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JOÃOZINHO DA GOMÉIA

"O Rei do Candomblé"

 

Uma figura imperial da cultura nacional. Baiano, negro, homossexual e sacerdote de uma fé ancestral é o nosso homenageado na Coluna "Foi o Tempo". Joãozinho da Goméia, sem a menor dúvida foi o grande responsável pela popularização do Candomblé no Brasil. Corajoso, tenaz, obstinado e abençoado. Ele driblou, enfrentou e se fez mais forte que o preconceito, o racismo, a perseguição religiosa e a ignorância. A sua excelência no ritual africano o fez famoso na sua época e lembrado até hoje. Foi um homem de mídia, um artista capaz e pessoa de personalidade forte. Infelizmente até agora não foi alvo de nenhuma produção cultural. Não virou filme, documentário , minisérie, tese acadêmica, à altura da sua grande contribuição à memória nacional. Então, da nossa parte fica aqui este singelo registro à magnitude e importância deste Babalorixá que me perdoem considerar "O Rei do Candomblé" no Brasil.

por Marccelus Bragg

Foi pela cabeça que os orixás trouxeram o menino João Alves Torres Filho para o mundo do candomblé. Aos 10 anos, o garoto nascido em 1914, na cidade de Inhambupe, a 153 quilômetros de Salvador, já havia dado mostras de sua personalidade forte. Contra a vontade dos pais, deixou a casa da família para tentar a sorte na capital. Teve que se virar para sobreviver, mas contou com o apoio de uma senhora que morava na Liberdade, e que ele considerava sua madrinha. Foi essa senhora quem teve a idéia de levá-lo ao terreiro de Severiano Manuel de Abreu, conhecido como Jubiabá (há uma polêmica se ele teria sido, ou não, o inspirador do famoso personagem de Jorge Amado). Joãozinho sofria de fortes dores de cabeça, que não eram explicadas, nem curadas pelos médicos. Bastou que ele fosse "feito" no candomblé, para que as dores fossem embora. Elas seriam somente um aviso dos orixás, que cobravam a iniciação do menino.

Essa história é apenas uma das versões existentes sobre a iniciação religiosa de Joãozinho da Goméia. A fase inicial de sua vida, como várias outras, é coalhada de incertezas. À boca miúda, corria o boato de que Joãozinho não havia sido iniciado corretamente, dentro dos preceitos. No candomblé, isso é uma acusação muito séria. O etnólogo Roger Bastide, especialista no assunto, chegou a enquadrá-lo no rol dos babalorixás "clandestinos", acusados de ter usurpado o título por ambição.

Mas Joãozinho da Goméia também tem seus defensores. Para o historiador Cristiano Ribeiro dos Santos, autor do artigo Candomblé, mídia e poder: a trajetória do babalorixá Joãozinho da Goméia, apresentado num simpósio de história no Rio de Janeiro, as críticas são fundadas no preconceito e mostram o incômodo causado pela ascensão meteórica de um pai-de-santo que transgredia as regras dos chamados grandes terreiros. "Eu duvido que, se ele fosse vivo, alguém tivesse coragem de questionar isso na frente dele", observa, lembrando a personalidade forte, de quem não leva desaforo para casa, do babalorixá da Goméia. Na defesa de Joãozinho contra os boateiros, está também sua verdadeira legião de filhos e filhas-de-santo. Uma delas, "feita" por ele ainda em Salvador, é a ialorixá Maria José dos Santos, de 92 anos. Ela conta, em detalhes, a seguinte versão da iniciação do seu "pai": "Ele tinha 19 anos, mas morava em Inhambupe, que a mãe dele era de lá. Essa senhora que morava aqui era madrinha dele. Aí, a mãe dele disse que, quando ele ia dormir sozinho com o irmão, ele via um homem. Ele gritava: ''Um homem cheio de pena! Minha mãe, um homem cheio de pena!''. Ele via um homem, que se vestia de pena e não deixava ele dormir. O irmão dele xingava, dizia que era alma de pena, que no interior ninguém acredita em nada. Aí ele caiu doente. Minha avó (de santo), a mãe dele, telefonou para a madrinha dele, dizendo que João via alma de pena e tava doente. Aí a madrinha dele levou ele para a casa do finado Jubiabá, porque ela era filha-de-santo do finado Jubiabá. Ele disse: ''Ô filha, esse menino tem negócio de candomblé, era melhor que vocês fizessem o santo dele''. Aí, a madrinha dele disse: ''Ô, pai, que santo tem esse menino?''. O finado Jubiabá disse: ''Ele é de Oxóssi''. Aí, fez o Oxóssi dele".

Jovem Pai-de-Santo

Dona Maria José foi uma das primeiras filhas-de-santo do jovem Joãozinho da Goméia. Ele mal havia saído da adolescência quando fundou seu primeiro terreiro, num lugar chamado Ladeira de Pedra, no auge da repressão oficial aos terreiros de candomblé. "A polícia perseguia ele, mas tinha o doutor Matos, um delegado que protegia", lembra dona Maria José. Mais tarde, Joãozinho conseguiu arrendar um terreno na Rua da Goméia, em São Caetano. Naquele local, que ficaria incorporado para sempre ao seu nome, ele trilhou os primeiros passos da fama. Ao mesmo tempo, o jovem pai-de-santo começava a formar sua numerosa prole, iniciando muitos "filhos". Dona Maria José, por exemplo, fez parte de um "barco" de 19 pessoas iniciado por Joãozinho. É uma façanha lembrada até hoje, porque iniciar tanta gente de uma vez não é para qualquer um.

Por essas e outras características, Joãozinho da Goméia chamava aatenção, na Salvador da década de 1930. Ele não passou despercebido aos olhos de pesquisadores atentos da época, como o baiano Edison Carneiro e a americana Ruth Landes, que esteve em Salvador entre 1938 e 1939. No livro Cidade das mulheres, ela cita várias vezes o pai-de-santo de São Caetano, que ganhava prestígio rapidamente. Ao mesmo tempo, Joãozinho já despertava polêmica. Era um homem jovem, numa cultura religiosa dominada por velhas senhoras. Aos 21 anos, ele tinha seu próprio terreiro e havia formado várias filhas-de-santo, a maioria bem mais velha do que ele.

Essa ascensão precoce não era bem-vista no mundo do candomblé, onde a idade avançada é considerada um atributo importante para a escolha dos sacerdotes - e a própria Menininha do Gantois sofreu resistências por causa disso, quando assumiu a chefia do seu terreiro, aos 26 anos de idade. Além disso, Joãozinho batia candomblé da nação Angola, numa cidade em que predominava a cultura jeje-nagô. E ainda incorporava uma entidade com nítida influência indígena: o caboclo Pedra Preta.

Cabelos alisados a ferro: a chapinha e homossexual assumido.

É com o nome de "João da Pedra Preta" que o pai-de-santo da Goméia é citado em alguns relatos do início de sua vida. Era um mulato de traços bonitos, porte altivo, ótimo dançarino, que espichava os cabelos e não fazia nenhuma questão de esconder sua homossexualidade.

Indiferente às críticas, Joãozinho da Goméia conservaria seu cabelo alisado por toda a vida. Da mesma forma, ele também manteve, ao longo dos anos, a capacidade de chamar a atenção e despertar polêmicas. Fascinante e sábio para uns, quase um impostor para outros, a verdade é que ninguém conseguia permanecer indiferente ao seu encanto.

De 1950 à 1971 o pai-de-santo mais famoso do país

Famoso, querido por seus "filhos", consultado por gente importante, João da Goméia era, inegavelmente, um sucesso. A partir de 1950 até sua morte, em 1971, ele era o pai-de-santo mais conhecido do país, com fama comparável somente à de Menininha do Gantois. Mas, mesmo com todo esse reconhecimento, ele estava longe de ser uma unanimidade entre seus irmãos de religião, o chamado povo-de-santo. Ao contrário. Durante a vida inteira, Joãozinho incomodou muita gente, por suas posturas religiosas, seu comportamento transgressor e sua língua afiada - um temperamento nada surpreendente, aliás, num filho dos santos guerreiros Oxóssi e Iansã.

O escândalo de 1956

Um bom exemplo é o já citado Carnaval de 1956, em que ele se fantasiou da vedete Arlete. Repreendido publicamente pelas mães-de-santo baianas e pela Federação Umbandista do Rio de Janeiro, Joãozinho atribuiu a polêmica à dor-de-cotovelo. O assunto rendeu uma matéria destacada na revista O Cruzeiro, com o título "Joãozinho da Goméia no tribunal da Umbanda". A reportagem inclui uma entrevista com o pai-de-santo, em que ele demonstra personalidade e presença de espírito. O autor das perguntas era o repórter Ubiratan Lemos:

"Você não acha que a sua fantasia de vedeta se choca com os regulamentos do candomblé?", pergunta o repórter.

"De nenhuma maneira, meu amigo. Primeiro, porque antes de brincar eu pedi licença ao meu ''guia''. Segundo porque o fato de eu ter me fantasiado de mulher não implica em desrespeito ao meu culto, que é uma Suíça de democracia. Os orixás sabem que a gente é feito de carne e osso e toleram, superiormente, as inerências da nossa condição humana, desde que não abusemos do livre arbítrio".

"Você está falando difícil, disse o repórter".

E Joãozinho, sem demora, retrucou:

"Você está pensando que babalaô tem de ser analfabeto?".

Joãozinho não deu o braço a torcer, os outros também não, e o assunto acabou nas mãos dos deuses, numa sessão de búzios promovida pelos chefes cariocas da umbanda. Os deuses encerraram a briga com uma saída salomônica: Joãozinho estava absolvido, desde que não repetisse a ousadia.

Desavenças públicas

As mães-de-santo mais famosas da Bahia não morriam de amores por Joãozinho da Goméia. À exceção, talvez, de Menininha do Gantois que mantinha com ele um relacionamento um pouco melhor, e a quem ele se referia com mais respeito. Quanto às outras ialorixás, Joãozinho demonstra um certo rancor, talvez por nunca ter sido tratado por elas como um igual, como um sacerdote importante. Numa entrevista concedida ao Pasquim, um ano antes de morrer, ele fala com desdém de mãe Senhora, poderosa matriarca do Ilê Axé Opô Afonjá. "Conheço Senhora, mas nunca tive maior contato com ela. Eu não sou simpático a ela. Ela é um tipo de mulher muito orgulhosa. Não é bem orgulho, é um pouco de ignorância", dispara. Na mesma entrevista, um dos entrevistadores mostra uma "guia" para Joãozinho analisar se estava feita dentro da tradição. Ele diz que não, apontando para umas figas que, segundo ele, não deveriam estar ali. "Não está nada primitivo", sentencia. Informado de que a guia havia sido elaborada por Olga do Alaketu, Joãozinho exclama: "A Olga? Então, ela está avacalhando!".

Olga do Alaketu já era considerada, naquela época, uma das mais importantes ialorixás baianas. Hoje, ainda na ativa, ela permanece como uma remanescente de uma geração de grandes e poderosas mães-de-santo. Procurada pela reportagem para falar sobre Joãozinho da Goméia, esquivou-se gentilmente, alegando que não o conhecia bem. "Eu só posso falar do meu, minha filha. Se eu não sei nada dele, não posso falar", disse ela.

Joãozinho estabeleceu-se definitivamente no Rio de Janeiro em 1946. Ele tinha, então, apenas 32 anos e já era um babalorixá bastante conhecido na Bahia. Tanto que sua festa de despedida foi um acontecimento comentadíssimo em Salvador. Ele deu uma festa no Teatro Jandaia, com danças típicas do candomblé. Porque, além de babalorixá, ele era um bailarino fantástico.

De acordo com o relato do próprio Joãozinho a um jornal carioca, a mudança para o Rio aconteceu quase por acaso. Ele foi "dar comida ao santo" na casa de uma de suas "filhas" em Duque de Caxias. "Depois de concluído o ritual, voltei para a Bahia mas, lá chegando, não tive sossego; os amigos insistiam para que eu voltasse e não tive outro remédio senão pegar um Ita no Norte e ficar em Caxias. Cheguei, gostei e fui ficando", contou ele. Naquela época, a Baixada Fluminense já era um reduto dos variados tipos de culto afro-brasileiro do Rio de Janeiro.

Alguns relatos, porém, apontam que a mudança de Joãozinho para o Rio não foi tão fácil assim. "Há várias histórias míticas sobre isso. Parece que havia uma ordem do caboclo, que dizia que não era o momento, mas ele desafiou e foi assim mesmo para o Rio. Aí, deu tudo errado, parece que ele chegou a ser preso e obrigado a voltar. Até que, num determinado momento, o caboclo disse: agora é a hora. Ele veio e conseguiu se dar bem", conta o historiador Cristiano Ribeiro dos Santos, que ouviu pessoas ligadas a Joãozinho no Rio, para construir seu artigo. Ele destaca que, em se tratando de uma figura tão marcante do candomblé, é difícil dissociar a vida real do pai-de-santo João das lendas que o cercam. "Várias histórias surgiram em torno de seu João da Goméia, e hoje é difícil distinguir o que é o personagem histórico e o que é o mito", observa.

O fato é que Joãozinho conseguiu fundar a sua "Goméia do Rio", em Duque de Caxias. Rapidamente, a beleza dos rituais, com orixás ricamente vestidos, e o carisma inegável de seu líder chamaram a atenção para aquele novo terreiro. "Desde sua chegada ao Rio de Janeiro, Joãozinho foi um verdadeiro promoter do candomblé. Suas atividades religiosas, como as festas de seus orixás, eram muito divulgadas na imprensa, que o promovia ao mesmo tempo em que fazia da Goméia um espaço de encontro não somente para as pessoas do povo-de-santo, mas para os diferentes segmentos sociais que passavam a ler e ter informações sobre o candomblé".

Joãozinho da Goméia tornava-se famoso, começava a criar laços de amizade e cultivar clientes nas camadas mais altas da sociedade carioca. Isso, aliás, não era novidade para ele. Ainda na Bahia, quando ele se casou com uma mulher "velha, feia e rica", na descrição de Edison Carneiro, teve como padrinho de casamento um oficial da Marinha, nada menos do que o capitão-dos-portos da Bahia. No Rio, essas relações com gente poderosa se ampliaram. "Conta-se que, nas festas importantes do terreiro, havia uma área nobre, onde ficavam os políticos da Baixada Fluminense, deputados, etc. Conta-se que a sogra de Juscelino (Kubitschek) era ligada a ele", observa Cristiano Henrique. Esperto, o pai-de-santo não negava, nem confirmava, essas relações. Mais do que ninguém, ele sabia da importância do sigilo no seu trabalho.

Além de políticos, pessoas do meio artístico freqüentavam o terreiro de Duque de Caxias. Mais uma vez, Joãozinho não costumava citar nomes, quando questionado sobre isso em entrevistas. Sua "filha" baiana Maria José dos Santos, porém, lembra que viu, na Goméia do Rio, celebridades do porte das divas Ângela Maria e Elza Soares. Essa ligação com o meio artístico era ainda mais forte porque o próprio Joãozinho, nas horas de folga das obrigações religiosas, era um artista. Ele se apresentava dançando, em shows folclóricos, no Cassino da Urca. No palco, ele mostrava aos leigos, fora do ambiente religioso, as danças sagradas dos orixás, em movimentos graciosos, fortes, ritmados, hipnóticos. Nesse ponto, não há divergências: todos os relatos concordam que João da Goméia era um excepcional bailarino. Baden Powell e Vinícius de Moraes dedicaram um samba ao caboclo dele: Pandeiro quando toca faz Pedra-Preta chegar. Viola quando toca faz Pedra-Preta sambar. O pandeiro diz: Pedra-Preta não samba aqui, não. A viola diz: Pedra-Preta não sai daqui, não. Pedra-Preta diz: Pandeiro tem que pandeirar. Pedra-Preta diz: Viola tem que violar. O galo no terreiro fora de hora cantou. Pandeiro foi-se embora e Pedra-Preta gritou: Olô pandeiro, Olô viola.

Joãozinho também mantinha uma boa relação com a imprensa. Ele parece ter sido o primeiro pai-de-santo a perceber o poder da comunicação e a tentar usá-lo para diminuir a discriminação contra o candomblé. Não é à toa que, no Carnaval de 1955, um ano antes de se travestir de Arlete, ele saiu com uma inacreditável fantasia de Associação Brasileira de Imprensa: uma mortalha estampada de letras, um cetro de microfone e uma maquete do prédio da ABI na cabeça! Um documento exemplar do prestígio de Joãozinho nos meios de comunicação é uma revista O Cruzeiro de 1967. Na capa colorida, ele aparece de torço na cabeça, ladeado pelas filhas-de-santo. Nas páginas internas, pouquíssimo texto, escrito com base nos livros clássicos de Nina Rodrigues, Edison Carneiro e Arthur Ramos. A novidade da matéria, que ocupou a maior parte de suas oito páginas, foram as fotos de pessoas vestidas de orixás. Vestidas por quem? Pelo pai-de-santo da Goméia, claro. Essa exibição dos deuses em público, fotografados e reproduzidos aos milhares nas bancas de revistas, dá bem a mostra da ousadia de Joãozinho na divulgação de sua religião. E das brigas que ele comprava com a ala mais conservadora do candomblé.
Não era por ele ser homossexual. O que mais chocava o povo-de-santo daquele tempo era mesmo a ousadia do babalorixá Joãozinho da Goméia.

Ele desafiava a opinião pública ao dançar na noite em cabarés ou desfilar vestido de mulher, como fez no Carnaval de 1956..

Uma figura exuberante entra no baile do Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Plumas na cabeça, maquiagem no rosto, maiô justinho ao corpo, sapato de salto plataforma, pernas bem torneadas, envolvidas por uma meia-arrastão. O pai-de-santo Joãozinho da Goméia vestiu-se para brilhar no Carnaval de 1956, fantasiado da vedete Arlete. Os flashes dos fotógrafos pipocavam à sua passagem. Mas o sucesso da fantasia não foi unânime. Os umbandistas cariocas e as mães-de-santo mais tradicionais da Bahia ficaram indignados com a ousadia do babalorixá (pai-de-santo). Para eles, um sacerdote não podia se expor dessa forma, em pleno Carnaval. Joãozinho não ligou. "Serei eu, porventura, o primeiro Adão com o vestido da costela que apareceu no Rio de Janeiro?", respondeu, irônico. Ele não deixava de fazer o que queria por medo de cara feia. Era amigo da polêmica, do espetáculo, dos holotofes. No terreiro, no teatro, na imprensa, Joãozinho da Goméia era uma estrela.

Mesmo os babalorixás (pais-de-santo) e ialorixás (mães-de-santo) que não simpatizavam com a sua figura, porém, têm hoje que reconhecer: Joãozinho da Goméia foi o grande responsável pela expansão do candomblé no Sudeste do país, a partir da década de 1950. Ele formou milhares de filhos-de-santo, que criaram novos terreiros em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essas casas de candomblé apresentam-se orgulhosamente, ainda hoje, como fazendo parte do "modelo Goméia", ou da "raiz Goméia". A verdadeira Goméia, porém, não existe mais. Depois da morte de Joãozinho, em 1971, tanto o terreiro baiano, no bairro de São Caetano, como o terreiro fluminense, de Duque de Caxias, foram extintos. O caboclo Pedra Preta, a entidade mais famosa incorporada por Joãozinho da Goméia, ficou sem um sucessor à altura.

Milhares de fiéis lamentaram a morte do pai da Goméia, em meio à chuva de Verão

A morte de Joãozinho da Goméia foi tão espetacular quanto sua vida. Ele havia viajado a São Paulo a fim de fazer uma obrigação para uma filha-de-santo. Depois, resolveu dançar na festa de um terreiro amigo. No meio da dança sagrada, caiu desacordado no chão. Foi levado em estado grave para o pronto-socorro do Hospital das Clínicas paulista, mas, por falta de vagas, foi transferido para o Hospital da Beneficência Portuguesa. Três dias depois, voltava para o Hospital das Clínicas, em coma. "Na véspera de sua morte, quinta-feira, teve alguns instantes de consciência", narra a reportagem de O Cruzeiro da época. "Foi informado de que, além de aneurise cardíaca, haviam localizado um tumor cerebral de difícil acesso, na região frontal. Consultado sobre a operação, concordou, e disse que seu desejo era que ''se cumprisse a vontade de Deus''".

Joãozinho da Goméia morreu durante a cirurgia. A notícia chocou seus milhares de filhos-de-santo e admiradores. Ninguém poderia prever essa morte repentina, embora alguns sinais da catástrofe já houvessem se manifestado para olhos atentos. Raul Lody e Vagner Gonçalves da Silva descrevem esses indícios, em seu artigo:

"Os primeiros sinais da debilidade física de Joãozinho começaram por volta de 1966, quando ele caiu no terreiro, por causa de um derrame cerebral. Talvez essa tenha sido uma manifestação inicial do tumor que o levaria à morte em 19 de março de 1971. Mas, a proximidade do fim teria sido anunciada também por meio de sinais do orun (espaço mítico) não identificados a tempo, segundo os membros da Goméia. Na última festa que Joãozinho realizou para Iansã, essa deusa relutou muito antes de se manifestar. Isso também aconteceu com o caboclo Pedra Preta, que sacudiu Joãozinho quatro vezes, mas não o incorporou, momentos antes do pai-de-santo viajar para São Paulo, onde veio a falecer. No quintal da Goméia, a árvore do tempo e o pé de jurema perderam suas folhas e a canjica servida para seu orixá repentinamente ficou azeda".

Uma multidão foi despedir de Joãozinho, quando seu corpo chegou a Duque de Caxias. Segundo relatos e reportagens da época, seriam cerca de quatro mil pessoas acompanhando o cortejo de 6km do terreiro ao cemitério, a maioria vestida de branco. A mãe de Joãozinho, conhecida como vó Maria, teve que permanecer em São Paulo, porque teve uma crise nervosa ao saber do filho morto. Mas, nas ruas de Caixas, milhares de outros parentes derramavam suas lágrimas. Não eram parentes biológicos, mas parentes-de-santo, filhos e netos que amavam profundamente aquele homem singular que havia acabado de morrer. Várias filhas-de-santo incorporavam seus orixás e saíam girando, em transe. A tarde, que estava clara na saída do cortejo fúnebre, tornou-se cinzenta à medida que a multidão se aproximava do cemitério. No momento exato em que o caixão foi baixado à terra, algo extraordinário aconteceu. O repórter Francisco Vargas, d''O Cruzeiro, narrou a cena:

"São 17 horas e 45 minutos. O caixão chegou à beira do túmulo, coberto por um pano verde. No momento em que cobrem o vidro da urna com a tampa de madeira, começa a chover, e multidão, olhando para cima, grita e aplaude. Em poucos minutos, o temporal alaga tudo e a água escorre forte por entre as sepulturas. Dezenas de mulheres se contorcem no meio da lama e os homens, aos soluços, entoam um cântico de despedida. Flores são jogadas para dentro do túmulo à medida que o caixão desce". A tempestade súbita, na hora no enterro, foi registrada também por outros veículos de comunicação da época. A história também permanece contada, na tradição oral do candomblé. Para os adeptos, a chuva foi uma manifestação da poderosa Iansã, deusa dos raios e das tempestades, para marcar a despedida de seu querido filho Joãozinho.

Na Bahia, também houve uma forte comoção pela morte do pai-de-santo da Goméia. "Uma das maiores emoções que eu senti na minha vida foi a dessa notícia. Todo mundo ficou chocado. Eu era criança e me impressionei com a forma como minha avó recebeu a notícia", lembra Raimundo Neves, neto de dona Mirinha do Portão, famosa mãe-de-santo de Lauro de Freitas, já falecida. Mãe Mirinha era filha-de-santo de Joãozinho. Por isso, seu terreiro de Portão chama-se, até hoje, "São Jorge Filho da Goméia". Raimundo Neves, neto biológico e filho-de-santo de mãe Mirinha, orgulha-se de ser neto-de-santo de Joãozinho da Goméia. "Ele era uma figura humana extraordinária, singular", resume. "Não tive a honra de conviver com meu avô (de santo), mas as poucas vezes que eu visitei o terreiro de Caxias com minha avó ficaram marcadas para sempre em minha memória".

A descendência espiritual de Joãozinho da Goméia não é tão grande na Bahia como no Rio de Janeiro e São Paulo. No Sudeste, seu nome é uma verdadeira grife do candomblé, ostentada com orgulho. Mas, o terreiro original de Joãozinho, em Caxias, não existe mais. Depois de sua morte, houve uma disputa de poder. Uma menina de dez anos teria sido indicada como continuadora, mas houve divergências e ninguém conseguiu continuar o trabalho. Em Salvador, o terreiro original também não foi preservado. Na Rua da Goméia, o local onde Joãozinho ergueu sua roça hoje é ocupado por instalações da Embasa. Em vez das plantas dos orixás, o local é adornado por uma imensa caixa d´água, que se ergue como um monumento de concreto. Mas as lembranças do pai-de-santo que divulgou o nome da rua pelo mundo ainda está viva na cabeça dos moradores mais antigos. Pelo menos até agora, as histórias contadas pelas pessoas que o conheceram estão conseguindo perpetuar sua memória.

 

Fonte: Correio da Bahia e diversas

SE ALGUÉM TIVER MAIS MATERIAL SOBRE O BABALORIXÁ JOÃOZINHO DA GOMÉIA E QUISER DOAR PARA ENRIQUECER ESTA HOMENAGEM, POR FAVOR NOS MANDE, VAMOS RESGATAR E MEMÓRIA DESTA PESSOA ESPETACULAR DA CULTURA BRASILEIRA QUE ELEVOU O CANDOMBLÉ.

Joãozinho da Goméia, o Rei do Candomblé.

João Alves de Torres Filho ou Joãozinho da Goméia, também conhecido por Tata Londirá, era sacerdote do Candomblé de caboclo, nasceu em 27 de Março de 1914, na Bahia e morreu em 19 de Março de 1971 em São Paulo.

Joãozinho da Gomeia


Pai-de-santo gerou polêmica, nos anos 50, ao assumir o homossexualismo e criticar famosas ialorixás.


Não era por ele ser homossexual. O que mais chocava o povo-de-santo daquele tempo era mesmo a ousadia do babalorixá Joãozinho da Goméia, nascido João Alves Torres Filho, em Inhambupe, em 1914. Ele desafiava a opinião pública ao dançar na noite em cabarés ou desfilar vestido de mulher, como fez no Carnaval de 1956. E quando o assunto era candomblé, o sacerdote não deixava por menos: era capaz de questionar, publicamente, qualquer ialorixá famosa do país. Desta forma, ganhou a mídia e, até a sua morte prematura, em 1971, virou referência para o culto afro, especialmente no Sudeste do Brasil. Rei transgressor do candomblé Joãozinho da Goméia fez história ao assumir publicamente a condição de homossexual. Uma figura exuberante entra no baile do Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Plumas na cabeça, maquiagem no rosto, maiô justinho ao corpo, sapato de salto plataforma, pernas bem torneadas, envolvidas por uma meia-arrastão. O pai-de-santo Joãozinho da Goméia vestiu-se para brilhar no Carnaval de 1956, fantasiado da vedete Arlete. Os flashes dos fotógrafos pipocavam à sua passagem. Mas o sucesso da fantasia não foi unânime. Os umbandistas cariocas e as mães-de-santo mais tradicionais da Bahia ficaram indignados com a ousadia do babalorixá (pai-de-santo). Para eles, um sacerdote não podia se expor dessa forma, em pleno Carnaval. Joãozinho não ligou. "Serei eu, porventura, o primeiro Adão com o vestido da costela que apareceu no Rio de Janeiro?", respondeu, irônico. Ele não deixava de fazer o que queria por medo de cara feia. Era amigo da polêmica, do espetáculo, dos holotofes. No terreiro, no teatro, na imprensa, Joãozinho da Goméia era uma estrela. Foi com talento, sorte e inteligência que o jovem pai-de-santo baiano, nascido na cidade de Inhambupe, conseguiu vencer todos os preconceitos e se transformar no babalorixá mais famoso do país, durante as décadas de 1950 e 1960. Primeiro, ele se estabeleceu em Salvador, na Rua da Goméia, em São Caetano, de onde veio o apelido. Depois, fundou uma filial na cidade de Duque de Caxias. Lá, ganhou o apelido de "o rei do candomblé". Sua clientela incluía artistas, autoridades, pessoas da alta sociedade carioca. Dizem que até presidentes da República, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek estavam na sua lista de amigos e clientes. Além dos amigos poderosos, a personalidade forte de Joãozinho e seu talento para o espetáculo começaram a atrair as atenções da imprensa. Ele saiu diversas vezes na revista O Cruzeiro, a publicação mais importante da época. A fama trouxe prestígio e uma vasta clientela, que lotava seu terreiro. Ao mesmo tempo, porém, Joãozinho da Goméia colecionou desafetos. Sua maneira de agir, muitas vezes transgressora, batia de frente com os puristas das religiões afro-brasileiras, que exigiam um comportamento mais discreto do babalorixá. Além disso, pairavam dúvidas sobre sua iniciação no candomblé que, segundo alguns, não teria sido feita conforme a tradição. Mesmo com o estrondoso sucesso no Rio, Joãozinho não mantinha uma boa relação com as casas mais conhecidas de Salvador. Isso pode ser explicado, em parte, porque a maioria das casas baianas mais conhecidas é da nação jeje-nagô, enquanto Joãozinho era da nação Angola. Há uma certa rivalidade entre as duas correntes religiosas. Dos terreiros mais famosos de Salvador atualmente, apenas o do Bate Folha é da nação Angola. Mesmo os babalorixás (pais-de-santo) e ialorixás (mães-de-santo) que não simpatizavam com a sua figura, porém, têm hoje que reconhecer: Joãozinho da Goméia foi o grande responsável pela expansão do candomblé no Sudeste do país, a partir da década de 1950. Ele formou milhares de filhos-de-santo, que criaram novos terreiros em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essas casas de candomblé apresentam-se orgulhosamente, ainda hoje, como fazendo parte do "modelo Goméia", ou da "raiz Goméia". A verdadeira Goméia, porém, não existe mais. Depois da morte de Joãozinho, em 1971, tanto o terreiro baiano, no bairro de São Caetano, como o terreiro fluminense, de Duque de Caxias, foram extintos. Muitas pessoas saem de Inhambupe para fazer sucesso e outros lugares e até mesmo ficar famoso o que aconteceu com Joãozinho da Gomeia, e estão em vários canto do Brasil e do mundo, na proxima quarta feira Inhambupe irá fazer mas um ano.

Material tira do do site.http://br.geocities.com/umbandomble/entra/joaozinhodagomeia.html

 

Joãozinho da Goméia, o Tatá Londirá, o Rei do Candomblé de Caboclo.

João Alves de Torres Filho ou Joãozinho da Goméia - sacerdote do Candomblé de caboclo, nasceu em 27 de Março de 1914, na cidade de Inhambupe, a 153 quilômetros de Salvador, Bahia e morreu em 19 de Março de 1971 em São Paulo, durante uma cirurgia para retirada de um tumor cerebral. Existem muitas histórias sobre Joãozinho da Goméia, uma das versões existentes sobre sua iniciação religiosa foi narrada pelo escritor Rodrigo Rodrigues Fernandes: "De família católica, chegou a ser coroinha, mas por motivo de saúde, ainda menino João Alves Torres Filho foi iniciado para o mundo do candomblé na feitura de santo pelo Pai Severiano Manuel.
Com a morte de seu Pai-de Santo, "refez" o santo no terreiro do Gantois com Mãe Menininha, mudando da nação angola para ketu. Em 1924 aos 10 anos, o garoto já havia dado mostras de sua personalidade forte. Contra a vontade dos pais, deixou a casa da família para tentar a sorte na capital Salvador. Teve que se virar para sobreviver e foi trabalhar num armazém de secos e molhados, onde conheceu e foi apadrinhado por uma senhora que morava na Liberdade, e que ele considerava sua madrinha. Foi essa senhora quem teve a idéia de levá-lo ao terreiro de Severiano Manoel de Abreu, conhecido como Jubiabá (nome do seu caboclo). Joãozinho sofria de fortes dores de cabeça, que não eram explicadas, nem curadas pelos médicos. Também tinha sonhos com "um homem cheio de penas", que não o deixava dormir. Polêmicas Sempre existiu polêmica, em se tratando de Joãozinho da Goméia, para alguns estudiosos, o Jubiabá que o “iniciou” não é o mesmo da obra de Jorge Amado; para outros, João sequer foi “feito’ (iniciado). Porém, há filhos de Joãozinho que contam detalhes de sua feitura, como a Yalorixá Maria José dos Santos, de 92 anos, que declarou ao Correio da Bahia:
Eu duvido que, se ele fosse vivo, alguém tivesse coragem de questionar isso na frente dele. Em direção totalmente oposta vai a pesquisadora norte-americana Ruth Landes em seu livro A Cidade das Mulheres: "Há um simpático e jovem pai Congo, chamado João, que quase nada sabe e que ninguém leva a sério, nem mesmo as suas filhas-de-santo (...); mas é um excelente dançarino e tem certo encanto. Todos sabem que é homossexual, pois espicha os cabelos compridos e duros e isso é blasfemo. – Qual! Como se pode deixar que um ferro quente toque a cabeça onde habita um santo! " Outra polêmica levantada por Landes é que João “recebia” um caboclo. Os caboclos não são Orixás, mas espíritos encantados, originários das religiões indígenas, sem relação com a África. Esses candomblés de caboclo eram alvo do desprezo do povo-de-keto, zelosos de sua “pureza” africana porque, nessa época, havia um empenho por parte de influentes intelectuais comandados por Arthur Ramos e Edison Carneiro em firmar a idéia de que havia nos terreiros keto uma “pureza” com relação às raízes africanas. O certo é que João foi um homem não só adiante de seu tempo como também dono de um projeto particular de ascensão social e religiosa, buscando a diferença como dado de divulgação de si mesmo e sua "roça": negro que alisava os cabelos por vaidade, sem se preocupar com a polêmica de poder ou não colocar ferro quente na cabeça de um iniciado; homem que não se envergonhava de ser homossexual na homofóbica Bahia do início do século XX; pai-de-santo que afrontava os princípios de que homens não podiam “receber” o Orixá em público, tornando-se famoso pela sua dança; incorporava ao Candomblé a entidade indígena do Caboclo Pedra Preta; adepto de Angola, numa cidade dominada pela cultura jeje-nagô; babalorixá jovem, numa cultura dominada por ialorixás mais velhas o que, segundo seus filhos-de-santo, ativou o despeito das mães-de-santo tradicionais da Bahia. Também sua ascensão precoce era mal-vista no mundo do candomblé, onde a idade avançada é considerada um atributo importante para a escolha dos sacerdotes – e a própria Menininha do Gantois sofreu resistências por causa disso, quando assumiu a chefia do seu terreiro aos 26 anos de idade. Seu primeiro terreiro foi num bairro chamado Ladeira de Pedra, mas logo foi para o local que o tornou famoso, a ponto de incorporar o endereço ao próprio nome: Rua da Goméia. Lá, tocava indiferentemente angola e keto, o que contribuía – e muito – para aumentar o escândalo em torno de seu nome. Irreverência Em 1948, despediu-se de Salvador com uma festa no Teatro Jandaia, apresentando ao público pagante danças típicas do Candomblé, escândalo final para adeptos baianos, e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde abriu casa na Rua General Rondon, nº 360, bairro Copacabana,(Cossard, 1970 , p.285) em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Seu terreiro era feito com modestas instalações, no entanto aquele local na Baixada Fluminense, já estava ficando famoso pela grande quantidade de templos afro-brasileiros. Com sua vinda para o Rio de Janeiro, sua "roça" na Bahia, continuou aberto, ficando sob a responsabilidade da Mãe Samba, auxiliada por Alexandrina Santos, filha de santo de Joãozinho da Goméia.
Nesse endereço a lenda em torno de Joãozinho da Goméia só fez aumentar, atendia políticos, embaixadores, consules, o próprio Getulio Vargas e a sogra de Juscelino Kubitschek(Cossard, 1970, p.285), além de artistas como Ângela Maria, na época a “Rainha do Rádio”; tudo isso fez com que passasse a freqüentar a imprensa. O próprio João nunca revelou os nomes de seus filhos ou clientes; seus filhos-de-santo que espalharam essas notícias, orgulhosos do status da casa de seu pai. Costas quentes ou não, o caso é que Joãozinho nunca teve seu terreiro invadido pela polícia, nem jamais foi preso, ao contrário de Mãe Menininha, que tem registradas duas passagens pela polícia, acusada de “tocar candomblé”. Diz a lenda que Joãozinho até mesmo chegou a fazer despacho para Exu em plena Praça XV. O caso é que tornou-se o primeiro pai-de-santo realmente conhecido no Brasil. Para Lody, Joãozinho, ao chegar ao Rio, tornou-se um verdadeiro "promoter" do candomblé. Sabia do poder da imprensa e manteve relações com publicações importantes como a revista O Cruzeiro, deixando-se fotografar com os trajes dos Orixás. Joãozinho morou por algum tempo de aluguel em Bonsucesso, numa casa de sobrado, que era custeada por três filhos de santo seus, no local hoje encontra-se um estacionamento em frente ao Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM). De meados dos anos 50 até o começo dos 60, Joãozinho da Goméia, que havia muitos anos, transferira sua roça de Salvador para Caxias, no Rio de Janeiro, visitava constantemente São Paulo onde era amigo de influentes líderes umbandistas. Muitos dos primeiros personagens do Candomblé de São Paulo foram por ele iniciados ("feitos", na linguagem de santo). E feitos aqui em São Paulo, embora este primeiro começo tenha contado também com filhos de Joãozinho feitos na Goméia do Rio e na originária Goméia da Bahia. Linhagem e Legitimidade no Candomblé Paulista - Reginaldo Prandi Edison Carneiro praticamente projetou o nome de Joãozinho da Goméia, nos apontando para um fato interessante: a troca de favores, muito comum às casas de culto tradicionais baianas. Em troca de uma entrada fácil e uma conscientização clara das coisas do Candomblé, que interessariam ao jovem pesquisador aprender para que auxiliassem seu trabalho como jornalista e etnólogo, este deveria divulgar o "bom nome" de João da Goméia, tornando sua casa de culto conhecida entre os intelectuais, estrangeiros e o povo do santo. Uma curiosidade: Eram colados nas paredes dos mercadinhos de Nilópolis, Nova Iguaçu e Duque de Caxias papéis e cartazes onde se divulgava todo o calendário semanal do terreiro de Joãozinho, como por exemplo: Segunda-feira: dia de distribuições de sopas e agasalhos aos pobres, festa para Obaluaiê e Gira para Exus. Quinta-feira: dia de festa à Iansã, Oxossi e Ogum. Sexta e Sábado: Festas de confirmação de Iaôs e atendimento médico, sábado à tarde. A comunidade aparecia em peso, e mesmo os que não freqüentavam o Candomblé iam para ver as festas. Segundo a Mãe Criadeira da Goméia, Joãozinho possuía uma espécie de diário onde, listava os contribuintes de seu terreiro, dando à sua casa de culto a personificação de uma instituição. Grande parte daqueles que freqüentavam não eram filhos-de-santo, e sim pessoas que estavam naquele momento fascinadas pelo grande movimento de popularização do Candomblé na cidade do Rio de janeiro. A noção de pertencimento ao culto dos Orixás era visível no terreiro da Goméia, era uma espécie de associação mística ao campo religioso, em que os laços de associação do indivíduo, com a forma de culto se redefinia a cada divulgação das festas de Candomblé, tanto na imprensa carioca como nos mercados populares da Baixada Fluminense. Em 1956, João participou do carnaval vestido de mulher. O assunto rendeu uma polêmica terrível com outros babalorixás e chefes de terreiros da Umbanda. João defendeu-se através d’O Cruzeiro, reivindicando seu direito ao livre-arbítrio e declarando que jamais permitiria que qualquer outro pai ou mãe-de-santo se intrometesse em sua vida. Em 1966, outro momento repleto de contradições: João voltou à Bahia e deu “obrigação” com Mãe Menininha do Gantois. Segundo a Yalorixá Mãe Tolokê de Logunedé, "foi fazer a obrigação dele; tirar a mão de Vumbi e fazer bodas de prata. (...) Depois, ele fez a festa no Rio de Janeiro, para os filhos que não puderam ir à Bahia." Ainda segundo seus filhos, Joãozinho da Goméia não apenas fez sua obrigação com Mãe Menininha como foi o primeiro homem que ela permitiu que vestisse o Orixá e dançasse em público “virado” no santo. Para entender a importância desse ato (mesmo que apenas mais um aspecto da lenda) é preciso ler em Ruth Landes as restrições que Mãe Menininha fazia quanto à apresentação pública de homens em transe. Porém, é fato que, embora o próprio Joãozinho até o fim da vida continuasse tocando tanto angola quanto keto, a partir desse momento passou a insistir com seus filhos-de-santo para que seguissem uma orientação única, optando entre keto e angola. Joãozinho da Goméia morreu em São Paulo, dia 19 de março de 1971, no Hospital das Clínicas (Vila Clementino), durante uma cirurgia para retirada de um tumor cerebral, e após uma parada cardíaca. Joãozinho da Goméia morreu aos 56 anos, 40 dos quais dedicados ao Candomblé. Desencarnou no dia de São José, oito dias antes de completar 57 anos. Por estranha coincidência, no dia de sua morte sua roça em Duque de Caixas iria promover o Lorogun - uma das grandes cerimônias do Candomblé que significa o fechamento do terreiro para o período da Quaresma. Em dezembro ele pretendia promover uma grande festa para lansã, sua protetora. Oxalá, porém, decidiu que sua missão na Terra estava terminada. Foi sepultado no cemitério de Duque de Caxias, num dia em que uma chuva de proporções míticas caiu sobre o Rio de Janeiro, exatamente na hora em que seu ataúde baixava à sepultura. Para os adeptos, uma manifestação de Iansã recebendo seu filho, que culminou com muita gente “virando no santo” em pleno cemitério, a passagem foi relatada na revista O Cruzeiro. A Goméia do Rio foi vendida para uma incorporadora, que no local construiu um prédio. Os assentamentos de Joãozinho da Goméia foram transferidos para uma nova Goméia, em Franco da Rocha, São Paulo, onde os ibás de seu Oxossi e de sua Iansã estão sendo devidamente cuidados e “alimentados”, e podem ser visitados pelos adeptos que fazem parte da familia-de-santo.

Mãe Mirinha do Portão

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Filha de Sr. Nestor e D. Maria Lena, cresceu como toda criança carente da periferia e com 8 (oito) anos de idade foi morar com sua madrinha na cidade de Salvador com o objetivo de ajudar nas tarefas domésticas.Não demorou para que os chamados viessem para que a menina Mirinha fosse para a Religião do candomblé. Era pulando as janelas furtivamente que Mirinha assistia a algumas festas de Candomblé sem perceber que teria um futuro brilhante na Religião. Desta forma com a ajuda de sua irmã carnal Claudina (apelidada de Coló) que mesmo sem ser iniciada na religião tinha uma imensa fé no seu Nkisi Dandalundae mantinha alguns rituais em devoção a ela. Esta irmã levou Mirinha a casa do então jovem Pai de Santo João Alves Torres Filho, que viria a ser mais tarde o lendário Joãozinho da Goméia, cujo nome Goméia foi incorporado ao seu nome devido ao grande interesse popular em saber sobre o Pai de Santo e seus conhecimentos da Religião.

Mirinha é iniciada aos sete anos de idade, para o Nkisi Mutalombô e tem como segundo Nkisi Bambulusema, juntamente com mais 18 muzenzas. Na época foi de grande ousadia o feito de tirar, como se fala na linguagem do Candomblé, um barco de 19 muzenzas, mas Joãozinho da Goméia era assim (desafiador e polêmico), logo, desta forma nasceu para o Candomblé Congo/Angola da Bahia e do Brasil a Monankisi "Sessa Dya Umbula", sendo chamada pelos seus irmãos de santo por Sessetu, o nome de seu erê, sendo filha pequena deKilondirá chamada carinhosamente por Mirinha de Mãe Kiló.

Seguindo seu caminho dentro da Religião, Mirinha retorna para Portão e no dia 25 de dezembro de 1952 ela tira seu primeiro barco, composto por dois muzenzas: Antonio José da Conceição do Nkisi Kavungo e Maria Augusta do Nkisi Nkosi Mukumbi, nascia aí o Terreiro São Jorge Filho da Goméia e, tal como aconteceu com o seu Pai de Santo, o nome da localidade de Portão seria incorporado para sempre ao seu, agora chamada de Mirinha do Portão. No transcorrer de sua vida, Mirinha casa-se com Jarson da Costa Souza, funcionário da Prefeitura de Salvador, mais conhecido como Garrincha, que muito contribuiu para a elevação do nome de Mirinha de Portão nacional e internacionalmente. Muito trabalho social foi desenvolvido por Mirinha de Portão na localidade onde o Candomblé está implantado, tais como: Transportes Públicos, Hospitais, Postos de Saúde, Campanhas de Alimentação (distribuição de cestas básicas feitas por ela com a ajuda de alguns empresários), entre outras ações. Participou das filmagens cinematográficas da obra de seu dileto amigo Jorge AmadoOs Pastores da Noite e Tenda dos Milagres, dando visibilidade a comunidade de Portão Sua gratidão ao Nkisi Dandalunda era comovente as festas de Mutalambô aconteciam num sábado e no domingo acontecia o Presente de Dandalunda na Lagoa do Abaeté encerrando a festa. A primeira mãe pequena da Casa foi Nitinha de Oxum, hoje Ebômi do Ilê Axé Iya Nasso Oka - Terreiro da Casa Branca, em seguida Maria das Graças Neves neta e herdeira do Terreiro São Jorge Filho da Goméia iniciada para Dandalunda em 3 de julho de 1977, ocupou o posto de mãe pequena até a morte de Mirinha.

No dia 18 de fevereiro de 1989 o mundo amanheceu mais triste, faleceu Mirinha do Portão, após quatro anos de luta contra um linfoma. A perda de Mirinha do Portão deixou um enorme vazio na vida de todos que a conheceram, conviveram com ela e até mesmo na vida da Comunidade de Portão que certamente perdeu uma voz autêntica que dedicou sua vida a luta pela igualdade social e racial. Mas, pessoas como Mirinha do Portão são generosas em demasia para deixarem esta vida sem deixar os frutos daquilo que semeou a vida inteira. Existem alguns Terreiros remanescentes do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, como o Onzo Nguso Za Nkisi Dandalunda Ye Tempo -Terreiro Mokambo localizado na Rua C, Quadra 8, Lote 4 - Loteamento Vila Dois de Julho - Trobogy - Salvador-Bahia, que é dirigido porAnselmo Santos - Tata Dya Nkisi, filho de Mãe Mirinha. Onzo Tata Kavungo - Terreiro São Lázaro localizado na Rua Queira Deus n 66 - Portão - Lauro de Freitas-Bahia, que é dirigido por Valdete dos Santos - Mametu Dya Nkisi, filha de santo e sobrinha de Mãe Mirinha . Terreiro São Jorge Filho da Goméia, depois da ausência de Mirinha do Portão, por impossibilidade pessoal da herdeira Maria das Graças Neves (Gracinha de Dandalunda)retornou as suas atividades dirigido provisoriamente por sua sobrinha e filha de santo do Nkisi KavungoValdete dos Santos, iniciada em 18 de fevereiro de 1971, tomando a Dijína Tarainssumbu. Hoje Mãe Tunga como é chamada, chefia o Onzó Tata Kavungu. Com o afastamento de Valdete dos Santos e, novamente, por motivos pessoais da herdeira Maria das Graças Neves (Gracinha de Dandalunda) , está sendo dirigido pela irmã carnal de Gracinha, outra neta de Mãe Mirinha chamada Maria Lúcia Santana Neves, iniciada para o Nkisi Bambulusema em 27 de dezembro de 1986, tomando a Dijína de Kamurici. A Prefeitura de Lauro de Freitas prestou uma homenagem a Mirinha de Portão dando o seu nome a um Terminal Turístico que existe às margens do Rio Joanes, o mesmo rio onde Mirinha viveu as traquinagens de infância e onde as águas de Dandalunda lhe serviram de companhia durante toda a vida. No dia 15 de abril de 2004 o Terreiro São Jorge Filhos da Goméia foi tombado como Patrimônio Cultural do estado da Bahia, através doIPAC - Instituto do Patrimônio Artístico e Cultoral do estado da Bahia, fruto do árduo trabalho de Mirinha desenvolvido durante anos.

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