho frigorífico faz quando começa a funcionar; as luzes do tecto da arrecadação adquiriram uma luminosidade mais intensa. Ouviram-se alguns arquejos e murmúrios vindos da assistência. Na cadeira, o corpo do Del foi percorrido por um safanão, enquanto as suas mãos se agarravam aos extremos dos braços de carvalho da cadeira com força suficiente para que os nós dos dedos tivessem ficado brancos. Os seus olhos deslocaram-se rapidamente de um lado para o outro nas órbitas e a sua respiração seca acelerou-se ainda mais. Naquele momento ele estava quase a arquejar.
- Mantém-te firme - incentivou-o o Brutal num murmúrio. - Calma, Del, vais ver que não custa muito. Aguenta-te, estás a portar-te muito bem.
Ei, rapazes!, pensei. Venham ver o que o Mister Jingles é capaz de fazer! - Acima das nossas cabeças, a trovoada fez-se ouvir de novo.
Todo emproado, o Percy contornou a cadeira eléctrica. Aquele era o seu grande momento: ocupava o lugar central do palco, todos os olhares pousados na sua pessoa. Todos, com excepção do de uma pessoa. O Delacroix apercebeu-se da sua presença e baixou os olhos para o regaço. Eu teria apostado fosse o que fosse em como o Percy iria atamancar o que tinha a dizer quando chegasse o momento de se dirigir à audiência, mas a realidade é que ele se expressou sem hesitação, numa voz calma e soturna.
- Eduard Delacroix, o senhor foi condenado a morrer na cadeira eléctrica tendo a sentença sido lavrada por um júri formado pelos seus pares, e imposta por um juiz deste estado, Deus abençoe as pessoas deste estado. Tem alguma coisa a dizer antes de se dar cumprimento à sentença?
O Del tentou falar mas não lhe saiu qualquer som da garganta para além de um sussurro aterrorizado cheio de ar e de
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vogais. A sombra de um sorriso desdenhoso assomou aos lábios do Percy; seria com toda a satisfação que eu o teria abatido ali, naquele momento. Então, o Del lambeu os lábios e fez outra tentativa.
- Lamento muito tudo o que fiz - disse ele num tom contrito. - Daria fosse o que fosse para poder fazer recuar o tempo, mas ninguém tem poderes para uma coisa dessas. Por
isso, agora... - Acima de nós, os trovões explodiram como fogo de morteiro. O Del deu um salto tão grande quanto as braçadeiras lhe permitiam, parecendo que os olhos lhe queriam saltar do rosto. - Por isso, agora tenho de pagar o preço. Que Deus me perdoe. - Uma vez mais, passou a língua pelos lábios e olhou para o Brutal. - Não se esqueça da promessa que me fez quanto ao Mister Jingles - acrescentou ele numa voz baixa que se destinava apenas aos nossos ouvidos.
- Não esqueceremos, não te preocupes - assegurei-lhe, tocando-lhe numa mão fria que nem mármore. - Ele irá para a Vila dos Ratos...
- Uma ova é que vai - atalhou o Percy, falando pelo canto da boca, assemelhando-se a um dos prisioneiros espertalhões no pátio, enquanto prendia a correia à largura do peito
de Delacroix. - Isso não existe. Não passa de uma história da carochinha que estes tipos inventaram para te manterem calmo. Achei que devias ter conhecimento disto, meu maricas.
O brilho fulminante que encheu os olhos do Del disse-me que parte dele tinha sabido... mas que estava determinado a manter esse conhecimento afastado do resto da sua pessoa, se
tal lhe fosse permitido. Olhei para o Percy, sentindo-me furioso e aparvalhado com a sua atitude; ele limitou-se a olhar bem de frente para mim, como se me perguntasse o que tencionava eu fazer a respeito daquilo. É evidente que ele me tinha na mão. Não havia nada que eu pudesse fazer naquela situação, sobretudo em frente das testemunhas, com o Delacroix sentado no extremo da sua vida. Não havia rigorosamente nada que se pudesse fazer de momento, a não ser prosseguir com aquilo, terminar de uma vez por todas.
O Percy retirou o saco negro do gancho e enfiou-o pela cabeça do Del, cobrindo-lhe o rosto e apertando-o bem por baixo do pescoço do pequeno homem, a fim de esticar o ori
fício do topo. Retirar a esponja que se encontrava dentro do balde e colocá-la dentro do capacete era o passo seguinte; foi aqui que o Percy se afastou da rotina pela primeira vez: em
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lugar de se debruçar para retirar a esponja do balde, agarrou no capacete de aço que se encontrava pendurado nas costas da cadeira e inclinou-se com ele na mão. Por outras palavras, em vez de levar a esponja ao capacete - o que teria sido a maneira lógica de proceder - levou o capacete à esponja. Nessa altura, eu devia ter compreendido que alguma coisa não estava bem, mas a realidade é que me sentia bastante perturbado. Aquela foi a única execução em que participei onde me senti inteiramente à margem dos acontecimentos. Quanto ao Brutal, nem sequer chegou a lançar um olhar ao Percy, pelo menos quando este se debruçou sobre o balde (de forma a bloquear o nosso ângulo de visão, impedindo-nos de ver o que estava a fazer), nem tão-pouco quando ele se endireitou e se voltou para o Delacroix, com o capacete nas mãos e o círculo de esponja castanha já no seu interior. Entretanto, o Brutal olhava para o bocado de tecido que ocultava as feições do Del, observando a forma como a seda negra fazia uma concavidade onde se delineava o formato da boca do condenado, para logo em seguida se enfolar com a sua respiração. A testa do Brutal estava perlada de gordas gotas de suor, o mesmo acontecendo às fontes logo abaixo da linha do cabelo. Nunca o vira a transpirar durante uma execução. Atrás dele, o Dean dava a impressão de estar distraído, demonstrando um certo mal-estar, como se lutasse para não perder o jantar. Agora compreendo que todos nós começávamos a perceber que qualquer coisa não estava a correr bem. Só que não conseguíamos apontar concretamente a falha. Ninguém sabia - nessa altura - que espécie de perguntas o Percy tinha feito ao Jack Van Hay. Haviam sido muitas, mas eu desconfio que a maior parte se destinava apenas a servir de camuflagem. Aquilo que o Percy queria saber - estou em crer que era a única coisa que lhe interessava - dizia respeito à esponja. A sua finalidade. O motivo por que era mergulhada em salmoura.., e o que é que aconteceria se não fosse mergulhada em salmoura.
O que aconteceria se a esponja estivesse seca.
O Percy enfiou o capacete na cabeça de Delacroix. O pequeno homem saltou de novo e soltou um gemido, desta vez mais audível. Algumas das testemunhas agitaram-se nas cadeiras desdobráveis, constrangidas. O Dean deu meio passo em frente com a intenção de ajudar a apertar a correia do pescoço; todavia, o Percy indicou-lhe que se afastasse num
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gesto breve. O Dean assim fez, vergando os ombros e retraindo-se quando o estrondo de outro trovão fez estremecer a arrecadação. Desta vez, seguiram-se-lhe as primeiras gotas de chuva que tombaram sobre o telhado. O som era parecido' com um punhado de berlindes a ser lançado sobre uma superfície metálica.
Já todos ouvimos pessoas a dizer: "Senti o sangue enrege_ lado", não é verdade? Certamente que sim. Já todos ouvimos essa expressão, mas a única vez em todos os meus anos de
vida em que senti que isso estava realmente a acontecer comigo foi nessa madrugada de Outubro de 1932, diferente de todas as outras, em que a trovoada se fazia ouvir em toda a sua intensidade, cerca de dez segundos após a meia-noite. Não foi a expressão de triunfo venenoso no rosto do Percy; Wetmore, enquanto ele se afastava da figura encapuçada, presa por correias e com o capacete na cabeça, sentada na Velha Faísca; foi sim aquilo que eu deveria ter visto mas que não vi. Não se via água a escorrer pelas faces do Delacroix por baixo do capuz. Foi nessa altura que abarquei toda a situação.
- Eduard Delacroix - dizia o Percy -, a partir de agora, a corrente eléctrica atravessará o seu corpo até que o senhor esteja morto, de acordo com a lei deste estado.
Olhei para o Brutal, sentindo uma agonia tão grande que fazia com que a minha infecção urinária não tivesse passado de um dedo dorido. A esponja está seca!, disse-lhe eu formando as palavras com os lábios, mas ele abanou a cabeça, indicando-me que não compreendera, e voltou a concentrar a sua atenção no saco negro que ocultava as feições do franciú, dentro do qual os últimos fôlegos do homem recolhiam e enfolavam a seda negra.
Toquei no cotovelo do Percy mas ele afastou-se, fitando-me com um olhar inexpressivo. Foi apenas um olhar momentâneo, mas que me disse tudo. Mais tarde, ele iria apresentar
as suas mentiras e meias verdades, e as pessoas que possuíam alguma influência acreditaram na maior parte, embora eu soubesse que a história era bem diferente. Sempre que fazia algo que o interessava, o Percy era um aluno aplicado, como descobríramos durante os ensaios; ouvira com a máxima atenção o Jack Van Hay explicar-lhe como é que a esponja mergulhada em salmoura era um bom método de transmissão da corrente eléctrica, canalizando-a e transformando a carga numa espécie de bala eléctrica que atingia o cérebro. Oh, sim, o
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Percy sabia perfeitamente o que estava a fazer. Acho que posteriormente, quando me disse que desconhecia até que ponto aquilo iria, acreditei nele, mas esse aspecto nem sequer conta na coluna das boas intenções, pois não? Não me parece. E para além de desatar a gritar em frente do assistente do director da prisão e de todas as testemunhas para que o Jack Van Hay não accionasse a alavanca, eu não podia fazer mais nada. Se tivesse podido dispor de mais cinco segundos, estou em crer que teria gritado isso mesmo; no entanto, o Percy não me concedeu aqueles cinco segundos suplementares.
- Que Deus tenha piedade da sua alma - disse ele à figura.aterrorizada e arquejante sentada na cadeira eléctrica, depois, olhou para lá do condenado, em direcção à janela de malha de rede por detrás da qual o Harry e o Jack se encontravam; o Jack tinha a mão sobre a alavanca etiquetada com as palavras SECADOR DE CABELO DA MABEL. O médico encontrava-se à direita dessa janela, com os olhos presos na maleta negra entre os seus pés, tão silencioso e discreto como era seu costume. - Prosseguir com a fase dois!
Ao princípio, o processo foi o mesmo de sempre: o zunido surdo que pouco mais elevado era do que um ciclo habitual de corrente eléctrica, o impulso involuntário que o corpo do Del deu para a frente e os espasmos que lhe percorreram os músculos.
E foi então que as coisas começaram a correr mal.
O zunido da electricidade perdeu a estabilidade e começou a fraquejar. Foi acompanhado por um estalar seco, como papel celofane a ser amachucado. Comecei a sentir um cheiro horroroso, que na altura não percebi que era o de cabelos queimados e esponja orgânica, até ter começado a ver pequenas espirais de fumo a evolar-se da base do capacete. Entretanto, começara a sair mais fumo do orifício recortado no cimo do saco, por onde entrava o cabo; assemelhava-se ao fumo que costumava sair do orifício superior das tendas dos índios.
O Delacroix começou a contorcer-se; o seu corpo foi atravessado por espasmos, enquanto a cabeça oculta pela seda negra, se agitava de um lado para o outro, no arremedo de um veemente gesto de recusa. As suas pernas começaram a erguer-se para cima e para baixo descontroladamente, em golpes curtos restringidos pelas braçadeiras que lhe prendiam os artelhos. A trovoada continuava a ribombar acima de nós e a chuva começou a cair com mais força.
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Olhei para o Dean Stanton; ele olhou para mim completamente desnorteado. Ouviu-se um som abafado vindo de debaixo do capacete, como se fosse uma pinha a explodir nutrafogo que ardesse bem. Naquela altura, eu também via o fumo que saía do interior do saco negro, evolando-se em pequenas colunas sinuosas.
Lancei-me para o rectângulo de rede de arame existente entre nós e o compartimento do quadro eléctrico, mas, antes de poder ter aberto a boca, o "Brutal" Howell agarrou-me pe
lo cotovelo. A força com que me segurava era suficiente para eu sentir picadas nos nervos daquela região. As suas faces estavam tão lívidas como uma vela de sebo, embora não mostrassem sinais de pânico - não se via nenhuma reacção que se aproximasse disso.
- Não digas ao Jack que pare - aconselhou-me ele em voz baixa. - Faças o que fizeres, não lhe digas para parar. Já é demasiado tarde para isso.
De início, quando o Del começou a gritar, as testemunhas não o ouviram. A chuva que se abatia sobre o telhado de zinco transformara-se num som ensurdecedor, e os trovões fa ziam-se ouvir uns atrás dos outros, numa sequência contínua. Mas nós, em cima do estrado, conseguíamos ouvi-lo na perfeição - uivos de dor estrangulados que saíam do saco negro, de onde o fumo continuava a evolar-se, sons que um animal encurralado poderia ter emitido.
O zunido que na altura vinha do capacete não era uniforme, mas sim errático, interrompido por ruídos parecidos com os da electricidade estática. O Delacroix começou a agitar-se
violentamente em cima da cadeira, para a frente e para trás, como se fosse uma criança a fazer birra. A plataforma estremecia; o corpo do Del investiu contra a correia que lhe prendia o peito, com força suficiente para quase a rebentar. A corrente eléctrica também o fazia contorcer-se de um lado para o outro; ouvi um estalar violento, como algo a esmigalhar-se, quando o seu ombro direito se quebrou ou deslocou. Provocou um som semelhante ao que ouviríamos se alguém tivesse atingido um caixote de madeira com um martelo de forja. A zona das calças entre as pernas que não se distinguia com nitidez devido ao movimento das mesmas, semelhante ao dos pistões, escureceu. Em seguida, ele começou a guinchar, emitindo uns sons apavorantes, extremamente agudos, como os guinchos das ratazanas, que ecoavam mesmo acima do ruído das bátegas de chuva.
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- Mas que raio está a acontecer? - ouviu-se alguém perguntar.
- Será que aquelas braçadeiras vão conseguir aguentar. . Céus, o cheiro! Que fedor!
- Isto é normal? - perguntou uma das duas mulheres presentes.
O corpo do Delacroix sofreu um violento impulso para a frente, caiu para trás e voltou a ser impulsionado para a frente para logo voltar atrás. O Percy olhava-o fixamente, mantendo o queixo descaído numa expressão de horror. Sem dúvida que ele havia esperado que alguma coisa acontecesse, mas nunca com aquela dimensão.
O saco de seda negra por cima do rosto do Delacroix ficou envolto em chamas. Ao cheiro a cabelo queimado e a esponja juntava-se agora o de carne estorricada. O Brutal agarrou no balde onde estivera a esponja - como é evidente, nesta altura estava vazio - e como se fosse uma carga de cavalaria dirigiu-se ao lavatório, para uso do pessoal da limpeza, que se encontrava a um canto.
- Não achas que eu devia cortar a corrente, Paul? - perguntou o Van Hay aos gritos do outro lado da janela. A sua voz indicava que se sentia atordoado. - Não achas que devia...
-Não! - respondi-lhe num grito. O Brutal fora o primeiro a inteirar-se da situação, mas eu não lhe fiquei muito atrás: tínhamos de pôr cobro àquela situação macabra. O que quer que viéssemos a fazer ao longo do resto da nossa vida passara para segundo plano: naquele momento tínhamos de acabar com o Delacroix. - Continua, por amor de Deus continua! Continua, continua, continua!
Voltei-me para o Brutal, mal me apercebendo das pessoas que naquele momento conversavam atrás de nós; algumas delas já se tinham posto de pé, e um casal gritava.
- Pára com isso! - berrei, dirigindo-me ao Brutal. - Nada de água! Nada de água! Estás doido?
Ao ouvir-me, o Brutal voltou-se; no seu rosto reflectia-se uma espécie de compreensão entorpecida. Lançar água para cima de um homem que estava a ser electrocutado. Oh, sim! Isso é que seria uma grande esperteza. Olhou em redor, avistou o extintor pendurado na parede, e optou por ir buscá-lo. Lindo menino.
O saco de seda negra tinha-se descascado do rosto do De
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lacroix o suficiente para pôr a descoberto as suas feições mais; enegrecidas do que as do John Coffey. Naquele momento, os; seus olhos, que não passavam de globos brancos mutilados, uma massa gelatinosa e translúcida, haviam sido projectados; das órbitas e ficado colados às bochechas. As pestanas tinham desaparecido por completo e, enquanto eu o observava, as próprias pálpebras começaram a arder envoltas em chamas. Continuava a ouvir-se insistentemente o zunido da corrente eléctrica, invadindo-me e vibrando na minha cabeça. Imagino , que deve ser o mesmo som que as pessoas loucas devem ouvir, isso ou algo parecido.
O Dean começou a avançar, pensando, atordoado, que conseguiria extinguir com as próprias mãos as chamas da camisa do Del; puxei-o com tanta força que estive prestes a levantá-lo do chão. Se tivesse tocado no Delacroix naquela fase, teria sido electrocutado.
Continuei sem me voltar para trás para ver o que estava a acontecer entre as testemunhas; contudo, os sons que me chegavam eram indicadores de um pandemónio; as cadeiras tombavam e as pessoas berravam.
- Parem com isso, parem com isso, oh, não vêem que ele já sofreu o suficiente? - vociferava uma mulher com toda a força dos seus pulmões.
Entretando, o Curtis Anderson agarrou-me num ombro, perguntando-me o que é que se estava a passar, por amor de Deus, e por que motivo é que eu não mandava o Jack interromper a corrente?
- Porque não posso - respondi-lhe. - Já fomos longe de mais para poder retroceder, não vês? Em qualquer dos casos, dentro de alguns segundos estará tudo terminado.
No entanto, decorreram pelo menos dois minutos antes que a execução estivesse concluída; os dois minutos mais longos de toda a minha vida, e, durante todo aquele tempo,
estou em crer que o Delacroix permaneceu consciente. Gritava, sacolejava, agitando o corpo de um lado para o outro. O fumo saía-lhe das narinas, assim como de uma boca que havia adquirido a tonalidade da púrpura-enegrecida das ameixas maduras. O fumo soltava-se da sua língua da mesma maneira que costuma sair da chapa de um fogão. Todos os botões da sua camisa ou tinham rebentado ou derretido. A sua camisola interior não chegou a pegar fogo, mas estava toda negra, e o fumo filtrava-se através do algodão, de onde saía o

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cheiro dos pêlos queimados do peito. Por trás de nós, as pessoas dirigiam-se para a porta como se fossem gado à desfilada. Como não conseguiam transpô-la - ao fim e ao cabo, encontrávamo-nos no interior de uma penitenciária - amontoavam-se junto dela enquanto o Delacroix era frito (Agora estou a estorricar, dissera o velho Pouca Terra quando ensaiámos a execução do Arlen Bitterbuck, estou cozinhado como um peru); a trovoada continuava a ribombar acima de nós e a chuva caía numa fítria perfeita.
A certa altura pensei no médico -e olhei em volta a ver se o avistava. Continuava ali, todo amarfanhado no chão, junto à sua maleta negra. Tinha desmaiado.
O Brutal aproximou-se e ficou ao meu lado com o extintor nas mãos.
- Ainda não - disse eu. - Eu sei.
Olhámos em rredor, procurando o Percy, e vimo-lo atrás da Velha Faísca, imobilizado e de olhos esbugalhados, com o nó de um dedo enfiado na boca.
Por fim, o Delacroix caiu contra as costas da cadeira, com a cabeça tumefacta e disforme tombada sobre um ombro. O seu corpo continuava a ser sacolejado, mas já havíamos visto isso antes: eram os efeitos da corrente eléctrica que continuava a atravessá-lo. O capacete deslocara-se na cabeça e estava inclinado, mas, quando o retirámos um pouco mais tarde, a maior parte do couro cabeludo e o que restava dos poucos cabelos vieram agarrados, presos ao metal como se estivessem colados com uma cola muito resistente.
- Corta a corrente! - gritei ao Jack depois de terem passado trinta segundos sem haver qualquer reacção, para além dos espasmos provocados pela corrente eléctrica, no corpo daquele ser amarfanhado que tinha a figura de um homem, enegrecido e fumacento, e se balançava na cadeira eléctrica. O zunido parou imediatamente e eu acenei ao Brutal.
Este voltou-se e colocou o extintor nos braços do Percy com tanta força que ele cambaleou para trás, quase caindo sobre a plataforma.
- Tu é que vais fazer isso - disse-lhe o Brutal. - Ao fim e ao cabo, a festa é tua, não é verdade?
O Percy lançou-lhe um olhar que tanto tinha de mórbido como de assassino, soltou o mecanismo de segurança do ex
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tintor, accionou o êmbolo, ajustou a boca e projectou um lona go jacto de espuma branca por cima do homem na cadeira. Reparei que os pés do Delacroix se contorceram uma vez; quando o jacto de espuma lhe atingiu o rosto e pensei: Oh,, não, talvez tenhamos de repetir tudo, mas só houve aquele único espasmo.
O Anderson tinha feito meia volta, e gritava às testemunhas em pânico, garantindo que tudo estava bem, que toda aquela situação se encontrava sob controlo, que tinha sido
apenas uma interferência na corrente eléctrica provocada pela tempestade, nada que pudesse causar a mínima preocupação. Só faltava dizer que aquilo que haviam cheirado - uma mistura demoníaca de cabelos queimados, carne assada e merda acabada de sair dos intestinos - era Chanel Número Cinco:
- Vai buscar o estetoscópio - disse eu ao Dean quando' o extintor ficou vazio. Naquele momento, o Delacroix estava coberto por uma camada branca e o pior do cheiro nausea-~
bundo era camuflado por um cheiro acre a produtos químicos.; - O médico... achas que devo...
- Não ligues ao médico, vai só buscar o estetoscópio insisti. - Vamos lá a terminar com isto... para podermos le vá-lo daqui para fora.
O Dean acenou que sim. Terminar e dali para fora eram dois conceitos que lhe agradavam muito naquele preciso momento. Na realidade, agradavam a nós dois. Ele aproximou-se',
da maleta do médico e começou a remexer no seu interior. Entretanto, o médico começara a dar sinais de vida, o que indicava que, pelo menos, não tinha sofrido um ataque do coração ou uma trombose devido à tempestade. O que era bom. Todavia, a maneira como o Brutal olhava para o Percy não augurava nada de bom.
- Vai lá para baixo, para o túnel, e espera junto da maca - disse eu.
- Paul, ouve. Eu não sabia que... - começou o Percy a dizer depois de ter engolido em seco.
- Cala a boca. Vai para o túnel e espera junto da maca. Imediatamente.
Voltou a engolir em seco. Fez um esgar como se sentisse dores e dirigiu-se para a porta que dava acesso às escadas do túnel. Levava nos braços o extintor vazio, como se fosse um bebé. O Dean passou por ele quando se dirigia a mim, trazendo o estetoscópio. Tirei-o das suas mãos e coloquei as extremidades nos ouvidos. Já tinha feito aquilo na tropa e era como andar de bicicleta - nunca se esquece como é que se faz. Afastei a camada de espuma do peito do Delacroix e tive de conter os vómitos que me assomaram à garganta quando uma grande porção da sua pele ainda quente se destacou muito simplemente da carne que cobrira até então, da mesma forma que a pele deslizaria de um... bem, vocês sabem. "Sou um peru assado."
- Oh meu Deus! - exclamou uma voz que não reconheci à beira das lágrimas, vinda de trás de mim. - As execuções são sempre assim? Porque é que ninguém me avisou? Nunca teria vindo!
Agora é demasiado tarde, meu amigo, pensei.
- Levem este homem daqui para fora - disse eu, dirigindo-me ao Dean ou ao Brutal, ou a quem quer que estivesse a ouvir-me... o que fiz quando tive a certeza de que não desataria a vomitar em cima das coxas fumegantes do Delacroix. - Levem-nos todos para a porta das traseiras.
Couracei-me tanto quanto possível e coloquei o disco do estetoscópio sobre a região em carne viva que pusera a descoberto no peito do Del. Comecei a escutar enquanto rezava para não ouvir nada, e foi exactamente isso que aconteceu. - Ele está morto - disse eu ao Brutal.
Graças a Deus.
- Sim. Graças a Deus. Tu e o Dean vão buscar a padiola. Vamos desamarrá-lo e levá-lo daqui para fora o mais depressa possível.
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Levámos o corpo sobre a maca pelos doze degraus abaixo, sem problemas de maior. O meu pesadelo era que a sua carne cozinhada começasse a desprender-se dos ossos enquanto o transportávamos - a frase do velho Pouca Terra, relativa ao peru assado, continuava gravada na minha mente - mas, como é evidente isso não veio a acontecer:
O Curtis Anderson~ estava no andar de cima a tranquilizar os espectadores - pelo menos a tentar - o que deu jeito ao Brutal, uma vez que o Anderson não se encontrava presente para ver quando ele deu um passo na direcção da frente da maca e encolheu o braço, pronto a desferir um murro no Per
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cy, que continuava com uma expressão aparvalhada. Detive o_ seu braço a tempo, e ainda bem para ambos. Foi bom para', o Percy, porque o Brutal tencionava assentar-lhe um murro com a violência daqueles que quase decapitavam, e foi bom para o Brutal porque ele teria perdido o emprego se o murro acertasse, e possivelmente, ido parar à cadeia.
- Não - disse eu.
- O que é que queres dizer com esse não? - perguntou~~ -me o Brutal, enfurecido. - Como é que podes dizer não? Bem viste o que ele fez! O que é que estás a tentar dizer-me? Que vais continuar a permitir que os seus conhecimentos
protejam? Depois do que ele fez?
- Sim. - O Brutal ficou a olhar para mim de boca aberta e com uns olhos tão furibundos que lacrimejavam. - Ou ve bem o que te digo, Brutus... tu dás-lhe um soco e o mais certo é todos nós sermos despedidos. Tu, eu, o Harry, o Dean e talvez até mesmo o Jack Van Hay. Todos os outros sobem um ou dois degraus na escada, a começar pelo Bill Dodge, e a Comissão Prisional contrata três ou quatro zés-ninguéns daqueles que fazem bicha para a sopa dos pobres para preencher os lugares mais inferiores da escala. Talvez tu possas viver com isso, mas... - Dobrei o polegar na direcção de Dean, que olhava para nós do outro extremo do túnel de tijolos, que gotejavam. Tinha os óculos numa das mãos, olhando para o Percy como se quase não o visse. - Mas... e a respeito do Dean? Ele tem dois filhos, um na escola secundária e outro prestes a entrar para lá.
- Por conseguinte, a que é que tudo isto se resume? -• perguntou-se o Brutal. - Vamos permitir que ele se safe desta? - Eu não sabia que a esponja devia estar molhada - interveio o Percy numa voz mecânica que mal se ouvia. Aquela era a história que ele havia ensaiado, como é evidente, quando esperava uma brincadeira dolorosa, em vez do autêntico cataclismo a que tínhamos assistido. - Sempre que ensaiávamos ela nunca era molhada.
- Ah, meu grande estupor.... - começou o Brutal a dizer, fazendo menção de se atirar ao Percy. Voltei a agarrá-lo, obrigando-o a retroceder. Entretanto, começou a ouvir-se o som de passos que desciam as escadas. Ergui o olhar, sentindo-me desesperadamente receoso de avistar o Curtis Ander-
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son, mas era apenas o Harry Terwilliger. As suas faces estavam brancas como uma folha de papel e os lábios tinham uma tonalidade púrpura, como se tivesse acabado de comer uma torta de amoras pretas.
Voltei a dedicar a minha atenção ao Brutal.
- Por amor de Deus, Brutus, o Delacroix está morto, nada pode alterar esse facto, e o Percy não merece o que estarás a arriscar. - Começaria eu já a perceber o plano ou a sua fase inicial? Deixem que vos diga que desde então tenho vindo a interrogar-me sobre o assunto, sem contudo ter conseguido encontrar uma resposta satisfatória. Mas suponho que isso não tenha grande importância. Há muitas coisas que não importam, mas tenho reparado que isso não impede um homem de se questionar.
- Vocês estão para aí a falar de mim como se eu fosse invisível - comentou o Percy. Continuava a parecer entorpecido e atordoado, como se alguém lhe tivesse assentado um bom murro na barriga, mas podíamos ver que conseguira recobrar um pouco de ânimo.
- Tu és invisível, Percy - repliquei. - Eh, não podes...
Controlei muito a custo a vontade que sentia de o esmurrar. A água continuava a gotejar, com um som cavo, das paredes de tijolo do túnel; as nossas sombras gigantescas e distorcidas pareciam dançar sobre a sua superfície, como se fossem as sombras daquele conto do Poe sobre o gigantesco gorila da Rua da Morgue. Os trovões continuavam a fazer-se ouvir; contudo, ali em baixo, o seu ribombar era mais abafado.
- Só quero ouvir uma coisa da tua boca, Percy; a promessa de que amanhã entregarás o teu pedido de transferência para o Briar Ridge.
- Não te preocupes com isso - respondeu-me ele com uma expressão de amuo. Olhou para a figura coberta em cima da maca, afastou o olhar fitou-me por breves momentos e voltou a desviar o olhar.
- Isso será o melhor - atalhou o Harry. - Caso contráno, é possível que venhas a conhecer melhor o Bill "Selvagem" Wharton, muito melhor do que aquilo que desejas. - Uma ligeira pausa. - Nós podemos garantir que isso aconteça.
O Percy tinha medo de nós e, provavelmente, daquilo que pudéssemos fazer se ele ainda lá estivesse quando descobríssemos o que ele conversara com o Jack Van Hay sobre a esponja
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e por que motivo tínhamos sempre o cuidado de a mergulhar em salmoura; porém, a referência do Harry ao Wharton despelhou nos seus olhos um verdadeiro terror. Percebi que estava a recordar-se da maneira como o Wharton o agarrara
despenteara, assim como das suas palavras.
- Não te atreverias - disse ele num murmúrio.
- Ah, isso é que me atreveria - replicou o Harry com toda a calma. - E queres saber que mais? Ninguém viria a saber. Porque já demonstraste que não tens cuidado nenhum
quando lidas com os prisioneiros. E que também és incompetente.
Os punhos do Percy cerraram-se e as suas faces adquiri ram uma tonalidade rosada.
- Eu não sou...
-Claro que és - atalhou o Dean, juntando-se a nósj Formámos uma espécie de semicírculo em redor do Percy ao' fundo das escadas, e até a saída pela parte da frente do túnel se encontrava bloqueada; a maca estava atrás dele com o seu' amontoado de carne fumegante oculto debaixo de um velho lençol. - Acabaste de queimar o Delacroix vivo. Se isso não é uma demonstração de incompetência, o que é que será?
A expressão que se reflectia no olhar do Percy era pouco'' segura. Planeara proteger-se, invocando ignorância, e naquele momento verificava que o feitiço se virara contra o feiticeiro
Nunca cheguei a saber o que é que ele teria alegado em se guida, porque, nesse momento, o Curtis Anderson apareceu vindo das escadas. Apercebemo-nos de que era ele e afastámo-nos um pouco do Percy, de forma a não darmos uma imagem tão ameaçadora.
- Que porra é que foi aquilo? - perguntou o Anderson num rugido. - Jesus, o chão lá em cima é só vomitado por todo o lado! E o cheiro! Eu já disse ao Magnusson e ao velho
Pouca Terra que abrissem as duas portas, mas aquele cheiro não há-de sair durante pelo menos cinco anos, aposto tudo o que quiserem. E o monte de merda do Wharton está a cantar, acerca do assunto! Estou a ouvi-lo!
- E ele tem boa voz, Curt? - perguntou o Brutal. Sabem como é que se pode fazer com que o gás de iluminação entre em combustão apenas com uma centelha sem que daí
nos advenha qualquer dano físico, se o fizermos antes de a concentração ser excessiva? Foi o que aconteceu naquela situação. Ficámos uns instantes a olhar de boca aberta para ele
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gratos e desatámos a rir histericamente. As nossas gargalhadas cheias de histerismo ecoavam por aquele túnel lúgubre como o adejar de asas de morcegos. As nossas sombras disformes oscilavam sobre as paredes. Já no fim do nosso ataque de riso, até o Percy fez coro connosco. Por fim acalmámo-nos e, no rescaldo, todos nos sentimos melhor. Possuíamos de novo alguma sanidade mental.
- Muito bem, rapazes - atalhou o Anderson, limpando os olhos lacrimejantes com um lenço, continuando a soltar um soluço ocasional de riso -, o que raio se passou lá em cima?
- Uma execução - respondeu o Brutal. Estou em crer que o seu tom de voz neutro desarmou o Anderson, mas a mim não me surpreendeu, pelo menos não muito; o Brutal sempre tinha sido bom em tirar o maior partido de uma ocasião propícia. Bem sucedida.
- Como é que podes dizer uma coisa dessas? Algumas testemunhas serão incapazes de dormir durante um mês! Raios, aquela gaja gorda é capaz de não pregar olho durante um ano!
O Brutal apontou para a maca, para o corpo por baixo do lençol.
- Ele está morto, não é verdade? Quanto às tuas testemunhas, a maior parte delas dirá amanhã à noite aos amigos que se tratou de um acto de justiça perfeita... O Del queimou uma data de pessoas vivas, portanto, nós invertemos as coisas e queimámo-lo, a ele, vivo. Com a diferença de que não dirão que fomos nós. Dirão que foi a vontade de Deus que se manifestou através de nós. Talvez até haja alguma verdade nisso. E queres saber o melhor de tudo? A ironia suprema? A maior parte dos amigos das testemunhas vai desejar ter podido estar aqui, para ver com os seus próprios olhos. - Lançou um olhar ao Percy, que tanto tinha de sardónico como de escarninho.
- E se ficaram um tudo-nada abalados, o que é que isso tem de mais? - perguntou o Harry. - Eles ofereceram-se para o raio desta missão, ninguém os recrutou.
- Eu não sabia que a esponja tinha de estar molhada - interveio o Percy numa voz mecanizada. - Durante os ensaios nunca é costume molhá-la.
O Dean olhou para ele com o mais profundo dos desprezos.
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- Durante quantos anos mijaste na tampa da retrete até; alguém te ter dito que a levantasses antes de urinar? - perguntou ele num timbre de voz que mais parecia um ladrar.
O Percy ainda abriu a boca para responder, mas eu disse -lhe que se calasse. E, surpresa das surpresas, ele obedeceu Voltei-me para o Anderson.
- O Percy lixou tudo, Curtis... Foi isso o que sucedeu muito pura e simplesmente. - Virei-me para o Percy, desafiando-o a contradizer-me. Ele não ousou fazê-lo ao ler a expressão nos meus olhos: "É preferível que o Anderson julgue` que foi um erro estúpido do que algo propositado." Além do' mais, fosse o que fosse que se dissesse ali no túnel não tinhaqualquer significado. Aquilo que interessava, o que interessa sempre aos Percy Wetmore deste mundo, é o que fica regis tado ou o que chega aos ouvidos dos manda-chuvas... da pessoas que interessam. O que tem relevância para os Percies, Wetmore deste mundo é o que é publicado nos jornais.
O Anderson olhou para nós, parecendo um pouco inseguro. Chegou mesmo ao ponto de olhar para o Delacroix, mas este não se encontrava em estado de falar.
- Imagino que poderia ter sido pior - comentou.
- Isso é verdade - concordei. - Ele ainda podia estar vivo.
O Curtis pestanejou confuso: aquela probabilidade parecia não lhe ter ocorrido.
- Amanhã quero ver em cima da minha secretária um relatório pormenorizado sobre este assunto - instruiu ele.
E nenhum de vocês falará disto ao director Moores até eu ter tido a oportunidade de conversar com ele. Estamos de acordo? Acenámos veementemente com a cabeça. Se o Curtis Anderson pretendia pôr o director ao corrente do sucedido; por' nós não havia qualquer inconveniente.
- Isto é, se nenhum desses caras de cu dos repórteres referir o assunto nos seus jornais...
- Não o farão - repliquei. - Ainda que o tentassem, os editores impediriam que o assunto viesse a lume. É demasiado macabro para um público constituído maioritariamente por famílias. Mas eles nem sequer tentarão. Os que se encontravam presentes esta noite são todos veteranos. Às vezes ~ coisas dão para o torto, mais nada. Eles sabem disso tão bem como nós.
O Anderson pensou por mais uns instantes, e pouco depois assentiu. Olhou para o Percy; no seu rosto, habitualmente bastante afável, reflectia-se uma expressão desdenhosa.
- És um verdadeiro idiota - declarou -, e não gosto de ti nem um bocadinho. - Assentiu com a cabeça perante o olhar estupidificado de surpresa do Percy. - E se contares a algum dos teus amigos de cu rosado que eu te disse isto, podes estar certo que o negarei até que as galinhas venham a ter dentes... e estes homens hão-de confirmar o que eu disser. Como vês, estás com um pequeno problema, meu filho.
Com aquelas palavras, voltou-se e começou a subir as escadas. Deixei-o percorrer quatro degraus antes de o chamar. - Curtis? - O interpelado deu meia volta, franziu o sobrolho e não disse nada. - Não vale a pena preocupares-te muito com o Percy - acrescentei. - Ele vai ser transferido para o Briar Ridge. Esperam-no coisas maiores e melhores. Não é verdade, Percy?
- Assim que a transferência seja aprovada - prosseguiu o Brutal.
- E até que tal aconteça, ele vai passar a dar parte de doente todas as noites - acrescentou o Dean.
Aquilo enfureceu o Percy; ainda não trabalhava na prisão há tempo suficiente para poder ter acumulado dias de dispensa por doença remunerados. Fitou o Dean com grande desdém.
- Isso querias tu - disse ele.
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Regressámos ao bloco mais ou menos por volta da uma e um quarto da manhã (com excepção do Percy, que ficou a limpar a arrecadação muito mal-humorado) e eu ainda tinha de escrever um relatório. Decidi elaborá-lo na mesa do guarda de serviço; se eu me sentasse na cadeira do meu gabinete, que era mais confortável do que aquela, acabaria por passar pelas brasas. Muito provavelmente, isto poderá parecer-vos um pouco peculiar, em vista do que tinha acontecido há cerca de uma hora mas a realidade é que eu tinha a sensação de haver vivido três vidas desde as onze horas da noite anterior sem conseguir conciliar o sono.
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O John Coffey encontrava-se junto das barras da porta da cela, com as lágrimas a brotarem dos seus olhos estranhos e de expressão distanciada - era como se estivéssemos a observar o sangue a escorrer de uma ferida que se recusava a sarar, mas que não provocava dores. Mais perto da secretária, no corredor, o Wharton estava sentado na sua tarimba, embalando-se em movimentos laterais, enquanto entoava uma canção da sua lavra que não era despropositada de todo. Tanto quanto me consigo recordar, a letra dizia qualquer coisa como isto:
"Chu...rras...co! Tu e eu!
Fedorento, rosadinho, mas que pivete!
Não foi o Billy nem o Philadelphia Philly, Não foi o Jackie nem o Roy!
Era um rapazinho, pequeno e pimpão, Que dava pelo nome de Delacroix."
- Cala a boca, idiota! - disse-lhe eu.
Wharton mimoseou-me com um esgar sorridente que pôs à mostra os seus dentes enegrecidos. Ele não estava a morrer, pelo menos ainda não; estava de pé, todo satisfeito, praticamente a executar um sapateado.
- Vem até aqui dentro e obriga-me a calar a boca - desafiou, trocista e todo contente, começando a entoar outro verso da Canção do Churrasco, formando frases que não
eram totalmente desprovidas de graça. Revelavam uma inteligência aberrante e nauseabunda, mas que à sua própria maneira raiava o brilhantismo.
Dirigi-me para a cela do John Coffey. Este limpou as lágrimas das faces com a palma da mão. Tinha os olhos vernelhos e inchados, e pareceu-me que também estava exausto.
Não percebia bem porquê, pois ele passava apenas duas horas por dia no pátio de recreio e o resto do tempo sentado ou deitado na tarimba da sua cela; eu não tinha a certeza, mas não duvidei daquilo que estava a ver. Era demasiado evidente. - Pobre Del - comentou ele numa voz baixa e áspera.
Coitado do velho Del.
- Sim - anuí. - Coitado do velho Del. John, tu estás' bem?
- Já deixou tudo isto - continuou o Coffey sem me responder. - O Del já está fora disto. Não é verdade, chefe?
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Sim. Mas responde ao que te perguntei, John. Estás
bem? O Del deixou tudo isto, ele é que tem sorte. Não interessa a forma como aconteceu, ele é que tem sorte. Pensei que o Delacroix era muito capaz de contradizer aquela observação, mas decidi guardar aquele pensamento para mim próprio. Lancei um olhar pela cela do John Coffey. - Onde é que está o Mister Jingles?
- Foi a correr até ali ao fundo. - Apontou através das barras, indicando o fundo do corredor, onde se situava a cela do isolamento.
- Bem, ele há-de regressar - disse eu com um acenar de cabeça.
Mas a verdade é que não regressou; os dias do Mister Jingles na Milha Verde tinham chegado ao fim. O único vestígio que encontrámos da sua presença foi o que o Brutal descobriu nesse Inverno: umas quantas lascas de madeira coloridas e o cheiro a rebuçados de hortelã-pimenta, que emanava de um orificio na trave do tecto.
Tinha intenções de me ir embora nessa altura, mas não o fiz. Olhei para o John Coffey, e ele retribuiu-me o olhar, como se adivinhasse todos os meus pensamentos. Disse a mim mesmo para me pôr a mexer dali para fora, dar a noite por terminada e depois elaborar o relatório que tencionava escrever sentado à mesa do guarda de serviço. Em vez disso, ouvi-me a proferir o seu nome.
- John Coffey.
- Sim, chefe - retorquiu ele de imediato.
Por vezes, um homem sente a necessidade de saber uma determinada coisa, e era exactamente isso o que se passava comigo naquele momento. Baixei-me sobre um joelho e comecei a descalçar um dos meus sapatos.
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Quando cheguei a casa a chuva já parara de cair. Acima da cordilheira a norte surgira no firmamento a Lua tardia. O sono que eu sentira antes dava a impressão de ter desaparecido com as nuvens. Estava completamente desperto e sentia em mim o cheiro do Delacroix. Pensei que talvez conseguisse cheirá-lo na minha pele - churrasco, tu e eu, fedorento, rosadinho, mas que pivete - ainda durante .muito tempo.
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A Janice estava de pé à minha espera, como fazia sempre nas noites em que havia execuções. Tinha intenção de não lhe contar a história, uma vez que não vi qualquer finalidade em
perturbá-la com aquilo; contudo, ela lançou um olhar ao meu rosto quando transpus a porta da cozinha e exigiu que eu lhe contasse. Assim, sentei-me, agarrei nas suas mãos quentes, envolvi-as com as minhas, que estavam frias (o sistema de aquecimento do meu velho Ford funcionava mal, e desde o desencadear da tempestade que a temperatura tinha executado um ângulo de cento e oitenta graus), e comecei a narrar-lhe aquilo que ela pensava desejar ouvir. A meio da história fui-me abaixo e comecei a chorar, não tinha contado com aquilo. Senti-me um pouco envergonhado, mas não muito; bem vêem, era ela, a Janice; que nunca me chamava a atenção para as ocasiões em que eu me desviava do comportamento que estava convencionado para um homem... pelo menos, do comportamento que eu julgava dever ser o meu. Um homem casado com uma boa mulher é a criatura de Deus que mais sorte tem, ao passo que um que não possua essa dádiva deve encontrar-se entre os mais desgraçados, creio eu, sendo única bênção das suas vidas o facto de não se aperceberem de quanto isso lhes faz falta. Chorei e ela encostou a minha cabeça junto dos seus seios; quando a minha própria tempestade se dissipou, senti-me melhor... pelo menos, um tudo-nada melhor. Estou convencido de que foi nessa altura que tive a primeira percepção consciente da minha ideia. Não foi o sapato; não é a isso que estou a referir-me. O sapato estava relacionado, mas de forma diferente. No entanto, a minha verdadeira ideia consistia, naquele momento, apenas numa percepção estranha: que o John Coffey e a Melinda Moores, tão diferenciados quanto podiam ser em tamanho, sexo, e cor da pele, possuíam exactamente os mesmos olhos: tristes, pesarosos e distantes. Olhos moribundos.
- Vem para a cama - disse por fim a minha mulher. Vem para a cama comigo, Paul.
Acedi; fizemos amor e, quando terminámos, a Janice adormeceu. Enquanto eu estava deitado a olhar para a face da Lua, ouvindo o ranger ocasional das paredes - finalmente,
tinham começado a retrair-se, mudando do Verão para o Outono - pensei no John Coffey a dizer que tinha evitado o mal. Eu consegui evitar o mal no rato do Del. Eu consegui evitar o mal no Mister Jingles. Ele é um rato do circo. Com
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certeza. E talvez, pensei eu, todos nós fôssemos ratos de circo, a correr de um lado para o outro, tendo apenas uma noção vaga de que Deus e toda a Sua hoste no paraíso, nos observavam nas nossas pequenas casas de baquelite, através das janelas de folha de mica.
Quando o dia começou a clarear dormi um pouco - calculo que umas duas horas, talvez mesmo três; dormi da mesma maneira que costumo dormir hoje em dia, aqui, em Georgia Pines o que muito raramente me acontecia nessa época, um sono sobressaltado. Adormecia pensar nas igrejas da minha juventude. As tendências religiosas alteravam-se de acordo com os caprichos da minha mãe e das suas irmãs, mas na realidade eram todas o mesmo, resumiam-se à Primeira Igreja da Região Remota de Louvado Seja Jesus, o Senhor É Todo-Poderoso. À sombra daqueles campanários quadrados, o conceito de expiação surgia com a mesma regularidade do dobrar dos sinos que chamavam os fiéis à oração. Só Deus podia perdoar os pecados, podia e fazia-o, lavando-os no sangue do Seu Filho crucificado, mas esse facto não alterava a responsabilidade dos Seus filhos, que teriam de expiar esses pecados (e até mesmo os seus simples erros de discernimento) sempre que possível. A expiação era um instrumento poderoso; era a tranca na porta que se fecha a fim de encerrarmos o passado.
Adormeci a pensar em expiações que tinham lugar em pinhais frondosos, no Eduard Delacrorx, envolto em chamas montado no relâmpago, na Melinda Moores e no matulão com os seus olhos infinitamente lacrimosos. Estes pensamentos conseguiram formar um sonho. Nele, o John Coffey encontrava-se sentado na margem de um rio, balbuciando o seu pesar desarticulado em direcção ao firmamento de início do Verão, enquanto na outra margem se via um comboio de mercadorias que avançava veloz e incessantemente em direcção a um viaduto ferrugento que atravessava o Trapingus. Em cada braço, o homem de raça negra tinha o corpo de uma rapariguinha nua de cabelos louros. Os seus punhos, enormes rochedos castanhos nas extremidades desses braços, mantinham-se firmemente cerrados. Em seu redor os grilos cantavam e os insectos esvoaçavam; o calor do dia parecia zunir. No meu sonho dirigi-me a ele ajoelhando-me à sua frente e tomando as suas mãos nas minhas. Os seus punhos relaxaram-se, revelando os seus segredos. Numa delas encontrava-se um carretel pintado de verde, vermelho e amarelo. Na outra estava o sapato de um guarda prisional.
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- Não consegui evitar o mal - dizia John Coffey, , Tentei desfazer o que estava feito, mas era demasiado tarde; E desta feita, no meu sonho, compreendi finalmente o homem.
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Às nove horas da manhã seguinte, enquanto bebia a minha terceira caneca de café na cozinha (a minha mulher não fez qualquer comentário, mas vi a reprovação escrita no seu
rosto quando me deu o café), o telefone começou a tocar. Dirigi-me para a sala a fim de o atender; a telefonista da Central disse a alguém que já tinha em linha a pessoa pretendida, em seguida desejou-me um dia muito feliz e abandonou a linha, presumivelmente. Com a Central nunca se podia ter a certeza.
A voz do Hal Moores chocou-me muito. Soava enrouquecida e vacilante, dando-me a impressão de que pertencia a um octogenário. Ocorreu-me então que tinha sido bom que as coisas tivessem corrido da melhor maneira com o Curtis Anderson, na noite anterior, quando estivéramos todos no túnel; era óptimo que ele pensasse mais ou menos o mesmo que nós em relação ao Percy, porque o homem com quem eu estava a falar provavelmente jamais voltaria a trabalhar em Cold Mountain.
- Paul, pelo que percebi, ontem à noite houve um pequeno problema. Também percebi que o nosso amigo, Mister Wetmore, esteve envolvido no assunto.
- Foi apenas uma ligeira complicação - admiti, colocando o auscultador bem junto ao ouvido e inclinando-me sobre o bocal -, mas o trabalho ficou concluído. E isso é o mais importante.
- Sim. Claro que sim.
- Posso perguntar quem é que te contou? - "Para poder atar-lhe uma lata à cauda", pensei.
- Podes perguntar, mas, como não é assunto onde devas meter o bedelho, vou ficar de boca fechada. Quando liguei para o meu gabinete, a fim de saber se havia algum recado ou
qualquer assunto urgente, fui informado de uma coisa bastante interessante.
- Oh!
- Sim - retorquiu Moores. - Parece que um pedido de
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transferência foi aterrar na minha secretária. O Percy Wetmore quer ser transferido para o Briar Ridge logo que possível. Deve ter preenchido o papel antes mesmo do fim do turno da noite passada, não achas?
- Ao que tudo indica, parece que sim - concordei. - Em circunstâncias normais, eu deixaria que fosse o Curtis Anderson a tratar deste assunto, mas levando em consideração a... a atmosfera que tem reinado no Bloco E nestes últimos tempos, pedi à Hannah que me trouxesse pessoalmente esse pedido na sua hora de almoço. Gentilmente, ela acedeu. Vou aprovar a transferência e certificar-me de que é enviada para a capital do estado ainda esta tarde. Calculo que possas ver o Percy Wetmore pelas costas em menos de um mês. Talvez até menos.
O Moores esperava que eu ficasse satisfeito com aquela novidade, e tinha todo o direito a esperar. Interrompera a assistência à mulher para poder dispor do tempo necessário para dar andamento àquele assunto, o qual, não fora isso, poderia ter levado mais de seis meses a ser tratado, até mesmo através dos tão alardeados conhecimentos do Percy. No entanto, senti o coração cair-me aos pés. Um mês! Mas talvez isso não tivesse muita importância. Eliminava um desejo perfeitamente natural de aguardar e adiar um empreendimento arriscado, e o assunto que me preenchia a mente de momento seria efectivamente muito arriscado. Em certas ocasiões, quando é assim, é preferível dar o salto antes de perder a coragem. Se íamos ser obrigados a tratar do Percy (sempre partindo do pressuposto de que eu seria capaz de convencer os outros a apoiarem-me na minha loucura - por outras palavras, partindo do princípio de que existiria um "nós"), mais valia que fosse naquela mesma noite.
- Paul? Continuas em linha? - O Moores baixou um pouco a voz, como se pensasse que estava a falar consigo próprio. - Raios partam isto, está a parecer-me que a ligação foi cortada.
- Não. Continuo aqui, Hal. Deste-me uma bela novidade. - Sim - concordou ele; uma vez mais, senti-me espantado ao verificar o quanto a sua voz havia envelhecido. De uma forma estranha, parecia tão fina como papel. - Oh, eu sei bem em que é que estás a pensar.
"Não, não sabes, senhor director", pensei para comigo.
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"Nem daqui a um milhão de anos conseguirias adivinhar em que é que estou a pensar."
- Estás a pensar que o nosso jovem amigo ainda andarà pelo bloco aquando da execução do Coffey. O que provavelj mente será verdade... O Coffey marchará antes do Dia de acção de Graças, de acordo com as minhas previsões, mas poderás muito bem recambiá-lo de novo para o compartimento do quadro eléctrico. Ninguém levantará a mínima objecção.! Incluindo ele próprio, calculo.
- É exactamente o que farei - repliquei. - Hal, como é que a Melinda tem passado?
Fez-se uma longa pausa - tão longa que eu poderia ter pensado que ele saíra da linha, não fora o som da sua respiração. Quando o Moores voltou a falar, fê-lo muito mais baixo
- Ela está a apagar-se - disse ele.	~ A apagar-se. Aquela expressão tão aterradora que os antigos costumavam usar, não para dizerem que uma pessoa estava a morrer, mas sim que tinha começado a desligar-se do mundo dos vivos.
- As dores de cabeça parecem ter abrandado um pouco... pelo menos por agora... mas não consegue caminhar sem ajuda, não consegue agarrar nas coisas, enquanto está a dormir
não é capaz de controlar a bexiga... - Fez-se outra pausa, e então, num tom de voz ainda mais baixo o Hal acrescentou; qualquer coisa que me deu a impressão de ser: "Ela adeja".
- Adeja? O que é que queres dizer, Hal? - perguntei,, franzindo a testa. Entretanto a minha mulher tinha chegado à entrada da sala de estar e ficou ali a olhar para mim, a limpar as mãos a um pano da louça.
- Não - replicou o Moores numa voz que dava a impressão de vacilar entre a cólera e as lágrimas. - Ela pragueja.
- Oh! - exclamei, continuando sem saber o que é que ele pretendia dizer, embora não tivesse intenção de perguntar. Não foi necessário; ele encarregou-se de me explicar.
- Ela está muito bem, perfeitamente normal, a conversar acerca dos canteiros de flores ou de um vestido que viu no catálogo, ou a dizer que ouviu o Roosevelt no rádio, comentando que ele falou maravilhosamente, e então, sem mais nem menos, começa a dizer as coisas mais horrorosas que se possa conceber, coisas monstruosas... palavras. Não eleva a tom de voz. Na minha opinião, quase seria preferível se ela o fizesse... porque nesse caso... bem vês, então...
- Não se pareceria tanto consigo própria - adiantei. - É isso mesmo - aquiesceu o Moores numa voz agradecida. -	_Mas ouvi-la proferir aquelas coisas horríveis, linguagem reles, na sua doce voz... Desculpa-me Paul. - A sua voz enfraqueceu, e ouvi-o a aclarar ruidosamente a garganta.
Pouco depois, o Moores retomou a palavra, num tom um pouco mais forte mas tão entristecido como antes. - A Melinda quer que o pastor Donaldson venha cá a casa e eu sei que ele é um grande conforto para ela, mas como é que eu posso pedir-lhe que venha? Supõe que. ele está sentado na sala, lendo as Escrituras com ela e ela lhe chama um nome obsceno? A Melinda é muito capaz de o fazer; ontem á noite chamou-me nomes. Ela disse-me: "Chega-me essa revista, a Liberty, meu caralho de merda, se fizeres o favor." Oh, Paul, onde é que ela terá ouvido linguagem desta espécie? Como é que ela pode ter conhecimento deste género de palavras? - Não sei. Hal, tencionas ficar em casa esta noite?
Quando estava de posse de todas as suas faculdades, sem se sentir perturbado pelas preocupações e desgostos, o Hal Moores tinha uma faceta ríspida e sarcástica; acho que os seus subordinados receavam mais essa faceta do que a sua cólera ou desprezo. O seu sarcasmo, que habitualmente se revestia de impaciência e brusquidão, era capaz de nos aguilhoar como ácido. Naquele momento, senti um pouco desse sarcasmo. Foi bastante inesperado, mas, tudo considerado, fiquei satisfeito por detectar aquilo. Ao fim e ao cabo, parecia que nem todo o espírito de luta o abandonara.
- Não - respondeu-me o Hal -, tenciono levar a Melinda ao baile no celeiro. Tencionamos fartar-nos de dançar e depois dizer ao rabequista que é um filho da puta.
Tapeia boca com a mão para não me rir. Felizmente, a vontade de rir desapareceu com rapidez.
- Desculpa - acrescentou ele. - Ultimamente, não tenho andado a dormir muito. O que me torna rabugento. É claro que vamos estar em casa. Porque é que perguntas?
- Não interessa - retorqui.
- Não estás a pensar em passar por cá, pois não? Porque se estiveste de serviço ontem à noite, isso significa que hoje também trabalharás no turno da noite. A menos que tenhas trocado com alguém, não?
- Não, não troquei - confirmei. - Esta noite também estou de serviço.
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- Em qualquer dos casos, a tua visita não seria muito boa ideia. Da forma como ela se sente neste momento.., - Talvez tenhas razão. Obrigado pelas notícias que me deste.
- Não tens de quê. Reza pela minha Melinda, Paul. Eu prometi-lhe que assim faria, pensando que talvez viesse a fazer um pouco mais do que rezar. Tal como eles costumam dizer na Igreja do Louvado Seja Jesus, o Senhor É Todo-Poderoso, Deus ajuda os que se ajudam a si próprios. Desliguei o telefone e olhei para a Janice.
- Como é que está a Melly? - perguntou-me ela.
- Não muito bem. - Contei-lhe o que o Hal me dissera, incluindo a parte respeitante à linguagem obscena, embora não tenha incluído a parte do caralho e do filho da puta. Con
cluí o meu relato, utilizando a expressão do Hal, "a apagar-se"; a Jan abanou a cabeça com uma expressão de tristeza. Em seguida, observou-me com mais atenção.
- Em que é que estás a pensar? Andas a matutar em qualquer coisa, provavelmente, nada de bom. Está escrito no teu rosto.
Mentir encontrava-se inteiramente fora de questão; essa não era a nossa maneira de ser. Limitei-me a dizer-lhe que seria preferível que ela não se inteirasse do assunto, pelo menos de momento.
- Trata-se de... Pode vir a causar-te algum problema? -perguntou ela, apesar de não parecer estar particularmente alarmada perante aquela hipótese, antes interessada, o que é um dos aspectos de que eu sempre gostei no seu carácter. - Talvez - respondi lacónico.
- É uma coisa boa?
- Talvez - repeti. Continuava no mesmo lugar enquanto com um dedo girava distraidamente a manivela do telefone. - Preferes que eu te deixe sozinho enquanto fazes o teu telefonema? - perguntou a Janice. - Que seja uma boa mulherzinha e não me meta onde não sou chamada? Que vá lavar a louça? Tricotar umas botinhas de lã?
Assenti.
- Não era bem nisso que eu estava a pensar, mas... - Vamos ter convidados para o almoço, Paul?
- Espero que sim - repliquei.
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Contactei com o Dean e o Brutal sem mais demoras, uma vez que ambos se encontravam ligados à rede telefónica. Não era o caso do Harry, pelo menos nessa época, mas eu tinha o número de telefone do seu vizinho mais próximo. Cerca de vinte minutos mais tarde, o Harry retribuiu o meu telefonema, extremamente embaraçado por a chamada ter de ser paga no destino, mas prometendo "pagar o seu quinhão" quando nos fosse enviada a próxima factura. Eu repliquei-lhe que "tudo vem a seu tempo e os nabos no Advento"; entrementes, poderia ele vir almoçar a minha casa? O Brutal e o Dean já tinham aceite o convite, e a Janice prometera servir a sua famosa salada de repolho cru... para já não falar na sua ainda mais famosa tarte de maçã.
- Almoço sem ser por qualquer motivo especial? - perguntou o Harry com cepticismo.
Acabei por admitir que queria discutir com eles um certo assunto, mas não desejava entrar nessa questão ao telefone. O Harry concordou em ir almoçar a minha casa. Pousei o auscultador, dirigi-me para a janela e olhei para fora, pensativo. Embora houvéssemos trabalhado no turno da noite, eu não acordara o Brutal nem o Dean, e o Harry também não parecera ter acabado de sair de vale de lençóis. Tudo indicava que eu não era o único a estar incomodado com o que se passara na noite anterior, e tendo em conta a loucura que eu tencionava levar a cabo, isso não era mau.
O Brutal, que era o que vivia mais próximo de mim, chegou às onze e um quarto. O Dean apareceu quinze minutos mais tarde e o Harry - já vestido para o trabalho - outros quinze minutos depois deste último. A Jan serviu-nos o almoço na cozinha: sanduíches de carne assada, salada de repolho e chá gelado. Tivesse aquela refeição tido lugar no dia anterior e teríamos comido no alpendre, ao ar livre, satisfeitos por sentir a brisa todavia a temperatura havia descido uns bons catorze graus desde a tempestade da noite anterior, e das cumeeiras soprava um vento bastante agreste.
- Podes sentar-te à mesa connosco - disse eu à minha mulher.
- Acho que não quero saber o que andas a tramar - disse-me ela com um abanar de cabeça -, e fico menos preo
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cupada se não souber. Eu como qualquer coisa na sala de es tar. Esta semana tenho encontro marcado com Miss Jané Austen, a qual, devo dizer, é uma companhia excelente.
- Quem é a Jane Austen? - perguntou o Harry depois de a Janice ter saído da cozinha. - Da tua família ou da da tua mulher, Paul? É alguma prima? É bonita?
- É uma escritora, idiota - esclareceu o Brutal. - Já morreu há uma eternidade.
- Oh! - exclamou o Harry, constrangido. - Eu não sou grande leitor. Na maior parte, manuais de rádio.
- O que é que andas a magicar, Paul? - perguntou o Dean sem rodeios.
- Para começar, temos o Mister Jingles e o John Coffey. Os três mostraram-se surpreendidos, tal como eu esperara..;, Tinham julgado que eu queria falar do Delacroix ou do Per cy. Talvez mesmo de ambos. Fitei o Dean e o Harry. - Aquilo com o Mister Jingles... o que o Coffey fez... aconteceu com bastante rapidez. Eu não sei se chegaste a tempo de ver até que ponto é que o rato ficou ferido.
- Não, mas ainda vi o sangue espalhado no chão - re plicou ele com um abanar de cabeça.
Voltei-me para o Brutal.
- O filho da puta do Percy esmagou-o - disse ele simplesmente. - Deveria ter morrido, mas tal não aconteceu: O Coffey fez-lhe qualquer coisa. Não sei como, mas o certo é que sarou. Eu sei que isto parece ser impossível, mas eu vi com os meus próprios olhos.
- Ele também me curou e eu não me limitei a ver, senti isso na pele - atalhei eu. Contei-lhes o que se passara com a minha infecção urinária, a forma como esta ressurgira, o so
frimento por que tinha passado (apontei através da janela da cozinha para a pilha de madeira a que fora obrigado a agarrar-me, na manhã em que as dores me prostraram de joelhos), e a forma como havia desaparecido completamente depois de o Coffey me ter tocado. E nunca mais voltara.
Não foi necessário muito tempo para esta narrativa. Depois de eu ter terminado, os três ficaram em silêncio por algum tempo, mastigando as suas sanduíches. O Dean foi o primeiro a retomar a conversa.
- Da boca dele saem coisas pretas. Parecidas com insectos. - É verdade - corroborou o Harry. - Pelo menos, de início eram pretas. Mas em seguida ficaram brancas e sumi

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ram-se. - Olhou à sua volta com uma expressão pensativa. - Já me tinha esquecido do raio dessa coisa toda, Paul. Não acham que é engraçado?
Nao há nada de engraçado nem de estranho a respeito disso - interveio o Brutal. - Na minha opinião, é assim que a maior parte das pessoas procede em relação às coisas
que não é capaz de compreender... Limitam-se a esquecê-las. Não faz muito bem à cabeça de uma pessoa recordar-se de coisas que não têm explicação. O que é que tens a dizer quanto a isso, Paul? Também apareceram insectos quando ele te curou da infecção?
- Sim. Na minha opinião, eles é que são a doença... as dores... o sofrimento. Absorvem os males e depois libertam-nos de novo em pleno ar.
- Onde acabam por vir a morrer - acrescentou o Harry. Encolhi os ombros. Por mim, não sabia se morriam ou não, tão-pouco tinha a certeza se isso interessaria para o caso. - Ele sugou isso de ti? - perguntou o Brutal. - O Coffey deu-me a impressão de estar a sugar qualquer coisa directamente do rato. O sofrimento. O... vocês sabem o que quero dizer. A morte.
- Não - redargui. - Ele limitou-se a tocar-me. E eu senti o seu toque. Foi uma espécie de safanão, como um choque eléctrico, com a diferença de que não me provocou qualquer dor. Mas eu não estava a morrer, só sentia dores.
- O toque e a respiração - proferiu o Brutal com um acenar de cabeça. - Tal como se costuma ouvir desses apregoadores da palavra divina.
- Jesus seja Louvado, o Senhor é Todo-Poderoso - atalhei.
- Cá por mim, não sei se Jesus tem alguma coisa a ver com isto - acrescentou o Brutal -, mas o certo é que me parece que o John Coffey é um homem muito poderoso.
- Muito bem - interveio o Dean. - Uma vez que tu afirmas que tudo isso aconteceu, acho que sou obrigado a acreditar. Deus manifesta-se de maneiras misteriosas. Mas o que é que isso tem a ver connosco?
Bem, aquela é que era a grande questão, não era? Respirei fundo e disse-lhes aquilo que tencionava fazer. Aparvalhados, os três ouviram o que eu tinha a dizer. Até o Brutal, que gostava de ler aquelas revistas que traziam histórias sobre homenzinhos verdes vindos do espaço, apresentava uma expres
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são estupidificada. Desta vez, quando terminei, fez-se u silêncio ainda maior e as sanduíches pareciam ter sido esquecidas.
Por fim, numa voz suave cheia de sensatez, o Brutus Howell retomou a palavra.
- Se fôssemos apanhados, perderíamos o emprego, pau~, e já era uma sorte se fosse só isso. O mais provável era acabarmos por ir parar ao Bloco A como convidados do estado, a! fabricar carteiras e a tomar duche aos pares.
- Sim - admiti. - Isso poderia muito bem vir a acontecer.
- Até certo ponto, sou capaz de compreender o que sen-tes - continuou ele. - Conheces o Moores muito melhor do que qualquer de nós e, para além de ele ser o chefe, também
é teu amigo e sei que pensas muito no estado de saúde da mulher dele...
- A Melinda é a pessoa mais meiga do mundo - afirmei -, e para ele nada mais existe.
- Mas nós não a conhecemos da mesma forma que tu e a Janice - disse o Brutal. - Não é verdade, Paul?
- Se a conhecessem, também sentiriam afecto por ela retorqui. - Pelo menos teriam sentido se a tivessem conhecido antes de esta coisa se ter apoderado dela com as suas gar
ras impiedosas. Ela costumava fazer muitas coisas em prol da comunidade, e é uma boa amiga e uma pessoa religiosa. Mas ainda mais é uma pessoa espirituosa. Enfim, costumava ser. A Melinda era capaz de nos contar coisas que nos faziam rir até às lágrimas. Mas não é por isso que quero ajudá-la a salvar a vida, isto é, caso possa vir a ser salva. O que está a acontecer com ela constitui uma ofensa, raios, uma verdadeira ofensa. Para os olhos, para os ouvidos e para o coração.
- Essa tua atitude é muito nobre, mas duvido muito que seja isso que está a incomodar-te - interpôs o Brutal. - Estou convencido de que a tua atitude se deve mais ao que
aconteceu ao Del. De uma maneira qualquer, pretendes restabelecer o equilíbrio das coisas.
E ele tinha toda a razão. Claro que tinha. Eu conhecia a Melinda Moores melhor do que eles; porém, depois de tudo analisado, isso não bastava para lhes pedir que arriscassem os
seus empregos por ela... e possivelmente também a sua liberdade. E já agora, o mesmo se aplicava ao meu emprego e à minha liberdade. Ao fim e ao cabo, eu tinha dois filhos, e a
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última coisa que desejava que viesse a suceder neste mundo de Deus era que a minha mulher fosse obrigada a escrever aos filhos para lhes comunicar que o pai ia ser julgado por... ben,, porque é que seria? Não sabia. Por ajudar a instigar uma tentativa de fuga, parecia-me ser a razão mais plausível.
No entanto, a morte do Eduard Delacroix tinha sido o ac~ mais hediondo e ultrajante que eu presenciara ao longo de toda a minha vida - e não estou a referir-me apenas à minha vida profissional, mas sim à totalidade da minha existência - e eu tomara parte nele. Todos nós havíamos tomado uma vez que permitíramos que o Percy Wetmor~ tivesse continuado com as mesmas funções depois de sabermos que ele não possuía o mínimo de capacidades para trabalhar num lugar como o Bloco E. Sem objecções entráramos naquele jogo. Até o director Moores tinha a sua quota-parte de responsabilidade. "Os tomates dele vão ser estorricados quer o Wetmore faça parte do grupo ou não", dissera ele na altura; talvez isso não devesse causar-nos grandes apreensões, em virtude dos actos que o pequeno franciú cometera, mas, no fim, o Percy tinha feito muito mais do que estorricar os tomates do Del; fizera explodir os globos oculares para fora das órbitas e pegara-lhe fogo à cara. E porquê? Porque o Delacroix cometera seis assassínios? Não. Porque o Percy havia mijado nas calças e o pequeno cajun tivera a ousadia de se rir dele. Nós havíamos tomado parte num acto monstruoso e o Percy sair-se-ia daquilo com toda a impunidade. Ia ser transferido para o Briar Ridge, tão feliz como um gato ao sol num dia de Inverno, e ali teria um hospício cheio de lunáticos, sobre quem poderia exercer todas as suas sádicas crueldades. Não havia nada que pudéssemos fazer para impedir isso, mas talvez não fosse demasiado tarde para lavarmos alguma da sujidade que nos conspurcava as mãos.
- Na minha igreja classificam isto de expiação em vez de restabelecimento do equilíbrio - disse eu -, mas acho que no fim vem tudo a dar no mesmo.
- Acreditas realmente que o Coffey poderia salvá-la? - perguntou o Dean numa voz suave e perplexa... - Fazendo apenas.., o quê?... Sugando-lhe o tumor cerebral que lhe mina a cabeça? Como se fosse o... o caroço de um pêssego?
- Acho que seria capaz. Como é evidente, não é certo, mas depois do que ele fez comigo... e com o Mister Jingles... Não há duvida de que o rato estava bastante esborrachado - disse o Brutal.
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- Mas estaria ele disposto a fazê-lo? - perguntou Harry ensimesmado. - Estaria?
- Se estiver ao seu alcance, sem dúvida que sim - repliquei.
- Porquê? O Coffey nem sequer a conhece!
- Porque essa é a sua missão. Foi com essa finalidade que Deus o criou.
O Brutal olhou ostensivamente em redor, recordando-nos que faltava alguém.
- E quanto ao Percy? Pensas que ele vai permitir que isto vá para a frente? - perguntou ele.
Aquela questão levou-me a contar-lhes o que eu planeara em relação ao Percy. Quando terminei, o Harry e o Dean olhavam para mim estupefactos e o Brutal esboçava um sorriso relutante de admiração.
- Bastante audacioso, Irmão Paul! - exclamou ele. Quase consegues cortar-me a respiração!
- Mas seria uma façanha e tanto! - observou o Dean quase num murmúrio, após o que desatou a rir sonoramente,, batendo palmas, como se fosse um garoto. - Quer dizer,
vuu.., duu... dü... oh... duu e macacos me mordam! - É preciso não esquecer que o Dean tinha um interesse muito especial na parte do plano que envolvia o Percy (ao fim e ao cabo, este teria permitido que o Dean morresse devido à sua inércia quando o Dean fora atacado pelo Wharton).
- Sim, mas... e depois? - perguntou o Harry. Parecia sentir-se acabrunhado, mas os seus olhos atraiçoaram-no; cintilavam, indicando que ele desejava ser convencido. - O que é que acontece depois?
- Costuma-se dizer que homem morto não ganha soldo - resmungou o Brutal. Lancei-lhe um rápido olhar para ter a certeza de que ele estava a brincar.
- Acho que ele vai ficar de bico calado - disse eu. - A sério?! - O Dean parecia céptico. Tirou os óculos do nariz e começou a limpar as lentes. - Convençam-me~ - Em primeiro lugar, ele nunca saberá o que realmente sucedeu... Vai julgar-nos pela sua bitola, pensando que se tratou apenas de uma partida. Em segundo lugar... e mais impor' tante ainda, ele terá receio de dizer seja o que for. É com isso que éu estou efectivamente a contar. Nós dizemos-lhe que se começar a escrever cartas e a fazer telefonemas também nós começaremos a escrever cartas e a fazer alguns telefonemas

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A respeito da execução - disse o Harry.
E da forma como ele ficou paralisado quando o Wharton atacou o Dean - interveio o Brutal. - Acho que a possibilidade de as pessoas poderem vir a tomar conhecimento destes assuntos é o que o Percy Wetmore teme mais. - Acenou lentamente com a cabeça, pensativo. - É capaz de resultar. Mas, Paul... não faria mais sentido levar Mistress Moores até junto do Coffey, do que o Coffey a Mistress Moores? Poderíamos tratar do Percy da forma que delineaste, e fazíamo-la passar pelo túnel, em lugar de ser o Coffey a percorrer esse caminho.
- Essa opção nunca poderá vir a ser concretizada - declarei com um sacudir de cabeça descrente. - Nem daqui a um milhão de anos.
- Por causa do director Moores?
- Exactamente. Ele é teimoso que nem uma mula. Se levarmos o Coffey a casa dele acho que ficará tão surpreendido que pelo menos não impedirá que ele faça uma tentativa. Caso contrário...
- O que é que estás a pensar em utilizar em termos de veículo? - inquiriu o Brutal.
- O meu primeiro pensamento foi a diligência - respondi -, mas nunca conseguiríamos tirá-la do pátio sem dar nas vistas, além de que toda a gente que habita num raio de trinta quilómetros conhece bem o seu aspecto. Calculo que talvez possamos ir no meu Ford.
- Calcula outra vez - disse o Dean, voltando a colocar os óculos no nariz. - Ainda que o despisses todo e lhe barrasses o corpo com banha, nunca conseguirias meter o John Coffey dentro do teu automóvel, nem com a ajuda de uma calçadeira. Estás tão acostumado a olhar para ele que te esqueceste do seu tamanho.
Não tive resposta para aquilo. Grande parte da minha atenção nessa manhã fora dedicada ao problema que o Percy representava - assim como ao problema menor, mas não menos considerável, que era o Bill "Selvagem" Wharton. Naquele momento começava a compreender que o meio de transporte não iria ser tão simples quanto eu tinha esperado.
O Harry Terwilliger agarrou no que restava da sua segunda sanduíche observou-a durante uns segundos e voltou a pousá-la no prato.
- Se decidíssemos levar a cabo esta coisa de loucos -
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disse ele -,imagino que poderíamos servir-nos da minha camioneta de caixa aberta. Colocá-lo-íamos na parte de trás. A essa hora da noite não há muita gente na estrada. Estamos a falar de uma hora por volta da meia-noite, não é verdade? - Sim - confirmei.
- Vocês estão a esquecer-se de um pequeno pormenor interveio o Dean. - Eu sei que o Coffey tem andado muito sossegado desde que chegou ao bloco, está sempre deitado na
tarimba a choramingar constantemente, mas a realidade é que é um assassino. E também um homem gigantesco. Se por acaso decidisse que desejava fugir pela parte de trás da camioneta do Harry, a única maneira de o impedirmos seria matá-lo. E um tipo como ele exigiria uma grande quantidade de tiros, até mesmo com uma arma de calibre quarenta e cinco. Suponhamos que não éramos capazes de o abater? E que ele tinha oportunidade de matar alguém? Eu não gostava nada de perder o emprego e passar uma temporada na penitenciária... Tenho mulher e filhos que dependem de mim para comer, mas não me parece que odiaria qualquer destas coisas tanto como o ter na consciência o peso de outra garotinha morta.
- Isso não virá a acontecer - declarei.
- Como é que podes estar assim tão certo?
Não dei resposta imediata àquela pergunta. Não sabia bem por onde havia de começar. Eu soubera de antemão que aquela questão acabaria por vir à baila, claro que sim, mas o
certo é que continuava sem saber como dizer-lhes o que sabia.; Foi o Brutal quem veio em meu auxílio.
- Não acreditas que ele tenha feito aquilo, pois não, Paul? - perguntou-me ele com uma expressão de incredulidade. - Achas que o idiota gigante está inocente.
- Tenho a certeza absoluta que está inocente - repliquei.
- Como é que podes ter tanta certeza?
- Existem duas coisas - respondi. - Uma delas é o meu sapato. - Debrucei-me sobre a mesa e comecei a falar.

PARTE CINCO
JORNADA NA NOITE

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Mr. H. G. Wells em tempos escreveu uma história sobre um homem que inventou uma máquina do tempo, e eu cheguei à conclusão que, ao escrever estas memórias, criei a minha própria máquina do tempo. Ao contrário da de Wells, esta só pode viajar para o passado - na realidade, de regresso a 1932, altura em que eu era o manda-chuva dos guardas prisionais do Bloco E, na penitenciária de Cold Mountain - mas, não obstante essa peculiaridade, é fantasmagoricamente eficiente. Seja como for, esta máquina do tempo traz-me à recordação o velho Ford que eu conduzia nessa altura: podia-se ter a certeza de que o motor acabaria por pegar, embora nunca se soubesse se uma volta com a chave na ignição seria o suficiente para iniciar a combustão ou se seria necessário utilizar a manivela, até que o nosso braço estivesse prestes a soltar-se do corpo devido ao esforço.
Tenho tido muitos arranques fáceis desde que comecei a nanar esta história sobre o John Coffey, mas ontem fui obrigado a servir-me da manivela. Estou em crer que foi por ter chegado ao assunto da execução do Delacroix, e parte da minha mente não desejar reviver esses momentos. Tratou-se de uma morte muito má, uma morte terrível, e foi-o por causa do Percy Wetmore, o jovem que adorava pentear-se, mas que não era capaz de suportar que se rissem dele - nem sequer um pequeno franciú, meio calvo, que jamais voltaria a ver outro Natal.
No entanto tal como acontece com a maioria das tarefas repugnantes, o que custa é começar. Para um motor é indiferente que a sua ignição se faça por meio de chave ou de manivela; depois de ligado, funciona sempre da mesma maneira. Foi o que aconteceu comigo ontem. Ao princípio, as palavras
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começaram a brotar-me da boca aos arrancos, mas depois se guiram-se frases completas que culminaram numa torrente de fluência verbal. A escrita é uma forma bastante aterradora e muito especial de rememorar, tal como vim a descobrir . re_ veste-se de uma inteireza que quase se assemelha a um crime de estupro. É possível que eu tenha essa percepção somente porque sou um homem já muito velho (por vezes tenho a sen_ sação de que isso aconteceu nas minhas costas, sem que eu me desse conta); todavia, não estou muito seguro. Acredito que a combinação lápis e memória dá origem a uma magia prática, e a magia é perigosa. Na minha qualidade de homem, que conheceu o John Coffey e assistiu àquilo que ele era ca- paz de fazer - tanto aos ratos como aos homens - sinto-me bastante habilitado a fazer essa afirmação.
A magia é perigosa.
Em qualquer dos casos, ontem escrevi durante todo o dia, as palavras fluíram sem a mínima dificuldade, e o jardim de' Inverno deste glorioso lar para pessoas da terceira idade desa-
pareceu para dar lugar à arrecadação situada no extremo da Milha Verde, onde tantas das minhas crianças problemáticas se sentaram pela última vez, e ao fundo das escadas que davam acesso ao túnel abaixo da estrada. Foi aí que o Dean, o Harry, o Brutal e eu próprio confrontámos o Percy Wetmore a por causa do corpo fumegante do Eduard Delacroix, e onde o obrigámos a renovar a sua promessa de que pediria transferência para o Briar Ridge, o estabelecimento hospitalar do estado destinado aos doentes mentais.
No solário há sempre flores frescas, mas, por volta do meio-dia de ontem, a única coisa que me chegava às narinas era o cheiro nauseabundo da carne cozinhada do corpo do ho
mem morto. O som da máquina de cortar relva no relvado mais abaixo fora substituído pelo gotejar cavo da água que se infiltrava lentamente através do tecto abaulado do túnel. Eu viajara de regresso a 1932, se não corporalmente, pelo menos de alma e mente.
Dispensei o almoço, tendo ficado a escrever até mais ou menos às quatro da tarde, e, quando por fim pousei o lápis, sentia a mão dorida. Num passo lento dirigi-me à extremidade do corredor do segundo andar. Nesse lugar existe uma janela sobranceira ao parque de estacionamento dos funcionarios do lar. O Brad Dolan, o servente que me faz lembrar o' Percy - e aquele que mostra uma curiosidade excessiva;,
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quanto às minhas idas e vindas e quanto ao que faço durante os meus passeios - conduz um velho Chevrolet cujo pára-choques tem um autocolante que diz: "Eu VI DEUS E O SEU NOME É NEWT." O automóvel não estava no parque de estacion~nento; o Brad tinha terminado o seu turno e seguira para qualquer que fosse o jardim a que chamava lar. Imaginei uma caravana em cujo interior estivessem coladas com fita-cola as páginas centrais das revistas pornográficas, com latas de cerveja Dixie nas prateleiras.
Saí através da cozinha onde já haviam começado a preparar o jantar.
- O que é que leva nesse saco, Mister Edgecombe? --perguntou-me o Norton.
- É só uma garrafa vazia - respondi-lhe. - Lá em baixo, no bosque, descobri a fonte da juventude. Todas as tardes, por volta desta hora, vou até lá buscar um pouco. Costumo beber o líquido antes de me deitar. Só te digo que é de boa qualidade.
- Pode ser que o mantenha jovem - interveio George, o outro cozinheiro -, mas não está a fazer nada para que fique mais bem-parecido.
Todos demos uma boa gargalhada com aquele comentário e eu saí para as traseiras. Dei comigo a olhar em redor, à procura do Dolan, embora o seu carro não se encontrasse ali; disse a mim próprio que era um idiota chapado por permitir que o homem me bulisse tanto com os nervos. Atravessei o campo de jogos. Para lá deste existe um arremedo de campo de golfe de aspecto miserável, que parece ser muito mais agradável nas fotografias das brochuras de Georgia Pines, havendo por detrás deste uma vereda sinuosa, que vai dar a um pequeno arvoredo situado a oriente do lar. Também existem dois velhos barracões à berma deste caminho, que hoje em dia não têm qualquer serventia. Chegado ao segundo, que se situa próximo do elevado muro de pedra erigido entre os terrenos de Georgia Pines e a Auto-Estrada 47 que atravessa a Jórgia, entrei, tendo permanecido no seu interior durante algum tempo.
Nessa noite comi um bom jantar, vi um bocado de televisão e deitei-me cedo. Há muitas noites em que acordo e, sorrateiramente desço até à sala do televisor, onde costumo ver filmes antigos no canal de filmes americanos. No entanto, isso não aconteceu na noite passada; na noite passada dormi
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que nem uma pedra, sem ter sido perturbado por nenhum dos sonhos que tanto me têm assombrado desde que iniciei as ~ nhas incursões no campo da literatura. Devo ter ficado cansado com toda a escrita desse dia. Como sabem, já não sou jovem como costumava ser.
Quando despertei e vi que o retalho de sol, que habitualmente se projecta no soalho às seis da manhã, já subira até aos pés da minha cama, levantei-me de um salto, tão alarmado que nem dei pelas guinadas de dor na bacia, nos joelhos e nas articulações dos tornozelos. Vesti-me o mais depressa possível e saí apressadamente para o corredor, em direcção à panela que dá para o parque de estacionamento, na esperança de que o lugar onde o Dolan costumava estacionar o seu velho Chevrolet continuasse a estar desocupado. Por vezes ele chegava a atrasar-se meia hora...
Naquele dia não tive essa sorte. O carro estava no parque, ferrugento sob o sol da manhã. Porque Mr. Brad Dolan tinha um motivo para chegar pontualmente nestes últimos tempos,
não é verdade? Sim. O velho Paulie Edgecombe costuma ir a um lugar desconhecido logo de manhã cedo, o velho Paulie Edgecombe anda a tramar alguma, e o Brad Dolan está determinado em descobrir do que é que se trata. O que é que costumas fazer ali em baixo, Paulie? Diz-me. O mais provável era ele já estar à minha espera, oculto para que eu não o visse. O melhor seria eu deixar-me ficar onde estava... Só que não podia.
- Paul?
Dei meia volta com tanta rapidez que estive prestes a cair. Era a minha amiga Elaine Connelly. Tinha os olhos muito abertos e estendera as mãos para a frente, como se pretendesse suster a minha queda. Felizmente para ela, recuperei o equilíbrio; a Elaine tem artrite e o mais provável teria sido eu quebrá-la em duas, como se fosse um galho seco, caso tivesse tombado para cima dos seus braços. O romance não more quando se entra naquela estranha zona que se situa para lá dos oitenta anos, mas podemos muito bem esquecer-nos das tretas do estilo E Tudo o Vento Levou.
- Desculpa - disse ela. - Não tive intenção de te pregar um susto.
- Não tem importância - repliquei-lhe, oferecendo-lhe o esboço de um sorriso. - É melhor acordar assim do que com um balde de água fria no rosto. Eu devia contratar-te para fazeres isso todas as manhãs.
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Estavas à procura do carro dele, não é assim? Do carro
do Dolan. Não valia a pena tentar enganá-la, pelo que me limitei a 
acenar que sim.
. Quem me dera ter a certeza de que ele está na ala oeste. Gostaria de sair por algum tempo, mas não me quero arriscar a que ele me veja.
Elaine sorriu-me - o fantasma do sorriso endiabrado e tentador que ela deveria ter tido nos seus tempos de rapariga. - Ele é um intrometido, não achas?
- Sim - concordei.
- E também não está na ala oeste. Já desci para tomar o pequeno-almoço e posso dizer-te onde é que ele se encontra, porque dei uma espreitadela. Neste momento, está na cozinha.
Olhei para ela, embasbacado. Eu sabia que o Dolan era curioso, mas não àquele ponto.
- Não podes adiar o teu passeio da manhã? - perguntou a Elaine.
Fiquei a pensar naquela sugestão. - Suponho que poderia, mas... - Devias fazê-lo - sugeriu ela. - Não. Não devia - retorqui, resoluto.
Agora, pensei, ela vai perguntar-me onde é que vou, e o que é que tenho a fazer lá em baixo, no arvoredo, que seja assim tão diabolicamente importante.
A Elaine, porém, não fez isso. Pelo contrário, brindou-me uma vez mais com aquele seu sorriso endiabrado, que tinha um aspecto estranho e absolutamente maravilhoso naquele rosto emaciado e marcado pela dor.
- Conheces Mister Howland? - perguntou-me ela.
- Com certeza - respondi apesar de não costumar vê-lo muitas vezes. Encontrava-se instalado na ala oeste, o que, em Georgia Pines era quase o mesmo que viver num país vizinho. - Porque perguntas?
- Sabes o que é que ele tem de especial? - Sacudi a cabeça, indicando-lhe que não sabia. - Mister Howland - continuou Elaine exibindo um sorriso extremamente rasgado - é um dos únicos cinco residentes de Georgia Pines que tem autorização para fumar. Isso acontece porque ele já vivia cá antes de os regulamentos terem sido alterados.
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Devia ser uma velha cláusula, antiquíssima. E que lugar era mais adequado para tal cláusula do que um lar para a terceira idade?
A Elaine levou a mão à algibeira do seu vestido às riscas azuis e brancas, e tirou de lá duas coisas: um cigarro e uma carteira de fósforos.
- Apequena Ellie vai fazer chichi na cama esta noite cantarolou ela numa voz engraçada.
- Elaine, o que é...
- Acompanha esta velhota até ao andar de baixo - convidou ela, voltando a colocar o cigarro e os fósforos dentro do bolso, agarrando no meu braço com uma das suas mãos enodadas. Começámos a percorrer o corredor na direcção inversa. Enquanto caminhávamos, decidi desistir e colocar-me' nas suas mãos. Elaine já tinha uma idade avançada e um corpo frágil; todavia, não era nada estúpida.
Enquanto seguíamos para baixo, andando com o cuidado que merecem as relíquias em que o tempo nos transformou, a Elaine retomou a palavra.
- Espera ao fundo dos degraus. Vou à ala oeste, à casa de banho do corredor. Sabes a qual é que estou a referir-me, não sabes?
- Sim - respondi. - A que fica mesmo ao lado da tina de hidromassagem. Mas porquê?
- Há mais de quinze anos que não fumo um cigarro continuou ela -, mas esta manhã está a apetecer-me fumar um. Não sei quantas baforadas serão necessárias para accionar o detector de incêndios que existe nessa casa de banho, mas tenciono vir a descobrir.
Fiquei a olhar para ela com uma nova admiração, pensando no quanto ela me recordava a minha mulher - a Jan poderia muito bem ter feito a mesma coisa. A Elaine fitou-me
com o seu sorriso atrevido e endiabrado. Com a palma da mão em forma de concha envolvi-lhe a nuca esguia, cheguei o rosto dela ao meu e beijei-a ao de leve nos lábios.
- Amo-te, Ellie - disse-lhe eu.
- Mas que conversa tão séria - retorquiu ela, mas eu vi que se sentia agradada.
- E quanto ao Chuck Howland? - perguntei. - Isto vai arranjar-lhe problemas?
- Não, porque ele está na sala a ver televisão com mais duas dúzias de pessoas. Assim que o detector de incêndio
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entrar em acção e o alarme da ala oeste desatar a tocar, eu tenciono desaparecer rapidamente.
. Tem cuidado, não vás cair e magoar-te, mulher. Eu nunca seria capaz de me perdoar se...
- Oh, deixa-te disso - atalhou a Elaine e desta vez foi ela quem me beijou. O amor entre as ruínas humanas. É possível que a alguns de vós isto possa parecer estranho, ou grotesco, mas permitam-me que vos diga uma coisa, meus amigos: um amor que possa parecer estranho é melhor do que amor nenhum.
Observei-a a afastar-se num passo lento e rígido (no entanto, a Elaine só se serve de uma bengala nos dias de chuva, e, mesmo nessas alturas, só se as dores forem insuportáveis; é uma das suas poucas vaidades), e aguardei. Passaram cinco minutos, depois dez, e quando eu já estava prestes a concluir que ou ela tinha perdido a coragem, ou então descobrira que a pilha que accionava o detector de incêndios da casa de banho estava gasta, começou a soar o alarme na ala oeste com um som estridente e ininterrupto.
Sem mais delongas, dirigi-me para a cozinha, embora caminhasse num passo lento - não havia razão para me apressar até ter a certeza de que o Dolan não se cruzaria comigo. Entretanto, começou a sair da sala da televisão (aqui chamam-lhe Centro Recreativo; ora, isso é que é grotesco) um grupo de velhotes, a maioria de roupão, curiosos por saberem o que é que estava a passar-se. O Chuck Howland encontrava-se entre eles, tal como verifiquei para meu grande contentamento.
- Edgecombe! - chamou o Kent Avery na sua voz enroquecida, agarrando-se à andadeira com uma mão, enquanto com a outra coçava obsessivamente a região das virilhas por baixo do pijama. - Trata-se de um alarme a sério ou outro dos falsos? O que é que te parece?
- Acho que não há maneira de saber - respondi. Nessa altura passaram por nós três serventes a correr em direcção à ala oeste, gritando às pessoas que se encontravam arpadas junto da porta da sala de televisão, que saíssem para o exterior onde deveriam aguardar até que alguém lhes dissesse que não havia perigo. O terceiro deles era o Brad Dolan. Quando passou nem sequer olhou para mim, facto
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que me agradou extraordinariamente. Enquanto me dirigia para a cozinha, ocorreu-me que a dupla formada por a Elain~ Connelly e o Paul Edgecombe seria provavelmente uma dupla que chegaria para uma dúzia de Brad Dolan, juntamente com meia dúzia de Percy Wetmore para compor o ramalhet,
Os cozinheiros continuavam a arrumar as coisas do pequeno-almoço na cozinha, sem prestarem a mínima atenção ao alarme contra incêndios, o qual continuava a fazer-se ouvir com toda a estridência.
- Mister Edgecombe - disse o George -, parece-me que o Brad Dolan andava à sua procura. De facto, perdeu-ó. por pouco.
Que sorte a minha!, pensei, tendo dito em voz alta que haveria de me cruzar mais tarde com o Dolan. Em seguida perguntei se havia sobrado alguma torrada do pequen -almoço.
- Com certeza - disse o Norton - mas nesta altura já está completamente fria. Esta manhã atrasou-se.
- Pois atrasei, mas tenho fome.
- Só preciso de um minuto para lhe preparar uma torrada fresca e bem quentinha - acrescentou o George, estendendó a mão para o pão.
- Não, a fria serve perfeitamente - atalhei e quando ele me deu duas torradas em pão de forma (com uma expressão intrigada... na realidade, tanto um como o outro se mostravam deveras intrigados), saí apressadamente porta fora, sentindo-me como o rapazinho que em tempos fora, faltando à escola para poder ir à pesca, levando um bolo embrulhado em papel de cera na parte da frente da camisa.
Já do lado de fora da porta da cozinha, olhei rapidamente à minha volta, numa atitude reflexa, à procura do Dolan, não tendo avistado nada que pudesse alarmar-me; dirigi-me num
passo apressado para o campo de jogos e atravessei a zona de golfe, mordiscando uma das torradas enquanto caminhava. Quando cheguei ao arvoredo, que me protegeria de olhares indiscretos, abrandei o passo e, ao percorrer a vereda, os meus pensamentos concentraram-se na pavorosa execução do Eduard Delacroix.
Nessa mesma manhã, eu falara com o Hal Moores e ele dissera-me que o tumor que a Melinda tinha no cérebro estava a fazer com que ela às vezes praguejasse e utilizasse uma' linguagem ordinária... o que a minha mulher, posteriormente,
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classificou (bastante a medo; ela não sabia se se tratava exactanente da mesma coisa) de Síndrome de Tourettet. Os tremores na voz do Moores, em conjunto com a maneira como o John Coffey curara tanto a minha infecção urinária como a espinha fracturada do rato de estimação do Delacroix eram factores que finalmente me haviam impelido para lá da linha que se estende entre o pensar uma determinada coisa e o passar à fase de concretização dessa mesma coisa.
E existia algo mais. Uma coisa que se relacionava com as mãos do John Coffey e com o meu sapato.
Por conseguinte, eu telefonara aos homens com quem trabalhava, os homens a quem tinha vindo a confiar a minha vida ao longo dos anos - o Dean Stanton, o Harry Terwilliger e o Brutos Howell. Eles foram almoçar a minha casa no dia seguinte ao da execução do Delacroix e escutaram-me com atenção a delinear-lhes o plano que concebera. É claro que todos eles sabiam que o Coffey tinha curado o rato; de facto, o Brutal até assistira a essa cura. Assim, quando sugeri que um outro milagre poderia vir a dar resultado, caso levássemos o John Coffey até junto da Melinda Moores, eles não desataram a rir-se. Foi o Dean Stanton quem levantou a questão mais preocupante: e se o John Coffey decidisse tentar a fuga enquanto o levávamos a dar aquele passeio pelo campo?
- Suponhamos que ele tinha oportunidade de matar alguém - perguntara Dean. - Eu não gostava nada de perder o emprego e passar uma temporada na penitenciária... Tenho mulher e filhos que dependem de mim para comer mas não me parece que odiaria qualquer dessas coisas tanto como ter na consciência o peso de outra garotinha morta.
Naquele momento fez-se silêncio, os três ficaram a olhar para mim, para ver como é que eu responderia àquilo. Eu sabia que tudo iria alterar-se se dissesse o que tinha na ponta da língua; chegáramos a um ponto para lá do qual era impossível bater em retirada.
Deve acrescentar-se que, pelo menos no que me dizia respeito, a retirada já era impossível. Abri a boca e comecei a falar.
Uma doença rara, que deve o seu nome ao médico francês Georges Gilles de la Tourette caracterizada por tiques involuntários e por uma verbalização incontrolável, que envolve especialmente ecolalia e o uso de linguagem obscena. (N. da T.)
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- Isso não virá a acontecer - afirmei.
- Como é que podes estar assim tão certo? - perguntou o Dean.
Não dei resposta imediata àquela pergunta. Não sabia bem por onde havia de começar. Eu soubera de antemão que aquela questão acabaria por vir à baila, mas continuava sem
saber como dizer-lhes o que sabia. Foi o Brutal quem veio em meu auxílio.
- Não acreditas que ele tenha feito aquilo, pois não, Paul? - perguntou-me ele com uma expressão de incredulidade. - Achas que o idiota gigante está inocente.
- Tenho a certeza absoluta que ele está inocente - repliquei.
- Como é que podes ter tanta certeza?
- Existem duas coisas - continuei. - Uma delas tem a
ver com o meu sapato.
- Com o teu sapato?! - exclamou o Brutal, atónito. - O que é que o teu sapato tem a ver com o facto de o John Coffey ter morto, ou não, aquelas duas garotinhas?
- Ontem à noite descalcei um dos meus sapatos e entreguei-lho - expliquei. - Depois da execução, quer dizer, quando as coisas se acalmaram um pouco. Meti-o por entre
as barras da cela e ele agarrou-o com aquelas suas mãos enormes. Disse-lhe que atasse o atacador. Eu tinha de estar absolutamente certo, porque, bem vêem, todas as nossas crianças problemáticas habitualmente usam pantufas, pelo que o meu sapato era necessário; não nos esqueçamos de que um homem realmente determinado a suicidar-se poderá fazê-lo com os atacadores, no caso de estar mesmo empenhado. Isso é uma coisa de que todos temos conhecimento.
Os três confirmaram com um acenar de cabeça.
- Ele colocou o sapato em cima das coxas e começou a entrecruzar as pontas dos atacadores sem qualquer dificuldade, mas de repente ficou sem saber o que fazer. Disse que tinha quase a certeza de que alguém lhe mostrara como é que se fazia quando ainda era um rapazito, talvez o pai ou um dos namorados que a mãe tivera depois de o marido se ter ido embora, mas perdera-lhe o jeito.
- Eu estou como o Brutal... Continuo sem compreender
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qual a relação do teu sapato com o facto de o John Coffey ter morto ou não as gémeas Detterick - disse o Dean. Consequentemente, passei uma vez mais em revista a história do rapto e assassínio - que eu lera nos jornais da biblioteca da prisão naquele dia de muito calor, enquanto os meus órgaos genitais pareciam uma fornalha e o Gibbons ressonava a um canto, e narrei tudo o que o repórter Hammersmith me contara posteriormente.
.O cão dos Detterick não era muito de morder, mas a ladrar era dos melhores do mundo - expliquei. - O homem que levou as garotas manteve o animal calado, dando-lhe salsichas. Cada vez que lhe oferecia uma, chegava-se mais perto do animal, imagino eu, e, enquanto o rafeiro comia a última, agarrou-lhe a cabeça, torceu-lhe o pescoço e partiu-lho.
"Mais tarde, quando encontraram o Coffey, o assistente do xerife que chefiava o grupo de voluntários, o Rob McGee, reparou numa saliência no bolso do peito do fato-macaco que o Coffey usava na ocasião. De início, o McGee assumiu que poderia ser uma arma, mas o Coffey disse-lhe que se tratava de uma merenda, como efectivamente veio a provar-se, umas duas sanduíches com picles, embrulhadas em papel de jornal e atadas com um cordel. O Coffey não foi capaz de se lembrar de quem é que lhas tinha dado; a única coisa de que se recordava era que tinha sido uma mulher que usava um avental.
- Sanduíches, picles e nada de salsichas - disse o Brutal. - Não havia salsichas - concordei.
- Claro que não havia - interveio o Dean. - Ele deu-as a comer ao cão.
- Pois bem, foi isso exactamente o que o promotor de justiça disse durante o julgamento - admiti -, mas se de facto o Coffey tivesse desembrulhado a merenda para poder dar as salsichas ao cão como é que ele teria voltado a atar o embrulho de papel de jornal com o cordel? Nem sequer sei quando é que ele teria tido oportunidade para fazer isso, mas deixemos esse assunto de lado pelo menos de momento. O homem
nem sequer é capaz de dar um nó simples.
Fez-se um longo silêncio de grande estupefacção, que finalmente foi quebrado pelo Brutal.
Como é que ninguém se lembrou de levantar essa questão.durante o julgamento?
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- Porque ninguém pensou nisso - retorqui, dando comigo a pensar de novo no Hammersmith, o repórter, o Hammersmith que tinha frequentado a universidade em Bowlin Green, o Hammersmith que gostava de se considerar uma pessoa esclarecida, o mesmo Hammersmith que me dissera que os cães rafeiros e os negros eram mais ou menos a mesma coisa, que tanto uns como outros, de repente e sem mais nem menos, são capazes de nos decepar um membro, sem que para isso haja a mínima razão. Só que ele passara o temppo todo a referir-se a eles como os vossos negros, como se estes continuassem a ser propriedade de alguém... mas não propriedade sua. Não, não lhe pertenciam. Impossível que fossem seus. E nessa época, toda a região do Sul se encontrava repleta de gente da laia do Hammersmith. - Ninguém teve capacidade para pensar nesse aspecto, nem o próprio advogado de defesa do Coffey.
- Mas tu tiveste - retorquiu o Harry. - Raios partam isto, rapazes, aqui estamos nós sentados na companhia do Sherlock Holmes. - O seu tom de voz era, simultaneamente, um misto de assombro e troça.
- Oh, pára lá com isso - atalhei. - Também não me teria ocorrido se não tivesse começado a juntar o que ele disse nesse dia ao assistente do xerife, o McGee, com o que me
disse depois de ter curado a minha infecção e depois de ter curado o rato.
- O quê? - perguntou o Dean.
- Quando eu fui à cela do Coffey, senti-me como se houvesse sido hipnotizado. Tive a sensação de que seria incapaz de resistir a fazer aquilo que ele queria, ainda que o tentasse.
- Não me agrada nada o que está implícito nisso - interveio o Harry, agitando-se na cadeira.
- Perguntei-lhe o que é que ele queria, ao que me respondeu: "Só evitar o mal". Recordo-me disso com toda a clareza. E quando tudo ficou terminado e comecei a sentir-me melhor, ele ficou bem ciente disso. "Eu consegui evitar o mal", disse o Coffey. "Eu consegui evitar o mal, não é verdade?"
- Tal e qual como com o rato - comentou o Brutal com um acenar de cabeça. - Tu disseste: "Conseguiste evitar o mal", e o Coffey repetiu a mesma coisa como se fosse
um papagaio. "Eu consegui evitar o mal no rato do Del." Foi nessa altura que soubeste? Foi isso, não é assim?
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Sim, calculo que foi. Recordei-me daquilo que ele tinha dito ao McGee, quando este lhe perguntou o que sucedem. Foi publicado em todos os artigos sobre os assassínios, ou
quase todos. "Eu não consegui evitar o mal. Tentei desfazer o que estava feito, mas já era tarde de mais." Um homem que diz uma coisa destas e que tem uma garotinha em cada braço, ambas de raça branca e louras, enquanto ele é grande que nem uma casa... não admira que eles se tenham enganado. Ouviram aquilo que ele dizia, dando-lhe a interpretação que se ajustava ao que tinham à frente, e o que viam era de raça negra. Partiram do princípio de que ele estava a confessar o crime, que se sentira compelido a raptar as duas garotas, a violá-las e a matá-las. Que mais tarde se apercebera do acto que tinha cometido, tentando desfazer...
- Mas nessa altura já era demasiado tarde - murmurou o Brutal.
- Sim. Só que o que ele tentava realmente dizer-lhes era que as havia encontrado e tentara corá-las... fazê-las regressar à vida, sem qualquer êxito. Elas já se encontravam irremediavelmente mortas.
- Paul, acreditas nisso? - perguntou o Dean. - Acreditas mesmo numa coisa dessas?
Examinei o meu coração, tão cuidadosamente quanto estava ao meu alcance, e acenei num gesto afirmativo. Não só eu sabia naquele momento, como existia em mim uma faceta intuitiva que soubera que algo não batia certo na situação do John Coffey assim que o Percy irrompera pelo bloco, arrastando o Coffey por um braço e berrando com toda a força dos seus pulmões: "Homem morto a caminhar!" Eu até lhe tinha apertado a mão, não era verdade? Nunca apertara a mão de um homem que tivesse dado entrada na Milha Verde; não obstante isso havia dado um aperto de mão ao John Coffey.
- Jesus! ~- exclamou o Dean. - Meu bom Jesus Cristo! - Portanto, o teu sapato é uma das coisas - continuou o ~. - Qual é a outra?
-Não muito antes de o grupo de voluntários ter encontrado o John Coffey e as garotas, os homens saíram do bosque próximo da margem sul do rio Trapingus. Nesse local, encontraram um trecho do caminho com as ervas acamadas, uma grande quantidade de sangue derramado, e o que restava da camisa de noite da Cora Detterick. Durante algum tempo, os cães mostraram-se confusos. A maior parte dos animais in
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dicava que queria seguir em direcção a sudeste, pela corrente abaixo ao longo da margem. Mas dois deles... os dois cães caça, pretendiam continuar rio acima. O responsável pelos cães era o Bobo Marcham e quando ele deu a camisa de dormir a farejar aos animais, estes voltaram atrás e juntaram-se ao resto da matilha.
- Os cães de caça ficaram confusos, não é verdade? _" perguntou o Brutal. Aos cantos da sua boca dançava um pequeno sorriso estranho e mórbido. - Eles não foram criados para seguir rastos, pelo que se sentiram baralhados.
- Sim - confirmei.
- Não estou a entender - admitiu o Dean.
- Os cães de caça tinham-se esquecido do que quer que fosse que o Bobo lhes colocara debaixo do focinho para iniciar a busca - explicou o Brutal. - Quando surgiram na
margem do rio, os animais seguiram a pista do assassino e não a das garotas. O que não era problema desde que o homicida e as garotinhas permanecessem juntos, mas...
Começava a fazer-se luz na mente do Dean. O Harry já tinha percebido.
- Quando se pensa no assunto - continuei -, interrogamo-nos como é que alguém, até mesmo um júri que desejasse atribuir o crime a um tipo de raça negra sem poiso certo, pôde ter acreditado, ainda que só por um minuto, que o John Coffey era o homem que procuravam. Por si só, a artimanha de manter o cão sossegado com comida até se lhe poder torcer o pescoço estava muito para além das capacidades mentais do Coffey.
"Ele nunca esteve mais próximo da quinta dos Detterick do que a margem sul do Trapingus, e esta é a minha opinião. A dez quilómetros ou mais. Deambulava por ali sem destino,
talvez a pensar em descer pelos carris do caminho-de-ferro, a fim de apanhar um comboio de mercadorias com destino a algures... quando eles saem do viaduto não trazem muita velocidade, o que permite que se salte para o seu interior... quando se apercebeu do tumulto mais a norte.
- E o assassino? - inquiriu o Brutal.
- O assassino. Possivelmente, já as teria violado, ou talvez fosse isso mesmo o que o Coffey ouviu. Seja como for, a área de ervas ensanguentadas foi onde o homicida terminou o
assunto, bateu violentamente com as cabeças das raparigas uma na outra, deixou-as cair no solo e depois pôs-se a méxer.
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pôs-se a mexer em direcção a noroeste - acrescentou o Brutal - Precisamente para onde os cães de caça queriam ir. Certo. O John Coffey surge de entre um maciço de ~nieiros, que se encontra um pouco mais a sudeste do lugar onde as garotas foram deixadas, provavelmente curioso por causa de todo aquele tumulto, e depara com os corpos. É muito possível que uma delas ainda continuasse viva; talvez até as duas, embora por pouco tempo. Sem dúvida que o John Coffey nunca teria sabido se elas continuavam vivas ou não. Tudo o que sabe é que possui nas mãos um poder que lhe permite curar e tentou usá-lo na Cora e na Kathe Detterick. Ao ver que os seus esforços não resultavam, foi-se abaixo, começando a chorar histericamente. Foi nesse estado que os homens o encontraram.
- Mas porque é que ele não ficou ali, no lugar onde as havia encontrado? - inquiriu o Brutal. - Por que motivo as levou para sul, ao longo da margem do rio? Fazes alguma ideia?
- Aposto que inicialmente se deixou ficar no mesmo lugar - repliquei. - Durante o julgamento falou-se de uma grande área espezinhada, em que as ervas ficaram todas esmagadas. E o John Coffey é um homem corpulento.
- O John Coffey é um gigante do caralho - corroborou o Harry, falando em voz baixa para que a minha mulher não pudesse ouvi-lo a dizer asneiras, caso ela estivesse a prestar atenção à nossa conversa.
- Talvez ele tenha entrado em pânico ao verificar que os seus esforços não produziam efeito. Ou talvez tenha ficado com a impressão de que o assassino ainda andaria por ali, no arvoredo, a observar os seus movimentos um pouco mais rio acima. Como vocês bem sabem, apesar de toda a sua corpulência, o Coffey não prima pela bravura. Harry, lembras-te de quando ele perguntou se costumávamos deixar as luzes acesas no bloco, depois da hora de deitar?
- Sim. Recordo-me de ter pensado que isso era bastante peculiar, tendo em vista o tamanho dele. - O Harry parecia abalado e pensativo.
- Pois bem, se não foi ele quem matou as garotas, então quem foi? - perguntou o Dean.
- Outra pessoa qualquer - respondi com um abanar de cabeça. - Algum branco. O promotor de justiça fartou-se de dizer que era necessário um homem com muita força para poder matar um cão como o que os Detterick tinham, mas...
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- Isso não passa de uma treta - resmungou o Brutos. , Qualquer rapariga forte, de doze anos de idade, seria capaz de torcer o pescoço de um cão, se apanhasse o animal de surpresa e soubesse por onde é que havia de o agarrar. Se não foi o Coffey, é possível que tenha sido qualquer pessoa... isto ~ um homem qualquer. O mais provável é nunca virmos a saber quem foi o responsável.
- A menos que ele volte a fazer o mesmo - atalhei eu. -Mesmo nesse caso não saberíamos, se ele decidisse cometer o crime no Texas ou na Califórnia - disse o Harry. O Brutal recostou-se para trás e, com os punhos fechados, esfregou os olhos, como se fosse um rapazinho com sono, e voltou a deixá-los cair sobre as coxas.
- Isto é um pesadelo - disse ele. - Temos um homem que pode estar inocente... que possivelmente está inocente,.. e, no entanto, vai percorrer a Milha Verde tão certo como
Deus ter criado as árvores grandes e os peixes pequenos. O que é que devemos fazer a este respeito? Se começarmos a falar dessa merda dos dedos com poderes curativos, toda a gente vai partir o coco a rir, e ele acabará por ir parar na mesma à velha chapa dos grelhados.
- Preocupemo-nos com esse assunto mais tarde - sugeri, uma vez que não fazia a mínima ideia do que responder. - A questão que se nos coloca neste momento é o que
fazer... ou não fazer, em relação à Melly. Eu diria que nos acalmássemos e meditássemos durante alguns dias sobre o assunto, mas estou em crer que cada dia de espera aumenta as hipóteses de ele não poder vir a fazer nada por ela.
- Estão lembrados de como ele estendeu as mãos para o rato? - perguntou o Brutal. - Dizendo: "Entreguem-mo enquanto ainda há tempo." Enquanto ainda há tempo.
- Lembro-me sim.
- Podem contar comigo - afirmou o Brutal com um acenar de cabeça depois de ter pensado durante algum tempo - Eu também me sinto mal com o que aconteceu ao Del, mas
acima de tudo acho que só quero ver o que é que acontece quando ele lhe tocar. O mais provável é não suceder nada, mas talvez...
- Eu duvido muito, mas mesmo muito, que cheguemos ao ponto de conseguir tirar aquele grande idiota do bloco interveio o Harry, soltando um suspiro e acenando com a ca
beça. - Mas que interessa isso? Contem comigo.
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Eu também alinho - acrescentou o Dean. - Quem é que vai ficar de guarda ao bloco, Paul? Vamos tirar à sorte? - Não, senhor - respondi - Nada de tirar à sorte. És tu que fica.
Assim, sem mais nem menos? Uma ova é que fico! - vociferou o Dean, magoado e encolerizado. Tirou os óculos e começou a limpar furiosamente as lentes com a fralda da camisa.
- Que raio de combinação é essa?
. É uma daquelas a que se chega quando se é suficientemente jovem para ter filhos em idade escolar - explicou o Brutal. - O Harry e eu somos solteiros. O Paul é casado e tem filhos, mas pelo menos estes já são adultos e vivem por conta própria. Estamos a planear um esquema muito louco; tenho a impressão de que quase de certeza seremos apanhados. - Olhou para mim com uma expressão solene. - Há uma coisa que ainda não mencionaste, Paul; ainda que consigamos trazer o Coffey para fora da prisão e depois se chegue à conclusão de que os seus dedos curativos não produzem efeito, é o próprio Hal Moores quem poderá vir a denunciar-nos. - Deu-me oportunidade de responder às suas palavras, talvez para as refutar, mas eu não tinha quaisquer argumentos e por isso fiquei de boca fechada. O Brutal voltou a dedicar a sua atenção ao Dean, prosseguindo: - Não me interpretes mal: continuarás a correr o risco de vir a ser despedido, mas pelo menos terás a oportunidade de te manter afastado da prisão, no caso de as coisas começarem a aquecer realmente. O Percy ficará convencido de que tudo não passou de uma simples partida; se estiveres de serviço, podes alegar que pensaste a mesma coisa, uma vez que nunca te pusemos ao corrente da situação.
- Continuo a não gostar dessa combinação - insistiu o Dean, mas era evidente que estava disposto a alinhar nela, quer esta lhe agradasse ou não. Pensar nos filhos pequenos tinha-o levado a decidir-se. - E vai ser esta noite? Vocês têm a certeza?
- Se estivermos dispostos a levar isto para a frente, é melhor que seja esta noite - adiantou o Harry. - Se eu pensar mais no assunto, o mais certo é perder a coragem.
- Deixem que seja eu a ir à enfermaria - pediu o Dean. Pelo menos posso fazer isso não posso?
- Desde que o faças sem seres apanhado - respondeu o Brutal.
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O Dean ficou com uma expressão ofendida e eu dei-lhe uma palmada no ombro.
- Assim que pegares ao serviço poderás prosseguir, parece-te bem? - perguntei.
- Podes crer.
Naquele momento, a minha mulher meteu a cabeça pela porta entreaberta, como se eu lhe tivesse indicado que o fizesse.
- Quem é que quer mais chá gelado? - perguntou ela com vivacidade. - Tu, Brutus?
- Não, obrigado - replicou ele. - O que me apetece é um bom trago de uísque, mas, dadas as circunstâncias, talvez isso não seja muito boa ideia.
A Janice olhou para mim; tinha um sorriso nos lábios e os olhos preocupados.
- Em que alhada é que estás a meter estes rapazes, Paul? Mas mesmo antes de eu ter começado a estruturar uma resposta, ela ergueu a mão e acrescentou: - Esquece, não interessa, não quero saber.
3
Mais tarde, muito depois de os meus colegas se terem ido embora, enquanto eu vestia o uniforme para ir trabalhar, a Janice agarrou-me por um braço, fez-me dar meia volta e olhou-me nos olhos com uma intensidade arrebatadora.
- A Melinda? - perguntou lacónica. Acenei que sim. - Podes fazer alguma coisa por ela, Paul? Fazer realmente alguma coisa por ela, ou é apenas uma esperança ilusória provocada pelo que viste ontem à noite?
Pensei nos olhos do Coffey, nas mãos do Coffey, no modo como eu me tinha dirigido a ele, como que hipnotizado, quando ele quisera que eu o fizesse. Lembrei-me também da forma como ele estendera as mãos para o corpo mutilado e moribundo do Mister Jingles. "Enquanto ainda há tempo"> dissera o Coffey. E aquelas coisas negras esvoaçantes, que depois se tornaram brancas e tinham desaparecido.
- Acho que somos a única oportunidade que lhe resta disse eu por fim.
- Nesse caso, não a desperdices - replicou Janice, abotoand° os botões da frente do meu novo sobretudo de Outono. Havia estado pendurado no guarda-roupa desde o meu aniversário, no início de Setembro, mas era apenas a terceira ou quarta vez em que eu o usava. - Não a deixes fugir - insistiu ela.
A minha mulher empurrou-me praticamente pela porta fora.
4
Nessa noite marquei o cartão de ponto - sob muitos aspectos, foi a noite mais estranha de toda a minha vida - às seis horas e vinte minutos. Pensei que ainda me chegava às narinas o cheiro vago a carne queimada que continuava a pairar no ar. Não fora uma ilusão - as portas que davam para o exterior, tanto do bloco como da arrecadação, tinham estado abertas durante a maior parte do dia e os dois turnos anteriores haviam passado horas a esfregar esta última -, mas isso não alterava o que o meu nariz me dizia, e acho que não teria sido capaz de comer o jantar ainda que não me tivesse sentido assustado de morte perante a noite que se desenhava à minha frente.
O Brutal entrou no bloco às seis e quarenta e cinco, e o Dean às sete e dez. Perguntei ao último se poderia ir à enfermaria pedir um emplastro para eu aplicar nas costas, alegando que tinha a impressão de as ter esforçado nessa madrugada ao ajudar a transportar o corpo do Delacroix até ao túnel. O Dean respondeu-me que teria todo o gosto em fazer o que eu lhe pedia. Estou convencido que ele queria piscar-me o olho, mas conseguiu refrear-se.
O Harry marcou o cartão de ponto às sete menos três. - A camioneta? - perguntei.
- Está onde combinámos - respondeu-me.
Até ali, tudo a correr pelo melhor. Decorreu algum tempo em que estivemos junto da mesa do guarda de serviço a beber café, sem que deliberadamente aflorássemos o assunto em que todos pensávamos e em que depositávamos tantas esperanças: que o Percy chegasse atrasado, que o Percy talvez não aparecesse de todo. Levando em consideração as críticas de que fora alvo quanto à forma como lidara com a electrocussão, aquela hipótese parecia-nos ser, no mínimo, bastante Plausível.
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Todavia, o Percy perfilhava, aparentemente, aquele velh axioma, que dizia que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje; transpôs a porta às sete horas e seis minutos, resplandecente no seu uniforme azul, com o coldre presa a uma anca, enquanto na outra trazia o bastão de nogueira dentro daquela ridícula bainha feita de encomenda. Marcou o cartão de ponto e olhou para nós com uma expressão desconfiada (excepto para o Dean, que ainda não regressara da enfermaria).
- O meu motor de arranque avariou-se. Tive de pôr o carro a funcionar com a manivela - informou ele.
- Au! - exclamou o Harry. - Pobrezinho.
- Devias de ter ficado em casa para poderes arranjar a maldita coisa - acrescentou o Brutal num tom de voz ameno. - Não queremos que esforces o teu braço, não é verdade, rapazes?
- Pois, era isso mesmo o que vocês queriam, não é verdade? - retorquiu o Percy com escárnio, mas fiquei com a impressão de que ele se sentira tranquilizado devido à relativa
brandura com que o Brutal proferira o seu comentário. E ainda bem. Durante as próximas horas, não poderíamos ser demasiado hostis nem excessivamente cordiais. Depois do que sucedera na noite anterior, ele acharia suspeita qualquer coisa que se assemelhasse, ainda que muito vagamente, à simpatia.
Não iríamos conseguir apanhá-lo sem as suas defesas a postos, como sabíamos, mas eu estava convicto de que conseguiríamos armar-lhe a cilada, se jogássemos as nossas cartas
com todas as precauções. Era importante - pelo menos no que me dizia respeito - que ninguém saísse lesionado. Nem sequer o Percy Wetmore.
Entretanto, o Dean regressara ao bloco, fazendo-me um pequeno acenar de cabeça.
- Percy - disse eu - quero que vás à arrecadação e laves o chão com a esfregona. Incluindo os degraus que dão para o túnel. Em seguida, podes começar a escrever o teu relatório sobre a noite passada.
- Isso é que deve ser um trabalho cheio de criatividade - comentou o Brutal, mordaz, enfiando os polegares dentro do cinto e olhando para o tecto.
- Vocês têm mais piada do que uma queca dada na igreja- retorquiu o Percy, mas não levantou qualquer objecção. Nem sequer referiu o que era óbvio: que o chão da sala da ar
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recadação já tinha sido lavado pelo menos em duas ocasiões nesse dia. O meu palpite é que ele se sentiu satisfeito com aquela oportunidade de poder manter-se afastado de nós.
Comecei a examinar o relatório correspondente ao turno anterior, não li nada que me dissesse respeito e dirigi-me para a cela do Whart°n. Este encontrava-se sentado na sua tarimba com os joelhos dobrados para cima e com os braços à volta das canelas, fitando-me com um grande sorriso pleno de hostilidade.
-Ora bem, com que então temos aqui o~grande chefe - disse ele, mordaz. - Tão grande como a vida e duas vezes mais feio. Tem um ar mais contente do que o de um porco mergulhado na merda até aos joelhos, chefe Edgecombe. A sua mulher fez-lhe uma festa na picha antes de ter saído de casa, foi?
- Como é que estás, Kid? - perguntei num tom neutro, o que fez com que ele mostrasse uma expressão verdadeiramente iluminada. Estendeu as pernas, levantou-se e espreguiçou-se. O seu sorriso alargou-se, dando origem a que alguma da hostilidade lhe desaparecesse da fisionomia.
- Raios me partam! - exclamou ele. - Para variar acertou no meu nome. O que é que se passa consigo, chefe Edgecombe? Está doente ou qualquer coisa no género?
Não, não estava doente. De facto tinha estado doente, mas o John Coffey tratara disso. As suas mãos já haviam esquecido como se atavam os atacadores dos sapatos, se é que alguma vez o tinham sabido, mas sabiam fazer outras habilidades. Sim, na realidade sabiam.
- Meu amigo - disse-lhe eu -, se queres ser um Billy the Kid em vez de um Bill Selvagem, é-me completamente indiferente.
Ele ficou todo inchado, como um daqueles peixes de aspecto asqueroso que vivem nas águas dos rios da América do Sul e que conseguem picar-nos com os espigões que têm na Parte de cima e nos lados do corpo, até ficarmos prestes a morrer. Durante o tempo em que trabalhei na Milha, fui forçado a lidar com muitos homens perigosos, mas poucos, ou nenh
um deles, eram tão repelentes como o William Wharton, o qual se considerava um fora-de-lei de grande envergadura, mas cujo comportamento na penitenciária raramente se elevou a
cima de mijar, ou escarrar, por entre as barras da sua cela.
~ Até ao momento ainda não lhe havíamos concedido a ad
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miração respeitosa que ele achava merecer por direito, ~ acontece que, naquela noite, muito em especial, eu pretendia que ele se portasse de uma maneira minimamente tratável, Se isso significava que tinha de lhe passar a mão pelo pêlo com toda a meiguice, fá-lo-ia com a maior das satisfações.
- Eu tenho muito em comum com o Kid, e é melhor que acredite nisso - continuou o Wharton. - Não foi a roubar rebuçados na mercearia do meu bairro que vim parar aqui
acrescentou ele com tanto orgulho como se tivesse acabado de se alistar na Brigada dos Heróis da Legião Estrangeira Francesa, em vez de ter acabado de ir parar com o coiro a uma cela que distava setenta passos longos da cadeira eléctrica. - Onde é que está o meu jantar?
- Deixa-te disso, Kid, o relatório diz que o comeste às cinco e meia. Rolo de carne picada com molho, puré de batata e ervilhas. Não consegues enganar-me com essa facilidade.
Ele riu-se expansivamente e sentou-se de novo na sua tarimba.
- Nesse caso, ligue o rádio.
- Talvez mais tarde, matulão - repliquei. Afastei-me da sua cela e com o olhar percorri o corredor. O Brutal tinha ido até ao extremo mais afastado para verificar se a fechadura da cela do isolamento estava só trancada e não fechada à chave. Eu sabia que era esse o caso, porque eu próprio já tinha verificado. Mais tarde, iríamos querer abrir essa porta o mais rapidamente possível. Não haveria tempo para retirar do interior toda aquela tralha que as pessoas têm por hábito guardar nos sótãos das suas casas ao longo dos anos; já retiráramos tudo e fizéramos uma selecção, tendo arrumado as coisas noutros lugares pouco depois de o Wharton se ter juntado à nossa feliz banda. Tínhamos a impressão de que a cela com as paredes almofadadas estava pronta a ter bastante uso, pelo menos até o Billy the Kid caminhar pela Milha.
O John Coffey, que já deveria estar deitado àquela hora, com as suas pernas grossas e compridas a saírem-lhe para fora da tarimba e de rosto virado para a parede, encontrava-se
sentado na ponta da tarimba com os dedos entrelaçados, observando o Brutal com uma expressão tão alerta que não era nada habitual. Os seus olhos também não lacrimejavam.
O Brutal experimentou a maçaneta da porta da cela do isolamento, após o que voltou a percorrer a Milha. Lanç°u um olhar ao Coffey quando passou pela sua cela, e este disse algo de curioso.

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Com certeza. Gostaria de dar um passeio - como se em resposta a qualquer coisa que o Brutal houvesse dito. O olhar deste cruzou-se com o meu. Ele sabe, podia eu quase ouvi-lo a dizer. Não sei como, mas o certo é que ele sabe
Encolhi os ombros e abri os dedos das mãos, como se replicasse: Claro que ele sabe.
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O velho Pouca Terra efectuou a sua última volta da noite pelo Bloco E por volta das oito e quarenta e cinco. Comprámos o suficiente da porcaria que ele vendia, para lhe fazermos assomar aos lábios um sorriso de avareza.
- A propósito, algum de vocês viu o rato? - perguntou ele. Respondemos-lhe com um abanar de cabeça.
- Talvez o Rapazinho Bonito o tenha visto - sugeriu o Pouca Terra, fazendo um gesto com a cabeça na direcção da arrecadação, onde o Percy estaria a lavar o chão, a escrever o seu relatório ou a meter o dedo no olho do cu.
- O que é que isso te interessa? - perguntou o Brutal. - Não é assunto que te diga respeito. Põe as rodas a rolar, Pouca Terra. Estás a empestar o bloco.
O Pouca Terra esboçou aquele seu sorriso tão peculiarmente desagradável, desdentado e com as faces encovadas, e pôs-se a cheirar o ar de forma acintosa.
- Este cheiro não é meu - disse ele. - Deve ser o do Del a dizer adeus.
Com um riso casquinado, começou a empurrar o seu carrinho, saindo pela porta que dava para o pátio de recreio. E continuou a fazer rolar aquele carrinho por mais dez anos - raios, por muito tempo depois de Cold Mountain ter desaparecido - vendendo bolos e refrigerantes aos guardas e prisioneiros que tinham dinheiro para comprá-los. Por vezes, até mesmo agora, parece-me que estou a ouvi-lo nos meus sonhos, a gritar que está a fritar, está a fritar, que é um peru assado.
A passagem do tempo alongou-se interminavelmente depois de o Pouca Terra ter saído do bloco, e os ponteiros do relógio pareciam arrastar-se. Ligámos o rádio durante hora e meia, e o Wharton riu-se a bandeiras despregadas ao ouvir o programa do Fred Allen O Beco de Allen, embora eu estivesse
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pronto a apostar fosse o que fosse em como ele não compreendia muitas das piadas. O John Coffey continuava sentado no extremo da tarimba, com as mãos entrelaçadas e olhar que mal se desprendia de quem quer que se encontrasse sentado na mesa do guarda de serviço. Já tive oportunidade de observar homens com a mesma atitude, os quais aguardavam nos terminais das camionetas que seja anunciada a partida do seu transporte.
Por volta das dez e quarenta e cinco, o Percy saiu da arrecadação, tendo-me entregue um relatório laboriosamente feito a lápis. A folha de papel ainda tinha restos da borracha
com que ele havia apagado algumas partes, sobre as quais voltara a escrever. Passei o polegar por uma destas zonas manchadas.
- Isto é apenas um primeiro rascunho - apressou-se ele a dizer. - Quero copiá-lo para outra folha. Qual é a tua opinião?
A minha opinião era que aquele maldito relatório era o mais ultrajante branqueamento que eu lera em toda a minha permanência à face da Terra. Mas disse-lhe que estava óptimo, e ele afastou-se todo satisfeito consigo próprio.
O Dean e o Harry jogavam às cartas, falando num timbre de voz demasiado elevado, e implicando um com o outro em demasia por causa da contagem dos pontos, enquanto de cin
co em cinco segundos lançavam olhares aos ponteiros do relógio que davam a impressão de não avançar. Em pelo menos um dos seus jogos dessa noite, fiquei com a sensação de que haviam efectuado três voltas em vez de duas. O ambiente estava tão carregado de tensão que parecia ser possível cortá-lo à faca; as únicas pessoas que, aparentemente, não se sentiam afectadas por aquela tensão eram o Percy e o Bill Selvagem:
Quando faltavam dez minutos para a meia-noite, não fui capaz de suportar mais aquela situação e acenei ligeiramente ao Dean. Este dirigiu-se para o meu gabinete, levando consi
go uma garrafa de Cola RC que havia comprado ao Pouca Terra, e voltou a sair um ou dois minutos depois. Naquele momento, a bebida encontrava-se no interior de um pequeno púcaro de alumínio, que os prisioneiros não poderiam quebrar e utilizar como arma de ataque.
Agarrei no púcaro e olhei em volta. O Harry, o Dean e Brutal não despregavam os olhos de mim, nem o John Coffey. Todavia, isso não se verificava com o Percy, que entretanto voltara para a arrecadação, onde provavelmente se sentiria mais à vontade naquela noite em especial. Rapidamente, cheirei o conteúdo do púcaro, sem que dele se evolasse qualquer odor, para além do da RC, a qual, nesses tempos, tinha uma fragrância a canela estranhamente agradável.
Levei a bebida até à cela do Wharton. Encontrava-se estendido na sua tarimba. Não estava a masturbar-se - pelo menos, por enquanto - mas já tinha uma tumefacção bastante avantajada por baixo das cuecas, e de vez em quando dava um bom apalpão saudável ao membro retesado, como se fosse um mau rabequista a tocar uns acordes suplementares nas cordas tensas.
-Kid - chamei.
- Não me incomode - replicou ele.
- De acordo - concordei. - Como esta noite te tens comportado como um ser humano, o que é quase um recorde, trouxe-te um refrigerante, mas, como não queres ser incomodado, vou bebê-lo eu.
Fiz menção de fazer o que acabara de dizer erguendo o púcaro de alumínio (todo amolgado por terem batido com ele contra as barras das celas) até aos lábios. Como se fosse um relâmpago, o Wharton levantou-se da tarimba, o que não me surpreendeu. Não fora um bluff de grande risco; quase todos os condenados mais perigosos - ladrões, violadores e os homens marcados para a Velha Faísca - era uns gananciosos pelas suas guloseimas, e aquele não constituía excepção.
- Dê cá isso, seu palerma - disse o Wharton. Expressou-se como se fosse ele o capataz, não passando eu de um lacaio dos mais desprezíveis. - Dê isso ao Kid.
Mantive o púcaro do lado de fora das barras, deixando que fosse ele a estender o braço para lhe pegar. Fazê-lo de outra forma é a receita certa para a ocorrência de um desastre, tal como qualquer guarda de prisão com muitos anos de experiência nos dirá. Lembrávamo-nos disso, sem sequer nos darmos conta de que o fazíamos - da mesma maneira que sabíamos que não devíamos permitir aos prisioneiros que nos tratassem pelos nossos nomes próprios e que o som de chaves que se entrechocavam com rapidez significava a ocorrência de problemas no bloco uma vez que esse era o ruído provocado por um guarda a correr, e estes nunca corriam, a menos que se verificassem complicações. Isso era o género de coisa que o Percy Wetmore nunca seria capaz de aprender.
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No entanto, naquela noite, o Wharton não estava interesado em agarrar ou asfixiar ninguém. Arrancou-me da mão púcaro de alumínio, bebeu o refrigerante em três grandes goladas e soltou um estrondoso arroto.
-Excelente! - exclamou.
- O púcaro - disse eu, estendendo a mão.
O Wharton deixou-se ficar com ele por alguns momento exibindo um olhar trocista.
- Suponha que eu quero ficar com ele?
- Nesse caso, entraremos na cela para to tirar - respondi com um encolher de ombros. - Em seguida, vais para a cela pequena e terás bebido a tua última RC. Isto é, a menos que costumem servi-las nas profundezas do inferno.
- Eu não gosto de piadas sobre o inferno, cabeça de parafuso - retorquiu ele com o sorriso a apagar-se-lhe dos lábios. Estendeu-me o púcaro através das barras. - Aqui está. Pode levá-lo.
Agarrei no púcaro. Atrás de mim ouviu-se a voz do Percy, - Em nome de Deus, porque é que ofereceste a um mentecapto como esse um refrigerante?
Porque o refrigerante tinha soporíferos da enfermaria em quantidade suficiente para o deixar de costas durante quarenta e oito horas, e ele não dera por nada, pensei para comigo.
- No que diz respeito ao Paul - interveio o Brutal -, a misericórdia nunca é restrita; tomba dos céus como uma chuva suave.
- Hem?! - perguntou o Percy com o sobrolho franzido. - Significa que ele tem um coração bondoso. Sempre teve e sempre terá. Queres jogar à bisca, Percy?
- Com a excepção do burro, esse é o jogo de cartas mais idiota que alguma vez existiu - respondeu o Percy com uma expressão desdenhosa.
- Foi por isso que me ocorreu que talvez gostasses de o jogar - replicou o Brutal com um sorriso cheio de doçura. - Hoje estão todos muito espertalhões - observou o Percy, tendo ido todo amuado para o meu gabinete. Não ~ agradava muito o facto de o pequeno lorpa instalar o traseud por detrás da minha secretária, mas mantive a boca fechada Os ponteiros do relógio continuavam a arrastar-se. Meia-noite e vinte; meia-noite e meia. À meia-noite e quarenta,
John Coffey ergueu-se da sua tarimba e colocou-se junto da porta da cela; as suas mãos agarravam as barras da maneta
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solta. O Brutal e eu dirigimo-nos para a cela do Wharton e olhámos para o interior. Estava deitado sobre a tarimba, a sorrir para o tecto. Mantinha os olhos abertos, mas estes assemelhavam-se a bolas de vidro. Tinha uma mão em cima do peito, enquanto a outra pendia flacidamente de um dos lados da ~¡mba, com o nó dos dedos a roçar pelo chão.
- Meu Deus - disse o Brutal -, passou de Billy the Kid a Alie, o Choramingas em menos de uma hora. Pergunto a mim mesmo quantos comprimidos de morfina é que o Dean terá posto na bebida.
- O suficiente - repliquei. A minha voz tremia ligeiramente. Não sei se o Brutal se apercebeu desse pormenor, mas a mim não me passou despercebido. - Mãos a obra. Ponhamos em prática o que planeámos.
- Não queres esperar que ali o lindinho perca a consciência?
-Ele já a perdeu, Brute. Está é muito pedrado para fechar os olhos.
- Tu é que és o chefe. - Olhou em redor à procura do Harry, mas este já se encontrava presente. O Dean sentava-se muito direito à mesa do guarda de serviço, baralhando as cartas com tanta rapidez e violência que era um milagre elas não pegarem fogo, e de vez em quando olhava de relance para a esquerda, na direcção do meu gabinete. Estava de olho no Percy.
- Já está na hora? - perguntou o Harry. O seu rosto alongado, com traços cavalares, mostrava-se muito empalidecido acima da camisa azul do uniforme; no entanto, a sua fisionomia denotava determinação.
- Sim - confirmei. - Está na hora. Vamos pôr o nosso plano em acção.
O Harry benzeu-se e beijou a ponta do polegar. Em seguida encaminhou-se para a cela do isolamento, abriu a porta e regressou com o colete-de-forças. Entregou-o ao Brutal. Começámos a percorrer a Milha Verde, os três. O Coffey continuava junto à porta da sua cela, observando todos os nossos movimentos sem proferir uma única palavra. Quando chegámos à secretária no corredor o Brutal colocou o colete-de-força atrás das costas as quais eram suficientemente espadaúdas
para o ocultar com facilidade.
-- Sorte - disse o Dean. Tinha as faces tão pálidas como as do Harry, embora se mostrasse tão determinado quanto este.
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O Percy encontrava-se por detrás da minha mesa, tal como esperávamos, sentado na minha cadeira e franzindo a testa enquanto lia o livro que durante as últimas noites o tinha
acompanhado para todo o lado - não era a Argozy ne Stag, mas sim Os Cuidados a Prestar aos Doentes Mentais em Hospícios. Ter-se-ia pensado, a fazer fé no olhar de culpa e de consternação que ele nos lançou quando entrámos, que se tratava de Os Ultimos Dias de Sodoma e Gomorra.
- O que foi? - perguntou ele, fechando o livro com toda a rapidez. - O que é que querem?
- Falar contigo, Percy - disse eu -, mais nada. Contudo, ele leu muito mais nas nossas expressões do que o mero desejo de conversar, e levantou-se da cadeira que nem uma flecha, apressando-se - sem no entanto ter começado a correr, embora não houvesse faltado muito - na direcção da porta aberta que dava para a arrecadação. Convenceu-se de que tínhamos ido à sua procura para lhe darmos uma boa ensinadela, no mínimo dos mínimos e, muito provavelmente, uma boa sova.
O Harry aproximou-se por detrás dele, cortando-lhe a retirada pela porta e cruzando os braços à frente do peito.
- Mas que diabo! - exclamou o Percy, voltando-se para mim, alarmado, apesar de se esforçar por não o mostrar. - O que é isto?
- Não perguntes, Percy - repliquei-lhe. Eu tinha pensado que ele ficaria bem... pelo menos, que iria regressar ao normal depois de termos dado início a todo aquele assunto
tresloucado, mas o certo é que as coisas não estavam a desenrolar-se como eu supusera. Era-me difícil acreditar no que estava a fazer. Era como se tudo aquilo não passasse de um sonho mau. Esperava constantemente que a minha mulher me sacudisse até eu acordar, para me dizer que estivera a gemer durante o sono. - Será mais fácil se te limitares a vogar no sentido da maré.
- O que é que o Howell tem escondido atrás das costas? perguntou o Percy numa voz enrouquecida, dando meia volta para poder observar melhor o que o Brutal estava a fazer.
- Nada - respondeu este. - Bem... suponho que isto.~~
~<
Estendeu a mão com que segurava no colete-de-forças sacudindo-o contra uma das ancas, como se fosse um toureiro a lançar a capa perante um touro que investia.
Os olhos do Percy arregalaram-se e ele arremessou-se para
a frente. Tinha a intenção de desatar a correr, mas o Harry agarrou-o pelos braços.
Larga-me imediatamente! - gritou o Percy, tentando soltar-se do Harry. Não teria possibilidades de se escapar. ~ Harry pesava, pelo menos, mais cinquenta quilos que ele e
tinha os musculos de um homem que passava a maior parte do tempo dele a lavrar a terra e a cortar madeira; todavia, o Percy ainda conseguiu fazer valer alguns dos seus esforços, arrastando o Harry até meio do gabinete, deslocando a horrível carpete verde que eu dizia a mim mesmo que teria de substituir, sem nunca o fazer. Por breves instantes, pensei que ele iria conseguir libertar um braço; o pânico pode ser um motivador muito forte.
- Acalma-te, Percy - aconselhei. - Será mais fácil se... - Não te atrevas a dizer-me para me acalmar, meu grandessíssimo ignorante! - berrou o Percy, dando safanões com os ombros, tentando libertar-se dos braços do Harry. - Só quero é que se afastem de mim. Todos vocês! Eu tenho os meus conhecimentos. Gente importante! Se não pararem já com isto, terão de ir a pé até à Carolina do Sul só para conseguir uma refeição na sopa dos pobres!
Investiu uma vez mais para a frente, batendo com as coxas contra a minha secretária. O livro que ele estivera a ler, Os Cuidados a Prestar aos Doentes Mentais em Hospícios, sofreu um safanão, enquanto o mais pequeno, do tamanho de um pequeno livro de bolso e que estivera escondido dentro do outro, saiu do seu lugar. Não admirava que o Percy tivesse exibido uma expressão de culpa quando entrámos no gabinete. Não eram Os Últimos Dias de Sodoma e Gomorra, mas era o que por vezes costumávamos dar aos prisioneiros com uma fusa mais forte e que por se terem comportado suficientemente bem mereciam uma atenção. Tenho a impressão de que já falei disto - o pequeno livro aos quadradinhos em que a
Olívia Palito fornica com toda a gente, excepto com o
Sweet Pea, o miúdo.
Achei lamentável que o Percy tivesse ido para o meu gabinete entreter-se com aquele género de pornografia tão frouxa e o Harry - aquilo que eu conseguia ver dele por cima do ombro do Percy, que continuava a tentar libertar-se - ficou com uma expressão ligeiramente nauseada, mas o Brutal desatou às gargalhadas o que despojou o Percy da sua vontade de se debater, pelo menos, momentaneamente.
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- Oh, Percizinho - disse ele. - O que é que a tua mãe
diria? Já agora, o que é que o governador diria? As faces do Percy adquiriram uma tonalidade vermelh -escura.
- Cala-te e deixa a minha mãe fora do assunto.
O Brutal lançou-me o colete-de-forças, colocando o rosto mesmo em frente do do Percy.
- Com certeza, desde que estendas os braços como um bom rapazinho.
Os lábios do Percy tremelicavam e os olhos estavam demasiado brilhantes. Compreendi que se encontrava à beira das lágrimas.
- Não quero - disse ele numa voz trémula de criança -, e vocês não podem obrigar-me. - Em seguida, elevou' a voz e começou a gritar por ajuda. O Harry retraiu-se todo, o mesmo sucedendo a mim próprio. Se alguma vez estivemos' prestes a pôr fim a tudo aquilo, foi precisamente naquela altura. E era o que teríamos feito, não fora a presença do Brutal. Este não hesitou nem um segundo. Colocou-se por detrás do Percy, tendo ficado ombro a ombro com o Harry, o qual continuava a manter as mãos do Percy imobilizadas atrás das costas deste. O Brutal avançou e agarrou no Percy pelas orelhas.
- Pára de berrar - ordenou-lhe o Brutal. - A menos que desejes ficar com as orelhas mais singulares que existem em todo o mundo.
Ao ouvir aquilo, o Percy parou de gritar por ajuda, limitando-se a ficar ali a tremer, baixando o olhar para a capa daquele livro ordinário aos quadradinhos, no qual se viam o Popey e e a Olívia a terem relações sexuais numa posição deveras criativa, de que eu já ouvira falar mas que nunca tinha experimentado. "Oohhh, Popeye!", lia-se na legenda acima da cabeça da Olívia. "Âque... âque... âque... âque!", lia-se na que se encontrava por cima de Popeye. Ele continuava a fumar o seu cachimbo.
- Estende os braços - disse o Brutal -, e vamos acabar com todos estes disparates. Despacha-te.	` - Não quero - replicou o Percy. - Recuso-me a fazê-lo e tu não podes obrigar-me. - Não sei se sabes, mas estás redondamente enganado, a esse respeito - continuou o Brutal, agarrando firmemente nas orelhas do Percy, enquanto as fazia girar como quem gira
os botões de um fogão. Isto é, um fogão que não tivesse a intensidade de calor desejável para se poder cozinhar. O Percy soltou um guincho de dor e de surpresa; eu teria dado bastante para não ter ouvido aquilo. Bem vêem, não se tratava somente de dor e
surpresa também era de compreensão. Pela
primeira vez em toda a sua vida, o Percy tinha a percepção de que as coisas horríveis não aconteciam apenas às outras pessoas, àqueles que não eram suficientemente afortunados para serem familiares do governador. Eu só desejava dizer ao Brutal que parasse com aquilo, mas como é evidente não o podia fazer. As coisas já haviam ido longe de mais para que eu procedesse dessa forma. Tudo o que podia fazer para acalmar a minha consciência era recordar a mim mesmo o que o Percy tinha feito ao Delacroix, fazendo-o passar por sabia Deus que agonias, só porque este tinha ousado rir-se dele. No entanto, aquela recordação não contribuiu em muito para me tranquilizar. É possível que isso tivesse acontecido se a minha maneira de ser estivesse mais em consonância com a do Percy.
- Estende-me esses braços para a frente, querido - disse o Brutal -, ou eu dou-te outra dose.
O Harry já tinha soltado os braços do jovem Mr. Wetmore. Este desatou a chorar convulsivamente como uma criança, com as lágrimas, que até então lhe haviam marejado os olhos, a correrem-lhe livremente pelas faces abaixo, após o que, num gesto brusco, estendeu as mãos, qual sonâmbulo num filme de comédia. Em três segundos, enfiei-lhe as mangas do colete-de-forças pelos braços abaixo. Mal as tinha puxado até aos ombros, já o Brutal largara as orelhas do Percy, para poder agarrar nas correias que pendiam dos punhos do colete. Puxou as mãos do Percy em redor dos flancos, de forma a que os braços ficassem apertadamente cruzados à frente do peito. Entretanto o Harry tratou da parte de trás, prendendo bem as tiras de lona que se entrecruzavam. Depois de o Percy ter desistido e estendido os braços todo aquele processo ficou concluído em menos de dez segundos.
- Muito bem, fofos - acrescentou o Brutal. - Em frente; vamos a marchar!
Ele, porém, recusava-se a andar. Fitou o Brutal para logo a seguir me olhar com uma expressão aterrorizada. Naquele momento, o Percy não fazia a mínima alusão aos seus conhecimentos, nem tão-pouco à maneira como seríamos forçados a ir para
a Carolina do Sul apenas para podermos comer uma
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refeição graças à generosidade de alguém; o Percy encontrava-se muito para lá desse tipo de argumentos.
- Por favor - murmurou ele numa voz áspera e permeada de lágrimas. - Não me leves para junto dele, Paul. Foi então que compreendi o motivo por que ele estava em pânico e se debatera com tanta violência; estava convencido de que o íamos colocar junto do Bill "Selvagem" Wharton; que o seu castigo por causa da esponja seca seria um tratamento especial ministrado pelo nosso psicopata interno. Ao invés de sentir qualquer simpatia pelo Percy, por ter compreendido a razão do seu medo, senti apenas desdém e uma maior determinação. Ao fim e ao cabo, o homem estava a julgar-nos pela sua bitola, caso as nossas posições tivessem sido invertidas.
- Não é para junto do Wharton que vais - disse-lhe eu. - É sim para a cela do isolamento, Percy. Vais passar três ou quatro horas lá dentro, sozinho na escuridão, a pensar naquilo que fizeste ao Delacroix. Muito provavelmente já é tarde de mais para poderes aprender novas lições quanto à forma como te deves comportar... pelo menos, é essa a opinião do Brutal, mas eu continuo a ser optimista. Agora, mexe-te.
Ele obedeceu, resmungando entre dentes que haveríamos de lamentar aquilo, lamentar e muito, que esperássemos para ver, mas, de uma maneira geral, dava a impressão de se sentir aliviado e não demasiado preocupado.
Quando o conduzimos para o corredor, o Dean lançou-nos um olhar arregalado de surpresa e de uma inocência tão cheia de candura que eu teria desatado a rir se o assunto não se revestisse de tanta seriedade.
- Diz-me uma coisa: não te parece que a brincadeira já foi longe de mais? - perguntou o Dean.
- Cala-me mas é essa boca, se sabes o que é bom para ti - vociferou o Brutal. Havíamos ensaiado aquelas frases à hora do almoço; por isso, tudo aquilo me parecia ser uma en
cenação, apenas umas linhas mal alinhavadas, mas, se servissem para assustar e confundir o Percy, tanto melhor, uma vez que ainda poderiam vir a salvar o emprego do Dean Stanton, caso as coisas chegassem a esses extremos. Por mim não pensava que isso fosse viável; no entanto, tudo era possível. Desde então, sempre que duvido disso, limito-me a pensar no John Coffey e no rato do Delacroix.
Obrigámos o Percy a percorrer a Milha Verde aos tropa
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ções,  enquanto ele nos pedia ofegante que abrandássemos o passo, dizendo que cairia de cara no chão se não fôssemos mais devagar. O Wharton continuava deitado na sua tarimba,
mas	passámos pela cela dele demasiado depressa para conseguir ver se ainda dormia ou se estava acordado. O John Coffey continuava junto à porta da cela, observando tudo o que se passava no bloco.
. Tu és um homem mau e mereces ir para aquele lugar escuro - disse ele, mas não me parece que o Percy o tenha ouvido.
Entrámos na cela do isolamento. As faces avermelhadas do Percy estavam molhadas de lágrimas, enquanto os olhos lhe rebolavam nas órbitas; os seus cabelos ondulados, a que ele prestava tantos cuidados, caíam-lhe pela testa todos despenteados. Com uma mão, o Harry retirou-lhe o revólver do coldre e com a outra agarrou no bastão de nogueira que tão querido lhe era.
- Não te preocupes, porque te serão devolvidos - prometeu-lhe o Harry. A sua voz deixava adivinhar um certo constrangimento.
- Quem me dera poder dizer o mesmo quanto ao teu emprego - replicou o Percy. - Aos empregos de todos vocês. Não podem fazer-me uma coisa destas. Não podem!
Era óbvio que ele se encontrava na disposição de continuar com aquele tema, mas nós não tínhamos tempo para ouvir a sua ladainha. Eu enfiara num dos meus bolsos um rolo de fita de fricção, o antepassado dos anos 30 da fita de embalagem que se usa hoje em dia. Quando o Percy avistou o rolo, começou a recuar. O Brutal aproximou-se dele por trás e agarrou-o, manietando-lhe os braços até eu ter colocado a fita a tapar-lhe a boca desenrolando o rolo em redor da cabeça até à nuca para maior segurança. Quando a fita fosse retirada, o Percy iria ficar com umas quantas madeixas de cabelo a menos e uns lábios severamente irritados para compor o ramalhete, mas eu deixara de me preocupar muito com as consequências. Estava positivamente pelos cabelos com o Percy Wetmore.
Retrocedemos e afastámo-nos dele. Ficou no meio da cela, por baixo da lâmpada, imobilizado pelo colete-de-forças, a respirar por narinas frementes, e soltando sons abafados por detrás da fita que lhe tapava a boca. No cômputo geral, o seu era o mesmo de qualquer prisioneiro.
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- Quanto mais sossegado te mantiveres, mais depressa sairás daqui - disse-lhe eu. - Tenta não te esqueceres disso Percy.	, - E se te sentires sozinho, pensa na Olívia Palito
aconselhou o Harry com mordacidade. - "Âque.., tique... âque... âque!"
Em seguida, saímos dali. Fechei a porta e o Brutal trancou-a à chave. O Dean encontrava-se um pouco afastado na Milha, mesmo do lado de fora da cela do Coffey. Já tinha inserido a chave-mestra na fechadura de cima. Entreolhámo-nos sem que nenhum de nós dissesse fosse o que fosse. Não havia necessidade de quaisquer palavras. Havíamos posto o mecanismo em movimento; naquele momento, tudo o que poderíamos esperar era que as coisas corressem de acordo com os planos que havíamos delineado, em vez de saltarem para fora dos carris algures ao longo do caminho.
- Continuas a querer dar um passeio, John? - perguntou o Brutal.
- Sim, senhor - respondeu o Coffey. - Acho que sim, - Excelente - atalhou o Dean. Girou a chave na primeira fechadura, tirou-a e inseriu-a na segunda.
- Vamos ter de te acorrentar, John? - perguntei.
O Coffey deu a impressão de ter ficado a pensar naquilo. - Se quiserem, podem - respondeu ele por fim. - Mas não há necessidade.
Acenei ao Brutal, ele abriu a porta da cela, e eu virei-me para o Harry que, mais ou menos, apontava o revólver do Percy na direcção do Coffey, enquanto este saía da cela. - Entrega isso ao Dean - disse-lhe eu.
O Harry pestanejou como se tivesse estado completamente ausente, reparando que a arma e o bastão do Percy continuavam nas suas mãos, e entregou as duas coisas ao Dean.
Entretanto, o Coffey, com a sua figura corpulenta, entrou no corredor onde a cabeça calva quase tocava nas lâmpadas Vendo-o ali com as mãos estendidas à sua frente e os ombros inclinados para o seu peito entroncado pensei a mesma coisa que pensara a primeira vez que o vira: um urso enorme que tinha sido capturado.
- Fecha à chave os brinquedos do Percy na mesa do corredor até regressarmos - disse eu.
- Se regressarmos - acrescentou o Harry.
- De acordo - respondeu-me o Dean sem prestar atenção ao que o Harry dissera.
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E se alguém aparecer por aqui... o mais provável é ninguém vir até cá, mas se por acaso aparecer alguém, o que é que tu lhe dizes?
- Que o Coffey ficou perturbado por volta da meia-noite -
replicou o Dean. A sua expressão era tão aplicada como a de um estudante a fazer um exame importante. Tivemos de o meter no colete-de-forças e fechá-lo na cela do isolamento. Caso se ouça algum barulho, quem quer que o ouça deduzirá que é ele. - Ergueu o queixo na direcção de John Coffey.
- E quanto a nós? - inquiriu o Brutal por sua vez. - O Paul foi à administração buscar o processo do Del para se inteirar do nome das testemunhas - continuou o Déan. - O que desta vez é um assunto muito importante, dado que a execução dele correu de forma tão atabalhoada. Disse que o mais certo seria ter de ficar por lá durante o resto do turno. Tu, o Harry e o Percy foram à lavandaria pôr a vossa roupa a lavar.
Pois bem, isso era o que se costumava dizer. Havia noites em que tinha lugar um fogo de dados na arrecadação da lavandaria, enquanto nas outras era póquer, cartas ou qualquer outro jogo. Os guardas que participavam neles costumavam dizer que iam pôr a roupa a lavar. Naquelas reuniões, bebia-se normalmente uísque destilado em casa e, de vez em quando, um charro passava de mão em mão até completar o círculo. Suponho que isto acontece em todas as penitenciárias desde que estas foram inventadas. Quando se passa toda a vida a vrgiar homens de maus princípios, é impossível evitarmos suar-nos um pouco. Em qualquer dos casos, era pouco provável que alguém aparecesse no bloco. "A lavagem das roupas" era um assunto tratado com extrema discrição em Cold Mountain.
- Tudo bem com o "Senhor a Postos" - disse eu, dando meia volta ao Coffey para o pôr em movimento. - E se tudo for por água abaixo, Dean, não sabes nada de nada. - Isso é muito fácil de dizer, mas...
Naquele preciso momento, um braço magricela saiu disparado por entre as barras da cela do Wharton, agarrando no músculo do braço do Coffey. Todos ficámos sem fôlego. Em Princípio
o, o	Wharton deveria estar morto para o mundo, quase que em coma. Contudo ali se encontrava ele de pé, com o corpo a oscilar de um lado para o outro, qual pugilista violentamente esmurrado exibindo um esgar sorridente e um olhar toldado.
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A reacção do Coffey foi absolutamente notável. Não afastou, mas ficou também a arquejar, inspirando o ar por cima dos dentes inferiores, como alguém que houvesse tocado
inadvertidamente em algo frio e desagradável. Os seus olhos arredondaram-se e, por breves momentos, pareceu nunca ter visto o mentecapto, quanto mais levantar-se à mesma hora que ele todas as manhãs e deitar-se na mesma altura todas ~ as noites. Mostrara-se bastante alerta - presente - quando quis que eu entrasse na sua cela, de maneira a poder tocar-me. Conseguir evitar o mal, em linguagem do Coffey. Quando tinha estendido as mãos para o rato, mostrara exactamente a mesma atitude. Agora, e pela terceira vez, a sua fisionomia iluminara-se, como se um foco de luz houvesse sido, subitamente, ligado no interior do seu cérebro. Só que desta vez era diferente. Desta vez era mais frio, e perguntei a mim mesmo o que é que sucederia se o John Coffey, de súbito, decidisse entrar em fúria. Estávamos munidos das nossas armas, pelo que poderíamos alvejá-lo; contudo, subjugá-lo poderia vir a provar ser uma tarefa bastante árdua.
Nas feições do Brutal li pensamentos similiares; todavia, o Wharton continuava a exibir o seu sorriso de imbecil pedrado, com os lábios descaídos.
- Onde é que pensas que vais? - perguntou ele. As suas palavras saíram-lhe da boca numa toada arrastada.
O Coffey mantinha-se imóvel, fitando primeiro o Wharton, depois a sua mão, para logo voltar a olhar para o seu rosto. Eu não conseguia ler aquela expressão. Quer dizer, detec tava a inteligência no seu semblante, mas era incapaz de o ler. Quanto ao Wharton, não me sentia minimamente preocupado com ele. Mais tarde, não se recordaria de nada daquilo; seria como um bêbedo a caminhar por uma zona completamente às escuras.
- Tu és um homem mau - sussurrou o Coffey e eu não consegui destrinçar o que lhe ouvia na voz: sofrimento, cólera ou temor. Talvez uma amálgama dos três sentimentos. O Coffey baixou o olhar uma vez mais na direcção da mão que continuava no seu braço, da mesma forma que olharia para um insecto que o pudesse picar de maneira bastante desagra' dável, caso estivesse decidido a isso.
- É verdade, negro - retorquiu o Wharton com um sorriso matreiro e sinistro. - Tão mau quanto possas imaginar


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subitamente, tive a certeza absoluta de que estava prestes a acontecer algo, horrível, algo que iria alterar o curso planeado daquele início de madrugada, da mesma forma que um terramoto de proporções catastróficas pode alterar o leito de um rio. Iria suceder algo e nada que eu ou qualquer de nós pudesse então o impediria.
Foi então que o Brutal estendeu a mão e retirou a do Wharton do braço do John Coffey, pondo termo àquele meu pressentimento de inevitabilidade. Era como se um circuito
potencialmente perigoso tivesse sido interrompido. Eu já vos disse que durante todo o tempo em que trabalhei no Bloco E a linha directa para o governador nunca tocou. O que era verdade, mas imagino que, se isso tivesse acontecido alguma vez, teria sentido o mesmo alívio que me invadiu quando o Brutal retirou a mão do Wharton do braço daquele homem gigantesco que se elevava ao meu lado. Uma vez mais, os olhos de Coffey adquiriram uma expressão ausente; era como se o foco de luz até então existente no seu cérebro houvesse sido desligado.
-Deita-te, Billy - disse o Brutal. - Descansa um pouco. - Aquela era habitualmente a minha frase para os acalmar, mas, dadas as circunstâncias, não me incomodei por ele a ter utilizado.
- Talvez faça isso mesmo - concordou o Wharton. Num passo cambaleante começou a retroceder e quase caiu, mas recuperou o equilíbrio no último instante. - Oohhh, paizinho! A cela está a girar. Parece que estou bêbedo.
Recuou até à tarimba, mantendo o olhar atordoado no Coffey enquanto seguia às arrecuas.
- Os negros deviam ter a sua própria cadeira eléctrica - disse ele. Então, a parte de trás dos seus joelhos bateu na tarimba, e ele deixou-se tombar. Antes de a cabeça ter tocado na almofada da prisão, já começara a ressonar; os seus olhos mostravam umas olheiras azuladas e profundas, enquanto a ponta da língua pendia da boca.
- Como é que ele foi capaz de se levantar com tanta droga no bucho? - perguntou o Dean num murmúrio.
- Isso não interessa agora já perdeu a consciência - respondi. - Se ele voltar a querer despertar, dá-lhe outro compr¡mido dissolvido num copo de água. Não lhe dês mais do que um. Tem cuidado. Não queremos matá-lo.
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- Fala por ti - atalhou o Brutal num resmungo, lançando ao Wharton um olhar de desprezo. - Seja como for, é impossível matar um gorila como ele só com drogas. Eles desabrocham sob o seu efeito.
- Ele é um homem mau - repetiu o Coffey, desta feita num tom mais baixo, como se não estivesse bem certo daquilo que estava a dizer, nem do seu significado.
- Tens toda a razão - corroborou o Brutal. - Terrivelmente mau! Mas isso agora não interessa, uma vez que não vamos ter de dançar o tango com ele. - Retomámos a nossa
caminhada; o Coffey seguia ladeado pelos quatro, como se fôssemos idólatras em redor de um ídolo que tivesse assumido uma qualquer semivida pouco definida. - Diz-me uma coisa, John... sabes para onde é que vamos levar-te? - inquiriu o Brutus.
- Para conseguir evitar o mal - respondeu ele. - penso que é uma senhora? - Olhou para o Brutal com uma expressão de ansiedade esperançada.
- É isso mesmo - retorquiu o Brutal com um acenar afirmativo de cabeça. - Mas como é que soubeste isso? Como é que sabes?
O John Coffey ficou a avaliar aquela pergunta com todo o cuidado, após o que abanou a cabeça.
- Não sei - disse ele ao Brutal. - Para lhe dizer a verdade, chefe, eu não sei muito de nada. Nunca soube. Tivemos de contentar-nos com aquela explicação vaga.
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Eu sabia que a pequena porta existente entre o meu gabinete e os degraus que davam para a sala da arrecadação não fora construída levando em consideração as pessoas da esta
tura do Coffey, mas nunca me apercebera de até que ponto aquela disparidade existia até ele se ter colocado em frente da entrada para onde olhava com um ar meditativo.
O Harry riu-se, mas o próprio Coffey pareceu não achar qualquer graça ao facto de um homem corpulento se encontrar em frente daquela porta tão pequena. Claro que não teria
achado graça àquilo; ainda que a sua inteligência tivesse sido um pouco mais alargada do que efectivamente era, continua' ria a ser da mesma opinião. Durante a maior parte da vida, ~
Coffey fora um homem gigantesco, e aquela porta era um tudo-nada mais pequena do que a maioria.
Sentou-se, transpondo-a, e voltou a erguer-se, tendo descido as escadas até onde o Brutal o aguardava. Chegado ali, deteve-se, olhando para o outro lado da pequena sala, na direcção do estrado onde se encontrava a Velha Faísca, tão silenciosa - e tão lúgubre - como um trono no castelo de um rei morto. O capacete continuava pendurado, com um garbo falso, num dos ganchos das costas, parecendo menos a coroa de um rei do que o barrete de um bobo da corte, mas sendo algo que qualquer idiota usaria ou agitaria parã fazer com que o seu público, todo emproado, risse ainda mais das suas macaquices. A sombra que a cadeira projectava, alongada e tenebrosa, subia ameaçadoramente por uma parede. E sim, pensei que ainda conseguia cheirar a carne queimada no ar. Embora fosse bastante vago, eu estava convencido de que aquilo era mais do que apenas o fruto da minha imaginação.
O Harry baixou a cabeça para poder passar pela porta, e em seguida foi a minha vez. Não me agradou nada a forma como o John Coffey olhava mesmerizado para a Velha Faísca. Gostei ainda menos daquilo que vi nos seus braços quando me aproximei mais dele: a pele toda arrepiada.
- Vamos lá, matulão - disse eu, tentando encorajá-lo. Agarrei-o pelo pulso, tentando levá-lo na direcção da porta que dava acesso ao túnel mais abaixo. De início não se mexeu, e eu tive a sensação de que tentava arrastar um penedo do solo apenas com as minhas mãos.
- Vamos lá, John, temos de continuar, a menos que queiras que a carruagem se transforme numa abóbora - disse o Harry, soltando de novo uma gargalhada nervosa. Agarrou no outro braço do John e começou a puxar, mas este continuava imobilizado. Foi então que ele proferiu algo numa voz baixa e sonhadora. Não era a mim que ele se dirigia, não falava para nenhum de nós em particular, mas jamais me esqueci do que ele disse então.
- Eles continuam ali. Bocados dos seus corpos ainda ali estão. Consigo ouvi-los gritar.
As risadas nervosas do Harry cessaram de imediato, deixando-lhe nos lábios um sorriso que parecia ter ficado pendurado na boca, qual persiana desconjuntada numa casa abandonada. O Brutal lançou-me um olhar que se aproximava muito de terror, e afastou-se do John Coffey. Pela segunda vez em
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menos de cinco minutos, tive o pressentimento de que todo aquele empreendimento se encontrava à beira de ir por água abaixo. Desta feita fui eu quem interveio; quando a iminência do desastre nos ameaçou uma terceira vez, o que aconteceu um pouco mais tarde, foi a vez de o Harry interferir. Acreditem que, naquela noite, todos tivemos a nossa oportunidade de intervir no desenrolar dos acontecimentos.
Interpus-me entre o John Coffey e a visão da cadeira, pondo-me em bicos dos pés para ter a certeza de que bloqueava inteiramente toda a sua linha de visão. Em seguida, fiz estalar os meus dedos em frente dos olhos do Coffey, por duas vezes e com todo o vigor.
- Vamos lá! - urgi eu. - Caminha! Foste tu que disseste que não precisavas de ser acorrentado, agora prova isso! Começa a andar, matulão! Caminha, John Coffey! Naquela direcção! Para aquela porta!
- Sim, chefe - aquiesceu ele, parecendo ter despertado. E, Deus seja louvado, começou realmente a andar.
- Olha para a porta, John Coffey. Mantém os olhos na porta sem olhares para mais nada.
- Sim, chefe. - Obedientemente, o John prendeu o olhar na porta.
- Brutal - acrescentei, apontando.
Este tomou apressadamente a dianteira, sacudindo o seu molho de chaves, à procura da que abria a porta. O John mantinha o olhar fixo na porta que dava para o túnel, enquanto eu não despregava os meus olhos dele, embora pelo canto do olho pudesse ver o Harry lançar olhares cheios de nervosismo para a cadeira, como se nunca a tivesse visto.
Continuam ali bocados dos seus corpos... Consigo ouvi-los gritar.
Se isso era de facto verdade, o Eduard Delacroix só podia estar a gritar mais alto e durante mais tempo do que todos os outros condenados; senti-me satisfeito por não ser capaz de ouvir o que o John Coffey ouvia.
O Brutal abriu a porta. Começámos a descer os degraus com o Coffey na dianteira. Chegado ao fundo, ele começou olhar para o túnel com uma expressão taciturna, fitando o tec
to baixo de tijolos. Inevitavelmente, iria ficar com dores nas costas quando chegasse ao outro extremo, a menos que Puxei a maca para junto de mim. O lençol sobre o qual deitáramos o Del já havia sido retirado (e provavelmente inci-
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nerado), pelo que o almofadado negro da maca se encontrava
à vista.
- Deita-te aqui - ordenei eu ao John. Ele ficou a olhar
para mim com uma expressão duvidosa; acenei-lhe num gesto de encorajamento. - Será mais fácil para ti e não nos dificultará a passagem pelo túnel.
. De acordo, chefe Edgecombe. - Sentou-se e depois deitou-se ao comprido, fitando-nos com os seus olhos castanhos que traíam preocupação. Os seus pés, calçados com as pantufas baratas da prisão, ficavam de fora, suspensos quase até roçarem no chão. O Brutal colocòu-se entre eles e começou a empurrar o John Coffey pelo corredor húmido, à semelhança do que tinha feito a muitos outros. A única diferença era que o actual passageiro da maca continuava a respirar. A mais ou menos meio caminho - por baixo da auto-estrada, de acordo com a minha estimativa, e conseguindo ouvir o som abafado das viaturas que sobre ela passassem, caso houvesse alguma aquela hora da noite - o John começou a sorrir.
- Isto é muito divertido - comentou ele. Todavia, não pensaria da mesma forma da próxima vez que fosse empurrado em cima da maca; esse foi o pensamento que atravessou a minha mente. Na realidade, da próxima vez que fosse levado na maca, não pensaria nem sentiria o que quer que fosse. Ou seria isso possível? Bocados dos corpos deles continuavam ali, dissera ele; conseguia ouvi-los gritar.
Caminhando atrás dos outros e sem que estes me vissem, senti-me estremecer.
- Espero que não te tenhas esquecido da Aladino, chefe Edgecombe - disse o Brutal quando chegámos ao extremo do túnel.
- Não te preocupes - repliquei. A Aladino não parecia apresentar qualquer diferença que a distinguisse das outras chaves que eu costumava trazer sempre comigo nesses tempos... e eu tinha um molho que deveria pesar dois quilos. Mas aquela era a chave-mestra de todas as chaves-mestras, a que abria todas as fechaduras. Nessa época, para cada um dos cinco blocos havia uma Aladino, sendo cada uma delas da responsabilidade do superintendente do respectivo bloco. Os outros guardas podiam utilizá-las, mas só o manda-chuva dos bardas é que não era obrigado a registar que a levara.
Havia
um portão de barras de aço na extremidade do tú
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nel. Nunca falhava em me trazer à memória as imagens que eu vira de castelos antigos; vocês sabem, dos tempos do antigamente em que abundavam os cavaleiros destemidos de cavalheirescos. Com a diferença de que Cold Mountain ficava a;, uma grande distância de Camelot. Para lá dos portões, havia um lanço de escadas que dava para um portão maciço e discreto que era accionado na horizontal, com dísticos onde se
lia: "É PROIBIDA A ENTRADA, PROPRIEDADE DO ESTADO e VEDAÇÃO ELECTRIFICADA" no lado exterior.
Abri os portões e o Harry afastou-os para trás. Subimos os degraus; uma vez mais, era o John Coffey quem tomava a dianteira, mantendo os ombros inclinados para a frente e a
cabeça vergada. Já no cimo, o Harry conseguiu passar à sua volta (não sem experimentar algumas dificuldades, embora fosse o mais pequeno de nós três), e abriu o portão maciço que deslizava na horizontal. Era pesado. Conseguia deslocá-lo, mas não era capaz de o içar.
- Deixe, chefe - disse o John. Avançou mais, empurrando o Harry contra a parede com a anca ao avançar, erguendo o portão só com uma mão. Poder-se-ia ter pensado que era feito de cartão pintado em vez de chapa de aço. O ar da noite era frio devido ao vento que soprava vindo do cume das montanhas, e iríamos senti-lo até Março ou Abril, açoitando as nossas faces. Com as rajadas de vento veio um turbilhão de folhas mortas; o John Coffey apanhou uma delas com a sua mão livre. Jamais me esquecerei da maneira como ele olhou para ela, ou a forma como a amachucou por debaixo do seu nariz largo e de linhas bonitas, de molde a que libertasse a sua fragrância.
- Vamos lá - urgiu o Brutal. - Em frente, toca a andar!
Saímos da prisão, o John desceu o portão e o Brutal fechou-o à chave - aquele não precisava da chave Aladino, embora esta fosse necessária para abrir os portões da gaiola de arame e postes que circundavam o portão levadiço.
- Mantém as mãos junto ao corpo, matulão, enquanto es tiveres a passar - advertiu o Harry num sussurro. - Não ta ques no arame, se não quiseres sofrer uma queimadura grave:;
Naquela altura já nos encontrávamos do lado de fora, ~unto da berma da estrada, formando um pequeno maciço (deveríamos ter a aparência de três pequenas colinas em redor de
uma montanha, era o que eu imaginava), olhando para lá dos
luzes e guaritas da penitenciária de Cold Mountain. Na realidade, eu até conseguia distinguir a forma pouco definida do guarda no interior de uma dessas torres, o qual soprava o bafo quente para as mãos, embora apenas por breves instantes; as pequenas janelas , das guaritas que davam para a estrada eram ínfimas e pouco importantes para nós. No entanto, tínhamos de nos manter muito, muitíssimo calados. E se
um automóvel passasse por acaso poderíamos estar metidos em grandes complicações.
- Vamos a despachar - murmurei. - Indica tu o caminho, Harry.
Sorrateiramente, dirigimo-nos para norte ao longo da estrada, formando uma pequena fila indiana; o Harry seguia à frente, depois o John Coffey, o Brutal, e eu à retaguarda. Subimos a primeira elevação de terreno e, do outro lado, tudo o que avistávamos da penitenciária era o clarão das luzes intensas acima das copas das árvores. O Harry continuava a conduzir-nos em frente.
- Onde é que a deixaste estacionada? - perguntou o Brutal numa voz sussurrada, com a condensação da respiração a sair-lhe da boca sob a forma de uma nuvem branca. - Em Baltimore?
- Está ali, um pouco mais à frente - retorquiu o Harry, irritadiço e nervoso. - Aguenta os cavalos, Brutus.
O Coffey, porém, pelo que eu tinha visto dele, ter-se-ia sentido satisfeito por poder continuar a caminhar até ao nascer do Sol, talvez mesmo até este se pôr de novo. Olhava para tudo em seu redor a começar - não com medo mas deliciado, tenho a certeza - por um mocho que começou a piar. Foi então que me ocorreu que, embora ele pudesse ter receio da escuridão entre paredes, ali fora não sentia medo. O John dava a impressão de acariciar a noite, roçando os sentidos por ela através do caminho da mesma maneira que um homem poderia roçar o rosto pelas saliências e concavidades dos seios de uma mulher.
- Temos de virar aqui - indicou o Harry num resmungo. Deparámos com um pequeno trecho de caminho - estreito e por pavimentar, com ervas que cresciam a meio - que se desviava para a direita. Virámos naquele lugar e caminhámos mais uns quatrocentos metros. O Brutal já começara a resmungar de novo, quando o Harry se deteve, dirigindo-se à berma esquerda daquele trilho, e começou a remover
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ramagens quebradas de pinheiros. O John e o Brutal ajudaram-no, e, antes que eu pudesse ter metido mãos à obra, eles já haviam posto a descoberto a parte da frente amolgada de uma velha camioneta Farmall, como os faróis presos por aromes a olharem para nós como olhos esbugalhados.
- Não sei se compreendes, mas eu quis ter muito cuidado - justificou-se o Harry, dirigindo-se ao Brutal num tom de repreensão. - Para ti isto é capaz de ser uma grande brincadeira, Brutus Howell, mas acontece que eu venho de uma família muito religiosa, tenho primos tão religiosos que fazem com que os cristãos se assemelhem aos leões, e se eu fosse apanhado a fazer uma coisa destas!...
- Não tem importância - respondeu-lhe o Brutal, Estou só um bocado nervoso, mais nada.
- Eu também - acrescentou o Harry numa voz comida. - Agora só precisamos que este maldito calhambeque pegue...
Contornámos a parte da frente da pequena camioneta de caixa aberta, e, continuando a resmungar, o Brutal piscou-me o olho. No que dizia respeito ao Coffey, nós tínhamos deixado de existir. Mantinha a cabeça inclinada para trás, absorvendo por todos os poros a visão das estrelas que pontilhavam o firmamento.
- Se quiseres, eu vou com ele na parte de trás - ofereceu-se o Brutal. Atrás de nós, o motor de arranque da Farmall começou a dar breves sinais de vida, parecendo mais um
velho cão, tentando encontrar os seus pés numa manhã fria de Inverno, até finalmente ter começado a funcionar em pleno. O Harry acelerou-o uma vez e deixou-o ficar a trabalhar em ponto morto. - Não há necessidade de irmos os dois.
- Senta-te tu à frente - disse-lhe eu. - Na viagem de regresso podes vir com ele. Isto é, se não acabarmos por fazer esse percurso encarcerados na parte de trás da nossa própria diligência.
- Não digas essas coisas - redarguiu ele, genuinamente preocupado. Era como se compreendesse pela primeira vez até que ponto aquela situação seria grave para nós, caso fossemos apanhados. - Caramba, Paul!
- Vamos, despacha-te - ordenei-lhe eu. - Senta-te na cabina.
O Brutus fez como lhe diziam. Puxei pelo braço do John Coffey até ter conseguido chamar a sua atenção, fazendo"o
regressar à Terra, ainda que só por algum tempo, e conduzi-o para a parte de trás da camioneta, que se encontrava coberta. O Harry tinha estendido a lona por cima da estrutura, o queera vantajoso, no caso de passarmos por outras camionetas ou automóveis que seguissem na direcção contrária. No entanto, em relação à entrada das traseiras não pudera fazer coisa nenhuma.
- Cá vamos nós, matulão - disse eu.
- Agora vamos dar o passeio? - perguntou o Coffey. - Exactamente.
- Óptimo - retorquiu ele com um sorriso. Era um sorriso encantador e cheio de doçura, talvez mais ainda porque não era complicado, não possuía um excesso de raciocínio. O Coffey subiu para a traseira da pequena camioneta. Fui atrás dele, tendo-me dirigido para a parte da frente da área de carga e bati no tejadilho da cabina. O Harry engatou a primeira e a camioneta saiu daquele abrigo improvisado, feito com folhagem, a sacolejar e com o motor a vibrar intensamente.
O John Coffey estava em pé de pernas abertas no meio da caixa de carga do veículo, com a cabeça inclinada de forma a poder olhar de novo para as estrelas, exibindo um sorriso rasgado, sem reparar nas ramadas que o zurziam, enquanto o Harry conduzia a camioneta em direcção à auto-estrada.
- Olhe, chefe! - disse ele num tom de voz baixo e enlevado, apontando para as sombras da noite. - É a Cassie, a senhora na cadeira de baloiço!
Ele tinha razão; eu conseguia avistar o que ele me indicava na faixa de estrelas visível entre o maciço envolto em trevas do arvoredo que nos ladeava. Mas não foi em Cassiopeia que eu pensei quando ele mencionou a senhora na cadeira de baloiço; foi sim na Melinda Moores.
- Estou a vê-la John - retorqui, tocando-lhe no braço. - Mas agora tens de~te sentar. De acordo?
Sentou-se com as costas contra a cabina, sem nunca afastar os olhos do firmamento nocturno. No seu rosto espalhava-se uma expressão de felicidade sublime. A Milha Verde ia~ ficando cada vez mais para trás de nós a cada volta dada pelos pneus carecas da Farmall, e, pelo menos de momento, o lacrimejar do John Coffey, que parecia nunca ter fim, havia cessado.
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Eram cerca de quarenta quilómetros até à casa do Hal Moores em Chimney Ridge, e na vagarosa camioneta do Harry Terwilliger, que seguia aos solavancos, aquele percurso levou mais de uma hora. Foi uma viagem bastante estranha, e embora nesta altura eu tenha a impressão de que todos os momentos dessa jornada continuam bem gravados na minha memória - todas as curvas, todas as saliências do piso, todos os buracos, as ocasiões de susto (foram duas), quando passá. vamos por outras camionetas que seguiam na direcção contrária - não me parece que possa sequer descrever de forma adequada aquilo que senti, sentado ali atrás na companhia do John Coffey; ambos estávamos enrolados em mantas como dois índios, mantas essas que o Harry tivera o cuidado de trazer.
Em grande medida, o que eu sentia era perda - o terrível e profundo sentimento que uma criança sente quando se apercebe de que, algures ao longo do caminho, tomou a direcção
errada; todos os pontos de referência lhe são estranhos, e ela não sabe como atinar com o caminho para casa. Eu encontrava-me fora da penitenciária acompanhado de um prisioneiro - não um prisioneiro qualquer, mas um que fora julgado e condenado pelo homicídio de duas garotinhas e destinado a morrer pelo crime cometido. O facto de eu acreditar que ele estava inocente não serviria de atenuante no caso de sermos apanhados; nós próprios acabaríamos por ir parar à cadeia, e, possivelmente, o Dean Stanton teria o mesmo destino. Eu tinha desbaratado toda uma vida de trabalho, sempre convicto das minhas ideias, por causa de uma execução que correra mal, e porque acreditava que o desajeitado que se encontrava sentado junto de mim, o qual crescera demasiado, poderia ter capacidade para curar o tumor que minava o cérebro de uma mulher que os médicos consideravam inoperável. E todavia, ao observar o John, que continuava a fitar incansavelmente as estrelas, compreendi com grande espanto que já não acreditava nisso, se é que alguma vez havia acreditado realmente; a minha infecção urinária naquele momento já parecia muito distanciada no tempo, e perdera grande parte da sua importância, tal como costuma acontecer sempre a esse género de coisas dolorosas e desagradáveis depois de terem passado
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(se as mulheres guardassem na sua recordação o quanto custa ter o primeiro filho, dissera-me a minha mãe numa ocasião, nunca dariam à luz um segundo). Quanto ao Mister Jingles, não seria possível que nos tivéssemos enganado em relação á gravidade da lesão que o Percy lhe infligira? Ou ainda que o John - o qual na verdade possuía um certo poder hipnótico, pelo menos disso não restavam dúvidas - houvesse sido capaz de nos ludibriar, levando-nos a pensar que tínhamos visto algo que de facto não víramos. Havia ainda a acrescentar a questão do Hal Moores. No dia em que eu o surpreendera no seu gabinete, tinha deparado com um homem de idade, trémulo e lacrimejante. Mas eu não considerava que aquela fosse a faceta mais verdadeira do director Moores. Continuava firmemente convicto de que o autêntico director Moores era o homem que quebrara o pulso de um prisioneiro irado que tentara esfaqueá-lo; o homem que me havia chamado a atenção, com uma precisão cheia de cinismo, para o facto de os tomates do Delacroix irem ser estorricados independentemente do homem que fosse destacado como responsável do grupo de execução. Passar-me-ia pela cabeça que o Hal Moores se poria humildemente de lado, permitindo que levássemos a sua casa um assassino de crianças, que fora condenado à morte, e que este colocasse as mãos sobre a sua própria mulher?
As minhas incertezas aumentavam como uma doença enquanto percorríamos a estrada. Muito simplesmente, estava incapaz de compreender o que me levara a fazer as coisas que fiz, ou por que motivo havia persuadido os outros a alinharem comigo naquela jornada nocturna de loucos; não acreditava que tivéssemos a mais pequena hipótese de conseguirmos safar-nos daquela, nem que o diabo tocasse rabeca, como os antigos costumavam dizer. Apesar de todas aquelas reticências, também não tentei cancelar o projecto, o que talvez tivesse conseguido levar a cabo as coisas não iriam sair irrevogavelmente das nossas mãos,~até termos chegado a casa do Moores. Alguma coisa - penso que talvez não tivesse sido mais do que as ondas de exaltação que me eram transmitidas pelo gigante sentado ao meu lado - me impediu de bater na janela da cabina, gritando ao Harry que invertesse a marcha e regressasse à prisão enquanto ainda havia tempo.
este era o meu estado de espírito quando saímos da estrada Principal e entrámos na secundária, a número 5, e desta
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na Chimney Ridge. Mais ou menos quinze minutos depois avistei o recorte de um telhado que se erguia para as estrelas' e soube que tínhamos chegado ao nosso destino. O Harry desengatou a segunda, metendo a primeira (acho que ele engatou a quarta apenas uma vez durante toda aquela estranha viagem). Laboriosamente, o motor abrandou e toda a camioneta foi abalada por um estremecimento, como se também temesse aquilo que se encontrava à nossa frente.
O Harry entrou no caminho de gravilha que dava acesso à casa do Moores e estacionou a pequena camioneta recalcitrante atrás do prático Buick preto do director da penitenciá
ria. À nossa frente, e ligeiramente à direita, encontrava_se uma casa muito bem cuidada e construída num estilo que estou em crer chamar-se Cape Cod. Aquele género de residência talvez devesse dar a impressão de não se enquadrar na nossa região montanhosa, mas tal não acontecia. A Lua já brilhava no firmamento; naquela madrugada o seu sorriso era um pouco mais cheio do que o habitual; sob a sua luz observei que o jardim, que sempre se mantivera tão maravilhosamente cuidado, apresentava agora um aspecto de desleixo. Em grande parte, aquela incúria devia-se apenas a folhas secas e mortas por apanhar. Em circunstâncias normais, aquela tarefa teria cabido à Melly, mas acontece que, naquele Outono, a Melly não estivera em condições de limpar o jardim das folhas e nunca mais voltaria a ver as folhas a caírem das árvores. Esse é que era o cerne da questão, e eu fora suficientemente louco para pensar que aquele idiota, de olhar vazio, poderia alterar esse estado de coisas.
Apesar de tudo, talvez ainda não fosse tarde de mais para nos salvarmos. Fiz menção de me levantar, deixando tombar dos ombros a manta em que estivera enrolado. Inclinar-me-ia
para a frente, bateria na janela do lado do motorista, dizendo ao Harry que se pusesse a andar dali para fora, antes de... O John Coffey agarrou-me pelo antebraço com um pino enorme, obrigando-me a sentar-me com tão pouco esforço como o que eu poderia ter usado com uma criança que tivesse começado a dar os seus primeiros passos.
- Ouça, chefe - disse ele, apontando para a casa. - Há alguém a pé. Segui a direcção do seu dedo e senti um baque, não só nas entranhas mas também no coração. Através de uma das janelas das traseiras filtrava-se um feixe de luz. Muito
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provavelmente, a sala onde a Melinda passava os seus dias. Estaria tão capaz de poder subir as escadas, como de ~~ um ancinho para remover do jardim as folhas que haviam tombado das árvores durante o vendaval que ocorrera
recentemente.
É claro que eles tinham dado pela chegada da camioneta - a maldita Farmall do Harry Terwilliger, com o seu ruidoso motor desembocando num tubo de escape que não era estorvado por algo tão frívolo como uma panela de escape. Mas que diabo, o mais certo era os Moores não terem andado a dormir muito bem naquelas últimas noites.
Entretanto, alguém acendeu uma luz mais próxima da frente da casa (na cozinha), e em seguida foi a vez da do tecto da sala de estar, a do vestíbulo da frente e a do alpendre. Observei esta sucessão de luzes a serem ligadas, sentindo o mesmo que um homem encostado a uma parede de cimento, enquanto fumava o seu último cigarro, podendo observar a marcha de um pelotão de fuzilamento que se aproximava. E, contudo, não reconheci inteiramente perante mim próprio, até mesmo naquele instante, que já era demasiado tarde quando o ruído incerto do motor da Farmall esmoreceu e se silenciou. Ouviu-se o ranger das portas do veículo a abrirem-se, e o Harry e o Brutal pisaram sonoramente a gravilha.
O John já se pusera de pé, arrastando-me consigo. Naquela semiobscuridade, a expressão do seu rosto era viva e ansiosa. E porque não?, recordo-me de ter pensado. Porque não haveria ele de se mostrar ansioso? O Coffey era um pobre de espírito.
O Harry e o Brutal mantinham-se ombro a ombro imobilizados ao fundo da camioneta como crianças numa tempestade, não me passando despercebido que ambos pareciam tão receosos como aquelas estariam e tão pouco à vontade como eu próprio me sentia. Aquilo fez com que o meu mal-estar aumentasse ainda mais.
O John desceu. Para ele aquele acto era mais um passo do que um salto. Fui atrás dele acabrunhado e sentindo as pernas entorpecidas. Ter-me-ia esparramado em cima da gravilha gelada, não fora ele agarrar-me pelo braço.
- Isto é um erro - disse o Brutal numa voz sibilada quase num
murmúrio. Os seus olhos desmesuradamente abertos espelhavam temor. - Deus do céu, Paul! Em que é que nós estávamos a pensar?
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-Agora já é tarde de mais - repliquei. Dei um empurrão numa das ancas do Coffey, o qual se colocou bastante obedientemente ao lado do Harry. Em seguida, agarrei no braço do Brutal como se aquilo fosse um encontro amoroso e começámos a caminhar em direcção aos degraus do alpendre, que naquele momento estavam iluminados. - Deixa_me ser eu a conduzir a conversa. Estás a compreender?
- De acordo - respondeu o Brutal. - Nesta altura, pa_ rece-me que é a única coisa que sou capaz de compreender. - Harry, fica com ele junto da camioneta, até eu te chamar - disse-lhe eu por cima do ombro. - Não quero que o Moores o veja até eu estar preparado. - Mas eu nunca iria estar preparado. Agora apercebo-me disso.
O Brutal e eu estávamos quase no primeiro degrau do alpendre quando a porta da frente se abriu de rompante, com tanta força que a aldraba de latão bateu contra a chapa. Ali
estava o Hal Moores, vestindo as calças do seu pijama azul e uma camisola interior sem mangas, com os cabelos grisalhos, de um tom ferroso, despenteados e espetados. Era um homem que fizera um milhar de inimigos no decurso da sua carreira, estando bem ciente desse facto. Firmemente empunhada na sua mão direita, com um cano invulgarmente longo que não apontava exactamente para o chão, encontrava-se a pistola que costumava estar pendurada acima da cornija da lareira. Era o tipo de arma que tinha um dispositivo de apoio para a outra mão quando se disparava, conhecida pelo nome de Ned Buntline Especial, e que pertencera ao seu avô; naquela ocasião (observei isto sentindo uma outra reviravolta nas entranhas) encontrava-se totalmente engatilhada.
- Quem diabo é que anda por aí às duas e meia da madrugada? - perguntou ele. Não detectei o mínimo receio na sua voz. E, pelo menos de momento, os seus tremores tinham
cessado. A mão que empunhava a arma mantinha-se firme que nem uma rocha. - Respondam-me ou... - O cano da pistola começou a erguer-se.
- Pare, director! - gritou o Brutal, erguendo as mãos com as palmas para cima na direcção do homem que empunhava a arma. Eu nunca tinha ouvido a sua voz com o timbro
que possuía naquela ocasião; era como se os tremores houvessem saído das mãos do Moores e, de uma maneira estranha, tivessem conseguido entrar na garganta do Brutos Ha well. - Somos nós! O Paul e eu, e... somos nós!
Ele deu o primeiro passo, de forma a que a luz do tecto do alpendre lhe incidisse directamente sobre o rosto. Aproximei-me. O olhar do Hal Moores ia de um para o outro; A determinação encolerizada deu lugar a uma enorme perplexidade - que é que estão a fazer aqui? - perguntou. - Não só estamos nas primeiras horas da madrugada, como também vocês deveriam estar de serviço. Eu sei que estão a trabalhar no turno da noite, tenho a escala dos turnos pendurada em cima da minha bancada na garagem. Portanto," o que é que, em nome de... oh, meu bom Jesus! Não me digam que se trata do confinamento dos presos por medidas de segurança? Ou de algum motim? - Olhou para nós; o seu olhar perscrutou mais atentamente. - Quem mais é que está junto daquela camioneta?
Deixa-me ser eu a conduzir a conversa. Isso fora o que eu dissera ao Brutal, mas agora, que tinha chegado a altura de começar a falar, nem sequer era capaz de abrir a boca. Nessa tarde, quando ia a caminho do trabalho, planeara cuidadosamente tudo o que tencionava dizer quando chegássemos ali, e pensara que nada daquilo dava a impressão de ser demasiado disparatado. Não era normal - nada naquela situação poderia ser apelidado de normal - mas talvez suficientemente próximo do que era normal, permitindo-nos transpor a porta e dando-nos uma oportunidade. Dar ao John uma só oportunidade. Mas, agora, todas as minhas palavras, tão cuidadosamente ensaiadas, se perdiam numa confusão incomensurável. Pensamentos e imagens - o Del a assar, o rato a morrer, o Pouca Terra a sacolejar no regaço da Velha Faísca, enquanto gritava que era um peru assado - revolteavam dentro da minha cabeça como areia apanhada num turbilhão de restolho seco. Acredito que no mundo exista o bem, toda essa força a fluir omnipresente de um Deus generoso. Mas também estou em crer que existe uma outra força, uma força tão presente como o Deus a quem tenho rezado ao longo de toda a minha vida que trabalha conscientemente com a finalidade de
não arrasar todos os nossos impulsos mais decentes. o Diabo, não estou a referir-me ao Diabo (embora acredite firm
emente que ele também existe), mas sim uma espécie de ser demoníaco da discórdia uma coisa estúpida e aberrantemente brincalhona, que se ri cheia de gáudio quando um velhote se
vê envolto em chamas ao chegar lume ao seu cachimbo ou quando uma criança muito amada coloca na boca
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o seu primeiro brinquedo do Natal e morre asfixiada. Tive muitos anos para pensar neste assunto, desde os tempos de Cold Mountain até à época de Georgia Pines, e estou em crer que essa força se encontrava a trabalhar activamente entre nós nessa madrugada, a revoltear por todo o lado como se fosse um manto de nevoeiro, tentando manter o John Coffey afastado da Melinda Moores.
- Director... Hal... eu... - Nada do que eu tentasse dizer tinha o mínimo de coerência.
Uma vez mais, ele começou a erguer a pistola, apontando-a para o espaço entre o Brutal e eu, sem ouvir fosse o que fosse. Os seus olhos raiados de vermelho tinham-se arregalado. E ali vinha o Harry Terwilliger mais ou menos empurrado pelo nosso matulão, o qual exibia o seu rasgado sorriso atoleimado e encantador.
- O Coffey! - exclamou o Moores entre dentes. - O John Coffey. - Susteve a respiração e gritou numa voz um tanto esganiçada mas portentosa. - Pára! Pára imediatamente, senão disparo!
Vinda de algures por detrás dele, ouviu-se uma voz feminina enfraquecida e trémula.
- Hal - chamou ela. - O que é que estás a fazer aí fora? Com quem é que estás a falar, meu caralho?
O Hal voltou-se na direcção da voz por breves momentos, mostrando uma expressão confusa e desesperada. Por breves momentos, tal como eu disse, mas que teriam sido o suficien te para eu poder apoderar-me da arma de cano comprido que ele empunhava. Só que fui incapaz de erguer as mãos. Tinha a impressão de que alguém as amarrara a pesos. A minha cabeça parecia estar cheia de estática, qual estação de rádio que tentasse efectuar as suas transmissões durante uma tempestade eléctrica. As únicas emoções que me recordo de ter sentido foram o medo e uma espécie de constrangimento por causa do Hal.
Entretanto, o Harry e o John chegaram ao fundo dos degraus. O Moores desviou a atenção do som da voz da mulher, erguendo a arma de novo. Mais tarde confirmou que sim, que
tivera intenção de alvejar o Coffey; suspeitara que todos nós éramos seus prisioneiros, e que o cérebro por detrás do que estava a acontecer se encontrava oculto na camioneta, emboscado a coberto da noite. Não compreendia por que motivo é que havíamos sido levados a sua casa, embora a vingança lhe
parecesse ser a probabilidade mais plausível.
Antes de ele poder disparar, o Harry Terwilliger avançou alguns passos, colocando-se em frente do Coffey, escudando-se quase completamente com o seu corpo.
- Não, director Moores! - disse ele. - Está tudo bem! Ninguém veio armado, ninguém vai ficar ferido, estamos aqui para ajudar! - Os espessos sobrolhos eriçados do Moores uniram-se. Os seus olhos coruscavam de fúria. Eu não conseguia afastar o olhar do revólver que ele continuava a manter engatilhado. - Ajudar o quê? Ajudar quem?"
Em resposta àquela pergunta, a voz da mulher de idade fez-se ouvir de novo, quezilenta, determinada e profundamente perdida.
- Vem já para dentro ver se a minha rata continua no lugar, meu filho da puta! Traz também os caras de cu dos teus amigos. Eles que façam fila!
Olhei para o Brutal, sentindo-me abalado até à alma. Eu já sabia que ela começara a dizer palavrões - que o tumor a fazia utilizar uma linguagem obscena - mas aquilo era mais do que isso. Muito mais.
- O que é que vocês vieram fazer aqui? - perguntou-nos o Moores de novo. A determinação que ele mostrara anteriormente tinha abandonado a sua voz.... os gritos trémulos da mulher eram os responsáveis por isso. - Não estou a compreender. Isto é uma fuga...
O John afastou o Harry para o lado - limitou-se a içá-lo do chão e a colocá-lo noutro lugar - e começou a subir os degraus do alpendre. Posicionou-se entre o Brutal e eu, tão gigantesco que quase nos empurrou para os lados, fazendo-nos ir contra as sebes de arbustos que eram sagradas para a Melly. O Moores soergueu os olhos para lhe seguir os movimentos, da mesma maneira que uma pessoa faria ao tentar ver a copa de uma árvore de grande porte. E subitamente, na minha mente o mundo ajustou-se com tudo no seu lugar. Aquele espírito de discórdia, que tinha perturbado os meus pensamentos como dedos poderosos a remexerem areia ou grãos de arroz desaparecera. Também pensei que compreendia por que motivo o Harry fora capaz de tomar a iniciativa, enquanto eu e o Brutal nos limitáramos a ficar ali, impotentes e indecisos em frente do nosso chefe. O Harry estivera junto do Coffey" e qualquer que fosse esse espírito que se opõe ao °utr°~ ao demoníaco, naquela noite esteve ao lado do John
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Coffey. E quando este avançou para enfrentar o director Moores, foi esse outro espírito - qualquer coisa branca, é a imagem que eu guardei disso, qualquer coisa branca ~ que se assenhoreou da situação, passando a dominá-la por com pleto. A outra coisa não se retirou, mas eu pude vê-la a refroceder como uma sombra envolta numa súbita luz cheia de intensidade.
- Eu quero ajudar - declarou o John Coffey. O Moores ficou a olhar para ele, olhar fascinado, a boca aberta. Quando o Coffey retirou da sua mão o revólver de cano comprido e
mo entregou, não me parece que o Hal se tenha dado conta de que já não o empunhava. Cuidadosamente, desengatilhei a arma. Mais tarde, quando examinei o carregador verifiquei que estivera sempre vazio. Às vezes pergunto a mim mesmo se o Hal teria estado ciente disso. Entretanto, o John continuava a murmurar: - Vim para a ajudar. Apenas para ajudar. É só o que eu quero.
- Hal! - gritou a Melinda da sala das traseiras. Naquele momento, a sua voz soava um pouco mais forte, como se a coisa que tanto nos havia confundido e desarmado se houvesse retirado para o interior do corpo dela. - Manda-os embora, quem quer que seja! Não precisamos de vendedores a meio da noite! Nada de Electrolux! Nada de Hoover! Nada de cuequinhas francesas! Corre com eles! Diz-lhes que se vão foder para... - Ouviu-se o som de algo a partir. Talvez um copo com água, e depois ela começou a chorar convulsivamente.
- Apenas para ajudar - repetiu o John Coffey num tom de voz que pouco mais era que um sussurro. Ignorou igualmente tanto o choro como a linguagem obscena da mulher. - Só para ajudar, chefe, mais nada.
- Não podes - replicou o Moores. - Ninguém pode ajudá-la. - Eu já ouvira anteriormente aquela voz e, momentos depois, compreendi que era igual à minha quando entrei
na cela do Coffey, na noite em que ele curou a minha infecção urinária. Como que hipnotizado. Preocupa-te com os teus assuntos, que eu preocupo-me com os meus, fora o que eu dissera ao Delacroix... Só que tinha sido o Coffey quem se preocupara com os meus assuntos, tal como naquela altura se preocupava com os do Hal Moores.


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- Nós pensamos que pode - interveio o Brutal. - E não arriscámos os nossos empregos... Só para virmos até cá e darmos meia volta, Sem sequer termos tentado.
O que nós não lhe dissemos foi que tanto ele como eu próprio estivéramos prontos a fazer isso mesmo, três minutos antes.	Entretanto, o John Coffe apoderara-se do espectáculo retirando-o das nossas mãos. Avançou até à entrada num passo determinado, passando pelo Moores, que ergueu uma mão flácida a fim de tentar detê-lo (roçou pela anca do Coffey e ficou descaída; tenho a certeza que aquele homem corpulento nem sequer sentiu o seu toque), e avançou pelo corredor em direcção à sala de estar e da cozinha, que se situava atrás desta, seguindo para o quarto das traseiras mais ao fundo, onde aquela voz esganiçada e irreconhecível se elevou de novo.
-Põe-te já daqui para fora! Quem quer que sejas, sai daqui para fora! Não estou vestida e tenho as tetas de fora e a minha rata está a apanhar ar!
O John não lhe prestou a mínima atenção, avançando imperturbável e de cabeça baixa para não quebrar qualquer das luzes do tecto; a pele do seu crânio castanho e de formas arredondadas brilhava, enquanto as mãos oscilavam ao longo do corpo. Após alguns momentos de hesitação, fomos atrás dele; eu seguia à frente, o Brutal atrás de mim e ao lado do Hal, e o Harry em último. Uma coisa eu compreendia perfeitamente: a partir daquela altura, a situação deixara de estar nas nossas mãos e passara para as do John.
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A mulher no quarto das traseiras, recostada contra a cabeceira da cama fitando de olhos esbugalhados o gigante que surgira no seu campo de visão pouco nítido, tinha poucas semelhanças com a Melly Moores que eu conhecia há vinte anos; nem com a Melly Moores que a Janice e eu havíamos visitado pouco antes da execução de Delacroix. A mulher que se encontrava sentada naquela cama parecia uma criança doente mascarada de bruxa. A sua pele lívida transformara-se numa massa pastosa e flácida cheia de rugas; tinha um tique ~na parte superior do olho direito, como se tentasse piscá-lo,
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enquanto esse mesmo lado da sua boca se mantinha descaído. Por cima do lábio inferior de uma tonalidade cirrosa havia um dente amarelado. Os seus cabelos eram uma nuvem desordenada e pouco espessa à volta do crânio. O quarto estava
empestado com o fedor das matérias de que o nosso corpo se descarta com decoro quando as coisas correm bem. O penico , , que se encontrava ao lado da cama, estava meio cheio de uma
substância amarelada e pastosa de aspecto nauseabundo. Havíamos chegado demasiado tarde, pensei eu, horrorizado. Tinham decorrido apenas alguns dias desde a altura em que ela ainda era uma mulher reconhecível - enferma, mas sem ter ~ perdido a sua identidade. Desde essa altura, a coisa no interior da sua cabeça deveria ter começado a disseminar-se a uma velocidade inacreditável, a fim de consolidar firmemente a sua posição. Não me parecia que o John Coffey tivesse poderes para a ajudar naquela situação.
A expressão da Melinda quando o Coffey entrou no quarto traduzia medo e horror - como se algo no seu íntimo houvesse reconhecido um médico que podia chegar-lhe e ar
rancá-la... polvilhá-la com sal, da mesma forma que se faz a a uma sanguessuga para que esta solte a sua presa. Prestem bastante atenção ao que vos digo: eu não estou a afirmar que a Melly Moores estivesse possessa, e apercebo-me de que, perturbado como estava nessa noite, todas as minhas percepções devem parecer um tanto ou quanto suspeitas. Mas nunca pus inteiramente de parte a probabilidade da existência de uma possessão demoníaca. Havia algo nos seus olhos, deixem-me que vos diga, algo que se assemelhava ao medo. Quanto a isso, penso que vocês podem confiar em mim; é uma emoção com que estou por de mais familiarizado para poder enganar-me.
Fosse o que fosse, desapareceu num ápice, tendo sido substituído por uma expressão de interesse vivaz e irracional. Aquela boca hedionda estremeceu no que poderia ter sido considerado o arremedo de um sorriso.
- Oh, tão grande! - gritou ela. O som da sua voz era u de uma garota com uma infecção grave na garganta. Retirou as mãos, cuja pele era de um branco tão esponjoso como a do
seu rosto, de debaixo da coberta da cama e começou a bater palmas. - Puxa as calças para baixo! Durante toda a minha vida ouvi falar do caralho dos negros, mas nunca vi um.
Atrás de mim, o Moores emitiu um gemido abafado de desespero.
~ John Coffey não prestava a mínima atenção ao que se passava em seu redor. Depois de se ter imobilizado por breves instantes, como se pretendesse observá-la de uma certa distância, aproximou-se da cama que se encontrava iluminada por um único candeeiro em cima da mesa-de-cabeceira. Projectava um círculo de luz bastante intensa sobre a colcha branca que estava puxada até à renda do decote da camisa
de noite da Melinda. Reparei na otomana que pertencia à sala de estar, e que se encontrava oculta pela sombra atrás da cama. Sobre esta havia um agasalho que a Melly havia tricotado com as suas próprias mãos, em dias mais felizes, meio descaído até ao chão. Era ali que o Hal tinha estado a dormir - pelo menos a passar pelas brasas - quando chegámos a sua casa.
À medida que o John se aproximava, a expressão da Melinda sofreu uma terceira transformação. Bruscamente, vi a Melly, cuja bondade tanto significado tivera para mim ao longo dos anos, e ainda mais para a Janice quando as crianças haviam abandonado o ninho e ela se sentira tão sozinha, triste e inútil. A Melly continuava interessada, mas agora o seu interesse parecia saudável e alerta.
- Quem és tu? - perguntou numa voz clara e coerente. - E porque é que tens tantas cicatrizes nas mãos e nos braços? Quem é que te fez tanto mal?
- Já nem me lembro como é que elas foram feitas, minha senhora - respondeu o John Coffey numa voz cheia de humildade, sentando-se junto dela à beira da cama.
A Melinda sorriu tão bem quanto lhe era possível - o canto arreganhado do lado direito da boca estremeceu, recusando-se no entanto a erguer-se. Pouco depois, tocou numa cicatriz esbranquiçada de formato curvo semelhante a uma cimitarra, que o Coffey tinha nas costas da mão esquerda.
- Mas que bênção isso é. Compreendes porquê? - perguntou ela.
- Acho que quando não sabemos quem nos fez mal, ou qual o cão que nos abocanhou, não ficamos acordados à noite - replicou o John Coffey no seu sotaque quase à maneira do Sul.
Ela riu-se ao ouvir aquilo, emitindo um som tão puro com° um fio de prata naquele quarto de doente de onde exalava um fedor tão intenso. O Hal estava ao meu lado; a sua respiração processava-se com alguma dificuldade mas ele não fazia qualquer menção de intervir. Quando a Melly se riu, a res
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piração acelerada do Moores susteve-se por breves instantes, respirou fundo e uma das suas mãos enormes fincou-se no meu ombro. Apertou-o com a força suficiente para deixar uma nódoa negra - dei por ela no dia seguinte - mas naquele momento mal senti o seu aperto.
- Como é que te chamas? - inquiriu ela. - John Coffey, minha senhora.
- Coffey, como a bebida.
- Sim, minha senhora, só que se escreve de maneira diferente.
Ela recostou-se contra as almofadas, o corpo semiergu¡do e sem despregar os olhos do Coffey. Este continuava sentado à sua beira, retribuindo-lhe o olhar; a luz projectada pelo candeeiro incidia sobre ambos, formando um círculo, como se
eles fossem actores no palco de um teatro - o corpulento homem de raça negra, com o fato-macaco da prisão, e a mulher de estatura pequena às portas da morte. Esta fitava os olhos do John com um enorme fascínio.
- Minha senhora?
- Sim, John Coffey? - Aquelas palavras mal haviam sido articuladas, chegando-nos aos ouvidos a muito custo na atmosfera nauseante. Senti os músculos a contraírem-se nos meus braços, pernas e costas. Algures, a uma grande distância, senti o director da prisão a apertar-me o braço e, pelo canto do olho, vi que o Harry e o Brutal tinham os braços à volta um do outro, quais crianças perdidas nas trevas da noite. Algo estava prestes a acontecer. Qualquer coisa grandiosa. Cada um de nós sentia aquilo à sua própria maneira.
O John Coffey debruçou-se mais para ela. As molas do colchão rangeram, a roupa da cama fez ruge-ruge e a Lua fria e sorridente filtrou os seus raios através da vidraça superior
da janela do quarto. Os olhos congestionados do Coffey observavam a face desfigurada que a Melinda soerguera. - Eu estou a vê-lo - disse ele. Não se dirigia a ela... pelo menos não me parece que o fizesse, falando consigo mesmo. - Estou a vê-lo, e sou capaz de impedir o mal. Esteja quieta... esteja muito quieta...
Debruçou-se ainda mais para a Melinda, cada vez mais próximo dela. Por um momento, o seu rosto deteve-se a menos de cinco centímetros do dela. Ergueu uma mão para o
lado, com os dedos abertos, como se dissesse a algo que aguardasse... que esperasse... e depois baixou de novo o rosto.
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Os seus lábios macios e carnudos fizeram pressão sobre os dela, forçando-os a entreabrirem-se. Por breves instantes, consegui ver um dos olhos da Melinda, fitando um ponto para lá do John Coffey, pleno de uma expressão do que me parecia ser surpresa. Em seguida, a cabeça lisa e calva do Coffey deslocou-se, impedindo-me a visão daquela cena.
Ouviu-se um sibilar suave quando ele inspirou o ar que estava no fundo dos pulmões dela. Isso foi tudo o que sucedeu durante um ou dois segundos, e em seguida o soalho deslocou-se abaixo de nós, enquanto toda a casa se agitava à nossa volta. Aquilo não fora fruto da minha imaginação; todos os outros sentiram a mesma coisa, como me disseram posteriormente. Era uma espécie de ruído abafado semelhante ao marulhar das águas. Depois, ouviu-se um estrondo quando tombou qualquer coisa pesada na sala de estar - mais tarde chegou-se à conclusão de que tinha sido o relógio de pêndulo. O Hal Moores tentou mandá-lo reparar, mas nunca mais voltou a dar horas por mais de quinze minutos de cada vez.
Mais próximo, ouviu-se um estalar seguido de um tinir, quando a vidraça da janela por onde tinham entrado os raios de luar se quebrou. Um dos quadros na parede - um navio de cruzeiro que atravessava um dos sete mares - caiu, tendo-se partido no chão; o vidro da moldura estilhaçou-se em mil fragmentos.
Chegou-me o cheiro de algo quente e vi fumo a evolar-se do fundo da coberta branca da cama que cobria a Melinda. Uma porção desta tinha enegrecido na saliência formada pelo seu pé direito. Sentindo-me como um homem no meio de um sonho, desprendi-me da mão do Moores e aproximei-me da mesa-de-cabeceira. Sobre esta havia um copo cheio de água, rodeado por três ou quatro frascos de comprimidos, os quais tinham tombado durante o estremeção que a casa sofrera. Agarrei no copo de água e despejei-a em cima do lugar de onde saía fumo. Ouviu-se um silvar.
O John Coffey continuava a beijá-la de uma forma envolvente e cheia de intimidade inspirando e voltando a inspirar, uma mão erguida para o lado, a outra sobre a cama, suportando todo o peso do seu corpo. Os dedos continuavam abertos; aquela mão fazia-me lembrar uma estrela-do-mar castanha.
Bruscamente as costas da Melinda arquearam-se. Uma das suas mãos agitou-se no ar com os dedos enclavinhados, os
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quais se abriam e fechavam numa série de espasmos. Os seus pés batiam contra a cama. Então algo soltou um grito. Uma vez mais, não fui o único a ouvir aquilo; os outros homens presentes também ouviram. Ao Brutal pareceu ser um lobo ou um coiote cuja pata tivesse ficado presa numa armadilha. A mim, deu-me a sensação de ser o grito de uma águia, ~ forma como nessa época elas por vezes se faziam ouvir nas manhãs remansosas, a voar por entre as brumas dos cumes com as asas rigidamente abertas.
Lá fora, o vento fazia ouvir as suas rajadas com força suficiente para agitar de novo a casa, o que, devo dizer-vos, era bastante estranho, uma vez que até então não se fizera sentir a mínima brisa.
O John Coffey afastou-se da Melinda e vi que as feições dela se tinham suavizado. O lado direito do seu rosto já não estava descaído. Os olhos haviam readquirido o seu formato natural; parecia ter rejuvenescido dez anos. Durante um ou dois momentos, o Coffey olhou-a com enlevo e depois começou a tossir. Virou a cabeça de forma a não tossir mesmo em frente do rosto da Melinda, perdeu o equilíbrio (o que não foi difícil; para começar, corpulento como ele era, tinha estado sentado durante o tempo todo com o traseiro meio fora da cama) e caiu no chão. O seu peso foi o suficiente para fazer estremecer a casa uma terceira vez. Caiu sobre os joelhos e deixou descair a cabeça sobre o peito, acometido por um ataque de tosse como se fosse um homem na última fase de uma tuberculose terminal.
Pensei: Agora é a vez dos insectos. Ele vai expeli-los da boca e desta feita terão de ser bastantes.
Apesar da minha expectativa, o Coffey não os deitou fora. Continuou a tossir em grandes arrancos, mal tendo tempo de conseguir respirar. A sua tez escura, da cor do chocolate, co
meçara a adquirir uma tonalidade acinzentada. Alarmado com aquilo, o Brutal dirigiu-se para junto do Coffey, deixando-se cair sobre um joelho ao seu lado e colocando um braço em redor das suas costas robustas atravessadas por espasmos.
Como se os movimentos do Brutal houvessem quebrado um encantamento, o Moores aproximou-se da cama da mulher, sentando-se no mesmo lugar onde o Coffey estivera sentado. Parecia não dar pela presença daquele gigante que continuava a tossir, meio sufocado. Embora o Coffey se encontrasse ajoelhado mesmo aos seus pés, o Moores só tinha olhos para
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a mulher e mais ninguém; esta fitava-o com uma expressão de perplexidade. Olhar para ela era o mesmo que olhar para um espelho que houvesse sido limpo.
~.John! - gritou o Brutal. - Vomita isso! Vomita isso como fizeste das outras vezes!
O John continuou com aqueles arrancos de tosse que quase o sufocavam. Tinha os olhos lacrimosos, não devido às lágrimas, mas sim ao esforço. Da boca começou a sair-lhe cuspo num jacto fino, apesar de não ter expelido mais nada.
O Brutal assentou-lhe duas palmadas nas costas e olhou para mim.
- Ele está a sufocar! Seja o que for que ele sugou dela, está a asfixiá-lo!
Avancei mas, antes de ter dado dois passos, o John afastou-se de mim, ajoelhado, e dirigiu-se para um canto do quarto, continuando a tossir violentamente e sentindo grandes dificuldades em respirar. Encostou a testa contra o papel de parede - rosas bravas vermelhas que pendiam do muro de um jardim - emitindo um som cavo hompilante, como se pretendesse vomitar o tecido que revestia o interior da sua própria garganta. "Se há alguma coisa que expulse os insectos, só poderá ser isto", recordo-me eu de ter pensado na altura, mas continuou a não haver quaisquer vestígios destes. Mesmo assim, aquele ataque de tosse deu a impressão de estar a abrandar um pouco.
- Eu estou bem, chefe - disse o John, continuando com a cabeça apoiada contra as rosas bravas. Tinha os olhos cerrados. Não sei bem como é que ele percebeu que eu me encontrava junto de si, mas não há dúvida que sabia. - A sério que estou. Vá ver se a senhora precisa de alguma coisa.
Com uma expressão duvidosa olhei para ele e virei-me para a cama. O Hal acariciava a testa da Melly, e acima dela avistei algo deveras surpreendente; alguns dos seus cabelos - não uma grande quantidade, mas somente uns quantos - tinham ficado negros.
- O que é que aconteceu? - perguntou ela ao marido. Enquanto eu a observava, as cores começaram a regressar-lhe às faces. Era como se houvesse roubado um par de rosas ao Papel de parede. - Como é que eu vim parar aqui? Nós íamos
a caminho do hospital em Indianola, não é verdade? Há um médico de lá que vai tirar radiografias à minha cabeça,
Para fotografar o meu cérebro.
- Chhüuuu - fez o Hal. - Chhüuuu, minha querida, nada disso interessa neste momento.
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- Mas eu não estou a compreender! - redarguiu e quase num gemido. - Nós parámos numa banca à beira da estrada... tu compraste-me um ramo de flores que custou
cêntimos... e depois... aqui estou eu. Já está escuro! Já jantaste, Hal. Porque é que eu estou deitada no quarto de hóspedes? Já me fizeram as radiografias? - Os olhos dela pousaram no Harry quase sem darem pela sua presença... imagino que aquilo se devesse ao choque... e depois fixaram-se em mim. - Paul? Já me fizeram a radiografia.
- Sim - disse-lhe eu. - Não encontraram nada ~ anormal.
- Não descobriram um tumor?
- Não - repliquei. - Os médicos disseram que o mais provável é as dores de cabeça começarem a desaparecer. Ao lado da mulher, o Hal explodiu num ataque de choro' A Melinda inclinou-se para a frente e beijou-lhe a fronte: Em seguida, o seu olhar focou-se no canto.
- Quem é aquele homem negro? Por que motivo é que ele está ali ao canto?
Voltei-me para trás e vi o John Coffey a tentar pôr-se de pé. O Brutal ajudou-o; com um último impulso do corpo para a frente, o John conseguiu erguer-se do chão. No entanto,
deixou-se ficar de rosto virado para a parede como se fosse um rapazinho que se tivesse portado mal. Continuava a tossir em espasmos, embora estes parecessem querer abrandar.
- John - chamei. - Vira-te para nós, matulão, e olha para esta senhora.
Lentamente, ele começou a virar-se. O seu rosto continuava da cor de cinza, aparentando ter envelhecido dez anos, como se fosse um homem que em tempos estivera cheio de for
ças e que por fim perdera uma longa batalha contra a doença que acabara por consumi-lo. Os seus olhos baixos olhavam para as pantufas da prisão. A sua atitude era a de alguém que desejava desaparecer por artes mágicas.
- Quem és tu? - perguntou-lhe a Melinda de novo. - Como é que te chamas?
- John Coffey, minha senhora - respondeu ele, ao que ela respondeu imediatamente:
- Mas que não se escreve como a bebida.
O Hal, que continuava ao lado da mulher, ficou estupefacto. A Melinda sentiu a reacção do marido e bateu-lhe na mão num gesto tranquilizador, sem despregar o olhar do homem de raça negra.
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- Sonhei contigo - continuou ela numa voz suave e sonhadora. - Sonhei que andavas perdido na escuridão, tal como eu. Encontrámo-nos.
O John Coffey continuou calado.
. Encontrámo-nos no meio da trevas - acrescentou a Melinda. - Levanta-te, Hal, estás a tolher-me os movimentos. O marido levantou-se, olhando com um olhar descrente enquanto ela afastava para trás a coberta da cama.
- Melly, tu não podes...
-Não digas disparates - retorquiu ela, descrevendo um movimento circular com as pernas por cima da cama. - Claro que posso. - Alisou a camisa de dormir, espreguiçou-se e levantou-se da cama.
- Meu Deus - murmurou o Hal. - Meu bom Deus que estais no céu, olhem bem para ela!
A Melinda dirigiu-se para o John Coffey. O Brutal manteve-se afastado dela, exibindo no rosto uma expressão de perplexidade. Ela vacilou um pouco ao dar o primeiro passo, um pouco menos ao dar o segundo e, em seguida, até essa hesitação desapareceu do seu andar. Naquele momento, ocorreu-me a imagem do Brutal a entregar o carretel colorido ao Delacroix dizendo: "Lança-o... quero ver como é que ele corre." O Mister Jingles tinha coxeado um pouco nessa altura, mas na noite seguinte, na noite em que o Del percorrera a Milha, o rato já estava óptimo.
A Melly colocou os seus braços em redor do John, abraçando-o. Este deixou-se ficar imobilizado por um momento, permitindo que o abraçassem e, pouco depois, ergueu uma mão, acariciando o topo da cabeça da Melinda. E fê-lo com uma suavidade infinita. A tez do seu rosto continuava acinzentada. Achei que ele tinha um aspecto terrivelmente adoentado.
Ela afastou-se mantendo o rosto erguido na direcção do dele.
- Muito obrigada.
- Não tem de quê, minha senhora.
A Melinda voltou-se para o Hal, regressando para junto dele. Este colocou-lhe um braço por cima dos ombros.
- Paul... - era a voz do Harry. Estendia o pulso direito na minha direcção, batendo no mostrador do relógio. Eram quase três da manhã. Por volta das quatro e meia a luz do dia
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começaria a despontar. Se pretendíamos que o Coffey regressasse a Cold Mountain antes do nascer do dia, teríamos de partir dentro em pouco. E eu queria que ele regressasse. Em parte porque, quanto mais aquela situação se prolongasse, menores seriam as hipóteses de conseguirmos que não dessem pela nossa falta, como era evidente. Mas para além disso, também queria que o John estivesse num lugar onde eu poderia, com toda a legitimidade, chamar um médico que o observasse, se necessário. Olhando para ele, achei muito provável que isso viesse a acontecer.
O casal Moores encontrava-se sentado na beira da cama com os braços à volta um do outro. Ainda pensei em pedir ao Hal que fôssemos até à sala de estar, para poder dar-lhe uma
palavrinha em particular, mas apercebi-me de que poderia esperar até as galinhas terem dentes e que naquele momento ele não se mexeria de onde estava. Talvez conseguisse afastar os olhos da Melinda - no mínimo, durante alguns segundos - quando o Sol começasse a despontar, mas não naquela altura. - Hal, temos de nos ir embora.
Ele acenou com a cabeça sem olhar para mim. Observava a cor nas faces da mulher, a curva natural e descontraída que os seus lábios formavam, os seus novos cabelos negros.
Bati-lhe no ombro com a força suficiente para lhe despertar a atenção, ainda que só por uns escassos momentos. - Hal, nós nunca estivemos em tua casa.
O quê?...
-- Nunca viemos aqui - continuei. - Mais tarde havemos de conversar, mas por agora é só o que necessitas de saber. Nunca viemos a tua casa.
- Sim, de acordo... - Fez um esforço para se concentrar em mim por alguns instantes, o que, nitidamente, foi bastante difícil. - Tiraste-o de lá, achas que conseguirás voltar a metê-lo lá dentro?
- Acho que sim. Talvez. Mas agora temos de nos pôr a andar.
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- Como é que soubeste que ele podia fazer isto? - Então, abanou a cabeça, como se compreendesse que aquela não era a altura mais oportuna para uma conversa daquele teor. Paul... muito obrigado.
- Não é a mim que tens de agradecer - repliquei. Agradece ao John.
O Hal olhou para o John Coffey e estendeu-lhe a mão, tal como eu tinha feito no dia em que o Harry e o Percy o escoltaram até ao bloco.
- Obrigado. Muitíssimo obrigado - agradeceu o Moores. O John ficou a olhar para aquela mão. O Brutal acotovelou-lhe o flanco de uma maneira pouco despercebida. O John mostrou-se sobressaltado e depois agarrou na mão, dando-lhe um aperto. Para cima, para baixo, de regresso ao centro e soltar.
-Não tem de quê -.disse o John ao homem que, no decorrer normal dos acontecimentos, agarraria numa caneta com aquela mesma mão, a fim de assinar a ordem de execução do John Coffey.
O Harry bateu uma vez mais no mostrador do seu relógio de pulso, desta feita com um gesto de maior urgência.
- Brute`? - chamei. - Estás pronto?
- Olá, Brutus - saudou a Melinda numa voz cheia de jovialidade, como se houvesse reparado na sua presença pela primeira vez. - É um prazer ver-te. Os cavalheiros gostavam de tomar uma chávena de chá? E tu, Hal? Eu posso prepará-lo. - Levantou-se outra vez. - Tenho andado um pouco adoentada, mas agora estou a sentir-me lindamente. Muito melhor do que há muitos anos a esta parte.
- Muito agradecido, Mistress Moores, mas temos de nos ir embora - retorquiu o Brutal. - Já passa da hora de o John ir para a cama. - Sorriu a indicar que se tratava de uma brincadeira, mas o olhar que lançou ao John expressava tanta ansiedade como a que eu próprio sentia.
- Bem... se têm a certeza...
- Sim, minha senhora. Vamos embora, Coffey. - Deu um pequeno empurrão no braço do John para que ele começasse a andar, o que este fez obedientemente.
- Esperem só um minuto! - exclamou a Melinda, soltando-se da mão do Hal correndo num passo ligeiro como o de uma rapariguinha em direcção ao John. Colocou os seus braços à volta dele e deu-lhe outro abraço. Em seguida, levou
a mão à nuca e desapertou um fio fino que retirou do interior do corpete. Na extremidade havia um medalhão de prata. Estendeu-o ao John, que olhou para a jóia com uma expressão de incompreensão.
- É a imagem de São Cristóvão - informou ela. - Quero que fiques com ela Coffey, e que a uses ao pescoço. Manter-te-á em segurança. Por favor, coloca-a ao pescoço, fá'lo por mim.
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Visivelmente perturbado, o John olhou para mim; por mi nha vez, olhei para o Hal, que primeiro abriu as mãos num gesto de impotência e depois assentiu com a cabeça.
- Aceita, John - disse eu. - É um presente para ti. O John aceitou o fio, enfiou-o pelo pescoço forte que nem o de um touro e colocou a medalha de São Cristóvão no interior da sua camisa. Naquele momento já tinha parado completamente de tossir, mas fiquei com a impressão de que parecia mais doente, com a pele mais lívida, do que em qualquer outra altura.
- Muito obrigado, minha senhora - agradeceu ele. - Não - replicou Melinda -, eu é que tenho de te agradecer. Muito obrigada, John Coffey.
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No caminho de regresso, fui sentado na cabina da camioneta, enquanto Harry ia atrás; sentia-me muito satisfeito por ir ali. O sistema de aquecimento estava avariado, mas pelo menos não nos encontrávamos em terrenos descampados. Já havíamos percorrido pouco mais de quinze quilómetros quando o Harry avistou um pequeno desvio, por onde entrámos.
- O que é que se passa? - perguntei. - É algum rolamento? - Na minha mente, o problema tanto poderia ser esse como qualquer outro componente do motor da Farmall, uma vez que o som que vinha da transmissão indicava que esta se encontrava à beira de ficar irremediavelmente avariada.
- Não - respondeu o Harry num tom de voz de quem se desculpava. - Só preciso de verter águas, mais nada. Tenho a bexiga quase a rebentar.
Acabámos todos por lhe seguir o exemplo, com a excepção do John. Quando o Brutal lhe perguntou se não gostaria de descer da camioneta para nos ajudar a regar o matagal, ele
limitou-se a sacudir a cabeça sem erguer o olhar para nós. Permanecia encostado à parte de trás da cabina, enrolado num dos cobertores do exército como se este fosse um poncho mexicano. Eu não conseguia deduzir nada pela cara dele; todavia, ouvia a sua respiração - seca e entrecortada, como
vento a soprar através de um canudo. Aquilo não me agradou nada.
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Caminhei até um maciço de salgueiros, desapertei a breguilha e deixei correr. Ainda não me encontrava suficientemente distanciado da minha infecção urinária para que a amnésia se tivesse assenhoreado inteiramente do meu corpo, e senti-me grato por conseguir apenas urinar sem ter vontade de gritar. Ali fiquei a esvaziar a bexiga enquanto olhava para a Lua; mal me tinha dado conta de que o Brutal se encontrava junto de mim, a fazer a mesma coisa que eu, até que ele começou a falar.
- Ele nunca se sentará na Velha Faísca.
Voltei-me na sua direcção, surpreendido e um pouco assustado pela certeza inexorável daquilo que a sua voz me transmitia.
- O que é que queres dizer com isso?
- Quero dizer que ele engoliu aquela coisa em vez de a ter cuspido, tal como das outras vezes, por qualquer razão que desconhecemos. É possível que leve uma semana... ele é muito corpulento e forte, mas aposto que será rápido. Um de nós fará a ronda habitual e lá estará ele, morto que nem uma pedra em cima da sua tarimba.
Pensei que tinha acabado de urinar, mas ao ouvir aquilo senti um arrepio a percorrer-me a espinha e urinei um pouco mais. Enquanto voltava a abotoar a breguilha, pensei que aquilo que o Brutal acabara de dizer era de uma racionalidade perfeita. E esperava, depois de tudo considerado, que ele tivesse razão. O John Coffey não merecia morrer de maneira nenhuma, caso eu estivesse certo nas conclusões a que chegara quanto à morte das garotas Detterick, mas, se ele viesse a morrer, não desejava que fosse pela minha mão. Não tinha a certeza de ser capaz de a erguer para o fazer, caso se chegasse a essa situação.
- Vamos embora - murmurou o Harry da escuridão. - Está a fazer-se tarde. Despachemo-nos com isto.
Enquanto caminhávamos para a camioneta, apercebi-me ~ que tínhamos deixado o John completamente sozinho - uma estupidez bem ao nível do Percy Wetmore. Pensei que talvez ele já houvesse desaparecido; que tivesse cuspido os insectos e, assim que se tivesse dado conta de que ninguém o vigiava, se fizesse aos vastos territórios, qual aventureiro do antigamente. Tudo o que encontraríamos seria o cobertor com que ele
se havia agasalhado.
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Contudo, ele continuava no mesmo lugar, sentado com as costas apoiadas contra a traseira da cabina e os antebraços pousados sobre os joelhos. Ao som dos nossos passos, o John
soergueu o olhar, tentando esboçar um sorriso. Aquele trejeito manteve-se suspenso por breves instantes no seu rosto acabrunhado, para logo depois desaparecer.
- Como é que te sentes, grande John? - perguntou o' Brutal, subindo para a traseira da pequena camioneta e enrolando-se no seu próprio cobertor.
- Estou óptimo, chefe - respondeu o John distraidamente. - Sinto-me muito bem.
- Dentro em pouco estaremos de regresso - acrescentou o Brutal, dando-lhe uma pequena palmada no joelho. _ E depois de termos tratado de tudo, sabes que mais? Vou certificar-me de que te arranjo uma grande caneca de café bem quente com natas e açúcar.
"Podes apostar que sim", pensei para comigo, dando a volta até à porta do lado do passageiro e entrando para a cabina. Isto é, se antes disso nós não formos apanhados e lançados para dentro de uma cela.
No entanto, como desde o momento em que fecháramos o Percy na cela do isolamento aquele pensamento não me largava, tal não me preocupou o suficiente para me manter acordado. Passei pelas brasas e sonhei com o Calvário. Com trovoada a oeste acompanhada de um cheiro que poderia ter sido de bagas de zimbro. O Brutal, o Harry, o Dean e eu próprio vestíamos roupas e chapéus de lata como se participássemos
num filme do Cecil B. Demille. Éramos centuriões, imagino eu. Havia três cruzes; o Percy Wetmore e o Eduard Delacroix ~ flanqueavam o John Coffey. Baixei o olhar até à minha mão e verifiquei que segurava num martelo ensanguentado.
Temos de o tirar dali, Paul!, gritava o Brutal. Temos de o tirar dali!
Só que isso não era possível; alguém tinha levado a estada de mão. Comecei a explicar isto mesmo ao Brutal, mas foi então que um sacolejo mais violento da camioneta me despertou. Estávamos a fazer marcha atrás no mesmo lugar onde ó Harry ocultara o veículo algumas horas antes, num dia que me dava a impressão de se ter distanciado até aos primórdios do tempo.
Saímos da cabina e demos a volta até à parte de trás. O Brutal desceu sem qualquer problema, mas os joelhos do
John Coffey foram-se abaixo e ele esteve prestes a cair no chão. Foi preciso que nós três o tivéssemos amparado, e, mal se encontrava de novo de pé, foi acometido por outro dos seus ataques de tosse, sendo este o mais grave de todos. Dobrou-se sobre si mesmo, levando a mão à boca e premindo com força, a fím de abafar a tosse.
Quando a tosse lhe passou um pouco, cobrimos uma vez mais a dianteira da Farmall com ramadas de pinheiro, tendo começado a percorrer o caminho por onde viéramos horas antes. A pior parte de toda aquela escapadela surrealista foi constituída - pelo menos para mim - pelos últimos duzentos metros, em que quase corremos em direcção a sul, ao longo da berma da estrada. Conseguia ver (ou imaginei que via) no céu os primeiros clarões do amanhecer e tive a certeza de que qualquer lavrador mais madrugador, já nas suas terras para colher as abóboras, ou para apanhar as últimas batatas-doces deixadas nos sulcos onde as semeara, nos surgiria pela frente não podendo deixar de dar pela nossa presença. E ainda que isso não viesse a acontecer, iríamos ouvir alguém (na minha imaginação era a voz do Curtis Anderson) a gritar: "Parem imediatamente!" no momento em que eu usava a chave Aladino para abrir o portão da cerca que dava acesso ao túnel. Em seguida, apareceriam duas dúzias de guardas, empunhando carabinas, que entrariam pelo arvoredo, dando a nossa pequena aventura por terminada.
Na altura em que realmente chegámos à vedação, o meu coração pulsava com tal violência que eu conseguia ver pequenos pontos de luz a explodir em frente dos meus olhos, acompanhando cada uma das suas pulsações. Sentia as mãos geladas e entorpecidas, dando-me a sensação de que não me pertenciam, e, durante um período de tempo que me pareceu ser infinito, não fui capaz de inserir a chave na fechadura.
- Oh, Jesus Cristo, luzes de faróis! - exclamou o Harry num gemido.
Ergui o olhar e avistei feixes de luz intensa na estrada. O molho de chaves esteve quase a cair-me das mãos; consegui agarrá-lo no último instante.
- Dá-me as chaves - disse o Brutal. - Eu abro o portão. -Não é necessário, já consegui - retorqui. Finalmente, a chave entrou na ranhura e eu fi-la girar. Momentos depois já nos encontrávamos do lado de dentro. Agachámo-nos por trás do portão levadiço, observando um camião de trans-
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porte do pão a passar pela penitenciária. Mesmo ao meu lado ouvia a respiração torturada do John Coffey. Soava como fosse um motor que estivesse prestes a acabar-se-lhe o óleo Quando saímos da prisão, ele tinha segurado o portão para nós passarmos, sem ter demonstrado o mínimo esforço, mas daquela vez nem sequer nos passou pela cabeça pedir-lhe que nos ajudasse; isso estava completamente fora de questão, O Brutal e eu conseguimos abrir o portão enquanto o Harry conduzia o John pelas escadas abaixo. O homem corpulento caminhava num passo hesitante, mas ainda assim conseguiu descer os degraus. O Brutal e eu passámos pelo portão depois dele tão rapidamente quanto possível, depois baixámo-lo e fechámo-lo de novo à chave.
- Bolas, tenho a impressão de que vamos... - começou o Brutal a dizer, mas eu interrompi-o com uma violenta cotovelada nas costelas.
- Não te atrevas a dizê-lo - proferi eu. - Nem sequer penses nisso até ele se encontrar em segurança dentro da sua cela.
- E ainda temos de nos preocupar com o Percy - acrescentou o Harry. As nossas vozes ressoavam com uma vibração cava no túnel de tijolos. - A madrugada só terminará depois de termos tratado dele.
Pela forma como os acontecimentos vieram a desenrolar-se, verificámos que a nossa madrugada estava muito longe de ter chegado ao fim.
Parte Seis
O COFFEY PERCORRE A MILHA


Encontrava-me eu sentado no solário de Georgia Pines, com a caneta de tinta permanente do meu pai em riste, e o tempo perdeu todo o sentido para mim, quando me recordei da noite em que o Harry, o Brutal e eu levámos o John Coffey para fora da Milha, até junto da Melinda Moores, para tentar salvar-lhe a vida. Já escrevi acerca da forma como drogámos o William Wharton, o qual se julgava a reencarnação do Billy the Kid; também já descrevi como é que pusemos o Percy no colete-de-forças, tendo-o enclausurado na cela do isolamento situada ao fundo da Milha Verde; da mesma maneira, narrei a nossa estranha jornada a coberto da noite - que tanto teve de aterrador como de empolgante - e o milagre que nos envolveu a todos quando esta chegou ao fim. Vimos o John Coffey arrancar uma mulher, não só da beira da sua sepultura, mas também daquilo que dava a impressão de ser o seu fundo.
Também escrevi sobre a minha percepção da vida que existia à minha volta em Georgia Pines. As pessoas de idade desciam para o jantar, depois dirigiam-se todas para o Centro Recreativo (sim, pode esboçar um sorriso de troça), para a sua dose de programas de comédia do serão apresentados pelas grandes cadeias televisivas. Acho que me recordo de a minha amiga Elaine me trazer uma sanduíche, e de eu lhe ter agradecido, tê-la comido, mas não posso dizer-vos a que horas da noite é que ela ma ofereceu, nem tão-pouco de que é que era. A maior parte de mim encontrava-se em 1932, ano ~ que as nossas sanduíches eram habitualmente transportadas no carrinho de merendas, coberto com as inscrições dos Evangelhos do velho Pouca Terra, carne de porco a cinco centimos e'carne em conserva a dez cêntimos.
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Lembro-me da altura em que o lar começava a ficar sossegado à medida que as relíquias que ali residiam se preparavam para outra noite de sono agitado e pouco prolongado
ouvi o Mickey - que talvez não fosse o melhor auxiliar daquele lugar, mas que sem dúvida alguma era o mais simpático ,, a cantar Red River Valley na sua voz de tenor, enquanto distribuía os medicamentos que as pessoas tinham de tomar à noite: apeste vale, dizem que vais partir... Teremos saudades dos teus olhos brilhantes e do teu doce sorriso..." Uma vez mais, aquela canção trouxe-me a Melinda à memória, assim como o que ela dissera ao John depois do milagre ter ocorrido. Sonhei contigo. Sonhei que andavas perdido na escuri_ dão, tal como eu. Encontrámo-nos.
O silêncio apoderou-se do lar Georgia Pines; a meia-noite chegou e passou, e eu continuei a escrever. Cheguei à altura em que o Harry nos chamou a atenção para o facto de que,
embora houvéssemos conseguido levar o John de regresso à prisão sem termos sido apanhados, continuávamos a ter o Percy à nossa espera. "A madrugada só terminará depois de termos tratado dele", foi mais ou menos o que ele disse na altura.
Foi nesse ponto que aquele longo dia passado a escrever com a caneta do meu pai me levou a melhor. Pousei-a - pensei que só por alguns segundos, de forma a poder impri mir um pouco mais de energia aos meus dedos tensos - e então apoiei a cabeça sobre o braço, cerrando os olhos para lhes dar algum descanso. Quando voltei a abri-los e ergui a cabeça, o sol da manhã banhava-me entrando através das ~anelas. Olhei para o relógio, verificando que já passava das oito horas. Tinha dormido, com a cabeça sobre os braços, qual bêbedo envelhecido, durante o que deveriam ter sido seis horas. Levantei-me da cadeira, entorpecido, e espreguicei-me, tentando injectar um pouco de vigor nas minhas costas. Pensei em descer até à cozinha, para arranjar algumas torradas antes de iniciar o meu passeio matinal. Mas foi então que olhei para a grande quantidade de folhas de papel já escritas e espalhadas pela mesa. Sem qualquer hesitação, decidi adiar o passeio por algum tempo. Sim, de facto eu tinha uma tarefa a cumprir, mas esta poderia esperar, para além de que naquela manhã não me apetecia brincar às escondidas com ° Brad Dolan.
Em vez de ir passear, estava decidido a terminar a minha
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história. Em certas circunstâncias é preferível darmos cumprimento ao que temos pela frente, apesar de a nossa mente e o corpo poderem protestar. Por vezes, essa é a única maneira de atingir um objectivo. Aquilo que mais fortemente ficou
gravado no meu pensamento quanto a essa manhã foi a forma desesperada como eu queria libertar-me do fantasma persistente do John Coffey.
. Muito bem - disse eu para comigo mesmo. - Uma milha mais. Mas primeiro...
Fui à casa de banho situada ao fundo do .corredor do segundo andar. Enquanto urinava, lancei, por acaso um olhar ao detector de fumos instalado no tecto. Isso fez-me pensar na Elaine, na maneira que ela arranjara para distrair o Dolan, para eu poder dar o meu passeio e cumprir a minha pequena tarefa no dia anterior. Acabei de urinar com um sorriso arreganhado.
Regressei ao solário, sentindo-me melhor (e muito mais confortável nas minhas partes baixas). Alguém - a Elaine, não me restava a mais pequena dúvida - colocara sobre a mesa um bule cheio de chá, perto das minhas folhas. Bebi com avidez, primeiro uma chávena e logo outra, mesmo antes de me sentar. Retomei o meu lugar, tirei a tampa à caneta de tinta permanente e, uma vez mais, recomecei a escrever.
Estava eu prestes a embrenhar-me de corpo e alma na minha história quando se projectou uma sombra sobre mim. Ergui o olhar e senti uma reviravolta nas entranhas. Era o Dolan, que se colocara entre mim e as janelas. Exibia um grande sorriso arreganhado.
- Senti a falta do teu passeio matinal, Paulie - comentou ele, mordaz. - Por isso, pensei em vir até aqui para ver o que andavas a fazer. Para me assegurar de que não estavas doente.
- Tens um coração imenso - repliquei. A minha voz era firme, pelo menos até ao momento, mas o meu coração batia descontroladamente. Eu tinha medo dele e não me parece que isso fosse novidade. Embora ele me lembrasse o Percy Wetmore, eu nunca sentira receio deste... Mas, quando conheci o Percy, eu ainda era novo.
O sorriso do Brad alargou-se, embora não se tenha tornado menos desagradável.
- Algumas pessoas disseram-me que passaste toda a noite aqui, Paulie, a escrever o teu pequeno relatório. Vamos lá a
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ver, isso não é muito bom. Os velhos jarretas como tu necessitam do seu sono de beleza.
- Percy... - comecei a dizer, mas então avistei um jeito no seu sorriso arreganhado e apercebi-me do meu erro. Respirei fundo e recomecei. - Brad, o que é que tem contra mim?
Por breves momentos, ele mostrou uma expressão intrigada, talvez até mesmo de insegurança. Mas pouco depois a careta risonha regressou.
- Meu velho - redarguiu ele -, é possível que seja apenas o facto de eu não gostar da tua cara. Seja como for, que é que estás para aí a escrevinhar? O último testamento quanto aos teus testículos?
Aproximou-se, elevando-se acima de mim. Coloquei vigorosamente a mão sobre a folha em que estivera a escrever e comecei a reunir as outras com a mão livre, amachucando
algumas com a pressa de as colocar debaixo do braço, em segurança.
- Ora vamos lá a ver - continuou ele como se falasse para uma criança -,isso não vai resultar, minha velha doçura. Se o Brad quiser ver, o Brad vai ver. E até podes levar essa merda para o cofre de um banco.
A sua mão, jovem e hediondamente forte, cerrou-se em redor do meu pulso e começou a apertar. As dores apoderaram-se da minha mão como se fossem dentes; soltei um gemido.
- Larga-me o pulso - disse eu a custo.
- Quando me deixares ver isso - replicou ele. Deixara de sorrir. No entanto, a expressão no seu rosto era de jovialidade; a espécie de júbilo que se vê apenas nos rostos dos in
divíduos que gostam de infligir mal aos outros. - Deixa-me ver, Paulie. Quero saber o que é que andas a escrever. A minha mão começou a afastar-se da página do topo. Era nessa em que eu narrava a nossa jornada de regresso com o John, através do túnel sob a estrada. - Quero ver se tem alguma coisa a ver com o sítio onde tu...
- Deixe esse homem em paz.
Aquela voz era como o vergastar de um chicote num dia quente e seco... e, pela forma como o Brad Dolan saltou, poder-se-ia pensar que o alvo da zurzidela fora o seu traseiro. Largou imediatamente a minha mão e esta tombou contra as folhas de papel; ambos olhámos para a porta.
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A Elaine Connelly estava junto à ombreira, mostrando um aspecto mais fresco e vigoroso do que aquele que eu vira em muitos dias. Usava umas calças de ganga que deixavam ver os contornos das suas ancas magras e pernas alongadas; tinha os cabelos presos por uma fita azul. Nas suas mãos atacadas pela artrite havia um tabuleiro - continha sumo, um ovo mexido, uma torrada e mais chá. Os seus olhos chamejavam. - O que é que você pensa que está a fazer? - perguntou o Brad. - Ele não pode comer aqui.
. Pode e é isso mesmo o que vai fazer - respondeu ela no mesmo timbre de voz seco e cheio de autoridade. Eu nunca lhe tinha ouvido aquela entoação de voz, mas naquele momento foi muito bem-vinda. Procurei detectar algum vestígio de receio nos seus olhos, mas não vi nada... Neles só adivinhava raiva. - E o que você vai fazer é pôr-se a andar daqui para fora antes que passe da fase de uma simples barata incomodativa à de um verme ligeiramente maior... digamos, de Ratos americanus.
O Brad deu um passo na direcção da Elaine, parecendo simultaneamente inseguro e furioso. Aquela combinação era perigosa; todavia, a Elaine não vacilou por um segundo quando ele se aproximou.
- Aposto que sei quem é que accionou o raio daquele detector de fumos - acrescentou o Dolan. - O mais certo é ter sido uma determinada cabra velha que tem garras em lugar de mãos. Agora ponha-se a andar daqui para fora. O Paulie e eu ainda não concluímos a nossa pequena conversa.
- O nome dele é Mister Edgecombe -ripostou ela -, e se eu voltar a ouvi-lo tratá-lo por Paulie mais alguma vez, tenho a impressão de que posso garantir-lhe que os seus dias de trabalho em Georgia Pines terão chegado ao fim, Mister Dolan.
- Mas quem é que você julga que é? - perguntou ele à Elaine. Naquele momento, a sua figura corpulenta sobrepunha-se à dela, e tentava rir-se, mas sem grande êxito.
- Julgo , começou ela a dizer com muita calma - que sou a avó do homem que presentemente é o porta-voz da Câmara de Deputados da Jórgia. Um homem que adora os seus ~miliares, Mister Dolan. Muito em especial, os seus familiares mais idosos.
O sorriso desenhado a muito custo sumiu dos lábios do homem, da mesma forma que o giz desaparece de uma ardó
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sia. Vi incerteza, a possibilidade de estar a ser enganado receio de que não fosse esse o caso, e o nascer de uma su~ sição lógica: seria bastante fácil verificar a veracidade da afirmação, porque, ela deveria sabê-lo bem, logo, estava a dizer a verdade.
Subitamente, desatei a rir e, embora o meu riso estivesse bastante emperrado, não deixava de ser adequado. Recordo-me das inúmeras vezes em que o Percy Wetmore nos ameaçara, invocando os seus conhecimentos. Agora, pela primeira vez ao longo da minha extensa vida, ouvia essa ameaça ser proferida uma vez mais... mas, daquela feita, em meu beneficio.
O Brad Dolan olhou para mim com uma expressão coroscante e depois voltou a concentrar a sua atenção na Elaine. - Estou a falar a sério - disse ela. - De início, ainda pensei em não interferir... já estou velha e essa atitude pareceu-me ser a mais fácil. Mas quando vejo os meus amigos a serem maltratados e ameaçados, não deixo ficar as coisas como estão. Agora, saia daqui sem proferir uma só palavra que seja.
Os lábios do Dolan movimentavam-se como os de um peixe... Oh, como ele desejava proferir só mais uma palavra (talvez aquela que rima com macabra). No entanto, não se atreveu. Lançou-me um último olhar, passou pela Elaine com brusquidão e saiu para o corredor.
Soltei a respiração num suspiro longo e entrecortado, enquanto ela colocava o tabuleiro à minha frente e se sentava no lugar oposto ao meu.
- O teu neto é realmente o porta-voz da Câmara de Deputados? - perguntei.
- É - respondeu-me ela.
- Nesse caso, o que é que estás a fazer aqui?
- O facto de o meu neto ser o porta-voz de um organismo estatal dessa importância dá-lhe poder suficiente para lidar com um verme como o Brad Dolan mas não o torna rico' explicou ela com uma gargalhada. - Além do mais, gosto de viver aqui. A companhia agrada-me bastante.
- Vou aceitar as tuas palavras à guisa de um cumprimento - disse eu, o que era verdade.
- Paul, estás bem? Pareces tão cansado. - A Elaine estendeu a mão e afastou-me os cabelos da testa e das sobrancelhas. Os seus dedos estavam contorcidos, embora o seu to-
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que fosse maravilhoso, e de uma grande frescura. Por breves momentos, cerrei os olhos. Quando voltei a abri-los já tinha tomad° uma decisão.
. Estou óptimo - repliquei. - Estou quase a chegar ao fim da minha escrita. Elaine, gostarias de ler uma coisa? Ofereci-lhe as páginas que tinha reunido desajeitadamente. O mais provável era terem perdido a sequência certa - de facto, o Dolan conseguira assustar-me bastante - mas uma vez que haviam sido numeradas, a Elaine poderia voltar a colocá-las facilmente na devida ordem.
Ela observou-me com ar pensativo, sem contudo aceitar o que eu lhe oferecia. Pelo menos, de momento.
- Já acabaste?
- Vais precisar da tarde toda para ler tudo o que já escrevi - disse-lhe eu. - Isto é, se fores capaz de decifrar a minha letra.
Naquele momento, ela aceitou as folhas, olhando para as páginas manuscritas.
- Tens uma letra muito cuidada, ainda que as tuas mãos estejam obviamente fatigadas - observou ela. - Não terei qualquer problema em ler o que escreveste.
- Quando tiveres acabado, já eu terei passado para o papel a parte que ainda me falta - acrescentei. - Poderás ler o resto dentro de mais ou menos trinta minutos. E então... se continuares interessada e quiseres... gostaria de te mostrar uma coisa.
- Isso terá alguma relação com o lugar onde costumas ir na maior parte das manhãs e tardes?
Acenei afirmativamente.
Elaine meditou naquilo durante o que me pareceu ser uma eternidade e depois fez um acenar de cabeça e levantou-se da cadeira com as páginas escritas na mão.
- Vou sentar-me nas traseiras - disse ela. - Esta manhã o sol está muito quente.
- E o dragão foi derrotado - retorqui. - Desta vez pela
gentil dama.
A Elaine sorriu debruçou-se sobre mim e beijou-me naquele ponto sensível que me provoca sempre um arrepio de prazer.
- Esperemos que sim - redarguiu ela -, mas a minha experiência diz-me que os dragões como o Brad Dolan são muito difíceis de desaparecer. - Teve um momento de hesi-
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tação. - Boa sorte, Paul. Só espero que consigas derrotar o que quer que seja que te tem vindo a atormentar. - Também eu espero que sim - declarei eu, pensando no John Coffey. Eu não consegui impedir o mal, dissera ele. Tentei, mas já era demasiado tarde.
Comi os ovos mexidos que a Elaine me trouxera, bebi o sumo e deixei a torrada para mais tarde. Em seguida, agarre¡ de novo na caneta e recomecei a escrever, pelo que esperava ;
viesse a ser a última vez. Uma última milha. Uma milha verde.
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~: E se isso não resultar, agacha-te no sítio onde calculas que ele vai cair, para lhe amortecer a queda - acrescentou o Brutal.
. Credo! - exclamou o Harry numa voz murcha. - Devias.estar no mundo do espectáculo, Brute, pois consegues ter muita graça:
- Sem dúvida que tenho sentido de humor - admitiu o
Bruto e no fim, lá conseguimos levar o John pelas escadas acima. A minha maior preocupação era a probabilidade de ele vir a desmaiar,. mas tal não se verificou.
- Vai até à sala da arrecadação e vê se não está lá ninguém -disse eu ao Harry, respirando com dificuldade.
- E se não estiver, o que é que devo dizer? - perguntou o Harry, agachando-se para poder passar por baixo do meu braço. - "Ninguém à vista!" e depois dou um salto até aqui?
- Não te armes em chico-esperto - disse-lhe o Brutal. O Harry entreabriu um pouco a porta e espreitou. Fiquei com a sensação de que esteve naquela posição durante muito tempo. Por fim, afastou a cabeça para trás, apresentando uma expressão quase jovial.
-Ninguém à vista. Está tudo tranquilo.
- Esperemos que as coisas se mantenham assim - retorquiu o Brutal. - Vamos lá, John Coffey, já estás quase em casa.
Conseguiu atravessar a arrecadação pelo seu próprio pé, embora tivéssemos de o ajudar a subir os três degraus até ao meu gabinete, e depois quase o empurrássemos para que transpusesse a porta baixa. Quando voltou a pôr-se de pé, a sua respiração era estertorosa e os seus olhos tinham uma expressão vitrificada. E - reparei eu com verdadeiro horror - a parte direita da sua boca arrepanhara-se para baixo, assemelhando-se à deformidade de que a Melinda sofrera.
O Dean deu pela nossa chegada e aproximou-se vindo da mesa no outro extremo da Milha Verde.
- Graças a Deus! Pensei que nunca mais voltavam; quase julguei que tinham sido apanhados, ou que o director se havia virado contra vocês ou ainda que.. - interrompeu-se reparando no John pela primeira vez desde que se aproximara de nós. - Deus nos valha, o que é que ele tem? Parece que está a morrer!
Ele não está a morrer... pois não, John? - perguntou o Brutal. O seu olhar transmitiu uma advertência ao Dean.
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Nessa madrugada, quando levámos o John Coffey de volta ao Bloco E, a maca foi uma necessidade em vez de um luxo. Duvido muito que ele houvesse sido capaz de percorrer o
túnel pelo seu próprio pé; exige mais energia caminhar agachado do que a direito, e aquele tecto era diabolicamente baixo para qualquer pessoa da altura do John Coffey. Não me agradava nada a ideia de ele poder ir-se abaixo naquele lugar. Como justificaríamos nós a sua presença ali e a razão por que havíamos metido o Percy na casaca de cerimónia dos loucos, para depois o enclausurarmos na cela do isolamento?
No entanto, tínhamos a maca - graças a Deus - e o John Coffey deitou-se nela como se fosse uma baleia acabada de dar à costa, enquanto o empurrávamos pelos degraus que
davam para a arrecadação. Saiu da maca a cambalear e ficou de cabeça baixa, a respirar com dificuldade. A sua pele tinha uma tonalidade tão acinzentada que dava a impressão que ele se havia rebolado por um monte de farinha. Eu estava convencido de que por volta do meio-dia já ele teria dado entrada na enfermaria... isto é, se não tivesse morrido já a essa hora.
O Brutal lançou-me um olhar acabrunhado e desesperado. Retribuí-lhe com outro parecido.
- Não somos capazes de carregar com ele para cima mas podemos ajudá-lo - disse eu. - Tu colocas-te debaixo do braço direito dele e eu do esquerdo.
- E eu? - perguntou o Harry.
- Tu vens atrás de nós e, se te parecer que ele vai tom' bar para trás, dás-lhe um empurrão para a frente.
- Claro que não, eu não quis dizer que ele estivesse realmente a morrer - corrigiu o Dean com um pequeno sorriso de nervosismo. - Mas que coisa...
- Acaba com isso - intervim eu. - Ajuda-nos a levá_lo para a cela.
Uma vez mais, não passávamos de pequenas colinas que circundavam uma montanha, só que naquele momento a montanha tinha sofrido alguns milhões de anos de erosão e estava
bastante curvada e fraca. O John Coffey caminhava com lentidão, respirando através da boca como um homem de idade que fumasse em demasia, mas, pelo menos, deslocava-se pelo seu próprio pé.
- E quanto ao Percy? - perguntei. - Ele tem estado aos pinotes?
.	- Ao principio, sim - respondeu o Dean. - Tentava gritar através da fita-cola com que lhe tapaste a boca. E praguejou.
- Que Deus nos valha! - atalhou o Brutal. - Ainda foi uma boa coisa os nossos ouvidos sensíveis terem estado algures que não aqui.
- Desde então, tem-se limitado a dar um coice de mula, de vez em quando, contra a porta. - O Dean parecia tão aliviado por nos ver que quase balbuciava incoerentemente. Os óculos escorregaram-lhe para a ponta do nariz, que brilhava devido ao suor, e ele empurrou-os para cima. Passámos pela cela do Wharton. Aquele jovem sem préstimo algum encontrava-se deitado de costas, a ressonar como uma tuba. Naquela ocasião, não restava a mínima dúvida de que os seus olhos estavam fechados.
O Dean reparou em mim a olhar para o interior daquela cela e riu-se.
- Esse tipo não arranjou problemas! Desde que se deitou na tarimba que não voltou a mexer-se. Tem estado como morto para o mundo. Quanto ao Percy ter dado alguns pontapés à
porta de quando em vez, isso nunca chegou a incomodar-me muito. Para vos dizer a verdade, até me senti satisfeito com isso. Se ele não fizesse barulho nenhum, teria começado a perguntar a mim mesmo se ele não teria sufocado com a mordaça. Mas isso não foi o melhor. Sabem o que é que foi o melhor? Isto por aqui tem estado tão tranquilo como uma manhã de Quarta-Feira de Cinzas em Nova Orleães! Durante a noite ninguém veio cá abaixo! - O Dean disse as últimas pa
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laves numa voz de triunfo cheia de regozijo. - Conseguimos executar o nosso plano, rapazes! Missão cumprida! Aquilo fê-lo lembrar-se do motivo por que havíamos decidido levar a cabo toda aquela comédia, e perguntou pela Melinda.
Está óptima - respondi. Entretanto, chegáramos à cela do John. Aquilo que o Dean dissera tinha começado a penetrar nos nossos pensamentos: Conseguimos executar o nosso plano, rapazes". Missão cumprida.
- Foi como... Vocês sabem o que quero dizer... Como com o rato? - inquiriu o Dean. Lançou um "rápido olhar para a cela vazia onde o Delacroix vivera com o Mister Jingles e em seguida olhou para a cela do isolamento, a qual parecera ter sido o ponto de proveniência do rato. Baixou a voz, da mesma maneira que as pessoas costumam fazer ao entrar numa igreja espaçosa, onde até mesmo o silêncio dá a impressão de sussurrar. - Foi um... - O Dean interrompeu-se, engolindo em seco. - Uma coisa repentina. Vocês percebem o que quero dizer... assim como um milagre?
Nós os três, os que haviam estado presentes, entreolhámo-nos por breves instantes.
- O que ele fez foi arrancá-la ao raio da sepultura - disse o Harry. - Sim, podes ter a certeza de que se tratou de um autêntico milagre.
O Brutal abriu a fechadura dupla da porta da cela e deu ao John um empurrão suave para que este avançasse.
- Vamos lá a entrar, matulão. Descansa um pouco. Nós só vamos tratar do Percy...
- Ele é um homem mau - atalhou o John em voz baixa com uma entoação monocórdica.
- Isso é uma grande verdade, sem dúvida, é mau como ~ bruxo - concordou o Brutal no seu tom de voz mais tranquilizador - mas não tens de te preocupar com ele, pois não permitiremos sequer que ele se aproxime de ti. Só tens de te deitar confortavelmente na tua tarimba, e eu vou preparar num instante aquela caneca com café que te prometi. Bem quente e forte. Vais sentir-te um novo homem.
O John sentou-se pesadamente sobre a tarimba. Pensei que ele se estenderia ao comprido e se voltaria para a parede, como era hábito; contudo, limitou-se a ficar sentado, com os dedos entrelaçados de forma lassa entre os joelhos, de cabeça baixa e a respirar pela boca com dificuldade. A medalha do
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São Cristóvão, que a Melinda lhe oferecera, saíra da abertura do pescoço da camisa e oscilava, suspensa no ar, de um lado para o outro. "Manter-te-á em segurança", dissera-lhe ela mas o certo é que o John Coffey não parecia estar nada em segurança. Pelo contrário, dava a impressão de ter tomado o lugar da Melinda à beira da sepultura de que o Harry falara,
Todavia, naquela altura, eu não podia dedicar a minha atenção ao John Coffey. Virei-me para os outros.
- Dean, vai buscar a pistola e o bastão do Percy.
- De acordo. - Dirigiu-se para a secretária e abriu a gaveta fechada à chave onde aqueles objectos haviam sido guardados, trazendo-os para onde nos encontrávamos.
- Estão prontos? - perguntei. Os meus homens... bons homens, e eu nunca me tinha sentido tão orgulhoso deles como naquela noite... acenaram afirmativamente. O Harry e o
Dean mostravam um certo nervosismo; o Brutal mantinha-se firme como sempre. - Muito bem, serei eu a conduzir a conversa. Quanto menos vocês abrirem a boca melhor, e muito mais depressa daremos este assunto por encerrado... para o melhor ou para o pior. De acordo?
Voltaram a acenar afirmativamente. Respirei fundo e encaminhei-me para o fundo da Milha, em direcção à cela do isolamento.
Quando abria porta, o Percy soergueu o olhar, piscando os olhos quando a luz incidiu sobre ele. Encontrava-se sentado no chão a lamber a fita-cola com que eu lhe tapara a boca.
A parte que eu tinha enrolado na região posterior do pescoço já se deslocara (provavelmente a transpiração e a brilhantina que ele aplicara tinham contribuído para que isso acontecesse), estando ele prestes a conseguir descolar também o resto que ainda faltava. Mais uma hora e teria começado a berrar por socorro com toda a força dos seus pulmões.
Quando entrámos, ele serviu-se dos pés para se impulsionar um pouco às arrecuas, mas deteve-se, sem dúvida ao dar-se conta de que não podia ir para lado nenhum, a não ser para o canto sudeste daquele espaço.
Retirei das mãos do Dean o seu revólver e o bastão, apontando-os na direcção do Percy.
- Queres voltar a ficar com isto? - perguntei. Ele olhou para mim com uma expressão desconfiada e assentiu com a cabeça.
- Brutal - chamei. - Harry. Ponham-no de pé. - Ambos se debruçaram agarrando-o pela lona do colete-de-forças abaixo do sovacos e levantando-o do chão. Aproximei-me dele até termos ficado quase nariz contra nariz. Às minhas narinas chegou o cheiro acre do suor que o encharcava. Este devia ter tido origem nos esforços que ele fizera para se libertar do colete-de-forças e nos ocasionais pontapés à porta que o Dean tinha ouvido; no entanto, concluí que a maior parte da sua transpiração se devia pura e simplesmente ao medo; medo daquilo que poderíamos fazer-lhe quando regressássemos.
"Não me acontecerá nada, eles não são assassinos", teria pensado o Percy... mas talvez se tivesse lembrado da Velha Faísca e que sim, de certa forma, éramos assassinos. Eu próprio tinha tratado da execução de setenta e sete, mais do que qualquer dos homens cujo peito tinha prendido com a correia, mais do que os que foram creditados ao próprio sargento York durante a Primeira Guerra Mundial. Matar o Percy não teria tido qualquer lógica, mas o certo é que já nos comportáramos de maneira ilógica, teria ele pensado enquanto estivera sentado ali, com os braços presos nas costas, a trabalhar activamente com a língua a fim de conseguir libertar a boca da fita-cola. Além do mais, o mais provável seria a lógica não ter qualquer poder sobre os pensamentos de uma pessoa, quando esta se encontra quase imobilizada no chão de uma sala com paredes almofadadas, tão bem embrulhada como uma aranha imobilizava qualquer mosca.
O que significava que, se eu não conseguisse fazer com ele o que quisesse naquele momento, jamais o conseguiria. - Agora vou tirar a fita da boca se me prometeres que não começas a berrar - disse-lhe eu. - Quero ter uma conversa contigo e não um concurso de gritos. O que é que tens a dizer a isto? Prometes ficar calado?
Vi o alívio no seu olhar quando ele compreendeu que, se eu desejava realmente conversar, ainda lhe restavam algumas hipóteses de sair daquela situação com o coiro intacto. Acenou que sim com a cabeça.
- Se começares a fazer barulho, a fita regressa à tua boca - adverti-o eu. - Estás a compreender?
Um outro acenar de cabeça, desta feita bastante impaciente. Estendia mão agarrei no extremo da fita que ele já tinha soltado e dei-lhe um vigoroso puxão, o que provocou um som estr¡dente. O Brutal retraiu-se todo. O Percy ganiu de dor e
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começou a esfregar os lábios. Tentou falar, mas apercebeu-se, de que era impossível fazê-lo com a mão a cobrir a boca _ afastou-a.
- Tira-me deste casaco de doidos, imbecil - disse ele desabridamente.
- Num minuto - afirmei. - Agora! Agora! Já...
Dei-lhe uma bofetada em cheio na face antes mesmo de me aperceber que estava prestes a fazê-lo... mas é claro que me encontrava bem ciente de que as coisas poderiam chegar àquilo. Até mesmo durante a primeira conversa que eu tivera com o director Moores acerca do Percy, aquela em que ele me aconselhara a delegar a responsabilidade da execução do Delacroix no Percy eu soubera que a situação poderia chegar àquele ponto. A mão de um homem é como um animal que só está meio domesticado; a maior parte das vezes é boa, mas por vezes descontrola-se e morde a primeira coisa que lhe surge à frente.
O som foi o de um estrépito agudo, como o estalar de um galho ressequido. O Dean arquejou. O Percy ficou a olhar para mim profundamente chocado, com os olhos arregalados quase a saltarem-lhe das órbitas. A sua boca abriu-se e fechou-se como a de um peixe a nadar dentro de um aquário. - Cala a boca e ouve o que tenho para te dizer - ordenei eu. - Merecias ser castigado pelo que fizeste ao Del, e demos-te o que merecias. Esta foi a única forma. Todos concordámos, com excepção do Dean, mas ele está pronto a alinhar connosco, caso contrário virá a arrepender-se. Não é verdade, Dean?
- Sim - respondeu este num murmúrio. Estava pálido como a cal. - Acho que sim.
- E faremos com que te arrependas de ter nascido - acrescentei. - Iremos conseguir que as pessoas tenham conhecimento da maneira como sabotaste a execução do Delacroix...
- Sabotei!...
- ... e de como quase fizeste com que o Dean morresse. Daremos tanto à língua que te impediremos de conseguir manter qualquer emprego que o teu tio te arranje.
Entretanto, o Percy começara a sacudir violentamente a cabeça. Ele não acreditava naquilo, talvez não fosse capaz de acreditar naquilo. A marca da minha mão ficara na sua face empalidecida.
13, independentemente do que possa vir a acontecer, assegurar-me-ei de que sejas espancado quase até à morte. Não é necessário sermos nós a fazê-lo. Também temos alguns conhecimentos, Percy, ou serás tão idiota que ainda não tenhas compreendido isso. Eles não se encontram sediados na capital do estado, mas isso não impede essas pessoas de saberem como legislar a respeito de determinados assuntos. São pessoas que têm amigos aqui dentro, pessoas que têm irmãos aqui, que têm pais cá dentro. Teriam todo o gosto em amputar o nariz ou o pénis de um monte de merda como tu. Estavam dispostos a fazê-lo apenas para que alguém por quem se interessam pudesse ter mais três horas por semana no pátio.
O Percy deixara de abanar a cabeça. Naquele momento, limitava-se a olhar com fixidez. Tinha os olhos marejados de lágrimas, apesar de estas não caírem. Na minha opinião eram lágrimas de raiva e de frustração. Ou talvez eu esperasse que assim fosse.
- Muito bem... Agora olha para o lado bom das coisas; Percy. Os teus lábios ardem-te um pouco por eu ter arrancado a fita adesiva, calculo eu, mas além disso não tens mais nada lesionado, se excluirmos o teu orgulho... e mais ninguém tem necessidade de saber aquilo que se passou, excepto os que se encontram presentes nesta sala neste momento. E nós nunca falaremos disto, não é verdade, rapazes?
Todos eles anuíram.
- Claro que não - asseverou o Brutal. - Os assuntos da Milha Verde permanecem na Milha Verde. Sempre assim aconteceu.
- Tu vais ser transferido para o Briar Ridge e nós deixar-te-emos em paz e sossego até que isso aconteça - acrescentei. - Tencionas deixar as coisas como estão, Percy, ou pretendes armar-te em duro connosco?
Fez-se um longo silêncio, muito longo, enquanto ele ponderava a questão... Eu quase conseguia ver as cremalheiras a engrenarem na sua cabeça, enquanto ele considerava e rejeitava possíveis contra-ofensivas. Por fim, deve ter havido uma verdade mais básica que se sobrepôs ao resto: a fita adesiva fora retirada da sua boca, mas ele continuava imobilizado no interior do colete-de-forças, e o mais certo seria ter muita vontade de mijar.
- Muito bem - anuiu ele finalmente. - Vamos considerar o assunto encerrado. Agora tirem-me de dentro desta cela. Nem sinto os ombros...
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O Brutal deu alguns passos em frente, afastando-me ao passar por mim e agarrando no rosto do Percy com as suas mãos enormes - os dedos fizeram pressão sobre a bo-
checha direita do homem e o polegar deixou uma marca profunda na esquerda.
- Daqui a pouco - disse ele. - Primeiro tens de ouvir o que quero dizer-te. Aqui o Paul é o grande chefe, o que por vezes; o força a exprimir-se com uma certa elegância,
Tentei recordar-me de qualquer coisa elegante que pudesse ter dito ao Percy, mas não me recordei de nada. Ainda assim, concluí que talvez fosse preferível manter a boca fechada. O Percy parecia adequadamente aterrorizado e eu não queria estragar isso.
- As pessoas nem sempre compreendem que ser-se elegante não é o mesmo que ser-se frouxo, e é aí que eu costumo entrar em acção - continuou o Brutus. - Não me
preocupo em agir de forma elegante, limito-me a dizer directamente o que tem de ser dito. Portanto aqui vai: caso decidas faltar à tua promessa, nós vamos ser lixados. Mas depois havemos de te encontrar... nem que tenhamos de ir à Rússia, havemos de te encontrar... e seremos nós quem vai lixar-te. Vamos lixar-te até que desejes estar morto e, em seguida, esfregaremos vinagre nas partes que estiverem a sangrar. Estás a compreender?
O Percy acenou que sim. Com os dedos do Brutal a enterrarem-se-lhe nas faces macias, o Percy assemelhava-se estranhamente ao velho Pouca Terra.
Então, o Brutal largou-o e recuou. Acenei para o Harry, ele aproximou-se do Percy por trás e começou a desapertar fivelas e a desabotoar.
- Não te esqueças daquilo que acabámos de dizer, Percy - disse o Harry. - Não te esqueças e deixa que águas passadas sejam águas passadas.
Tudo aquilo era adequadamente assustador, três papões de uniformes azuis... Todavia, eu senti-me invadido por um grande desespero. Ele podia ficar calado por um dia ou uma semana, considerando as várias hipóteses, mas no fim haveria dois factores que se conjugariam: a crença nos seus conhecimentos e a incapacidade que tinha de se afastar de uma situação de onde sairia a perder. Quando isso se concretizasse deitaria tudo da boca para fora. Talvez tivéssemos ajudado a salvar a vida da Melly Moores ao levarmos o John Coffey até junto dela;
e eu não teria voltado atrás ("nem por todo o chá da China", como se costumava dizer nesses tempos), mas no fim haveriamos de ir parar ao banco dos suplentes e o árbitro iria expulsar-nos do jogo. A menos que o assassinássemos, não existia maneira nenhuma de podermos obrigar o Percy a manter a sua parte da combinação, sobretudo depois de estar longe de nós e de começar a rememorar aquilo por que tinha
passado. Olhei de esguelha para o Brutal e verifiquei que ele estava a pensar na mesma coisa que eu. Isso não me surpreendeu. A estupidez era coisa que não caracterizava o filho de Mrs. Howell, Brutus. Encolheu ligeiramente os ombros, mas foi o suficiente para eu compreender. E então?, dizia aquele encolher de ombros. O que mais podemos fazer, Paul? Fizemos o que tínhamos a fazer, e fizemo-lo da melhor maneira possível.
Sim. E os resultados também não tinham sido tão maus como isso.
O Harry desapertou a última fivela do colete-de-forças. Com uma expressão de desdém e raiva, o Percy deixou-o cair pelos braços indo tombar aos seus pés. Não olhava para nenhum de nós, pelo menos de frente.
- Devolvam-me a minha arma e o meu bastão - pediu ele. Entreguei-lhos. Meteu o revólver dentro do coldre, e o bastão no suporte habitual.
- Percy, se pensares sobre o assunto...
- Oh, mas isso é o que tenciono fazer - interrompeu ele, passando de raspão por mim. - Tenciono pensar muito no assunto. E vou já começar. A caminho de casa. Um de vocês poderá picar o meu cartão de ponto à hora a que o turno terminar. - Alcançou a porta da cela do isolamento e voltou-se para nos observar com uma expressão desdenhosa, onde se adivinhava constrangimento e cólera... uma combinação letal para o segredo que ainda tínhamos esperanças de conseguir manter. - A menos que, como é evidente, queiram explicar por que motivo larguei o serviço mais cedo.
Abandonou a cela e começou a percorrer a Milha Verde num passo largo, esquecendo-se, no meio de toda a agitação que o invadia, qual a razão por que o corredor central de linóleo verde era tão largo. Já cometera o mesmo erro numa ocasião anterior e safara-se sem problemas de maior. Mas, desta feita, não ia ser capaz de se desenvencilhar com tanta facilidade.
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Segui-o até à porta, tentando pensar em algo que o
acalmasse - não queria que ele saísse do Bloco E daquela maneira todo suado e desalinhado, com a marca avermelhada da minha mão na sua bochecha. Os outros três seguiram os meus passos.
O que aconteceu em seguida, aconteceu com muita rapidez - e não durou mais de um minuto, talvez até menos. No' entanto, recordo-me vividamente de tudo até hoje - em grande parte porque, acho eu, contei o que sucedeu à Janice' quando cheguei a casa. Aquilo que aconteceu em seguida _ a reunião com o Curtis Anderson ao alvorecer, o inquérito, o encontro com a imprensa que o Hal Moores organizou para . nós (como é óbvio, nessa altura já ele havia reassumido as suas funções), e a comissão de inquérito que foi instituída temporariamente na capital do estado - essas coisas foram-se apagando da minha memória com a passagem dos anos, à semelhança de tantas das minhas recordações. Mas no que diz respeito ao que realmente aconteceu logo em seguida na Milha Verde, sim, disso recordo-me perfeitamente.
O Percy caminhava pelo lado direito da Milha com a cabeça baixa, e sou forçado a dizer isto: nenhum prisioneiro vulgar lhe poderia ter chegado. No entanto, o John Coffey
não era um prisioneiro vulgar. O John Coffey era um homem gigantesco, pelo que o seu braço tinha um alcance de gigante. Vi os seus longos braços de pele castanha saírem disparados por entre as grades.
-Atenção, Percy atenção! - gritei-lhe. O Percy começou a voltar-se, levando a mão esquerda ao punho do bastão. Mas foi puxado com violência contra a frente da cela do John Coffey, com o lado direito do rosto a esmagar-se contra as barras de ferro.
Soltou um grunhido e voltou-se na direcção do Coffey, erguendo o bastão de nogueira. Sem dúvida que a posição do John era vulnerável em relação ao bastão o seu próprio rosto
encontrava-se tão fortemente pressionado entre o espaço existente nas duas barras centrais que dava a impressão de pretender fazer passar toda a sua cabeça por aquela abertura. Claro que isso teria sido impossível, mas de facto era o que parecia estar a acontecer. A sua mão direita sondou e encontrou a nu~ ca do Percy, fechou-se à volta do pescoço deste e puxou a cabeça violentamente para a frente. O Percy desferiu um golpe com o bastão na fronte do John. O sangue começou a jorrar
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Apesar de o Coffey não ter prestado a mínima atenção a isso. A sua boca
pressionou-se contra a do Percy. Comecei a ouvir um som sussurrante - o ruído de algo a ser libertado, como o exalar de respiração há muito contida. O corpo do Percy deu um solavanco como o de um peixe preso no anzol tentando libertar-se,.mas nunca chegou a ter a mínima hipótese de fuga; a mão direita do John mantinha-se firmemente agarrada à região posterior do pescoço do Percy. Os rostos dos dois pareciam querer fundir-se como as faces de duas pessoas enamoradas que já tive a oportunidade de ver, enquanto se beijavam apaixonadamente por entre barras.
O Percy gritou, um som abafado como se houvesse sido solto através de uma mordaça, e fez outro esforço para conseguir recuar. Durante breves instantes, os lábios dos dois apartaram-se um pouco, o que me permitiu avistar o turbilhão negro que saía da boca do John Coffey e entrava na do Percy Wetmore. O que não entrava na deste através de lábios frementes, entrava pelas suas narinas. Pouco depois, a mão que apertava a nuca do Percy soltou-se um pouco, e o rosto deste foi de novo puxado na direcção da boca do John; era como se houvesse sido trespassado pelos lábios dele.
Os dedos da mão esquerda do Percy abriram-se. O seu precioso bastão de nogueira tombou sobre o linóleo verde. Ele não voltou a ter oportunidade de o apanhar do chão.
Tentei lançar-me para a frente, imagino que me lancei para a frente, mas senti os movimentos tolhidos, como teria acontecido a uma pessoa idosa. Levei a mão à arma, mas a correia continuava atravessada na posição de segurança, e inicialmente não fui capaz de a sacar do coldre. Abaixo de mim, tive a sensação de que o solo estremecia, à semelhança do que tinha acontecido no quarto da casa dos Moores. Não tenho bem a certeza mas parece-me que uma das lâmpadas do tecto se estilhaçou. Os fragmentos de vidro começaram a tombar para o chão. O Harry soltou um grito de surpresa.
Por fim, consegui soltar com o polegar a correia de segurança que atravessava a coronha da minha pistola de calibre trinta e oito, mas, antes de poder retirá-la do coldre, o John já tinha empurrado o Percy, afastando-o de si e recuando para o interior da sua cela. O John exibia um arreganho sorridente, esfregando os lábios, como se houvesse provado algo de desagradável.
O que é que ele fez? - perguntou o Brutal aos gritos. O que é que ele fez, Paul?
- Aquilo que ele extraiu do corpo da Melly encontra-se neste momento dentro do Percy - respondi.
O Percy fora arremessado contra as barras da antiga cela do Delacroix. Os seus olhos estavam arregalados e sem qualquer expressão. Aproximei-me dele com cautela, esperando
que ele começasse a tossir a qualquer momento e a sufocar tal como o John fizera depois de largar a Melinda, mas isso não aconteceu. Limitou-se a ficar de pé no mesmo lugar. Fiz estalar os meus dedos em frente dos seus olhos
- Percy! Eh, Percy! Acorda!
Nada. O Brutal juntou-se a mim e aproximou as mãos do rosto apático do Percy.
- Isso não vai resultar - disse eu.
Ignorando as minhas palavras, o Brutal bateu palmas com todo o vigor, duas vezes, exactamente em frente do nariz do Percy. E de facto resultou, ou pelo menos pareceu resultar. As pálpebras do Percy estremeceram e ele olhou em volta, atordoado, como alguém que houvesse sido atingido na cabeça e que se esforçasse por recuperar a consciência. Olhou para o Brutal, e depois olhou para mim. Decorridos todos estes anos, tenho a certeza de que ele não viu nenhum de nós, mas nessa altura achei que sim; convenci-me de que ele estava prestes a despertar daquela espécie de transe.
Afastou-se das barras da cela e cambaleou um pouco. O Brutal ajudou-o a recuperar o equilíbrio.
- Calma, rapaz; estás bem? - O Percy não respondeu, passou pelo Brutal e virou-se para a secretária no corredor, o posto do guarda de serviço. Na altura não cambaleava, não se poderia dizer que o fizesse; contudo, adernava um pouco para bombordo.
O Brutal estendeu a mão para o equilibrar. Afastei-lhe o braço.
- Deixa-o sozinho. - Teria eu dito a mesma coisa se soubesse o que iria acontecer a seguir? Tenho feito essa pergunta a mim mesmo num milhar de ocasiões desde o Outono de 1932. Nunca consegui obter a resposta.
O Percy deu doze ou catorze passos e voltou a parar, sempre de cabeça baixa. Nesta altura encontrava-se do lado de fora da cela do Bill "Selvagem" Wharton. Este continuava a
emitir aqueles ruídos que pareciam saídos de uma tuba de bocal largo. Tinha estado adormecido durante todos estes acontecimentos. Agora que penso no assunto, tenho de conclui
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que ele esteve a dormir ao longo de toda a sua morte, o que o fez ter muito mais sorte do que a maioria dos homens que acabava os seus dias ali. Certamente que foi mais afortunado do que aquilo que merecia.
Antes de compreendermos o que estava a suceder, o Percy sacou da arma, deteve-se junto das barras da cela do Wharton e disparou os seis tiros para o corpo do homem adormecido. Os disparos foram consecutivos, à velocidade a que o gatilho da arma o permitia. O som que se ouviu naquele espaço confinado foi ensurdecedor; quando narrei o ocorrido à Janice na manhã seguinte continuava a mal conseguir ouvir o som da minha própria voz, devido ao zumbido que sentia nos ouvidos.
Corremos para ele, os quatro em simultâneo. O Dean foi o primeiro a chegar - não percebo bem como, uma vez que ele se encontrava atrás do Brutal e de mim na altura em que o Coffey agarrara no Percy - mas o certo é que foi. Agarrou no pulso do Percy, preparado para retirar a arma da mão deste, mas não foi necessário fazê-lo. O Percy soltou o revólver, que foi cair no chão. Os seus olhos percorreram-nos como se fossem patins e nós fôssemos o gelo. Ouviu-se um som sibilado acompanhado de um cheiro acentuado a amoníaco quando a bexiga do Percy não se conteve, seguido de outro ruído e de um fedor ainda mais desagradável quando ele encheu também o outro lado das calças. Os seus olhos haviam-se prendido a um canto afastado do corredor. Eram uns olhos que, tanto quanto sei, nunca mais voltaram a ver nada neste mundo verdadeiro onde vivemos. Logo no início desta narrativa, eu escrevi que o Percy se encontrava no Briar Ridge, na altura em que o Brutal descobriu as lascas coloridas do carretel do Mister Jingles, o que aconteceu dois meses mais tarde, e não menti quanto a isso. No entanto, nunca chegou a tomar posse do gabinete com a ventoinha ao canto; tão-pouco teve ao seu dispor um grupo de doentes loucos, com quem pudesse fazer o que muito bem lhe apetecesse. Mas imagino que, no mínimo dos mínimos conseguiu ter um quarto só para si.
Ao fim e ao cabo o homem sempre tinha alguns conhecimentos.
O Wharton encontrava-se deitado de lado com as costas contra a parede da cela. Eu não conseguia avistar muita coisa nesse momento, para além de uma grande quantidade de sangue a empapar o lençol e a espalhar-se pelo chão de cimento;
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todavia, o médico legista afirmou que o Percy tinha disparado como a Annie Oakleyi. Ao recordar-me da história do Dean sobre a maneira como o Percy lançara o bastão de nogueira contra o rato, não lhe acertando por um triz, não me senti muito surpreendido. Desta vez a distância a que o alvo se encontrava tinha sido muito menor, e ele estava imóvel. Um tiro nas virilhas, um nas entranhas, um no peito e três na cabeça.
O Brutal tossia e agitava as mãos, tentando dissipar a nuvem de fumo provocada pelos disparos. Eu próprio também tossia, apesar de só então me aperceber disso.
- Fim da linha - disse o Brutal. A sua voz era calma, embora fosse impossível ignorar a expressão de pânico que se espelhava no seu olhar.
Olhei para o corredor e vi o John Coffey sentado na beira da sua tarimba. Uma vez mais, entrelaçara os dedos entre os joelhos, mas tinha a cabeça erguida e já não apresentava quaisquer vestígios do aspecto doentio que tivera antes. Acenou ligeiramente na minha direcção, tendo-me eu surpreendido a mim mesmo - tal como acontecera no dia em que lhe estendera a mão - ao retribuir-lhe aquela espécie de saudação.
- O que é que vamos fazer? - perguntou o Harry numa voz titubeaste. - Oh, meu Deus, o que é que nós vamos fazer?
- Não podemos fazer nada - retorquiu o Brutal no mesmo timbre de voz muito calmo. - Estamos fritos. Não é verdade, Paul?
Entretanto, a minha mente começara a raciocinar a toda a velocidade. Olhei para o Harry e o Dean, que me fitavam como miúdos assustados. Em seguida, olhei para o Percy, que continuava de pé com os braços flácidos e o queixo descaído. Por último, olhei para o meu velho amigo, o Brutus Howell. - Não vamos ter muitos problemas - disse eu.
Finalmente, o Percy começou a tossir. Dobrou-se sobre si mesmo com as mãos apoiadas nos joelhos, quase sem respiração. O seu rosto começou a adquirir uma tonalidade avermelhada. Abria boca, com a intenção de dizer aos outros que se mantivessem afastados, mas não cheguei a ter oportunidade de falar. O Percy emitiu um som que era um cruzamento en
~ Phoebe Anne Oakley Mozer, 1860-1926; conhecida atiradora norte-americana (N. da T.)
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tre o coaxar de uma rã-gigante e um vómito seco, abriu a boca e cuspiu uma nuvem negra formada por coisas rodopiastes. Era tão densa que durante alguns instantes não conseguimos destrinçar a sua cabeça.
- Que Deus nos salve - disse o Harry numa voz lacriinosa e enfraquecida.
Em seguida, aquela coisa transformou-se num branco tão radiante que se assemelhava ao sol de Janeiro a incidir sobre neve acabada de cair. Um momento mais tarde, a nuvem tinha-se dissipado. O Percy endireitou-se em movimentos lentos e voltou a exibir aquele olhar apático. "
- Nós não vimos aquilo - disse o Brutal. - Pois não, Paul?
- Não. Eu não vi e tu também não. E tu, Harry, viste alguma coisa?
- Não - respondeu ele. - Dean?
- Vi o quê? - O Dean tirou os óculos do nariz e começou a limpar as lentes. Pensei que ele iria deixá-los cair das mãos, que não paravam de tremer, mas conseguiu impedir que isso acontecesse.
- "Vi o quê?", essa é boa. É o máximo. Agora prestem atenção ao vosso chefe dos escuteiros, rapazes, e vejam lá se compreendem tudo à primeira, dado que o tempo é escasso. Trata-se de uma história deveras simples. Portanto, não compliquemos as coisas.
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Contei tudo isto à Jan por volta das onze horas dessa manhã - a manhã seguinte, estive eu prestes a escrever, mas é claro que se tratava do mesmo dia. O mais longo de toda a aninha vida sem dúvida alguma. Contei-lhe os acontecimentos nos mesmos moldes em que os descrevi aqui, terminando na maneira como o William Wharton tinha acabado os seus dias, estendido em cima da sua tarimba, com o corpo perfurado pelo chumbo do revólver do Percy Wetmore.
Não, isso não corresponde exactamente à verdade. Onde eu realmente terminei foi na substância que saiu da boca do Percy, os insectos ou o que quer que tenha sido. Era uma coisa difícil de descrever, até mesmo à nossa mulher, mas, apesar disso, lá consegui.
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Enquanto eu falava, ela trouxe-me uma caneca meio cheia de café - inicialmente, as minhas mãos tremiam tanto que teria sido difícil agarrar numa caneca cheia, sem a entornar
logo em seguida. Quando terminei, os tremores tinham_se acalmado um pouco, o que me levou a pensar que talvez fosse capaz de ingerir alguma comida - um ovo, talvez, ou mesmo um pouco de sopa.
- O que nos salvou foi o facto de não sermos obrigados a mentir, nenhum de nós.
- Tiveram apenas de omitir algumas coisas - comentou ela com um acenar de cabeça. - Na maior parte, coisas de somenos importância, tal como de que maneira fizeram sair
da prisão um assassino e como ele curou uma mulher à beira da morte, e como enlouqueceu o Percy Wetmore só por ter... o quê? Cuspido um puré de tumor cerebral pela garganta dele abaixo?
- Não sei, Jan - disse eu. - Só sei que se continuares a falar assim, das duas uma: ou acabarás por ser tu a comer esta sopa ou terás de a dar ao cão.
- Desculpa. Mas tenho razão, não é verdade?
- Sim - admiti. - Só que conseguimos safar-nos com... - Com o quê? Não se lhe poderia chamar fuga. - Com a viagem ao campo. Nem sequer o Percy pode dizer-lhes... não teve conhecimento disso... se alguma vez conseguir recuperar.
- Se conseguir recuperar - ecoou a Janice. - Que hipóteses há de isso vir a acontecer?
Sacudi a cabeça, indicando que não fazia a mais pequena ideia. Mas isso não correspondia exactamente à verdade. Não me parecia que ele conseguisse vir a recuperar, pelo menos
em 1932, nem em 1942, nem tão-pouco em 1952. Nisso eu estava absolutamente certo. O Percy Wetmore esteve internado no Briar Ridge até o hospício ter sido arrasado por um incêndio em 1944. Haviam perecido no fogo dezassete dos doentes internados, embora o Percy não se encontrasse entre eles. Em silêncio e apático - a palavra que aprendi para descrever o seu estado é catatónico - foi levado para fora por um dos gu~das antes de o fogo ter começado a lavrar na ala onde se encontrava internado. Foi transferido para outro estabelecimento hospitalar - não me recordo do nome e calculo que, seja como for, isso não tenha interesse - tendo vindo a morrer em 1965. Tanto quanto me é dado saber, a última vez que falou
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foi quando nos disse que poderíamos marcar o seu cartão de ponto à hora em que o turno terminaria... A menos que pertendêssemos explicar por que motivo é que ele teria largado o
serviço mais cedo.
A ironia daquela situação foi nunca termos sido obrigados a dar grandes explicações. O Percy tinha enlouquecido e alvejara o William Wharton até à morte. Foi a versão que contámos, e cada palavra correspondeu à verdade. Quando o Anderson perguntou ao Brutal qual havia sido o comportamento do Percy antes do tiroteio e o Brutus respondeu com uma palavra - "Tranquilo" -, passei por um momento agonizante ao pensar que poderia desatar às gargalhadas. Porque na realidade isso era a verdade, o Percy tinha estado muito sossegado, uma vez que durante a maior parte do seu turno de trabalho tivera a boca tapada com fita adesiva, e apenas pudera articular um "huummm, huummm, huummm".
O Curtis manteve o Percy no bloco até às oito horas, e o Percy esteve calado que nem uma múmia, embora a sua atitude metesse medo. Por essa altura já o Hal Moores tinha chegado à prisão, mostrando uma expressão soturna mas competente, pronto para voltar a assumir as rédeas da situação. O Curtis Anderson não levantou qualquer objecção, soltando um suspiro de alívio que nós, presentes na altura, quase conseguimos ouvir. O homem envelhecido e assustado, completamente desnorteado, desaparecera; foi o director da penitenciária quem se aproximou do Percy, quem o agarrou pelos ombros com as suas mãos enormes e o sacudiu com todo o vigor.
- Rapaz! - gritou ele para a expressão vazia do rosto do Percy.., um rosto que já tinha começado a desfazer-se como se fosse de cera, pensei eu na altura. - Rapaz! Estás a ouvir-me? Se ouves o que te digo, fala comigo! Quero saber o que aconteceu!
Da parte do Percy não houve qualquer reacção, como é evidente. O Anderson pretendia falar com o director a sós, a fim de discutir a melhor maneira de tratar aquele assunto - ~ assunto deveras sensível em termos políticos - mas o Moores afastou-o pelo menos de momento, e puxou-me para a Milha. O John Coffey encontrava-se deitado sobre a tarimba, com o rosto voltado para a parede, as pernas chocantemente suspensas tal como era seu hábito. Dava a impressão de estar a dormir, o que provavelmente era verdade... mas o
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certo é que ele nem sempre era o que aparentava ser, tal como já havíamos descoberto.
- Aquilo que aconteceu em minha casa teve alguma coisa a ver com o que se passou aqui, depois de vocês terem re_ gressado? - perguntou o Moores em voz baixa. - Estou disposto a dar-vos toda a cobertura que me for possível, ainda que isso signifique perder o meu emprego, mas tenho de saber o que aconteceu.
Abanei a cabeça. Quando comecei a falar, também mantive a voz baixa. Nesta altura já por ali andavam cerca de uma dúzia de guardas bastante atarefados no extremo do corredor.
Um fotografava o Wharton na sua cela. O Curtis Anderson observava-o, pelo que, momentaneamente, o Brutal era o único cuja atenção se concentrava em nós dois.
- Não. Levámos o John de volta para a sua cela, tal como podes ver, e tirámos o Percy da cela do isolamento, onde o fechámos para maior segurança. Pensei que ele devia estar furioso por o termos encerrado ali, mas não, limitou-se a pedir a arma e o bastão. Não acrescentou mais nada, encaminhou-se apenas para o corredor. Então, quando se aproximou da cela do Wharton, sacou da arma e começou a disparar.
- Parece-te que o facto de ter estado fechado na cela do isolamento... teve algum efeito na sua mente?
- Não.
- Vocês colocaram-no dentro do colete-de-forças? Não. Não havia necessidade disso.
- Ele esteve tranquilo? Não se debateu? Não, não se debateu.
- Mesmo quando verificou que a vossa intenção era fechá-lo na cela do isolamento, ele não se debateu e ficou sossegado.
- Foi exactamente isso que aconteceu. - Senti uma súbita vontade de dizer mais qualquer coisa... meter na boca do Percy uma ou duas frases, mas decidi ficar calado. Quanto mais simples melhor, sabia eu. - Não houve nenhuma complicação: ele limitou-se a ir para um dos cantos e sentou-se.
- Nessa altura não trocou qualquer palavra com o Wharton?
- Não.
- Também não falou no Coffey? - Confirmei com ~ abanar de cabeça. - Teria o Percy planeado qualquer coisa contra o Wharton? Achas que teria qualquer agravo contra o homem?


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_ É possível - respondi, baixando ainda mais o tom de voz. _ O Percy era muito descuidado em relação aos sítios por onde caminhava, Hal. Houve uma ocasião em que o ~,arton estendeu as mãos e o agarrou contra as barras da cela, tendo-o maltratado um pouco. - Fiz uma pausa. - Pode-se mesmo dizer que não o tratou com muita suavidade.
- E nada mais? Apenas... "não o tratou com muita suavidade"?Sim, mas mesmo assim a situação não foi muito agradável para o Percy. O Wharton disse qualquer coisa em como preferiria comer o Percy em vez da irmã deste.
- Hum... - fez o Moores, olhando de esguelha para o John Coffey, como se sentisse necessidade de se certificar constantemente de que este era uma pessoa, e não fruto da sua imaginação. - Isso não explica o que lhe aconteceu, mas até certo ponto justifica, porque foi contra o Wharton que ele se voltou, e não contra o Coffey ou um dos teus homens. E, falando dos teus homens, Paul, será que eles contarão a mesma história?
- Sim - asseverei. - E vão contar - disse eu à Jan, começando a comer a sopa que ela trouxera para a mesa. - Certificar-me-ei de que assim seja.
- Mas é inegável que mentiste - retorquiu ela. - Mentiste ao Hal.
Ora bem, o que é que se esperaria da nossa mulher, não é verdade? Sempre à procura das nossas facetas mais fracas e encontrando sempre uma.
- Calculo que sim, se virmos o assunto por essa perspectiva. No entanto, não lhe contei nada com que ambos não possamos viver. Está tudo às claras, acho eu. Ao fim e ao cabo, ele nem sequer se encontrava presente. Estava em casa a tratar da mulher até que o Curtis lhe telefonou.
- Ele disse alguma coisa quanto ao estado de saúde da Melinda?
- Nessa altura, não. Não havia tempo, mas voltámos a falar quando o Brutal e eu nos preparávamos para sair. A Melinda não se recorda de grande coisa, mas sente-se óptima. Já não está na cama e anda por todo o lado. Já fala das flores que vai plantar nos canteiros no ano que vem.
A
minha mulher ficou a olhar para mim durante algum tempo.
- O Hal sabe que se tratou de um milagre, Paul? - perbuntou. - Ele compreende isso?
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- Sim. Todos nós compreendemos. Todos os que estivemos presentes.
- Parte de mim deseja poder ter estado lá - acrescentou a Janice. - No entanto, a outra parte sente-se satisfeita por não ter assistido. Se eu tivesse visto aquelas escamas a saírem dos olhos de Saul, na estrada para Damasco, provavelmente teria morrido de um ataque cardíaco.
- Não - contradisse eu, inclinando a tigela para meter na colher o que ainda restava da sopa -, o mais certo teria sido preparares-lhe uma sopa. Esta está óptima, minha querida,
- Ainda bem. - Mas na realidade não era na sopa que ela pensava, nem em cozinhar nem tão-pouco na conversão de Saul na estrada para Damasco. A Janice olhava pela janela na direcção das cumeeiras, com o queixo apoiado na palma da mão e os olhos tão toldados como aqueles cumes costumavam estar nas manhãs de Verão, nos dias em que fazia calor. Nas manhãs de Verão como aquela em que as garotas dos Detterick haviam sido encontradas, pensei eu sem qualquer razão aparente. Perguntei a mim mesmo por que motivo é que elas não teriam gritado.
O assassino tinha-as magoado; havia sangue nos degraus e no chão do alpendre. Por conseguinte, porque é que elas não teriam começado a gritar?
- Pensas que foi o John Coffey quem matou esse homem, o Wharton, não é verdade? - perguntou a Janice, desviando finalmente o olhar da janela. - Não estás convencido de que foi um acidente ou algo semelhante; acreditas que ele se serviu do Percy Wetmore para aniquilar o Wharton.
- Sim - concordei. Porquê?
- Não sei.
- Conta-me outra vez o que sucedeu quando tiraste o John Coffey da Milha, de acordo? Só essa parte.
Acedi ao seu pedido. Descrevi-lhe como é que o braço magro que saiu disparado por entre as barras de ferro, para pousar no bícepe do John, me dera a impressão de ser uma serpente - daquelas de água de que todos tínhamos medo quando éramos miúdos e íamos nadar para o rio - e a forma como o Coffey dissera que o Wharton era um homem mau.

Falei quase num murmúrio.
- E o Wharton disse o quê? - A minha mulher voltara a
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olhar através da janela, embora estivesse a prestar-me aten-
ção: O Wharton disse: "É verdade, negro, tão mau quanto possas imaginar."
E foi tudo?
- Sim. Tive a sensação de que estava prestes a acontecer qualquer coisa, mas tal não sucedeu. O Brutal tirou a mão do Wharton do braço do John, e mandou-o deitar-se. Ele tinha-se levantado da tarimba. Acrescentou qualquer coisa acerca de como os negros deveriam ter a sua própria cadeira eléctrica, e mais nada. E nós continuámos o que estávamos a fazer.
- O John Coffey chamou-lhe um homem mau.
- Sim. Também já tinha dito o mesmo numa ocasião, referindo-se ao Percy. Talvez o tenha dito mais de uma vez. Não consigo recordar-me com exactidão quando é que isso foi, mas sei que o disse.
!,	- No entanto, o Wharton nunca fizera nada ao John Coffey, pois não? Quero dizer, tal como fez ao Percy.
- Não. A localização das celas dos dois... A do Wharton ficava próximo da secretária do corredor, de um lado, enquanto a do John se situava bastante mais abaixo, no lado oposto. Mal conseguiam ver-se.
- Descreve-me outra vez o aspecto do John Coffey quando o Wharton lhe agarrou no braço.
- Janice, esta conversa não está a levar-nos a lado nenhum - disse eu à minha mulher.
- Talvez não, mas por outro lado é possível que sim. Descreve-me outra vez qual era o aspecto dele.
- Acho que posso dizer que ficou chocado - repliquei depois de suspirar. - Ficou ofegante. Tal como aconteceria se tu estivesses estendida na praia ao sol, e eu me aproximasse sorrateiramente e deitasse água fria nas tuas costas. Ou como se tivesse sido esbofeteado.
- Bem com certeza - retorquiu a Janice. - O facto de ter sido agarrado dessa maneira, sem estar a contar com isso, sobressaltou-o, despertou-o por alguns segundos.
- Sim - concordei, para logo depois me contradizer. - Não.

- Em que é que ficamos? Sim ou não?
-Não. Não se pode dizer que tenha ficado sobressaltado foi mais como quando ele quis que eu fosse à sua cela, ~ poder curar a minha infecção. Ou como quando me pediu
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para lhe entregar o rato. Ele sentiu-se surpreendido, mas não por alguém lhe ter tocado inesperadamente... não foi isso exactamente o que sucedeu... oh, bolas. Jan, não sei.
- De acordo, ponhamos o assunto de parte - disse ela. _ Mas não sou capaz de imaginar o que é que teria levado o John a fazer isso. Não se pode dizer que ele seja, por natureza, um homem violento. O que nos leva a outra questão. paul: como é que poderás executá-lo se tiveres razão quanto à morte das garotas? Como é que terás coragem de o sentar na cadeira eléctrica se foi outra pessoa que...
Agitei-me na cadeira, sentindo um certo mal-estar. O meu cotovelo bateu na tigela e esta tombou para o chão, onde se estilhaçou. Tivera uma ideia. Naquela fase, era mais uma in tuição do que um pensamento lógico e não deixava de ter uma certa elegância sombria.
- Paul? - perguntou a Janice, alarmada. - O que é que se passa?
- Ainda não sei - respondi. - Não tenho a certeza de nada, mas, se possível, tenciono vir a ter.
4
O rescaldo do tiroteio transformou-se num circo de três arenas, com o governador numa delas, a penitenciária na outra, e o pobre Percy Wetmore, com o juízo avariado, na terceira. E quem era o apresentador do circo? Pois bem, os diversos cavalheiros da imprensa ocuparam-se dessa função, à vez. Não eram tão maus como os seus colegas de hoje - não se permitiam comportar-se de forma tão má - mas até mesmo nessa época, antes do advento dos grandes apresentadores da televisão, eram capazes de galopar bastante bem, sempre que sentiam realmente o freio nos dentes. Foi isso que aconteceu naquela ocasião e, enquanto durou, o espectáculo foi bastante bom.
No entanto, até mesmo o circo mais animado, aquele com as aberrações mais aterradoras, com os palhaços mais divertidos ou os animais mais selvagens, é forçado a abandonar a cidade. Este desmontou a tenda depois da comissão de inquérito, que parece muito especial e assustadora, mas que na realidade veio a provar ser bastante inofensiva e negligente. Sem dúvida que noutras circunstâncias o governador teria exigido
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a cabeça de alguém numa bandeja, mas não daquela vez. O seu sobrinho por afinidade - do mesmo sangue da mulher - ficara desarranjado do juízo e decidira matar um homem. Havia pois um assassino - do mal o menos, podia-se dar graças a Deus por isso - mas tal não invalidava o facto de o Percy ter abatido um homem quando este se encontrava a dormir na cela, o que não era um gesto muito bonito. Quando se acrescentava o facto de o jovem em questão ter continuado tão demente como uma cadela com cio, poderia compreender-se a razão por que o governador desejava pôr uma pedra sobre aquele assunto, o mais rapidamente possível.
A nossa jornada até casa do director Moores, na pequena camioneta do Harry Terwilliger, nunca chegou a vir à baila. O facto de o Percy ter sido metido no colete-de-forças e encarcerado na cela do isolamento, durante o período de tempo em que estivemos ausentes, também nunca veio a lume. O pormenor de o William Wharton estar drogado até à inconsciência, na altura em que o Percy o abateu, também nunca chegou a ser mencionado. E porque haveria de ser? As autoridades não tinham a mais pequena suspeita da existência de qualquer coisa no organismo do Wharton, para além de meia dúzia de balázios. O médico legista procedeu à extracção destas, o cangalheiro instalou-o dentro de um caixão de pinho, e aquele foi o fim de um homem que tinha uma tatuagem num antebraço onde se lia "Billy the Kid". Poder-se-ia dizer: "Que bons ventos o levem!"
No cômputo geral, aquela confusão durou cerca de duas semanas. Durante esse período, eu nem me atrevi a dar um peido quanto mais tirar um dia de licença para poder investigar a ideia que me ocorrera à mesa da minha cozinha, na manhã seguinte a toda aquela confusão. Tinha a certeza de que o circo já havia abandonado a cidade quando fui trabalhar um dia antes da segunda quinzena de Novembro - parece-me que foi a doze mas não estou muito seguro quanto a essa data. Foi nesse dia que encontrei a folha de papel, que tanto receava, sobre a minha secretária: a ordem de execução do John Coffey. Fora o Curtis Anderson quem a tinha assinado, e não o Hal Moores, mas, como é evidente, isso não a tornava menos oficial, e devia ter passado pelas mãos do Hal antes de me ser entregue. Eu imaginava-o sentado à sua secretária nos serviços administrativos, com aquela folha de papel na mão, a pensar na mulher, a qual se transformara na última das sete
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maravilhas para os médicos do Hospital Geral de Indianola, A Melinda já tinha recebido os documentos relativos à sua própria execução das mãos desses mesmos médicos; todavia, o John Coffey tinha-os rasgado. Mas agora, ironicamente chegara a vez do próprio John Coffey percorrer a Milha Verde, e quem de entre nós poderia impedir que isso viesse a acontecer?
A data inscrita na sentença de morte era o dia 20 de Novembro. Três dias depois de eu a ter recebido - estou em crer que foi no dia 15 - pedi à Janice que telefonasse a informar que eu me encontrava doente. Uma caneca de café mais tarde, rolava .eu pela estrada que seguia para norte, ao volante do meu Ford com a suspensão em mau estado, mas que nos outros pormenores era de toda a confiança. A Janice despedira-se de mim com um beijo, desejando-me boa sorte; eu tinha-lhe agradecido, embora já não formasse uma ideia clara daquilo que poderia ser considerado boa sorte - descobrir ou não o que me propusera encontrar. Tudo o que eu sabia era que não me apetecia muito cantar enquanto conduzia. Sobretudo naquele dia.
Por volta das três dessa mesma tarde, já eu me encontrava em terras montanhosas. Cheguei ao tribunal de Purdom exactamente antes do encerramento das suas portas, examinei alguns registos, e depois recebia visita do xerife, que entretanto fora informado pelo funcionário do tribunal de que havia um estranho a bisbilhotar os segredos locais. O xerife Catlet pretendia saber o que é que eu pensava que estava a fazer. Eu expliquei-lhe. O Catlet pensou no assunto por alguns momentos e então disse-me uma coisa interessante. Disse que negaria ter dito uma só palavra se eu repetisse alguma coisa a alguém. Não foi uma informação conclusiva, mas sem dúvida era alguma coisa. Durante todo o caminho até casa fui a pensar naquilo; naquela noite tive muito em que pensar, e as preciosas horas de sono no meu lado da cama foram bastante escassas.
Na manhã seguinte, levantei-me ainda o Sol não passava de uma ameaça a oriente, e fui de carro até ao município de Trapingus. Passei ao largo do Homer Cribus, aquela enorme saca de entranhas e fluidos preferindo falar com o assistente do xerife, o Rob McGee. O McGee não quis ouvir o que eu lhe dizia. Com toda a veemência, o homem deu-me a entender que não queria ouvir o que eu tinha para lhe dizer. A certa
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altura fiquei quase com a certeza de que ele me esmurraria em cheio na boca, para que pudesse parar de me ouvir, mas no fim acabou por concordar em ir até casa do Klaus Detterick a fim de lhe fazer umas perguntas. Na minha opinião, fê-lo para ter a certeza de que não seria eu a tomar aquela iniciativa.
- Ele só tem trinta e nove anos, mas parece um velho - comentou o McGee -, e não precisa que um guarda de prisão armado em checo esperto e em detective o venha arreliar, agora que algum do desgosto que sofreu já começou a abrandar. Você vai deixar-se ficar aqui, na cidade. Não o quero ver à distância de um grito da quinta dos Detterick, mas quero ter a certeza de que poderei encontrá-lo quando acabar de conversar com o Klaus. Se por acaso começar a sentir-se desassossegado, vá até ao restaurante e coma uma fatia de parte de maçã. Isso há-de acalmá-lo. - Acabei por comer duas fatias e o resultado foi sentir o estômago bastante pesado.
Quando o McGee chegou ao restaurante e se sentou ao balcão junto de mim, tentei ler alguma coisa na sua expressão, mas não consegui.
- Então?... - perguntei.
- Venha comigo até minha casa. É melhor falarmos lá - replicou ele. - Este lugar é demasiado público para o meu gosto.
Encetámos a nossa conversa no alpendre da casa do Rob McGee. Ambos estávamos bem agasalhados, embora sentíssemos frio, mas acontece que Mrs. McGee não permitia que se fumasse em parte alguma no interior da casa. Era uma mulher muito progressiva para a sua época. O McGee falou durante algum tempo com a atitude de um homem a quem não agradava nada o que ouvia da sua própria boca.
- Você compreende que isto não vem provar absolutamente nada não é verdade? - perguntou ele quando já me dissera quase tudo o que tivera a dizer. Na sua voz adivinhava-se uma certa beligerância, e enquanto falava espetou o cigarro enrolado à mão na minha direcção com agressividade, apesar de o seu rosto deixar transparecer náusea. Nem todas as provas apresentadas num tribunal são aquilo que se ouve e vê, ambos sabíamos isso. Fiquei com a sensação de que aquela fora a única vez em toda a sua vida que o assistente de xerife, McGee, desejara ser tão imbecil quanto o seu próprio chefe.
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- Eu sei - repliquei.
- E se está a pensar em conseguir arranjar-lhe um novo julgamento, só com base nesta única coisa, é melhor reconsiderar, senor. O John Coffey é um negro e no município de Trapingus nós somos muito esquisitos quanto a concedermos novos julgamentos à gente de raça negra.
- Também estou a par desse aspecto.
- Por conseguinte, o que é que tenciona fazer? Lancei o meu cigarro para a rua por cima do corrimão do alpendre. Em seguida, levantei-me da cadeira. Era um longo percurso de regresso a casa, e quanto mais cedo eu partisse, mais cedo chegaria ao fim da minha viagem.
- Quem me dera saber, assistente McGee - retorqui -, mas o certo é que não sei. A única coisa de que tenho a certeza esta noite é que a segunda fatia de tarde foi um erro.
- Deixe-me dizer-lhe uma coisa, seu vivaço... - Continuava a expressar-se num tom de beligerância. - Não me parece que, em primeiro lugar, você devesse ter aberto a caixa de Pandora.
- Não fui eu quem a abriu - redargui, e iniciei a viagem de regresso a casa.
Quando cheguei já era tarde - passava da meia-noite. Contudo, a minha mulher esperava por mim a pé. Tinha desconfiado de que ela o faria, mas mesmo assim o facto de a ver a pé fez-me bem ao coração, assim como os seus braços à volta do meu pescoço, o corpo suave e firme contra o meu.
- Olá, forasteiro - saudou ela, tocando-me nas partes baixas. - Não há nada de errado com este fulano, pois não? Está tão saudável quanto possível.
- Sim, minha senhora - respondi-lhe, erguendo-a nos meus braços. Levei-a para o quarto e fizemos amor, tão doce como o açúcar, e quando eu estava prestes a atingir o meu
clímax, esse sentimento delicioso de álgo que me abandonava e que eu deixava ir, pensei nos olhos infinitamente lacrimejantes do John Coffey. E na Melinda Moores a dizer: Sonhei que andavas perdido na escuridão, tal como eu.
Continuando estendido em cima da minha mulher, com os braços dela em redor do meu pescoço e com as nossas coxas entrelaçadas, comecei a chorar.
- Paul! - exclamou ela, chocada e assustada. Não me parece que tenha visto lágrimas nos meus olhos em mais do que meia dúzia de ocasiões ao longo de todo o nosso casa
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mento. Nunca fui, em circunstâncias normais, um homem dado a grandes choros. - Paul, o que é que se passa?
. Já sei tudo o que havia a saber - repliquei por entre as lágrimas. - Se queres saber a verdade, sei de mais. Devo electrocutar o John Coffey em menos de uma semana, embora tenha sido o William Wharton quem assassinou as garotas dos Detterick. Foi o Bill Selvagem.
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No dia seguinte, o mesmo grupo de guardas prisionais que havia almoçado na minha cozinha, depois da execução do Delacroix que tão mal tinha corrido, voltou a almoçar em minha casa. Desta vez encontrava-se presente um quinto no nosso conselho de guerra: a minha mulher. Foi ela quem me convenceu a contar aos outros; o meu primeiro impulso tinha sido não lhes dizer nada. Não era já suficientemente mau, perguntei à Janice, nós sabermos?
- Não estás a pensar com clareza - respondera-me ela. - Provavelmente, porque continuas bastante perturbado. Eles já têm conhecimento do aspecto mais grave: que o John Coffey foi acusado de um crime que não cometeu. Pelo menos, este esclarecimento servirá para melhorar um pouco a situação.
Eu não estava bem seguro disso; no entanto, cedi. Esperava uma grande agitação quando contasse ao Brutal, ao Harry e ao Dean aquilo que descobrira (não podia prová-lo, mas tinha a certeza); porém, inicialmente fez-se apenas um silêncio, durante o qual todos estiveram pensativos. Pouco depois, servindo-se de um dos pãezinhos feitos pela Janice, e começando a barrá-lo com uma ultrajante quantidade de manteiga, o Dean tomou a palavra.
- Achas que o John o viu a cometer o crime? Que viu o Wharton a deixar cair as garotas, se calhar até a violá-las? - Calculo que, se ele tivesse presenciado isso, teria tentado impedi-lo - respondi. - Quanto a ter visto o Wharton, suponho que isso seja possível, talvez quando ele começou a fugir.., Mas se foi esse o caso, mais tarde acabou por se esquecer.
- Claro - aquiesceu o Dean. - Ele é um homem muito especial, mas esse factor não o torna particularmente inteligen~. Só veio a descobrir que tinha sido o Wharton, quando este estendeu o braço por entre as barras da sua cela para lhe tocar.
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O Brutal concordou com um acenar de cabeça.
- Foi por isso que o John se mostrou tão surpreendido", tão chocado. Recordam-se da forma como os seus olhos se arregalaram?
- Ele serviu-se do Percy para abater o Wharton - intervim com um acenar de cabeça -, como se este fosse uma arma, como disse a Janice, e foi isso que não lhe saiu da cabeça. Por que motivo é que o John Coffey havia de querer matar o Bill Selvagem? O Percy, sim... foi ele quem espezinhou o rato do Delacroix mesmo à nossa frente, foi o Percy quem queimou o Delacroix ainda em vida, como o John sabia, mas o Wharton? Este causou problemas a todos nós, de uma maneira ou de outra, mas nunca se meteu pessoalmente com o John. Tanto quanto sei, disse-lhe uma dezena de palavras durante o tempo em que estiveram na Milha, e metade delas foram ditas nessa última noite. Porque é que ele haveria de querer fazer uma coisa dessas? Era oriundo do município de Purdom e nessa região os brancos não dão pela presença de um negro, a menos que este, por mero acaso, apareça na rua deles. Portanto, o que é que o levou a fazer aquilo? O que é que ele poderia ter sentido ou visto de tão grave quando o Wharton lhe tocou que guardou em si o veneno que extraiu do corpo da Melinda?
- E quase se matou devido a essa atitude - atalhou o Brutal.
- É verdade. As gémeas Detterick foram a única justificação que me ocorreu para explicar o seu acto. Disse a mim mesmo que essa ideia era um autêntico disparate, uma coinci
dência demasiado grande, que era impossível. Mas foi então que me recordei de algo que o Curtis Anderson tinha escrito no primeiro memorando que recebi sobre o Wharton... Que este era completamente louco, e que tinha vagueado por todo o estado antes do assalto em que matou toda aquela gente. "Tinha vagueado por todo o estado." Isso ficou-me gravado na mente. Além do mais, havia ainda a maneira como ele tentara sufocar o Dean quando chegou ao bloco. Foi isso que me levou a pensar no...
- No cão - completou o Dean. Esfregava o pescoço na região onde o Wharton tinha enrolado a corrente. Não me parece que ele tivesse consciência do que estava a fazer.
A forma como o pescoço do cão foi fracturado.
- Seja como for, decidi ir até ao município de Purdom
examinar os registos do tribunal referentes ao Wharton... Tudo o que tínhamos aqui eram os relatórios sobre os assassínios que o trouxeram para a Milha Verde. Por outras palavras,
fim da sua carreira criminal. O que eu desejava era o princí-
pio de muitos problemas? - perguntou o Brutal.
- Efectivamente. Vandalismo e pequenos furtos; lançou fogo a montes de feno e até o furto de um explosivo... Ele e um amigo roubaram uma barra de dinamite e fizeram-na explodir na margem de um riacho. Não há dúvida de que ele começou cedo, apenas com dez anos de idade; contudo, o que eu queria saber não se encontrava nessa documentação. Foi então que apareceu o xerife, para saber o que é que eu estava a fazer ali, e isso foi uma sorte. Contei-lhe uma aldrabice, dizendo-lhe que uma busca revelara uma grande quantidade de fotografias escondidas debaixo do colchão do Wharton... fotografias de garotinhas nuas. Acrescentei que pretendia saber se o Wharton tinha algum historial como pederasta, porque ouvira falar de uns dois casos por resolver no Tennessee. Tive o cuidado de não mencionar as gémeas Detterick. Tenho a impressão de que esse assunto também nunca lhe ocorreu.
- É claro que não - corroborou o Harry. - Porque é que ele se haveria de ter lembrado desse caso? Ao fim e ao cabo, acabou por ser resolvido.
- Eu disse-lhe que calculava que não faria qualquer sentido ir atrás dessa ideia, uma vez que não existia nada a esse respeito no cadastro do Wharton. Quero dizer, havia muita coisa nos registos, mas nada que se relacionasse com esse género de coisa. Então o xerife... Catlet, é como ele se chama... riu-se e disse que nem toda a gente era tão má rês como o "Bill" Wharton e que tudo o que ele fizera estava registado na documentação do tribunal. Perguntou-me que interesse é que isso poderia ter agora? Ele estava morto, não era?
"Justifiquei-me, dizendo-lhe que procedia àquelas investigações apenas com o propósito -de satisfazer a minha curiosidade e nada mais, e isso descontraiu-o um pouco. Levou-me para o seu gabinete, convidou-me a sentar, ofereceu-me uma caneca de café e um donut, e contou-me que havia dezasseis meses, quando o Wharton acabara de fazer os dezoito anos, fora apanhado por um homem a oeste do condado no celeiro com a filha. Não se tratou exactamente de um caso de violação; o tipo descreveu o acontecimento ao Catlet como
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"não muito mais do que um dedo enfiado na coisa". Descul pa a vulgaridade, querida.
- Não tem importância - disse Janice. No entanto, tinhas faces empalidecidas.
- Que idade tinha a rapariga? - inquiriu o Brutal. - Nove anos - respondi.
Ele retraiu-se.
- O próprio homem poderia ter-se encarregado do Whar_ ton, se tivesse irmãos mais velhos ou primos que lhe dessem uma ajuda, mas não era esse o caso. Por isso, decidiu ir falar com o Catlet e deixou bem claro que só pretendia que o Wharton fosse advertido. Ninguém deseja que um assunto de uma natureza tão desagradável como aquela viesse a ser do domínio público. Seja como for, há muito que o xerife Catlet tratava das travessuras do Wharton... Mandara-o para uma instituição correccional durante mais ou menos oito meses quando tinha quinze anos... e decidira que aquilo já estava a passar das marcas. Reuniu três assistentes, foram até casa do Wharton, afastaram Mrs. Wharton quando esta começou a choramingar e a lamentar-se, e disseram ao William Billy "the Kid" Wharton o que costumava acontecer aos matulões desastrados, com borbulhas na cara, que tinham por hábito subir até ao sótão com feno dos celeiros com rapariguinhas que ainda não tinham idade suficiente para terem ouvido falar das suas regras mensais, quanto mais terem idade para ser menstruadas. "Demos um bom aviso a esse pequeno arruaceiro", disse-me o Catlet. "Advertimo-lo até ele ter começado a sangrar da cabeça, deslocado uma omoplata e ficado com o traseiro quase em carne viva."
Embora houvesse tentado conter-se, o Brutal desatou às gargalhadas.
- Isso é mesmo típico do município de Purdom - disse ele. - Sem tirar nem pôr.
- Foi mais ou menos três meses depois disso que ° Wharton deu início às suas escapadelas violentas que culminaram no assalto - acrescentei. - Nisso e nos assassínios que o trouxeram até nós.
- Portanto, isso significa que ele já se tinha metido com uma menor, pelo menos numa ocasião - interveio o Harry. Tirou os óculos do nariz, lançou bafo para as lentes e come' çou a limpá-las. - De muito menor idade. Mas uma vez não pode ser considerado um padrão de comportamento, não é verdade?
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Um homem não se limita a fazer uma coisa dessas apenas numa ocasião - atalhou a minha mulher, cerrando os lábios com tanta força que dava a impressão que estes lhe tinham desaparecido do rosto.
Em seguida, descrevi-lhes a minha visita ao município de Trapingus. Eu fora bastante mais franco com o Rob McGee... Com efeito,. não me restara alternativa. Até hoje não faço a mínima ideia da espécie de história que ele magicou para contar a Mister Detterick, mas a realidade é que o McGee que se sentou ao meu lado ao balcão do restaurante parecia ter envelhecido uns sete anos.
Em meados de Maio, aproximadamente um mês antes do assalto e dos homicídios que puseram cobro à curta carreira criminal do Wharton, o Klaus Detterick pintou o celeiro (e, diga-se a título de curiosidade, também a casota do Bowser, que lhe ficava adjacente). Não quisera que o filho trepasse para os andaimes e, em qualquer dos casos, o rapaz frequentava a escola nessa altura, pelo que decidiu contratar um sujeito que lhe fizesse esse trabalho. Um fulano simpático. Muito sossegado. A tarefa levara três dias a completar. Não, o sujeito não pernoitara na casa, o Detterick não era irresponsável ao ponto de acreditar que um sujeito simpático e sossegado significasse ser de confiança, especialmente nesses tempos em que havia tanta escumalha desempregada a vaguear por todas as estradas do estado. Um homem que tivesse família deveria ter todos os cuidados. Em qualquer dos casos, o homem não necessitara de alojamento; disse ao Detterick que alugara um quarto na cidade, no estabelecimento da Eva Price. De facto, havia uma senhora de nome Eva Price em Tefton, e efectivamente ela alugava quartos; contudo, nesse mês de Maio não teve um hóspede que se ajustasse à descrição que o Detterick fez do homem que contratara; em sua casa encontravam-se alojados apenas os indivíduos habituais de chapéus moles e fatos aos quadrados, acompanhados das suas malas de amostras... por outras palavras, os caixeiros-viajantes. O McGee pôde contar-me isso porque fora até casa de Mrs. Price ao voltar da quinta do Detterick, a fim de confirmar o que~este lhe dissera, o que mostra até que ponto é que ficara perturbado.
- Ainda assim - acrescentou ele -, não existe qualquer lei que impeça um homem de dormir ao relento no bosque, Mister Edgecombe. Eu próprio já fiz isso numa ou duas ocasiões.
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O homem contratado não tinha pernoitado em casa dos Detterick, embora houvesse jantado duas vezes com a família. Teria tido oportunidade de conhecer o Howie e as duas
garotas, a Cora e a Kathe. Teria tido ocasião de ouvir as suas tagarelices, o quanto ambas se sentiam ansiosas pela chegada do Verão, porque caso se portassem bem e as noites estivessem quentes, a mãe por vezes deixava-as dormir no alpendre onde poderiam fingir que eram mulheres dos colonizadores a atravessar as grandes planícies em carroças Conestoga,
- Eu estou a imaginá-lo sentado à mesa, a comer galinha assada com o pão de centeio feito por Mistress Detterick, ouvindo atentamente com os seus olhos de lobo bem velados,
acenando com a cabeça e sorrindo um pouco, enquanto ia armazenando todas aquelas informações.
- Essa descrição não se ajusta nada ao homem selvático de que me falaste, quando ele chegou à Milha, Paul - interveio a Janice com uma expressão de dúvida. - Nem um pouco.
- Está a dizer isso porque não teve oportunidade de o ver no hospital de Indianola, minha senhora - atalhou o Harry. - Ali de pé com a boca aberta e o traseiro a ver-se pela abertura da bata do hospital. Permitindo que o vestíssemos. Pensámos que ou ele estava drogrado ou era apatetado. Não éverdade, Dean?
Este acenou afirmativamente.
- No dia em que acabou de pintar o celeiro e deixou a quinta, um homem com o rosto coberto por um lenço assaltou os escritórios dos Transportes Hampey, situados em Jarvis - continuei. - Conseguiu fugir com setenta dólares. Também se apoderou de um dólar de prata de mil oitocentos e noventa e dois, que a empresa de transportes guardava como uma espécie de amuleto da sorte. Esse dólar de prata foi encontrado na posse do Wharton quando ele foi capturado, e Jarvis fica apenas a quarenta e oito quilómetros de Teflon.
- Por conseguinte, este assaltante... este homem selvático... achas que ele esteve três dias na quinta do Klaus Deste• rick para o ajudar a pintar o celeiro - disse a minha mulher. -
Jantou na companhia da família e disse "por favor, passem-me as ervilhas", como qualquer pessoa normal.
- O mais assustador nos homens da laia dele é a maneira de ser absolutamente imprevisível - comentou o Brutal.
É possível que ele tivesse planeado atacar a casa dos Detterick para os chacinar, e depois mudar de ideias, porque uma nuvem ocultou o Sol na altura inoportuna, ou algo de semelhante. Talvez pretendesse apenas manter-se um pouco fora das vistas. Contudo, o mais plausível seria ele já ter as duas garotas debaixo de olho e tencionar regressar à quinta. Não te parece que tenha sido assim, Paul?
Acenei que sim. Claro que era essa a minha opinião. - E temos ainda o nome com que ele se identificou perante o Detterick.
- De que nome é que estás a falar? - pergumtou a Janice. ,_.-- Willy Bonney.
Bonney?... Não estou a...
Era o nome verdadeiro do Billy the Kid.
- Oh! - Os olhos dela arregalaram-se ao ouvir aquilo. - Oh! Portanto, isso quer dizer que poderás salvar o John Coffey! Graças a Deus! Só precisas de mostrar a Mister Detterick uma fotografia do William Wharton... Isso deve ser o suficiente...
O Brutal e eu trocámos um olhar constrangido. O Dean mostrava uma expressão um tanto esperançosa, mas o Harry não despregava o olhar das mãos que tinha no colo, como se, de repente, tivesse desenvolvido um enormíssimo fascínio pelas suas próprias unhas.
- O que é que se passa? - perguntou a Janice. - Porque é que estão a olhar uns para os outros dessa maneira? Com certeza que esse homem, o McGee terá de...
- O Rob McGee pareceu-me ser um homem de bem, e estou em crer que é um excelente polícia - disse eu. - No entanto, não tem qualquer peso no município de Trapingus. Quem detém o poder por aquelas paragens é o xerife Cribus, e o dia em que ele decidir reabrir o caso do Detterick com base naquilo que eu descobri será o dia em que começará a nevar no inferno.
- Mas... se o Wharton esteve lá... se o Detterick tem possibilidades de o identificar por uma fotografia, e se eles souberem que ele esteve presente...
- O facto de ele poder lá ter estado em Maio não significa, necessariamente, que tenha regressado em Junho para matar as duas garotinhas - argumentou o Brutal. Falava num timbre de voz baixo e suave, tal como quando se costuma anunciar a morte de um familiar. - Por um lado, temos esse
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fulano que ajudou o Klaus Detterick a pintar o celeiro e que depois se foi embora. Veio a descobrir-se que andava a cometer crimes por tudo quanto era lugar. Todavia, não existe nada contra o homem que durante os três dias, em Maio, andou pelos arrabaldes de Tefton. Por outro lado, temos esse negro enorme, de facto, esse negro gigantesco que foi encontrado na margem do rio, tendo nos braços duas meninas mortas completamente nuas.
Brutus abanou a cabeça.
- O Paul tem toda a razão, Jan. O McGee poderá ter as suas dúvidas, mas o que ele pensa não é importante. O Cribus é o único com poderes para reabrir o caso, mas não deseja
interferir com aquilo que está convencido ter sido um fim feliz... "Foi um negro", pensará ele, "e não, seja como for, um dos nossos. Esplêndido. Irei até Cold Mountain, como um bom bife acompanhado de uma bela cerveja à pressão num restaurante qualquer, depois vejo-o ser frito e será o fim de todo este assunto."
A Janice ouviu tudo aquilo com uma expressão de horror crescente espelhada no rosto, e voltou-se para mim.
- Mas o McGee acredita no que tu descobriste, não é verdade, Paul? Eu vi isso no teu rosto. O assistente do xerife, o McGee, sabe que prendeu o homem errado. Não estará ele disposto a fazer frente ao xerife?
- O que ele pode conseguir ao enfrentar o xerife é perder o emprego - redargui. - Sim, acredito que bem no fundo do seu coração ele sabe que os crimes foram cometidos
pelo William Wharton. Mas aquilo que diz a si próprio é que se mantiver a boca fechada e alinhar no jogo até o Cribus se aposentar, ou este se empanturrar até à morte, é que será ele quem virá a ocupar o seu lugar. E nessa altura as coisas serão diferentes. É isto o que ele repete a si mesmo todas as noites antes de conciliar o sono, imagino eu. E muito provavelmente, nisso não difere muito do Homer. Dirá a si mesmo: "Ao fim e ao cabo, o homem não passa de um negro. Não se pode dizer que vão electrocutar um branco por um crime que ele não cometeu."
- Nesse caso, tens de ir falar com eles - insistiu a Janice de uma forma que me fez gelar o coração, devido à profunda determinação que adivinhei na sua voz. - Vais ter de os pôr ao corrente daquilo que descobriste.
- E vamos dizer-lhes que descobrimos como, Jan?
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- perguntouu o Brutal no mesmo timbre de voz. - Achas que devemos descrever a maneira como o Wharton agarrou
o John quando íamos a tirá-lo da prisão para ele poder efectuar um milagre na mulher do director?
- Não... claro que não, mas... - Ela compreendeu até que ponto o gelo estava fino naquela direcção, e começou a patinar numa outra. - Nesse caso, serão obrigados a mentir - continuou ela. Lançou um olhar de desafio ao Brutal, depois fitou-me. O olhar dela era tão quente, que quase seria capaz de queimar um buraco num jornal.	_
- Mentir - repeti. - Mentir acerca de quê?
- Sobre o motivo que te levou a tomar a iniciativa de ires até ao município de Purdom e depois ao de Trapingus. Vai até lá falar com esse xerife gordo, o Cribus, e diz-lhe que o Wharton te contou que tinha assassinado as gémeas Detterick. Diz-lhe que ele confessou. - Por breves momentos, a Janice concentrou o seu olhar acalorado no Brutal. - Tu podes confirmar o que ele disser, Brutus. Podes dizer que estavas presente quanto ele confessou e que ouviste tudo. Pois bem, provavelmente também o Percy testemunhou tudo, e talvez tenha sido precisamente isso que o fez perder as estribeiras. Alvejou o Wharton porque não foi capaz de suportar a ideia daquilo que este fizera àquelas crianças. Afectou-lhe a mente. Aconteceu que... O quê? O que foi agora, em nome de Deus?
Não era só eu e o Brutal; o Harry e o Dean também a fitavam com uma espécie de horror.
Nunca dissemos nada desse género, minha senhora - declarou o Harry. Expressava-se como se falasse a uma criança. - A primeira pergunta que as pessoas fariam seria por
que motivo não o tínhamos feito já. É nosso dever participar tudo o que os nossos bebés de cela dizem a respeito dos seus crimes anteriores. Dos seus e dos de outros prisioneiros.
- Não que tivéssemos acreditado nele - atalhou o Brutal. - Um homem como o Bill "Selvagem" Wharton é capaz de mentir sobre tudo e mais alguma coisa, Jan. Sobre os crimes por ele cometidos, gente importante que conheceu, mulheres com quem foi para a cama, os jogos em que participou na escola secundária, até mesmo sobre o raio do tempo.
- Mas... mas... - O semblante da Janice era de grande agonia. Aproximei-me dela, colocando o meu braço à volta dos seus ombros mas ela afastou-o violentamente. - Mas
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ele esteve lá! Foi ele quem pintou o maldito do celeiro da quinta! ELE JANTOU NA COMPANHIA DELES!
- Mais uma razão para chamar a si todo o crédito pelo crime - interpôs o Brutal. - Ao fim e ao cabo, que mal é que poderia advir daí? Por que razão é que ele não se vangloriou? Afinal de contas, não se pode fritar um homem duas vezes.
- Deixem-me ver se estou a compreender correctamente esta situação. Nós sabemos que o John Coffey não só não matou essas garotas, como também tentou salvar as suas vi
das. O assistente do xerife, o McGee, não se encontra ao corrente de tudo isto, como é evidente; no entanto, não deixa de calcular que o homem condenado à morte por causa desses crimes não é aquele que os cometeu. E ainda assim... mesmo assim... vocês não conseguem fazer com que ele seja julgado de novo. Nem sequer são capazes de reabrir o caso.
- É isso mesmo - afirmou o Dean, que limpava furiosamente as lentes dos óculos. - Isso resume mais ou menos a situação.
A Janice ficou sentada de cabeça baixa, embrenhada nos seus pensamentos. O Brutal começou a dizer qualquer coisa, mas eu ergui a mão para o calar. Não acreditava que a Janice
fosse capaz de engendrar uma maneira de safar o John Coffey da cadeira eléctrica, da qual ele já se encontrava bastante próximo, apesar de, ao mesmo tempo, estar em crer que isso não seria completamente impossível. A minha mulher era uma senhora inteligente e destemida. E muito determinada. Essa combinação tinha por vezes o poder de transformar montanhas em vales.
- Muito bem - disse ela ao fim de algum tempo. - Nesse caso, terão de ser vocês a fazê-lo sair da prisão. - Minha senhora?! - exclamou o Dean, absolutamente atordoado. E assustado, também.
- Vocês podem fazê-lo. Já o fizeram uma vez, não é verdade? Podem muito bem voltar a fazé-lo. Só que desta vez não o levam de regresso à penitenciária.
- Gostaria a senhora de explicar aos meus filhos a razão por que o pai deles foi para a prisão, Mistress Edgecombe? - perguntou o Dean. - Acusado de ter ajudado um assassino a fugir da penitenciária?
- As coisas não se passarão assim Deam havemos de estabelecer um plano. Fazer com que pareça ter sido uma verdadeira fuga.
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Nesse caso, convém que se trate de um plano que possa ter sido concebido por um sujeito que nem sequer se recorda como é que se atam os atacadores - observou o Harry. -
Terá de ser suficientemente verosímil para as pessoas poderem acreditar nele.
A Janice olhou para ele, insegura.
- Isso não serviria de nada - interpôs o Brutal. - Ainda que conseguíssemos pensar numa maneira, não serviria para nada.
- E porque não? Ela parecia prestes a desatar a chorar. - Por que raio é que não?
- Porque ele mede mais de dois metros, é careca, preto e o seu cérebro mal lhe permite alimentar-se pela sua própria mão - repliquei. - Quanto tempo pensas que ele demorará a ser capturado? Duas horas? Talvez seis?
- Ele conseguiu sobreviver anteriormente sem despertar grandes atenções - argumentou ela. Por uma das faces correu-lhe uma lágrima. Com a palma da mão limpou-a num gesto de fúria.
Até certo ponto aquilo era verdade. Eu escrevera umas cartas a alguns amigos e familiares que tinha no Sul, perguntando-lhes se haviam lido alguma coisa nos jornais sobre um homem que se ajustasse à descrição do Coffey. Qualquer coisa. A Janice também fizera o mesmo. Até à data, só tivéramos conhecimento de uma ocasião em que ele, possivelmente, interviera com os seus poderes na localidade de Muscle Shoals, no Alabama. Um tornado atingira a igreja local enquanto o coro ensaiava - o que sucedera em 1929 - e um homem negro, de grande corpulência, conseguira retirar dois homens dos escombros. Inicialmente, ambos pareciam estar mortos, de acordo com a opinião dos presentes, tendo no entanto vindo a verificar-se que nenhum deles sofrera lesões graves. Foi como se se tratasse de um milagre, dissera uma das testemunhas. O homem de raça negra, um vagabundo, o qual fora contratado pelo pastor da igreja para executar algumas tarefas por um dia desaparecera no meio de toda a excitação que se seguiu.
- Tens razão, ele conseguiu safar-se - admitiu o Brutal. - Mas convém não esquecer que ele foi capaz de passar despercebido antes de ter sido julgado e condenado pelo homicício de duas garotinhas.
A Janice permaneceu sentada sem dar qualquer resposta. Deixou-se ficar assim durante quase um minuto, e depois fez algo que me chocou tanto como o meu súbito ataque de lágri
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mas a deveria ter chocado. Estendeu o braço para a frente e com um gesto amplo, atirou para o chão tudo o que se encontrava em cima da mesa - os pratos, os copos, as canecas, os talheres, a terrina com a salada de couve, a tigela com a polpa de abóbora, a travessa com a perna de porco trinchada, o leite e o jarro que continha chá frio. Tudo aquilo acabou por tombar da mesa, tendo-se espalhado no meio do chão.
- Ora esta! ! ! - exclamou o Dean, fazendo recuar a cadeira com tanta força que quase caiu de costas.
A Janice não lhe prestou a mínima atenção. Olhava ora para o Brutal ora para mim, mais acentuadamente para mim. - Estão a dizer-me que tencionam matá-lo, grandes cobardes? - perguntou ela com desdém. - Estão dispostos a matar o homem que salvou a vida da Melinda Moores e que tentou salvar a vida dessas duas garotinhas! Ora bem, pelo menos haverá um negro a menos neste mundo, não é verdade? Vocês podem consolar-se com essa justificação. Um negro a menos!
Com aquelas palavras, a Janice levantou-se da mesa, olhou para a cadeira onde estivera sentada e deu-lhe um pontapé, arremessando-a contra a parede. A cadeira fez ricochete,
tendo ido cair em cima da polpa de abóbora derramada no chão. Agarrei-a pelo pulso, mas ela libertou-se com um violento puxão.
- Não te atrevas a tocar-me - ripostou ela. - Por esta altura na próxima semana ter-te-ás transformado num assassino; não serás melhor do que esse homem, o Wharton. Portanto, não quero que me toques.
Dirigiu-se para o alpendre das traseiras, ergueu o avental, cobrindo o rosto e começou a chorar convulsivamente. Nós os quatro ficámos a olhar uns para os outros. Ao fim de algum
tempo, levantei-me da mesa e comecei a limpar toda aquela porcaria. O Brutal foi o primeiro a ajudar-me, seguido do Harry e do Dean. Quando a cozinha voltou a ter de novo um aspecto mais ou menos arrumado foram-se embora. Nenhum de nós trocou uma única palavra. Na realidade, não havia mais nada a dizer.
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Era a minha noite de folga. Sentei-me na sala de estar da nossa casa pequena, a fumar cigarro após cigarro, ouvindo o rádio e observando a escuridão a emergir do solo para tragar
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o céu. A televisão é um bom entretenimento, não tenho nada contra ela, mas não me agrada a maneira como nos afasta do resto do mundo, fazendo com que nos concentremos apenas no seu próprio ecrã de vidro. Pelo menos nesse aspecto, o rádio era muito melhor.
A Janice regressou ao interior de casa, ajoelhou-se ao lado do braço da minha poltrona e agarrou-me na mão. Durante algum tempo, nenhum de nós disse nada, ficámos assim a ouvir no rádio o Kay Kyser's Kollege of Musical Knowledge e observámos as estrelas que começavam a .pontilhar o firmamento. Por mim estava muito bem assim.
- Desculpa ter-te chamado cobarde - disse ela ao fim de algum tempo. - Sinto-me pior por ter afirmado isso do que por qualquer outra coisa que possa ter dito ao longo de todos os anos do nosso casamento.
- Isso também inclui a ocasião em que fomos acampar e me chamaste Velho Sam Fedorento? - perguntei eu. Desatámos a rir e trocámos um beijo ou dois, o que fez com que a situação se desanuviasse um pouco entre nós. Ela era tão bonita, a minha Janice, e eu continuo a sonhar com ela. Sentindo-me velho e cansado de viver da maneira como vivo, sonho com ela a entrar no meu quarto neste lugar solitário e esquecido por todos, onde os corredores têm um fedor a mijo e a couve cozida retardada, e sonho que ela é maravilhosa e jovem, com os seus olhos azuis, seios firmes e direitos, dos quais eu mal conseguia manter as mãos afastadas, e ela dirá: Bem vês, querido, eu não estava naquele acidente de autocarro. Enganaste-te, mais nada. Até mesmo agora costumo sonhar com isso e, por vezes, quando desperto e compreendo que não passou de um sonho, começo a chorar. Eu que quando era novo só muito raramente é que chorava.
- O Hal já sabe? - perguntou ela por fim. - Que o John está inocente? Não vejo como possa saber.
- Achas que ele pode fazer alguma coisa? Tem alguma influência junto do Cribus?
- Nem um bocadinho, minha querida.
A Janice fez um acenar de cabeça como se já esperasse aquela resposta.
- Sendo assim não lhe digas nada. Se ele não puder auxiliar em nada, por amor de Deus não lhe contes.
- Não - respondi.
é que ele
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Olhou para mim com olhos de expressão firme.
- E nessa noite não vais dar parte de doente. Nenhum de vós o fará. Não podem fazer uma coisa dessas.
- Não, não podemos. Se estivermos presentes, pelo menos poderemos acelerar o processo, facilitando-lhe as coisas. Isso estará ao nosso alcance. Não vai acontecer o que aconte
ceu ao Delacroix. - Por uns momentos, misericordiosamente breves, vi a máscara de seda negra a queimar-se sobre o rosto do Del, revelando as pequenas massas de gelatina cozinhada que haviam sido os seus olhos.
- Não tens maneira nenhuma de te livrares, pois não? . A Janice agarrou-me na mão e levou-a à pele aveludada da sua face. - Pobre Paul. Pobre homem.
Eu não lhe disse nada. Nunca antes, nem tão-pouco em qualquer outra altura da minha vida, me apeteceu tanto fugir de qualquer coisa. Levar apenas a Jan comigo, os dois sozi nhos com um saco de tecido grosseiro contendo os nossos haveres, fugindo para qualquer lugar.
- Meu pobre homem - repetiu ela, acrescentando logo em seguida: - Fala com ele.
- Com quem? Com o John?
- Sim. Fala com ele. Descobre o que é que ele quer. Pensei no assunto, e acenei com a cabeça. Ela tinha razão. Costumava ter.
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Dois dias mais tarde, a 18, o Bill Dodge, o Hank Bitterman e mais alguém - não me recordo de quem, um temporário qualquer - levaram o John Coffey até ao Bloco D para
tomar um duche, o que nos permitiu ensaiar a sua execução. Não deixámos que o Pouca Terra ocupasse o lugar do John; todos nos dávamos conta de que, ainda que não houvéssemos mencionado o assunto, isso teria sido uma obscenidade.
Fui eu quem ocupou o seu lugar.
- John Coffey - começou o Brutal a dizer numa voz que não primava pela firmeza, enquanto eu me sentava desajeitadamente em cima da Velha Faísca -, o senhor foi condenado a morrer na cadeira eléctrica, tendo a sentença sido lavrada por um júri formado por seus pares:..
Pares do John Coffey? Mas que grande piada. Tanto
quanto me era dado saber, não existia em todo o planeta outra pessoa como ele. Então pensei no que o John dissera naquela ocasião em que ficara a olhar para a Velha Faísca, imobilizado ao fundo das escadas que saíam do meu gabinete: Eles continuam ali. Consigo ouvi-los gritar.
- Deixem-me sair daqui - disse eu numa voz enrouquecida. - Desapertem estas braçadeiras e deixem-me levantar. Eles assim fizeram, mas durante uns instantes senti-me imobilizado na cadeira, como se a Velha Faísca não desejasse que eu me levantasse.
Enquanto regressávamos ao bloco, o Brutal começou a falar comigo em voz baixa, de forma a que tanto o Dean como o Harry, os quais colocavam as últimas cadeiras atrás de nós, não pudessem ouvir-nos.
- Já fiz algumas coisas ao longo da minha vida das quais não me sinto muito orgulhoso, mas esta é efectivamente a primeira vez que sinto que estou a correr o risco de ir parar ao inferno.
Olhei para ele a fim de me certificar de que não estava a brincar. Não me pareceu que estivesse.
- O que é que pretendes dizer com isso? - perguntei. - Estamos a preparar-nos para matar uma bênção de Deus - continuou ele. - Uma bênção que nunca nos fez o mínimo mal nem a qualquer outra pessoa. O que é que eu vou dizer no caso de me ver em frente de Deus, o Pai Todo-Poderoso, e Ele me pedir para Lhe explicar por que motivo fiz isto? Que fazia parte do meu trabalho? Do meu trabalho?
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Quando o John regressou do seu duche e os temporários nos deixaram a sós, abri a fechadura da sua cela e entrei, sentando-me na tarimba ao seu lado. O Brutal encontrava-se sentado à secretária do guarda de serviço. Ergueu o olhar, viu que eu estava sentado na cela sem qualquer colega, mas não fez comentários. Voltou a concentrar a sua atenção na papelada em que trabalhava, enquanto lambia constantemente a ponta do lápis.
O John fitou-me com os seus olhos estranhos - raiados de sangue, distantes, à beira das lágrimas... e contudo, com uma expressão serena, como se o choro não fosse uma forma
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de vida assim tão má, sobretudo depois de nos termos acostumado. Conseguiu mesmo esboçar um pequeno sorriso. Cheirava a sabonete, recordo-me bem, tão limpo e com tanta frescura como um bebé depois do seu banho ao fim do dia.
- Olá, chefe - saudou-me ele, estendendo o braço e tomando as minhas mãos nas suas. Aquilo foi feito com uma naturalidade perfeita, sem nada de premeditado.
- Olá, John. - Eu sentia um pequeno embargo na garganta e tentei afastá-lo ao engolir em seco. - Suponho que já saibas que a data está a aproximar-se. Só faltam dois dias.
Ele não me deu réplica, limitando-se a continuar sentado com as minhas mãos nas suas. Estou convencido de que, agora que penso nisso, já começara a acontecer-me algo, mas eu
encontrava-me demasiado concentrado - quer psicológica quer emocionalmente - em cumprir as minhas obrigações para poder ter reparado nisso.
- Há alguma coisa em especial que queiras para o jantar dessa noite, John? Podemos arranjar-te quase qualquer coisa que queiras. Até podemos trazer-te uma cerveja. Só temos de
a despejar para dentro de uma caneca de café, mais nada. - Nunca gostei do sabor - disse ele.
- Então qualquer coisa especial para comer? - sugeri. A sua testa enrugou-se abaixo daquela grande extensão de pele castanha sem cabelos. Pouco depois, as rugas suavizaram-se e ele sorriu.
- Rolo de carne seria bom.
- Nesse caso, será mesmo rolo de carne. Com molho e puré de batata. - Senti um entorpecimento no braço, como quando adormecemos sobre ele, só que esta sensação percorria-me o corpo todo. O interior do meu corpo. - Que mais queres como acompanhamento?
- Não sei, chefe. O que houver. Talvez um pouco de quiabo.
- De acordo - anuí, pensando que ele também haveria de comer à sobremesa a torta de pêssego de Mrs. Janice Edgecombe. - E agora a respeito de um padre? Alguém com
quem possas rezar uma pequena oração, na noite de depois de amanhã? Serve para confortar um homem; já vi isso muitas vezes. Eu poderia entrar em contacto com o Reverendo Schuster, ele é o homem que veio ao bloco quando o Del..~
- Não quero nenhum pregador - disse o John. - O senhor tem sido bom para mim, chefe. Se quiser, pode rezar
uma oração. Isso há-de chegar. Acho que podia ajoelhar-me um pouco consigo.
- Eu! John, eu não seria capaz de...
Fez um pouco de pressão sobre as minhas mãos e aquela sensação tornou-se mais forte.
- Seria, sim - continuou o John. - Não acha, chefe? - Suponho que sim - ouvi-me a mim próprio dizer. Tinha a impressão de que a minha voz adquirira um eco. - Acho que seria, caso fosse necessário.
Naquela altura, a sensação dentro de mim era ainda mais forte; era a mesma que eu sentira anteriormente, quando ele tratara a minha canalização, mas também era diferente. Não apenas porque desta feita não havia nada de mal comigo. Era diferente porque desta vez ele não tinha consciência do que estava a fazer. Subitamente, senti-me aterrorizado, prestes a sufocar, tanta era a necessidade que me invadia de sair dali. Havia luzes acesas dentro de mim onde nunca tinham existido luzes anteriormente. Não só no meu cérebro, mas também por todo o meu corpo.
- O senhor e Mister Howell e os outros chefes têm sido bons para comigo - disse o John Coffey. - Eu sei que tem andado preocupado, mas agora deve parar com isso. Porque eu quero ir, chefe.
Tentei falar mas não consegui. Mas ele conseguia. O que o John disse a seguir foi a frase mais comprida que alguma vez ouvi da sua boca.
- Estou farto do sofrimento que vejo e ouço, chefe. Estou farto de andar pelas estradas, sozinho como um tordo à chuva, sem nunca ter um amigo para me acompanhar, ou para me dizer de onde é que viemos e para onde é que vamos, ou mesmo porquê. Estou farto que as pessoas sejam más umas para com as outras. É o mesmo que sentir bocados de vidro dentro da minha cabeça. Estou farto de todas as vezes em que quis evitar o mal e não fui capaz. Estou farto de estar sempre na escuridão. Por causa da dor. Existe muita no mundo. Se eu pudesse acabar com ela, acabava. Mas não posso.
"Pára com isso", tentei dizer-lhe. "Pára com isso, larga as minhas mãos eu afogo-me, se o não fizeres. Afogo-me ou expludo."
- Não vai explodir - disse ele, esboçando um pequeno ~rriso perante aquela ideia... Contudo, largou-me as mãos. Com a respiração arquejante, inclinei-me para a frente.
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Através do espaço entre os joelhos podia ver todas as fissuras existentes no chão de cimento, todos os sulcos, todas as partículas de mica. Ergui o olhar até à parede e vi os nomes que ali haviam sido inscritos em 1924, 1926 e em 1931. Aqueles nomes começavam a dissipar-se, tal como, para usar a mesma expressão, se haviam dissipado os homens que os tinham inscrito, mas imagino que nunca se consegue apagar por completo qualquer coisa, sobretudo deste mundo de vidro escurecido; naquele momento, via-os de novo, um emaranhado de nomes, uns por cima dos outros, e olhar para eles era o mesmo que ouvir os mortos a falar, a cantar e a implorar misericórdia. Senti os globos oculares a pulsarem dentro das órbitas, ouvi o bater do meu próprio coração, senti o fluxo do sangue a fluir através das artérias do meu corpo, quais cartas a serem remetidas para todos os lugares.
Ouvi o apito de um comboio à distância - o comboio das três e cinquenta com destino a Priceford, calculei, mas não estava inteiramente seguro de que fosse, porque nunca tinha dado por ele antes. Pelo menos, tal nunca acontecera estando eu dentro de Cold Mountain, uma vez que a distância mais próxima a que passava da penitenciária estadual era a dezasseis quilómetros a oriente. Eu não poderia tê-lo ouvido do interior da prisão, poder-se-ia dizer, e até Novembro de 1932 era o que eu teria julgado, mas o certo é que o ouvi nesse dia.
Algures no bloco, uma lâmpada estilhaçou-se com um estrépito semelhante ao de uma bomba.
- O que é que me fizeste? - perguntei ao Coffey num sussurro. - Oh, John, o que é que me fizeste?
- Lamento muito, chefe - replicou ele na sua maneira calma. - Eu não estava a pensar. Mas acho que não foi muito. Dentro de pouco tempo voltará a sentir-se óptimo.
Levantei-me da tarimba e encaminhei-me para a porta da cela. Sentia-me como se caminhasse num sonho. Quando cheguei ao fundo, ele retomou a palavra.
- O senhor continua a perguntar a si mesmo porque é que elas não gritaram. É a única coisa para que ainda não descobriu a resposta, não é verdade? Por que razão é que es
sas duas meninas não começaram a gritar, quando ainda se encontravam no alpendre.
Dei meia volta e fiquei a olhar para ele. Conseguia distinguir todas as linhas vermelhas nos seus olhos, via todos os poros nas suas faces... e também sentia o seu sofrimento, ~
dores que extraía às outras pessoas, como uma esponja que absorvesse água. Também era capaz de ver as trevas de que ele falara. Abatiam-se sobre todos os espaços do mundo tal como ele o avistava e, naquele momento, senti por ele um misto de piedade e de grande alívio. Sim, seria uma coisa terrível o que nos propúnhamos fazer, nada conseguiria alguma vez alterar esse facto... e, contudo, estaríamos a prestar-lhe um favor.
- Eu compreendi quando aquele tipo mau me agarrou - continuou o John. - Foi nessa altura que fiquei a saber que fora ele. Eu tinha-o visto nesse dia, estava no meio das árvores e vi-o quando as deixou cair e começou a fugir, mas... - Esqueceste-te - adiantei.
-- Foi isso mesmo, chefe. Até ele me tocar, esqueci-me. - Porque é que elas não gritaram, John? Ele feriu-as o suficiente para terem sangrado, os pais encontravam-se mesmo no andar de cima, portanto, por que motivo é que elas não gritaram?
John fitou-me através dos seus olhos assombrados.
- Ele disse a uma delas: "Se fizeres barulho, mato a tua irmã e não a ti", e depois disse a mesma coisa à outra. Está a compreender?
- Sim - respondi num murmúrio, enquanto visionava a cena. O alpendre da casa dos Detterick mergulhado na escuridão. O Wharton debruçado sobre as duas crianças como se fosse um ser maléfico. Provavelmente uma delas teria começado a gritar, pelo que o Wharton a agredira, fazendo-a sangrar do nariz. Fora daí que se derramara a maior parte do sangue.
- Ele matou-as com o amor delas - acrescentou o John. - O amor que sentiam uma pela outra. Está a ver como é que aconteceu?
Acenei que sim, incapaz de proferir uma única palavra. Ele sorriu-me. As lágrimas escorriam-lhe de novo pelas faces abaixo, mas ele continuava a sorrir.
- É assim que as coisas se passam todos os dias - prosseguiu o John - por todo o mundo. - Em seguida, estendeu-se sobre a tarimba e voltou o rosto para a parede.
Saí para a Milha, fechei a cela à chave e dirigi-me para a mesa no corredor. Continuava a sentir-me como um homem no meio de um sonho. Apercebi-me de que era capaz de ouvir os pensamentos do Brutal - um sussurro muito vago, a
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forma como soletrava uma palavra, tenho a impressão que era "receber". Ele perguntava a si mesmo se seria com dois ss ou com um c. Mas então soergueu o olhar e sorriu, mas o sorriso desapareceu quando olhou bem para mim.
- Paul? - perguntou. - Estás bem? - Sim.
Comecei a contar-lhe o que o John me dissera, omitindo alguns aspectos e sem mencionar a sensação que o seu toque me tinha provocado (nunca contei essa parte a ninguém, nem
sequer à Janice; a Elaine Connelly será a primeira pessoa a inteirar-se disso - isto é, se desejar ler estas últimas páginas, depois de ter lido todas as outras); todavia, repeti o que o John dissera acerca de desejar partir. Aquela informação deu a impressão de ter provocado alívio no Brutal - pelo menos, um pouco - mas pressenti (teria ouvido?) que se interrogava se eu não teria inventado tudo aquilo para lhe tranquilizar a consciência. Pouco depois, senti que ele optara por acreditar, simplesmente porque isso tornaria a situação um tudo-nada mais fácil quando chegasse a altura.
- Paul, essa tua infecção está a começar a afligir-te de novo? - perguntou ele. - Estás com um aspecto muito congestionado.
- Não. Acho que estou bem - repliquei. As minhas palavras não correspondiam à verdade, mas naquele momento fiquei com a certeza de que o John tinha razão, e que dentro em pouco me voltaria a sentir bem. A sensação de entorpecimento já começara a dissipar-se.
- Seja como for, não me parece que te fizesse mal ires para o teu gabinete deitar-te um bocado.
Deitar-me era a última coisa que me apetecia fazer naquele momento - a ideia parecia-me tão ridícula que quase me fez rir. Aquilo que me apetecia era talvez construir uma pequena casa para mim, pôr as telhas no telhado, lavrar a terra para, num jardim nas traseiras, plantar as flores. Tudo isto antes da hora de jantar.
É assim que as coisas são, pensei, todos os dias. Por todo o mundo. Essa escuridão. Por todo o mundo.
- Em vez de ir para o meu gabinete, vou até à administração. Tenho alguns assuntos a tratar.
- Se assim o dizes - replicou o Brutal.
Dirigi-me para a porta, abri-a e depois olhei para trás. - Escreveste bem a palavra - disse eu - r-e-c-e-b-e-r
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com c e não com dois ss, tal como diz a regra; mas imagino que haja excepções a todas as regras.
Continuei o meu caminho sem necessitar de olhar para ele para saber que me fitava com fixidez e de boca aberta. Durante o resto daquele turno, levei a cabo uma série de outras tarefas, incapaz de me sentar por mais de cinco minutos seguidos, antes de ser forçado a levantar-me de novo. Fui à administração e depois comecei a andar desassossegadamente pelo pátio de recreio, na altura sem ninguém, num passo alargado, de um lado para o outro, até que os guardas de vigia nas torres devem ter pensado que eu estava louco. Quando chegou a hora de o meu turno acabar, já me sentia mais calmo, e a torrente de pensamentos que me havia invadido a mente - como se fosse uma fiada de contas que se entrechocavam - já se tinha acalmado bastante.
Todavia, nessa mesma madrugada, a meio caminho de casa, voltou a acontecer a mesma coisa e com bastante intensidade, à semelhança do que sucedera com a minha infecção urinária. Fui obrigado a estacionar o Ford na berma da estrada, a sair do carro e andar durante quase oitocentos metros, de cabeça baixa, braços em movimentos rítmicos acompanhando o corpo, com a respiração arquejante tão quente como algo que se tivesse transportado debaixo do sovaco. Então, finalmente, comecei a sentir-me realmente normal. Num passo apressado, dirigi-me para o local onde estacionara o Ford, tendo percorrido metade desse caminho num passo mais regular, com a respiração a condensar-se no ar frio. Quando cheguei a casa, contei à Janice que o John Coffey me dissera que se encontrava preparado, que desejava ser executado. Ela acenou com a cabeça, mostrando uma expressão de alívio. Corresponderia a sua atitude à verdade? Não consegui dizer. Nas seis horas precedentes, até mesmo três, eu teria sabido com segurança, mas naquela altura era incapaz de ter a certeza. O que era uma coisa boa. O John dissera vezes sem conta que se sentia cansado, e agora eu era capaz de compreender porquê. Aquilo que ele possuía teria deixado qualquer pessoa exaurida. Seria o suficiente para que alguém ansiasse por descanso e tranquilidade.
Quando a Janice me perguntou por que motivo é que eu tinha um aspecto tão congestionado, cheirando tanto a transpiração, disse-lhe que tinha parado o carro a caminho de casa e que correra durante algum tempo. Contei-lhe essa parte -
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como talvez eu já tenha dito aqui (neste momento já acumulei demasiadas páginas para que me apeteça voltar atrás, a fim de me certificar se fiz ou não essa afirmação), a mentira não era um elemento preponderante no nosso casamento - embora não lhe tivesse dito porque o fizera.
E ela não me perguntou.
9
Na noite em que chegou a vez de o John Coffey percorrer a Milha Verde, não houve tempestades. Fazia o frio adequado para a época, diria eu, e havia um milhão de estrelas que pon
tilhavam o firmamento acima dos campos lavrados e cultivados, onde a geada que caíra sobre as vedações e sobre a palha seca do milho de Julho cintilava como diamantes.
O responsável destacado para aquela execução fora o Brutus Howell - seria ele quem ajustaria o capacete e diria ao Van Hay que accionasse a alavanca, quando chegasse a altura apropriada. O Bill Dodge encontrava-se junto deste último. E por volta das onze e vinte do dia 20 de Novembro, o Dean, o Harry e eu dirigimo-nos para a única cela ocupada, onde o John Coffey se encontrava sentado no extremo da tarimba, com os dedos entrelaçados entre os joelhos. Via-se uma pequena nódoa de molho de rolo de carne no colarinho da sua camisa azul. Fitou-nos através das barras da cela, dando a impressão de se sentir bastante mais calmo do que nós próprios. As minhas mãos estavam frias e as têmporas pulsavam. Saber que ele desejava que aquilo acontecesse era uma coisa - pelo menos tornava possível que levássemos a nossa tarefa a bom termo - mas outra era saber que nos encontrávamos prestes a electrocutá-lo pelo crime cometido por outrem.
A última vez que eu tinha visto o Hal Moores fora às sete horas dessa tarde. Na altura, ele encontrava-se no gabinete, a abotoar o seu sobretudo. Tinha as faces empalidecidas e as
mãos tremiam-lhe tanto que abotoar aqueles botões era uma tarefa deveras difícil. Eu quase senti vontade de lhe afastar as mãos, para ser eu próprio a abotoar-lhe o sobretudo, como faria a uma criança. A ironia daquela situação era que a Melimda estava com melhor aspecto quando a Jan e eu fôramos visitá-la no fim-de-semana anterior do que o Hal no fim do dia em que o John Coffey seria executado.
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- Não vou assistir a esta - dissera ele. - O Curtis estará presente, e sei que o Coffey vai estar em boas mãos, contigo e com o Brutus.
. Sim, faremos o nosso melhor - repliquei. - Há alguma novidade em relação ao Percy? - Como é evidente, o que eu perguntava era se ele teria dado algum sinal de estar a recuperar o juízo. Encontrar-se-ia ele naquele momento sentado num quarto algures, narrando a alguém, algum médico, muito provavelmente, a forma como nós o havíamos manietado no colete dos malucos e atirado para dentro da cela do isolamento, como qualquer outra criança problemática... qualquer outro mentecapto, utilizando a linguagem do Percy? E caso fosse isso o que estivesse a acontecer, os que o ouvissem acreditariam no que ele dizia?
Todavia, de acordo com o que o Hal dissera, o Percy continuava na mesma. Não falava e, tanto quanto qualquer pessoa pudesse saber, tão-pouco se encontrava neste mundo. Continuava internado em Indianola - "para ser submetido a avaliação", acrescentou o Hal, exibindo uma expressão mistificada perante aquela expressão - contudo, caso não se verificassem quaisquer melhorias, dentro em pouco seria transferido.
- Como é que o Coffey está a aguentar-se? - perguntara o Hal nessa altura. Finalmente, e ao cabo de porfiados esforços, conseguira abotoar o último botão do sobretudo.
- Tudo correrá da melhor maneira - respondi com um acenar de cabeça.
Ele retribuiu-me com outro aceno e dirigiu-se para a porta, parecendo envelhecido e adoentado.
- Como é que no interior do mesmo homem poderão coabitar tanto bem e tanto mal? Como é que o homem que curou a minha mulher pode ser o mesmo homem que matou essas duas garotas? Consegues compreender uma coisa dessas?
Disse-lhe que não conseguia compreender, que os caminhos de Deus eram misteriosos, acrescentando que havia bom e mau em todos nós, que não nos cabia tentar descobrir a razão daquilo, e mais algumas patranhas do mesmo teor. A maior parte daquilo que lhe disse na ocasião aprendera na Igreja de Jesus Seja Louvado, O Senhor É Todo-Poderoso; o Hal acenara com a cabeça durante todo o tempo, exibindo uma expressão parecida com enlevo. Ele podia dar-se ao luxo de acenar com a cabeça, não é verdade? Sim. E também de
mostrar-se enlevado. No seu semblante, adivinhava-se uma profunda tristeza - sem dúvida que ele se sentia abalado, nunca duvidei disso - mas desta vez não lhe assomaram lágrimas aos olhos, porque ele tinha uma mulher em casa à sua espera, a sua companheira que o aguardava, e ela estava bem de saúde. Graças ao John Coffey, ela encontrava-se completamente curada e o homem que tinha assinado a sentença de morte do John poderia ir-se embora para junto dela. Não era obrigado a presenciar aquilo que aconteceria a seguir. Teria possibilidades de dormir nessa noite no calor do corpo da mulher, enquanto o John Coffey estaria estendido sobre um bloco de mármore na cave do hospital do município, com o corpo a arrefecer à medida que as horas silenciosas e desprovidas de calor humano se aproximavam da alvorada. Odiei o Hal por todos aqueles motivos. Só um pouco, e claro que eu acabaria por ultrapassar esse sentimento, mas o que era inegável é que se tratava de ódio. Do mais genuíno que pudesse existir.
Pouco depois entrei na cela, seguido pelo Dean Harry; ambos estavam cabisbaixos e pálidos.
- Estás preparado, John? - perguntei.
- Sim, chefe. Acho que sim - respondeu-me ele.
- Muito bem, então. Tenho uma coisa a dizer antes de sairmos da cela.
- Diga tudo o que tem a dizer, chefe.
- John Coffey, na minha qualidade de funcionário autorizado pelo tribunal...
Fiz o discurso da praxe até ao fim e, quando terminei, o Harry Terwilliger aproximou-se e estendeu a mão. Por escassos momentos, o John mostrou-se surpreendido, mas depois
sorriu e apertou-a. Em seguida, foi a vez do Dean, mais pálido do que nunca, fazer o mesmo.
- Tu merecias melhor sorte do que esta, Johnny - afirmou ele numa voz enrouquecida. - Lamento muito.
- Eu ficarei bem - replicou o John. - Esta é a parte mais difícil; daqui a pouco estou bem. - Com aquelas palavras, levantou-se da tarimba; a medalha de São Cristóvão que a Melly lhe oferecera soltou-se de dentro da camisa.
- John, tens de me entregar isso - disse eu. - Eu posso voltar a pôr-ta ao pescoço depois de... depois, se o desejares, mas agora não podes usá-la. - Era de prata e, se estivesse junto à pele quando o Jack Van Hay accionasse a corrente
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eléctrica, poderia fundir-se com a pele. Ainda que isso não viesse a suceder, talvez lhe deixasse a imagem carbonizada do santo na pele do peito. Eu já presenciara isso. Durante os anos que passara na Milha já tinha visto quase tudo. Mais do que aquilo que era bom para mim próprio. Agora compreendo isso.
O John tirou o fio pela cabeça e pousou-o na minha mão. Coloquei o medalhão na algibeira e disse-lhe para sair da cela. Não havia necessidade de verificar a cabeça para me certificar de que o contacto se faria de forma" adequada, permitindo uma boa passagem de corrente; eu sabia que estava tão macia como a palma da minha mão.
- Sabe, chefe, esta tarde adormeci e tive um sonho - ?disse ele. - Sonhei com o rato do Del.
- A sério, John? - Coloquei-me à sua esquerda e o Harry à sua direita. O Dean fechava a retaguarda; começámos a percorrer a Milha Verde. Foi a última vez que a atravessei na companhia de um prisioneiro.
- Sim - continuou o John. - Sonhei que ele tinha conseguido ir para aquele lugar de que o chefe Howell falou, aquela Vila dos Ratos. Sonhei que havia miúdos e que eles se riam ao ver as habilidades! Extraordinário! - Começou a rir-se ao pensar naquilo, mas pouco depois o seu rosto adquiriu uma expressão de maior seriedade. - Sonhei que aquelas duas meninas louras também lá estavam. Elas também se riam. Coloquei os braços à volta delas e o sangue parou de sair dos seus cabelos, e elas ficaram curadas. Todos nós ficámos a ver o Mister Jingles a rolar o carretel e fartámo-nos de rir. Quase explodimos de tanto rir.
- De verdade? - perguntei, embora pensasse que não seria capaz de prosseguir com aquilo, era absolutamente impossível. Ia começar a chorar ou a gritar, ou então o meu coração rebentaria de tanto desgosto, pondo fim a tudo.
Dirigimo-nos para o meu gabinete. O John olhou em redor por um momento ou dois, e deixou-se cair de joelhos, sem que houvesse necessidade de se lhe dizer que o fizesse. Por detrás dele, o Harry olhava para mim com uma expressão acossada. O Dean estava branco que nem uma folha de papel.
Ajoelhei-me ao lado do John, pensando que estava a verificar-se uma estranha inversão de circunstâncias: depois de todos os condenados que eu tivera de ajudar a terminar aquela jornada, desta feita o mais provável era que eu próprio viesse a precisar de ajuda. Pelo menos, foi isso que senti.
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- O que é que devemos pedir, chefe? - perguntou-me John.
- Forças - repliquei sem sequer pensar. Cerrei os olhos e acrescentei: - Senhor, por favor ajudai-nos a concluir o que começámos, e, por favor, abri os braços a este homem,
John Coffey... como o nome da bebida, mas escrito de maneira diferente, dando-lhe as boas-vindas ao paraíso e concedendo-lhe paz. Por favor, ajudai-nos a enviá-lo da maneira que ele merece e não permitais que alguma coisa corra mal. Ámen. - Abri os olhos e olhei para o Dean e o Harry. Estavam com melhor aspecto, o que provavelmente se devia ao facto de poderem ter recuperado o fôlego. Duvido que tenha sido a minha oração.
Comecei a erguer-me do chão, mas o John agarrou-me pelo braço. Lançou-me um olhar que era uma mescla de esperança e timidez.
- Lembrei-me de uma oração que me ensinaram quando eu era pequeno - disse ele. - Pelo menos, acho que me lembrei. Posso rezá-la?
- Não hesites, diz a tua oração - retorquiu o Dean. - Ainda temos muito tempo, John.
O Coffey fechou os olhos e franziu o sobrolho, tanta era a sua concentração. Eu estava à espera de uma oração que as crianças costumassem rezar antes de adormecerem, ou uma
versão atabalhoada do padre-nosso, mas não obtive nem uma nem outra; nunca tinha ouvido o que lhe saiu da boca e nunca voltei a ouvir, apesar de as expressões e os sentimentos nas suas palavras não terem nada de particularmente invulgar. De mãos unidas em frente dos olhos fechados, o John Coffey começou a rezar.
- Menino Jesus, humilde e bom, reza por mim que soú uma criança órfã. Sê a minha força, sê meu amigo, fica comigo até ao fim. Ámen. - Abriu os olhos e começou a erguer-se, olhando atentamente para mim.
Passei o braço pelos olhos humedecidos. Enquanto ouvia as suas palavras, tinha pensado no Del; no fim, ele também desejara rezar mais uma oração. Santa Maria, Mãe de Deus,
rezai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. - Lamento muito, John.
- Não lamente - redarguiu ele, apertando-me o braço e esboçando um sorriso. E então tal como eu pensei que viria a suceder, ele ajudou-me a levantar do chão.
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Não estavam presentes muitas testemunhas - ao todo, talvez fossem umas catorze, metade do número que tinha estado na arrecadação aquando da execução do Delacroix. O Homer Cribus viera assistir, com as carnes gordas a transbordar da cadeira como era costume; contudo, não vi o seu ajudante, o McGee. À semelhança do director Moores, aparentemente, ele decidira manter-se ausente daquela.
Na fila da frente encontrava-se um casal de idade, que inicialmente não reconheci, embora houvesse visto as suas fotografias numa grande quantidade de artigos de jornal até àquele dia, na terceira semana de Novembro. Então, à medida que nos aproximávamos do estrado onde a Velha Faísca aguardava, a mulher deu largas à sua fúria.
- Morre devagar, grande filho da puta! - Foi então que compreendi que eles eram os Detterick, Klaus e Marjorie. Eu não os reconhecera, uma vez que não é normal ver-se velhos com pouco mais de trinta anos.
O John curvou os ombros ao ouvir a voz da mulher e o xerife Cribus grunhiu de aprovação. O Hank Bitterman, que se encontrava de guarda na frente daquele escasso grupo de espectadores, nunca desprendeu os olhos do Klaus Detterick. Estava a cumprir as minhas ordens; no entanto, nessa noite, o Detterick não fez o mais pequeno gesto na direcção do John. O homem dava a impressão de se encontrar noutro planeta.
O Brutal, que estava junto da Velha Faísca, fez-me um pequeno gesto com um dedo quando subimos ao estrado. Meteu a arma no coldre e agarrou no John pelo pulso, escoltando-o com tanta suavidade em direcção à cadeira eléctrica como se fosse um rapaz a conduzir a namorada para a pista de dança no primeiro baile a que iam juntos.
- Está tudo bem, John? - perguntou ele em voz baixa. - Sim, chefe, mas... - Os seus olhos deslocavam-se de um lado para o outro dentro das órbitas e, pela primeira vez, mostrava-se assustado; a sua voz também deixando adivinhar isso. - Mas está aqui muita gente que me odeia. Muita. Eu sinto isso. Faz-me mal. Sinto picadas como se fossem o ferrão de abelhas, e dói.
- Nesse caso, deves pensar apenas no que nós sentimos - disse-lhe o Brutal no mesmo tom de voz baixa. - Nós não te odiamos..: Consegues sentir isso?
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- Sim, chefe. - Mas a sua voz agora tremia ainda mais, enquanto dos olhos haviam começado a correr de novo, lentamente, lágrimas.
- Matem-no duas vezes, rapazes! - vociferou de súbito a Marjorie Detterick. A sua voz, áspera e estridente, era como uma bofetada. O John encolheu-se todo junto de mim, a ge_
mer. - Yá lá, matem duas vezes esse violador, assassino de crianças, matem-no! - O Klaus, que continuava com a mesma expressão de quem sonhava acordado, puxou a mulher para junto do seu ombro. Ela começou a chorar convulsivamente.
Foi com grande estupefacção que reparei que o Harry Terwilliger também chorava. Até ao momento, ainda nenhum dos espectadores tinha dado conta das suas lágrimas - ele estava de costas voltadas para a assistência - mas o inegável é que ele chorava. O que é que qualquer de nós poderia fazer, para além de dar seguimento ao assunto?
O Brutal e eu forçámos o Coffey a dar meia volta. O Brutal fez pressão sobre um dos ombros do homem gigantesco, e este sentou-se. Agarrou-se com força aos amplos braços de carvalho da Velha Faísca, com os olhos a rolarem dentro das órbitas e deitando a língua de fora, primeiro para humedecer um dos cantos da boca e depois o outro.
O Harry e eu ajoelhámo-nos. No dia anterior, tínhamos dado instruções a um dos presos de confiança que trabalhava na oficina para que este soldasse umas extensões flexíveis, mas temporárias, às braçadeiras das pernas da cadeira, uma vez que as canelas do John Coffey não eram do tamanho das de um tipo normal. Mesmo assim, atravessei uns momentos de pesadelo quando pensei que ainda seriam pequenas e que teríamos de levá-lo de regresso à cela, enquanto o Sam Broderick, o encarregado da oficina nessa época, procederia às alterações necessárias. Com a palma da mão, dei uma pancada especialmente forte contra a braçadeira do meu lado, que se fechou. A perna do John retraiu-se e ele ofegou. Eu tinha-lhe beliscado a pele.
- Desculpa, John - murmurei, olhando para o Harry. Ele conseguira ajustar a sua braçadeira com maior facilidade (ou a extensão do seu lado era um pouco maior, ou a canela
da perna direita do John era um tudo-nada menos espessa); no entanto, olhava para o resultado com uma expressão de dúvida. Acho que compreendi por que motivo; as braçadeiras que haviam sido alteradas tinham um aspecto esfomeado, parecendo maxilas a abrirem-se como a boca de crocodilos.
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- Vai correr tudo bem - disse eu, esperando que a minha voz fosse convincente... e que estivesse a dizer a verdade. - Limpa as faces, Harry.
Ele passou o braço pelo rosto, limpando as lágrimas das bochechas e as gotas de suor que lhe perlavam a testa. Demos meia volta. O Homer Cribus, que entretanto tinha estado a conversar em voz alta com o homem sentado ao seu lado (o promotor de justiça, a julgar pela gravata fina e fato negro com lustro), ficou em silêncio. Estava quase na hora.
O Brutal já prendera um dos pulsos do John e o Dean fizera o mesmo ao outro. Por cima do ombro do Dean, avistei o médico que, como sempre, tentava passar despercebido, de pé encostado à parede, com a sua maleta negra entre os pés. Nos dias que correm, imagino que eles tratem deste género de assunto com mais facilidade, principalmente com soluções intravenosas, mas naquela época era quase necessário arrastar os médicos, isto é, caso se desejasse a sua presença. Talvez nesses tempos eles tivessem uma noção mais precisa daquilo que era correcto no comportamento de um médico, e daquilo que era uma perversão do juramento que haviam feito, aquele em que juram acima de tudo não provocar mal.
O Dean acenou na direcção do Brutal. Este girou a cabeça, parecendo olhar para o telefone, cuja campainha jamais tocaria para os da igualha do John Cof