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Grandes Zeladores
Grandes Zeladores

 

 

 

 

Altanira Maria Conceição Souza, mais conhecida como Mãe Mirinha do Portão (Mameto Mirinha)

Para dar prosseguimento aos Projetos Sociais da Associação São Jorge Filho da Goméia, patrocinado pela Petrobras e  Ministério da Cultura, o Projeto Cultural Afro Bankoma está promovendo a Exposição História de Vida de Mãe Mirinha de Portão que será realizado no Museu Comunitário que leva o seu nome no dia 23 de Abril de 2012 às 15h. Lá estarão expostos os acervos, fotos e biografia da saudosa Mãe Mirinha

Altanira Maria Conceição Souza, mais conhecida como Mãe Mirinha do Portão (Mameto Mirinha) foi a fundadora do Terreiro São Jorge Filho da Goméia (Terreiro do Portão) localizado em Lauro de Freitas.
Durante o tempo em que estava à frente das atividades realizadas no terreiro muitas ações sociais foram desenvolvidas por Mirinha de Portão na localidade onde o Candomblé está implantado e elas contribuíram para o desenvolvimento da comunidade, tais como: Pedido da implantação do Hospital Geral Menandro de Farias ao governador Roberto Santos,  transportes públicos, hospitais, postos de saúde, campanhas de alimentação, entre outras. Ela participou, também, das filmagens cinematograficas da obra de seu amigo Jorge Amado: Os Pastores da Noite e Tenda dos Milagre, o que contribuiu para dar maior visibilidade à região de Portão.

No dia 15 de abril de 2004 o Terreiro São Jorge Filhos da Goméia foi tombado como Patrimônio Cultural do estado da Bahia, através do IPAC - Instituto do Patrimônio Artístico e cultural  do Estado da Bahia, fruto do árduo trabalho de Mirinha desenvolvido durante anos.
Serviço:
Exposição da história de vida de Mãe Mirinha de Portão
Local: Terreiro São Jorge da Goméia
Data: Segunda a  Sexta  - 26 de Abril até 30 de Agosto  de 2012.
Horário:15h
Entrada: Gratuita
Informações: 33692085

 

 

 
Tata Londira - Rei do Candomblé
 

João Alves de Torres Filho ou Joãozinho da Goméia, também conhecido por Tata Londirá, era sacerdote do Candomblé de caboclo (Angola), nasceu em 27 de Março de 1914, na Bahia e morreu em 19 de Março de 1971 em São Paulo.

Foi pela cabeça que os orixás trouxeram o menino João Alves Torres Filho para o mundo do candomblé. Aos 10 anos, o garoto nascido em 1914, na cidade de Inhambupe em Salvador, já havia dado mostras de sua personalidade forte. Contra a vontade dos pais, deixou a casa da família para tentar a sorte na capital. Teve que se virar para sobreviver, mas contou com o apoio de uma senhora que morava na Liberdade, e que ele considerava sua madrinha. Foi essa senhora quem teve a idéia de levá-lo ao terreiro de Severiano Manuel de Abreu, conhecido como Jubiabá. Joãozinho sofria de fortes dores de cabeça, que não eram explicadas, nem curadas pelos médicos. Bastou que ele fosse "feito" no candomblé, para que as dores fossem embora. Elas seriam somente um aviso dos orixás, que cobravam a iniciação do menino.


Jovem Pai-de-Santo

Dona Maria José foi uma das primeiras filhas-de-santo do jovem Joãozinho da Goméia. Ele mal havia saído da adolescência quando fundou seu primeiro terreiro, num lugar chamado Ladeira de Pedra, no auge da repressão oficial aos terreiros de candomblé. "A polícia perseguia ele, mas tinha o doutor Matos, um delegado que protegia", lembra dona Maria José. Mais tarde, Joãozinho conseguiu arrendar um terreno na Rua da Goméia, em São Caetano, Bahia.
Naquele local, que ficaria incorporado para sempre ao seu nome, ele trilhou os primeiros passos da fama. Ao mesmo tempo, o jovem pai-de-santo começava a formar sua numerosa prole, iniciando muitos "filhos". Dona Maria José, por exemplo, fez parte de um "barco" de 19 pessoas iniciadas por Joãozinho. É uma façanha lembrada até hoje, porque iniciar tanta gente de uma vez não é para qualquer um.
Por essas e outras características, Joãozinho da Goméia chamava a atenção de pesquisadores famosos da época, como o baiano Edison Carneiro e a americana Ruth Landes, ganhando prestígio rapidamente e despertando polêmicas. Era um homem jovem, numa cultura religiosa dominada por velhas senhoras. Aos 21 anos, ele tinha seu próprio terreiro e havia formado várias filhas-de-santo, a maioria bem mais velha do que ele.
 

Essa ascensão precoce não era bem-vista no mundo do candomblé, onde a idade avançada é considerada um atributo importante para a escolha dos sacerdotes - e a própria Menininha do Gantois sofreu resistências por causa disso, quando assumiu a chefia do seu terreiro, aos 26 anos de idade. Além disso, Joãozinho batia candomblé da nação Angola, numa cidade em que predominava a cultura jeje-nagô. E ainda incorporava uma entidade com nítida influência indígena: o caboclo Pedra Preta.
 

O fato é que Joãozinho conseguiu fundar a sua "Goméia do Rio", em Duque de Caxias. "Desde sua chegada ao Rio de Janeiro, Joãozinho foi um verdadeiro promoter do candomblé. Suas atividades religiosas, como as festas de seus orixás, eram muito divulgadas na imprensa, que o promovia ao mesmo tempo em que fazia da Goméia um espaço de encontro não somente para as pessoas do povo-de-santo, mas para os diferentes segmentos sociais que passavam a ler e ter informações sobre o candomblé".



Joãozinho da Goméia possuia laços de amizade e clientes influentes da sociedade carioca; "Conta-se que a sogra de Juscelino (Kubitschek) era ligada a ele", observa Cristiano Henrique. Esperto, o pai-de-santo não negava, nem confirmava, essas relações. Mais do que ninguém, ele sabia da importância do sigilo no seu trabalho.João da Goméia além de um excelente costureiro, era também um excepcional bailarino e recebeu diversas homenagens do meio artistico como a de Baden Powell e Vinícius de Moraes que dedicaram um samba ao caboclo dele seu "Pedra-Preta". 


Mesmo os babalorixás (pais-de-santo) e ialorixás (mães-de-santo) que não simpatizavam com a sua figura, porém, têm hoje que reconhecer: Joãozinho da Goméia foi o grande responsável pela expansão do candomblé no Sudeste do país, a partir da década de 1950. Ele formou milhares de filhos-de-santo, que criaram novos terreiros em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essas casas de candomblé apresentam-se orgulhosamente, ainda hoje, como fazendo parte do "modelo Goméia", ou da "raiz Goméia". A verdadeira Goméia, porém, não existe mais. Depois da morte de Joãozinho, em 1971, tanto o terreiro baiano, no bairro de São Caetano, como o terreiro fluminense, de Duque de Caxias, foram extintos.

 

JOÃOZINHO DA GOMÉIA, O TATÁ LONDIRÁ, O REI DO CANDOMBLÉ DE CABOCLO.

João Alves de Torres Filho ou Joãozinho da Goméia - sacerdote do Candomblé de caboclo, nasceu em 27 de Março de 1914, na cidade de Inhambupe, a 153 quilômetros de Salvador, Bahia e morreu em 19 de Março de 1971 em São Paulo, durante uma cirurgia para retirada de um tumor cerebral.
Existem muitas histórias sobre Joãozinho da Goméia, uma das versões existentes sobre sua iniciação religiosa foi narrada pelo escritor Rodrigo Rodrigues Fernandes: "De família católica, chegou a ser coroinha, mas por motivo de saúde, ainda menino João Alves Torres Filho foi iniciado para o mundo do candomblé na feitura de santo pelo Pai Severiano Manuel.
Com a morte de seu Pai-de Santo, "refez" o santo no terreiro do Gantois com Mãe Menininha, mudando da nação angola para ketu. Em 1924 aos 10 anos, o garoto já havia dado mostras de sua personalidade forte. Contra a vontade dos pais, deixou a casa da família para tentar a sorte na capital Salvador. Teve que se virar para sobreviver e foi trabalhar num armazém de secos e molhados, onde conheceu e foi apadrinhado por uma senhora que morava na Liberdade, e que ele considerava sua madrinha. 
Foi essa senhora quem teve a idéia de levá-lo ao terreiro de Severiano Manoel de Abreu, conhecido como Jubiabá (nome do seu caboclo). Joãozinho sofria de fortes dores de cabeça, que não eram explicadas, nem curadas pelos médicos. Também tinha sonhos com "um homem cheio de penas", que não o deixava dormir.
Polêmicas
Sempre existiu polêmica, em se tratando de Joãozinho da Goméia, para alguns estudiosos, o Jubiabá que o “iniciou” não é o mesmo da obra de Jorge Amado; para outros, João sequer foi “feito’ (iniciado). Porém, há filhos de Joãozinho que contam detalhes de sua feitura, como a Yalorixá Maria José dos Santos, de 92 anos, que declarou ao Correio da Bahia:
Eu duvido que, se ele fosse vivo, alguém tivesse coragem de questionar isso na frente dele. 
Em direção totalmente oposta vai a pesquisadora norte-americana Ruth Landes em seu livro A Cidade das Mulheres:
"Há um simpático e jovem pai Congo, chamado João, que quase nada sabe e que ninguém leva a sério, nem mesmo as suas filhas-de-santo (...); mas é um excelente dançarino e tem certo encanto. Todos sabem que é homossexual, pois espicha os cabelos compridos e duros e isso é blasfemo. – Qual! Como se pode deixar que um ferro quente toque a cabeça onde habita um santo! " 
Outra polêmica levantada por Landes é que João “recebia” um caboclo. Os caboclos não são Orixás, mas espíritos encantados, originários das religiões indígenas, sem relação com a África. Esses candomblés de caboclo eram alvo do desprezo do povo-de-keto, zelosos de sua “pureza” africana porque, nessa época, havia um empenho por parte de influentes intelectuais comandados por Arthur Ramos e Edison Carneiro em firmar a idéia de que havia nos terreiros keto uma “pureza” com relação às raízes africanas.
O certo é que João foi um homem não só adiante de seu tempo como também dono de um projeto particular de ascensão social e religiosa, buscando a diferença como dado de divulgação de si mesmo e sua "roça": negro que alisava os cabelos por vaidade, sem se preocupar com a polêmica de poder ou não colocar ferro quente na cabeça de um iniciado; homem que não se envergonhava de ser homossexual na homofóbica Bahia do início do século XX; pai-de-santo que afrontava os princípios de que homens não podiam “receber” o Orixá em público, tornando-se famoso pela sua dança; incorporava ao Candomblé a entidade indígena do Caboclo Pedra Preta; adepto de Angola, numa cidade dominada pela cultura jeje-nagô; babalorixá jovem, numa cultura dominada por ialorixás mais velhas o que, segundo seus filhos-de-santo, ativou o despeito das mães-de-santo tradicionais da Bahia.
Também sua ascensão precoce era mal-vista no mundo do candomblé, onde a idade avançada é considerada um atributo importante para a escolha dos sacerdotes – e a própria Menininha do Gantois sofreu resistências por causa disso, quando assumiu a chefia do seu terreiro aos 26 anos de idade.
Seu primeiro terreiro foi num bairro chamado Ladeira de Pedra, mas logo foi para o local que o tornou famoso, a ponto de incorporar o endereço ao próprio nome: Rua da Goméia. Lá, tocava indiferentemente angola e keto, o que contribuía – e muito – para aumentar o escândalo em torno de seu nome.
Irreverência
Em 1948, despediu-se de Salvador com uma festa no Teatro Jandaia, apresentando ao público pagante danças típicas do Candomblé, escândalo final para adeptos baianos, e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde abriu casa na Rua General Rondon, nº 360, bairro Copacabana,(Cossard, 1970 , p.285) em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Seu terreiro era feito com modestas instalações, no entanto aquele local na Baixada Fluminense, já estava ficando famoso pela grande quantidade de templos afro-brasileiros.
Com sua vinda para o Rio de Janeiro, sua "roça" na Bahia, continuou aberto, ficando sob a responsabilidade da Mãe Samba, auxiliada por Alexandrina Santos, filha de santo de Joãozinho da Goméia.
Nesse endereço a lenda em torno de Joãozinho da Goméia só fez aumentar, atendia políticos, embaixadores, consules, o próprio Getulio Vargas e a sogra de Juscelino Kubitschek(Cossard, 1970, p.285), além de artistas como Ângela Maria, na época a “Rainha do Rádio”; tudo isso fez com que passasse a freqüentar a imprensa.
O próprio João nunca revelou os nomes de seus filhos ou clientes; seus filhos-de-santo que espalharam essas notícias, orgulhosos do status da casa de seu pai. Costas quentes ou não, o caso é que Joãozinho nunca teve seu terreiro invadido pela polícia, nem jamais foi preso, ao contrário de Mãe Menininha, que tem registradas duas passagens pela polícia, acusada de “tocar candomblé”. Diz a lenda que Joãozinho até mesmo chegou a fazer despacho para Exu em plena Praça XV. O caso é que tornou-se o primeiro pai-de-santo realmente conhecido no Brasil. Para Lody, Joãozinho, ao chegar ao Rio, tornou-se um verdadeiro "promoter" do candomblé. Sabia do poder da imprensa e manteve relações com publicações importantes como a revista O Cruzeiro, deixando-se fotografar com os trajes dos Orixás.
Joãozinho morou por algum tempo de aluguel em Bonsucesso, numa casa de sobrado, que era custeada por três filhos de santo seus, no local hoje encontra-se um estacionamento em frente ao Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM). 
De meados dos anos 50 até o começo dos 60, Joãozinho da Goméia, que havia muitos anos, transferira sua roça de Salvador para Caxias, no Rio de Janeiro, visitava constantemente São Paulo onde era amigo de influentes líderes umbandistas. Muitos dos primeiros personagens do Candomblé de São Paulo foram por ele iniciados ("feitos", na linguagem de santo). E feitos aqui em São Paulo, embora este primeiro começo tenha contado também com filhos de Joãozinho feitos na Goméia do Rio e na originária Goméia da Bahia. Linhagem e Legitimidade no Candomblé Paulista - Reginaldo Prandi 
Edison Carneiro praticamente projetou o nome de Joãozinho da Goméia, nos apontando para um fato interessante: a troca de favores, muito comum às casas de culto tradicionais baianas. Em troca de uma entrada fácil e uma conscientização clara das coisas do Candomblé, que interessariam ao jovem pesquisador aprender para que auxiliassem seu trabalho como jornalista e etnólogo, este deveria divulgar o "bom nome" de João da Goméia, tornando sua casa de culto conhecida entre os intelectuais, estrangeiros e o povo do santo. 

Uma curiosidade: Eram colados nas paredes dos mercadinhos de Nilópolis, Nova Iguaçu e Duque de Caxias papéis e cartazes onde se divulgava todo o calendário semanal do terreiro de Joãozinho, como por exemplo: Segunda-feira: dia de distribuições de sopas e agasalhos aos pobres, festa para Obaluaiê e Gira para Exus. Quinta-feira: dia de festa à Iansã, Oxossi e Ogum. Sexta e Sábado: Festas de confirmação de Iaôs e atendimento médico, sábado à tarde. A comunidade aparecia em peso, e mesmo os que não freqüentavam o Candomblé iam para ver as festas. 
Segundo a Mãe Criadeira da Goméia, Joãozinho possuía uma espécie de diário onde, listava os contribuintes de seu terreiro, dando à sua casa de culto a personificação de uma instituição. Grande parte daqueles que freqüentavam não eram filhos-de-santo, e sim pessoas que estavam naquele momento fascinadas pelo grande movimento de popularização do Candomblé na cidade do Rio de janeiro. A noção de pertencimento ao culto dos Orixás era visível no terreiro da Goméia, era uma espécie de associação mística ao campo religioso, em que os laços de associação do indivíduo, com a forma de culto se redefinia a cada divulgação das festas de Candomblé, tanto na imprensa carioca como nos mercados populares da Baixada Fluminense.
Em 1956, João participou do carnaval vestido de mulher. O assunto rendeu uma polêmica terrível com outros babalorixás e chefes de terreiros da Umbanda. João defendeu-se através d’O Cruzeiro, reivindicando seu direito ao livre-arbítrio e declarando que jamais permitiria que qualquer outro pai ou mãe-de-santo se intrometesse em sua vida.
Em 1966, outro momento repleto de contradições: João voltou à Bahia e deu “obrigação” com Mãe Menininha do Gantois. Segundo a Yalorixá Mãe Tolokê de Logunedé, "foi fazer a obrigação dele; tirar a mão de Vumbi e fazer bodas de prata. (...) Depois, ele fez a festa no Rio de Janeiro, para os filhos que não puderam ir à Bahia." Ainda segundo seus filhos, Joãozinho da Goméia não apenas fez sua obrigação com Mãe Menininha como foi o primeiro homem que ela permitiu que vestisse o Orixá e dançasse em público “virado” no santo. Para entender a importância desse ato (mesmo que apenas mais um aspecto da lenda) é preciso ler em Ruth Landes as restrições que Mãe Menininha fazia quanto à apresentação pública de homens em transe.
Porém, é fato que, embora o próprio Joãozinho até o fim da vida continuasse tocando tanto angola quanto keto, a partir desse momento passou a insistir com seus filhos-de-santo para que seguissem uma orientação única, optando entre keto e angola.
Joãozinho da Goméia morreu em São Paulo, dia 19 de março de 1971, no Hospital das Clínicas (Vila Clementino), durante uma cirurgia para retirada de um tumor cerebral, e após uma parada cardíaca.
Joãozinho da Goméia morreu aos 56 anos, 40 dos quais dedicados ao Candomblé. Desencarnou no dia de São José, oito dias antes de completar 57 anos. Por estranha coincidência, no dia de sua morte sua roça em Duque de Caixas iria promover o Lorogun - uma das grandes cerimônias do Candomblé que significa o fechamento do terreiro para o período da Quaresma. Em dezembro ele pretendia promover uma grande festa para lansã, sua protetora. Oxalá, porém, decidiu que sua missão na Terra estava terminada. Foi sepultado no cemitério de Duque de Caxias, num dia em que uma chuva de proporções míticas caiu sobre o Rio de Janeiro, exatamente na hora em que seu ataúde baixava à sepultura. Para os adeptos, uma manifestação de Iansã recebendo seu filho, que culminou com muita gente “virando no santo” em pleno cemitério, a passagem foi relatada na revista O Cruzeiro. A Goméia do Rio foi vendida para uma incorporadora, que no local construiu um prédio. Os assentamentos de Joãozinho da Goméia foram transferidos para uma nova Goméia, em Franco da Rocha, São Paulo, onde os ibás de seu Oxossi e de sua Iansã estão sendo devidamente cuidados e “alimentados”, e podem ser visitados pelos adeptos que fazem parte da familia-de-santo.
Referências
MICHEL, Dion. Omindarewa Uma francesa no candomblé, Editora Pallas.
COSSARD, Giselle Binon. Contribuition a l’etude des candomblés au Brésil: le candomblé Angola. Faculté de Letres et Sciences Humaines. Paris. 1970.
LANDES, Ruth. A cidade das mulheres. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967.
LODY, Raul Giovanni. Samba de caboclo. Rio de Janeiro, Cadernos de Folclore. Nº. 17. FUNARTE, 1977.
pt.wikipedia.org/wiki/Joãozinho_da_Gomeia
www.oluwa.com.br/pgn_homenag_022005.htm

 

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A luta pela Goméia e o Resgate da história


Joãozinho da Goméia nasceu em Inhambupe e abaixo tem um pouco da história dele, contada pelo o autor abaixo, essa postagem foi uma sugestões dos internautas.

Waldemar Alvarenga Lapoente (Reizinho)
Em 2001 tive a oportunidade de conhecer o terreno onde funcionou o candomblé mais famoso da região sudeste nos anos 50. Meu pai contou parte da história e de um projeto elaborado por ele em 1987, no qual a prefeitura na época não deu seguimento.
Na época foram ao local o Jornalista Eldemar, o folclorista Edgar, o escritor José Ribeiro e o advogado Fernando Lapoente, que redigia indicações para o vereador Luna. Com esses fragmentos de informações, ampliei a pesquisa, como o caso envolvia sobrenatural não vou negar que coisas estranhas aconteceram no decorrer da colheita de informações, constantemente encontrei pessoas que freqüentaram o antigo terreiro, várias vezes senti um forte peso nas pernas no antigo local do templo, mais talvez a experiência mais intensa tenha sido junto com minha mãe que em uma visita ao cemitério do Belém para tentar localizar o tumulo de seu João da Goméia sem saber a exata localização, ouvimos passos próximo a lapide e alguns momentos depois um dos funcionários informou que era exatamente naquele local onde ouvimos os passos era a sepultura, escondida atrás de um lido coqueiro de jardim.
Segundo as informações contidas no site da prefeitura de Inhambupe, cidade onde nasceu Joãozinho da Goméia, o Padre José de Anchieta teria andado pelo interior do estado da Bahia catequizando os índios.

Em uma destas expedições encontrou uma tribo a margem esquerda do rio inhambupe.
Em 1572 o português Alexandre Vaz Gouveia. Expulsou os índios e instalou-se no local. Em 1624 o Marechal Guilherme Garcia, pediu posse ao General Diogo de Mendonça Furtado, iniciando a povoação da cidade.

Vasco Fernandes Cezar de Menezes, elevou o povoamento a categoria de vila através da resolução de 24 de abril de 1728. A criação do Município de inhambupe só aconteceu em 07 de novembro de 1818, Em virtude da lei estadual n◦ 134 de 06 de agosto de 1896, foram concedidos foros de cidade.
Os naturais do município denominam-se inhambupenses, devido ao som homófono indígena que significa duas grandes ilhas que pareciam formar um rio, sendo o mesmo apelidado de Bupe. Nos tempos coloniais era chamado de Ilha Bupe.
E foi nessa cidade da Bahia a 153 quilômetros de Salvador que em 27 de Março de 1914 nasceu João Alves Torres Filho, ou melhor, dizendo Joãzinho da Goméia. Filho do alfaiate João Alves Torres e da dona de casa Maria Vitoriana Torres conhecida mais tarde como (Vó Senhora) era neto de ex-escravos africanos, foi coroinha do Padre Camilo Alves de Lima, supostamente na Igreja da Invocação do Divino Espírito Santo de Inhambupe. Temia qualquer coisa relacionada ao candomblé e sonhava ser um sacerdote Católico.
Ainda Jovem foi morar na capital, seu primeiro emprego
foi em um armazém de secos e molhados onde era caixeiro e ganhava o salário de vinte e cinco mil reis com direito a pernoitar no depósito onde dormia sobre sacos e caixotes.
O Mestre Jubiabá
Reza a lenda que ainda criança, sonhava com um homem vestido de penas e tinha uma constante e forte dor de cabeça. Sua madrinha que era do candomblé percebeu que era cobrança do Santo para iniciá-lo na religião, e o levou a casa do Mestre Jubiabá. Muitos acreditam que este não existiu
e foi uma simples estória de ficção do romance publicado em 1935 por Jorge Amado.
Mais para surpresa de alguns este zelador de santo existiu e nasceu em 20 de abril de 1886 era de fato um capitão do exercito que respondia pelo nome de Batismo Severiano Manoel de Abreu.
Quando jovem trabalhava como lavador de frascos em uma farmácia de manipulação e a noite dedicava-se ao mundo espiritual. Após a morte do parente de um amigo, tornou-se médium de um centro espírita na antiga cidade de Palha. Local marcante pela presença de candomblés de todas as nações. Incorporava um espírito chamado Cândido Ribeiro, mais tarde passou a freqüentar outra sessão espírita, na zona das docas, e nesta época que começa a incorporar o caboclo e curandeiro Jubiabá, Passou a trabalhar por conta própria e abriu uma sessão de caboclo em sua própria casa, na época situada na rua nova do Queimado. Mudou-se mais uma vez, antes de se firmar próximo ao largo da cruz do Cosme, mais precisamente na Avenida São Tomé, na verdade,
uma rua estreita que compreende Três becos, todos com o nome de 1a, 2a e 3a travessas São Tomé. Hoje o local e conhecido como Largo do Tamarineiro.
A notoriedade trouxe vários problemas, entre eles uma série de prisões sob acusação de “Falsa medicina” e “Bruxaria”, a perseguição dava força e fama aos trabalhos realizados no “Centro Espírita Paz, Amor e Caridade”, do Capitão Severiano.
Foi pelas mãos deste famoso zelador, que
para alguns era a própria reencarnação de São Tomé que seu Joãzinho da Goméia conheceu e nasceu para o mundo do Candomblé no final dos anos 20 sendo raspado na raiz Angola, consagrando sua cabeça a Oxossi e batizado com a digina de Londirá.
Supostamente esse romance seria uma homenagem do escritor Jorge Amado, que foi Ogân do Caboclo Pedra Preta. Ao seu avô de Santo Jubiabá. Em 1932 Joãozinho era conhecido na Bahia como João da Pedra
Preta. Pois dava consultas com o espírito deste Caboclo na Rua da Liberdade, 561. Mais tarde fundou o seu candomblé de Angola na Rua da Goméia, no bairro de São Caetano, Bahia. Por causa do nome da Rua, passou a ser o conhecido “Joãosinho da Goméia”.
Mesmo sendo homossexual, no dia 20 de junho de 1945. Casou com Maria Luisa, a conhecida Isa do candomblé da Bahia. Teve como padrinhos de casamento o Capitão-dos-portos da Bahia, o
Almirante Lemos Basis e o Médico Fortunato. Esse casamento durou apenas sete dias.
Rio de Janeiro
A Bahia tornou-se pequena e Joãozinho da Goméia queria fazer nome no Rio. A primeira vez que pensou em vir, não teria pedido autorização aos orixás e estes incorporaram não o deixando partir. Na segunda v
ez, lembrou de fazer o pedido e o Caboclo Pedra Preta deu o seguinte recado consentindo. “Já que quê tanto vai mais logo vorta”.
Era 1942, o governo era de Getúlio Dornelles Vargas. A perseguição aos feiticeiros era grande. Não poderiam deixar um Negro, homossexual e macumbeiro fixar-se na capital. O chefe de policia, General Alcides Etchegayen, apoiado pela 4◦ delegacia que tinha como titular, o
delegado Dulcídio Gonçalves. Queriam ver João da goméia preso e conseguiram. Graças a um plano elaborado para tirá-lo de circulação. Supostamente Pai João foi acusado de fazer um trabalho no palácio do catete para fortalecer a posição do presidente que passava por uma crise. A sorte foi que o Professor Vieira de Melo intercedeu por ele diretamente no gabinete do presidente. Este resolveu da liberdade para o prisioneiro com uma condição, que embarcasse imediatamente para Bahia.
Em 1946, assumiu a presidência o General Eurico
Gaspar Dutra. A perseguição passou a ser outra, os jogos de cassino. Em 1948 Joãozinho despediu-se de Salvador com uma festa no Teatro Jandaia, apresentando danças típicas do Candomblé, a convite do Jornalista Orlando Pimentel. Volta a Capital federal sendo apresentado a Joaquim Rollas, e contratado como coreógrafo do cassino da Urca, pois sem a pratica dos jogos o mesmo tornou-se uma grande casa de shows. Recebeu incentivo do professor João de Freitas e do Jornalista Canuto Silva que o ajudavam na assessoria de imprensa.
Desta vez tinha vindo acompanhado de Tossilo
ndei, Maria de Lurdes Ramos equedy de seu Oxossi e hospedou-se na casa de sua filha de santo Kilondirá no bairro 25 de Agosto em Duque de Caxias, na baixada fluminense.
Pouco tempo depois, aluga uma casa na Rua das vassouras, 174 no bairro Itatiaia também na Baixada Fluminense, onde iniciou algumas pessoas em um barracão de madeira no fundo do quintal, hoje a rua chama-se Castro Alves e o número passou a ser 194 a construção infelizmente
foi derrubada.
Ganhava dinheiro como alfaiate, costureiro, compositor e dançarino. Ajudado por suas filhas de Santo, que vendiam comidas típicas da Bahia em tabuleiros pelas ruas da cidade. Nos anos 50, compra por 50 mil
cruzeiros os lotes 2805, 2806 e 2807, no loteamento Vila Leopoldina IV. Este endereço e mais conhecidos como, Rua General Rondon, 360. Parte da antiga fazenda Jacatirão que deu nome a uma das ruas do bairro, assim como Dr. Laureano, Ipanema e Copacabana, desta forma as pessoas começaram a utilizar os nomes das ruas como definição de bairro gerando confusão ate os dias atuais.
O Terreiro foi construído aos poucos, quem podia contribuía com quatro contos de reis por mês, além disso, passavam uma
cestinha pedindo ajuda. No dia 10 de maio de 1950, Mãe Ilecy da Silva chega da Bahia trazendo a muda da Juremeira árvore consagrada ao Caboclo Pedra Preta para plantar na Goméia. Poucos anos depois, este trecho da rua passou a ser chamado de Avenida Copacabana. Devido a grande procura e movimentação a empresa de ônibus da viação União, criou a linha “Caxias - Copacabana”, no pára-brisa lia-se em uma placa “Via Joãozinho da Goméia”. Em 1978, mais uma vez esta rua muda de nome, passando a ser chama
da “Rua - Prefeito Braulino de Matos Reis”.
Freqüentemente era chamado para apresentar-se a pessoas famosas. Inclusive na vinda da princesa Elizabeth ao Rio de Janeiro que ficou encantada com as danças apresentadas por seu João e falou ao presi
dente Juscelino Kubstchek que se houvesse um Rei neste negócio de macumba, seria Joãozinho da Goméia, daí o povo começou a chamá-lo de Rei do Candomblé. Quando esta Princesa foi coroada a cerimônia era anunciada por um grande sino de ouro, que no fim da solenidade era derretido. Gerando algumas miniaturas distribuídas para convidados especiais. Joãozinho da Goméia não foi, mas ela mandou o presente para ele pelas mãos do embaixador Assis Chateaubriand. O folclorista Edgar de Souza foi um dos poucos a
ver esta relíquia que hoje está perdida.
Nas décadas de 50 e 60 o Terreiro da Goméia, passou a ser referência no Município de Duque de Caxias, Não só por ser um dos primeiros terreiros de candomblé na região sudeste mais pelos seus freqüentadores. Políticos e artistas de todos os lugares entre eles; Embaixadores da França, Inglaterra e Paraguai, Cauby Peixoto, Dorival Caymmi, Emilinha Borba, Francisco Alves, Getúlio Vargas, Henrique Teixeira Lotte, Maria Antonieta Pons, Marlene, Ninon Sevilha, Paulo Gracindo, Solano Trindade, Tenório Cavalcanti, Djalma
de Lalu e José Bispo dos Santos ou Pai Bobó, como era conhecido. Veio para o Rio e por alguns anos esteve ao lado de Joãozinho da Goméia, auxiliando-o nas funções sarcedotais. Em 1957, Pai Bobó foi para São Paulo e na cidade de Santos fundou o primeiro candomblé do estado. A quem diga que em 1961 após a inauguração da Petrobras o presidente Juscelino Kubitschek pediu para desviar o caminho indo encontro ao Rei do Candomblé.
As propagandas das atividades do centro eram nas
paredes dos mercadinhos e Jornais: Anunciavam distribuição de comida, agasalhos, festas, ensaios e etc... Joãozinho da Goméia bancava festas, enterros, remédio, fazia parto, pagava aluguéis e chegou a sustentar mais de 20 pessoas na Goméia. As consultas eram realizadas nas terças e quintas pela manhã e o pagamento era o que o cliente queria ou podia pagar. As Inkises de seu João vestiam os melhores panos franceses e africanos, brilhantes, esmeraldas, prata, ouro e apetrechos de ferro.
Seu João era homossexual assumido e sofreu fortes críticas por alisar os cabelos com ferro quente. Muitos diziam que os Orixás não desciam na cabeça que recebeu calor. O carnaval era a segunda paixão,
por ser excelente dançarino desfilou no Império Serrano e na Imperatriz Leopoldinense, apesar de não admitir que falassem de carnaval dentro do terreiro, muitos o acusavam de levar o luxo dos palcos para o culto Afro-brasileiro.
Em 1955 saiu fantasiado em uma mortalha estampada de letras, um cetro de microfone e uma maquete do prédio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) na cabeça. Uma homenagem à imprensa.
Fantasiou-se de Cleópatra e entrou no Teatro Municipal, empunhando um enorme leque de plumas, deitado em uma liteira coberta com panos dourados e vermelhos e alçando por quatro negros, fantasiados de escravos núbios.
Pouco antes da meia noite do ano de 1956 no Teatro João Caetano. Entrava uma figura exuberante, plumas na cabeça, maquiagem no rosto, maiô justinho ao corpo, sapato plataforma, pernas bem torneadas, envolvidas por uma meia arrastão. Fantasiado de vedete Arlete, tema de uma
marchinha de carnaval que “zombava dos travestis”.
Sua postura foi julgada em um tribunal fo
rmado pela diretoria da confederação de umbandista, sendo absorvido pelo jogo de búzios com uma condição. Que não se repetisse este ato. E bom lembrar que seu João também era católico e não gostava que confundisse as coisas chamando orixás pelo nome dos santos.
Durante quatro anos morou em uma casa de altos e baixos na Avenida Paris, 55, em Bonsucesso, Seu último endereço um estacion
amento à frente da faculdade SUAM, O aluguel custava CR$500.00 e era pago por três amigos freqüentadores da Goméia, Foi nesta moradia no Município do Rio de Janeiro que recebeu o Ogã Costinha que trazia um pedido de ajuda de D. Menininha do Gantois que em 1966 passou a ser zeladora de santo desta Lenda.
Momentos Finais
No dia três de fevereiro de 1971 desejava resolver todos os seus compromissos antes do carnaval. Seu filho de santo Gitadê, o Advogado Sebastião Paulo da Silva feito de omolu, o acompanhou como sempre fazia na cidade de São Paulo. Foram na casa de uma filha de santo de seu João dar obrigação. Depois passaram na festa de um terreiro de conhecidos, no meio da dança Joãozinho da Goméia caiu desacordado. Foi levado para o Hospital das Clínicas Paulista, mais por falta de vagas foi transferido para Beneficência Portuguesa. Três dias depois voltou para o Hospital das Clínicas em coma.
Além do aneurise cardíaco, havia um tumor cerebral na região frontal. Consultado sobre a operação, concordou e disse que seu desejo era que se cumprisse à vontade de Deus.
Joãozinho da Goméia seria o principal destaque da escola Imperatriz Leopoldinense, mais teve de ser substituído por Raimundo Nonato dos Santos, a fantasia de “Chico Rei”. De seu João não pode ser aproveitada por seu substituto muito mais alto e magro que ele.
A saúde de Pai João já não andava boa, em 1966 ele caiu no terreiro por causa de um derrame cerebral. Outros sinais vieram de orun (céu) na última festa que Joãozinho realizou para Iansã, ela relutou muito para incorporar.
Além do suicídio de um filho de Santo, Adilson de Oxalá, que prenunciava o mal para o zelador. Eram quase dez horas do dia 14 de março, a imagem de Santa Bárbara que ficava em uma prateleira sobre a cadeira do Babalorixá havia se desprendido da parede e caído no chão.
Momentos antes de viajar para São Paulo, até o caboclo Pedra Preta, sacudiu Joãozinho quatro vezes, mais não incorporou. As folhas da Juremeira secaram e a canjica servida para Oxalá repentinamente azedou e pela primeira vez o terreiro de Duque de Caxias encheu com as fortes chuvas de janeiro. Sujando os assentamentos de lama.
Ninguém deu ouvidos ou entendeu os recados. E No dia 19 de março de 1971, morria o Rei do Candomblé. Gitadê providenciou o enbalsamento do corpo no Hospital da Faculdade de Medicina de São Paulo, na Vila Clementina.
Conduzido em uma Kombi do serviço funerário da Prefeitura de São Paulo, o corpo deixou a capital Paulista às oito horas, seguido por uma caravana de 30 carros. O povo impediu que o veículo levasse o caixão até a porta do terreiro e o carregaram nos últimos 50 metros. Cerca de mil pessoas entre desmaios e gritos histéricos tentaram tocar o caixão, que quase chegou a ser aberto na rua.
O médico Antônio Monteiro, também filho de santo do Rei do Candomblé, pedia a todos que cumprissem alguns dos seus muitos desejos: a manutenção de seu Terreiro e das suas obras de caridade.
No momento em que o caixão, suspenso por seis homens, entrou em um corredor de médiuns trajando roupas brancas que entoavam hinos a Iansã, quatro dos oito ogâns começaram a bater os atabaques para chamar respectivamente Iansã e Oxossi os santos do morto.
Foram sacrificados três carneiros e Tião de Irajá se aproximando do corpo, derramou um pouco de sangue sobre a cabeça do morto. Lavando-a em seguida com uma mistura de ervas. Fazendo um pequeno risco na testa do cadáver. Com isto, cessava a capacidade daquele corpo para receber o santo e iniciar pessoas na religião. Coube a Tião a realização do rito, de vez que nenhum babalorixá feito por João teria capacidade para colocar a mão na cabeça de quem lhe fez o santo.
Logo depois, aumentou o ruído dos atabaques para o espírito se desprender do corpo. Todos os orixás se manifestaram e dançaram, menos Iansã e Oxossi.
Encerrado o ritual, as portas se abriram para que o publico pudesse ver o corpo velado por 26 horas. Outra cerimônia foi realizada pela Igreja Católica Apostólica Brasileira, por Dom José Antônio da Silva e Dom Hugo da Silveira Lino.
O cortejo saiu pelas ruas, à frente de todos, três ogãs, um com uma grande bandeira branca, outro com um incensário que espalhava o cheiro de mirra e Benjoim e Valentim que entoava canções.
Ninguém chamou mais atenção do que Iansã, que dançou docemente fazendo gestos com os braços. Algumas vezes soltava seu grito como um lamento pela perda daquele homem.
Rosas eram jogadas pelo caminho. Ao chegar no cemitério o caixão na cor ouro velho, estava coberto com um pano verde. O céu estava azul, o calor era enorme e no momento em que cobriram o vidro da urna com a tampa de madeira, o vento envergava as árvores enchendo de folhas o chão, que vez o outra subiam em rodamoinho, no cruzeiro das almas, as velas se apagaram. O dia tornou-se noite clareada apenas pelos Relâmpagos e Raios que riscavam o céu, começou a chover, e a multidão olhava para cima e aplaudia.
A filha de Santo de seu João Zuleica Pereira Rodrigues, estava de mãos dadas com seu filho de 12 anos Sebastião Rodrigues Filho, quando inexplicavelmente o menino desapareceu dentro do cemitério alguns juraram ter visto o garoto desaparecer no ar, carregado pelo vento.
Em poucos minutos, o temporal alagou tudo e a água escorreu forte por entre as sepulturas. Pessoas caiam dentro de túmulos, uma jovem que carregava os sapatos na mão, deixou-os cair no interior da catacumba que a água enchia enquanto o caixão descia. Outros entravam em traze espiritual. Eram 16hs e 40min, os funcionários do Cemitério do Belém no Bairro Corte Oito, testemunhavam no dia 21 de março de 1971, o temporal que batizava aquela sepultura de número 7188. Mostrando que Iansã se fazia presente no enterro de seu mais importante filho.
Sete dias depois, Tião de Irajá não queria Jogar os búzios Maneira que os orixás falam aos iniciados. Para indicar quem herdaria o trono da Goméia. Porém, foi escolhido para realizá-lo. Segundo a própria Menininha do Gantois, Só ele tinha condições de fazer o jogo naquele momento. Antes de fazer o jogo ele declarou a todos que estavam presentes que faria sabendo que depois, dos quatro mil amigos que tinha naquele local não lhe restaria mais de quinhentos. Disse também que o jogo seria assistido por todos, utilizou os mesmos búzios da cerimônia do Axexê e fez questão inclusive, de que os Ogãs e os mais velhos ficassem ao seu lado naquele momento.
Para surpresa os Búzios indicaram Seci Caxi, Sandra Reis dos Santos, filha carnal de Kitala Mungongo, Adalice Benta dos Reis e de Demivaldo dos Santos, um sargento da marinha. Espiritualmente Sandra era filha de Angorô, o oxumarê nagô, representado por uma serpente e o arco-íris, ela só tinha nove anos de idade. Com isto, começou a briga pelo poder na Goméia e Tião foi acusado de forjar o jogo e teve de se defender em jornais.. Apesar de na época ter sido filmado e transmitido pela televisão. Ignoraram os fatos; Oxossi, Iansã, Omolu, Oxalá e Oxumarê responderam e bateram cabeça. Sandrinha foi carregada e colocada no trono, sem que ninguém fosse contra a isso, naquele momento.
Sandra nasceu dentro da Goméia no dia primeiro de novembro de 1961, seu João foi quem fez o parto. A recém nascida, além de ter sido cercada de cuidados, tomou banho de sete dias na bacia de Iansã. Quando estava com apenas um mês de nascida foi retirada do colo de sua avó pelo Oxossi de Pai João que a tomando nos braços, levou-a até o meio do ariaxé (nome dado a um lugar isolado onde os praticantes da religião se recolhem para obrigações). Embrulhou-a então com axoxó (milho vermelho) e depois suspendeu o bebê, devolvendo-o à avó.
No dia quatorze de julho de 1961, com oito meses de vida Sandra teve de ser raspada por motivos de doença. Seu nome passou a ser Seci Caxi e Seu João alem de padrinho de batismo, passou a ser zelador de Santo dela.
O Juiz de Menores de Caxias Sr.Eduardo Peres Carnota, decidiu não intervir no problema, pois estava restrito à esfera religiosa e as liberdades de culto estão asseguradas pela constituição e deve ser respeitada.
A autoridade dela seria apenas simbólica. A parte prática seria desempenhada por seu tutor, o ogã Valentim. Seci teria de ocupar o trono somente durante as danças e os cânticos no terreiro. As obrigações (oferendas) só seriam feitas de madrugada, quando Seci já estaria dormindo.
O Legado
No fim do mesmo ano Tião faleceu. Começou a disputa, Deuandá, Miguel Grosso, Odecoiaci, Samba de Amongo, Ogejican, Ilecy e Dundum ame, Paulo Sergio Nigro que ficou a frente da Goméia enquanto seu João esteve doente, lutavam pelo direito do trono. José Santos Torres, Filho adotivo de seu João denunciou o roubo das peças dos Santos; Oxalá, Iansã, Oxossi, Obaluaê e treze exus. Janelas, telhas e madeiras eram levadas como lembranças do que foi a Goméia do Rio. Sandra morava com a madrinha no bairro de Copacabana no Rio de Janeiro. Sua mãe temia pela vida dela na luta do poder.
E bom lembrar que na maioria dos artigos e matérias de jornais o nome de batismo de Seci Caxi e apresentado como; Sandra Regina dos Santos. Na verdade seu nome de batismo e Sandra Reis dos Santos. O nome era alterado pelos parentes e amigos temendo que fizessem feitiçaria contra ela, utilizando o nome original.
O Professor José Ribeiro de Souza, do palácio de Iansã, passou a utilizar o título de “Rei do candomblé” nomeado por um conselho sacerdotes com mais de 50 anos de iniciação na religião, presidido por Tancredo da Silva Pinto.
A briga passa a ser entre duas correntes, a de Ogã Valentim, do lado de Sandra Reis dos Santos e do outro lado, Mãe Ilecy tendo como escolhido Raimundinho. A luta pelo poder e a lenda do tesouro enterrado na Goméia, fez com que as atividades do centro fossem encerradas em 1983.
Seu João conheceu Argentina, Peru, Uruguai, França e Inglaterra. Foi convocado para várias seções no coração da África, onde era tido como Rei nagô. Sendo convidado até para assumir uma das muitas tribos de Angola , Fundou uma companhia de Dança Folclórica com a Bailarina Mercedes Batista, gravou um LP pela Continental intitulado de “Joãosinho da Goméa - Rei do Candomblé”. Participou de Filmes como “Nina, a mulher de fogo” e “Copacabana Mour Amour” no papel dele mesmo. Foi tema do samba de três escolas, União Imperial (SP), União da Ilha e Grande Rio, Homenageado pelo museu de Londres e músicos como Nei Lopes, Zeca Pagodinho, Baden Powell, Vinícius de Moraes e o grupo Raça Negra, Parte da trajetória de Joãosinho da Goméia foi escrita em 1971, no raro livro “Vida e Morte de Joãozinho da Goméia” de P.Siqueira, lançado pela editora Nautilus.
Por causa de sua personalidade foi criado na Bahia o centro de referência e cidadania homossexual Joãozinho da Goméia, a instituição localizada a Rua Frei Vicente, n◦ 24 – Pelourinho, Salvador. O local colhe denuncia de agressões e descriminação, a iniciativa partiu do Grupo Gay da Bahia, para ser mais preciso de Marcecelus Bragg.
O candomblé da Goméia baiana teve um triste fim. No ano de 1974 foi alugado para Marcel Camus realizar as filmagens de “Os Pastores da Noite” baseado na obra com o mesmo nome de autoria de Jorge Amado. Sendo vendido e ocupado hoje por instalações da EMBASA com uma enorme caixa d’água ocupando aquele sagrado local.
No dia 22 de setembro de 1987, o vereador Luiz Brás de Luna, indicou à mesa da Câmara Municipal de Duque de Caxias um oficio para a desapropriação do imóvel onde funcionou o “Terreiro da Goméia” para criação do “Centro Cultural Afro-Brasileiro Joãozinho da Goméia”.
Na época o ato de desapropriação teria o objetivo de resgatar a memória da Goméia restaurando as edificações do barracão que ainda estavam em pé e inaugurando o CCABJG no dia 13 de maio de 1988, precisamente no primeiro centenário da libertação dos escravos. Porém o prefeito Juberlan de Oliveira por algum motivo não quis e preferiu engaveta a indicação.
No ano de 2003, governo do prefeito José Camilo Zito dos Santos, a Goméia foi desapropriada por indicação do vereador Airton Lopes da Silva o ITO para construção de uma creche. A indenização de R$ 25,000,00 foi depositada na conta de Gitadê, Sebastião Paulo da Silva. Filho de Santo de Joãozinho da Goméia que possui um centro espírita em Franco da Rocha, São Paulo onde estão os assentamentos dos Santos de Seu João.
A preocupação de preservar a memória daquele patrimônio histórico, garantido pela Constituição federal nos artigos 215 e 216. Reuniu adeptos do candomblé na tentativa de realizar o projeto da primeira indicação o “Centro Cultural Afro-Brasileiro Joãozinho da Goméia”, mantendo vivo o nome do Rei do candomblé.
No seminário “Cultura para todos” realizado em dezembro de 2003 em Nova Iguaçu. A Sub-Secretaria de Cultura do Município de Duque de Caxias Silvia de Mendonça, com vários artigos de minha autoria. Conversou com o Ministro da Cultura Gilberto Gil (Ogân do Gantois) que passou a responsabilidade da preservação para as mãos da Fundação Palmares que em parceria com a Secretaria de Cultura de Duque de Caxias, realizou no dia 05 de março de 2004 um encontro de africanidade no teatro do SESI em Duque de Caxias.
Mediei à última mesa com a pauta “Terreiro Joãozinho da Goméia; patrimônio da cultura nacional”. Entre os presentes na mesa estavam Seci Caxi, Sandra Reis dos Santos e Omidarewa, Gisele Cossard (A francesa do candomblé). O encontro não gerou fruto, pois foi encarado por alguns como campanha política, devido o ano seguinte ser seguido pelas eleições.
Hoje no local ainda existe uma pequena construção do que sobrou da Goméia onde mora Oyá Guerê, Euclides Costa Santos um filho de santo de seu João, as árvores sagradas, pois representam os orixás da nação Angola, uma amendoeira plantada pelo próprio Joãozinho da Goméia e a base de uma nova construção abandonada com a saída do Prefeito Washingtom Reis.
Reconheço que creche e importante e talvez seja a única maneira de não invadirem o terreno. Porem a restauração do que sobrou de pé para construção de um Memorial a Joãozinho da Goméia e a preservação das arvores, seja bem importante para memória do Município de Duque de Caxias, a volta do Prefeito Zito a prefeitura recomeçou ensaio para reconhecimento do local.
Todos os patrimônios da época de ouro de seu João foram exterminados sem nenhum respeito cultural e as únicas lembranças de sua vida em Duque de Caxias são; esta construção, a sepultura no cemitério do Corte 8 e a rua próxima a Goméia que o vereador da Arena José Carlos Lacerda apresentou em pedido a Câmara de Caxias no dia 23 de março de 1971 para que a Rua Cascatinha passasse a se chamar João Alves Torres Filho.
Independente de religião, raça e opção sexual devemos lutar pela história de nosso município. Agora o que resta saber se com a revitalização do terreno, a lenda criada por moradores próximos a Goméia que afirmam escutar cantigas e toques de atabaques além dos Orixás, Exús, Caboclos e o espírito do próprio Joãozinho da Goméia que são vistos no terreno, protegendo o tesouro enterrado. Vai aumentar ou termina?
Sepultura de Joasinho da Goméa no cemiterio do Belén (Corte 8).
Rua Castro Alves no periodo da goméa e Rua João Alves Torres Filho (Atualmente).
Montagem Ilustrativa do documentário "Goméia".

 

 

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