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2014 Os Candomblés Angola – Ngoma
2014 Os Candomblés Angola – Ngoma

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Fonte:http://pdf.blucher.com.br/socialsciencesproceedings/vii-secunifesp/002.pdf

 

Os Candomblés Angola – Ngoma e as sonoridades
sagradas de matriz Banto no Brasil
Luna Borges Berruezo1
Resumo
Este trabalho pretende apresentar o levantamento de referências
bibliográficas com o intuito de produzir revisão bibliográfica sobre o
Candomblé Angola - daquilo que já foi registrado e observado no Brasil – e
suas práticas ritualísticas correspondentes aos cultos de origem banto, e em
especial referente aos terreiros denominados angola presentes na região
sudeste brasileira. Desta forma, o presente trabalho pretende dialogar com
as referências bibliográficas existentes para embasar a experiência
etnográfica em campo, assim como propiciar a noção de distinção entre as
demais nações de candomblé.
A pesquisa etnográfica fundamenta-se na observação dos rituais públicos e
do contato com os membros e sacerdotes de nação angola da Casa de
Candomblé Angola Redandá ou Reino de Dandalunda, localizada na
cidade de Cipó Guaçú, em São Paulo. O estudo está baseado na trajetória
do responsável pela casa nomeado ritualisticamente como Tateto Mona
Guiamazy – mais conhecido como Pai Guiamazy, que de acordo com a
linhagem é filho de Gitadê e neto de Tata Londirá (o conhecido Joãozinho
da Goméia) de reconhecida importância para a prática ritual do candomblé
na Bahia e posteriormente pela expansão na região Sudeste - com o
objetivo de reconhecer a trajetória ancestral do terreiro e a fundamentação
da memória e da narrativa oral como formas de transmissão das sabedorias
sagradas.
“O ingoma é a comunicação com os Inkisses. Ele, homem, faz o som e emite o
som. O ingoma para o Angola, como para qualquer nação, é tudo.” TATA
1 Aluna de Graduação no Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Federal de São
Paulo – UNIFESP. lu.lunaborges@gmail.com – tel. (11) 9-9402-9453
Orientador: Prof. Doutor José Carlos Gomes da Silva
Co-orientação: Profa. Doutora Patrícia Teixeira Santos
Blucher Social Sciences Proceedings
Dezembro de 2014, Volume 1, Número 12
MONA GUIAMAZY, da Casa de Candomblé Angola Redandá ou Reino de
Dandalunda”
O ingoma ou ngoma(tambor) nas nações de candomblé tem fundamental
importância ritualística e sagrada aos cultos, onde é através das sonoridades
específicas de cada linhagem e nação que são relacionadas as
correspondências vibratórias e o axé equivalente de cada terreiro. Nestas
sonoridades sagradas estão presentes os fundamentos de suas casas, a
sabedoria e conhecimento das práticas sagradas, como o xirê. O iniciado
nas práticas ritualísticas de toque tem conhecimento das simbologias, das
forças da natureza e/ou da linhagem dos ancestrais, e do tempo sagrado.
Tendo como referência a figura do kisikarangombe (tocador, função
conhecida como ogã nas demais matrizes religiosas) e kambandu (tocador
assentado/confirmado na função, conhecido na nação Ketu como Alabê), é
considerado um kiandú(cargo) simbolicamente importante para a tradição e
para a transmissão oral dos fundamentos e saberes sagrados, que por meio
da sonoridade ritualística (ritmo, canto das cantigas sagradas e toque do
ngoma) propiciam o transe aos iniciados para o contato com os inkisses. No
âmbito dos inkisses, na Casa de Candomblé Angola Redandá são cultuados:
Ungira, Roxi Mukumbi, Lambaranguanje, Katendê, Zazy Luango,
Kingongo, Angoro, Gongonbila, Kavunge (Tempo), Vunge, Dandalunda,
Matamba, Gangazumbá, Kaya, Lembarenganga, Lembafuranga e Zambi
Apongo.
O toque dos tambores - mais especificamente os atabaques – da nação
angola são tocados com as mãos e compreendem os toques de Kabula,
Congo-de-ouro, Barra-Vento e Ijexá, e suas características peculiares de
timbre sonoro configuram a tríade: ngoma tixinda (conhecido também
como rum, atabaque com sonoridade de timbre grave e com manulação
base tendo liberdade de preenchimento de notas preponderantemente
graves, geralmente é associado ao maior tambor), ngoma mukundu (rumpi,
atabaque com sonoridade de timbre intermediário e com manulação
base,geralmente está associado ao tambor de tamanho médio) e ngoma
kasumbi (lé, atabaque com sonoridade de timbre agudo, manulação
preenchida com notas preponderantemente agudas, geralmente está
associado ao tambor de tamanho menor) – juntamente com os demais
instrumentos utilizados ritualisticamente nos terreiros de nação angola, 3
como o agogô que está associado ao canto e é tocado nas aberturas dos
toques - onde posteriormente são tocados os ingomas - prosseguindo até o
encerramento do ponto cantado, sempre associado dança ritual, canto e
transe.
O conhecimento dos fundamentos, a compreensão das forças da Natureza,
dos cultos aos ancestrais africanos, assim como o reconhecimento da língua
banto e dos dialetos quimbundo e quicongo fazem-se necessários, a medida
que o estudo das sonoridades de matriz africana implica também o contato
e conhecimento dos pontos cantados de tradição banto no que refere às suas
narrativas e simbologias culturais. Estas configuram as mitologias, os elos
de ancestralidade, o culto e a cosmologia à Natureza como também
remetem a contextos geográficos e territoriais do continente Africano.
A eminente produção de estudos e pesquisas etnográficas sobre o
candomblé teve sua referência nos cultos iorubás realizados nas terras
brasileiras, baseados por vezes na construção de noções de maior “pureza”
de uma africanidade elemental, de hierarquias e organização particulares.
Em especial, os ritos jeje-nagô de culto aos orixás—com origem nas
diferentes regiões africanas de Ketu, Ijexá e Efã – estes de predominância
na Bahia, e também aos ritos de origem fon conhecidos como tambor de
mina – de culto aos voduns.
O reconhecimento da importância dos cultos de matriz de nação angola não
esteve presente historicamente nas produções etnográficas – considerando a
massiva presença em terras brasileiras dos povos de origem banto durante
todo o processo diaspório de migração forçada que data do século XV ao
XIX – destes terreiros, fundados na Bahia em períodos que datam do século
XIX e XX, respectivamente registrados como o Tata Maquende (registrado
em 1806, regente Oxalá), o Terreiro Bate Folha (1916, regente Iansã) e
Unzo Tumba Junçara (1919, regente Tempo).
Considerando a ausência de referências etnográficas escritas a respeito dos
cultos da nação angola, Reginaldo Prandi menciona “preconceituosamente,
o candomblé angola tem sido considerado um rito menor, e dele pouco se
estudou. (...) O candomblé angola legitimou desde cedo o culto dos 4
caboclos brasileiros, que além de constituir como rito independente, foi
também incorporado lá pelos anos 30 e 40 por casas nagôs(...)”.
Nesta perspectiva, Prandi em seu estudo sobre os candomblés de São Paulo
faz referência às demais nações de terreiro, relacionando os diferentes
objetos de estudo nas produções etnográficas existentes “Em consequência
disso, o candomblé nagô pode contar, além do prestígio, com muitas fontes
escritas brasileiras, além de uma etnografia produzida sobre o culto dos
orixás da Nigéria e do Benin, que legitimaram esta tradição (...)”, e segue
“Nada semelhante existe para o candomblé de angola, a não ser o ensino do
quicongo oferecido pela Universidade Federal da Bahia(...)”.
Posteriormente, relata o discurso de Esmeraldo Emérito de Santana,
representante da nação angola no Encontro de Nações de Candomblé,
realizado em Salvador/Bahia em 1981 “Aqui faço um apelo, já que existe
um centro de estudos, para que pesquisem o angola. Não há livros sobre o
angola. E tem mais terreiros de angola na Bahia do que de queto, de jeje, de
qualquer nação”.
A compreensão da cosmologia banto, mantida por meio da ritualística da
Casa de Candomblé de Angola Redandá, em sua dimensão sonora se
apresenta relacionada aos processos de transmissão das sabedorias sagradas
a todos(as) iniciados(as) da casa. A função de tocadores é designada pelos
jogos de adivinhação através das manifestações dos inkisses relacionado ao
destino de cada pessoa. Por meio da música ritual é guiada a maior parte
dos atos rituais do candomblé, a música ritual estabelece a conexão entre os
inkisses e os iniciados através do transe, cada sonoridade possui seu
momento específico para ser transmitida, o som comunica e transmite, e os
tocadores são aqueles incumbidos de fazer ecoar a comunicação do ngoma
sagrado.
Nesta pesquisa direciono o estudo etnográfico ao papel ritual da música no
Candomblé Angola para delinear como problema de pesquisa a
compreensão dos elementos instrumentais e funções ritualísticas
relacionadas aos processos de transmissão das sabedorias aos iniciados(as),
considerando as correspondências simbólicas das narrativas musicais de
língua banto para apontar sobre alguns aspectos destas sonoridades em
relação à dimensão de ancestralidade no candomblé de nação angola. Com 5
o intuito de analisar a produção dos estudos direcionados ao candomblé de
nação angola, a revisão bibliográfica embasa a pesquisa do percurso
histórico desta matriz banto, contribuindo com as referências sobre a
temática e a compreensão da dimensão de ancestralidade para o
candomblé..
Palavras Chave: Candomblé Angola, Banto, Etnomusicologia, Transmissão
Oral
Referências
Revisão de Referências Bibliográficas
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