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ASTROLOGIA, UMA CIÊNCIA MILENAR
ASTROLOGIA, UMA CIÊNCIA MILENAR

ASTROLOGIA, UMA CIÊNCIA MILENAR A SERVIÇO DO CONHECIMENTO HUMANO

 

A percepção intuitiva da existência de uma consciência cósmica e de padrões mais amplos de influência sobre as realidades e consciências individuais, aliás, é o que fez o ser humano desde sempre se sentir participante de uma ordem maior do que a percebida nos seus domínios imediatos.

Observando, catalogando, analisando e registrando milhares de vezes a ocorrência encadeada de fenômenos naturais e descobrindo, assim, uma intrincada ligação entre estes fenômenos e os acontecimentos banais ou fundamentais de sua vida, o ser humano sempre reverenciou respeitosamente a força dos elementos e a seqüência dos eventos como indícios (ou causas) do que se passava ou estava por lhe acontecer.

 

Percebeu que no maturar lento e gradual, momento a momento, ciclo a ciclo, das etapas da criação e de suas espécies vivas, parece residir um plano misterioso que se desdobra: cada semente aponta o próximo fruto, em cujo interior estarão depositados os detalhes da semente seguinte. Pré-definindo, assim, as condições dentro das quais a vida, em cada uma de suas múltiplas manifestações, se dará no futuro breve, mediato e longínquo; e determinando, através das tendências de cada momento, o provável processo de desdobramento de cada potencial em realidade.

 

Tendências, esta a chave do futuro, disponível no presente!

 

Tendências, a informação fundamental para qualquer entendimento mais amplo da realidade e mesmo sua previsão!

 

DESDE OS PRIMÓRDIOS DA CIVILIZAÇÃO... 

 

Em todas as épocas o ser humano buscou em seu entorno sinais indicadores do presente ainda desconhecido e do futuro a se manifestar, tentando descobrir as tendências de cada situação; mais ainda, durante toda a sua história o ser humano tentou participar diretamente do curso dos acontecimentos, buscando influir diretamente em sua ocorrência.

Pinturas rupestres em cavernas pré-históricas sugerem tentativas de facilitar ações de caça e guerra antes mesmo das presas ou rivais terem sido avistados; rituais milenares preservados até hoje nas ilhas do Pacífico Sul e em regiões centrais da África apontam a intenção de influenciar o curso dos acontecimentos naturais e humanos; registros inscritos ou esculpidos em construções megalíticas como as ruínas das civilizações babilônica, egípcia, asteca, pré-incaica e mongólica comprovam a busca de alternativas para superar a fragilidade assustadora frente a qualquer imprevisto ameaçador; complexos sistemas preditivos foram concebidos e desenvolvidos por povos das mais distintas culturas e origens, sempre buscando antecipar-se aos eventos e proteger-se de inconvenientes.

 

As práticas divinatórias — de "serviço aos deuses", visando obter seus favores — assumiram todas as formas possíveis, dependendo da cultura que as produzia: sementes, pedras, folhas, animais, objetos, substâncias químicas, instrumentos musicais e de percussão, cantos, hinos e cantochões, fumaças e fumigações, peças de artesanato, obras de arte e até mesmo excrementos podiam ser utilizados, desde que realizassem a ponte esperada entre o sagrado e o profano, isto é, "persuadissem" os deuses a informar ao ser humano quais ocorrências estavam se abatendo sobre ele ou estavam por se verificar.

 

Para tanto, a humanidade sacralizou gatos, escaravelhos, peixes e serpentes, utilizou sementes, inscreveu caracteres, criou objetos de madeira, metal, cerâmica ou vidro, desenvolveu artefatos têxteis, queimou ervas aromáticas, venerou pedras esculpidas, folhas ou vísceras e até mesmo concebeu intricadas práticas ritualísticas, combinando dança, música e cantos, para seduzir e perscrutar os deuses, deles tentando obter informação, a sempre preciosa informação sobre a realidade concreta.

 

Basta lembrar que o herói grego Prometeu nunca foi perdoado pelos deuses do Olimpo, após sua tentativa (bem sucedida) de roubar o fogo dos céus e distribuí-lo entre os homens, ampliando-lhes a consciência e aumentando-lhes o poder sobre o futuro!

 

Porque sempre se tratou de obter informação, informação que ampliasse o conhecimento humano e aumentasse sua possibilidade de sobrevivência e de construção de felicidade para si e para os seus.

 

Com a leitura de folhas de coca, como nas práticas andinas desde tempos pré-incaicos; através do jogo de varetas ou de moedas, como no milenar I Ching chinês; jogando pedrinhas cobertas de inscrições, como nas runas célticas; analisando demoradamente a simbologia de cartas, como no medieval Tarot de Marseille; ou apenas observando as estrelas e registrando o cadenciado movimento dos astros no firmamento, como na astrologia, o ser humano buscou sempre encontrar condições para sobreviver e se organizar em meio ao aparente caos da realidade.

A IMPORTÂNCIA DOS SÍMBOLOS MÁGICOS

Mas de todos os recursos "mágicos" criados pela humanidade, a astrologia sempre foi o mais encontradiço: todas as culturas, independente de sua localização geográfica, condições climáticas e grau de desenvolvimento comercial, agrícola ou artesanal, tiveram algum nível de prática astrológica.

Por uma simples razão: como diz o ditado popular, o sol nasce para todos!

 

Isto é: em todas as latitudes e longitudes e em todas as épocas o ser humano teve sobre si o céu e os astros, em sua inexorável mas ritmada mutação; gradativamente, no suceder de incontáveis gerações, nexos de "coincidência" foram observados e registrados, permitindo o acúmulo de informações sobre padrões que tendiam a se repetir, independentemente das condições que parecessem predominar.

 

A cada vez que um certo astro, planeta ou estrela, executava um movimento nos céus, determinada ocorrência era observada na Terra; a cada vez que uma certa combinação de astros "lá" se dava, determinada sucessão de acontecimentos "aqui" se produzia.

 

Sempre fazendo supor a existência de algum nível de "ligação" entre os corpos celestes — "com toda certeza divinos!" — e os acontecimentos mais vitais ou comezinhos do ser humano e de sua vida.

 

Fragmentos de tábuas de barro cozido encontrados no que hoje corresponde ao Oriente Médio indicam que sumérios, hititas, caldeus e babilônios já praticavam a "leitura" dos astros e ousavam interpretar o significado de seus movimentos há pelo menos vinte milênios; calendários em pedra polida encontrados pelos conquistadores espanhóis na costa pacífica da América do Sul e nas regiões da América Central apontam ocorrência semelhante; registros milenares em sânscrito atestam que a prática da astrologia já era desenvolvida nas primeiras civilizações do sub-continente hindu; e tradições até hoje mantidas pelo sufismo árabe (o misticismo islâmico) ou pela kaballah hebraica não fazem outra coisa senão sinalizar a mesma realidade.

 

Todavia, para todos estes povos — e até mesmo para o pensamento europeu da Idade Média, berço da cultura ocidental — tratava-se, todo o tempo, apenas de saber com antecipação o que já se supunha predestinado a acontecer. Nada mais havia a fazer senão vergar-se à impiedosa força do destino, que em seu movimento supostamente circular obrigava todos os seres a acontecimentos independentes de suas vontades individuais.

 

Muitos dos antropólogos que se detiveram a estudar manifestações humanas como a magia e a religião ensinam que o que distingue uma da outra é a suposição central da magia no sentido de se poder interferir ativamente na realidade, ao passo que a religião se caracteriza por uma atitude contemplativa frente a uma realidade tida como imutável.

 

(Neste sentido, em termos históricos, a Ciência é "filha" da magia, e não da religião, pois a busca incessante de conhecimentos, atributo central da atitude científica, nada mais visa senão aumentar a capacidade humana de interferir no real! E não para outra coisa é que tantos sistemas de conhecimento divinatório, também chamados de Ciências Arcanas — do latim arcanu, "mistério" —, foram também desenvolvidos...)

 

Mas o que poderia o ser humano de priscas eras supor, senão o fato de que os movimentos celestes provocavam os acontecimentos terrestres e humanos? Afinal, neles não viviam deuses?

 

Poderiam nossos antepassados crer em outra coisa senão em uma suposta força causal possuída pelos movimentos celestes? Num mundo pré-científico, no qual nada se sabia de eletromagnetismo, "buracos negros", força nuclear forte ou fraca, partículas subatômicas, fusão nuclear ou mesmo Física, Química e Psicologia, poderiam os homens e mulheres daquelas épocas conceber outra possibilidade que não a da predestinação e da influência direta dos astros sobre o destino de cada ser vivo?

 

E não estou falando apenas de homens que viviam na barbárie ou em estágios um pouco mais elevados de civilizações já existentes: o astrólogo Jean Baptiste Morin de Villefranche (1583-1656), que serviu ao Cardeal de Richelieu e a toda a corte de Paris no Século XVII, a Cidade-Luz, editou uma extensa obra (L'Astrologie gauloise) cujo título principal era Teoria da determinação ativa dos corpos celestes, o que não deixa dúvidas sobre a suposição até então predominante.

 

Mesmo a astrologia que se praticou na Europa a partir do Século XIX foi fortemente marcada por estas noções deterministas: influenciadas pela produção teórica de Helena Petrovna Blavatsky, fundadora e líder do movimento político-espiritualista da Teosofia, e pelas noções reencarnatórias que o pensamento hinduísta desenvolvera no correr de séculos no sub-continente indiano, Alice Bayley e Annie Besant desenvolveram uma astrologia fortemente alicerçada na idéia de que tudo o que ocorria na vida de uma pessoa era sempre "carma" do passado sendo cumprido nesta vida, num infindável "acerto cósmico de contas".

Esta mesma veia reencarnacionista se espraiou pelo trabalho de astrólogos adeptos do Espiritismo, movimento espiritualista com colorações próprias desenvolvido a partir do trabalho de Allan Kardec, pseudônimo do francês Hippolyte Leon Denizard Rivail, que em 1856 publicara O livro dos espíritos e dera início a este movimento.

 

Assim, pouco restava a fazer além de conviver com um fatalismo imobilista: num primeiro momento, as condições humanas foram vistas como meras decorrências da vontade de deuses encarnados nos astros, os quais deveriam ser aplacados em sua ira ou satisfeitos em seus desejos; num momento seguinte, estas mesmas condições passaram a ser vistas como nada mais senão etapas de um longo trabalho multissecular de purgação, alma a alma, de "más ações" algum dia praticadas.

 

Pior ainda: ainda hoje, em pleno final do segundo milênio, ainda há quem afirme que os planetas "atuam energeticamente" sobre a ocorrência dos fatos e o desenrolar dos processos, misturando noções da Física apreendidas superficialmente com superstições de um passado já distante. Sem sequer cogitar sobre o fato de que os "planetas" utilizados pela astrologia em sua busca de conhecimentos correspondem apenas a recursos simbólicos, meramente simbólicos, transitando por pontos imaginários do espaço, tais pessoas continuam se supondo à mercê de forças maiores do que elas e situadas fora de si mesmas, contra as quais nada se pode fazer...

 

Como, então, devolver ao ser humano a possibilidade de crer que pode interferir ativamente em seu próprio destino e nas condições de vida que ele mesmo vem produzindo, em suas escolhas, ações e atitudes?

 

O SURGIMENTO DA ASTROLOGIA HUMANISTA

 

Por volta do ano de 1930 a resposta começou a ser dada, através do trabalho pioneiro do pintor, escritor, músico e astrólogo parisiense (mas radicado norte-americano) Dane Rudhyar.

Profundamente influenciado pela produção teórica da Psicologia dos começos deste século, a qual pela primeira vez na cultura ocidental hipotetizava a existência de camadas inconscientes na psique humana e demonstrava que tais camadas eram as verdadeiras determinantes da conduta individual (como vimos no capítulo anterior), Rudhyar lançou em 1936 seu livro A astrologia da personalidade e nele propôs o que chamou de Astrologia humanista ou astrologia centrada na pessoa, contrapondo-se ao que era, até então, astrologia centrada nos eventos.

 

(É ele mesmo quem nos relata, em seu livro Da Astrologia humanista à astrologia Transpessoal, de 1982, três anos antes de seu falecimento: "só me familiarizei completamente com as idéias de Jung no verão de 1933, enquanto estava no rancho da sra. Garland, no Novo México, onde li todas as suas obras então traduzidas. Imediatamente me ocorreu que poderia desenvolver uma série de conexões entre os conceitos de Jung e um tipo reformulado de astrologia".)

 

Ora, cogitava ele nos idos dos '30, se as ações de uma pessoa atendem sempre a necessidades profundas sentidas por ela e originárias de seu próprio inconsciente, mesmo que tais necessidades a venham obrigando a fazer "escolhas" ou a praticar ações que a infelicitem, a astrologia deveria ser utilizada para facilitar a descoberta destas necessidades profundas, devolvendo ao indivíduo as condições necessárias para realizar escolhas conscientes mais adequadas entre as múltiplas alternativas de cada momento.

 

Em outras palavras, a astrologia deveria servir como recurso para devolver ao ser humano a possibilidade de exercer seu livre arbítrio a partir do entendimento de quais conteúdos inconscientes efetivamente dirigem o seu comportamento a cada momento e por toda a vida!

 

Se até então o foco de atenção da astrologia se voltava aos eventos que ocorriam na vida de uma pessoa de modo aparentemente independente de sua vontade, como se havia acreditado desde sempre, apenas o entendimento da existência de desejos inconscientes como origem de tais eventos poderia inverter o foco tradicional de interesse da astrologia e servir de instrumento realmente útil na detecção e desmobilização destes desejos.

 

Desejos?, perguntaria alguém, ao pensar em "desejo de ser infeliz", "desejo de morrer", "desejo de fracassar" e assim por diante. Sim, desejos!, não de ser infeliz, fracassar ou até mesmo morrer, mas desejos de outro tipo que, ao se manifestarem, provocam atitudes ou escolhas que levam à infelicidade, ao fracasso ou até à morte!

Rudhyar já sabia, pois a Psicologia o comprovara, que quanto mais inconsciente for um certo conteúdo psíquico, mais compulsiva será sua eventual manifestação externa; afinal, se compete ao ego coordenar as ações necessárias para a satisfação do conjunto das necessidades de uma pessoa a cada instante de sua vida, um conteúdo inconsciente que escape ao controle do ego pode se manifestar de modo não integrado com os outros conteúdos da consciência (julgamentos, deduções, dados de memória, novas informações etc.) e assumir manifestação independente, muitas vezes até mesmo determinando o conjunto global de comportamentos da pessoa.

 

Estes movimentos autônomos da psique, como os denomina a Psicologia contemporânea, são conhecidos popularmente como "aquele impulso que me veio de dentro e me levou a fazer o que eu fiz, mesmo não querendo!".

 

Sempre a serviço de desejos inconscientes retidos na memória desde a infância, como veremos no correr deste livro, os quais podem ser diagnosticados pela astrologia e trabalhados clinicamente.

 

O DESENVOLVIMENTO DA ASTROLOGIA CLÍNICA

 

O trabalho de Dane Rudhyar foi inovador e representou uma guinada de 180 graus no pensamento astrológico ocidental contemporâneo; neste sentido, assim como havíamos tido no correr da história filósofos que produziram teoria psicológica, sempre dentro de seu momento histórico e a partir dos conhecimentos de sua época, Dane Rudhyar construiu uma nova abordagem filosófica da astrologia a partir dos conhecimentos psicológicos de seu momento histórico, dando-lhe uma dimensão até então inexistente.

A partir daquele instante a astrologia passava a possuir um modelo teórico central em torno do qual organizar todas as informações que enriquecessem sua possibilidade de dar ao homem explicações coerentes sobre si mesmo: o conjunto simbólico registrado numa carta astrológica natal indica a estrutura e a dinâmica básicas do sistema ao qual esta carta se refere e, portanto, aponta suas principais tendências.

 

Então, pôde-se deixar de supor que os "planetas" ali indicados causavam o que estava prognosticado para a existência daquele sistema (seja pessoa, empresa, país etc.), pois, ao contrário, apenas indicam as tendências do que ocorreria com aquele sistema em função de sua estrutura e de sua dinâmica próprias.

 

Conseqüentemente — e no que diz respeito a um indivíduo, âmbito exclusivo de preocupação da Astrologia Clínica —, se fosse alterada a estrutura ou a dinâmica do sistema inconsciente de uma pessoa, seriam também alteradas as tendências daquele sistema pessoal e suas formas de comportamento, sempre a partir do confronto com os dados inequívocos de sua realidade humana (pessoal, familiar e social) e da opção responsável pelas várias atitudes de que é capaz.

 

Com isto, abalava-se o imobilismo e o fatalismo que por tantos séculos imperara na astrologia ocidental, abrindo a possibilidade de o ser humano, ao ter conhecimento consciente da estrutura e da dinâmica de seu próprio psiquismo, através da carta astrológica natal, interferir produtivamente em sua realidade interna inconsciente, a principal determinante de seu comportamento.

 

Muitos passaram a ser, então, os bioquímicos, neurologistas, psicólogos, psiquiatras e profissionais de outras áreas que colaboraram com o desenvolvimento da moderna Astrologia Clínica, cada vez mais voltada ao diagnóstico e à compreensão das razões internas do comportamento de uma pessoa e menos voltada a simplesmente apontar os tipos de acontecimentos que esta pessoa viveria em determinados momentos de sua vida.

 

Alexander Ruperti, André Barbault, Betty Lundsted, Geoffrey Dean, Gregory Szanto, Jeff Mayo, Howard Sasportas, Karen Hamaker-Zondag, Liz Greene, Michel Gauquelin, Noel Til, Robert C. Jansky, Robert Hand e Stephen Arroyo foram alguns dos matemáticos, psicólogos, bioquímicos, pedagogos e médicos que vieram enriquecendo esta nova possibilidade do pensamento astrológico, desde Dane Rudhyar.

 

Com isto, até o trabalho de astrólogos tradicionais, como Alan Leo e Charles Carter, entre muitos outros, pôde ser retomado e enriquecido, agora sob novas luzes.

 

O TRABALHO EM CONSULTÓRIOS

 

Com uma sensível vantagem, fruto da ciência do Século XX: agora, as noções tradicionais — e principalmente as novas descobertas da astrologia — podiam ser checadas em consultório ou laboratório, para aferição de veracidade e ajuste de procedimentos, visando a seu constante aperfeiçoamento.

Afinal, se uma teoria não se ajusta à realidade, é a teoria que deve ser alterada, pois com certeza ela apresenta distorções conceituais, falsas premissas ou inverdades.

Assim, por exemplo, velhos axiomas astrológicos sobre a relação entre os símbolos astrológicos e certas funções corporais ou perfis de personalidade puderam passar a ser minuciosamente submetidos à verificação; para tanto, bioquímicos como Robert C. Jansky foram aos microscópios e tubos de ensaio e verificaram a veracidade daquelas suposições. Ao mesmo tempo, outros axiomas astrológicos prognosticavam disfunções orgânicas (de fundo emocional) em certos casos; psicólogos como Liz Greene ou Howard Sasportas e matemáticos estatísticos como Stephen Arroyo ou Robert Hand puderam verificar em consultório ou através de métodos psicométricos, apoiados na moderna informática, a veracidade daquelas afirmações.

 

Em outros casos, o tratamento de distúrbios emocionais ou mesmo orgânicos mostrou sensível ganho de eficiência com a utilização da astrologia como técnica auxiliar de diagnóstico, como o próprio Jung relata em alguns de seus ensaios.

 

E pouco a pouco se comprovou a extrema utilidade da ferramenta astrológica no diagnóstico das condições internas que determinam certas tendências pessoais, sejam elas comportamentais e de base psicoemocional, sejam elas somáticas e de base orgânica; boa parte de tais conquistas se deve a atividades em outras áreas de pesquisa científica, como Genética, Endocrinologia, Fisiologia Celular, Neurobioquímica, Psicobioquímica e demais áreas de estudo, que vieram enriquecendo sobremaneira o patrimônio de informações clínicas da moderna astrologia.

 

Agora, contando com instrumental poderoso de investigação, estudo, análise e registro de dados, inexistente anos atrás: computadores de avançada geração, moderníssimos laboratórios de exames, consultórios de atendimento médico ou psicológico, técnicas diagnósticas muito sofisticadas e fácil disseminação ou intercâmbio de informações entre cientistas de diferentes países, para consolidação de conhecimentos.

 

Para que a astrologia gradativamente ofereça mais e mais recursos de informação à ciência, atuando como vigorosa ferramenta de ampliação da possibilidade humana de interferir produtivamente em si mesma e na realidade que a cerca.

 

ASTROLOGIA E PSICOLOGIA, UM FELIZ E NATURAL CASAMENTO

 

Porque, em última instância, o que se passa no inconsciente de alguém determina sempre como esta pessoa lidará consigo mesma e com as situações de vida nas quais estiver envolvida ou em relação às quais estiver disposta a se envolver.

Esta noção, somente tornada possível após o surgimento do estudo sistemático da realidade emocional, dentro da Psicologia, inverteu radicalmente a visão que até então se tinha do ser humano e de suas manifestações de vontade, colocando em questão o que se pode chamar de determinismo e de livre arbítrio.

 

Com a constatação definitiva de haver instâncias inconscientes que determinam o comportamento, de base emocional e em geral mais poderosas do que as "escolhas", "conclusões" ou "decisões" praticadas conscientemente, evidenciou-se a necessidade de desvendar e interferir no cenário inconsciente para devolver a cada indivíduo uma autonomia maior sobre as próprias ações — muitas delas motivadas por paixões, medos, raivas ou ressentimentos, mesmo quando a pessoa se diz estar isenta de tais emoções ou sentimentos ao tomar decisões.

 

Mas como saber exatamente o que se passa no inconsciente de alguém, se a própria pessoa o desconhece?

 

Se, em outras palavras, o conteúdo inconsciente é inconsciente para ela mesma?

 

E mais ainda: como definir o que é uma tendência natural ou um comportamento condicionado?

 

O que determina e o que, por outro lado, afirma o livre arbítrio?

 

VONTADE, ESTA CARACTERÍSTICA HUMANA

 

Ora, o que diferencia o ser humano de outras espécies terrestres é, acima de tudo, a possibilidade que ele tem de direcionar sua vontade pessoal.

Em outras palavras, a possibilidade de estabelecer para si mesmo um objetivo, reunir os elementos necessários para atingi-lo, mobilizar-se neste sentido e, todo o tempo, checar para ver se os resultados obtidos passo a passo não o estão na verdade distanciando do objetivo almejado.

Assim, "vontade" é igual a "desejo existente + objetivo visado + recursos necessários para o atingimento + direcionamento de ações + avaliação de resultados".

Colocado assim, parece fácil e simples; entretanto, observado mais de perto, vê-se que tal traço distintivo da espécie humana requer um nível de especialização de funções altamente sofisticado, que foi desenvolvido com o passar de muitos milênios e de inúmeras espécies vivas!

 

Requer perceber um desejo, assumir este desejo, definir qual objetivo o satisfaz, avaliar a situação, reunir as condições necessárias para atingi-lo, colocar em ação toda uma série encadeada de esforços, avaliar constantemente o que está sendo obtido e, sempre que preciso, alterar o sentido inicial ou a intensidade de cada ação, "corrigindo a rota" rumo ao alvo.

 

Entretanto, todos nós temos desejos conscientes e inconscientes ao mesmo tempo, muitas vezes contraditórios e por vezes até mesmo irreconciliáveis: sabe quando você diz que está com uma determinada "vontade" mas se pega fazendo exatamente o contrário?

 

Pois é, é disto que estou falando...

 

E aí, como falar de vontade?

 

Melhor colocando, de qual vontade falar, na verdade?

 

Por séculos o ser humano discutiu esta questão; os filósofos gregos escreveram tratados e mais tratados sobre o assunto, inúmeros foram os escritores europeus dos Séculos XVII, XVIII e XIX que teorizaram a respeito, religiões inteiras se estruturaram com base neste tema e até há bem pouco tempo se acreditava que "basta querer para conseguir".

 

Mas a prática mostra que não é bem assim!

 

AS DIFERENTES VONTADES INTERNAS

 

Porque de nada adianta desejar alguma coisa conscientemente se inconscientemente se quer o contrário: mais forte que o desejo consciente, já que está fora da consciência e é, assim, autônomo, o desejo inconsciente se intromete, toma conta, obriga a ação e se impõe.

Com certeza, você já ouviu a frase "querer é poder!".

 

Pois é, este ideal voluntarista, que predominou por muitos séculos no pensamento ocidental, faz todo mundo acreditar que quem não consegue o que quer (pouco importa o que seja) não quis o suficiente ou estava enganado ao dizer que o queria.

 

Até que Freud e os primeiros psicólogos, desde os fins do século passado, demonstraram que sob o nível da vontade consciente residem instâncias psíquicas inconscientes com força suficiente para inverter o rumo das coisas sem que a própria pessoa o perceba; são os desejos inconscientes, atuando como vontade interior e "roubando" da vontade consciente o papel de principal definidora das formas de comportamento do indivíduo, independente de seu nível social ou cultural, faixa etária e sexo.

 

E se a psicologia freudiana demonstrou que mais poderoso do que o consciente é o inconsciente pessoal, a psicologia junguiana foi mais fundo e comprovou que sob o inconsciente pessoal quem domina mesmo é o inconsciente coletivo, uma somatória de conteúdos inconscientes que fazem parte da espécie humana e estão presentes em todo indivíduo!

 

Então, o ser humano pôde entender que é "duplamente determinado", muitas vezes até mesmo contra seus desejos conscientes: mais superficialmente por seu inconsciente pessoal; mais profundamente ainda, por seu inconsciente coletivo.

 

Um outro pesquisador da primeira metade deste Século, todavia, o geneticista húngaro Lipot Szondi , verificou a existência de uma "camada" intermediária no inconsciente humano, entre o pessoal e o coletivo, derivada de material genético transmitido familiarmente e compondo o que ele chamou de "inconsciente familiar".

 

Szondi comprovou, após mais de trinta anos de estudos em laboratórios de pesquisa genética, que existe a transmissão, de pais para filhos, de "memórias emocionais" derivadas de problemas fundamentais não resolvidos; segundo ele, todas as pessoas são também impelidas por conteúdos inconscientes resultantes de conflitos emocionais algum dia vividos por seus antepassados e não inteiramente resolvidos até o momento, razão pela qual foram transmitidos para as gerações futuras: assim, submetidas a "pulsões ancestrais" que atuam inconscientemente, as pessoas "buscariam" determinados tipos de experiência de vida para tentar resolver certos tipos de conflitos emocionais que seus ancestrais não puderam ou não conseguiram resolver na própria vida.

 

Como falar, então, de "vontade pessoal", se foi-se comprovando que toda pessoa atua sempre motivada por conteúdos psíquicos situados em quatro níveis simultâneos, três deles inconscientes (pessoal, familiar e coletivo) e apenas um consciente (a vontade racional)?

 

(Para quem estranhe a afirmativa da existência de "genes de memória", dois exemplos: quem já não ouviu falar do netinho que possui "manias idênticas" às do avô, por exemplo, sendo que este já estava morto quando o garotinho nasceu? E quem estranha que um músico tenha filhos ou netos também músicos, "passando adiante" o seu dom?)

 

Como falar com mais segurança, então, sobre o tipo de desejo que move uma pessoa?

 

Qual objetivo ela terá, afinal, se provavelmente nem ela conhece a totalidade de suas razões inconscientes, sempre determinantes de seu comportamento individual?

 

Sinceramente você conhece alguma mulher que queira conscientemente só encontrar homens que sejam brutos no trato com ela? Na verdade você conhece algum homem que só deseje não dar certo no emprego?

 

O que, então, faz com que aquela mulher termine apenas com homens agressivos e que este homem só encontre serviços nos quais não se adapta bem ou não se sente feliz?

 

Certamente desejos inconscientes, como a Psicologia moderna bem o sabe, que encaminham a ambos para escolhas bem distintas das que acreditam fazer!

 

A IDENTIFICAÇÃO DOS DESEJOS INCONSCIENTES

 

Exatamente para isto, seguindo de perto a Psicologia contemporânea, a astrologia tem muito a oferecer ao ser humano: a análise clínica de uma carta astrológica natal oferece a possibilidade de se descrever em detalhes a estrutura e a dinâmica de um inconsciente humano e, portanto, identificar quais desejos e inclinações inconscientes ali habitam e quais deles (ou com qual intensidade) são conflitantes com os desejos e inclinações conscientes da pessoa.

Em outras palavras: definir quais motivações básicas residem em um inconsciente, vigorosas a ponto de poder interferir no comportamento de uma pessoa e até mesmo fazê-la se comportar contra a própria vontade consciente.

 

Podendo ser utilizada como instrumento de diagnóstico (do grego dia, "através de", e gnosis, "conhecimento") da personalidade global de uma pessoa em qualquer época e independente de sua idade, sexo ou nível cultural, a Astrologia Clínica permite não só a realização de diagnósticos de personalidade — através da interpretação de cartas astrológicas natais —, para definição de características pessoais, potenciais existentes e bloqueios emocionais instalados, como também uma profunda compreensão do que realmente motiva uma pessoa em seus relacionamentos, sejam eles familiares, afetivos, sociais e mesmo profissionais ou societários — através de recursos especializados como as sinastrias e as análises de mapas compostos (que veremos adiante em detalhes).

 

Mas a Astrologia Clínica oferece outro grande recurso de compreensão do que ocorre na vida de uma pessoa: a possibilidade de definir previamente, muitas vezes com meses ou até com anos de antecedência, como estará o seu psiquismo se comportando e o que a estará mobilizando em determinada época de sua vida.

 

Este trabalho, mais popularmente conhecido como "previsões", recebe o nome técnico genérico de progressões e pode ser efetuado de diferentes formas ou com o concurso de diferentes técnicas, dependendo da metodologia empregada pelo astrólogo profissional que o realiza ("progressões diretas", "trânsitos", "revoluções solares ou lunares", "progressões por arcos reversos" etc.).

 

Para sua melhor compreensão, vejamos uma a uma estas alternativas de diagnóstico e aconselhamento astrológico clínico.

 

PROGRESSÕES ASTROLÓGICAS: O FUTURO NO PRESENTE

 

Quanto à interpretação de cartas astrológicas natais, veremos este tópico ao fim deste capítulo, já que este será o assunto principal de todo o restante do livro e então o abordarei em detalhes; entretanto, para compreender o que sejam as progressões, é necessário retomar alguns dos conceitos básicos discutidos até aqui.

Vistas superficialmente, as progressões parecem apenas exercícios de "adivinhação" ou futurologia sobre a vida de alguém, numa tentativa de prognosticar o que lhe estará acontecendo em determinada época e permitindo-o se prevenir contra eventuais infortúnios — ou, se for o caso, preparar-se para aproveitar ao máximo a "sorte" futura!

 

Um misto de astrologia de almanaque e cartomancia barata...

Uma observação mais aprofundada, porém, apontará o fato de que por trás de cada acontecimento da vida de uma pessoa reside o misterioso fato de que o seu inconsciente, de um modo ou de outro, "colabora": a pessoa atrai ou é atraída pelo evento, numa "teia mágica" (apenas porque mal entendida) de causas e efeitos. A sabedoria popular sabe disto à exaustão, e nos ensina com afirmações do tipo "ele procurou o azar", "ele construiu o destino com as próprias mãos" e "no fundo, no fundo, era isto o que ele queria...".

 

O que as progressões apontam, então? Com a análise de uma Carta natal astrológica e a identificação da dinâmica básica do inconsciente daquela certa pessoa, e a partir da verificação de como a sua Carta natal se combinará com as cartas de instantes futuros no correr do tempo (através do contínuo movimento dos planetas nos céus), o astrólogo profissional é capaz de prognosticar quais conteúdos inconscientes estarão mais ou menos ativados num certo período da vida da pessoa e, portanto, quais eventos ela estará mais fortemente inclinada a viver naquele mesmo período, já que tais tipos de acontecimentos permitirão que aqueles conteúdos inconscientes sejam manifestados.

 

Por exemplo, imagine que a carta astrológica natal de alguém indique a existência de muita raiva inconsciente, originária de certos processos vividos por esta pessoa na infância e nunca melhor resolvidos; quando o astrólogo "progride" a Carta natal e percebe que os conteúdos inconscientes ligados a esta raiva estarão mais emergentes num determinado período, ele poderá interpretar esta "progressão" sinalizando à pessoa a necessidade de mais atenção consigo mesma naquela época específica, enquanto a tal raiva não for melhor trabalhada, pois ela estará mais violenta ou irritadiça, propensa a brigas ou discussões sem razão aparente e inclinada a se envolver com situações de conflito ou até mesmo a provocá-las. Superficialmente, a pessoa estará "sujeita" a certos tipos de ocorrência, mas na verdade ela as estará buscando como pretexto para descarregar a tensão que a agressividade interna não resolvida produz!

 

Sabe aquela estória do "parecia que estava querendo caso..."?

 

Ou, em outro exemplo, suponha que uma carta astrológica natal indique que em certa época a pessoa estará mais facilmente iludida sobre a natureza real de seus sentimentos, pela vigorosa emergência de conflitos afetivos inconscientes; o astrólogo profissional aconselhará seu cliente no sentido de não tomar decisões afetivas drásticas naquele determinado intervalo de tempo (casar-se, se separar ou ter filhos, por exemplos), pois passado aquele momento o que parecia decisão racional poderá se mostrar apenas confusão emocional ou necessidade de suprir velhas carências nunca satisfeitas.

 

E, num exemplo ainda mais trágico, suponhamos que a análise clínica de outra carta astrológica natal indica que em certo momento da vida de uma pessoa uma determinada estrutura inconsciente que a predisponha ao consumo de bebidas ou drogas, associada a uma forte inclinação a depressões profundas, em função de episódios de infância ou em decorrência de herança familiar, estará mais ativado; de posse destas informações, e numa delicada linguagem acessível ao cliente, o astrólogo profissional sugerirá (eventualmente até mesmo enfatizará, em casos extremos como este,) a muito grande necessidade de a pessoa se manter afastada, ao menos naquele período específico, de bebidas, drogas ou produtos farmacológicos de efeito psicoemocional, pois a chance de ocorrer uma overdose como tentativa inconsciente de suicídio é grande.

 

Obviamente, uma progressão de carta astrológica natal também pode ser muito útil para identificar aspectos felicitadores: épocas de alargada capacidade pessoal de gerar empatia, épocas mais propícias para investimentos financeiros (por maior sagacidade comercial ou melhor capacidade de avaliação objetiva de situações), época de sex-appeal mais emergente (por intensa canalização de libido a serviço da sexualidade), época de melhor desempenho intelectual (por aumento da capacidade de estabelecer conexões entre informações distintas) etc.

 

Não importa qual, se conflitivo ou harmonizado, todos os conteúdos inconscientes do psiquismo humano estão sempre em constante movimento, querendo emergir para a consciência e ser integrados; neste movimento incessante e autônomo, independente dos objetivos conscientes do indivíduo, o inconsciente leva a pessoa a produzir ou a selecionar determinados eventos externos, como forma de viver experiências emocionais análogas ao conteúdo inconsciente que então está buscando expressão e forma.

 

Deste modo, o que as progressões astrológicas oferecem é a possibilidade de conhecer antecipadamente a qualidade a intensidade dos conteúdos que emergirão a cada fase da vida de um psiquismo e como fazer de cada um destes momentos uma oportunidade de crescimento e integração pessoais.

 

SINASTRIAS, ONDE DOIS OU MAIS SÃO UM SÓ

 

Já o recurso das sinastrias, ou mesmo o dos mapas compostos (também conhecidos como composites, uma técnica mais recente e menos tradicional, embora bastante eficaz), permite ao astrólogo profissional identificar as razões reais das relações entre pessoas, para quaisquer finalidades (sócios comerciais, relações afetivo-amorosas, casamento, relações de amizade, sociedades de ocasião, partilha de interesses comuns etc.), como forma de orientar os envolvidos sobre como lidar consigo mesmos e com os parceiros, visando evitar os tão comuns erros de julgamento e de avaliação em parcerias.

Quem já não fez uma sociedade com o melhor amigo para logo após perceber que teria sido melhor continuarem apenas amigos?

 

Quem já não se envolveu afetivamente, às vezes até mesmo assumindo pesados compromissos pessoais ou sociais, para algum tempo depois descobrir que na verdade aquela relação nunca deixara de ser apenas uma grande amizade, sem os outros condimentos próprios de uma relação homem/mulher?

 

Ou, ao contrário, quem não rompeu num ímpeto uma relação amorosa para perceber, tempos depois, que teria sido feliz com aquela pessoa — e apenas não soubera administrar um momento mais difícil da relação?

 

Quem não contratou um funcionário ou subordinado, através de uma análise de currículo ou após uma curta entrevista, para descobrir em seguida que não suportava trabalhar ao lado daquela pessoa, pois com ela "o trabalho não rendia"?

 

As situações são inúmeras, os participantes são os mais diversos, mas a regra é uma só: nunca sabemos, realmente, o que se passa no inconsciente de quem está envolvido numa relação pessoal e o que determina efetivamente esta relação, seja ela afetiva, societária, de amizade, de trabalho ou de interesses compartilhados temporariamente.

 

Por isto nossos antepassados nos ensinavam que "para conhecer alguém é preciso comer uma saca de sal ao seu lado"...

 

Ora, não desanime, nem tanto!

 

Um bom trabalho sinástrico aponta as reais razões que determinam o estabelecimento de uma certa relação e, mais ainda, qual as tendências mais prováveis daquela relação, a curto, médio e longo prazos, dadas as características das pessoas envolvidas e o que cada uma provoca na outra sem mesmo o saber.

 

É que as verdadeiras razões de qualquer relacionamento são aquelas que se dão entre os inconscientes envolvidos, de acordo com os desejos inconscientes ali existentes e explicitados pelas cartas astrológicas natais individuais; analisando a combinação das cartas astrológicas natais das pessoas envolvidas, então, o astrólogo profissional pode afirmar com segurança o que realmente as atrai ou as repele entre si, o que as mantém juntas ou tende a afastá-las, o que cada uma encontrará de mais difícil no convívio com a outra e quais os potenciais daquela relação específica que podem ser despertados e melhor desenvolvidos.

 

E como fazer isto, durante a relação!

 

E se vale a pena efetivar, manter ou romper a relação, na verdade, após uma análise dos benefícios e desgastes mais prováveis, dadas as tendências ali verificadas e que, com grande probabilidade, se manifestarão com o correr do tempo.

 

Sempre dentro do perfil ou tipo de relação que está se dando ou por se dar; afinal, relações comerciais, societárias, empregatícias, afetivas ou apenas de envolvimento passageiro ("de ocasião") têm contornos próprios e requisitos específicos. Isto tudo é levado em consideração pelo astrólogo profissional no seu trabalho sinástrico, pois ele sabe que deve interpretar as cartas envolvidas de acordo com a intenção de seu cliente (ou clientes): trata-se de relação onde é essencial haver tesão e harmonia no convívio, como em um casamento? ou só se quer "cabeças que encaixem", como entre parceiros de trabalho intelectual? há objetivos análogos e confiança mútua, que é o que se espera fundamentalmente de uma sociedade, ou basta haver concordância temporária e específica de interesses, como numa "sociedade de ocasião"?

De posse destas informações, então, os envolvidos podem tomar as decisões que mais de perto atendam às suas reais necessidades e intenções.

O DIAGNÓSTICO PESSOAL DE PERSONALIDADE

 

Por fim, dentro das alternativas de atendimento astrológico oferecidas pela Astrologia Clínica, temos a análise clínica de uma Carta natal astrológica, assunto sobre o qual nos estenderemos por todo o restante deste livro mas que merece aqui uma rápida descrição.

Todas as pessoas, ao nascer, já carregam em seu inconsciente determinados estilos fundamentais de comportamento psicoemocional, os quais compõem o seu tipo psicológico: são aqueles modos básicos de lidar com as diferentes situações da vida, decorrentes de material geneticamente disposto e tão diferentes de pessoa a pessoa que muitas vezes levam até mesmo dois irmãos a ser antagonicamente opostos em muitos aspectos desde bebês; em meu trabalho pessoal, eu denomino tais estilos fundamentais, altamente individualizados, traços estruturais de personalidade (porque provêem das estruturas psicoemocionais mais profundas).

 

Há um outro tipo de traço de personalidade, todavia, que não deriva diretamente do tipo psicológico individual e, sim, das características predominantes do meio ambiente daquela pessoa durante sua primeira infância e dos sentimentos que o contato com tais características do meio ambiente produziu; estes traços, a despeito de eu denominá-los traços conjunturais de personalidade (porque decorrem da conjuntura ambiental atravessada pela criança), têm tanta "força" quanto os traços estruturais na determinação do seu futuro comportamento global.

 

É que, por terem se estabelecido muito precocemente, tais traços marcam o conjunto global de comportamentos da pessoa, estabelecendo um perfil e determinando a forma de relacionamento dos outros com ela, com o que eles são constantemente reforçados.

 

Tais traços conjunturais de personalidade derivam do contato direto com três fontes fundamentais de estímulos presentes no meio ambiente infantil: uma figura masculina predominante (em geral o pai mas, por vezes, um avô, o padrasto, um tio, um irmão bem mais velho etc.), uma figura feminina predominante (em geral a mãe mas, por vezes, uma avó, a madrasta, uma tia, uma irmã muito mais velha etc.) e o modelo básico de relação vivenciado pelo pai e pela mãe entre si e de cada um com a criança no correr da sua primeira infância.

 

Será do percebido pela criança nestas três fontes, principalmente do ponto de vista emocional e de comportamento manifesto (o que interessa é como eles se comportam e o que realmente sentem, e não o que dizem pensar, desejar ou estar sentindo!), que a criança construirá modelos inconscientes de comportamento.

 

Porque a criança absorve a carga emocional de cada situação vivida por ela e introjeta em seu inconsciente estas cargas, acompanhadas de memórias inconscientes dos tipos de comportamento que ocorriam à sua volta quando tais vivências se produziam. Em outras palavras, "guarda" no inconsciente a memória de que "papai" ou "mamãe" se comportavam de tal ou qual forma frente a tal ou qual situação e se sentiam de tal ou qual maneira em tal ou qual ocasião; com estas memórias inconscientes condicionando suas formas de comportamento, futuramente a criança se comportará de forma análoga (porque condicionada) frente a situações também análogas, mesmo sem saber o que a está levando a se comportar daquela maneira!

 

Agindo, pensando e sentindo de forma a reviver o mesmo tipo de sentimentos que viveu quando criança, num movimento que Freud chamou de compulsão à repetição, o adulto termina prisioneiro de algumas poucas e determinadas possibilidades de resposta ou de comportamento: é que tais matrizes inconscientes permearão daí por diante todas as suas situações de vida, do desempenho sexual às formas de convívio, da atuação intelectual à manifestação de assertividade, das preferências afetivas à vivência de sua criatividade, da inclinação por esta ou aquela atividade religiosa à forma como se relaciona com o próprio corpo, e assim por diante, obrigando-o a agir, sentir ou pensar sempre de forma rígida, mesmo quando uma análise mais madura indica a necessidade de mudança...

 

Vejamos apenas alguns exemplos, apenas para fixar melhor estes conceitos.

 

Pense na criança que cresceu em um ambiente no qual o pai manifestava uma profunda depressão pessoal, enquanto a mãe se dispunha a se sacrificar por ele, embora reclamando por isto e se mostrando infeliz: se menino, esta criança futuramente tenderá à depressão e a sentir-se incapaz de auto-sustentação em momentos de maior tensão pessoal, buscando parceiras "capazes de qualquer coisa" para ajudá-lo, mas sempre reclamando e se sentindo infelizes; se menina, esta criança futuramente se inclinará a buscar parceiros que dela precisem "desesperadamente" todo o tempo, nem que para isto ela tenha de abrir mão de seus mais valiosos projetos pessoais, numa postura martirizada que só a infelicita mas a impede de alterar objetivamente a realidade.

 

Pense na criança que cresceu em um ambiente no qual, ao contrário, o pai atravessava uma fase de vigorosa expansão pessoal, mas tratava sua mulher como mera servidora de seus desejos e não como companheira de crescimento: se menino, esta criança futuramente tenderá a buscar parceiras sobre as quais impor todo o tempo sua vontade, mesmo nos momentos de maior tranqüilidade e segurança pelos quais atravesse; se menina, esta criança futuramente tenderá a buscar parceiros que tenham um vigoroso movimento de expansão pessoal, embora a mantendo à margem deste processo e apenas utilizando-a como "servidora".

 

Pense na criança que cresceu em um ambiente no qual o pai era "possuído" por constantes e profundos sentimentos de ser capaz de qualquer realização, obrigando todos os familiares a se sacrificar por todo projeto que ele tivesse em mente: se menino, futuramente esta criança acreditará ser capaz de arrostar qualquer desafio, mesmo quando existam evidências reais de fracasso, pouco se importando se em sua "luta" arrasta todos os familiares a uma vida de constantes imprevistos e sobressaltos; se menina, futuramente esta criança buscará "heróis vencedores" que sempre tenham em mente "projetos espetaculares", mesmo que ela tenha de com frequência abrir mão de suas próprias necessidades e desejos para "segurar a barra".

 

Ou pense na criança que cresceu em um ambiente no qual a mãe era presa constante de medos fantasiosos, ao mesmo tempo em que tinha acessos obsessivos de limpeza e, com isto, atraía a ira do marido, que nunca podia estar à vontade em casa: se menino, futuramente esta criança buscará parceiras ansiosas e medrosas, ao mesmo tempo que compulsivamente dedicadas a limpar e arrumar tudo o que estiver à sua volta, não o deixando em paz e nunca lhe permitindo maior liberdade doméstica; se menina, futuramente esta criança buscará parceiros que desarrumem com frequência o que ela está sempre limpando e arrumando, ao mesmo tempo em que será presa de verdadeiro pânico com as crianças ou o próprio companheiro, roubando-lhes qualquer possibilidade de espaço pessoal.

 

Tais situações, tão comuns, são apenas alguns retratos superficiais e parciais dos inúmeros padrões que se estabelecem no inconsciente de uma criança durante sua primeira infância (zero a quatro anos de idade) e passam a estabelecer daí por diante as suas formas de comportamento.

 

Porque todas as esferas da vida individual são decididas de antemão (quando comparadas às decisões conscientes, mais superficiais) pelo conjunto de forças e imagens dispostas no inconsciente; e por isto uma pessoa não obtém mudanças verdadeiras ou duradouras em seu comportamento (sexual, sensual, intelectual, afetivo, assertivo, criativo, familiar, profissional ou até mesmo espiritual) se ela não processar alterações profundas nestas disposições inconscientes, as suas reais matrizes de comportamento.

 

Alterações que, enfim, se tornam facilitadas pelo diagnóstico da estrutura e da dinâmica global de sua personalidade: com este diagnóstico, a pessoa e um eventual terapeuta (se for esta a sua escolha, como veremos no capítulo 7 deste livro) sabem de antemão "o quê e onde mexer", de forma a poder trabalhar com maior eficácia para que se recobre o equilíbrio algum dia comprometido e se escape aos ciclos viciosos que sempre tolhem as possibilidades de escolha pessoal.

 

O QUE É UMA ENTREVISTA DE ANÁLISE CLÍNICA DE CARTA NATAL ASTROLÓGICA

 

Todo o conhecimento astrológico e psicológico detido pelo astrólogo é colocado em ação simultânea no momento exato da entrevista de análise clínica astrológica.

 

OS MÚLTIPLOS

SÍMBOLOS DA ASTROLOGIA

 

Planetas, Casas, Aspectos angulares entre os planetas e eventualmente outros símbolos específicos, como Lilith, Quíron ou Roda da Fortuna, combinam-se para oferecer ao astrólogo que domina teorias psicológicas e do comportamento humano um vasto e profundo quadro de referenciais sobre a personalidade global da pessoa que está à sua frente.

Iniciada a entrevista de análise clínica, cliente e astrólogo profissional ficarão juntos por um tempo que varia bastante de caso para caso e de astrólogo para astrólogo, mas que quase nunca dura menos do que duas a três horas; durante este período, num encontro que pode receber o nome de "entrevista astrológica clínica de devolução" ou "entrevista devolutiva astrológica clínica", o astrólogo profissional exporá ao cliente o que sua carta natal astrológica indica sobre os processos de constituição de seu modelo inconsciente global e de como a estrutura e a dinâmica básica deste modelo vêm determinando suas opções de vida.

 

Numa interpretação astrológica que parte do princípio de que quase todas (senão todas) as "escolhas" que uma pessoa faz no seu dia-a-dia decorrem de padrões implantados precocemente em seu próprio psiquismo, motivo pelo qual este inconsciente é que deverá ser desvelado e trabalhado pela própria pessoa para obter modificações efetivas em seu comportamento habitual, o astrólogo e o cliente vão discutindo as informações que a carta astrológica natal oferece e o que fazer a partir de cada uma delas.

Mas como se chega a este momento, o da entrevista de devolução da análise clínica de uma carta astrológica natal — ou, como é mais comumente chamada, a "leitura do mapa natal"?

OS DADOS PARA A

ELABORAÇÃO DA CARTA NATAL

 

Tudo começa quando o cliente fornece ao astrólogo os dados básicos para a elaboração de sua carta astrológica natal: data completa, local (cidade) e horário de seu nascimento; não há necessidade de informar se houve horário de verão no dia do nascimento (e se recomenda que o horário seja informado de acordo com a hora oficial em vigor naquela data, isto é, sem correção alguma), pois há tabelas específicas para o cálculo astrológico que informam ao astrólogo profissional se é necessário proceder à correção.

 

Um aspecto, todavia, costuma desafiar muita gente: a precisão do horário de nascimento. Muitos são aqueles que têm sérias dúvidas sobre o horário real em que nasceram, pelas mais variadas razões. Assim, o mais confiável, em geral, na ausência de uma ficha hospitalar de parto, é o registro de nascimento; em sua ausência, o depoimento da mãe ou do pai, de uma parteira ou mesmo de parentes.

 

Mas a questão central — será que a interpretação de um mapa é confiável, mesmo com um horário impreciso de nascimento? — merece resposta afirmativa: para a análise clínica de cartas astrológicas natais, a precisão absoluta do horário de nascimento não é tão necessária assim!

 

E se entende: como na maior parte dos casos a hora de nascimento é sempre o único dado natal do qual pode não haver certeza (já que raras pessoas têm dúvidas sobre a data ou local de nascimento), a astrologia contemporânea veio desenvolvendo técnicas para tentar extrair o máximo possível de informações de uma carta astrológica natal sem depender tanto deste fator; assim, a localização dos planetas nos signos e os aspectos formados entre si pelos diversos planetas, os quais estão muito pouco sujeitos à variação do horário de nascimento, passaram a merecer uma grande atenção.

 

Desta maneira, e pelo menos em minha prática pessoal, 80% a 90% das informações que uma carta astrológica natal oferece não dependem da precisão absoluta do horário de nascimento do cliente, exceto nos casos em que a variação for muito grande; nestes casos, então, quando a provável variação for significativa (a certidão de nascimento não registra hora alguma, por exemplo, e a mãe só recorda que o parto se deu no correr do período da manhã), o cliente pode solicitar um ajuste da hora natal, fornecendo antecipadamente ao astrólogo a hora mais aproximada possível de nascimento e a data de alguns dos principais acontecimentos de sua vida (o nascimento de um filho, a morte de alguém próximo, uma intervenção cirúrgica, uma grande viagem, um incidente marcante, o casamento ou a separação judicial, o início ou o rompimento formal de uma sociedade comercial etc.); de posse destes dados e do horário mais aproximado possível do nascimento da pessoa, o astrólogo profissional corrigirá com exatidão o seu horário natal, definindo qual horário de nascimento (exato em minutos) indicaria a ocorrência de tais fatos nas épocas mesmas em que elas se deram.

 

Cabe uma observação, contudo, no que diz respeito a outras práticas astrológicas, como a das sinastrias e mapas compostos, para análise de relações, e a das previsões, sejam por trânsitos, progressões ou outras técnicas auxiliares (mencionadas atrás, no capítulo 3). Em tais casos, a precisão do horário costuma ser crucial, razão pela qual para estes trabalhos deve-se estar seguro da hora exata de nascimento.

 

HÁ NECESSIDADE DE UMA ENTREVISTA INICIAL?

 

Não, nem sempre este procedimento é necessário.

Variando bastante de astrólogo para astrólogo, por vezes marca-se uma entrevista inicial de anamnese (do grego anamnesis, de an, "com intensidade", e mnéme, "memória"), isto é, de coleta de informações da pessoa que será atendida, num procedimento extremamente semelhante ao da primeira consulta feita com um médico ou especialista, para a identificação dos problemas e queixas do cliente.

 

Nesta entrevista o astrólogo delimita quais problemas vêm afligindo a pessoa, quais aspectos de sua vida mais prendem sua atenção naquele momento, quais dificuldades ou oportunidades a vêm desafiando e como certos aspectos de sua vida pessoal têm se dado; de posse destas informações e dos dados natais do cliente, o astrólogo então calcula a carta astrológica natal e se debruça na análise dos aspectos clínicos da carta que jogarão luz sobre as queixas trazidas pela própria pessoa, discutindo-as então numa sessão seguinte e aconselhando-a sobre os problemas levantados na anamnese.

 

Em outros casos, o astrólogo simplesmente calcula a carta astrológica natal e recebe o cliente numa hora marcada, para numa entrevista devolutiva só, com nunca menos de duas a três horas de duração, apresentar-lhe o conjunto global de informações que a carta oferece, no que diz respeito aos múltiplos aspectos de sua vida. Nesta ocasião, então, o cliente pode — ou não — expor ao astrólogo quais questões o estão desafiando mais de perto e solicitar um esclarecimento específico sobre elas; nestes casos, porém, a massa de informações oferecida costuma ser tão volumosa e envolve ao mesmo tempo tantos aspectos diferentes da vida do cliente — vida familiar, vida profissional, sexualidade, intelectualidade, espiritualidade, afetividade, assertividade, sensualidade e criatividade artística ou conceitual, entre outros —, que muitas das questões que afligiam o cliente terminam respondidas sem nem ter sido formuladas.

 

Há também astrólogos que atendem num esquema de "hora corrida", cobrando um preço determinado por hora de trabalho e ficando à disposição do cliente quanto tempo este queira, até se esgotarem as questões; este procedimento, todavia, por óbvias razões só deve ser adotado por quem procure o profissional com uma relação precisa de assuntos a discutir, evitando perdas desnecessárias de tempo e custos demasiadamente elevados de atendimento.

 

Minha posição pessoal tem sido a de que o astrólogo clínico, para a interpretação de uma carta astrológica natal, deve atender numa só vez o seu cliente, cabendo-lhe definir previamente um esquema de apresentação ampla dos dados, suficientemente estruturado para cobrir em duas ou três horas de trabalho intenso a totalidade de informações a transmitir e discutir.

 

(Como eu entendo que a psique de uma pessoa é um sistema global, onde todos os seus componentes e dados se interligam de forma coesa, só sendo possível uma visão abrangente dela e de suas características parciais se se traça um retrato "de corpo inteiro", não poderia ser diferente minha escolha profissional.)

 

Evidentemente, mesmo trabalhando desta forma, o astrólogo se põe à disposição do cliente para, em ocasião futura e se necessário, responder a questões específicas: detalhes que passaram desapercebidos pelo cliente, dúvidas que surgiram após a entrevista, alguma interrelação de informações que não ficou suficientemente clara no momento e até questões que o cliente poderia ter levantado mas, por ter se dispersado momentaneamente, não o fez.

 

A PARTICIPAÇÃO DO CLIENTE

 

É que o cliente pode e deve participar de todos os momentos da entrevista devolutiva; afinal, ninguém melhor do que ele sabe o que tem vivido, quais são os seus objetivos e com quais características pessoais ele tem se empenhado rumo à felicidade.

É frequente que, perplexo pela riqueza de informações que a interpretação de uma carta astrológica natal oferece, o cliente emudeça, hesite em intervir, não manifeste senão opiniões vagas e perca, assim, uma preciosa oportunidade de aprofundar as questões à medida que elas vão sendo colocadas.

 

Por outro lado, muitas vezes também o cliente nada diz, cético ou desconfiado, acreditando que se emitir opiniões ou der mais informações sobre o que está sendo discutido "facilitará" o trabalho do astrólogo e ficará na dúvida se o que ouviu "é verdade" ou apenas "dedução esperta" do que ele mesmo contou.

 

Ora, assim como compete ao astrólogo tentar estabelecer um clima o mais facilitador possível, pois o peso emocional do que ali será discutido se torna de mais fácil convívio se há empatia ou ao menos respeito, compete ao cliente tentar superar o primeiro impacto e integrar-se o máximo que consiga na entrevista; inclusive, tentar desarmar-se de atitudes internas de descrença e de necessidade de "submeter o astrólogo à prova". O astrólogo profissional não está ali "adivinhando", ele está simplesmente deduzindo o que um conjunto de símbolos astrológicos lhe informa com segurança, razão pela qual nada se altera se o cliente "acredita" ou não no que a interpretação da carta natal oferece; seu papel é o de apresentar um quadro de referenciais de personalidade, esclarecer dúvidas e, assim, facilitar o trabalho futuro do cliente em si mesmo!

 

Tal integração entre astrólogo e cliente, quando ocorre, costuma enriquecer sobremaneira o trabalho de atendimento e aconselhamento, pois ambos então se empenham em cada questão levantada, num verdadeiro "trabalho de parceria".

 

Evidentemente o astrólogo profissional já sabe que tipo de pessoa estará à sua frente (por exemplo, se se trata de alguém calado ou loquaz, se é pessoa excessivamente resistente à discussão de seus aspectos emocionais mais delicados, se é de inteligência rápida ou mais lentificada e se é agressivo ou pacato) e, portanto, como tenderá a transcorrer a entrevista; além disto, o astrólogo também possui condições para predefinir as tendências principais daquele encontro pessoal, graças às técnicas de sinastria que utiliza automaticamente quando analisa a carta astrológica natal de alguém e a compara com a sua própria, conhecida por ele à exaustão.

 

Ambas as possibilidades, então, o ajudam sobremaneira a estabelecer um clima favorável ao transcorrer positivo da entrevista, o que não retira a importância da participação do cliente. Deixando de se limitar a mero participante passivo e assumindo postura mais ativa, o cliente só terá a ganhar: portanto, que ele questione o astrólogo, aprofunde questões, levante aspectos diferentes do que esteja sendo mencionado, submeta a análise rigorosa tudo o que lhe está sendo dito — em outras palavras, participe!

Inúmeras vezes o astrólogo perguntará se foi claro ou se o cliente o entendeu; tal atitude, menos do que descrença na capacidade de compreensão do cliente, é forma de o astrólogo sondar sobre a existência de dúvidas ou a necessidade de maior esclarecimento do que está sendo discutido. Pois ele sabe que o cliente, em parte aturdido pela quantidade de informações e pelas conclusões ou sentimentos que as mesmas suscitam, e em parte temeroso de "se abrir" com um estranho, em geral hesita em colocar dúvidas, pedir maiores esclarecimentos ou até mesmo discordar do que esteja sendo dito, quer por alguma má formulação do astrólogo, quer por percepção seletiva do cliente sobre si mesmo.

 

A IMPORTÂNCIA DE GRAVAR AS INFORMAÇÕES

 

Aliás, é exatamente pelo volume de informações que uma entrevista de análise clínica de carta astrológica natal oferece, e pelo conteúdo fortemente emocional ou sentimental da maior parte das mesmas, que todas as entrevistas de aconselhamento astrológico são gravadas em áudio; após a entrevista, o cliente leva consigo as fitas (e às vezes a própria carta desenhada ou impressa, para ele uma mera curiosidade), podendo voltar a ouvi-las, apresentá-las a alguém de sua confiança ou até mesmo utilizar seu conteúdo em terapias e outras atividades de ajuda pessoal (como veremos no capítulo 7).

Vários são os fatores que obrigam esta gravação, para que as informações não se percam e nem sejam posteriormente distorcidas pelo cliente, quando perderiam toda a utilidade. Em primeiro lugar, as capacidades humanas de "percepção seletiva" e de "retenção seletiva": todos nós percebemos apenas aquilo que de alguma forma nos atrai, ao mesmo tempo em que só retemos na memória consciente o que de alguma forma nos parece importante.

 

Como dizia William James, que conhecemos em nosso primeiro capítulo, a consciência é seletiva e "está sempre mais interessada em uma parte de seu objeto do que em outra e recebe, rejeita ou escolhe durante todo o tempo que pensa".

 

Esta é a razão do tão comum "estava na minha cara e eu não vi!"...

 

Ao mesmo tempo, a memória humana tem uma limitada capacidade de retenção, quer no que diz respeito à quantidade do que precisa ser retido, quer pela antigüidade do material que deveria estar retido; assim, muito da entrevista devolutiva de análise clínica astrológica poderia simplesmente ser olvidado.

 

Além de tudo, o ser humano tende a distorcer sua memória ao sabor de sentimentos e emoções.

 

Por tudo isto, e muitas vezes até porque uma compreensão mais alargada das informações oferecidas exigirá do cliente momentos futuros de reflexão (num profundo trabalho interior), cada tema debatido pelo astrólogo profissional com o cliente deve ficar registrado.

 

A partir deste material, no correr do qual o cliente provavelmente terá o mais longo e completo conjunto informativo sobre si mesmo que já pôde ter na vida, é que tem início o seu processo de tomada de decisões pessoais, afetivas e profissionais.

 

Porque não compete ao astrólogo, nem a nenhum profissional de aconselhamento, definir ao cliente o que este deverá fazer em relação ao que quer que seja; ao contrário, compete a qualquer profissional de aconselhamento, como também ao astrólogo clínico, apresentar dados, seguir raciocínios, oferecer alternativas de análise e acompanhar respeitosamente a tomada de decisões que será feita pelo próprio cliente.

 

OS DIFERENTES ASPECTOS HUMANOS ANALISADOS ATRAVÉS DA ASTROLOGIA

 

Mas o quê, em verdade, o astrólogo profissional oferece de informações ao seu cliente durante a entrevista devolutiva de análise clínica de sua carta astrológica natal?

O quê, na verdade, pode ser tão rico a ponto de levar alguém a tomar profundas decisões sobre a própria vida e as formas de comportamento que vem adotando, como ocorre com quase todo mundo que tem sua carta astrológica natal analisada de forma clínica?

 

Para discutirmos a partir daqui, então, alguns dos diferentes aspectos humanos que podem (e devem) ser trabalhados durante a análise clínica de uma carta astrológica natal, terei que expor um pouco do que apresentei em maiores detalhes em meu livro O simbolismo astrológico e a psique humana.

 

É que apenas um entendimento alargado da variedade de pulsões do inconsciente humano e de como elas se mesclam em cada psique individual, determinando toda a vida da pessoa, permitirá perceber porque a experiência de ter sua carta astrológica natal analisada pode ser tão rica e tão transformadora para alguém.

 

O PAPEL DAS PULSÕES NO INCONSCIENTE HUMANO

 

Dizia Freud que para o psicanalista "não existe nada insignificante, arbitrário ou casual nas manifestações psíquicas, (vendo sempre) um motivo suficiente em toda parte, onde habitualmente ninguém pensa nisto; (o psicanalista até aceita a existência de) causas múltiplas para o mesmo efeito, enquanto nossa necessidade causal, que supomos inata, se satisfaz plenamente com uma única causa psíquica" (parênteses meus).

O que ele queria dizer com isto?

 

A afirmação, de 1910, na terceira das Cinco lições de psicanálise, pertence aos primórdios da Psicologia Contemporânea e assumia a hipótese, comprovada com o passar do tempo, de que o psiquismo atua sempre a partir de inúmeros objetivos simultâneos, razão pela qual o comportamento humano nunca é decorrente de uma causa só, seja ela qual for e esteja ou não a pessoa consciente da totalidade dos motivos que impulsionam seu comportamento.

 

Isto ocorre porque o psiquismo está todo o tempo empenhado em satisfazer desejos (conscientes ou inconscientes) do indivíduo, tidos por si mesmo (consciente ou inconscientemente) como a melhor resposta a cada situação de vida; assim, da mesma forma que os diferentes instintos atuam para atender às necessidades associadas mais diretamente à esfera somática (ou corporal) do organismo e da espécie, como alimentar-se, manter-se a salvo de destruição física, proteger a prole e reproduzir-se, as pulsões atuam no psiquismo de forma a satisfazer desejos ou necessidades de ordem psíquica e emocional.

 

São manifestações das pulsões, entre outras, os comportamentos rumo à busca de prazer, de convívio social, de expressão da própria vontade (ou desejo), de afeto (corporal ou não), de exposição ao meio de produtos mentais (conceitos, idéias, opiniões etc.) e de vivência dos fenômenos ainda chamados "espirituais" em nossa cultura, sejam os religiosos, sejam os derivados de percepções extra-sensoriais, como veremos adiante.

 

E o que tem isto a ver com a astrologia?

 

O que tem a ver Marte, Lua, Escorpião, Áries, Saturno, Vênus ou qualquer outro símbolo astrológico com isto tudo?

 

É que com o passar dos séculos os principais tipos de comportamento humano induzidos pelas pulsões psíquicas foram descritos na astrologia através de seus símbolos, mesmo que muito tempo atrás não se soubesse nada disto, dada a muito recente sistematização da Psicologia; os homens mais antigos só tinham como elementos básicos de suas concepções os fenômenos que eles observavam nos indivíduos e pouco a pouco foram relacionando os símbolos astrológicos com as formas de comportamento percebidas, sem saber que estavam, na verdade, apontando a existência de causas inconscientes por trás de cada ação ou reação percebida e a múltipla combinação possível entre todas as pulsões existentes.

 

Como sabemos hoje em dia, também através de Freud (em sua Primeira lição de psicanálise), que "num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem ficar mais ou menos independentes, sem que um 'nada saiba' do outro e que podem alternar-se entre si em sua emersão na consciência", ocasião na qual determinam as formas manifestas de comportamento ou as formas internas de pensar e sentir do indivíduo, serão os principais impulsos psíquicos básicos que discutiremos ao falar de Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Vênus, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão e todas as possíveis combinações entre eles, os planetas, ou elas, as pulsões.

 

OS PLANETAS, SÍMBOLOS DE IMPULSOS PSÍQUICOS

 

O Sol simboliza numa carta astrológica natal o padrão global de estruturação de ego da pessoa, isto é, daquela instância que é o centro da consciência e serve como ponto central de referência na psique para a organização de todos os recursos disponíveis ao atingimento dos objetivos e à satisfação dos desejos do indivíduo.

Assim, compete ao ego de uma pessoa coordenar o conjunto de suas atividades psíquicas em quaisquer momentos da vida, mantendo a noção individual de identidade desta pessoa (noção de Eu) e possibilitando a tentativa organizada de satisfação dos seus desejos e necessidades; em outras palavras, o Sol (ariano, taurino, geminiano, canceriano etc.) indica o padrão global de resposta do ego da pessoa a eventos exteriores e vivências internas (emoções, sentimentos, conclusões, lembranças etc.), de acordo com predisposições inatas.

 

Ao mesmo tempo, o Sol indica o "caminho" a ser seguido no trabalho de integração das outras instâncias do psiquismo (como vimos atrás, a sombra, a persona e o animus ou a anima), por mais distintas que estas instâncias pareçam ser, pois harmonização, organização de si mesmo e integração internas são impulsos psíquicos cujo símbolo é o Sol; por isto cada signo (o que determina um signo é a colocação do Sol no Zodíaco no momento exato do nascimento) apresenta uma forma básica própria de lidar com a realidade externa e interna, independentemente da variação nos detalhes de como isto é feito.

Já a Lua simboliza numa carta astrológica natal o padrão básico de vivência emocional instintiva, também variável de pessoa para pessoa, dependendo do signo onde a Lua está colocada (e dos aspectos que apresenta), com o qual a vivência consciente do indivíduo se combina para que o todo psíquico possa se manifestar a cada momento da vida.

 

(Aspectos são determinados ângulos geométricos estabelecidos entre um planeta e outros planetas ou entre um planeta e os pontos principais da Carta natal astrológica.)

 

A Lua informa muito tanto sobre a natureza emocional genuína quanto sobre os padrões condicionados de resposta emocional que a pessoa desenvolveu no correr da primeira infância (indicando até, muitas vezes, o conjunto de experiências emocionais intra-uterinas que a criança atravessou e, de alguma forma, a modelaram emocionalmente).

 

O terceiro planeta no Zodíaco, Mercúrio, simboliza para o astrólogo clínico o conjunto de funções humanas associadas às atividades de pensar, refletir, analisar e trocar informações com o meio ambiente.

 

Simboliza, na verdade, o impulso básico humano no sentido destas atividades; porque, segundo a psicóloga junguiana norte-americana Maria Esther Harding, "em conseqüência da premência em considerar as experiências vividas, submetê-las aos 'olhos da mente' e transmiti-las a outros, os primitivos instintos humanos (e somente no caso dos humanos) foram submetidos a certo grau de mudança, tendo sido, em alguma extensão, privados de seus mecanismos involuntários. Gradualmente foram se subordinando às necessidades da mente, em vez de permanecer eternamente atrelados à não-psique, isto é, à vida animal".

 

Este comportamento psíquico no sentido de absorver intelectualmente as experiências, processá-las racionalmente, descrevê-las através de algum código de comunicação e transmiti-las aos outros ou a si mesma (como quando a pessoa fala consigo, tentando entender melhor alguma coisa), é próprio das funções que Mercúrio simboliza numa carta astrológica natal.

 

Vênus já nos oferece outra dimensão da experiência humana, qual seja a de estabelecer valores afetivos (e mesmo estéticos) para os fenômenos vivenciados e de receber ou expressar afetos, isto é, esta valoração. Quando alguém diz "disto eu gosto" ou "aquilo me incomoda", está estabelecendo, a partir do que experimenta como sentimento, um valor afetivo (ou mesmo estético) para os eventos, pessoas e objetos de que se cerca, quer expressando ou não o que sente.

 

Três observações cabem aqui:

a. Quando a Psicologia se refere a "afeto", não está falando obrigatoriamente de "querer bem": este é apenas um tipo de vivência afetiva! Odiar, temer ou desejar, entre muitos outros, também são vivências afetivas.

b. Quando a Psicologia se refere a "objeto", não está mencionando especificamente um objeto inanimado; objeto é o que permite a uma pulsão atingir seu alvo, isto é, satisfazer-se, seja ele uma pessoa, um animal, uma circunstância, um objeto inanimado e até mesmo um dado imaginário da realidade.

c. Quando eu afirmei acima que a pessoa pode expressar ou não seu afeto, isto não quer dizer que ela só possa fazê-lo através de suas funções "mercuriais", isto é, pensando, entendendo e falando do que sente; ao contrário, vivências afetivas espontâneas podem e devem ser transmitidas ou percebidas através do corpo e dos gestos, utilizando-se os sentidos envolvidos com o toque e com os movimentos corporais. Tais manifestações de sensualidade (do latim sensuale, "relativo aos sentidos", e por isto não confundir com sexualidade!) são "terreno de Vênus" numa carta astrológica natal.

 

Por fim, quanto às funções envolvidas com a sexualidade e a sensualidade humanas, Vênus informa o padrão global de organização, numa pessoa, dos aspectos "passivos" de sua sexualidade e sensualidade (presentes em homens e mulheres igualmente, embora variando em grau de pessoa para pessoa): o desejo de ser desejada por seu objeto de afeto, donde as funções psíquicas que Vênus simboliza estarem diretamente ligadas à sedução ou às ações que objetivam tornar a pessoa mais atraente.

 

Já Marte, neste aspecto específico, simboliza o pólo "ativo" da sensualidade e da sexualidade humanas, pois indica sempre o impulso de conquista do objeto desejado; ao mesmo tempo, simboliza também numa carta astrológica natal o impulso básico de manifestação de si mesmo no mundo exterior (assertividade) e de se envolver direta e pessoalmente com qualquer experiência de vida.

 

Como os impulsos sexuais e de conquista do objeto de desejo derivam da mesma fonte instintiva, chamada pulsão sexo-agressiva, vontade e sexo andam juntas no psiquismo humano e numa carta astrológica natal. É que um poderoso impulso de se afirmar no mundo exterior reside na psique; este impulso, nos primeiros anos de vida, manifesta-se em uma de suas duas "especializações" distintas, a assertividade: é quando a criança tenta impor ao meio ambiente os seus desejos e vontades, buscando afirmar-se no mundo. Um pouco adiante, por volta dos quatro anos (e mais ardentemente na puberdade e na adolescência), este mesmo impulso manifesta sua segunda "especialização": o impulso sexual de conquista do objeto de desejo, sendo este objeto, em geral, quem parece prometer a satisfação da descarga de tensão sexual.

 

Por tudo isto Marte indica em uma carta astrológica natal o padrão global de manifestação da assertividade e do impulso ativo sexual, enquanto características humanas que permitem a interferência do indivíduo no meio ambiente e na própria vida.

 

ALÉM DE SI MESMO, OS OUTROS

 

Mas se na evolução da nossa espécie tais impulsos foram se estabelecendo como características do psiquismo humano, foi também se tornando obrigatório o "balanceamento" entre nossas necessidades individuais (fundamentais à sobrevivência de cada pessoa) e grupais (vitais à preservação da espécie).

Afinal, o ser humano é um ser gregário e desde sempre viveu comunitária ou socialmente, razão pela qual o convívio harmonioso com os outros é um dado vital ao seu psiquismo.

 

(Harmonia, entendida como a convivência equilibrada e produtiva de diferenças, e não como uma utópica inexistência de conflitos; aliás, a palavra equilíbrio vem do latim eqüi e librium, "pesos iguais", e pressupõe a existência de algum nível de tensão entre diferenças.)

 

Do convívio social e das pressões individuais decorrentes deste convívio brotaram os impulsos internos de busca de justiça, de normatizar a realidade, de estabelecer inter-relações entre as partes e o todo e de construir explicações lógicas para estas mesmas inter-relações: nasciam com isto os impulsos internos para a religião, a filosofia, o direito e, mais modernamente, os "conhecimentos superiores", de espectro mais amplo de conhecimentos.

 

(Por falar em religião, assunto ao qual voltaremos mais tarde em detalhes, cabe aqui lembrar Carl G. Jung: "a propensão espiritual aparece na psique também como uma força que urge, às vezes até mesmo como paixão genuína: não deriva de nenhuma outra pulsão, sendo em si um princípio sui generis".)

 

Este conjunto de impulsos é simbolizado numa carta astrológica natal por Júpiter; não fossem tais atividades psíquicas, as manifestações da pulsão sexo-agressiva (simbolizada por Marte) dificilmente seriam canalizadas adequadamente ou submetidas a dogmas, tabus, convenções e códigos de conduta, necessários, todos, à vivência e sobrevivência grupal.

 

Júpiter também simboliza o impulso básico de ampliar o espaço de experiências de vida, ou "horizonte pessoal", razão pela qual este planeta se "associa" aos movimentos de magnificação das coisas e dos processos através de longas viagens externas (largos deslocamentos da pessoa pela superfície terrestre) e internas (aprofundamentos especulativos e filosóficos), sempre como forma de ampliar o universo de referências básicas de vida.

 

Mas nesta mesma faixa de experiências surgiu também, com o passar do tempo, outro poderoso impulso interno, qual seja o de privilegiar a realidade objetiva das coisas e dos processos, visando impedir que o indivíduo alargasse desmedidamente o seu próprio ego: simbolizado na carta astrológica natal por Saturno, esta instância psíquica representa o superego e seu conjunto de funções de contato com a realidade objetiva das limitações internas e externas vividas.

 

Cabe lembrar aqui que superego é expressão criada por Freud para nomear a instância psíquica inconsciente que bloqueia ou censura na própria pessoa certas formas de comportamento e a admissão consciente de determinadas vivências internas pessoais, consideradas erradas, injustas ou não-éticas de acordo com o conjunto de padrões de comportamento absorvido durante a infância. Esta instância, sempre atuando no inconsciente como representante de uma natureza superior que deve ser respeitada quase a qualquer preço, é extremamente útil e necessária ao desenvolvimento adequado do ego, pois é o "teste da realidade" através de constante aprendizado, o que só se consegue com paciência, tempo e experiência (significados tradicionalmente associados a Saturno).

 

Afinal, o ego, em seu processo de formação a partir dos impulsos informes do inconsciente, sempre se expõe a incontáveis riscos de dissolução frente a impulsos energeticamente mais fortes (porque afetivamente mais carregados); daí o surgimento de mecanismos de proteção como o superego, através das defesas e das regras proibitivas internas, permitindo ao ego se estruturar gradualmente e se opor sempre que necessário aos impulsos inconscientes mais profundos, que só "buscam" sua própria satisfação e exatamente por isto ameaçam a sobrevivência e a harmonia do todo psíquico.

 

OS IMPULSOS CÓSMICOS OU TRANSPESSOAIS

 

Além do indivíduo e do grupo, todavia, há uma dimensão de mundo que atrai a alma humana — ou psyché, como a chamavam os gregos — com verdadeiro poder de fascínio e sedução: a dimensão da Mente Impessoal, da Afetividade Impessoal e do Poder Impessoal, características do divino que habita em cada um de nós.

Lembra o Budismo mahayana, uma das principais correntes do Zen-Budismo, que o estágio de desenvolvimento do Homem de Conhecimento Normal é atingido pelo conhecimento da realidade, mas o estágio do Homem de Conhecimento Superior é obtido apenas pela transcendência desta mesma realidade; esta transcendência, então, só é possível para o psiquismo humano através dos impulsos inconscientes simbolizados numa carta astrológica natal por Urano, Netuno e Plutão, os três planetas "exteriores" ou "transpessoais", impulsos estes próprios das camadas psíquicas mais profundas e, por tal razão, ainda informes e não pessoalizados.

 

Algo deve ser comentado aqui sobre transpessoalidade, porém, antes que falemos mais detidamente destes planetas e dos impulsos vitais que simbolizam no psiquismo humano.

 

As dimensões transpessoais apontadas por Urano, Netuno e Plutão são aquelas que se aproximam de possibilidades humanas até há bem pouco tempo sugeridas apenas pelas religiões ou pelas práticas espirituais: são os elos de ligação do psiquismo individual com a dimensão universal da Vida e ao mesmo tempo com todas as formas de manifestação desta mesma vida, estejam ou não ao alcance dos sentidos mais comuns como audição, tato, visão, paladar, olfato e cinestesia (do grego kinesiseisthesis, de kinesis, "movimento", e eisthesis, "sentido"; "o sentido do movimento" em geral atua nas articulações e tem por função informar ao corpo a posição de seus componentes no espaço em todos os momentos; este sentido é o que permite a você tocar o próprio nariz ou queixo com os olhos fechados, "sabendo" onde está sua mão e dedo a cada instante).

 

Estes impulsos, os transpessoais, atuam de forma a permitir ao psiquismo entrar em contato com dimensões da realidade que não são perceptíveis ou descritíveis com nossas noções mais comuns de tempo e espaço, pois tempo, espaço e matéria, como os conhecemos, são convenções do nosso ego e não realidades únicas em si, como a física moderna não se cansa de demonstrar e veremos adiante; da mesma forma, a noção de individualidade que temos, como entidades separadas de todo o resto, é mera ilusão em níveis além daqueles do ego, já que é função do ego pessoalizar tudo com o que se conecta, através das funções egóicas representadas ou simbolizadas pelos planetas "pessoais" que vimos atrás: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus e Marte (e, certa medida, Júpiter e Saturno).

 

Por isto, lembrando apenas que as Psicologias transpessoais buscam ultrapassar esta fantasia de separatividade que o ego humano mantém, veja o que diz o psicólogo norte-americano Abraham Maslow sobre a possibilidade de fusão com o Todo, em seu livro The farther reaches of human nature: "Há agora menos diferenciação entre o mundo e a pessoa... Esta se torna um eu ampliado... Identificar o que há de mais elevado no próprio ser com os valores supremos do mundo exterior significa, ao menos em alguma medida, uma fusão com o que não é o próprio ser".

 

Para esta identificação com o Todo — mais possível para alguns, menos possível para outros, segundo sua disposição psíquica inata — existem os impulsos psíquicos transpessoais: graças à sua atuação, o indivíduo supera os limites da identidade egóica e "mergulha" num mar de indiferenciada participação no Todo, um Todo que é para o ego, num mesmo e só momento, aqui, lá e acolá, ontem, hoje e amanhã.

 

Porque, apenas recordando que Freud descreveu este estado de indiferenciação como "sentimento oceânico" (embora o apontasse como um estágio imaturo do desenvolvimento psíquico), transcrevo aqui o psicólogo norte-americano Ken Wilber, um dos mais importantes teóricos das Psicologias transpessoais: "para onde quer que olhemos na natureza... não vemos senão totalidades. E não apenas totalidades, mas totalidades hierárquicas: cada uma delas é parte de um todo maior, que também é parte de um todo ainda mais amplo... Além disso, o universo tende a produzir totalidades de nível cada vez maior, cada vez mais abrangentes e mais organizadas. Esse processo cósmico geral não é senão a evolução... Como a mente ou psique humana é um aspecto do cosmos, seria de esperar que encontrássemos na própria psique o mesmo arranjo hierárquico de 'totalidades no interior de totalidades', da mais simples e rudimentar à mais complexa e abrangente. De modo geral, esta é exatamente a descoberta da psicologia moderna... Assim, numa aproximação geral, podemos concluir que a psique — tal como o cosmos — é multinivelada (pluridimensional), composta de todos, de unidades e de integrações de ordem sucessivamente mais elevada".

 

Ora, se os impulsos psíquicos que vimos até aqui, simbolizados pelo Sol, pela Lua e por Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, só permitem ao ser humano apreender as dimensões da realidade mais afins ao seu ego, sempre unidimensional e limitado, e há dimensões ainda desconhecidas de realidade, como as ciências contemporâneas comprovam a cada instante, outras funções haveriam de existir para permitir a vivência destas outras dimensões da realidade que nos cerca, alimenta e faz viver.

Tais funções existem graças aos impulsos psíquicos transpessoais, dos quais falaremos ao discutir Urano, Netuno e Plutão.

AS "OITAVAS" SUPERIORES DO PSIQUISMO HUMANO

 

Tradicionalmente, Urano, Netuno e Plutão foram considerados as "oitavas superiores" de Mercúrio, Vênus e Marte, respectivamente. Mas o que isto quer dizer?

Em música, uma nota "oitavada" é estruturalmente a mesma nota (isto é, mantém a mesma relação proporcional entre a freqüência e o comprimento de suas ondas) mas vibra em uma freqüência muito mais alta. Como exemplo, um "lá" de oitava mais alta parece aos ouvidos humanos um som mais agudo do que um "lá" de oitava mais baixa, isto é, as ondas sonoras que o "lá" oitavado produz vibram com uma freqüência maior e produzem no ouvido humano uma sensação auditiva que chamamos de "mais aguda" ou "menos grave".

 

Assim, se Mercúrio simboliza as funções humanas de percepção intelectual da realidade, de capacidade de pensamento sobre ela e de transmissão aos outros dos diferentes produtos mentais (impressões, conclusões, idéias etc.), Urano simboliza a capacidade de executar as mesmas tarefas num nível transpessoal: o impulso mercurial, de pensamento voltado a particularidades, processos e minúcias, encontra uma finalidade e uma abrangência maiores ao se transformar em "pensamento uraniano", superando então os limites convencionais do mundo material, que para o ego são sempre dependentes das quatro dimensões por ele definidas como altura, largura, comprimento e tempo.

 

Urano simboliza a capacidade humana de ter flashes de intuição que desafiam abertamente os conceitos tradicionais de espaço e tempo, estando na raiz da percepção intuitiva de existir "algo mais" no Universo do que apenas os fenômenos acessíveis aos órgãos sensoriais mais comuns (e seus "prolongamentos artificiais", como os instrumentos científicos criados pelo ser humano para aumentar a sua capacidade sensorial).

 

Não por outra razão Urano esteve desde sempre associado à magia, ao "estudo do oculto" e à paranormalidade que se manifesta através de efeitos objetivos (telecinesia, ou produção de efeitos físicos à distância, tiptologia, ou produção de ruídos à distância, desmaterialização e rematerialização etc.).

 

Da mesma forma, Netuno é "a oitava mais alta de Vênus". Isto é, neste penúltimo planeta encontramos o símbolo do impulso transpessoal humano de valorização afetiva impessoal ou transpessoal, existente em todo psiquismo: desta forma, receptividade, senso estético, imaginação criativa (o "instinto do belo") e afetividade são "atributos venusianos" que se expandem para limites impessoais em Netuno, como se a psique, em seus estratos mais profundos, ansiasse por reviver o estado indiferenciado de emoções e sentimentos que ao mesmo tempo caracteriza o início da vida — a fase intra-uterina ou, para os espiritualistas, a fase espiritual pré-incorporação — e permite ao indivíduo viver tal estado no seio da coletividade como um todo.

 

Netuno simboliza também as funções psíquicas que permitem ao ser humano a experiência de fenômenos paranormais de efeito subjetivo (telepatia, ou comunicação à distância, precognição, ou conhecimento antecipado de fatos e eventos, premonições etc.), assim como parece estar relacionado diretamente com as manifestações mais vigorosas de devoção espiritual.

 

Tais "atributos", os uranianos e os netuninos, ou as funções de Mente Impessoal e Afetividade Impessoal, devem ser acessíveis ao consciente pessoal apenas à medida que o ego vá se estruturando; se não for assim, as funções egóicas de pessoalização, fundamentais para um pleno e produtivo contato com a realidade (ao nível que o ego trabalha), se comprometem, dando margem ao que conhecemos como surtos de esquizofrenia ou episódios psicóticos, dada a força destes impulsos e a invasão descontrolada dos conteúdos que eles mobilizam no campo da consciência.

 

Caso, contudo, a emersão e a plena vivência destes impulsos se dê em um campo de consciência estabelecido e mantido estruturado pelo ego e superego (Sol e Saturno), torna-se possível ultrapassar o ego sem destroçá-lo e viver o que atualmente se chama de estados alterados de consciência, que operam em níveis mais elevados de energia psíquica do que o estado comum egóico de consciência, levando o ego a se fundir com o Todo sem que com isto o ego se desestruture ou tenha sua função pessoal e individualizadora comprometida.

 

Mas ainda há um outro desafio, que merece todo o cuidado possível: o contato mais pleno do ego com os impulsos psíquicos que provêem do inconsciente coletivo (e se mantêm fora do campo de consciência graças a barreiras e defesas internas como o superego) permite também contatar um imenso "complexo de poder" de base fortemente instintiva, necessário para vitalizar a psique como um todo e dar ao ser humano condições de se manifestar ativa e assertivamente no mundo exterior.

 

Este "complexo de poder" nada mais é senão a quantidade de energia instintiva que está à disposição da psique para seu trabalho de estruturação do conjunto de suas instâncias e funções, também chamada "libido", que é sempre uma energia indiferenciada de base instintiva e, por isto, se manifesta como Poder Impessoal.

(Aliás, um dos principais motivos do rompimento entre Freud e Jung foi a insistência de Freud em atribuir à libido a função exclusiva de energia a serviço da sexualidade, quando Jung a entendia como energia a serviço do conjunto global das necessidades psíquicas, sendo orientada internamente de acordo com as prioridades do próprio psiquismo.)

 

Descrito tradicionalmente como a "oitava superior de Marte", Plutão simboliza este impulso totalmente impessoal que reside nos estratos mais profundos do psiquismo humano: um complexo de poder atávico, indiferenciado e irrevogável, tanto quanto o era, na mitologia grega, Hades, o deus do mundo subterrâneo (Plutão, para os romanos). Basta lembrar que nem seus irmãos míticos — Zeus (Júpiter, para os romanos) e Poseidon, ou Posídon (Netuno, para os romanos) — desafiavam sua palavra, já que Hades (Plutão) representava a força que vigora no mundo das trevas do inconsciente Primordial e é mais poderosa até do que a de Zeus, Deus da Luz, da superfície da Terra e das realizações humanas.

 

Em outras palavras, e tentando resumir este misterioso impulso da psique, totalmente mergulhado no inconsciente coletivo e além das possibilidades de plena compreensão pelo ego, o Poder Impessoal que Plutão simboliza é aquele impulso necessário para vitalizar a psique como um todo e mantê-la ativa no processo de individuação, isto é, de a pessoa poder vir a ser o que realmente é, além dos processos de condicionamento a que tenha sido submetida desde a concepção.

 

O risco, todavia, é o ego ter tal poder impessoal contaminando suas funções pessoais, identificando-se com ele e julgando-se seu "dono" ou "portador", ocasião na qual a pessoa "enlouquece" ou "é possuída" e acredita "ter" os poderes ali pressentidos: aí então, atuando sob o comando de um ego estilhaçado por um impulso impessoal, o indivíduo atua como se fosse Herói, Mago, Seguidor, Demônio, Salvador, A Grande Vítima, Redentor ou outra imagem arquetípica qualquer, dependendo de qual impulso ou conteúdo transpessoal contaminou seu ego, despersonalizando-se e perdendo a possibilidade de evoluir ordenadamente, ao se deixar ofuscar por este poder ao invés de ser por ele fortalecido.

 

Entretanto, Plutão também representa a Fênix, o pássaro mitológico (egípcio) que todos os dias reconstruía seu ninho apenas para vê-lo se consumir (e a ela também!) pelos raios do sol do dia seguinte: graças a esta energia infindável residente nas suas camadas mais profundas e coletivas, a psique individual pode destruir formas velhas e adotar formas novas, se necessário implodindo estruturas inteiras para que o ego atue a partir de novas e (até então) insuspeitadas possibilidades.

 

De certa maneira, Plutão simboliza também a figura de Satanael, ou Satã, o mais bonito dos anjos, filho de Deus e irmão gêmeo de Emmanuel, que ao desafiar o Homem a questionar as Leis Divinas o impele a maiores valores, frutos da descoberta que é sempre filha do conflito entre opostos.

 

Este "poder plutônico" é o impulso vital que, das mais profundas instâncias inconscientes, impele a psique como um todo a um movimento sem fim de morte e renascimento, em transição e adaptação constantes, através da integração de todos os seus componentes, sejam instâncias, sejam conteúdos, num todo orgânico vibrante e mutável.

 

Mas que, ao "contaminar" as funções pessoalizadoras do ego (por fazer na carta astrológica natal aspectos com os planetas "pessoais"), atribui a estas funções as dimensões ou atributos de Mente, sentimento ou Poder Impessoal que na verdade elas não têm.

 

Quando a astrologia tradicional afirmava que os planetas exteriores ou transpessoais (Urano, Netuno e Plutão) não tinham importância alguma na interpretação de uma carta astrológica natal, posto estarem ligados às necessidades de gerações inteiras e não a um indivíduo determinado, isto pertencia a um tempo em que nada se conhecia sobre o inconsciente profundo ou sobre as instâncias, pulsões e funções do psiquismo; hoje, ao contrário, se sabe que tais planetas são muito importantes, especialmente se eles estão em contato direto com os planetas pessoais na carta astrológica natal, por simbolizarem funções egóicas de alguma forma alteradas por conteúdos e impulsos muito mais profundos e potentes, que devem ter encaminhamento adequado pelo indivíduo (muitas destas situações veremos adiante).

 

Antes, entretanto, de vermos como tais pulsões, funções e conteúdos inconscientes se mesclam na prática, definindo a estrutura e a dinâmica do inconsciente de uma pessoa em particular, vejamos outras duas categorias do psiquismo, as funções e as modalidades da consciência.

 

AS FUNÇÕES E AS MODALIDADES DA CONSCIÊNCIA

 

São de quatro tipos e duas modalidades as funções da consciência humana — as quais, como seu nome já o diz, servem para permitir que a consciência humana se exerça sobre os dados da realidade disponível.

Porque nenhum dado da realidade parece ter para alguém uma importância genuína, enquanto não estiver na sua consciência!

 

De um lado, temos as funções intuição, sensação, pensamento e sentimento; de outro, as modalidades Introversão e Extroversão.

Elas são independentes umas das outras, não se convertem entre si (uma não se torna outra ou vice-versa) e nenhuma delas é mais importante do que outra, pois todas são apenas formas diferentes de utilização da energia psíquica no trabalho de alargar o campo egóico de consciência.

 

Como exemplo, pense em audição, visão e paladar: tais modalidades da experiência sensorial são funções independentes umas das outras, não se convertem entre si e nenhuma é mais importante do que outra; cada uma tem seu papel, embora todas dependam da mesma fonte de energia, a libido.

 

Assim também com as funções da consciência, que atuam no contato entre o ego e a realidade externa ou interna (eventos, objetos, outras pessoas e circunstâncias) ou entre a realidade interna da pessoa (os diferentes estados de todo o composto psicossomático, tais como emoções, sensações corporais, pensamentos etc.).

 

Vejamos, então, as primeiras.

 

Toda pessoa tenta se orientar conscientemente na vida de acordo com aquilo de que toma conhecimento.

 

Para isto,

1. ela tem sensações: percebe a existência de algo, através dos sentidos;

2. ela pensa: define para si mesma o que foi percebido, compondo um "quadro mental da realidade";

3. ela tem sentimentos: valoriza o percebido e o pensado, atribuindo-lhe valores afetivos (bom ou mau, agradável ou desagradável etc.) e se dispondo a aceitar ou rejeitar o sentido ou pensado;

4. ela intui: percebe, através dos detalhes do percebido, para qual direção o fato ou acontecimento se orienta.

 

As funções sensação e intuição são irracionais, isto é, não dependem de julgamento algum e trabalham apenas com o que está dado à percepção; já as funções sentimento e pensamento são racionais, pois avaliam e julgam o que está dado à consciência.

 

Duas observações:

1. A intuição de que se fala aqui, dentro da visão junguiana da psique humana, nada tem a ver com "percepção paranormal da realidade", como já vimos ao discutir rapidamente Urano e Netuno; ao contrário, diz respeito a uma função da consciência que existe em todas as psiques e, de certo modo, às vezes mais, às vezes menos, está disponível para todas as pessoas, tendo por objetivo emprestar sentido às minúcias, entrelinhas ou detalhes do que está sendo percebido.

2. Quando as pessoas falam em sentir, indistintamente se referem tanto à função sensação ("eu sinto que está quente") quanto à função sentimento ("eu me sinto bem com ele"); isto exigirá que neste livro eu tenha de parecer repetitivo algumas vezes, ao discutir o psiquismo inconsciente, explicitando se estou me referindo ao "sentir da sensação" ou ao "sentir do sentimento"...

 

Como já dito antes, nenhuma destas funções é mais importante do que outra e todos os seres humanos as utilizam todo o tempo em sua apreensão consciente da realidade; o que varia, isto sim, de pessoa para pessoa, dependendo de sua carga genética, é a combinação destas funções em cada psiquismo individual, levando o indivíduo a utilizar predominantemente uma ou outra em seu dia-a-dia, de acordo com seu próprio tipo psicológico.

 

Por fim, vejamos as duas modalidades da consciência, a Introversão e a Extroversão — apenas recordando que, para a Psicologia, extroversão não significa ser "alegre, divertido, falante, piadista ou brincalhão", como supõe o senso comum, nem introversão significa ser "tímido, quieto, pouco expansivo ou reservado".

 

A energia psíquica posta à disposição da consciência se movimenta com mais naturalidade, dependendo do tipo psicológico da pessoa, na direção da realidade externa ou da sua própria realidade interna, tornando-a uma pessoa respectivamente extrovertida ou introvertida.

 

Dito de outra forma, dependendo de sua carga genética o indivíduo tende a perceber o que está à própria volta (a realidade externa) com mais facilidade, se for predominantemente extrovertido; pela mesma razão, se for predominantemente introvertido, ele "naturalmente" dará mais atenção ao que percebe dentro de si mesmo.

Usando uma metáfora óptica, é como se o extrovertido tivesse um "periscópio mais potente do que o endoscópio", ao passo que com o introvertido dá-se o inverso, levando um e outro a privilegiar — por perceber com mais facilidade ou maior clareza — os dados disponíveis em um ou outro nível de realidade, a externa ou a interna...

Analisado isto tudo, então, vejamos o que uma entrevista de análise clínica de carta astrológica natal oferece a quem dela se vale como recurso de diagnóstico de personalidade, de auto-conhecimento e de alteração de formas pessoais de comportamento tidas pelo próprio indivíduo como inadequadas ou indesejáveis.

 

ALGUNS PROBLEMAS DO COMPORTAMENTO HUMANO, ANALISADOS ATRAVÉS DA ASTROLOGIA CLÍNICA

 

Diferentes astrólogos profissionais praticam distintas estratégias devolutivas, em geral desenvolvidas e aprimoradas no correr da vida e alteradas sempre que assim se mostrar necessário.

Mas como o momento da entrevista devolutiva clínica também depende sempre do seu próprio perfil individual, o profissional imprime características pessoais à forma como conduz a entrevista — mais rápido ou mais lentificado, mais metafórico ou mais objetivo, mais intenso ou mais suave na abordagem, mais aberto ou mais refratário a questões levantadas pelo cliente e assim por diante; assim, só posso aqui expor principalmente minha forma pessoal de conduzir uma entrevista devolutiva de análise clínica de carta astrológica natal, para que você tenha uma idéia de como é a dinâmica de um momento como este e qual tipo de discussão pode se estabelecer.

 

Como já expliquei atrás, no capítulo 4, eu me coloco entre aqueles profissionais que estruturam a entrevista devolutiva de forma a transmitir ao cliente, de uma vez só, o máximo possível de informações que sua carta astrológica natal permita perceber, de modo a que ele possa "se trabalhar" da forma mais vasta e profunda possível a partir de nosso encontro, quer através de uma relação de ajuda psicoterapêutica, quer com o concurso de outras técnicas auxiliares de integração psicoemocional.

 

Assim, desde o início de minhas atividades — e com base em técnicas de estruturação de entrevistas devolutivas psicodiagnósticas —, optei por distribuir o conjunto integral de informações oferecidas pela carta astrológica natal em dois blocos distintos encadeados, para passo a passo discuti-las com o cliente: traços estruturais de personalidade (aqueles que dependem diretamente de sua herança genética) e traços conjunturais de personalidade (aqueles que passaram a vigorar em seu inconsciente a partir de pressões modelares exercidas pelo meio ambiente, a sua "conjuntura de primeira infância").

 

Dos traços conjunturais de personalidade, acredito ser importante definir quais foram absorvidos da figura feminina predominante no meio ambiente e quais foram introjetados a partir da figura masculina predominante no meio ambiente (em geral mãe e pai, embora possa ter havido a influência de avós ou avôs, tias ou tios, irmãs ou irmãos mais velhos, madrasta ou padrasto etc.), para que o cliente, então, de posse de tais dados, possa compreender de quais situações se originam inúmeros de seus comportamentos compulsivos, afastando-o da possibilidade de exercer os seus potenciais pessoais e viver suas próprias características.

 

Esta separação entre traços estruturais e conjunturais de personalidade é apenas um recurso didático-explicativo, na verdade, para que o cliente perceba a forma diferente de lidar com cada um destes tipos de traço em seu próprio psiquismo, pois na prática do dia-a-dia o conjunto global de sua estrutura e dinâmica de personalidade será atuada e vivenciada de modo conjunto, "embolado".

 

Entretanto, com tal noção ele já poderá perceber que nem tudo o que via como um "jeitão de ser" é genuinamente seu; muito mais do que imagina foi absorvido do meio ambiente e pode ser "retreinado"...

 

O que ele fará, após a entrevista, é de sua decisão exclusiva; entretanto, ele terá, a partir daí, um precioso material sobre o qual trabalhar, visando um conjunto mais harmonioso (para consigo mesmo) de formas de comportamento externo e interno.

 

(Embora seja minha firme impressão de que toda análise clínica de carta astrológica natal deva ser seguida de algum tipo de trabalho terapêutico de auto-integração, dada a profundidade e a complexidade das modificações que se mostrarão necessárias na estrutura e dinâmica do seu inconsciente, esta é sempre uma decisão que só a ele pertence.)

 

E antes de vermos em detalhes o que virá adiante, cabe registrar o seguinte:

1. Conjunção, Sextil, Trígono, Quadratura, Quincúncio e Oposição são ângulos geométricos formados entre elementos de uma mesma carta astrológica;

2. Os signos podem ser de Fogo, Terra, Ar e Água, pois estes são, Elementos tradicionalmente associados a eles, e Cardeais, Fixos ou Mutáveis, conforme sua Modalidade;

3. Os signos, além disto, podem ser yin ou yang, conforme sua Polaridade

 

Assim, embora este não seja um livro de formação teórica para astrólogos, eu não poderia deixar de utilizar este jargão nas explicações que se seguem.

 

TRAÇOS ESTRUTURAIS DE PERSONALIDADE

Os traços estruturais da personalidade global compõem o que pode ser chamado tipo psicológico e merecem, por parte da pessoa, um minucioso trabalho de "gerenciamento" ou "administração" de suas formas de manifestação.

 

Isto é: já que tais traços estarão sempre presentes no psiquismo daquele indivíduo, pois fazem parte de sua estrutura psíquica mais profunda e não são em si positivos nem negativos, o desafio é aprender a lidar com suas formas de manifestação de modo mais adequado do que até então.

Imagine alguém que nasça portador de um psiquismo naturalmente mais extrovertido do que introvertido (mais planetas acima do que abaixo do Horizonte de sua carta astrológica natal); esta pessoa deve ser reforçada a prestar mais atenção aos seus conteúdos internos, pois facilmente percebe o que está no meio ambiente e crê estar de posse de todos os dados necessários para uma correta avaliação da situação, sem perceber com clareza o que lhe anda "por dentro" em sentimentos, pensamentos e sensações. Já alguém predominantemente introvertido atua ao contrário: lidando com situações objetivas principalmente a partir do que identifica em seu próprio mundo interior, dada a maior facilidade em dirigir a consciência para o seu campo de referenciais internos, com freqüência exagera ou diminui a importância real do objeto ou do evento externo por mal perceber o que está ocorrendo no meio ambiente.

 

Pode ser alguém predominantemente intuitivo (muitos planetas em signos de Fogo): então, percebendo com extrema facilidade o que os outros querem ou sentem, crê que todos têm a mesma facilidade de percepção e poucas vezes fala de si mesmo. Esta pessoa deverá ser reforçada a dizer de si à exaustão, correndo o risco de parecer óbvia — pois, pelo menos, terá então a certeza de o outro estar ciente do que lhe passa por dentro! Mas se for uma pessoa com a função intuição pouco desenvolvida, terá de ser reforçada a não demandar tão excessivamente (como provavelmente vem fazendo...) repetidas manifestações explícitas de carinho, consideração ou respeito por parte do meio ambiente, pois provavelmente ela é que não consegue perceber com facilidade e julga não recebê-las.

 

Pode ser alguém com predominância de função sensação (muitos planetas em signos de Terra) e, dada a facilidade com que se conecta com os próprios núcleos internos de estabilidade, deverá ser reforçada a rever a posição freqüente de "auto-suficiência presumida" que a faz abrir mão de aspectos mais difíceis da realidade para "não ter de engolir sapos". "Eu não preciso disto", é sua afirmação constante, ao contrário de quem tem esta função pouco acessível à consciência: este segundo caso indica alguém que crê necessitar tanto de pontos externos de suposta estabilidade (conta bancária, emprego, rotinas do dia-a-dia, certa relação pessoal etc.), que acredita que se desequilibrará se abrir mão deles, mesmo quando não a satisfaçam.

 

Ou talvez seja uma pessoa com predominância da função pensamento (muitos planetas em signos de Ar) e tenha uma extrema facilidade de transformar em raciocínios tudo com o que se envolve; se por um lado isto costuma apontar o autodidata por excelência, em geral sugere a necessidade de aprender a utilizar mais vezes as outras funções da consciência (até porque a função pensamento é excessivamente valorizada em nossa cultura...). Se, entretanto, a pessoa tiver escasso acesso a esta função da consciência, o que por si só muitas vezes gera uma vaga "sensação de burrice", ela deve ser reforçada a avaliar mais objetivamente o seu desempenho intelectual, pois pode estar se considerando menos competente do que realmente é.

 

E pode também ser um indivíduo que tenha enorme facilidade de se conectar com o mundo através de sua função sentimento (muitos planetas em signos de água): com freqüência ele acredita estar tão à mercê dos próprios sentimentos, que prefere manter-se à distância de situações de forte envolvimento emocional! Mas se a carta astrológica natal oferecer indicativos de uma dificuldade maior em se conscientizar dos próprios sentimentos, ele deve ser reforçado a não entrar em situações nas quais a "emoção forte" é o único suposto benefício: é que ele preferirá tal tipo de situação, pois um sentimento intenso pode ser percebido com muito mais clareza, seja agradável ou desagradável... e mesmo quando nada mais a situação tenha a lhe oferecer!

 

Da mesma forma, mas de modo acentuado, a pessoa poderá apresentar em sua carta astrológica natal o que é chamado um Grande Trígono, seja ele de Fogo, Terra, Ar ou Água (um triângulo eqüilátero formado por três ou mais planetas localizados em signos de um mesmo Elemento e que mantêm entre si respectivas relações angulares de 120o): isto indicará no psiquismo do indivíduo uma marcada predominância da função simbolizada por aquele Elemento (Fogo/intuição, Terra/sensação, Ar/pensamento e Água/sentimento), merecendo uma breve discussão e um aprendizado sobre como atuar na vida também a partir das outras funções da consciência.

 

A carta astrológica natal pode indicar um acúmulo de planetas em signos Cardeais e apontará uma pessoa para quem uma alta taxa de desgaste físico-muscular é fundamental todo o tempo, dada a facilidade de reposição de energias a serviço das atividades orgânicas e mentais: tão mais ela tenha um dia-a-dia sedentário, mais ela se sentirá tensionada, irrascível e impaciente, pronta para explodir; se o acúmulo for de planetas em signos Fixos, um estável núcleo interno de autocentramento se transformará com facilidade em obstinação e teimosia, merecendo minuciosa avaliação quando necessário; e se o acúmulo for de planetas em signos Mutáveis, uma natural inclinação a se envolver em tarefas partilhadas facilmente inclinará a pessoa a freqüentemente aceitar tarefas que são dos outros, com base num impulsivo "pode deixar que eu faço...".

 

Por fim, o balanceamento yin e yang da carta astrológica natal (quantidade de planetas em signos yin e yang, bem como a localização, por signo, do Sol, da Lua e do Ascendente) indicará ao astrólogo clínico a natural inclinação da pessoa em privilegiar na vida as funções do hemisfério cerebral direito ou do esquerdo, responsáveis, respectivamente, pelas "funções yin" e "funções yang" da psique. É que todos os seres humanos possuem ambos os tipos de função em seu psiquismo (que prefiro denominar yin ou yang e não "femininas" ou "masculinas", pois não se trata de posição sexista) e depende da maior inclinação natural em utilizar um ou outro agrupamento de funções o fato de a pessoa (independente de seu sexo biológico) ser mais "feminina" ou mais "masculina" em sua forma geral de lidar com a vida e consigo.

 

Este é um aspecto fundamental a discutir com o cliente, quando necessário, já que nossa cultura exige de homens e mulheres papéis sociais excessivamente rígidos e diferenciados, podendo provocar severas dificuldades de construção de auto-imagem positiva em quem se diferenciar naturalmente das atitudes e dos papéis sociais esperados de seu sexo biológico (porque definidos culturalmente).

 

Para ilustrar melhor, veja o quadro abaixo, no qual estão indicadas algumas das principais funções yin e yang do psiquismo humano, apenas recordando que elas são opostas e complementares entre si e habitam todo psiquismo, tanto em homens quanto em mulheres:

 

Funções yin Funções yang

Raciocínio intuitivo analógico Raciocínio lógico-dedutivo

Desejo de manter o conquistado Desejo de conquistar

Síntese por analogias Separação por diferenças

Receptividade centrípeta Assertividade centrífuga

Valorização emocional Valorização conceitual

Predomínio do concreto Predomínio do abstrato

 

Imagine, então, por exemplo, um homem que possua uma carta astrológica natal "mais" yin do que a média dos homens de seu meio ambiente cultural: ele se mostrará desde bebê bem mais emocional, mais intuitivo e mais sentimental do que o modelo masculino de sua cultura, podendo acreditar-se afeminado ou inseguro de sua própria masculinidade; em contrapartida, suponha uma mulher que apresente uma carta astrológica natal "mais" yang do que o modelo feminino valorizado por seu meio ambiente cultural: desde bebê ela se mostrará mais racional, mais "agressiva" e mais lógica do que o modelo feminino de sua cultura, podendo acreditar-se masculinizada ou pouco feminil.

 

Casos como estes, se não bem entendidos e aceitos internamente, podem levar a pessoa ao comprometimento de sua auto-imagem e até mesmo a severos desequilíbrios hormonais, com pesados problemas de hipófise, tireóide e gônadas (componentes básicas do sistema endócrino envolvido com a produção de hormônios masculinos e femininos e com a definição de traços sexuais secundários como a distribuição de pelagem ou de massa corporal e o timbre de voz, entre outros).

 

TRAÇOS CONJUNTURAIS DE PERSONALIDADE

 

Já os traços conjunturais da personalidade global, sempre derivados de modelos precocemente apresentados pelo meio ambiente à criança, devem merecer outra estratégia de resolução: ao invés de apenas aprender a "gerenciar" ou "administrar" uma real característica pessoal, o indivíduo deve se dispor a se "reprogramar" emocionalmente, gradativamente desmobilizando as matrizes inconscientes de comportamento que foram condicionadas pelos modelos feminino, masculino e relacional atuados em sua casa natal.

Porque tais matrizes sempre afetam o desempenho global do indivíduo, cobrando um alto preço em praticamente todas as áreas de atividade pessoal, da afetividade à espiritualidade, da manifestação criativa à sensualidade, do desempenho intelectual a uma vivência mais plena e prazenteira da sexualidade.

 

Retomemos o raciocínio que explica a origem das matrizes inconscientes de comportamento de uma pessoa: nascida com inclinação natural a determinadas formas básicas de comportamento, devido a seu tipo psicológico altamente individualizado (todos os seres humanos, por mais diferentes que pareçam, portam traços básicos análogos de constituição psicossomática, característicos da espécie), a criança imediatamente passa a conviver com um determinado modelo de "pai" e de "mãe", fruto de como ambos estão naquele momento de sua vida, da qualidade de sua inter-relação pessoal e do tipo de relação que mantêm com a criança.

Será do percebido no comportamento global paterno e materno que a criança estruturará aquilo que a Psicologia chama de imago materna e imago paterna, as imagens parentais básicas formadas durante o período infantil, associadas às emoções e sentimentos da infância e posteriormente reprimidas no inconsciente.

Muitas vezes desenvolvidas dentro de um ambiente — pouco importa o que mãe e pai afirmem sobre "franqueza", "honestidade", "educação infantil" e "vida familiar" — como belamente o reproduz o psiquiatra inglês R.D.Laing em seu livro Laços:

"Eles estão jogando o jogo deles.

Eles estão jogando de não jogar um jogo.

Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão,

quebrarei as regras do seu jogo

e receberei a sua punição.

O que eu devo, pois, é jogar o jogo deles,

o jogo de não ver o jogo que eles jogam".

 

Mais adiante, iniciada a sua socialização (escola, amiguinhos de folguedo, parentes de idade análoga, companheiros de interesses etc.), a criança estará vivendo experiências que farão ressoar as memórias emocionais da primeira infância, "reafirmando-as" e acreditando que "sempre será assim"; gradativamente nela se instala um certo fatalismo imobilista, pois sem o saber a pessoa selecionará, dentro do conjunto geral de situações possíveis no meio ambiente, aquelas que mais de perto ecoem as cenas da primeira infância (no que diz respeito ao conteúdo emocional e sentimental lá vivido), tentando compulsivamente reviver tipos de emoção e sentimento análogos aos que eram vividos na casa original.

 

Se a criança é uma menina, quando adulta utilizará o conteúdo de sua imago materna para modelar inconscientemente a própria auto-imagem, utilizando o conteúdo de sua imago paterna para pré-definir o tipo de homens de que se aproximará e o tipo de relações que terá com eles; se for menino, dar-se-á o inverso.

 

Desta forma, garante-se a reprodutibilidade das mesmas experiências emocionais básicas...

 

A única forma de romper este ciclo vicioso ("eu-atraio-situações-que-me- produzem-sentimentos-parecidos-com-os-vividos-na-minha-casa-de-infância, -como-forma-de-eu-me-certificar-de-que-a-realidade-natural-é-esta,-com-isto -me-reforçando-a-buscar-mais-uma-vez-situações-com-este-contorno-por-toda- a-minha-vida,-mesmo-que-eu-me-diga-não-querer!") é reviver as emoções e sentimentos originalmente vivenciados e, desta forma, se livrar das cargas emocionais e afetivas que atuam compulsivamente a partir do inconsciente, roubando da pessoa o controle consciente sobre o seu próprio comportamento.

 

Para isto, o indivíduo praticamente não tem outra alternativa a não ser realizar algum tipo de trabalho de auto-conhecimento e modificação interna, visando identificar quais modelos de comportamento lhe foram apresentados (as formas de pensar, sentir, querer e agir) e, destes, quais conscientemente deseja manter em sua vida atual; então, e visando responder a algumas das principais questões que a pessoa vem se fazendo, a análise clínica de sua carta astrológica é recurso precioso.

 

Veremos a seguir algumas destas principais questões — dentre muitas —, as quais, de uma ou de outra maneira, afetam diferentemente inúmeras pessoas e abalam vigorosamente sua real possibilidade de ser feliz.

 

Este livro não pretende ser um "manual de interpretação" de cartas astrológicas natais, mas bem pouco eu poderia dizer se não lançasse mão do simbolismo astrológico; agora, as noções que vimos atrás — o significado simbólico dos planetas e dos aspectos, bem como princípios de teoria psicológica — poderão ter para você uma significação mais ampla, à medida que situações humanas comuns como as que veremos a seguir puderem ser identificadas.

 

Peço a você também que recorde um conceito básico de Psicologia tantas vezes mencionado até aqui: nenhum fenômeno psíquico tem uma origem única, nenhum comportamento humano é motivado por uma causa apenas! Da mesma maneira, nenhum aspecto da dinâmica ou da estrutura de personalidade identificado por uma carta astrológica natal deriva de apenas um, e só um, de seus componentes.

 

Por esta razão a análise clínica de uma carta astrológica natal deve contemplar sempre a totalidade da carta, já que os exemplos de situações possíveis que veremos a seguir podem ser reforçados ou atenuados por outros dados da mesma carta, que o astrólogo clínico identificará e analisará num amplo contexto.

 

Devo salientar que, para não me estender demais, deliberadamente não discuti neste livro o significado dos Signos, das Casas astrológicas e de outros símbolos também presentes em uma carta astrológica natal: tais significados são fundamentais para uma análise acurada e profissional astrológica, mas para isto você terá de estudar — e bastante!

 

POR QUE MINHA AUTO-ESTIMA VIVE TÃO ABALADA?

 

Não são poucas as pessoas que se queixam de uma sensação vaga e imprecisa de abalo de auto-estima, mesmo quando são bem sucedidas em seus múltiplos papéis; isto em geral as coloca numa roda-viva de necessidade de se afirmar, por mais que tenham sucesso, não lhes permitindo descanso nem momentos de relaxamento maior.

Quando, por exemplo, em uma carta astrológica natal o Sol da pessoa recebe uma Conjunção, Quadratura ou oposição de Saturno, desenvolve-se dentro dela, desde a primeira infância, uma pesada sensação de estar fazendo algo errado ou censurável pelo simples fato de existir; este dado também nos informa que provavelmente o pai desta criança exigia dela um rígido desempenho global, na mesma medida em que fora dele exigido, não dando à criança oportunidade de desenvolver uma postura interna de otimismo e crença na vida e em si mesma.

 

Como resultado, estruturou-se nela um vigoroso superego, razão pela qual no futuro, mesmo quando pudesse ou desejasse, sempre carregaria a pesada sensação de "estar sendo vigiada" e poder ser alvo, a qualquer momento, de pesadas acusações de incapacidade (as Casas astrológicas envolvidas relatarão em detalhes a intensidade da cobrança e as áreas de atividade mais diretamente penalizadas).

 

Outras vezes, esta sensação de auto-estima abalada provém de outra história: se a carta da pessoa mostrar uma Quadratura entre Marte e Lua, pode-se ter verificado uma pesada rejeição materna à gravidez e, como conseqüência, desde a fase intra-uterina a criança foi obrigada a conviver com pesados sentimentos de rejeição pelo simples fato de existir. Pior ainda se esta mesma carta apresentar uma Quadratura ou oposição entre Plutão e Marte: muito provavelmente a mãe tentou um aborto ou ao menos desejou ardentemente efetivá-lo, instalando no psiquismo do feto pesadas ameaças de morte, além dos sentimentos de rejeição.

 

Outra carta astrológica natal poderia mostrar o Sol recebendo uma Quadratura de Marte, num cenário doméstico (indicado por outros dados) no qual o pai não está feliz consigo mesmo; se é carta de uma mulher, muito provavelmente este pai desejava um filho e rejeitava pesadamente a filha "pela simples razão dela ser mulher"!

 

Aliás, se a carta astrológica natal é de uma mulher, quaisquer "ataques" à Lua ou a Vênus (quadraturas e oposições de Marte, Saturno, Júpiter e Urano, ou Lua e Vênus em Quadratura ou oposição entre si) abalam vigorosamente sua noção interior de feminilidade e, por conseqüência, sua auto-estima (posto que ela se identifica externamente como mulher mas internamente não confia em si mesma); por sua vez, se a carta é de um homem, quaisquer "ataques" contra o Sol, Marte e mesmo Júpiter podem instalar sentimentos análogos em relação à própria masculinidade.

 

Isto para não falar de sentimentos derivados da pressão do meio contra a vivência de algum dos traços estruturais de personalidade que vimos no início deste capítulo: por exemplo, imagine uma menina que desde cedo se perceba "mais moleque" do que suas amiguinhas e, graças a isto, já que nossa cultura não aceita que uma menina tenha comportamento mais "guerreiro", julgue-se incompetente em sua feminilidade. Ou um homem que desde garoto se recuse a jogos de maior agressividade e seja repetidamente acusado de "frescura" ou "bichice"... Ambos poderão desenvolver pesados sentimentos de inadequação sexual, atuados através da homossexualidade ou através do exagero compensatório de seus papéis sociais femininos e masculinos, respectivamente.

 

Por vezes, basta que a pessoa tenha se identificado em demasia com a figura parental do mesmo sexo e, caso a carta astrológica natal nos garanta, tal figura tenha sido uma "perdedora": muito provavelmente, quando adulto este indivíduo carregará pesados sentimentos de ser também um perdedor!

 

As situações são inúmeras, as causas são sempre complexas e não se esgotam em um ou outro aspecto apenas da carta astrológica natal; o importante, na verdade, é que você poderá entender as razões de tais sentimentos e, de posse deste conhecimento, trabalhar no sentido de alterar o conjunto de memórias inconscientes que os mantêm.

 

ASSERTIVIDADE: O QUE FAZER PARA PODER DIZER NÃO?

 

Esta é outra questão central para muita gente: a dificuldade em fazer valer a própria opinião, dizendo sim quando tenha vontade ou negando se assim lhe parecer adequado.

Voltemos à noção de assertividade que vimos no capítulo anterior e tentemos entender o que provavelmente se passa com esta pessoa, pois nem sempre se trata de alguém que faz o "jogo do bonzinho", como se supõe...

 

Toda criança, desde os primeiros dias de sua vida, busca manifestar ao meio ambiente seus desejos pessoais mais íntimos, sejam eles quais forem; desta maneira, exercita a própria assertividade, afirmando para os outros o que quer ou não, num treino da futura força de vontadevontade: à medida que se manifesta abertamente para o meio ambiente e percebe os efeitos desta manifestação, sendo aceita ou não e sendo punida ou recompensada, ela vai aprendendo a lidar com a própria força de vontade, aos poucos desenvolvendo um sistema de auto-regulação e vindo a se tornar o que costumamos chamar um adulto equilibrado e "firme".

Entretanto, se desde pequena sua possibilidade de manifestação assertiva é barrada, quer através de pressão excessiva do meio, quer em função de punições que receba em demasia, esta criança vai como que se acovardando, presa da suposição interna de nunca ser conveniente expor-se e a seus desejos.

 

Obviamente isto produz na criança pesados sentimentos de raiva — em última instância, sempre derivados de manifestações de si mesma que não puderam se expressar — e, por isto, quando tem oportunidade ou a pressão interna se torna insuportável, ela estoura em manifestações de agressividade incontida: "agora-que-eu-posso,-eu-vou-e-mando!", "eu-já-disse-que-eu-quero-e-pronto-e-acabou!", "eu-quero-assim-e -como-é-assim-que-eu-quero,-é-assim-que-vai-ser!".

 

Passando a daí por diante manifestar um perfil que não poucas vezes eu costumo chamar de "gangorra de passividade-pancadaria": com freqüência e inexplicavelmente hesita em se manifestar, mesmo quando é preciso ou tem todo o direito, para em outros instantes dar vazas à própria assertividade em manifestações desproporcionais de afirmação de si mesma (crueldade impositiva, agressões físicas desnecessárias, voluntarismo infantilizado, desavenças constantes etc.).

 

Não que a criança precise crescer num mundo onde não haja limites à sua vontade ou desejos; aliás, isto mais adoece que ajuda, na verdade! O necessário é que o meio ambiente seja equilibrado no estabelecimento de limites à possibilidade dela se manifestar, ajudando-a a lidar adequadamente com a própria assertividade e gradativamente levando-a a estabelecer regras adequadas de convívio entre si mesma e os outros.

 

Mas basta um Marte em Capricórnio, por exemplo, ou uma Conjunção, Quadratura ou oposição de Saturno a Marte para que a carta astrológica natal de uma pessoa possa nos apontar uma primeira infância onde as suas manifestações de assertividade eram sempre pesadamente contidas, eventualmente até mesmo punidas com excessivo rigor (quadraturas e oposições) , fazendo com que a criança se intimidasse e retivesse no inconsciente a suposição de que toda figura de autoridade está contra ela, em princípio... Futuramente, o convívio com pais, professores, chefes, autoridades e superiores de qualquer natureza se transforma em pesado conflito, pois sua suposição inconsciente é a de que "tentarão mais uma vez, como tantas, bloquear sua iniciativa, força de vontade e busca de satisfação de desejos".

 

Por falar em iniciativa, este quadro piora muito se esta mesma carta astrológica natal mostrar um Ascendente ou Sol em áries ou um Marte ou Áries proeminente: arrojo e iniciativa, traços naturais e profundos de seu psiquismo, provavelmente foram desde cedo excessivamente abafados, merecendo um delicado trabalho futuro de liberação e recobro de espontaneidade para uma mais fácil atuação em situações que exijam manifestação de si mesma e de sua vontade.

 

Não nos esqueçamos de que, num caso como este, e em outros tantos, a regra continua válida: presa da suposição de que toda figura de autoridade impedirá sua manifestação de vontade própria, a pessoa termina agindo de forma a produzir este comportamento nas pessoas que a rodeiam ou a atrair para seu convívio pessoas que tenham este perfil impositivo — para mais uma vez reviver os profundos ressentimentos que guarda em seu inconsciente desde a infância e se certificar de que a única forma de garantir espaço no mundo é a "pancadaria".

 

Outras vezes, todavia, a dificuldade maior está em assumir e expor sentimentos, estejam eles de acordo ou não com a outra pessoa com quem se relacione; é o caso de alguém que sente dificuldade em manifestar amor ou compreensão, mesmo em situações nas quais tal expressão é desejada e até esperada! Aí, temos outro desenho interno, o qual não necessariamente indica um comprometimento de assertividade; tanto é assim que, em situações de baixa tonalidade emocional, esta pessoa se afirma com facilidade e claramente expõe o que deseja, pensa ou quer, na defesa de seus projetos e espaço pessoal.

 

Casos como estes costumam derivar muito mais da existência de impedimentos na primeira infância contra a espontaneidade emocional da criança, levando-a futuramente a ponderar em demasia a manifestação de todo sentimento ou emoção — muitas vezes a ponto de até mesmo perder contato consciente com eles e viver com freqüência o que poderia ser chamado de indiferenciação emocional: "o que estou vivendo agora? será afeto ou tesão? raiva ou medo? indiferença ou cautela?".

 

Da mesma forma como com a assertividade, a criança necessita expor ao meio suas diferentes vivências internas emocionais ou sentimentais, para reconhecer-se a si própria através de suas emoções ou sentimentos expostos e, ao mesmo tempo, estabelecer laços afetivos com os que a rodeiam; se o meio ambiente à sua volta, porém, é demasiadamente impeditivo de suas manifestações emocionais, às vezes por uma moral excessivamente estreita, sentida como hostil, outras vezes pela dificuldade dos adultos de expressarem livremente as próprias emoções, sentindo-se desafiados pela naturalidade infantil e se mostrando, então, refratários, a criança desde muito pequena aprende que não deve expor espontaneamente o que sente: medo, alegria, tristeza, ansiedade ou outro natural sentimento qualquer.

Ela se recolhe dentro de si mesma, no máximo extravasa com seus brinquedos, irmãos ou coleguinhas e futuramente, quando não houver mais brinquedos ou a troca de emoções com outras pessoas se tornar "responsável" demais (por envolver papéis sociais adultos), ela gradativamente perderá contato com os próprios sentimentos; instala-se nela um perfil melancólico e depressivo, descrente da possibilidade de ser feliz emocionalmente e superado apenas em momentos onde "fortes emoções" (geralmente as "proibidas") parecem lhe devolver a alegria de viver.

 

Quase sempre este quadro é encontrado na primeira infância de uma pessoa cuja carta astrológica natal apresente uma Lua em Capricórnio ou um Saturno em qualquer aspecto com a Lua (a força dos bloqueios originais dependerá do aspecto observado): a casa privilegiava o dever ("primeiro o dever, depois o prazer"), punia ou pelo menos impedia as manifestações emocionais infantis mais espontâneas ("comporte-se desta forma!", "você não deve sentir isto..." ou "uma criança boazinha não reage assim!") e atuava de forma a manter sob severo controle quase qualquer possibilidade da criança de reagir segundo suas próprias emoções ou sentimentos.

 

Se a carta astrológica natal apresentar uma Quadratura ou oposição de Marte à Lua, quase certamente a agressão física (às vezes sádica, se também houver aspectos de Urano envolvidos) acompanhava este quadro geral de impedimentos à livre emocionalidade infantil; e se Mercúrio estiver oposto ou quadrado à Lua, quase com certeza a criança era pesadamente levada a nem manifestar verbalmente o que sentia (lavar sua boca com sabão ou passar pimenta na sua língua são típicas manifestações cruéis desta última possibilidade).

 

Vários podem ser os indicativos astrológicos de tal quadro de bloqueio emocional em função das experiências de primeira infância, levando a pessoa a buscar parceiros ou parceiras (para as mais diferentes relações) que apresentem o que é chamado pela Psicologia de forte labilidade emocional (do latim labile, transitório, passageiro, instável): oscilação excessiva nas próprias manifestações emocionais, tendência a "ver dramas em tudo" e exageros freqüentes em reações, como única forma de viver a intensa emocionalidade que está bloqueada no inconsciente e precisa de estímulo externo para ser liberada.

 

À medida que esta pessoa possa reviver as cenas primárias (as cenas de primeira infância) que estiveram ligadas aos bloqueios emocionais e, assim, se livre das memórias desagradáveis associadas a estes momentos, ela recupera a possibilidade de manifestar mais livremente o que sente e ser, portanto, mais espontânea emocionalmente; isto é um trabalho que dificilmente chega a seu término sem ajuda especializada (terapia, por exemplo), dada a delicadeza dos aspectos envolvidos, mas deve ser encarada, por quem sinta tal dificuldade, como tarefa central na reconstrução de si mesmo.

 

COMO LIDAR BEM COM MINHA AFETIVIDADE?

 

Estabelecer e manter relações afetivas é atribuição psíquica ligada ao que Vênus simboliza; então, todo comprometimento de Vênus em carta astrológica natal de uma pessoa nos indicará dificuldades em viver ou manifestar a própria afetividade.

Imagine uma criança cuja mãe manifestava uma acentuada labilidade na manutenção de laços afetivos: alternava amigos com a mesma facilidade com que trocava de roupa, oscilava excessivamente nas suas formas de manifestar afeto para familiares ou mesmo para a criança, eventualmente apresentava diferentes e seguidos parceiros afetivos com o correr do tempo e assim por diante; provavelmente esta criança cresceu com a mensagem inconscientemente gravada de que o "normal" é ser oscilante demais em seus próprios laços afetivos ou que o ideal é viver seus afetos como num carrossel de cavalinhos: sobe um, desce outro, desce um, sobre outro, numa interminável, repetitiva e desgastante melodia...

 

Este é o quadro mais possível, se na carta astrológica natal de uma mulher vemos uma Quadratura entre Júpiter e Vênus, ou entre Vênus e Urano, mas se outra carta feminina nos mostrar o Sol conjunto a Vênus, ou mesmo Vênus em Libra e em algum aspecto com o Sol, o quadro é outro e totalmente distinto: esta segunda mulher provavelmente sente uma necessidade tão intensa de ser satisfeita afetivamente, dada a excessiva prática de sedução paterna recebida na primeira infância (por ser a primeira filha, por terminar sendo o instrumento do pai de produzir ciúmes na mãe ou por haver uma genuína atração afetiva ou mesmo sensual entre pai e filha, entre muitas situações possíveis), que por mais que receba afeto nunca se encontra satisfeita.

 

Vênus em oposição ou Quadratura com Marte já pode nos indicar uma pessoa com forte tendência de buscar parceiros sexuais que não atendam às suas necessidades afetivas, pelo fato de o lar de primeira infância estar sempre absorvido em pesados sentimentos de insatisfação afetiva; como conseqüência, a pessoa buscará freqüentemente quem não a satisfaça, como pretexto para reviver o que muito cedo sofreu.

 

Já um homem cuja Vênus receba um forte aspecto de Netuno idealiza a tal ponto a imagem de mulher, sempre buscando afetos de "dimensões cósmicas" (pelo "atributo netunino emprestado" à sua imagem inconsciente feminina), que mulher alguma estará à altura do que ele julga necessitar! Em geral, tal quadro decorre da imagem excessivamente idealizada de mulher que a mãe desta criança impingia no lar de primeira infância (muitas vezes até como forma de escamotear aspectos de si mesma tidas por ela como inaceitáveis), nem que para isto ela se enganasse (ou mentisse) com freqüência; futuramente, este homem tenderia a buscar mulheres com claros traços de "atriz engajada numa personagem sedutora" (quer mentirosas, quer somente enganadas sobre si próprias, mas sempre muito mais voltadas a desempenhar papéis do que ser si mesmas), as quais serão responsabilizadas por ele pela constante insatisfação afetiva sentida.

 

E se a Vênus da pessoa sofre uma Quadratura ou oposição de Saturno na carta astrológica natal, o que podemos inferir de sua primeira infância é um quadro doméstico no qual repetidas vezes a criança foi afastada de seus objetos de afeto (a boneca predileta que ficou velha e foi jogada fora, um cachorrinho que sujava o carpete e por isto foi mandado embora, o travesseiro que a acompanhava desde muito pequena e foi dado ao filho da empregada ou até mesmo os amigos que mudavam ou a deixavam e nunca mais apareciam); ao mesmo tempo, vemos um lar marcado por profundos sentimentos de desconfiança afetiva, quer por ciúmes excessivos de lado a lado, quer por efetivos episódios de traição de confiança afetiva.

 

Como resultado, desenvolveu-se um adulto com intenso sentimento de que "gostar é o primeiro passo para perder", razão pela qual inclina-se a não se envolver afetivamente de forma genuína (tentando poupar-se, assim, da dor de uma perda, que fará ecoar em seu inconsciente as marcas das inúmeras perdas havidas) ou, perigosamente, a se envolver afetivamente apenas com situações, objetos ou pessoas que "está na cara, serão perdidas".

 

Este tipo de carta astrológica natal costuma indicar com freqüência o indivíduo que exige excessivas garantias afetivas mas não oferece nenhuma, ao mesmo tempo em que sofre de profunda carência: qualquer afeto recebido nunca é vivido como afeto verdadeiro, dada a massa de suspeitas, e por isso nunca sente estar vivendo uma relação genuína ou duradoura - mesmo quando isto é possível! Obviamente, ele atrai ou é atraído por pessoas que mantenham tal estado de coisas, junto às quais o pesado sentimento de dúvida, a dolorida insatisfação afetiva e a quase total impossibilidade de confiança apenas são reforçados.

 

ÀS VEZES ME DÁ UMA "SENSAÇÃO DE BURRICE"...

 

Já esta questão — a qual, por não "doer emocionalmente", muitas vezes passa relativamente desapercebida — vem de outro tipo de cenário doméstico.

(Não nos esqueçamos, porém, de que todos estes problemas podem coexistir simultaneamente em uma mesma pessoa, não sendo mutuamente exclusivos entre si nem próprios de situações vividas apenas por homens ou por mulheres ou só apenas por indivíduos de um determinado estrato social.)

 

Você deve se lembrar que vimos anteriormente o conjunto de atividades intelectivas, ou aquilo que Jung chamava de "instinto de reflexão", como uma característica típica da espécie humana; este instinto está na base do surgimento do sistema intelectual-cognitivo de qualquer pessoa, responsável por sua possibilidade de conceber alternativas mentalmente, atribuir-lhes valores lógicos distintos e trabalhar para viabilizá-las (ou evitá-las).

 

Sem a capacidade de pensamento, a qual em última instância é papel deste sistema, nada do que o ser humano já realizou teria sido possível; provavelmente nem teria havido vivência grupal com o grau de sofisticação que o ser humano apresenta, quando comparado às outras espécies, pois a troca de informações foi fundamental para isto se dar.

 

Pois bem; quando durante a primeira infância o meio ambiente se abate sobre a possibilidade de a criança utilizar adequada e espontaneamente o seu sistema intelectual-cognitivo, responsável por apreender racionalmente o que ocorre à sua volta, cogitar, expor verbalmente ao meio as dúvidas e conclusões que tenha e, das respostas obtidas, tornar a pensar sobre o mundo e as questões que este mundo provoca, o adulto que emerge deste cenário costuma carregar pesadas dúvidas sobre a própria competência intelectual, manifestadas futuramente em inexplicáveis lacunas de conhecimentos (os "brancos de memória"), freqüentes dúvidas sobre a qualidade ou validade de qualquer produto mental seu ou mesmo comportamentos muito oscilantes entre fases de estudo compulsivo (tidas como "típicas de um c.d.f.") e momentos de grande desinteresse por qualquer aprendizado.

 

Para exemplificar, imagine uma criança crescendo numa casa onde vê pouca, ou nenhuma, possibilidade de se exercitar intelectualmente; isto não depende do nível de escolaridade dos adultos da casa, mas, sim, do grau de receptividade que eles manifestem aos pensamentos da criança. Ela pergunta, conclui, levanta questões e desafia as opiniões dos adultos: se for bem aceita, dentro dos limites de seu ainda pequeno conjunto de referenciais de mundo, se sente reforçada a continuar perguntando e afirmando, buscando alargar estes referenciais; sendo mal aceita, contudo, aos poucos vai abandonando as atitudes de expor o próprio pensamento, visando evitar as humilhações e o sentimento de não ter importância que são produzidos por reações como "criança só pensa bobagem!", "você nunca sabe o que diz!", "criança não conversa com gente grande!" e até mesmo "não fique falando sem parar, isto incomoda a gente".

 

Em geral, a carta astrológica natal de uma pessoa que com freqüência é vítima de pesados "sentimentos de burrice" (nem que habilmente mascarados em excessiva loquacidade) indica alguma ligação entre Saturno e Mercúrio, dependendo do aspecto assinalado o grau de dificuldade futura em se sentir (ou mesmo ser) inteligente. É que toda forma de livre-pensar da criança foi seguida de algum tipo de punição ou desconsideração, o que a fez fugir constantemente deste tipo de experiência e mais tarde pagar o preço da dúvida sobre as próprias capacidades intelectivas — sempre assimiladoras do meio ambiente e expositoras de si mesma ao meio.

 

Futuramente, sem conhecer as razões de tais comportamentos, ela se sente inexoravelmente atraída por pessoas cultas e inteligentes (e às vezes nem o são, tanto assim...), embora em meio a estas mesmas pessoas sinta uma imensa timidez em expor o que pensa ou levantar questões; afirma-se pouco à vontade para lidar com questões mais abstratas, dizendo preferir os aspectos práticos da existência, embora inveje profundamente quem consegue se desenvolver intelectualmente; torna-se tagarela "por compensação", visando esconder dos outros o profundo sentimento de "burrice" que a abate, ao mesmo tempo em que desenvolve um comportamento freqüentemente chamado de "duas caras", dada a dificuldade em manter qualquer opinião quando é desafiada a fazê-lo.

 

Além disto, como decorrência destas experiências de primeira infância, muito provavelmente esta pessoa — e isto vale para homens ou mulheres, já que ser inteligente não é atributo de um sexo específico — se comporta com os outros como se não fosse nunca entendida, mesmo quando isto não ocorre, sendo ríspida ou dogmática em demasia em suas opiniões, "para impedir que rejeitem a priori o que ela tem a dizer"... Graças a isto reproduz situações que confirmam suas suposições inconscientes moldadas quando criança, dificultando a comunicação com os outros mas os acusando pesadamente por isto.

 

Desbloqueando os sentimentos doloridos que estiveram por muito tempo ligados ao ato ou ao fato de se expressar, esta pessoa poderá resgatar uma maior tranqüilidade em se comunicar com os outros e em expor idéias, ampliando sua possibilidade de convívio e de crescimento pessoal.

 

SOU OU NÃO UMA PESSOA CRIATIVA?

 

Nossa cultura há muito tempo tenta nos convencer de que criatividade é somente a manifestação de "absoluta originalidade", em geral mais diretamente ligada a alguma área artística específica (pintura, escultura, música, dança, literatura, cinema, fotografia, teatro etc.), com isto garantindo que ninguém tente criar a própria vida!

O dominicano e pensador italiano Giordano Bruno, por exemplo, foi queimado pela Santa Inquisição em fevereiro de 1600 por denominar o ser humano de homus homini faber, isto é, o ser que se faz a si mesmo: com isto, ele contrariava o pensamento da Igreja Católica no sentido de que o homem havia sido feito por Deus e, por isto, não poderia nunca transformar a si mesmo.

 

ANTES DE PROSSEGUIR A LEITURA, PENSE UM POUCO NO QUE VOCÊ ACABOU DE LER...VOCÊ CONSEGUE IMAGINAR QUANTO DE CRIATIVIDADE HUMANA JÁ SE DESPERDIÇOU EM NOME DE ATITUDES COMO ESTA???

 

É que em todas as épocas, e através das mais variadas formas, tentou-se limitar a criatividade humana por uma única e simples razão: o indivíduo criativo termina sempre por expor sua própria maneira de ser e agir no mundo, afastando-se em alguma medida do que o grupo acha adequado e conveniente; assim, para manter estável e previsível qualquer estado de coisas, como forma de melhor controlá-lo, as manifestações de criatividade pessoal sempre tiveram de ser impedidas ou, no mínimo, vigiadas.

Acontece que a criança, assim como a essência humana, não tem qualquer compromisso natural com o estabelecido ou sistematizado pelo outro ou pelo coletivo; desta forma, ela busca (re)construir o mundo à sua própria maneira e vontade, segundo suas necessidades e inclinações individuais, sempre que possa. Para isto, tenta redispor os elementos do mundo, rearranjá-los em nova forma, descobrir novas funções para os objetos já existentes e até mesmo revirar-lhes as entranhas, à busca de compreensão do porquê das coisas.

 

Ela desmonta brinquedos, investiga processos, fabrica utensílios, renomeia objetos e monta novos cenários com coisas velhas do dia-a-dia, participando ativamente de alguma (re)construção do mundo; além disto, quando é naturalmente dotada de alguma capacidade artística específica, ela toca, pinta, desenha, esculpe, escreve ou compõe.

 

Se bem aceita, desenvolve um "saudável espírito inventivo", motor de toda descoberta original e iniciativa vital à possibilidade de criar alternativas; se mal aceita ou punida por isto, ela recua em seu impulso criador e inventivo e se transforma em "rebelde" ou "sonhadora", única forma socialmente definida para manter-se inovando.

Só que criar sempre implica estar à busca do novo, sempre algo ainda não manifesto e além do já convencionado.

Uma tênue promessa vislumbrada no futuro mas desejada agora mesmo.

Um "futurível", ou "possível no futuro", mas sempre um futuro que se presentifica na criação da própria coisa, fato ou ato.

Criar, em suma, é refazer a vida, a si mesmo e ao outro, a partir da percepção (ou do desejo) de algo que pode ser diferente do que aqui — ou ali — está.

 

Para esta possibilidade servem os impulsos transpessoais da psique humana, sempre voltados a um momento além do presente, a um lugar distante do aqui ou a uma forma distinta da existente, como vimos em Urano, Netuno e Plutão. Assim, quando uma pessoa apresenta em sua carta astrológica natal aspectos destes planetas com seus planetas pessoais, saiba sempre que algum projeto verdadeiramente criativo está em curso dentro dela (mesmo que ela não saiba ou tenha sido reprimida em suas primeiras tentativas de "fazer diferente").

 

E o que sua carta mostra, sobre as condições de primeira infância?

 

Sua criatividade foi bem aceita? Ou ela era obrigada a manietar a busca do novo para evitar as punições que se sucederiam a qualquer inovação? Papai manejava bem seu próprio impulso criador, ou de tanto inventar mais complicava do que equilibrava a vida familiar e com isto ensinava à criança que não se deve criar de forma produtiva? Mamãe aceitava que os outros, ou ela mesma, fossem criativos, ou vivia resmungando contra qualquer "novidade"?

 

A carta astrológica natal de uma pessoa nos mostra um Sextil entre Marte e Netuno? Ou um Trígono entre Vênus e Urano?

 

Ou ainda Netuno em Trígono com Vênus e ao mesmo tempo com o Sol? Estes são apenas alguns exemplos, mas certamente esta pessoa é genuinamente criativa e necessita de apoio até mesmo em suas reais vocações artísticas (as Casas Astrológicas e os signos envolvidos indicarão a especialidade da manifestação criativa artística, da fotografia à redação, da pintura à poesia, do raciocínio inventivo à vocação para dança).

 

Mas se sua carta também indica um Saturno em Quadratura com Sol ou uma Lua em oposição com Marte, saiba que muito provavelmente a criatividade da criança foi pessimamente aceita: ela foi acusada de devaneadora ou de "rebelde", inclinando-se na adolescência ou fase adulta à bebida ou ao consumo de drogas, tentando através do "porrinho" suavizar o contato com uma realidade sentida como extremamente desagradável desde cedo.

 

Outra carta astrológica natal indica um Sextil entre Vênus e Mercúrio ou um Trígono entre este e Plutão? Esta pessoa certamente tem reais vocações para redação de textos em geral e, se ainda receber um aspecto de Netuno, talvez para poesia, romance e ficção (torno a lembrar que as Casas Astrológicas e o resto da carta terminarão de compor o quadro geral, como sempre).

 

Netuno está em Conjunção com a Lua em Casa V? Seguramente esta é uma pessoa com raros dotes dramatúrgicos, destas de marcar uma geração de produção teatral!

 

O Sol e o Mercúrio de um homem estão em Sextil com seu Urano, ao mesmo tempo em que este planeta faz Trígono com Saturno? Provavelmente ele tem raros dotes de genialidade administrativa ou mesmo para engenharia mecânica e de projetos, dependendo dos outros dados que a Carta natal ofereça à análise clínica.

 

E pode se tratar de um Sextil ou Trígono entre o Marte e o Mercúrio de uma mulher: com bastante certeza ela consegue por rapidamente em prática o que intelectualmente concebe, de forma produtiva.

 

Mas se Mercúrio e Urano estão em Conjunção, Quadratura ou oposição na carta astrológica natal de uma pessoa, o que poderia ter sido uma mente genialmente intuitiva terminou por ser excessivamente dispersa e improdutiva, dado o padrão acentuado de verbalização excessivamente difusa que prevalecia na casa de primeira infância, onde todos falavam de tudo ao mesmo tempo; esta pessoa terá de aprender a se concentrar (para isto existem exercícios específicos), desenvolvendo a habilidade de manter-se atenta, antes de utilizar produtiva e constantemente sua inteligência superdotada e muito rápida.

 

Assim como, se Netuno está em Quadratura ou oposição com Mercúrio, o padrão intelectual global do indivíduo foi sempre demasiadamente distante da realidade objetiva do dia-a-dia; enquanto ela não aprender a canalizar a estupenda criatividade verbal e imagética que possui para atividades realmente produtivas, este "desligamento da realidade" permanecerá.

 

São estruturas psíquicas potenciais como estas, simbolizadas na carta astrológica natal do indivíduo, as mesmas que muitas vezes são abafadas na casa de primeira infância em nome de uma rigidez ou de um ideal profissional almejado pela família; como resultado, no meio da vida a pessoa dá uma guinada profissional e ninguém entende nada, ou a pessoa passa a vida inteira infeliz em sua "escolha" de carreira.

 

Se ser criativo é construir o próprio conjunto de alternativas, a pergunta que sempre fica no Ar quando se discute esta questão é: você tentou?

 

Gostaria de tentar?

 

Ou você sempre foi cúmplice da castração praticada contra sua própria criatividade, em nome da conformidade, do bem-estar geral e da (falsa) aceitação pelos outros?

 

MINHA SENSUALIDADE ME SATISFAZ?

 

Sensualidade deriva do latim sensuale, "relativo aos sentidos", e em termos de vivência psíquica diz respeito às experiências de prazer e bem-estar obtidas através dos sentidos: olfato, audição, tato, visão, paladar e cinestesia. O termo, assim, não tem a ver obrigatoriamente com sexualidade ou genitalidade, como muita gente pensa, a despeito da sensualidade ter um papel bastante ativo no exercício da sexualidade.

São vivências sensuais o prazer produzido por um aroma especial, o sentimento induzido pelo som de uma certa melodia, a sensação produzida por um leve roçar de mãos no dorso, o deleite provocado pela visão de uma cena de rara beleza, a satisfação sentida com o sabor de um bom quitute ou até mesmo o bem-estar produzido por um vagaroso espreguiçamento; mas como tais experiências não raras vezes invadem o terreno da sexualidade, não por outra razão os amantes de todas as épocas sempre revestiram suas situações amorosas com os mais diversos odores, sabores, cores, músicas e experiências táteis ou de movimentos.

 

Na astrologia, o símbolo central de sensualidade é o planeta Vênus e, assim, a situação geral deste planeta na carta astrológica natal (colocação por signo e Casa Astrológica, e aspectos que faz) será examinada pelo astrólogo clínico para entender como a pessoa lida (e foi ensinada a lidar) com a própria sensualidade.

 

Com isso voltamos ao princípio psicológico geral: além da forma natural de um certo psiquismo lidar com cada uma de suas potencialidades, o meio ambiente sempre influi na forma geral em que esta potencialidade se manifestará, através de condicionamentos. Assim, para exemplificar, uma pessoa nascida com Vênus em Touro (signo de Terra) possui como dado natural uma vigorosa sensualidade corporal, a qual se manifesta desde muito cedo; já uma outra, nascida com Vênus em Gêmeos (signo de Ar), terá sua sensualidade muito mais voltada para experiências estéticas de contemplação.

 

Entretanto, se o indivíduo teve sua sensualidade pesadamente restringida pelo meio ambiente, como um Saturno em Quadratura com Vênus nos indicaria — ao apontar um lar original no qual as manifestações físicas de carinho e prazer, como dar colo, abraçar, ficar de mãos dadas, praticar afagos mútuos ou fazer cafuné eram proibidas, vigiadas ou "deixadas para o momento certo" —, qualquer situação futura de sensualidade trará à tona a massa interna de proibições inconscientes e gerará um grande mal-estar ou desconforto, manifestando-se em atitudes refratárias e de desconfiança excessiva, também tidas como frígidas (anorgasmia é conseqüência encontradiça em mulheres com este perfil).

 

Mas poderia ser o pai a lidar mal com a sensualidade, fosse a sua própria, fosse a de mulheres sobre as quais tinha controle: um Saturno em oposição a Vênus na carta astrológica natal de uma pessoa não poucas vezes nos indica um pai sufocando pesadamente todas as manifestações de sensualidade em casa, através de censuras e restrições excessivas ao uso de saias curtas, decotes, cosméticos, jóias ou adereços, inclusive de posturas corporais e expressões gestuais ou verbais. Se esta pessoa é uma mulher, provavelmente no futuro ela terá acentuada dificuldade em lidar bem com a própria sensualidade, reprimindo-a ou a exagerando (como forma inconsciente de garantir aos outros e a si mesma não ter problemas nesta esfera), e atraindo para seu convívio homens que não lidam bem com a própria sensualidade e reproduzem as atitudes sufocantes de seu primeiro modelo masculino; se esta pessoa é um homem, todavia, deverá seguir de perto os passos do próprio pai, aproximando-se de mulheres fortemente sensuais para poder abafá-las com pesadas proibições, em nome de ciúmes ou desconfiança exagerada.

 

Já um Marte em Quadratura ou oposição com Vênus, em outra carta, nos sugere que esta pessoa "coleciona" parceiros que a insatisfazem sensual ou sexualmente: se o prazer sexual existe, não há prazer sensual e vice-versa. É que ambas as necessidades internamente se opõem, em função de marcas emocionais da primeira infância (um dos pais, ou ambos, a Carta natal definirá sempre, não gostava da própria sexualidade ou da vida sexual que tinha), e sua única "opção", enquanto não rever o próprio inconsciente, é terminar encontrando parceiros com este perfil.

Nos casos específicos de mulheres, o eventual desconforto inconsciente com a própria sensualidade poderá inclusive ter drásticas conseqüências: uma carta astrológica natal feminina na qual se veja a Lua em Quadratura com Vênus indica um psiquismo inconsciente no qual habitam profundos ressentimentos contra o fato de ser mulher e, por isto, atua sobre o organismo, expondo-o excessivamente a problemas na área ginecológica e no sistema reprodutivo; cólicas menstruais demasiadamente doloridas, oscilação freqüente na periodicidade da menstruação, severos desequilíbrios hormonais no ciclo hipofisário-gonádico, grande vulnerabilidade a invasões bacterianas e fúngicas na vagina ou colo do útero, facilidade de desenvolver cistos e tumores na região (especialmente se houver um Plutão envolvido neste aspecto) e propensão inconsciente para histerectomias e remoções ovarianas, especialmente na menopausa.

 

Já um homem com este aspecto em carta astrológica natal tenderá a se envolver marcadamente com mulheres com tais problemas orgânicos — de clara base emocional, aliás, como muitas disfunções.

 

Finalmente, entre infinitos casos, dada a possibilidade de arranjos múltiplos do psiquismo individual, pode se tratar apenas de uma "voracidade sensual" que não encontra satisfação nas práticas mais comuns de troca de carinho e afago. Uma pessoa que tenha em sua carta astrológica natal Netuno em Conjunção, Quadratura ou oposição com sua Vênus, por exemplo, certamente exige do meio ambiente uma satisfação sensual excessiva, muitas vezes portando o perfil da "sedutora compulsiva" ou do "sedutor sempre insatisfeito". Este aspecto, quando ocorre, costuma indicar ao astrólogo clínico a existência de um imenso e genuíno potencial estético e de fantasias conjugado com as necessidades sensuais da pessoa, ao mesmo tempo em que um meio ambiente infantil no qual muita culpa foi agregada ao exercício de uma sensualidade mais liberada (como as fantasias da pessoa sempre a fizeram desejar); enquanto este indivíduo não lidar com a culpa que sente em liberar suas fantasias, buscando parceiros mais "ousados" ou com sensualidade mais exuberante, ao mesmo tempo em que canalize para funções estético-criativas artísticas o "potencial netunino" que possui, o quadro de constante insatisfação sensual se manterá.

POR QUE O PRAZER SEXUAL ME DÁ CULPA?

 

Já o comprometimento do prazer sexual — por impossibilidade de vivê-lo ou somente culpa que o atenua — pode ou não derivar de algum comprometimento da sensualidade; verdade que em muitos casos basta uma Vênus mal-colocada na carta astrológica natal, como vimos acima, para apontar severas dificuldades da pessoa em viver a própria sexualidade, dada a proibição inconsciente interna contra os aspectos sensuais vitais a um mais pleno prazer sexual.

Contudo, em muitos casos pode se tratar de fenômeno distinto, mais diretamente ligado a outros aspectos da história do indivíduo.

 

Você se recorda quando discutimos a existência da pulsão sexo-agressiva, frisando que uma de suas especializações, a assertiva, leva a pessoa a manifestar a sua própria vontade e que a outra, a sexual, a permite manifestar seu impulso de conquista do objeto de desejo (no caso, um parceiro sexual desejado ou o próprio prazer)?

 

Pois é: uma criança que desde sempre é pesadamente impedida de manifestar sua assertividade, termina apresentando fortes bloqueios contra sua sexualidade mais ativa; então, basta o meio ambiente ter induzido intensos sentimentos de culpa ou inadequação no inconsciente da criança em relação a manifestações da vontade pessoal, para futuramente ela se ver com freqüência privada de potência sexual (se homem) ou prazer sexual (se mulher).

 

Imagine uma Carta natal astrológica na qual haja uma Quadratura entre Marte e Lua; o meio ambiente infantil desta pessoa quase com certeza impunha uma severa separação entre bem-estar emocional e sexualidade (tais os conflitos entre sexualidade e amorosidade vividos por um dos pais), levando a pessoa a futuramente sentir-se infeliz quando vive sua própria sexualidade ou a não conseguir ter prazer com quem a acolhe amorosamente.

 

Se esta dinâmica está instalada no psiquismo inconsciente de uma mulher, provavelmente desde sua adolescência ela só encontra parceiros que eram gentis, amorosos e acolhedores, mas não satisfaziam suas genuínas necessidades sexuais; ou, ao contrário, terminava só se envolvendo com "garanhões", verdadeiros atletas do sexo, mas incapazes (ou incompetentes) em oferecer-lhe apoio emocional e carinho genuínos; como resultado, como poder viver plenamente o prazer que sua sexualidade poderia oferecer-lhe, dada a infelicidade emocional que sempre acompanhava o sexo? Já se se trata de um homem com este dado, seguramente ele vem atraindo para seu convívio mulheres com dinâmica análoga à sua imago feminina, como forma inconsciente de reviver o já presenciado na casa de primeira infância.

 

Outras vezes a carta astrológica natal indica um homem tão apegado afetivamente à mãe que não se permite viver a própria sexualidade com alguma mulher (caso clássico e já até caricato de um forte complexo de Édipo, muitas vezes explicitado em Carta natal masculina por Vênus em Conjunção com a Lua ou com Marte); e em outros casos a dificuldade pode derivar diretamente do clima excessivamente culposo em relação à sexualidade, o qual vigorava na infância e a Carta natal desvendará.

Neste sentido, suponha uma casa na qual o pai manifestava uma religiosidade extrema, mantendo uma estrutura moral excessivamente estreita, daquelas que "vê pecado até em bundinha de bebê" (provável fruto da grande dificuldade em lidar de forma adequada com a própria sexualidade, a qual terminava também por "extravasar" através de um comportamento sedutor e licencioso fora das vistas públicas). Provavelmente uma filha não podia andar de roupas íntimas em casa, todas as namoradas de um filho seriam taxadas de prostitutas e em cada esquina do mundo o pecado estaria à espera: como suas crianças poderiam futuramente, quando adultas, viver a própria sexualidade sem culpa?

 

Este quadro é bastante possível, por exemplo, numa carta astrológica natal com Sol e Vênus conjuntos, ambos em Quadratura com Netuno; ou com Marte e Netuno conjuntos, ambos em oposição ao Sol.

 

Dados que o astrólogo clínico verá e, dentro do conjunto global de símbolos que a carta astrológica natal oferece, apresentará ao seu cliente e trabalhará com ele (ou ela), enfatizando a necessidade de um bom processo de reavaliação interna para se livrar da culpa e readquirir a possibilidade de viver mais plenamente o próprio prazer sexual.

 

ESPIRITUALIDADE: REALIDADE OU ILUSÃO?

 

Antes de entrarmos neste delicado — e por vezes espinhoso — assunto que é o da espiritualidade, deixe-me explicar o que quero dizer com tal termo.

E, para isto, começarei por dizer o que não é espiritualidade, no sentido em que eu a entendo aqui.

 

Não estou mencionando a religiosidade beata barata, que se basta em rituais litúrgicos sem nenhum significado interior; não se trata de nenhum conjunto rígido de normas morais ou de comportamento e convivência, como se algumas fossem mais corretas ou sagradas do que outras; não significa despersonalização fanatizada, em nome de seja lá o que for; não decorre de algum desequilíbrio emocional, como se crê alhures ("o prazer que Regina encontra na igreja é fruto de sua neurose" ou "o que leva Roberto a meditar é a vontade de fugir") e menos ainda diz respeito a alguma reação de revolta contra algum estado de coisas, "que não anda muito bem...".

 

Ao contrário, falo da possibilidade humana de superar os limites do ego e de sua percepção sempre parcial da realidade, permitindo-se mergulhar na vivência de outro tipo de pensamentos, sensações e sentimentos e superar a insegurança que se dá pela suposição de sermos isolados, cada um de nós, em sua "pequena concha de objetos" — utilizando expressão do estudioso da comunicação Umberto Eco, para se referir ao pequeno mundo que cada um constrói em torno de si e para si, a partir apenas do que percebe e valoriza.

 

De acordo com William James, que vimos no início deste livro, uma "coisa" na consciência é sempre um produto do "reparar nisto e ignorar aquilo"; em outras palavras, nossa atenção, desde o início de nossos dias de vida terrestre, destaca partes do todo em que vivemos e lhes atribui uma existência tida como separada, descontínua, com um certo valor específico.

 

Porque, como ensina o psicólogo norte-americano Ken Wilber, "a única maneira que tem o pensamento de lidar com estes pedacinhos de atenção restrita é arrumá-los numa ordem linear. Claro está que se o mundo for cortado num número vasto de fatiazinhas, essas fatias não poderão ser engolidas ao mesmo tempo (...) Como toda gente sabe, não podemos sequer pensar em duas ou três 'coisas' ao mesmo tempo sem sermos jogados numa confusão paralisante; e, assim, com a finalidade de introduzir alguma medida de coerência e ordem, o processo do pensamento, com a ajuda da memória, estende esses pedaços separados de atenção ao longo de uma linha que ele cria com esse propósito, quase da mesma maneira com que estas palavras estão arrumadas em 'linhas tipográficas'".

 

"Em outras palavras — continua ele —, o tempo nada mais é do que a maneira sucessiva de que se vale o pensamento para encarar o mundo. Mas pelo fato de vermos habitualmente a natureza deste modo linear, sucessivo e temporal, logo chegamos à manifesta 'conclusão' de que a natureza segue numa linha, do passado para o futuro, da causa para o efeito, do antes para o depois, do ontem para amanhã — ignorando completamente o fato que a suposta linearidade da natureza é, toda ela, um produto da maneira com que a encaramos".

 

Todas, absolutamente todas, as idéias religiosas de todas as épocas e em todas as regiões do mundo afirmaram coisa parecida, quer falassem explicitamente ou não de deus, exigindo um tipo de compreensão que desafia o ego e indicando que a Realidade — não a "que veremos um dia, após a morte", mas a da qual fazemos parte neste exato momento — está além de todas as nossas definições pelo simples fato de conter em si mesma o passado, o presente e o futuro, o ontem, o hoje e o amanhã, "todas as coisas ao mesmo tempo" e "coisa nenhuma em si".

 

Diz o pensamento budista, por exemplo, que no Dharmadhatu, ou Reino da Realidade, "cada coisa inclui simultaneamente todas as coisas em perfeita completação, sem a menor deficiência ou omissão, em todos os momentos. Ver um objeto, portanto, é ver todos os objetos, e vice-versa"; em sentido análogo, o teólogo italiano São Tomás de Aquino (1225-1274) lembrou que "Deus não se move de maneira alguma e, portanto, não pode ser medido pelo tempo; tampouco existe 'antes ou depois' nem já não existe depois de haver existido, nem pode ser encontrado n'Ele nenhuma sucessão... mas tem a totalidade da sua existência simultaneamente; e essa é a natureza da realidade".

 

Porque todas as "coisas" e todos os processos da vida, na realidade e para o inconsciente mais profundo, ainda não pessoalizado, ocorrem sempre no agora absoluto.

 

Dentre vários cientistas contemporâneos, ensina o físico Erwin Schroedinger que "o presente é a única coisa que não tem fim" e que, "por mais inconcebível que pareça à razão comum, nós — e todos os outros seres conscientes como tais — somos tudo em tudo. Daí que a nossa vida, a vida que estamos vivendo, não seja apenas um fragmento da existência inteira mas, em certo sentido, o todo"; e o dominicano Meister Eckhart escreveu no Século XIII que "falar sobre o mundo como tendo sido feito por Deus amanhã ou ontem seria disparatar. Deus faz o mundo e faz todas as coisas neste presente agora".

 

Além disto, ao nível da realidade última, o que chamamos de realidade não tem forma definida, não possui identidade própria e não se contrapõe a nada porque não há "alguma verdade" a contrapor: é, como Jung descreve o self (o arquétipo totalizador da psique e portador da totalidade desta mesma psique), um "complexio oppositorum", isto é, um complexo formado de oposições e paradoxos que não se excluem nem se completam, embora convivam e vivam juntos, já que são, cada um e todos, a mesma e única realidade multimanifestada.

 

Após o ego se constituir é que "fatias" desta realidade absoluta se tornam entidades supostamente individualizadas, graças aos "pedaços de atenção" a que William e Wilber aludiam acima; por isto, sempre se disse que a única forma de efetivamente conhecer o "reino espiritual" é superar a impressão da existência de coisas particularizadas.

 

Santo Agostinho (354-430) declarou que "se qualquer um, vendo Deus, concebe alguma coisa em sua mente, isso não é Deus, mas um dos efeitos de Deus"; neste sentido, também temos o Êxodo, no Velho Testamento: "Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra"; Jesus Cristo, no Evangelho de São Tomé, afirmou: "Eu sou a Luz que está acima de todos eles, Eu sou o Todo, o Todo veio de Mim e o Todo chegou a Mim. Racha um pedaço de pau, Eu estou ali; ergue a pedra e ali Me encontrarás". O Katha Upanishad, texto sagrado Vedanta hindu, diz que "o Espírito, conquanto Uno, assume novas formas no que quer que viva. Ele está dentro de tudo e também está fora... Há um Soberano, o Espírito que está em todas as coisas, que transmuda Sua forma em muitas. Somente os sábios que O vêem em suas almas conhecem esta alegria".

 

Uma alegria — ou regozijo, como a chama a teologia católica — que permite ao indivíduo ultrapassar os limites estreitos de sua personalidade individual, sem abandoná-la entretanto, fundindo-se no todo do qual sempre fez parte; esta personalidade individual é fundamental à manifestação do todo, e só por isto existe, mas deve e pode ser transcendida, para vivências numa dimensão psíquica em que sua existência se relativiza.

 

Na esteira desta hipótese, o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) afirmava que "se o antes e o depois estão ambos no mesmo Agora, então o que aconteceu há dez mil anos seria simultâneo com o que está acontecendo hoje, e nada seria antes ou depois de qualquer outra coisa... Nesse caso, tudo estaria em qualquer coisa, e o universo num grão de painço, só porque o grão de painço e o universo existem ambos no mesmo tempo".

 

Noção também retomada pela ciência atual: de acordo com o físico sir James Jeans, "os fenômenos podem ser indivíduos carregando existências separadas no espaço e no tempo, enquanto na realidade mais profunda, além do espaço e do tempo, podemos todos ser membros de um corpo".

 

Então, lembrando que esta aparente separatividade pode ser transposta, o pensador hindu Ramana Maharshi nos consola: "Na verdade não existe razão para seres desgraçado e infeliz. Tu mesmo impuseste limitações à tua natureza de Ser infinito, e depois choras por seres uma criatura finita. Eis por que digo: conhece que és realmente o Ser infinito, puro, o Eu absoluto. És sempre esse Eu e nada senão esse Eu. Por conseguinte, nunca poderás realmente ignorar o Eu, tua ignorância é mera ignorância formal".

 

Obviamente, tal possibilidade humana requer trabalho, e bastante trabalho, pois as barreiras do ego contra sua superação são muito resistentes: ele gradativamente deve alargar suas fronteiras internas, a ponto de abrigar em si mesmo uma realidade que na verdade o supera.

 

E para tanto, como nos recorda o Sutra Lankavatara, um dos textos principais do Budismo Zen, "por meio da fala podemos entrar na verdade, mas as palavras não são a verdade. A verdade é a compreensão de si mesmo experimentada interiormente pelos sábios através de sua introvisão não-dual (separativa) e não pertence ao domínio das palavras, da dualidade ou do intelecto" (parênteses meus).

 

Porque, de acordo com o teólogo cristão Paul Tillich, "no limiar dos mais fundos e últimos abismos depara-se-nos a revelação de que a nossa experiência está contida nas profundezas da própria vida Divina. Mas nesse ponto reina o silêncio, pois nenhuma linguagem e nenhum conceito humano podem expressar tal experiência".

 

Entende-se, então, porque tal experiência só é possível através das funções transpessoais da psique, simbolizadas em uma carta astrológica natal por Urano, Netuno e Plutão, as únicas funções psíquicas que nos permitem ultrapassar os limites das convenções pessoalizadas de pensamento, sentimento e poder do ego e nos permitem atuar dentro de um nível de consciência que abarca a todos os outros num verdadeiro espectro de níveis de realidade.

 

Um nível de consciência que, na visão otimistamente realista de Ken Wilber, "não é difícil de descobrir nem está sepultado no fundo da psique. Ao contrário, está muito próximo, muito perto e sempre-presente. Pois a Mente não é, de forma alguma, diferente de nós, que seguramos este livro na mão. Num sentido muito especial, com efeito, Mente é o que, neste momento, lê esta página".

 

"Vejamos agora — nos convida ele em seu livro O espectro da consciência — se conseguimos desenredar o sentido especial de tudo isto".

 

Urano, como já vimos, é a "oitava superior" de Mercúrio e, assim, simboliza a capacidade da psique humana de pensar a realidade além da forma comum e dos modos habituais do ego: o "pensamento uraniano" é composto de flashes de intuição que resumem em conceitos condensados conclusões às quais chegaríamos apenas lentamente com as funções egóicas (se chegássemos!) e, portanto, está na base de traços de genialidade atemporal. Esta função é a que permite ao indivíduo conceber realisticamente a possibilidade de pertencer a todo o universo, presente, passado e futuro, independente de sua manifestação neste aqui particularizado, ao mesmo tempo em que permite a vivência de um acentuado sentimento de uniqueness, palavra em inglês que, mal traduzida, significa "com a qualidade de ser único" dentro deste mesmo universo.

 

Por isto Urano, a Mente Impessoal, também indica sempre a busca de modelos totalmente originais de realidade, seja ela qual for (conceitual, sexual, afetiva, relacional etc.).

 

Quando Urano faz aspectos com planetas pessoais, imprime fortemente estas qualidades às funções egóicas por eles simbolizadas. Assim, se uma carta astrológica natal nos mostra Mercúrio em Quadratura com Urano, a pessoa apresenta um padrão extremamente rápido de pensamento, o que a leva a freqüentemente dispersar-se, mal concluir frases e dificilmente terminar um raciocínio, "pois já está um pouco à frente do que pensava naquele momento"; como conseqüência, manifesta-se todo o tempo ansiosa e pode até mesmo carregar pesadas dúvidas sobre sua instabilidade mental ou sobre sua produtividade intelectual, já que raras vezes percebe o início, o meio e o fim dos próprios processos de pensamento.

 

À medida que canalize adequadamente esta função, através de exercícios de plena atenção (concentração prolongada do foco mental e visual em objetos pequenos, seja uma chama de vela, um copo de água ou um ponto pintado na parede) e de atividades regulares que requerem concentração (modelagem cerâmica, montagem de jogos ou miniaturas etc.), e se disponha a checar a veracidade de cada insight que tenha, a pessoa gradativamente suaviza este padrão de velocidade excessiva em tudo que pensa ou fala, podendo utilizar de forma criativa o imenso poder intelectual (fortemente intuitivo) que possui.

 

Já um Urano em oposição com Marte, em outra carta astrológica natal, nos aponta uma compulsiva necessidade de ser original em todas as manifestações de sexualidade e de força de vontade, razão pela qual muito provavelmente esta pessoa carrega uma raiva descomunal acumulada em seu inconsciente: raros são os lares que permitem à criança ser efetivamente original, especialmente no nível de originalidade que Urano simboliza, e não por esta razão tal tipo de aspecto Urano/Marte com freqüência se encontra na carta natal de psicopatas (se confirmado por outros dados): impedido de manifestar seu desejo sexual ou sua vontade pessoal, e compelido pela função transpessoal uraniana a ultrapassar as barreiras do superego, o indivíduo desrespeita os mais mínimos limites da realidade do outro, impondo-se do jeito que der!

 

Esta pessoa deverá gradativamente "se autorizar" a manifestar a própria raiva, até mesmo em circuitos marciais, bem como a genialidade criativa conceitual que em muitos casos possui (se outros dados da carta astrológica natal confirmarem tal possibilidade); ao mesmo tempo, deverá se permitir superar os limites convencionais de moral e comportamento associados à sexualidade, pois em todo envolvimento sexual estará inclinado a manifestar-se criativamente: novas posições, horários e locais incomuns, alternância ou simultaneidade de parceiros etc.

O segundo planeta transpessoal, Netuno, nos indica a possibilidade humana de viver sentimentos de forma absolutamente impessoal, muitas vezes abrindo mão das próprias necessidades pessoais ou atribuindo a algo ou alguém o poder "romântico" de gerar tais sentimentos. É que Netuno representa o princípio de relacionamento ou valorização afetiva impessoal ou transpessoal, derivado do sentimento indistinto de todas as coisas terem um valor afetivo intrínseco pelo simples fato de pertencerem a um todo muito maior do que o abrangido pelos valores pessoais humanos.

 

Quando Netuno, o Sentimento Impessoal, faz oposição com a Lua na carta astrológica natal de um homem, por exemplo, ele tende a atribuir a qualquer mulher com quem se envolva contornos excessivamente romantizados, o que o faz se afastar dos seus reais atributos pessoais (bons ou maus); como conseqüência, a vida se torna um suceder de ilusões e desilusões, tal como as estórias de trovadores nos relatam, iniciado com a mãe (primeira figura feminina externa) e prosseguindo com namoradas, amigas, primas etc. Este homem terá de trabalhar arduamente no sentido de abandonar tais fantasias, à custa da perda de ilusões e do (para ele) dolorido contato com a realidade, para evitar que tal possibilidade se transforme em causa necessária e suficiente de pesados ressentimentos por constantes "mentiras" na esfera amorosa: preso de sua suposição inconsciente, ele vê em qualquer mulher o que deseja e, depois, a acusa de tê-lo enganado (o mesmo raciocínio pode ser aplicado em Netuno/Sol, na carta astrológica de uma mulher).

 

Já Netuno em Conjunção com Mercúrio nos indica uma pessoa com rara capacidade de percepção paranormal da realidade, fundindo-se afetivamente com os outros a ponto de realmente "saber os seus pensamentos" — e muitas vezes se confundido por não identificar quem está pensando o quê em dado momento, se ele ou o outro! Tais pessoas com freqüência acreditam ouvir vozes e até mesmo (a Carta natal nos indicará esta possibilidade) ver cenas, em manifestações ainda tidas em nossa cultura como "loucura" ou indício de forte desequilíbrio emocional.

 

Já Netuno em Conjunção, Quadratura ou oposição com Marte costuma atribuir à pessoa a característica de insaciabilidade sexual, (ninfomania nas mulheres, satirismo nos homens). Tal insaciabilidade, fruto da busca inconsciente de vivências de afetividade transpessoal em experiências sexuais, com freqüência leva o indivíduo à dificuldade em se estabilizar afetivamente, caso o parceiro não apresente disponibilidade sexual equivalente.

 

(Quando, no Hinduísmo, a escola ioga tântrica preconiza o desenvolvimento da sexualidade como uma fórmula espiritual de contato com a divindadedivindade no momento do orgasmo — não concebida e nem aceita pela consciência coletiva ocidental, fortemente impregnada da moral restritiva jesuítica —, é do "uso" desta função transpessoal que se fala.)

 

De qualquer forma, Netuno "empresta" às funções simbolizadas pelos planetas pessoais características (sempre coletivas) de forte imaginação criativa estética e grande receptividade sentimental afetiva; desta forma, o indivíduo que apresenta aspectos deste planeta sobre seus planetas pessoais deve ser instado a expandir sua possibilidade pessoal de viver afetos em limites máximos, como única forma de deixar de esperar que outras pessoas lhe ofereçam tal possibilidade. Tal expansão, entretanto, costuma escapar aos limites mais estreitos de uma relação pessoal (salvo raríssimos casos) e deve então ser buscada em outras atividades: artes plásticas, música, teatro, dança, romance, poesia, práticas espirituais etc.

 

Finalmente, o último planeta transpessoal que se vê num Zodíaco: Plutão. Como vimos atrás, a "oitava superior" de Marte nos indica o poder máximo da psique de criar e recriar a si mesma, neste ato criando e recriando o mundo (ao menos, o mundo que constrói para si), vindo dos estratos mais profundos do inconsciente e atuando de forma avassaladora sobre todos os demais impulsos humanos.

 

Quando Plutão, símbolo deste Poder Impessoal, faz aspectos com os planetas pessoais de um indivíduo, com facilidade esta pessoa pode se deixar convencer de que tal poder pertence a ela; posto que o poder é uma das contingências da existência e toda vida é profundamente marcada por momentos em que o poder pessoal deve se manifestar na defesa do espaço, da vontade e do desejo do indivíduo, em tais momentos o poder impessoal arquetípico simbolizado por Plutão pode contaminar esferas mais pessoalizadas e atribuir-lhes uma dimensão não raras vezes dilatada ao absurdo.

 

Imagine uma carta astrológica natal que apresente o Sol em aspecto com Plutão: em todos os momentos da vida em que tal pessoa tiver de fazer valer sua própria identidade, este poder poderá assumir o controle sobre o seu comportamento; evidentemente, o tipo de aspecto existente e os demais dados da carta natal mostrarão ao astrólogo clínico o quanto esta pessoa tem resistido a esta dinâmica e em que medida tal poder tem-lhe sido efetivamente útil.

 

Porque quando se trata de aspectos mais desafiadores, podemos ter pela frente uma pessoa com marcados traços paranóico-persecutórios (vendo uma ameaça em cada esquina ou um conspirador em toda pessoa, dada a atribuição de contornos míticos às pessoas com as quais se relaciona, como sempre acontece com uma função transpessoal que contamina o ego), um acentuado perfil de megalomania (momentos de "delírio de poder", nos quais a pessoa acredita ser capaz de enfrentar qualquer desafio) ou mesmo uma violência impositiva de suas vontades, da qual ela raramente tem controle.

 

Apenas para citar alguns exemplos, e mais uma vez recordando que um só dado nunca é suficiente para informar a totalidade do perfil psicológico de alguém, aspectos de Plutão com Vênus costumam indicar um modelo inconsciente de envolvimento afetivo obsessivo, aspectos com Marte podem sugerir uma assertividade e sexualidade não poucas vezes maiores do que a estrutura egóica e superegóica da pessoa está disposta a assumir, aspectos de Plutão com Lua em geral apontam um núcleo amoroso ciumento e manipulador (para melhor controle do objeto amoroso) e aspectos de Plutão com o Sol muitas vezes assinalam a existência de forte carisma pessoal, derivado de um "magnetismo hipnotizador" capaz de arrastar multidões por uma causa — ou ao desespero.

 

Mas Plutão é vital para que a possibilidade de "morte" seja uma constante na vida da pessoa que tem este planeta realçado em sua carta astrológica natal: não a morte "física", a dissolução do aglomerado molecular a que nós nos habituamos chamar de "corpo", mas a morte do atual estágio de vida, rumo a um estágio mais "energizado" ainda, como no caso da lagarta que "morre" para virar borboleta!

 

Assim como os estágios de larva e casulo têm de ser abandonados, na vida da borboleta, no ser humano o ego tem de ser transcendido através de sua "morte", ocasião na qual as velhas formas de personalidade podem ser abandonadas, em proveito do crescimento global da psique e da atualização de potenciais que sempre lá estiveram e apenas não tinham espaço ou possibilidade de manifestação.

 

A isto muitas filosofias e escolas religiosas aludem quando mencionam, sugerem ou enfatizam a "morte do ego": mas veja!, não se trata de dissolução do ego, o que para a psique seria o colapso total, mas sua transcendência e superação, quando o ego volta a ser apenas mais um dos componentes deste estranho fenômeno que é a mente humana, forma individualizada de manifestação da mente universal.

 

Por isto os principais momentos de manifestação de conflitos entre o Poder Impessoal (envolvido com a regeneração integral da psique) e o Poder Pessoal (envolvido apenas com os objetivos da personalidade) são sempre vividos pela pessoa como depressão profunda (para a psique individual, sempre um sintoma de morte): se o ego estiver estruturado para viver estes embates de forma produtiva, o que aconteceu torna-se claro e seu significado, óbvio, levando a pessoa a alterar profundamente seu comportamento e a forma pela qual vê a vida e nela atua; se não for este o caso, porém, a pessoa lamenta o sucedido e não faz disto um degrau a mais em sua evolução interna.

 

Nos piores casos, aqueles nos quais o ego já apresentava uma estruturação precária, a pessoa pode até mesmo ter sua estrutura psíquica global estilhaçada pelos impulsos que lhe vêm de dentro e, como se diz, "enlouquecer"; daí a afirmação das Psicologias transpessoais de que os episódios de psicose ou esquizofrenia são "acidentes de percurso" no processo interno de integração psicoemocional.

 

Urano, Netuno e Plutão representam funções fundamentais à psique como um todo, no caminho do desenvolvimento humano, a despeito de oferecerem pesados desafios à sobrevivência do ego — ou, ao menos, do ego como este ego vinha se vendo até então!

 

Caso a vivência destas funções seja possível, o indivíduo é jogado num mundo muito mais vasto, muito mais profundo e muito mais acolhedor do que até então pudera conhecer; entretanto, todo cuidado é pouco, dada a qualidade e a intensidade dos poderes — da Mente Impessoal, do Sentimento Impessoal ou do Poder Impessoal — com o qual se estará convivendo.

 

Neste ponto, são preciosas as palavras de Liz Greene, psicóloga junguiana e astróloga inglesa: "os atalhos para qualquer estágio de consciência raramente dão certo, porque a sensibilidade é muito aguçada (...) É uma corda tensa, muito delicada... O mundo das forças arquetípicas pode conter a hoste angélica, mas também contém a horda demoníaca".

 

Hordas, estas, que fazem parte da realidade como ela é, embora nem sempre estejam na realidade vislumbrada pelo ego; sua vivência, entretanto, é a única maneira de superar a suposta separatividade que nos afeta a tantos de nós no Mundo-Terra, parte apenas do universo total.

 

Porque, como conclui Liz Greene em seu livro Saturno, "se o indivíduo está disposto a explorar não apenas o mundo da sua própria psique pessoal, mas também o mundo mais vasto do inconsciente coletivo, ele pode começar não apenas a se integrar dentro de si mesmo, como também a vivenciar a totalidade do grupo, do qual é uma parte".

CARTAS INFANTIS: QUANDO A INFORMAÇÃO ADEQUADA FACILITA A EDUCAÇÃO

Uma das atividades mais fascinantes do dia-a-dia profissional do astrólogo clínico é o atendimento de pais para fazer a análise clínica da carta astrológica natal de um de seus filhos: pai e mãe ali reunidos, conversando sobre o psiquismo e as futuras inclinações pessoais de uma criança de dias, meses ou apenas alguns poucos anos de idade, visando utilizar estas informações para aprimorar o processo de educação daquele pequeno ser para a vida — e, assim, auxiliá-lo preciosamente na tarefa de se constituir um adulto feliz!

Por este motivo, a despeito de tal atendimento ser pouco comum (dado o desconhecimento desta possibilidade pelos pais em geral e a muitas vezes falta de coragem dos pais de se encarar frente a frente e assumir suas responsabilidades de forma mais plena, já que a situação pessoal de cada um será profundamente discutida ao se analisar o psiquismo da criança), este livro não poderia deixar de mencionar tal fecunda possibilidade da Astrologia Clínica.

 

FILTROS DE LEITURA VERSUS SINCRONICIDADE

 

Vimos atrás que todos nós nascemos com determinados "filtros de leitura" já determinados pela nossa constituição psíquica original, razão pela qual apreendemos o mundo sempre parcialmente, deixando-nos marcar mais profundamente por certas categorias de eventos e até mesmo passando incólumes através de outras.

Em outras palavras, todos fazemos uma pré-seleção do que nos é dado como estímulo externo desde bebês muito novos (na verdade, desde fetos) e por isto, de certa forma, participamos ativamente da construção do nosso próprio mundo: de tudo o que efetivamente nos é oferecido pelo mundo exterior, selecionamos de acordo com nossa estrutura psicoemocional mais profunda o que vamos utilizar como referenciais básicos de vida durante a construção inconsciente de nossos modelos de mundo, quase independentemente do que no futuro nos ensinarem ser certo ou errado, elogiável ou censurável, feio ou bonito e assim por diante.

 

Munidos apenas com este conceito, que se comprova verdadeiro na prática do dia-a-dia, já poderíamos estabelecer o conjunto de valores centrais que nortearão inconscientemente uma pessoa em sua vida futura: sabendo como ela filtrou a percepção da realidade em sua primeira infância, e conhecendo os modelos inconscientes que daí por diante foram por ela estruturados, modelos estes que a partir "de dentro" orientariam todas as suas formas de comportamento, podemos predefinir para quais experiências básicas de vida esta pessoa — hoje criança, amanhã adulto — será impulsionada em sua vida cotidiana.

 

Entretanto, além dos filtros de leitura com que a criança já nasce dotada, o meio ambiente termina por reforçar as imagens inconscientemente selecionadas por ela, atuando de forma a validá-las e a consolidar seus efeitos sobre o psiquismo da criança.

 

Alguém poderia indagar: não será a criança que "induz" os adultos à sua volta a tais formas de comportamento, "desejosa" de ver reafirmada sua expectativa inconsciente nela instalada? Sim, é possível, como tantas vezes se nota, mas esta real possibilidade não explica tudo!

 

Como a criança "faria" o pai ser alcoólatra, por mais que esperasse isto, quando sua carta astrológica natal indica uma figura masculina introjetada com tais características na primeira infância? Como a criança "faria" a mãe ser melancólica e depressiva, por mais que atuasse no sentido de induzir tal comportamento, quando sua carta astrológica natal indica uma figura feminina introjetada com tais características na primeira infância? Como a criança "levaria" pai e mãe a viverem uma certa dinâmica de relação — pai "ausente omisso" e "mãe dominadora- abandonada", por exemplo —, por mais que atuasse no sentido de favorecer o estabelecimento de tal estado de coisas, quando sua carta astrológica natal indica um modelo introjetado de relação pai/mãe com tais características na primeira infância?

 

Não, certamente a existência de filtros de leitura de mundo na criança e de expectativas inconscientes nela existentes em relação ao mundo externo não explica tudo; obviamente a carta astrológica natal também aponta muitos dos dados objetivos de realidade externa que sincronicamente a criança estará vivendo, por mais que não tenha a mais mínima chance de provocar ativamente a sua manifestação.

 

A PREDISPOSIÇÃO E O MEIO AMBIENTE

 

É com estes dois dados básicos que o astrólogo clínico analisará a carta astrológica natal de uma criança: de um lado, identificando com quais filtros de leitura a criança foi dotada e, de outro, identificando para os pais as muito prováveis formas de comportamento que durante a primeira infância da criança eles mesmos apresentarão (mesmo que no momento da análise não creiam provável tal possibilidade), de certa forma reforçando — ou não — o que tais filtros por si sós apreenderiam e reteriam.

Ambos os conjuntos disponíveis de informação compõem o cenário geral que define já na infância o perfil global da criança e suas inclinações inconscientes de comportamento, bem como prepara o futuro adulto e predispõe as suas futuras manifestações comportamentais: será cordato ou violento? será disperso ou com boa capacidade de concentração? necessitará de constante dispêndio de energia muscular ou viverá bem em um modelo mais sedentário de vida? como lidará com sua sexualidade? o que em criança parece teimosia será a futura persistência do adulto ou somente um marcado traço inato de obstinação? ele atuará naturalmente a própria intelectualidade? qual sua verdadeira vocação profissional? necessitará orientação religiosa e espiritual? como lidará com a auto-imagem? como desenvolverá a auto-estima? como atuará sua sensualidade?

 

Nesta ampla discussão, pai e mãe poderão ter uma visão a priori da futura pessoa que ali está se engendrando e compreender o papel conjunto que desempenharão a herança psicoemocional da criança e a influência modelar do meio ambiente, através das formas de comportamento emocional adotadas pelos pais consigo mesmos, praticadas entre si e manifestadas em seu convívio com ela.

 

Obviamente, se parte da seleção dos estímulos do meio se dará pela predisposição psicoemocional inconsciente herdada da criança, em certa medida os pais pouco terão a fazer no sentido de impedir a formação de determinados modelos inconscientes ou de propiciar a construção de outros, tidos por eles como respectivamente inadequados ou adequados, de acordo com seus valores pessoais; tal dinâmica é praticamente inevitável, já que pai e mãe sempre trazem para o casamento e para a educação de suas crianças as marcas do tipo de história que tiveram, além de seus próprios traços pessoais.

 

Por esta razão, até certo ponto não se pode falar de "culpas" ou de "escolhas erradas" por parte deles no processo até então adotado de educação de seus filhos. Afinal, já que também foram condicionados por seus próprios inconscientes e lidaram com a situação da forma como puderam, o que mais poderiam fazer além ou diferentemente do que já fizeram?

 

O trabalho possível, porém, a partir da análise clínica da carta astrológica natal de um filho, será o de reforçar a possibilidade efetiva da criança de ver favorecidos os verdadeiros potenciais e atenuado o cenário interno já instalado que predisporá suas futuras características, de forma a minimizar os eventuais conflitos que se manifestarão em suas formas de viver a vida; ao mesmo tempo, este trabalho ajudará os pais a se preparar para a utilidade real de um possível trabalho futuro (ludoterapêutico ou psicopedagógico) de ajuda à criança ainda enquanto criança ou adolescente, não deixando apenas para a sua vida adulta o trabalho de reconstrução interna do que tenha que ser trabalhado para permitir uma harmonia interna maior.

 

Porque o meio ambiente de primeira infância pode ter uma influência extremamente favorável à futura possibilidade da criança de lidar melhor com suas próprias características — mesmo que elas não agradem os pais ou destoem das expectativas deles! —, desde que os pais se disponham a isto; não é tarefa fácil, mas ao menos oferece a certeza de se estar caminhando no sentido correto, isto é, efetivamente de acordo com aquilo que fará a hoje criança, amanhã adulta, uma pessoa mais feliz e bem integrada.

 

Afinal, se não se pode alterar a herança genética, pode-se ajudar a criança a trabalhar melhor com ela e a se construir produtivamente a partir de si mesma!

 

AS EXPECTATIVAS SOBRE A CRIANÇA

 

Nas expectativas depositadas pelos pais em seus filhos (às vezes para resgate dos próprios sonhos nunca realizados, outras vezes apenas de acordo com modelos valorados pela família ou pela sociedade) reside sempre uma das chaves das futuras inadequações de uma criança: "papai" espera que seu filho seja de uma certa maneira, "mamãe" deseja vê-lo se comportando assim ou assado, todos atuam de forma a pressioná-lo e ninguém se lembra de indagar o que a própria criança gostaria de estar sendo e fazendo ou como gostaria de estar se sentindo em cada aspecto da vida com o qual se vê envolvida, de acordo com suas próprias características pessoais.

(Quem não se lembra de já ter tido certeza de que tal ou qual escolha ou reação lhe parecia a melhor, tendo sido obrigado a se comportar de outra forma em nome do que papai ou mamãe achavam "adequado"?)

 

Porque pais e mães sempre assumem a tarefa de criar seus filhos a partir de modelos preconcebidos e definidos desde há muito tempo, seguros de que tais modelos são os mais acertados e devem ser implantados a contento — sob pena de eles mesmos, pai e mãe, se sentirem (ou serem acusados de) incompetentes e falhos em seu papel.

 

Tais modelos, em geral vindos da própria infância de cada um deles (aprendidos em casa ou desenvolvidos contra o que era vivido em casa, mas sempre tendo por referência o próprio processo de educação algum dia vivenciado e não o momento atual em que se está educando uma criança), terminam por se constituir em garrotes e balizas rígidas da criatividade do próprio filho ou filha e das manifestações de sua própria identidade pessoal, a qual sempre deriva das suas inclinações inconscientes individuais profundas, independente do que o meio considere aceitável, desejável ou elogiável.

Por isto o trabalho de análise clínica da carta astrológica natal de uma criança requer dos pais uma sólida disposição de lidar com as próprias expectativas e até mesmo vê-las frustradas, desde que para o bem efetivo da criança. Os pais podem ter de abandonar seu desejo de ver o filho formado médico, por exemplo, se sua carta astrológica natal indicar uma sólida vocação para tarefas literárias; ou, por outro lado, podem se ver obrigados a abandonar a expectativa de sua filha tocar piano, se a carta astrológica natal desta criança não indicar nenhuma existência de potenciais criativos musicais.

 

Estes são exemplos muito simples e superficiais, pois a análise clínica da carta astrológica natal de uma criança leva os pais a reflexões bem mais profundas: à medida que se desvela os reais sentimentos e as formas dominantes de comportamento que os pais estão vivendo durante a primeira infância da criança, pai e mãe se vêem obrigados a assumir a insatisfação sexual que estejam tendo, a violência que por vezes um ou outra manifestem em sua relação interpessoal, o eventual sentimento de não ter importância nenhuma frente ao outro, as prováveis imposições desta ou daquele sobre a vontade do outro, os jogos de controle e contra-controle que dominem a cena doméstica, as diferenças pessoais talvez até então não assumidas claramente e assim por diante.

 

As principais características individuais vividas pelo casal, assumidas ou não de forma explícita, se desvelam com o trabalho de análise clínica da carta astrológica natal de sua criança, pois elas compõem o cenário ambiental a partir do qual aquela criança estará construindo seus modelos inconscientes, futuras matrizes de comportamento; e isto termina por obrigar os pais a refletir sobre seus próprios problemas e inadequações, em proveito de sua criança e de si mesmos.

 

O QUE FAZER APÓS A CARTA DA CRIANÇA?

 

O fato de pai e mãe se verem mutuamente expostos de uma forma que até então não houvera, momento no qual o que cada um realmente está vivendo na relação se explicita, os leva a profundas reflexões sobre a vida conjunta, sobre os desejos e necessidades de cada um e sobre o real papel que estão exercendo sobre seus filhos.

Mais ainda: este momento, iniciado com a longa discussão da carta astrológica natal da criança e da relação conjugal ali denunciada (base parcial dos conteúdos psíquicos daquela criança), leva pai e mãe a poderem discutir com mais propriedade aspectos de si mesmos e da relação que sempre foram deixados "sob o tapete" ou "para um momento mais adequado".

 

Por esta razão muitos astrólogos profissionais não atendem, para a análise clínica da carta astrológica natal de uma criança, apenas um dos pais (exceto no caso de casais separados, quando em geral quem encomenda o trabalho é quem tem a guarda da criança): permitir que apenas um tenha acesso a esta realidade, a própria e a do parceiro, seria uma violação da privacidade daquele que não está presente!

 

Por questões éticas, então, e também visando um melhor encaminhamento das discussões e atitudes que tenham de se dar em prol da criança (o motivo alegado daquele encontro), é necessário que pai e mãe estejam lado a lado neste delicado momento — nem que seja para se defrontar com aspectos da relação, de seus modelos educacionais e de si mesmos que não consigam admitir ou lidar com mais facilidade.

 

O que a prática costuma indicar é que ambos, a partir daí e de acordo com suas características e disponibilidades pessoais, iniciam uma cuidadosa tomada de posição em relação a si mesmos e ao parceiro, além de aprofundarem as discussões sobre sua própria criança! O quê e em qual medida cada um pode fazer pelo bem-estar de ambos e da criança? do quê e em que medida cada um está disposto a abrir mão para o bem-estar e o desenvolvimento da relação e da criança? até que ponto cada um ou ambos são capazes de se ajudar mutuamente, rumo a objetivos que satisfaçam a cada um? até que ponto cada um está disposto a lidar objetivamente com as reais diferenças entre o que até então diziam estar acontecendo e o que realmente ocorre, como a carta astrológica natal de sua criança claramente o indica?

 

Após este trabalho, muitas vezes se instala no casal a necessidade de buscar ajuda especializada, quer em nível das individualidades envolvidas (porque pai ou mãe vêem denunciada uma realidade pessoal antes nunca admitida ou sequer percebida), quer no que diz respeito exclusivamente à criança; pouco importa, contudo, o que se vá buscar, pois o fundamental é que o cenário emocional daquele núcleo familiar fica exposto e passível, então, de mudanças profundas.

 

Porque, à medida que pai e mãe passam a ter preciosas informações sobre sua criança, sobre si mesmos e sobre os laços inconscientes que condicionam aquela realidade, podem orientar produtivamente tarefas maduras de lidar com a realidade objetiva e subjetiva da família e preparar para si mesmos um futuro mais felicitador, além de ajudar a criança a se desenvolver mais plenamente, de acordo com suas reais e próprias características psicoemocionais.

 

EXEMPLOS DE ANÁLISE CLÍNICA DE CARTAS ASTROLÓGICAS NATAIS

 

INTRODUÇÃO

1. As análises clínicas que a seguir você verá mostrarão de forma resumida o conjunto de informações que é possível extrair de uma carta natal, durante uma entrevista devolutiva astrológica clínica.

São cartas natais reais e apenas omito, por razões éticas, a identidade das duas pessoas analisadas aqui.

Evidentemente o resultado global da entrevista devolutiva "ao vivo" é sempre muito mais rico do que qualquer apresentação por escrito, pois a contínua participação do cliente sempre enriquece o trabalho — quer interrompendo para solicitar mais detalhes, quer dando depoimentos ilustrativos de uma dada passagem, quer ainda manifestando alguma discrepância entre o que sente ou reconhece e o que está lhe sendo dito: a cada momento da entrevista, cliente e astrólogo são duas pessoas em interação dinâmica, intermediadas pelo material de diagnóstico, agindo, reagindo e nutrindo um ao outro durante todo o encontro.

 

2. Cada carta natal é extremamente singular — como cada psique também o é; portanto, nada mais ingênuo do que supor que qualquer interpretação astrológica clínica discutirá conteúdos e dinâmicas inconscientes sempre iguais.

Todavia, talvez você identifique parte (ou aspectos) das análises clínicas que serão apresentadas aqui com algum processo de vida ou forma de comportamento já vivenciados por você ou presenciados na história de alguém; não esqueça, então, de que alguns dos componentes a ser aqui discutidos poderão fazer parte de outras psiques, já que ninguém é absolutamente original em suas características pessoais, mas a mescla com outros conteúdos inconscientes, de qualidade e intensidade diferentes, é que dará um retrato global sumamente diferenciado de indivíduo para indivíduo.

 

 

3. Caso você conheça muito pouco de astrologia (ou até mesmo não conheça nada), seguem abaixo os símbolos astrológicos mais comuns para você poder identificá-los nas cartas natais deste Apêndice (Signos, Planetas, Asc para o Ascendente, FC para o Fundo do Céu, Dsc para o Descendente e MC para o Meio do Céu.

Além disto, veja a Tabela de aspectos astrológicos, ou ângulos geométricos, existentes entre os componentes da carta, e no correr das interpretações eu destacarei em negrito os símbolos envolvidos com cada conteúdo e dinâmica inconsciente identificados:1

 

Signos

Áries Libra

Touro Escorpião

Gêmeos Sagitário

Câncer Capricórnio

Leão Aquário

Virgem Peixes

 

Planetas

Sol Júpiter

Lua Saturno

Mercúrio Urano

Vênus Netuno

Marte Plutão

 

Aspectos

Conjunção 00o (+/-10o)

Sextil 60o (+/-06o)

Quadratura 90o (+/-10o)

Trígono 120o (+/-10o)

Quincúncio 150o (+/-05o)

Oposição 180o (+/-10o)

 

4. Por fim, uma ressalva: todo conteúdo presente no psiquismo se associa a outros conteúdos ou dinâmicas e sempre, de alguma forma e com intensidade variável, se manifesta através de alguma forma de comportamento, mesmo que compulsivo e contrário às intenções conscientes da pessoa (tão mais inconsciente esteja). Assim, tanto ao mencionar traços pessoais dos indivíduos analisados adiante, quanto ao discutir as formas de comportamento de seus pais no lar de primeira infância, não estou emitindo julgamento algum de valor ou de caráter, pois não compete ao diagnosticista, bem como ao terapeuta ou aconselhador, opinar sobre o valor moral deste ou daquele comportamento.

Trata-se, isto sim, de identificar um cenário inconsciente de desejos e intenções, e as formas compulsivas de comportamento dele decorrentes, para devolver à pessoa a possibilidade de alterar o que lhe pareça necessário em si mesma. Neste sentido, cabe aqui lembrar um conceito do filósofo francês Jean Paul Sartre: "pouco importa o que fizeram de nós; o que realmente importa é o que fazemos do que fizeram de nós"

 

 

A ANÁLISE CLÍNICA DE UMA CARTA ASTROLÓGICA NATAL FEMININA

 

1. Trata-se de mulher nascida em Fortaleza, às 14:00 do dia 05 de maio de 1962.

 

 

2. Do ponto de vista estrutural, isto é, começando pelos traços de comportamento determinados por conteúdos próprios de sua estrutura psíquica básica inconsciente, esta mulher é pessoa fortemente inclinada a racionalizar tudo aquilo com o que se envolve, dada a predominância de sua função pensamento (quatro planetas em signos de Ar); se este traço indica um perfil marcadamente autodidata, baseado em evidente superdotação intelectual (Quadratura Urano e Mercúrio), com grande facilidade de aprendizado, ampla curiosidade mas extrema dificuldade em se adaptar a tarefas intelectuais que não a agradem, ao mesmo tempo é marcante sua necessidade de aprender a lidar com o mundo através das outras funções da consciência.

Pessoa marcadamente extrovertida (sete planetas no Hemisfério Norte da carta), com facilidade percebe os dados do meio ambiente que a rodeia e deixa na obscuridão o que se lhe passa por dentro, ignorando sua realidade emocional e sentimental; deverá aprender a prestar mais atenção consciente ao próprio interior, através de práticas de auto-conhecimento e auto-integração, visando diminuir este descompasso e escapar ao pesado desconhecimento de si mesma a que desde muito cedo se impôs.

 

Apresentando genuína vocação para o desempenho de tarefas partilhadas (cinco planetas em signos Mutáveis), com excessiva facilidade assume responsabilidades e papéis que não lhe competem, cobrindo-se de culpas por não conseguir cumpri-las todas; como, além disso, é pessoa com grande necessidade orgânica de reposição e descanso, dada a facilidade de se estressar (apenas um planeta em signo Cardeal), com muita freqüência se esgota e termina culpando os outros por tal ocorrência.

 

Apresenta intensos traços de paranormalidade mas extremo medo de viver tal possibilidade (Sol em Casa VIII, oposto a Netuno), devendo canalizá-la através de grupos de estudo e prática espiritual, ocasião em que também poderá satisfazer a necessidade de aproximação com sistemas filosóficos e espirituais mais organizados e estruturados (Júpiter em Trígono com Netuno) e com material diretamente ligado às áreas do conhecimento esotérico e/ou psicológico profundo (Sol em Casa VIII, oposto a Netuno que rege a Casa VII).

 

É portadora de extrema facilidade de articulação de linguagem, quer escrita, quer verbal (Mercúrio em Gêmeos, em Conjunção com Vênus), devendo encaminhar-se profissionalmente para áreas de intercâmbio de comunicação ou cultural (Meio do Céu em Gêmeos, Ascendente em Virgem, ambos os signos regidos por Mercúrio); tal facilidade, se treinada, sugere o que poderá vir a ser uma redatora prolífica (mal treinada, porém, aponta a tagarela!); e, em virtude de seu extremo potencial criativo e muito forte capacidade imaginativa (Sol oposto a Netuno), poderá também dedicar-se à criação de contos, crônicas e historietas de suspense e ficção psicológica (Cúspide da Casa XII em Leão, regido pelo Sol, e Netuno em Escorpião, signo que rege sua Casa III).

 

É mulher fortemente sexualizada, assim como de temperamento mais impulsivo e arrojado também nestas áreas (Marte em Áries e na Casa VII, sendo Áries a Cúspide da Casa VIII), tendo sido entretanto submetida a pesado controle de sensualidade e sexualidade, como veremos adiante (Saturno em Trígono com Vênus, Sextil com Marte e Sol em Touro); desta forma, à medida que elimine de seu inconsciente as marcas de uma primeira infância impeditiva de uma auto-imagem feminina mais segura de si, deverá emergir uma intensa busca de prazer sexual e de auto-realização (Saturno em Casa V).

 

 

3. Nascida em uma casa centralizada pela figura materna (Sol em Touro, Lua e Vênus conjuntas e em Quadratura com Plutão) e tendo por modelo masculino um pai ausente, omisso e provavelmente alcoólatra (Netuno oposto ao Sol e em Quadratura a Saturno), esta mulher desde muito cedo sofreu a influência de uma atmosfera restritiva de qualquer manifestação pessoal de identidade (Sol em Quadratura com Saturno e em Casa V).

 

O lar sofria intensamente, dada a insegurança produzida pelo comportamento paterno, o que fez com que a criança desenvolvesse um profundo hábito de estar "sempre alerta", impondo-se uma rigidez protetora (Sol em Quadratura com Saturno) e desenvolvendo pesados ressentimentos contra quaisquer figuras masculinas ou de autoridade.

 

Por seu lado, a mãe desta menina impunha severo controle sobre todas as suas reações emocionais espontâneas (Sol em Touro e Lua em Quadratura com Plutão), vindo até a desenvolver, durante a fase de puberdade e adolescência, uma intensa competição feminil com a filha (provavelmente, por não admitir outra mulher dentro de casa, mecanismo comprovável por reações adversas contra empregadas, faxineiras, amigas da filha etc.); desta forma, aos poucos a criança foi aprendendo a não expor sua própria feminilidade, quer através de afetos, quer através de manifestações sensuais e de sedução, abalando a própria auto-estima como mulher.

 

Suas manifestações intelectuais espontâneas desde cedo foram impedidas ou no mínimo não incentivadas (Saturno em Trígono com Mercúrio), embora de forma branda, o suficiente para instilar-lhe insegurança em manifestar os resultados do próprio pensamento; como conseqüência, desenvolveu-se uma funda necessidade de afirmar as próprias opiniões (Saturno na Casa V, em signo de Ar e em Quadratura com Sol), inda mais por se tratar de criança superdotada intelectualmente (Mercúrio em Gêmeos, Mercúrio em Quadratura com Urano e quatro planetas em signos de Ar) , o que futuramente a levaria a uma pequena disponibilidade em aceitar idéias e opiniões alheias com facilidade.

 

O lar desde cedo se revelou preenchido de poderosas fantasias de traição amorosa e afetiva (Plutão em Quadratura com Lua e Vênus, Saturno em Trígono com Vênus), bem como de mentiras (Sol em oposição a Netuno), o que gradativamente desenhou na criança o que futuramente se manifestaria como uma profunda desconfiança em relação a quase qualquer pessoa.

 

Intensamente impedida de manifestar sua originalidade e criatividade (Saturno em Casa V), principal forma da criança afirmar-se no meio ambiente, já que assim se afastaria dos rígidos modelos de identidade impostos pelos pais e principalmente pela mãe (Sol em Touro, em Quadratura com Saturno), esta mulher desenvolveu uma intensíssima necessidade de auto-afirmação, enquanto "alguém que merece ser aceita incondicionalmente", o que futuramente a levaria a não acreditar que alguém pudesse amá-la ou dela gostar exatamente como ela é; ao mesmo tempo, em decorrência deste tipo de pressão ambiental, futuramente ela pressionaria duramente todas as pessoas com quem viesse a se envolver, visando obter esta aceitação quase que a qualquer preço, nem que tivesse de abrir mão de si mesma e de seus direitos pessoais para tanto.

 

"Não consigo imaginar que alguém não goste de mim!": eis uma frase constante em suas fantasias.

 

Caso esta pessoa não se disponha a trabalhar as marcas emocionais de memória decorrentes desta estrutura doméstica de primeira infância, dificilmente conseguirá assumir a própria identidade pessoal, já não bastasse a excessiva ligação amorosa com a mãe e com sua maneira de proceder! (Lua em Conjunção com Vênus e Mercúrio, sendo este último o regente do Ascendente e do Meio do Céu), sem conseguir manifestar-se de forma criativa no mundo externo; será necessário identificar e rever emocionalmente os muitos e pesados momentos em que a excessiva cobrança de desempenho a impedia de viver sua naturalidade e a forte emocionalidade de que é portadora (Plutão em Quadratura com Lua), para que ela possa se livrar do medo de ser o que é, da insegurança em ser mulher e dos fortes mecanismos de auto-cobrança e cobrança excessiva dos outros (como forma inconsciente de vingança contra os pais).

 

Graças a estas estruturas inconscientemente dispostas pelo meio ambiente, esta carta astrológica natal sugere inclusive a ocorrência de fantasias (senão mesmo comportamentos) homossexuais, não por escolha mas, sim, por compulsão: de um lado, uma figura masculina excessivamente aversiva, a despeito de personagem central de vigorosas fantasias eróticas da menina-moça (Sol na Casa VIII, oposto a Netuno em Escorpião) ; de outro, uma figura feminina controladora ao extremo e sobre a qual houve um depósito excessivo de amorosidade; ao meio, uma mulher profundamente insegura sobre a própria identidade, ao mesmo tempo em que se percebe fortemente sexualizada e sequiosa de afeto e carinho.

 

 

4. Quanto à figura masculina predominante no ambiente de primeira infância, o mínimo que se pode dizer é que esta mulher não dispõe de dados seguros sobre que tipo de homem seu pai era: dada a alta taxa de omissão dele (Sol em Touro, Sol em Quadratura com Saturno e Sol oposto a Netuno), e pelo fato de ser um verdadeiro "camaleão" no que diz respeito ao próprio comportamento (Sol em oposição a Netuno), este pai apresentava um perfil que em geral sugere a necessidade de uma minuciosa "pesquisa familiar": como ele era, na verdade? como se comportava? qual a origem de seus problemas reais? o que o levava a mentir tanto, a beber ou eventualmente a se embriagar? terá ele tido iniciativas sexuais com a própria filha? o que ele fazia com seu dinheiro, já que a Carta natal de sua filha o mostra como um perdulário? mantinha um segundo lar? ele viajava com freqüência? com que fim?

 

Toda e qualquer pesquisa familiar — e para isto ela poderá utilizar o grande potencial de repórter- investigadora que possui (Ascendente em Virgem, tendo o Ascendente e o Meio do Céu regidos por Mercúrio que está em Gêmeos) — poderá fornecer dados preciosos sobre este homem, já que informação alguma que ela tenha sobre o próprio pai é digna de crédito (quer pelo próprio comportamento paterno, quer pelas práticas maternas de controle).

 

À medida que descubra e entenda melhor o comportamento real do pai, e desta forma possa trabalhar o profundo ressentimento que carrega contra ele (Sol em Quadratura com Saturno), a despeito de ter sempre lamentado profundamente o quão "perdedor" o pai era (Sol em Touro, em Quadratura com Saturno e em oposição a Netuno), esta mulher poderá compreender melhor os homens dos quais se aproxima, bem como romper o ciclo vicioso que a tem levado a buscar homens indefinidos e inseguros (Sol em oposição a Netuno) como companheiros para quaisquer relações — sempre "vítimas" à procura de uma "salvadora" e eventualmente até mesmo homossexuais, como uma forma a mais dela referendar o que supõe ser a sua própria homossexualidade e como modo de se afastar de homens efetivamente viris, sempre produtores de forte desconfiança e aversão.

 

Sem dúvida esta mulher herdou do pai (e de ambos os lados de seu clã, tanto o paterno quanto o materno) uma propensão à drogadicção (Sol na Casa VIII, regente da Casa XII, em oposição a Netuno na Casa II, com o regente da Casa VIII conjunto à Lua e em Quadratura com Plutão), razão pela qual se faz prudente que controle o consumo de drogas, bebidas e remédios em geral, dada a facilidade de estabelecer dependência ou mesmo sofrer uma overdose; por outro lado, o depósito inconsciente de erotismo sobre o pai foi tão pronunciado (Sol em Casa VIII e Marte em Áries na Casa VII), podendo até mesmo derivar de iniciativas sensuais e sexuais paternas contra a filha, que haverá uma intensa resistência a qualquer trabalho mais aprofundado das seqüelas que o convívio com este homem deixou em seu psiquismo.

 

Isto, se por um lado explicaria uma eventual suposição de "só ser necessário" trabalhar a mãe e a péssima relação com ela, por outro informaria a um bom terapeuta a real dimensão dos conflitos subjacentes em relação ao pai.

 

 

5. Porque, independentemente de quais conflitos hajam por ser trabalhados em relação à figura masculina — e não são poucos! —, o principal desafio desta mulher é a figura materna, a partir da qual construiu a própria auto-imagem: mulher ambiciosa (Sol em Touro), tanto materialmente quanto de poder e controle (Lua e Vênus conjuntas, em Quadratura com Plutão), a mãe não deu o menor espaço para que sua criança pudesse desenvolver identidade pessoal e consolidar sua feminilidade (Sol em Touro, em Quadratura com Saturno na Casa V).

 

Pessoa profundamente insegura enquanto mulher e até mesmo revoltada contra a própria feminilidade ("é um horror ser mulher!), a mãe apresentava uma profunda dificuldade de contatar-se produtivamente com a própria realidade biológica básica e com sua feminilidade (Júpiter em Quadratura com Lua e com Vênus); desta forma, sentia-se insegura como mãe, como companheira e como mulher capaz de ser desejada, competindo pesadamente com a filha neste sentido.

 

Envolvia-se principalmente com o desempenho de papéis sociais de convívio (Júpiter em Quadratura com Vênus), com freqüência se afastando das próprias emoções e sentimentos (Júpiter em Quadratura com Lua) em prol do bom desempenho social.

Pessoa com pronunciada labilidade emocional (Urano em Quadratura com Lua), seu estado de espírito era sempre uma surpresa — por vezes extremamente desagradável, dado o fato de em meio às violentas explosões emocionais que manifestava, como conseqüência de constante contenção da manifestação de emoções (Lua em Quadratura com Plutão) mas precário controle emocional (Lua em Conjunção com Mercúrio), atuar com excessiva crueldade impositiva ou violenta contra a filha.

 

Entretanto, a figura materna sempre pareceu aos olhos desta mulher poderosa demais... Profundamente contaminada por material arquetípico (Plutão em Quadratura com Lua), a imagem percebida da mãe sempre atribuiu a ela um poder demasiado e, portanto, irrevogável; desta forma, como a menina poderia algum dia ter se oposto à sua vontade e desejo?

 

Ao mesmo tempo, fizesse o que fizesse a mãe contra a criança, houve um excessivo depósito amoroso na figura materna (Lua em Conjunção com Vênus e com o regente do Ascendente e do Meio do Céu), identificável pela ligação simbiótica futura entre as duas e mantida pela filha mesmo contra a vontade.

 

Obviamente esta Carta natal aponta uma dupla vinculação amor-ódio extremada (Lua em Conjunção com Vênus e em Quadratura com Plutão), base de futuros e intensos sentimentos de culpa na filha ao trabalhar a imagem materna e as seqüelas emocionais que deste convívio ficaram contra a sua feminilidade e identidade pessoal.

 

Outro ponto a destacar era o conjunto de práticas manipulatórias de controle que a mãe utilizava em geral — inclusive contra a filha (Júpiter em Quadratura com a Lua e em oposição com Plutão). Tendo sido uma mãe que se sentia ameaçada por qualquer manifestação espontânea emocional ou de individualidade, ela castraria qualquer vontade da criança (Lua em Quadratura com Plutão) se necessário fosse para conter sua extrema voluntariosidade; esta carta inclusive indica a mãe "agourenta" (Lua em Quadratura com Plutão), aquela que, como "último recurso", amargamente roga pragas: "você vai ver que não vai dar certo!".

 

Como resultado, esta mulher busca compulsivamente controlar toda e qualquer relação pessoal com a qual se envolve, através de posturas "martirizadas" de sofrimento e dor (Júpiter em Peixes, em oposição com Plutão), impedindo manifestações mais espontâneas de si mesma e dos outros por acreditar que poderá perder o controle e ver tudo destrutivamente ir à deriva (Plutão em Casa XII); tal compulsão está na base das paixões obsessivas que desenvolve (Vênus em Quadratura com Plutão), marcadas por fortes fantasias de traição mas dominadas por forte anseio de fidelidade (Vênus em Trígono com Saturno).

 

Portadora de vigorosa sexualidade, como eu já disse (Sol na Casa VIII e Marte em Áries, em Sextil com Vênus e em Sextil com Saturno), e detentora de forte sex-appeal, esta mulher com freqüência e compulsivamente utiliza pesadas táticas de sedução sensual (Plutão em Quadratura com Vênus) para obter o que mais deseja: aceitação enquanto pessoa e afeto incondicional (Saturno em Casa V). Sem perceber, contudo, que tal estratégia não garante aceitação incondicional e, ao contrário, só a mantém numa roda-viva de desempenho supostamente mantenedor de segurança, enquanto não questionar este quadro geral e não tomar medidas no sentido de alterar o que nele está disposto, não conseguirá tranqüilidade ou sentir-se feliz.

 

 

6. Deverá desenvolver o potencial de superdotação intelectual que possui, de base fortemente intuitiva (Urano em Quadratura com Mercúrio) mas com excelente capacidade potencial de metodização do pensamento (Saturno em Trígono com Mercúrio); para isto, todavia, será preciso disciplinar-se através de exercícios de concentração de atenção, posto que o meio ambiente de primeira infância foi excessivamente indisciplinador de suas possibilidades de pensamento (Urano em Quadratura com Mercúrio) e está na base de sua extrema dispersividade (Mercúrio em Gêmeos e em Quadratura com Urano).

 

Ao mesmo tempo, poderá canalizar para áreas de atividades política o poder carismático que possui (Sol em Trígono com Plutão), ocasiões em que poderá estar exercendo o poder impessoal que busca contaminar sua esfera mais pessoal de relacionamentos (Plutão em Quadratura com Lua, Vênus e Mercúrio e oposição com Júpiter) e terá, então, um espaço coletivo onde se exercer; tais atividades não necessariamente têm de ser de política partidária, até porque esta mulher se daria melhor numa posição de "eminência parda" (Sol em Casa VIII, em Trígono com Plutão em Casa XII), podendo se dar através de associações de classe, participação ativa em condomínios ou consórcios de interesse, organizações de bairro ou de pais e mestres etc.

 

Por fim, se puder transformar o vigoroso movimento interno que carrega de controlar ferreamente toda e cada palavra que pronuncia (Plutão em Quadratura com Mercúrio), vindo da mãe, assim como sua tendência conspiratória e secretiva, poderá realizar-se como poderosa oradora ou copy-desk (preparadora de originais, em editoras e redações de jornais e revistas, cuja função é melhorar o texto dos outros).

 

Para tudo isto, entretanto, deverá realizar um profundo trabalho de resgate das lembranças de primeira infância que ficaram emocionalmente incrustadas no seu próprio inconsciente e a têm afastado de si mesma.

 

Um trabalho que dificilmente chegará a bom termo sem uma abordagem terapêutica profissional.

 

A ANÁLISE CLÍNICA DE UMA

CARTA ASTROLÓGICA NATAL MASCULINA

 

 

1. Trata-se de um homem nascido em São Paulo, às 04:20 do dia 10 de dezembro de 1956.

 

2. Estruturalmente falando, isto é, como comportamentos derivados de seu tipo psicológico natural, é um homem extremamente intuitivo, o que o leva a perceber com facilidade o que aqueles que o rodeiam desejam ou pensam (quatro planetas em signos de Fogo); isto, se por um lado faz dele alguém que "saca os outros" com rapidez, o leva a crer que todos tenham a mesma capacidade e o impede de expor mais a si mesmo e aos seus desejos.

À medida em que se treine em se mostrar mais vezes, mesmo quando creia já ter sido entendido, para se certificar de que o outro — seja quem for — está realmente ciente do que se lhe passa "por dentro", verá diminuir em muito o número de vezes em que se decepciona por crer que o outro o percebeu mas fez por não levá-lo em consideração, quando na verdade foi ele quem não se mostrou e, por isto, não foi percebido...

 

Assim como na carta natal feminina que vimos logo atrás, este homem também manifesta vigorosa inclinação à partilha de si mesmo em tarefas (cinco planetas em signos Mutáveis), com intensa dificuldade em dizer não quando solicitado a ajudar; em seu caso, todavia, em virtude de ocorrências perinatais e de primeira infância (que veremos adiante), instalou-se uma pesada crise de assertividade (Saturno conjunto ao Ascendente, na Casa I). Desta forma, para ele é mais necessário ainda aprender a selecionar as vezes em que assumirá tarefas que não as suas, para evitar a muito freqüente exploração, pelos outros, de sua solicitude compulsiva.

 

Dada a dificuldade de contato consciente com sua função pensamento (nenhum planeta em signo de Ar), em geral este homem não acredita no próprio potencial intelectual, a despeito de possuir marcados traços de genialidade conceitual (Marte em Trígono com Urano, Mercúrio em Sextil com Netuno e em Trígono com Plutão); à medida em que se disponha a submeter o resultado de seus processos lógico-dedutivos (esta é a mais natural forma de elaboração de suas conclusões, como seu Mercúrio em Capricórnio nos informa) à avaliação de outros a quem respeite, poderá desenvolver uma maior segurança interna em relação à própria intelectualidade.

 

Não fosse a pesada crise de assertividade instalada, efetivamente seria um self-starter, isto é, uma pessoa que "faz as coisas andarem por sua própria iniciativa" (sete planetas no hemisfério oriental); assim, manifesta-se somente como alguém inclinado em demasia a impor seu ritmo pessoal em tudo com o que se envolve, devendo canalizar tal inclinação natural para os momentos em que dele se espere iniciativa e deixando de exigir de quem o cerca que acompanhe o seu ritmo — razão pela qual tantas vezes se vê sozinho, ao passo que quem havia se proposto a acompanhá-lo foi deixado para trás...

É homem portador de sólida inclinação natural para assuntos legais (Sol e Ascendente em Sagitário) e espetacular vocação para atividades de administração e planejamento (Saturno em Trígono com Urano), devendo orientar sua carreira de forma a ocupar um posto de comando ferreamente exercido (Plutão em Casa X e Saturno em Conjunção com o Ascendente) — a despeito da extrema hesitação em fazê-lo adequadamente, como também veremos adiante.

 

A naturalmente intensa preocupação com ética e justiça, aliada à busca incansável de oportunidades nas quais fazer valer seu ideal (seja este qual for!), devem ser refreadas ou mais produtivamente canalizadas, visando obter um melhor equilíbrio com o dia-a-dia concreto (Grande Trígono de Fogo); do contrário, este homem terminará pagando o preço de quem está sempre um palmo acima da realidade ou um passo à frente de seu momento.

 

 

3. Nascido em uma casa na qual o pai pontificava como "líder admirável e de sucesso", a despeito de pouco se envolver com a dinâmica doméstica (Sol em Sagitário e Saturno em Quadratura com a Lua), este homem cresceu aprendendo que as mulheres existem para servir ao homem... Desta maneira, não pôde aprender a estruturar relações de verdadeiro companheirismo com mulheres com as quais mais tarde viesse a se envolver.

 

Ferrenho admirador do pai, o qual via como uma pessoa de "inegável sucesso e valor", este homem cresceu com dificuldades em manter relacionamentos pessoais mais verdadeiros, já que ninguém é perfeito todo o tempo nem defende com unhas e dentes a verdade a cada instante, feito "paladino da justiça" (Sol em Sagitário, na Casa I); assim, passou a ocultar sob um exterior brincalhão e otimista uma profunda descrença na possibilidade de ser feliz e conseguir realizar seus próprios sonhos, senão à custa de abandonar seus mais profundos valores pessoais.

 

Ao mesmo tempo, foi criado sob o rígido mandamento paterno de sempre dizer a verdade, razão pela qual tornou-se compulsivamente "mais realista do que o rei", mesmo quando termina agindo de forma inadequada ou rude no exercício da franqueza (Sol e Ascendente em Sagitário); deverá rever, portanto, a pressão que o seu meio ambiente exerceu neste sentido, para reobter um pouco mais de diplomacia, uma qualidade sempre essencial no trato com as outras pessoas e que não tem de, necessariamente, se dar pelo comprometimento da lealdade e verdade (para ele, valores sempre fundamentais).

 

Seu lar de primeira infância foi, sem dúvida, excessivamente rígido no controle da espontaneidade emocional da criança (Saturno em Quadratura com a Lua), submetendo-a a um severo processo de abafamento. "Primeiro o dever, depois o prazer — e se não houver prazer não tem problema, desde que se tenha cumprido o dever!", era o lema central daquela casa, levando este homem a um pesado controle futuro de qualquer manifestação emocional ou sentimental, razão principal da melancolia constantemente sentida e do dolorido sentimento advindo do fato de não vislumbrar perspectivas emocionais felicitadoras para sua vida (Saturno em Quadratura com a Lua).

 

Por esta razão oscila pesadamente entre momentos de extrema emocionalidade (quando "elas escapam" ao controle) e de indiferenciação emocional (quando "elas se submetem" a um rígido processo de justificação interna), ocasiões nas quais sente grande dificuldade em identificar qual vivência emocional o está atravessando, inclina-se vigorosamente a buscar para relações mais próximas mulheres de alta instabilidade emocional, como pretexto para viver projetivamente a própria e intensa emocionalidade mal admitida.

 

Criança ativa e agitada (Marte em Áries e em Trígono com Urano), desde cedo foi bastante reprimido em suas manifestações de vontade (Saturno em Trígono com Marte e com Urano), com o que gradativamente desenvolveu um padrão de respostas oscilantes ("passividade-pancadaria") nos momentos em que se fazia necessária a defesa de seus direitos: assim, quando adulto, ou hesita em demasia, não reagindo e adiando para o momento em que lhe pareça mais adequado lutar pelo próprio espaço, ou se vê preso de ímpetos de forte imposição de vontade, atuados de forma por vezes até mesmo cruel.

 

Para alterar este padrão, terá de rever os muitos momentos de infância em que se via obrigado a abrir mão de sua natural força de vontade e (imensa) criatividade infantil, bem como trabalhar a brutal raiva que lhe fervia no peito nestes momentos, obrigado a se sufocar para agradar ao pai idealizado ou para respeitar o sofrimento da mãe martirizada e sofredora (a qual veremos adiante).

 

Esta carta natal nos informa que o pai e a mãe deste homem viviam como cão-e-gato, ou água-e-azeite, não conseguindo superar suas diferenças pessoais irreconciliáveis ( e Lua em Quadratura) e mantendo-se juntos apenas por conveniência ou interesses compartilhados. Com isso, cristalizou-se no inconsciente da criança a suposição de que homens e mulheres são sempre opostos em seus valores centrais, ou de base, com o que se inclinaria futuramente a buscar como companheiras apenas aquelas mulheres com as quais tivesse desentendimentos irreconciliáveis , mas junto às quais permaneceria como forma inconsciente de reproduzir o cenário doméstico no qual crescera.

 

 

4. O pai deste homem, além de proclamar aos quatro ventos e o tempo todo "a inegável superioridade masculina" (Sol em Sagitário), oferecendo à criança um modelo macho-man incontrastável, abafava a mãe em todo desejo que ela tivesse (Saturno em Quadratura com a Lua). Isto é: não apenas defendia esta suposta superioridade, como a praticava de forma cruel sobre a esposa, para não perder o controle sobre a situação (Saturno em Quadratura com Plutão)! Bastava a esposa manifestar alguma vontade, fosse qual fosse, bastava tentar expor alguma vivência emocional mais profunda e genuína, e este homem a abafava de modo absoluto.

 

A um ponto que se poderia dizer que seu motivo central de viver era abafar o feminino através de pesadas táticas de desvalorização e desconsideração de tudo o que viesse da mulher!

 

Em grande parte, este comportamento paterno se devia ao fato do pai não lidar adequadamente com a própria emocionalidade, embriagado por si mesmo que estava em sua "viagem masculina" de conquistas e mais conquistas pelo mundo e oferecendo assim, ao filho, um modelo vigoroso de abafamento do feminino. Futuramente, sua criança não aceitaria em si mesmo as emoções que o tomassem (Saturno em Quadratura com a Lua), abafando-as e a toda mulher com quem viesse a conviver, reproduzindo minuciosamente o perfil paterno.

 

Aliás, o modelo paterno que se vê nesta carta foi tão idealizado que dificilmente este homem conseguirá aceitar a idéia de trabalhar o que lhe veio do pai, afirmando só ser necessário resolver os problemas que lhe vieram da mãe — assim como os problemas que "elas" criam em sua vida! Além disto, a imagem do pai foi percebida através de um filtro arquetípico distorcedor (Saturno em Quadratura com Plutão), atribuindo-lhe um poder supostamente incontrastável.

 

É que admitir a imensa raiva que lhe vinha quando o pai se abatia com fúria sobre ele e seus arroubos de criatividade rebelde (Marte na Casa V em Trígono com Urano na Casa IX), momentos nos quais a criança tinha ímpetos de morte contra o pai mas se recolhia temeroso de mais violência ainda (Marte oposto a Júpiter, regente do signo onde estão o Sol e o Ascendente), parece tarefa intransponível para este homem, tal a culpa que lhe vem ao admitir conscientemente tais sentimentos.

 

Em sua vida adulta, não poucas vezes este homem terminaria se cercando de mulheres sobre as quais exercer tal férreo abafamento, expondo sua raiva quando contrariado e eventualmente até mesmo as agredindo fisicamente.

 

 

5. Porque a mãe apresentava um pano de fundo emocional de intenso masoquismo (Vênus em Escorpião), como "querendo ser rejeitada", razão pela qual adotava constantemente a postura de mártir sofredora de quem pouco ou nada pode fazer por si própria (Lua em Peixes) e "autorizava" este comportamento paterno.

 

Aliás, com muita probabilidade, apenas estes traços do psiquismo materno já nos explicam o que levava esta mulher a permanecer ao lado de um homem (o marido), numa relação que a negava constantemente e só a deprimia.

 

Este homem, portanto, teve por modelo feminino uma mulher melancólica, entristecida, limitada por uma moral comportamental estreita (Lua em Quadratura com Saturno), mas que nada fazia por alterar este estado de coisas, presa que estava de sua necessidade inconsciente de envolver-se em relações afetivas que só a fizessem sofrer (Vênus em Escorpião) ou dentro das quais pudesse atuar como a mártir que sofre em silêncio e guarda muito ressentimento em seu coração (Lua em Peixes).

 

E o pior, para aumentar esta imutabilidade, é que a mãe gostava genuinamente de si mesma (Lua em Trígono com Vênus) e era uma mulher portadora de forte emocionalidade (Lua e Vênus em signos de Água), o que levaria este homem (mais do que em outros casos, onde já se busca um modelo feminino que ressoe a mãe) a futuramente se aproximar e se envolver apenas com mulheres com um perfil análogo!

 

Como a mãe utilizava com freqüência a tática da culpa para controlá-lo, expondo sua dor e lamentando ter-se sacrificado tanto para criá-lo (Lua em Peixes, em Casa IV), entende-se que futuramente este homem teria imensa culpa em acusá-la fosse do que fosse e a outras mulheres também, por mais que as agredisse e abafasse continuadamente, culpando-as pelo "desequilíbrio emocional" que manifestava nestas horas ou negando-se a aceitar qualquer tipo de apoio emocional, temeroso de ser pesadamente cobrado depois.

 

 

 

6. Entretanto, trabalhar a relação havida com a mãe e o modelo introjetado a partir do pai, neste caso, será apenas meia tarefa: sem dúvida, poder se conscientizar da pesada rejeição amorosa sentida já intra-uterinamente (Saturno em Quadratura com a Lua) será um importante passo, mas enquanto este homem não puder reviver as marcas deixadas em seu psiquismo pelo tipo de parto que teve, não conseguirá alterar a crise de assertividade que tanto o abate.

 

É que sua carta astrológica natal nos informa claramente que o parto da criança foi prolongado e sofrido, muito provavelmente pélvico (com os pés voltados para o colo uterino, bloqueando a própria saída), como a indicar a decisão, ainda ao nível fetal, de não se expor ao mundo (Saturno em Conjunção com o Ascendente, na Casa I)!

 

(Aqueles que estranharem tal afirmação, saibam que o feto, pouco antes do início dos movimentos expulsórios uterinos, deflagra o processo de seu próprio nascimento através de estímulos químicos descarregados no sangue materno pelo cordão umbilical; experiências já realizadas com mamíferos superiores em laboratórios, dos quais se extirpou ainda no útero determinada zona cerebral, comprovam que sem o estímulo do feto o trabalho de parto não tem início.)

 

Como resultado, daí por diante todo e qualquer "começo" — mesmo que a iniciativa seja apenas o reinício de algo já executado um milhar de vezes — passou a parecer excessivamente perigoso para este homem, levando-o a procrastinar decisões e a evitar a tomada de atitudes.

 

A criança gradativamente construiu uma concha protetora de si mesma contra o mundo, quer o interno — as emoções —, quer o externo — os eventos — (Saturno em Quadratura com a Lua e Saturno na Casa I, em Conjunção com o Ascendente), dificultando ao extremo o abandono de máscaras através das quais lidar com a vida; assim, por trás de seu aparente otimismo e "segurança masculina" (Ascendente em Sagitário), sempre se escondeu uma timidez assustadora, uma insegurança defensiva e um conjunto de manobras destinadas a controlar o mais perfeitamente possível o meio ambiente suposto como ameaçador.

 

Seu grau de desconfiança é máximo e de auto-confiança é mínimo, por mais que aparente estar sempre no controle de tudo e de todos; "encalha" na vida feito barca que bate num banco de areia, vendo o fluxo da vida passar ao lado mas não conseguindo (e nem tentando, é verdade) chegar a nenhuma das margens.

 

É que se pede alguma coisa à vida o faz preso da certeza íntima de já ser um derrotado, "pois nada receberá"; e, desta forma, garante nada receber, reafirmando sua certeza íntima!

 

À medida que se disponha a utilizar produtivamente a própria força de vontade, poderosa (Marte em Áries) e disciplinada (Saturno na Casa I), num corajoso trabalho de desmonte das seqüelas que lhe advieram de tais experiências intra-uterinas, perinatais e de primeira infância, poderá inverter integralmente a roda de sua existência, abrindo-se mais plenamente à vida que se agita fora e às emoções que o vivificam a partir de dentro.

 

Para isto, terá de expor e trabalhar a imensa massa de raiva que carrega em si mesmo, pois as marcas emocionais de tal contenção de si mesmo com freqüência se manifestam através de uma língua ferina, tornando-o excessivamente agressivo em suas manifestações verbais (Mercúrio em Quadratura com Marte).

 

Aí sim, esgotada esta raiva que torna sua grande rapidez mental (Marte em Quadratura com Mercúrio) muitas vezes um empecilho no convívio com os outros, poderá colocar a serviço próprio a boa capacidade de organização burocrática que detém (Mercúrio em Capricórnio), o genial potencial conceitual que possui (Marte na Casa V em Trígono com Urano na Casa IX, Saturno em Trígono com Urano e um Grande Trígono de Fogo formado por Marte, Urano e Saturno), bem como a natural dotação para cargos de mando e poder exercidos a serviço do coletivo (Plutão em Casa X, em Virgem).

 

Ao mesmo tempo, poderá aprender a utilizar produtivamente sua boa capacidade de direcionamento de força de vontade (Saturno em Trígono com Marte e Marte em Trígono com o Ascendente) e a vocação judiciosa que detém (Sol em Sagitário e Ascendente conjunto a Saturno neste mesmo signo), transformando-se em um benfazejo orientador e juiz de pessoas: para isto poderá colaborar seu traço naturalmente compassivo (Lua em Peixes), após o abandono do excesso martirizado que a mãe lhe transmitiu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Os símbolos dos planetas, signos e aspectos não aparecem porque o Word não aceitou

 

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