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A MATÉRIA E O ESPIRITUALISMO Guilherme Santos Sil
A MATÉRIA E O ESPIRITUALISMO Guilherme Santos Sil

A MATÉRIA E O ESPIRITUALISMO

Guilherme Santos Silva
(Membro da Sociedade Teosófica pela Loja Alvorada, de Brasília-DF)

            Este texto foi escrito simultaneamente com a preparação de uma palestra apresentada na Sociedade Teosófica em Brasília em março de 1998. Ele contém aproximadamente o mesmo material exposto, um pouco ampliado. Algumas perguntas feitas ao final da exposição, e suas respostas, foram aqui acrescentadas, que não aparecem na publicação do mesmo texto na revista TheoSophia, de Julho/Agosto/Setembro 1998.

A descoberta do Caminho

            Quando uma pessoa descobre pela primeira vez os conceitos de uma vida mais ampla, interna e espiritual ela, em geral, se sente atraída para aqueles ideais. Ela passa então a se esforçar para obter uma expansão de sua consciência ordinária seja através da oração, meditação ou qualquer técnica com que se melhor se identifique. Provavelmente tentará também se tornar uma pessoa melhor, mais útil, paciente e amável para com seus familiares e companheiros. Encontrará, por certo, grande inspiração na poesia e na música, nos textos sagrados e instruções filosóficas pertinentes ao ideal que ela agora abraça. Este é um belo momento e muitos de nós já sentimos a graça e o prazer de passar por ele. Às vezes o impacto é muito grande a aquele que então descobre tantas novidades tenta, incansável, transmitir a outros sua bem-aventurança recém descoberta, beirando, muitas vezes, o limite do fanatismo.

            No entanto, também é extremamente comum a frustração diante de uma incapacidade de se manter os níveis de sutileza e espiritualidade desejados. Sentimos, por exemplo, uma grande exaltação ao assistir a um filme particularmente inspirado, ler um texto de exortação e motivação elevada ou participar de um debate sobre temas espirituais. Mas, logo após podemos nos irritar profundamente com algum distúrbio cotidiano de menor importância e ter nossa mente mais uma vez aprisionada pelas vicissitudes da vida comum.

            Sim, sabemos que é difícil manter a paz de espírito mesmo depois de a termos alcançado por alguns momentos. É difícil manter uma mente desperta e voltada para o objeto de nossa aspiração espiritual, assim como é comum um sentimento de desânimo profundo e o surgimento da crença de que não podemos, de fato, atingir nossas metas. Torna-se necessário então compreender porque isto ocorre.

            Em primeiro lugar é preciso entender bem nossas motivações iniciais. Talvez estejamos a nos guiar por um ideal, ou por ideais que, como o próprio termo indica, são idéias ou imagens que fazemos de uma meta a ser alcançada. São normalmente fantasias que, mesmo sendo belas ou nobres, estão fadadas a se desvanecer ao mais leve contato com a "dura realidade" que é a contingência do dia a dia. Por isto não podemos nos adaptar a um ideal assim como não poderíamos matar nossa sede em uma miragem no meio do deserto. Ouvimos muitas vezes as pessoas reclamarem que é difícil ser espiritual ao mesmo tempo em que se vive e trabalha no mundo moderno. Sabemos o que é ser espiritual? E, se não o sabemos, o que estamos buscando? Cabe então alguma consideração sobre o que é o espírito, a matéria e a relação entre estes dois elementos. Embora esta seja uma questão teórica e de natureza abstrata e filosófica um entendimento sobre ela poderá, a meu ver, contribuir para que possamos ter uma vida mais satisfatória e menos conflituada.

O Ensinamento

            Em carta enviada ao Sr. Sinnett um dos mestres de Madame Blavaysky (1) comenta que, em seu sistema de ensinamentos, a matéria é eterna e indestrutível ("A Matéria nós sabemos que é eterna, i. e., não teve um início (a) porque matéria é a própria Natureza (b) porque aquilo que não pode se aniquilar e é indestrutível existe necessariamente – e por isto não pode ter um começo nem pode deixar de ser". Carta No. X, The Mahatma Letters to A . P. Sinnett, Ryder & Company). E a própria H.P.B. explica mais tarde, em sua obra A Doutrina Secreta, que o universo como um todo, é formado por uma única substância primordial derivada de um espaço em movimento. O espaço representa o ventre (Por isto mesmo representado como um princípio feminino, a Mãe dos seres. Note que temos um erro de tradução na edição brasileira da D.S., Ed. Pensamento, onde o espaço é chamado de Pai.), a matriz onde toda a manifestação ocorrerá, a raiz da matéria ou parcela objetiva do universo, enquanto o movimento é a fonte daquilo que hoje denominamos consciência ou subjetividade. O espírito e a matéria se entrelaçam, durante a existência do mundo, através da Mente Universal, ou o princípio que leva a consciência a se interessar pelo drama representado na manifestação da forma (Como poeticamente ilustrado no mito de Narciso, apaixonado por sua imagem refletida nas águas). A evolução do universo é tríplice: evolução da Consciência, da Forma e do elo entre eles, a Mente (Não há aqui nenhuma incoerência com o ensinamento de que o universo se dissolve e deixa de existir após o fim de um ciclo denominado um dia de Brahma. Neste estado a matéria e a subjetividade da consciência se fundem no elemento original impossível de ser apreendido pela nossa mente limitada. Na verdade, como H.P.B. gostava de enfatizar, esta unidade inatingível é a única realidade eterna. Tudo o mais está condicionado por Maya ou ilusão). A matéria é eterna e tem consciência enquanto o espírito só pode assumir qualquer parte no processo evolutivo se revestido da forma material.

            O ser humano é uma parte deste processo complexo. Dentro de um universo multifacetado ele se lança no mundo da limitação e contribui sua parcela para a meta global. Para fazer isto ele se torna igualmente complexo e desenvolve múltiplas formas de interação com o universo. Conhecer a verdadeira constituição humana é praticamente uma chave para a auto-realização e, por isto, seguiremos um pouco mais os ensinamentos de H.P.B.. Em inúmeros livros, artigos e conferências ela ensinou o que havia aprendido com seus professores: o ser humano possui, como o cosmos onde vive, múltiplas facetas, múltiplas formas de expressão e contato com seu meio ambiente. Além de seu corpo físico ele possue outros elementos, alguns óbvios, outros não tão evidentes. Possuimos sensações, emoções e mente e todos sabemos disto. Mas possuimos algo mais, algo que de certa forma pressentimos e de que podemos, por alguns momentos, ter vislumbres, dependendo de nosso estado e clareza da consciência. Este algo mais é o espírito ou consciência mais profunda que é a base, a fonte de energia e a própria sustentação da consciência comum de vigília.

            Dentro do esquema de evolução tríplice do universo evoluimos também, como humanos, em três frentes: em espírito, mente e forma. A tradição cristã menciona a existência de corpo, alma e espírito. Outras escolas podem apresentar divisões um pouco diferentes: a escola vedantina da Índia descreve cinco princípios enquanto a Doutrina Secreta de H.P.B. menciona sete de tais princípios (houve, na história da Sociedade Teosófica, um certo conflito devido a esta discrepância. Tal conflito fica razoavelmente resolvido com o que é explicado em "Alguns Apontamentos sobre a significação da Filosofia Oculta na Vida" texto de H.P.B. acrescentado por Annie Besant a A Doutrina Secreta volume (VI, Ed. Pensamento). Usaremos aqui a descrição da própria H.P.B. para estes princípios (veja maiores detalhes em A Chave para a Teosofia, H.P.B. Ed. Teosófica) embora outras divisões e terminologia sejam possíveis e úteis em diferentes contextos. Representaremos esta divisão na tabela 1, a seguir.

            Naturalmente não podemos esgotar o assunto em uma tabela ou mesmo ao longo deste artigo. Precisaremos, no entanto, considerar alguns detalhes. Parte dos autores que continuaram o trabalho de divulgação do pensamento teosófico eliminou o Prana da descrição dos princípios humanos, o que pode causar alguma dificuldade para os estudantes atuais. No entanto, como se verá, é essencial mantê-lo para a descrição que agora nos interessa.

Princípio

Função

Sthula Sharira

Corpo Físico

Veículo da Ação

Prana

Vida

Transmissor da sensação

Linga Sharira

Duplo Etérico

Veículo de Prana

Kama-Rupa

Emoções

Centro dos Desejos e paixões

Manas

Mente

Inteligência

Budhi

Intuição

Alma espiritual

Atma

Espírito

Uno com o Absoluto

Tabela 1

            O prana é o sustentador da vida e o responsável pela transmissão das sensações ao longo de nosso corpo. Se queimarmos a mão em uma panela quente, se sentirmos fome ou frio teremos estas sensações transmitidas por meio do prana que, por sua vez, circula através de seu veículo, o duplo etérico, chamado de corpo astral na literatura mais antiga (o termo corpo astral é hoje mais identificado com Kama, o veículo das emoções).

            Manas é a sede da inteligência e é um princípio dual. Por isto é comum se encontrar divisões onde Manas-Superior e Manas-Inferior são contados em separado. A literatura menciona que Manas não possue luz própria, brilhando com a luz de Buddhi que, por sua vez, é o veículo de Atma ou Espírito Universal. A inteligência pode se interessar por partes diversas do universo. Pode se focalizar na contigência, na limitação, na dor e sofrimento, no egoísmo e separatividade que todos conhecemos bem. Mas também pode se voltar para cima, ou para dentro (como o descreveremos?) Afirmo que a maioria das pessoas conhecem este estado, vividos em seus momentos mais inspirados e de exaltação. As duas mente, por assim dizer, estão ligadas por um fio ou canal (entenda isto como um símbolo, embora extremamente rico em significado. O fio é chamado de Anthakarana e é separado por sete nós. Ainda dentro do espírito simbólico e místico, H.P.B. afirma que estes sete nós correspondem aos sete portais, sete virtudes ou Paramitas.) e o trânsito da consciência por ele consiste, exatamente, no trilhar da Senda ou caminho para a iluminação mencionado pelas tradições. As duas mentes, no entanto, são apenas uma e descobrir isto é parte do processo da auto-descoberta.

            Até o nível do que já foi dito, Atma-Buddhi-Manas representa nossa essência superior, o elemento imortal, enquanto os demais princípios se desintegram e dispersam após a morte. Pouco se pode dizer sobre os princípios mais elevados pois deles temos pouca experiência, exceto através de vislumbres mais ou menos fugazes. Deve-se ainda lembrar que H.P.B. afirmava que apenas a estes dois princípios superiores se pode atribuir uma numeração ou ordem. A ordem dos demais varia com a evolução e estado de cada indivíduo (este é um aspecto pouco explorado do ensinamento. Consulte A Doutrina Secreta ou The Mahatma Letters) . Após a morte, por exemplo, se diz que os princípios sofrem uma reorganização em ordem e estruturação. Esta variação parece ser importante para compreender o estado de um sábio iluminado, sendo este um dos motivos pelos quais a morte foi tão exaustivamente considerada nas tradições de mistérios.

            Mais tarde, na medida em que avançou com sua instrução, principalmente para seus discípulos mais próximos, H.P.B. inseriu novos elementos e correções ao que já estava estabelecido, afirmando que não havia suficiente maturidade no início para que todo o ensinamento fosse dado (este fato não deveria causar surpresa! Alguém crê que possuimos agora a verdade final?). Ela ensinou ("Alguns Apontamentos sobre a significação da Filosofia Oculta na Vida".) então que Atma, como devíamos ter descoberto sozinhos, não pode ser um princípio humano pois é universal. Além disto o corpo físico também não é um princípio (embora seja um veículo), como ensinam os Vedantinos, representando apenas o ponto de apoio onde os demais princípios se ancoram para sua manifestação terrena. Para completar (embora exista muito mais nos artigos mencionados) ela descreveu a existência do chamado Ovo Áurico embebido em Atma ou puro espírito, representando uma casca ou pele magnética que envolve e define o ser humano individual. Do Ovo Áurico emana o Prana que nos dá a vida e a percepção sensorial do mundo e a ele o prana retorna quando se dá a morte do indivíduo físico.

O que fazer com o Ensinamento?

            A consciência física é extremamente incipiente e pouca percepção temos dela. Nosso contato, supostamente o mais denso e materializado, com o mundo externo por meio dos orgãos sensoriais é basicamente uma função de prana, ou seja, uma função espiritual. Nosso princípio mais externo, mais profundamente lançado dentro da manifestação é diretamente enviado pelo Ovo Áurico, nossa parcela superior.

            O apego à materialidade é na verdade cósmico: faz parte de um processo gigantesco sobre o qual pouco conhecemos e talvez pouco possamos conhecer. Nosso contato com o mundo é quase que só subjetivo: distorcemos sensações e percepções ao extremo de se tornarem praticamente irreconhecíveis para uma outra individualidade. Pouco existe de realmente material neste mundo fechado. E contactar a manifestação não representa pecado ou perigo intrínseco (sugiro que o perigo esteja em uma fusão desordenada e pouca lúcida entre nosso psiquismo e o objeto material. Experimentar um prazer, por exemplo, não é por si só reprovável. Desejar a repetição constante deste prazer, ou ficar preso a ele, representa uma perda de liberdade e vínculo com o objeto da sensação). Pelo contrário, abrirmo-nos e ver o mundo como ele é deve ser uma meta válida. A matéria, ela mesma, é parte do Todo, consciente e inseparável do espírito. Como podemos então nos dizer espiritualistas? Ou materialistas?

            Não podemos deixar de ser espirituais. Não podemos deixar de ser matéria. Qualquer outra tentativa é uma fantasia dolorosa como tentar atravessar à força um muro de pedras porque ele é maya, é ilusório. Mas não fomos já advertidos de que o esforço não faz parte do crescimento interno?

Cresce como a flor, inconsciente, mas ardendo em ânsias de entreabrir sua alma à brisa. Assim é como deves avançar: abrindo a tua alma ao eterno. Mas há de ser o eterno o que deve desenvolver a tua força e a tua beleza, e não o desejo de crescimento (Luz no Caminho, Mabel Collins, Ed. Pensamento).

            Há uma afirmação no texto "Aos Pés do Mestre", escrito por Jiddu Krishnamurti quando criança, de que o mundo pode ser dividido entre aqueles que sabem e aqueles que não sabem. No nosso caso, melhor do que dividir o mundo entre materialistas e espiritualistas, proponho a seguinte divisão: existem os inconscientes satisfeitos, que preferem continuar sonhando, e há aqueles que, embora inconscientes, querem descobrir a Verdade (suponho que deve haver também aqueles que possuem alguma sabedoria como, por exemplo, os mestres de H.P.B). Uma busca destemida e incansável pela verdade, isto deve definir suficientemente o teósofo e pesquisador. Ou talvez bastará que sejamos quase sempre destemidos e incansáveis. Dentro de nossa limitação e cegueira não é possível sustentar a bandeira com o braço erguido todo o tempo. Mas devemos nos lembrar que as quedas não invalidam a experiência já obtida e os vislumbres alcançados. Nossa consciência se alternará sempre entre o mundo da alma e o mundo da limitação. Percorremos o elo entre as duas mentes até a exaustão quando então, talvez, veremos que não há um caminho a ser trilhado, não há uma matéria a ser evitada e nem um espírito a ser atingido.

            A mente, assim reunificada, percebe o ser como ele é e alcança a paz.

Perguntas

            Terminada a apresentação algumas perguntas e observações foram feitas pelos presentes. A primeira, a seguir, eu mesmo a apresentei para debate. As duas seguintes (a última pergunta foi feita após a palestra, em particular. Teria sido construtivo discutir com o grupo esta questão!), em particular, acrescentam aspectos interessantes ao que foi dito. Agradeço às pessoas que participaram embora não possa citá-las nominalmente de memória.

Pergunta: Porque devo acreditar nisto?

            Resposta: Esta pergunta, embora um tanto alheia ao tema até agora discutido, precisa ser respondida por todos que pretendem se dedicar a assuntos de natureza esotérica. A maior parte do que foi descrito aqui consiste de instruções que muitas vezes não podemos verificar agora por nós mesmos. Porque devemos acreditar e pautar por elas a nossa vida? Há uma resposta simples: não devemos acreditar! Ou, se quisermos acreditar, nunca devemos nos esquecer de que se trata de uma crença e não sabedoria adquirida. Isto, é claro, até que estas coisas sejam alcançadas por nós mesmos.

            Sri Krishna Prem (Man the Measure of all Things, Krisnha Prem & Madhava Ashish, T.P.H), um autor muito inspirado, devotou uma discussão sobre porque deveríamos considerar válidos os versos de As Estâncias de Dzyan, sobre os quais está baseado o livro A Doutrina Secreta. Afinal, ele argumenta, este texto não possue uma origem histórica conhecida. Nenhum povo da Ásia declara possuir estes versos, nenhuma escavação descobriu este livro entre escombros antigos. Mas, por outro lado, como atribuiremos crédito a textos como os Vedas, Os Upanishads, O Bhagavad Gita ou a Bíblia Sagrada? Só há um critério possível: julgá-los pelo nível em que tocam, nos inspiram ou motivam nossa investigação.

            Está bem claro que as instruções obtidas por diferentes instrutores, textos ou tradições não são todas coerentes entre si e nem falam em uníssono sobre uma mesma verdade. Provavelmente alguns ensinamentos se destinam a pessoas com diferentes níveis de maturidade enquanto outros são simplesmente espúrios ou desonestos ... Para nos localizar dentro deste emaranhado só podemos ouvir um conselheiro: nossa voz interior, nosso discernimento.

            E, embora nosso psiquismo frágil as vezes precise de crenças como apoio e muletas para se sustentar, devemos nos lembrar que não é plausível esperar que uma descrição verbal (ou escrita) possa ser completa a respeito de uma realidade sutil e abstrata, como as regiões de interioridade ou subjetividade de nosso ser ou do universo. Neste sentido nenhum ensinamento está completo, nada há que não possa ser retocado e aperfeiçoado. Toda a descrição serve para apontar uma direção, sugerir um trabalho e a construção de uma visão de mundo sempre incompleta, mas retocada permanentemente (veja o artigo A Doutrina Secreta e seu Estudo, de P. G. Bowen, um dos discípulos de Blavatsky, que pode ser encontrado em Fundamentos da Filosofia Esotérica, publicado pela editora Teosófica).

Pergunta: Será espúria a tentativa de um santo (foi citado, se não me engano, São Tomás de Aquino) em se afastar das tentações dos sentidos e se recolher para uma interioridade?

            Resposta: não podemos conhecer em que estado espiritual uma pessoa, além de nós mesmos, está a cada instante. Creio que pode ocorrer que alguém, tendo ultrapassado uma determinada faixa ou espectro de experiências, chegue ao ponto de transcender este nível. O próprio Buda, pelo que sabemos de sua história, após experimentar técnicas rigorosas diversas de ascetismo, abandonou seus companheiros de peregrinação e se sentou debaixo de uma grande árvore, decidido a só sair dali após alcançar a iluminação. Para a maioria de nós seria simplesmente insensato adotar a mesma atitude.

            Suponha, por exemplo, que uma pessoa deseja praticar algum tipo de meditação Zen, onde estaria buscando superar sua atividade mental. Pode ocorrer que esta pessoa não tenha realizado suficiente trabalho e obtido domínio sobre a própria mente, a ponto de poder, agora, superá-la. Neste caso ela estará fadada a se frustrar com a técnica escolhida. Por outro lado é também possível que ela tenha vencido seus desafios mentais ou intelectuais, nesta vida ou em vidas passadas, e esteja pronta para partir para níveis superiores de percepção, acima dos estados mentais. Neste caso, talvez, o Budismo Zen seja exatamente apropriado para esta pessoa. Como podemos saber, então, em que nível estamos e que atitude devemos tomar? Isto nos leva à pergunta seguinte.

Pergunta: Devemos então abandonar toda e qualquer intenção de trilhar um caminho? Que motivação teremos para avançar?

           Resposta: Não foi esta a conclusão que pretendi alcançar. Nossa motivação deve ser examinada sempre e, se alguém busca trilhar um caminho de clareza mental, lucidez ou outro brilho qualquer, para se diferenciar e satisfazer o próprio ego e orgulho, então, por definição, estará rumando para a tristeza e decepção. Não creio poder responder inteiramente a esta pergunta mas acredito que é possível prosseguir sem qualquer motivacão. Porque devemos nos preocupar com meditação, realização interna ou estudar um texto como A Doutrina Secreta? Minha resposta é: não devemos, a menos que isto seja completamente imperativo. Sigo, neste particular, a resposta dada por Rainer Maria Rilke (Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke, Ed. Globo) a um poeta iniciante que lhe perguntou se deveria escrever poesia. Rilke respondeu, em primeiro lugar, que a resposta somente ele próprio, o jovem poeta, poderia encontrar. Em seguida acrescentou que ele só deveria escrever se isto fosse essencial, uma necessidade básica de sobrevivência. Igualmente em nosso caso, se conseguirmos isto não precisaremos mais nos preocupar com a motivação, nem com os frutos de nossos esforços.

 

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